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5 de Agosto de 2011

227-Os comandos africanos I

Voltando aos "Estudos Gerais da Arrábida", no painel de 29 de Agosto de 1995... 
Já referi alguns aspectos no post 125:
- «Nós sabemos que, nessa unidade de comandos e nos fuzileiros negros, havia elementos do PAIGC... 
(...) Sem nenhuma dúvida. Por confirmações da PIDE e quase por conversas...
(...) Mas nós sabíamos que havia militares que eram do PAIGC e estavam ali assim, sem nenhuma...» - Coronel Matos Gomes.
E agora a situação após o 25 de Abril:
Coronel Matos Gomes
(Carlos Matos Gomes (n. 1946) Oficial dos Comandos, comandante de Tropas Nativas Especiais. Em Moçambique, participou na operação "Nó Górdio", Fez a sua missão na Guiné de Julho de 1972 a fins de Junho de 1974. Pertenceu à primeira Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães na Guiné. Foi membro da Assembleia do MFA.
Porque a questão é que nós começámos a conversar com eles sobre o futuro deles. E o futuro deles era regressarem a Portugal e integrarem-se nas Forças Armadas portuguesas, ou era serem desmobilizados e ficarem como cidadãos nacionais guineenses, portanto, eram questões que estavam em aberto. É quando eles nos começam a dizer: «Não senhor, disso já tínhamos tratado.» É quando nos começamos a aperceber da profundidade da ligação familiar, pessoal, etc., com pessoas do PAIGC; já havia militares nos comandos com o emblema das forças do PAIGC.
(...) O [caso] Folques é: aquela unidade [dos comandos] diz que não o aceita como comandante. Porque é que isso acontece? Se se reparar na lista dos oficiais que vão ao palácio do governo prender o general Bettencourt Rodrigues, há um capitão Saiegh que era um oficial dos comandos.
(...) A questão do batalhão de Comandos e do Folques: o [major] Folques estava lá desde Maio/Junho de 1972. Mas batalhão de comandos na Guiné é constituído no início de 1973 e é Bruno que vai comandar. O Folques vai comandar a seguir, quando Bruno se foi embora, aliás, com o general Spínola. Comandar uma unidade daquelas é comandá-Ia militarmente e é também ter uma noção do que é, ou do que era, o papel político que aquela unidade representava; e era ter também uma noção daquilo que eram os próprios guinéus que ali estavam. Estas unidades tinham um valor combativo, que era um determinado valor, tinham um valor político, que era um outro valor, e tinham contradições graves.
(...) Os comandos africanos tinham talvez uma percentagem maior de gente urbanizada, da ilha de Bissau, papéis, tinham alguns balantas bons, tinham depois alguns grupos mais estruturados de felupes, e tinham também depois uns grupos, uma percentagem relativamente elevada de fulas. Essas unidades foram metidas em situações de combate muito violentas, com baixas muito grandes, e criando uma desconfiança enorme naqueles combatentes negros, relativamente aos comandantes brancos; eles passaram por experiências muito más, algumas com o Alpoim Calvão (como a da [operação Mar Verde na] Guiné-Conacri), outras do antecedente, porque havia gente que estava a combater naquela altura, em 1974, que andava a combater desde 1963, desde o início da guerra, portanto, homens com quase quarenta anos, e dez, doze anos de guerra. Essa gente, ao contrário daquilo que se pensa, tinha um pensamento político. As contradições étnicas na Guiné obrigam a que os grupos étnicos tenham consciência deles próprios, tenham consciência das relações de aliança e das relações de oposição; os fulas sabem com quem se aliam, os balantas sabem com quem se aliam e quem são os inimigos, toda aquela gente pensa politicamente. E eles têm uma relação muito fina e sofisticada com os europeus e com os colonos. Isto só para dizer que eles, quando o 25 de Abril ocorre, eu da minha parte, quer eu, quer o Baptista da Silva, que estávamos envolvidos neste processo, envolvemos sempre os oficiais que comandavam directamente as tropas, nomeadamente, os comandos.
Manuel de Lucena
E o Marcelino da Mata?
Coronel Matos Gomes
O Marcelino da Mata é outra história. Os comandantes das unidades de comandos, esses africanos que comandavam as suas unidades, nós envolvemo-los sempre nesse processo e o representante deles era o Saiegh. O Saiegh era um homem que tinha o 5° ano do liceu, feito a tropa cá em Portugal, tinha estado em Santarém e tinha estado em Tavira, tinha um irmão que era furriel dos comandos, que era jogador de futebol da Académica de Bissau e era do PAIGC. A mulher dele era professora da escola secundária e também era do PAIGC. O tio, o Fidélis Almada, era dirigente do PAIGC, e é um misto de libanês também; e o outro, o Sisseco, é meio-primo do Nino Vieira, e de uma etnia de que há muito pouca gente. Quando se deu o 25 de Abril, o Saiegh, dentro daquela política que a Guiné ia ser para os quínéus, achou que não devia ter confiança no Folques, entendeu que não era por ali que as coisas funcionavam. Quando o Folques deu ordem ao batalhão para ir fazer a tal operação que estava planeada para se realizar no Sul, aí as coisas já não eram assim; aquela gente entendeu que o comandante não podia entrar no batalhão. Isto leva a que depois se faça uma reunião com o general Mateus da Silva, que era o encarregado do Governo, com o comandante-chefe que era o almirante, e teve de se arranjar uma solução, porque se aquela unidade entrava em descontrolo (em desequilíbrio já ela estava), a situação na Guiné passava a ser verdadeiramente complicada. Isto leva a que se tenha que encontrar uma solução, e a solução foi tirar esse comando e eu ficar transitoriamente ali assim.
Manuel de Lucena
Quanto tempo ficou nesse comando?
Coronel Matos Gomes
Cerca de mês e meio.
General Mateus da Silva
(Eduardo Mateus da Silva: Engenheiro militar da Arma de Transmissões. Chega à Guiné em Junho de 1972, como tenente-coronel. Membro do MFA desde os primórdios. Encarregado do governo da Guiné, depois do 25 de Abril.)
Sobre esse caso convém acrescentar o seguinte. Foi das coisas que mais me incomodou na Guiné, até porque o Folques era da minha terra, somos amigos de infância, tinha uma relação muito próxima com ele e ele, de facto, não merecia isso porque é um militar brilhantíssimo. Mas eu julgo que ele tinha uma certa dificuldade em compreender as subtilezas da situação naquela altura e então forcei um bocado até conseguir convencê-lo a aceitar sair do batalhão de comandos. Felizmente, aconteceu uma situação em Bolama: um batalhão que tinha chegado da metrópole, que devia ir para uma zona do Sul da Guiné, recusou-se a sair de Bolama; os militares diziam que a guerra já tinha acabado, não tinham nada que sair de Bolama. Então o Folques ofereceu-se para ir lá pegar no batalhão e levá-lo. O comandante do batalhão, era um tipo de artilharia [ ... ]. Chega lá todo infeliz a Bissau, a dizer: «Eles não querem ir». E o Folques vai lá, a um batalhão que ele não conhecia, não tinha qualquer contacto com os soldados e com a personalidade deles, pega no batalhão e leva-o ao sítio. Não houve problemas nenhuns.
(...)
José Manuel Barroso
(José Manuel Barroso: Jornalista. Capitão miliciano na Guiné de Julho de 1972 a Maio de 1974. Colaborador directo do general Spínola, na Guiné. Membro do MFA da Guiné.)
…Ficou muito claro, poucos dias depois do 25 de Abril. E tão claro fica que os comandos africanos verificam rapidamente que o poder já não está aqui, o poder vai ser outro, e vão rapidamente a Conacri tentar negociar o seu estatuto e a sua situação com aquele que era, obviamente, o poder emergente.
(...)
Coronel Florindo Morais
Florindo Morais: Vai para a Guiné, como major, nos primeiros dias de Junho de 1974, sendo o último comandante do batalhão de Comandos Africanos na Guiné e regressa na véspera da independência
Foi um período curto o que vai desde os primeiros dias de Julho até à véspera da independência. Mas foi um período vivido muito intensamente e - é interessante - também com alguns riscos. O período era de tal maneira conturbado e não se sabia bem onde é que estava o poder que, a certa altura, eu senti receio. Senti mais receio nalguns dias ou nalgumas noites desse período do que propriamente em combate. Mas antes de entrar nalguns factos que me parecem importantes, eu gostava de definir a minha posição sobre o que penso da descolonização, em termos muito gerais. A descolonização que nós tivemos, há quem diga que foi boa, há quem diga que foi má. Acho que foi a possível, e foi a possível naquelas circunstâncias. Eu penso que a descolonização poderia ter sido muito melhor, se tivesse sido feita em tempo de paz, não-revolucionário, por exemplo, dentro do período de governação marcelista. E porquê? Primeiro, porque o potencial humano militar (os quadros, as condições sociais) estava esgotado. Não vale a pena escamotear, tinha atingido o limite. Uma percentagem esmagadora das subunidades importantes na quadrícula, que eram as companhias, eram em cerca de 90% comandadas por milicianos, capitães milicianos, feitos à pressa, à força, com toda a boa vontade mas com uma impreparação nítida - que isto não seja [visto] com desprezo. O potencial humano, portanto, estava esgotado. Os oficiais do quadro eram muito poucos, estavam cansados e muitos estavam pelas repartições; no comando efectivo das tropas, no terreno, havia uma pequena percentagem. As forças especiais eram aquelas que, apesar de tudo, dispunham ainda de quadros permanentes no comando das suas tropas, portanto aí uma vantagem que essas tropas tinham. Por outro lado, a descolonização não foi melhor porque houve falta de força. Só era possível ter feito esta descolonização de uma forma muito melhor se a tropa continuasse no terreno, continuasse a combater e continuasse a morrer. Depois do 25 de Abril, não era possível mentalizar um soldado, era muito difícil, muito difícil, um soldado, um oficial, um sargento de que tinha que continuar a morrer, de que tinha de continuar a combater porque aqui saía todos os dias nos jornais, todos os dias havia manifestações [em que se dizia]: «Nem mais um soldado para as colónias»! Algumas unidades, nalgumas colónias, pura e simplesmente, punham o saco às costas e apresentavam-se no cais, como aliás chegou a acontecer em Bissau, apresentaram-se no cais [a dizer]: «Acabou o nosso tempo, queremos embarcar»; «Acabou a guerra, queremos embarcar». Era muito difícil manter nesta situação a força suficiente para poder negociar a descolonização.
... Concretamente, quanto ao batalhão de comandos. Eu fui apanhado um bocado à pressa, de um dia para o outro, e lá fui. Quando lá cheguei, o então capitão Matos Gomes fez-me um ponto da situação, que obviamente não era brilhante, porque havia grandes preocupações por parte dos oficiais que lá estavam. Havia oficiais naturais da Guiné, cabo-verdianos, e europeus. As companhias de europeus regressaram de imediato: uma estava a acabar [o seu tempo], a outra estava formada ou tinha acabado de chegar, creio que estaria uma em substituição da outra, mas vieram as duas de imediato [para a metrópole] passados poucos dias, e ainda bem. Importa reconhecer que foi uma medida acertada, fazer regressar, de imediato, a Lisboa as companhias de comandos brancas, porque o processo, com eles lá, talvez tivesse sido muito mais complicado. Davam-nos, por um lado, uma segurança maior, uma força maior, uma capacidade negocial maior ao comandante-chefe para poder negociar; mas também poderiam ter provocado atritos, com consequências muito graves. Aquilo era um barril de pólvora, a qualquer momento, podia deflagrar um conflito muito grave, que emperrasse todo o processo de descolonização. A primeira curiosidade que surgiu, recordo-me... Fiz a primeira reunião de oficiais, a grande maioria era de cor, cabo-verdianos e uma pequena percentagem de guinéus. Eu fiz a apresentação da praxe e respondeu o capitão Sisseco ou o Saiegh, não me recordo bem: «Nós também temos muito prazer em tê-lo cá como comandante, nós os futuros coronéis da Guiné». E eu aí fiquei aterrado, sem pinta de sangue. A partir daí apercebi-me da situação que era grave, porque eles diziam: «O general Spínola prometeu a Guiné para os quinéus, para nós que estávamos aqui a combater; queremos que o general Spínola venha cá fazer-nos a entrega». Era assim que eles diziam. Claro que nem era politicamente conveniente o general Spínola lá ir, como aliás não foi, nem essa entrega era possível, nem eles seriam nunca coronéis. Era preciso mentalizá-los de que eles, a partir dali, eram civis, teriam de ir para a vida civil! E então foi um período muito engraçado. Começávamos às 8 da manhã em reunião e acabávamos às 2 ou 3 da manhã, quando já ninguém aguentava mais discussões deste tipo. Procurávamos informar qual era a situação na Guiné e qual seria o futuro deles e meter-lhes naquela cabeça que eles, coronéis, não podiam ser. Isto foi correndo. Há aqui também um aspecto interessante a realçar. Havia várias tropas nativas (milícias e tropas militares regulares) e havia umas tropas assim esquisitas. E as tropas foram muito claras e disseram: «Nós só desmobilizamos quando os comandos [africanos] o fizerem, nós só entregamos as armas quando os comandos o fizerem».
General Mateus da Silva
Desculpe interromper. Eram cerca de 20 mil, as milícias. As armas distribuídas e as companhias africanas, na Guiné, não eram um problema pequeno!
Coronel Floriano Morais
Houve aqui uma responsabilidade grande e um perigo que se correu. A certa altura, eu senti que estava entre dois fogos: entre o fogo do Governo e do comando-chefe e o fogo que eram os comandos e as próprias tropas naturais, que faziam o que os comandos quisessem. Houve que tomar uma decisão; eu corri riscos e tomei-a. Entretanto começaram a circular papéis, eu chamei-os lá e disse: «O português disto está um bocado incorrecto. Eu não gostaria que os oficiais do batalhão emitissem papéis sem que pelo menos o português seja correcto. Além disso não queria que saísse desta unidade nenhum papel que não fosse assinado por mim, ou pelo menos, levasse o meu visto». Corrigindo os primeiros papéis que eles quiseram fazer, começaram a ter o meu visto. Isto deu-me a possibilidade de ir tendo informação do que eles iam fazer e, por outro lado, de ir procurando, de alguma maneira, amolecer e contornar as coisas.
Mas o risco que se viveu nessa altura foi a constituição de uma terceira força: os comandos podiam ter constituído uma terceira força, estiveram na eminência de o fazer, o batalhão de comandos e toda a tropa de naturais da Guiné. Esta terceira força ia intercalar-se, ia ficar no meio entre o PAIGC e o próprio governo português, o próprio comando militar português. Isto deu [azo a] algumas incompreensões do próprio comando-chefe português e deu algum trabalho a desmobilizar. Recordo que a certa altura eu e o meu 2° comandante, o Glória Alves, recebemos uma ordem para começarmos a entregar as armas. Só que era difícil, porque eles não as davam! Eles não as davam! E então, as armas foram entregues de uma maneira muito engraçada. Foram entregues ao fim-de-semana, dentro de armários metálicos. Carregávamos armários metálicos nas viaturas e íamos entregá-los ao quartel-general, armários metálicos que, por acaso, iam cheios de armas. Todas as colunas iam sob o comando do 2° comandante, o Glória Alves. Um dia, o sentinela apontou-lhe a espingarda e disse: «Não sai, meu comandante.» Ele, que é gago, começou a gaguejar, o soldado não percebia o que ele estava a dizer e ele portou-se com grande coragem e saiu mesmo

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