Adelino Gomes
Eles partem de uma posição de grande receio e desconfiança. Alguns dias ou semanas antes tinham manifestado o desejo de vir para Portugal. Então o que é que os convenceu? Essa delegação foi muito convincente ou foram os seis meses de ordenado adiantado? O que é que os convenceu?
Coronel Florindo Morais
Se calhar um bocado de cada coisa.
...Para mim, na minha leitura, foi um pouco de cada coisa. Por um lado, o dinheiro; por outro lado, a convicção de que... Esta convicção era apresentada de uma outra maneira. Eu recordo-me de o Saiegh, que era o mais evoluído, dizer: «Nós ficamos cá, esta é a nossa terra, a Guiné para os guinéus, nós queremos ficar aqui, queremos contribuir para o progresso, para a independência desta terra». Mas esta era já uma ideologia, digamos, que sobrava.
António Duarte Silva
Nessa altura não tinha fugido ninguém para o Senegal. Estavam todos em Bissau.
Coronel Florindo Morais
Não, não. Não tinha fugido ninguém, nem houve nenhuma morte de militares. Houve um caso qualquer de um tipo que desapareceu, que estava nos voluntários, que era um tal Zeca Freitas, ou qualquer coisa assim, mas havia ali um problema de saias pelo meio. Até porque o PAIGC, nesse momento, mantinha-se nos aquartelamentos, nas suas bases, e só depois, pouco tempo antes da independência, é que começou a fazer-se a [passagem] dos nossos quartéis para o PAIGC, já em finais de Agosto, princípios de Setembro.
António Duarte Silva
O batalhão são cerca de cem homens, não?
Coronel Florindo Morais
Não, são mais, são mais. Cada companhia tinha cerca de cento e tal homens. Nós tínhamos em efectividade duas companhias de comandos e uma Companhia de Comando e Serviços. Portanto, andaria na ordem dos 450.
Coronel Matos Gomes
Chegou a ter 600.
Coronel Florindo Morais
Mas isso com a tropa de cá.
Coronel Matos Gomes
Não, com as três companhias africanas.
Coronel Florindo Morais
Ah, sim. Porque havia uma terceira companhia africana que depois foi desmobilizada.
António Duarte Silva
Chegou a ter seiscentos.
Coronel Matos Gomes
Chegou a ter seiscentos.
Coronel Florindo Morais
Eram duas companhias operacionais de comandos e havia uma terceira que entretanto tinha sido desmobilizada. Na altura da descolonização, a que me estou a reportar, eram duas companhias mais uma CCS (Companhia de Comando e Serviços).
António Duarte Silva
Esse princípio de que os militares tinham de ser pagos constou de um anexo do Acordo de Argel. Está escrito que tinham de ser pagos até Dezembro de 1974.
Coronel Florindo Morais
Não sabia disso.
António Duarte Silva
Não passou essa norma?
Coronel Florindo Morais
Acabou por passar porque foram pagos até Dezembro de 1974.
Apartes.
Manuel de Lucena
Sr. coronel, há aqui um problema de datação. A lei 7/74 é de Julho. Portanto estes contactos são anteriores ao Acordo de Argel?
Coronel Florindo Morais
Qual é a data do Acordo de Argel?
Manuel de Lucena
Agosto.
Coronel Florindo Morais
Deve ser simultâneo. Não posso garantir datas.
Manuel de Lucena
Estes acordos locais precedem [o Acordo de Argel]. Esse é que é o ponto.
Coronel Florindo Morais
Não sei. Sinceramente não sei. Não tenho datas precisas que me permitam afirmar se é uma iniciativa do brigadeiro Fabião que depois fica consagrada no Acordo de Argel ou se é o cumprimento [desse acordo]. É possível que tenha sido uma iniciativa [do brigadeiro].
Manuel de Lucena
Acordo de Argel refere os militares em geral e não em especial os comandos.
Acordo de Argel refere os militares em geral e não em especial os comandos.
António Duarte Silva
[O Acordo de Argel refere-se] às forças africanas.
Manuel de Lucena
Portanto, não só os comandos mas [também] os outros: as outras companhias africanas não comandos, não tropas especiais.
Coronel Florindo Morais
Pois, neste caso o que interessava desmobilizar em primeiro lugar era os comandos.
José Pedro Castanheira
Tem a indicação de quantas pessoas receberam esses vencimentos adiantados?
Coronel Florindo Morais
Foram todas. Na altura tinha cerca de 450 a 500 pessoas. Nessa altura ganhava-se muito pouco. Eu não sei quanto ganhava, mas ganhava para aí uns doze, treze contos. Para fazermos o cálculo teríamos de inflacionar.
Estes eram talvez os primeiros apontamentos que gostava de deixar à vossa consideração. Se houver alguma questão que queiram pôr...
Manuel de Lucena
Como é que se faz a passagem? Porque a determinada altura correu-se o risco da constituição de uma terceira força (comandos e tropas de naturais). Depois há uma evolução que os leva a aceitar tudo isso. O que é que esteve em vias de acontecer? Acha que houve um momento decisivo em que podia ter-se constituído e não constituiu?
Coronel Florindo Morais
Não diria que houve um elemento decisivo; houve uma mentalização, e eles próprios começaram a perceber, a ler a realidade.
Manuel de Lucena
E em que altura é que acontece o desarme?
Coronel Florindo Morais
Eles devem ter saído em Agosto, saíram gradualmente, não saíram todos ao mesmo tempo, não houve uma desmobilização, digamos assim. O desarme é em final de Agosto.
Manuel de Lucena
Já estavam estes acordos feitos, nessa altura.
Coronel Florindo Morais
Sim, sim.
Manuel de Lucena
Então porque é que as armas têm de sair escondidas?
Coronel Florindo Morais
Têm de sair escondidas porque eles não as deixavam sair de outra maneira!
Manuel de Lucena
Mesmo assim.
Coronel Florindo Morais
Mesmo assim.
Manuel de Lucena
Isso é um bocado misterioso. Já tinham aceitado que vocês se iam embora...
Coronel Florindo Morais
Eles próprios não teriam ainda aceitado a desmobilização na altura em que se tiram as armas; as armas tiram-se anteriormente a esse acordo. Mas quero dizer ainda uma coisa sobre isso: havia uma grande quantidade de armamento na posse de cada um dos oficiais e sargentos; todos os oficiais e sargentos tinham Kalashnikovs, tinham armamento nas suas próprias casas, que trataram de esconder, que era armamento capturado e que, portanto, não estava sob controlo.
Manuel de Lucena
Portanto, eles continuavam de certo modo armados.
Coronel Florindo Morais
Continuavam.
Manuel de Lucena
Talvez não muito municiados. Para as Kalashnikovs talvez não tivessem muitas munições.
António Duarte Silva
Aliás, esse veio a ser o grande argumento que o PAIGC mais tarde utiliza para...
Coronel Florindo Morais
Como sabe, o argumento surge a 12 de Março de 75, a seguir ao 11 de Março cá. Tanto quanto eu sei, porque isso eu já não vivi directamente, mas vivi cá; fui tendo algumas informações. A seguir ao 11 de Março, e em ligação com o 11 de Março, foi apontado um golpe, dir-se-ia da FLING, um partido sem grande expressão, mas de tendência pró-americana. Com base nesse suposto golpe, esses militares foram todos capturados e estiveram presos até 1978 e só foram fuzilados em 1978.
Adelino Gomes
Mas antes do 11 de Março de 1975 houve alguns que foram assassinados.
Coronel Florindo Morais
Antes do 11 de Março, que eu saiba, foi esse Jamanca e esse Zeca Lopes ou Zeca Freitas. O Sisseco e o Saiegh foram em 1978, já depois da ida do general Eanes à Guiné. Quando o general Eanes foi à Guiné eles estavam presos, mas ainda vivos.
Adelino Gomes
A história que me contaram foi diferente. Foi que o general Eanes quis trazê-los, o Luís Cabral prometeu que os ia buscar; e quando foram à procura deles, eles já não existiam e o Luís Cabral invocou desconhecimento.
Manuel de Lucena
O Bruno diz que esta versão do Luís Cabral é mentira e que gostava de debater isso na televisão.
Coronel Florindo Morais
Os depoimentos do Luís Cabral merecem muito pouca confiança. Eu posso dizer o seguinte: quando o general Eanes foi à Guiné, na preparação da sua visita, quis saber qual era a situação e qual era a posição em relação aos comandos e foi documentado sobre isso. Tanto quanto sei, sem poder garantir, foi um dos pontos que ele debateu. Depois, em 1980, 1981, apareceu cá o primeiro desses oficiais, foi um dos que consegui fugir para o Senegal. E no Senegal, através de diligências feitas pela Associação de Comandos, começaram-se a trazer para cá os refugiados dos comandos que estavam no Senegal. Um dos primeiros oficiais que apareceu apresentou-se (esse já morreu também, não aprendeu com a História), referiu e deu algumas indicações relativamente a isso e disse que eles foram mortos só em 1978, aliás, creio que há testemunhos históricos que efectivamente foi só em 1978 e já depois da visita do general Eanes.
Manuel de Lucena
E esse homem que veio cá voltou para lá?
Coronel Florindo Morais
Voltou para lá e foi morto lá. Mas foi morto numa acção, entrou de viatura por ali adentro, isso foi recente, foi já em 1985, 1986. Já não foi morto numa represália, foi numa acção policial, foi morto porque ia com certeza fazer qualquer coisa, que não era propriamente ir à missa. E teve um despiste e depois foi apanhado.
General Mateus da Silva
Mas quantos eram os que foram presos e depois mortos?
Coronel Florindo Morais
Meu general, eu não sei. Mas tanto quanto sei, oficiais só escapou esse. E o Marcelino obviamente. O próprio Tomás Camará, que estava cá e foi lá, também foi preso. E não tenho conhecimento de nenhum oficial que tenha escapado.
António Duarte Silva pergunta se terá sido morta uma dezena de oficiais.
Coronel Florindo Morais
Eram mais. Eram mais de vinte.
António Duarte Silva
Há uma lista num livro de um Luís Aguiar, sobre a descolonização, e são cerca de trinta, creio eu.
Coronel Florindo Morais
Isso é possível.
Coronel Matos Gomes
Talvez não sejam tantos, mas à volta dos vinte, sim, de certeza.
0 Comentários:
Enviar um comentário