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5 de Agosto de 2011

230-Os comandos africanos IV

Adelino Gomes
É aceitável que as autoridades portuguesas mandem desarmar o batalhão de comandos e as forças locais, sem receberem uma contrapartida, sem nenhuma garantia de que aqueles homens não serão massacrados mais tarde ao mais cedo?
Coronel Matos Gomes
Qual era a garantia que se podia ter?
Adelino Gomes 
Pelo menos uma garantia verbal, a boa fé negocial... 
Coronel Matos Gomes
Foi nessa boa fé... Eu já falei com o Fabião sobre isso, porque todos nós temos esse trauma dessa gente que morreu e que combateu connosco. Quando se faz a transferência de poder, e é uma transferência de poder, já não é um reconhecimento de Portugal da independência da Guiné-Bissau, os responsáveis da Guiné-Bissau, que já eram reconhecidos pela comunidade internacional, garantiram de uma forma pessoal que todo o processo da independência iria decorrer da forma mais pacífica e mais justa possível, nomeadamente, que iriam ser respeitados os direitos, em termos de trabalho, dos trabalhadores da administração (e muitos deles foram); que iriam ser respeitados os direitos, ou pelo menos a vida e a integridade dos militares; que até se iria fazer transferências. Recordo-me, em domínios mais técnicos, que eles pretenderam [até] que isso acontecesse, por exemplo, na Marinha. Marinheiros que estavam nas oficinas navais, para garantir que os navios e os motores e tal funcionassem, ficaram. Todas essas transferências foram garantidas por personalidades reconhecidas pela comunidade internacional!
Que depois essas personalidades se tenham revelado como se revelaram é uma questão que já não é da responsabilidade portuguesa. A negociação teve de ser feita de boa-fé e essas garantias de boa-fé de dirigentes políticos de um Estado reconhecido por 86 países foram dadas aos representantes políticos da potência que estava a descolonizar e a passar a administração!
Carlos Gaspar
Não há aí um excesso de zelo?
Coronel Matos Gomes
Um excesso de ingenuidade?
Carlos Gaspar
Não. De zelo.
Coronel Matos Gomes
De zelo de quem?
Carlos Gaspar
Da vossa parte. Se eu percebi bem a sua análise do desertor do PAIGC que estava integrado no Exército, ninguém garantia...
Coronel Matos Gomes
Há um caso que se verifica claramente. O Rafael Barbosa, que era talvez a personalidade mais marcante nesse aspecto de dissidência do PAIGC, como era uma personalidade política conhecida, ninguém lhe tocou.
Manuel de Lucena
O caso Rafael Barbosa não punha logo problemas de equilíbrio interno?
Coronel Florindo Morais
Eu tentei não só que viessem [para a metrópole] como saíssem para o Senegal. Em conversas, nas várias reuniões que tive com eles, aconselhei-os a, no mínimo, irem passar uns meses ao Senegal. Tenho a consciência tranquila.
[José Manuel Barroso?]
Pelos vistos não lhes teria valido de nada. Só quatro anos depois é que começaram a ser dizimados.
Coronel Florindo Morais
Não sei.
Diálogo imperceptível.
Coronel Matos Gomes
Nós estamos aqui a discutir a questão da administração portuguesa naquele momento. Isto tem a ver com a questão jurídica. Isto não é nenhuma desculpabilização daquilo que foi feito na altura. Em termos de reconhecimento da identidade desses militares, o que se verifica é que hoje em dia, esses cidadãos da Guiné, nascidos na Guiné, mas que combateram por Portugal, que foram militares e cidadãos portugueses até 1974, o Estado português, hoje, também não os reconhece como portugueses. Isto é, eles nem sequer têm direito a pensões por ferimentos em combate pelo facto de não serem cidadãos nacionais; isto hoje, passados 20 anos e com o tempo todo que essas questões tiveram para ser resolvidas. Ainda relativamente à questão da boa fé que deveria levar a que se acreditasse na palavra do PAIGC, havia o aspecto formal de eles serem já dirigentes reconhecidos pela comunidade internacional, mas havia também o antecedente de uma experiência de relacionamento do PAIGC com prisioneiros nossos, e eles trataram sempre os prisioneiros, mesmo africanos, de uma forma humana e legal (como nós não tratávamos os prisioneiros deles). Nós nos comandos tínhamos casos, que eles conheciam. [Por exemplo, um caso que aconteceu comigo de] um tenente que era comandante de uma companhia, que é ferido, nós perdemos-lhe o rasto, julgámos que ele tinha morrido. Chega mesmo a preparar-se todo o funeral e passado dois dias ele estava a falar na Rádio Conacri. Disse que tinha sido feito prisioneiro, tinha sido levado para o Senegal e depois foi para Conacri e que estava a ser bem tratado; portanto, faz aquela descrição típica do prisioneiro. Esse homem, depois do 25 de Abril, regressa a Bissau. Era um balanta. Foi prisioneiro, vai e regressa. Disse como foi tratado, sem nenhum problema. E ficou na Guiné-Bissau, não como militar, mas como taxista. Quando o general Eanes vai à Guiné-Bissau, ainda ele tinha um táxi em Bissau. E depois morre num acidente completamente estúpido: ia a meter gasolina no carro, fumou e aquilo pegou fogo.
Falha na gravação devida à mudança de cassete. Nesta parte da gravação o coronel Florindo Morais ter-se-é referido aos ultimatos de elementos do PAIGC para que as tropas portuguesas abandonassem os aquartelamentos.
Manuel de Lucena
E qual é a data?
António Duarte Silva
Isto é Junho ou Julho. É na zona Leste. O que é muito importante é que uma série de soldados de outras unidades começaram a pedir aos soldados que estavam lá ao lado do PAIGC para não continuar.
Coronel Matos Gomes
Pois. Porque Buruntuma era o pior sítio da Guiné. Aliás, quando lá esteve o general Schultz, Buruntuma era o «cu de judas» da Guiné. É no vértice superior direito do [mapa] e era, de facto, um buraco infecto onde os soldados deviam pedir aos inimigos para os mandarem embora.
Apartes sobre Buruntuma e a sua localização.
António Duarte Silva
[ ... ] Houve problemas com os comandos! E a questão política é muito importante. A questão dos comandos foi discutida nas conversações de Londres, em Maio. Mas a aceleração deste processo todo [levou a que] em Argel já não fosse discutida. E não foi discutida porque Portugal acedeu às condições que impunha o PAIGC, e em Argel o PAIGC já não quis discutir a questão dos comandos africanos.
Manuel de Lucena
Você tem informações precisas de que Portugal quis discutir, o PAIGC disse que não e Portugal não discutiu? Ou é uma dedução?
Duarte Silva
Tenho informação de que em Londres se discutiu a questão das forças africanas, que era uma das últimas questões para resolver. E de que houve reuniões [ ... ] para discutir essa questão. Se houvesse em Londres um acordo para ser assinado, a situação das forças africanas tinha de constar desse acordo; este é o primeiro aspecto da questão. O segundo aspecto da questão é que a parte operacional das negociações do Acordo de Argel, entre o PAIGC e as forças portuguesas, foi decidida em Bissau. Quer dizer, mesmo os textos não foram discutidos à mesa das conversações em Argel; vieram de Bissau directamente para Argel. 

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