Alguém recomendou a consulta do site www.ahs-descolonizacao.ics.ul.pt/guine.htm. Segui o conselho e fui ver. Trata-se da página do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e que, neste particular, se refere à descolonização da Guiné. Transcreve os debates havidos nos chamados “Estudos Gerais da Arrábida” sobre esta matéria. Maravilhoso, duplamente maravilhoso! Quem me dera lá ter estado… por duas razões: primeiro para poder usufruir da bela paisagem da serra da Arrábida, que ainda não conheço;
segundo por poder ouvir quem esteve por dentro dos meandros da guerra, quem dela teve uma visão global, quem conviveu com os decisores.
Eu, alferes cercado pela mata do Oio ou de Sambuiá, sofredor de ataques e emboscadas, executor de acções e operações por outros decididas, testemunha de mortes de camaradas por causa delas, obrigado a ter que matar para não morrer… teve de ser. Sofrimento e dor, suor e sangue, pensar em viver… sem ideologias. Alguns tinham-nas, sei, mas a maioria acho que não. As posições actuais dos que as tinham não me admiram, é natural, são coerentes. Só me espanta é a convicção cerrada daqueles que falam da guerra na Guiné sem dela terem conhecimento directo. Mas tá bem, estamos num país livre (ainda bem) onde todas as asneiras são possíveis.
O primeiro debate que li foi o do painel de 29 de Agosto de 1995, com o General Mateus da Silva, o Coronel Matos Gomes, o ex-Capitão Miliciano José Manuel Barroso e o Coronel Florindo Morais. É extenso, como todos os debates foram, não é razoável pô-lo todo aqui (mas quem quiser pode seguir o conselho e lê-lo por completo no site acima referido) e vou só respigar alguns aspectos que têm a ver com o tema que coloquei como cabeçalho.
Eis o que dizem estes homens:
General Mateus da Silva
(Eduardo Mateus da Silva: Engenheiro militar da Arma de Transmissões. Chega à Guiné em Junho de 1972, como tenente-coronel. Membro do MFA desde os primórdios. Encarregado do governo da Guiné, depois do 25 de Abril.)
0 que estava em jogo em Angola e Moçambique era incomparavelmente mais importante, mas foi na Guiné que tudo se decidiu. Marcelo Caetano estava mesmo disposto a aceitar um colapso militar na Guiné, para não perder a face (na sua lógica de que todos os territórios coloniais eram igualmente parcelas de Portugal) e assim poder concentrar todos os esforços nas duas províncias mais vastas e mais ricas. Mas foi talvez esta lógica de político sem visão que despertou a consciência dos militares. Para os militares, a quem já uma vez os políticos tinham apresentado ao país como culpados pela perda de Goa, Damão e Diu, era inaceitável suportarem o vexame de serem novamente responsabilizados por um colapso na Guiné, onde a guerra era total, o conflito militar era mais duro e violento, e onde, ao mesmo tempo, a luta pela conquista e adesão das populações pelas ideias e pelo espírito era mais agressiva. «Ao contrário do que se passava em Angola e Moçambique, onde, longe do teatro de operações, a vida decorria com normalidade, na Guiné, ninguém podia ficar indiferente: a guerra ouvia-se, sentia-se, vivia-se com intensidade e com dramatismo.
Na Guiné defrontámos um adversário superior que agiu com determinação e com inteligência; que não forçou uma vitória militar, porque precisava de tempo para criar uma consciência e identidade nacionais, num mosaico de culturas e raças, mas que soube jogar com o apoio internacional, com uma máquina de propaganda eficaz e com o aumento progressivo da pressão militar.
Na Guiné, os interesses económicos em jogo cedo perderam expressão e, por isso, apenas sobrava o confronto sem sentido entre povos e raças.
Na Guiné, tarde demais, tudo se tentou generosamente para recuperar o atraso e injustiça de séculos.
Na Guiné, que exigia os melhores e que depois os devorava: uns tombaram, outros foram irreversivelmente transformados.
Para servir na Guiné, eram escolhidos e convidados pelo então Governador e Comandante-chefe, general Spínola, aqueles que ele considerava os melhores oficiais, principalmente com provas dadas na área operacional e que mais tarde foram preponderantes na eclosão do 25 de Abril.
...
Ele [Bettencourt Rodrigues] sabia muito pouco. Há uma história que demonstra a forma diferente do general Bettencourt Rodrigues exercer a sua função de comando, como comandante-chefe. O general Spínola falava com muita facilidade à hierarquia, até cá abaixo. Qualquer capitão podia muito facilmente obter acesso ao general Comandante-chefe. Portanto, estes circuitos funcionavam quase em ligação directa. Ao passo que o Bettencourt Rodrigues, até por questões de feitio pessoal e de formação militar e profissional, como oficial de Estado-Maior, a primeira acção que lhe corresponde como comandante-chefe é cortar essa ligação, e coloca um fusível na ligação, que era o seu Chefe de Estado-Maior, o coronel Hugo Rodrigues da Silva, passando a ser impossível um comandante de uma unidade falar com o comandante-chefe ou com outro operacional. Tudo passava pelo coronel Chefe de Estado-Maior. Para os comandantes das unidades, habituados a negociar concretamente com Deus Nosso Senhor, as coisas passaram a ser muito complicadas e a reacção é deste género: «Bom se ele não quer saber, não sabe e pronto!» E passa a saber muito menos coisas. Além de não saber aquilo que era o estado de espírito, passa a não saber também coisas [concretas] essenciais.
(...)
José Manuel Barroso
(José Manuel Barroso: Jornalista. Capitão miliciano na Guiné de Julho de 1972 a Maio de 1974. Colaborador directo do general Spínola, na Guiné. Membro do MFA da Guiné.)
Outro dia, ao telefone, o general Mateus da Silva dizia-me, e com razão, que uma das coisas que nós não fizemos no 25 de Abril, quando tomámos o palácio do Governo em Bissau, foi tentar ficar com a documentação do general Bettencourt Rodrigues. Pensamos que se perdeu toda uma série de comunicações entre ele e o Marcelo Caetano [ ... ]. Eu penso que o general Bettencourt Rodrigues (eu continuei a lidar com ele, não do modo como lidava com o Spínola, mas quase diariamente) tentou aguentar o que estava, não quis fazer grandes alterações, criar grandes problemas, grandes conflitos. Tentou aguentar o que estava em função das instruções que levava. Simplesmente, o que sucede, quando o general Bettencourt Rodrigues lá chega - e até pelo facto do general Spínola regressar à metrópole -, é que havia já um desencanto total em relação à evolução. Quer dizer, a própria retirada do general Spínola do terreno de operações (e do poder político na Guiné) significou, para a grande maioria dos oficiais, não só [para] os que conspiravam lá abertamente, quer fossem spinolístas ou não, mas também [para] os próprios milicianos, uma forma de dizer: «Isto não tem safa, tem que haver uma outra evolução qualquer». Ou: «O próprio Spínola já não tem qualquer hipótese e vai-se embora.» Pelo general Bettencourt Rodrigues, havia respeito, não era da «brigada do reumático». Mas ele era um corpo estranho.
(...)
Coronel Matos Gomes
(Carlos Matos Gomes (n. 1946) Oficial dos Comandos, comandante de Tropas Nativas Especiais. Em Moçambique, participou na operação "Nó Górdio", Fez a sua missão na Guiné de Julho de 1972 a fins de Junho de 1974. Pertenceu à primeira Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães na Guiné. Foi membro da Assembleia do MFA.)
Eu combati em Angola, na Guiné e em Moçambique. A Guiné tinha particularidades que, aliás, foram aqui mencionadas. E esta «política da Guiné melhor», do general Spínola, tinha obviamente reflexos na sociedade civil da Guiné e reflexos também nas orientações que eram dadas às unidades militares. Uma das questões, que era dramática e muito difícil de executar por parte das unidades militares, eram algumas missões em áreas que se chamavam «a céu descoberto», zonas que tinham populações que obviamente tinham contactos com o PAIGC, e onde as forças armadas portuguesas iam com algumas dificuldades, onde não era permitido, quer à artilharia portuguesa, quer à aviação portuguesa fazer bombardeamentos, isto é, quando lá se colocavam unidades sabia-se que não teriam esses apoios de fogo, e era um relacionamento muito, muito difícil. A que é que isto obrigava? Obrigava a que, quando havia contacto ou quando a unidade fazia prisioneiros, esses prisioneiros eram bem tratados, isto é, eles eram considerados como elementos que interessava utilizar na acção psicológica a fim de que naquela zona pudessem dizer bem de nós. Daí que não vou dizer que não tenha havido casos de eliminação de prisioneiros, porque esta guerra, a guerra de Portugal em África, foi exactamente igual às outras, com todos esses problemas, sérios e complicados, de violência. Mas na Guiné havia esse extremo cuidado. Entre os prisioneiros políticos, havia políticos ligados ao PAIGC, alguns sindicalistas e alguns elementos que desertavam, e isso acontecia com alguma frequência - militares da Guiné que desertavam na tentativa de ir para o Senegal ou para a Guiné-Conacri, e na tentativa de irem para o PAIGC.
(...)…embora com o general Bettencourt Rodrigues o ritmo das operações tivesse diminuído, não só por vontade dele, por uma opção táctica sua, mas já por dificuldades militares estruturais.
(...) Havia mais do que isso. Nós sabemos que, nessa unidade de comandos e nos fuzileiros negros, havia elementos do PAIGC...
Manuel de Lucena [moderador]
E havia oficiais guinéus?
Coronel Matos Gomes
Nos fuzileiros, não. Os oficiais eram todos europeus. Nós sabíamos que, nestas unidades, havia elementos do PAIGC. Sem nenhuma dúvida. Por confirmações da PIDE e quase por conversas. Era relativamente frequente os sargentos e oficiais guinéus falarem com os oficiais europeus sobre as emissões do PAIGC na rádio Conacri.
Luís Salgado Matos [moderador]
Então como é que podiam ter a certeza de que o PAIGC não sabia das operações? Se lá tinha pessoas infiltradas...
Coronel Matos Gomes
Que não sabia? Às vezes nem nós próprios sabíamos. As operações, desde que as coisas estejam montadas para se iniciarem muito rapidamente...
Luís Salgado Matos [moderador]
Mas essa não. Tinha três dias de preparação. Três dias já dava para preparar...
General Mateus da Silva
Mas não sabiam o local para onde iam
Coronel Matos Gomes
Uma unidade daquelas... por causa dessa de ter várias alternativas tivemos azares complicados com as fintas de dizer vai para a esquerda e depois o engano foi nosso e nós acertámos no sítio onde não queríamos. Mas isso acontecia. Desencadear boatos de que íamos fazer aqui ou acolá e... pronto, as coisas não funcionavam. E, a partir do momento em que se combatia, combatia-se. Aliás, o combate na Guiné era uma técnica complicada... Embora houvesse muitas baixas... Mas nós sabíamos que havia militares que eram do PAIGC e estavam ali assim, sem nenhuma...
(...)
Coronel Matos Gomes
…a situação, que era muito difícil e obrigava a que todos nós nos encontrássemos e as ideias circulassem com muita facilidade; a dureza da situação e a dificuldade da situação militar obrigando a que os militares que lá estavam equacionassem o futuro. A questão que se punha na Guiné era a da resolução efectiva de uma situação que nós achávamos que não tinha saída militar e isso é tão mais interessante quanto se verifica que essa ideia é assumida por militares que poderiam continuar a combater lá. Em termos políticos e em termos militares era possível, aos oficiais e às restantes unidades (aos pára-quedistas, aos comandos, aos fuzileiros e à Força Aérea) dar uma ideia de presença efectiva sobre o território durante muito tempo: nós tínhamos um porto onde poderíamos sempre ser reabastecidos, que era Bissau. Se garantíssemos quatro ou cinco pontos fortes: se garantíssemos a presença em Bissau, em Bafatá, em Nova Lamego, em Teixeira Pinto, em Aldeia Formosa, as coisas poderiam manter-se e nós tínhamos essa ideia. Mas sabíamos que isso não correspondia a nenhuma alternativa credível.
(...)
Era fundamental para as forças portuguesas na Guiné ter o apoio aéreo e isso era possível. Mas problema que se punha na Guiné era o problema colonial de fundo, era que aquela guerra ali estava de facto perdida. Daí que tenha sido na Guiné que surgiram praticamente todos os oficiais que vão desempenhar um papel decisivo no MFA aqui em Portugal, desde o general Spínola a todo o seu grupo, até depois a militares como o Casanova Ferreira, o Manuel Monge, o Salgueiro Maia, o Otelo, toda a gente, porque é ali que se vê que a questão colonial, a guerra, não tem saída; e a Guiné é até um laboratório importante de análise daquilo que acontece aqui em Portugal, porque os factos da tomada do poder e o golpe já referido pelo general Mateus da Silva - que foi de facto um golpe muito autónomo relativamente ao golpe do 25 de Abril - revela uma coisa interessantíssima: é que aquele golpe da Guiné foi feito sem o grupo dos spinolistas.
(...)
Não, nunca houve pânico. A seguir aos mísseis, houve um período de cerca de 30 dias ou um mês e meio em que não se realizaram grandes acções aéreas, movimentos aéreos, mas mesmo assim continuou-se a voar, de helicóptero, cá para baixo no Sul. Encontraram-se outras formas de actuar e as coisas passaram a funcionar. Houve problemas muito sérios no Norte, em Guidage e, depois cá em baixo, em Guileje, o que para nós era o indício de que, em termos militares, a situação na Guiné estava perdida. É que as forças regulares já não tinham capacidade para acorrer a dois pontos críticos ao mesmo tempo. A partir do momento em que o PAIGC desencadeou uma acção muito importante no Norte, em Guidage, e desencadeou outra cá em baixo no Sul, em Guileje, as Forças Armadas portuguesas já só tinham capacidade de resolver um problema. Não era possível manter uma situação a este nível.
(...)
Guidage é a última grande operação do general Spínola, em Maio ou Junho de 73. A única grande operação que o general Bettencourt Rodrigues lançou foi em Canquelifá, em Fevereiro [de 1974] e já foi uma operação nitidamente defensiva, para manter um ponto forte ali assim, um ponto forte que já era um ponto fraco.
(...)
Eu penso que não é necessário justificar a situação de ruptura, a situação militar de ruptura, na Guiné, com a falta do apoio da Força Aérea, nem com a questão dos mísseis. No início das guerras, são as guerrilhas que tentam destruir obras de arte [militar] e obstruir os movimentos das tropas regulares. Na fase final da Guiné, ali na zona de Bambadinca e depois cá em baixo, em Bedanda, já eram as forças portuguesas que se defendiam a destruir pontes, para o PAIGC não se poder aproximar com as viaturas de lagarta e meia-lagarta de que já dispunha.
Isto foi uma alteração completa da situação e justificou que, efectivamente, não houvesse outra solução senão terminar a guerra.
(...)
José Manuel Barroso
…E a Guiné, de certo modo, é emblemática, sob vários pontos de vista. É emblemática na medida em que as pessoas, os militares, que claramente conspiravam no interior, desde muito cedo, entendiam (e falo sobretudo desde 72) que em nenhuma circunstância eles permitiriam que a Guiné se transformasse numa segunda Índia, ou seja, eles não deixariam, mesmo que tivessem que actuar contra a metrópole, contra o poder local, não deixariam as forças portuguesas serem humilhadas.
(…)
Quando o PAIGC intensifica a pressão e há problemas sérios, o Spínola começa a querer que nas notícias venha exactamente o número de mortos e de feridos que nós temos. Enquanto no início tínhamos três mortos e oito feridos e ele dizia «Eh pá, ponha só um», a partir do momento em que a situação, do ponto de vista militar, se agravava substancialmente e em que de Lisboa não havia nenhuma resposta política, ele dizia: «Não senhor, é exactamente o que sucedeu». E as notícias assim vinham.
… da tentativa que ele faz de chegar a um acordo com o Amílcar Cabral através do Senghor. Portanto, quando ele começa a perder toda a confiança e todas as esperanças na capacidade de Marcelo de fazer evoluir as coisas. São os dois momentos chave.
Coronel Matos Gomes
Mas não havia dúvidas para quem, por exemplo, estava no terreno a combater de que o relacionamento entre o comandante-chefe e o presidente do Conselho de Ministros era péssimo. E de que esse relacionamento era péssimo porque eles tinham soluções completamente distintas para a resolução do problema da guerra e do problema colonial.
General Mateus da Silva
No princípio de 73, não me lembro bem, houve uma festa, na companhia de Bula, do Salgueiro Maia... Era o Dia da Cavalaria. Eu estive presente, o Matos Gomes também, e fiquei surpreendido porque houve ali uma sessão musical, na qual participaram furriéis e alferes milicianos, e o Salgueiro Maia, a cantar as músicas do Zeca Afonso. E estava presente o [coronel] Dias de Lima, que era um dos braços direitos do general Spínola. Primeiro, fiquei surpreendido com aquilo, que mostrava a ligação entre oficiais do quadro e milicianos. Estão a ver o que era o ambiente numa companhia no mato, em que se fazia isso, mas com toda a naturalidade! O Dias de Lima ficou muito ofendido. Eu tenho a sensação de que ele ficou ofendido, não tanto pelo aspecto político, mas mais porque ele considerava promiscuidade militar. Fez uma participação ao general Spínola que ficou incomodado com aquilo, porque não estava interessado que aquilo tivesse algum efeito. Eu fui pessoalmente ouvido nesse auto, como testemunha, e defendi, obviamente, o Salgueiro Maia e minimizei tudo o que se tinha passado. O resultado foi que o general Spínola mandou arquivar o auto e não aconteceu nada. Chamou o Maia e deu-lhe assim uma descompostura de circunstância e não aconteceu nada. É só para mostrar que em 23 de Junho de 73, aconteciam coisas destas na Guiné, numa companhia no mato, com a maior naturalidade.
(...)
José Manuel Barroso
Não exageremos. O que eu quis dizer simplesmente é que, quando foi do Congresso dos Combatentes, nós mantínhamos uma informação e, através dessa rede e com mais gente em Bissau, conseguiram-se também n assinaturas de milicianos, 400 e tal, de protesto contra o Congresso. O que eu queria dizer também com isso é que, na fase em que se discutia a hipótese de uma actuação se em Lisboa não se fizesse nada e a situação se tornasse insustentável, nós contávamos claramente também com essa rede de companhias comandadas por milicianos. De facto, nós, Forças Armadas, tínhamos, para além do que já disse o Matos Gomes e o Mateus da Silva, uma organização no terreno que tinha um poder militar efectivo.
(...)
Coronel Matos Gomes
…A grande questão que se passa na Guiné é [haver] uma grande densidade de militares e a situação militar [ser] sem saída. Primeiro, o discurso do general Spínola de que tinha de haver uma solução política é um discurso que passa muito bem. Porquê? Porque não havia solução militar. O discurso do general Spínola em Angola não era possível porque as coisas corriam relativamente bem. Na Guiné não, as coisas corriam muito mal e cada dia pior. De maneira que o discurso e a tomada de posições que promovessem uma saída política, quer na Guiné, quer aqui (e sabia-se que a solução tinha de passar por Lisboa) passava. Agora, na Guiné, havia a disponibilidade de toda aquela força para participar na alteração, e não era necessário grande sofisticação ideológica. Era dizer assim: «A guerra não tem solução, o regime não dá outra solução que não seja a guerra, de maneira que é necessário derrubar o regime». Isto era tão primário quanto isto. A maior parte dos militares entra neste processo com estas premissas básicas.
(…)
E é já nesta altura, no Verão de 73, que na Guiné se apresenta uma situação que deriva daquele estudo de situação que referiu há pouco: «A situação na Guiné é insustentável». Porque neste Verão, Julho/Agosto de 73, foi a altura em que houve a grande crise no norte, de Guidage, e o chamado abandono de Guileje, em que as Forças Armadas portuguesas na Guiné já não tinham capacidade de resposta. Portanto, o problema era dramático, em termos de situação militar, na Guiné.
(...)
Setembro de 73. Ora, em Julho de 73, já andavam militares da Guiné a explicar, quer ao regime, quer à oposição, que a situação da Guiné era insustentável. Já os militares da Guiné tinham tido a consciência de enviar cartas dirigidas desde o Presidente da República ao ministro da Educação e ao ministro da Defesa. Já se tinha conseguido que na Guiné os militares dos quadros permanentes se tivessem quotizado para contratar um advogado para defender o Coutinho Lima, o tipo que comandava Guileje. O advogado dele era o irmão do tipo que foi primeiro-ministro, o Palma Carlos. Esse é que foi o advogado e foi lá. Portanto, já havia esse tipo de consciência. Na Guiné a situação é esta.
(…) A questão que se coloca é que, num determinado momento, um conjunto de militares estava na Guiné e é confrontado com uma situação sem saída. Digamos que já tinha dos seus antecedentes um conjunto de experiências anteriores, que lhe permitia fazer comparações: «Isto em Angola é assim, em Moçambique é assado, agora isto tudo vai confluir para o beco sem saída, que é a Guiné».
José Manuel Barroso
Eu penso que há uma coisa interessante e que o embaixador Hall Themido foca no livro dele, que é a continuada negociação do governo do Marcelo para obtenção de novas armas para as forças portuguesas (mísseis red eye). Eu penso que havia ali uma tentativa de ganhar tempo, para que as forças portuguesas na Guiné dispusessem de alguns recursos militares, que aumentassem a sua capacidade de defesa, e para que isso pudesse constituir, na hipótese de um diálogo com o PAIGC, um reforço da posição portuguesa. Eles lutaram muito por isso e, nas vésperas do 25 de Abril, os mísseis finalmente estavam à disposição, na Alemanha. Foi uma longa luta e houve uma importante personalidade do regime anterior que me confirmou e que me falou justamente desse ganhar tempo nos últimos meses do regime.
General Mateus da Silva
Eu acho que ainda há outro factor que está por provar: o próprio PAIGC não quis forçar. Do meu ponto de vista, o PAIGC, se quisesse, depois do Verão de 73, podia-nos ter infligido algumas derrotas militares, porventura mesmo humilhantes, e acho que o PAIGC não o quis fazer, por várias razões: primeiro, para infligir essas derrotas também tinha de arriscar mais e tinha de ter mais baixas; depois, porque não tinha pressa, porque o tempo jogava a favor deles, até para criar uma certa unidade, identidade e consciência nacional, isso jogava a favor deles e acho que fazia parte da estratégia deles não quererem humilhar Portugal em negociações.
(...)Aliás, essas novas armas não nos iam dar superioridade militar. Era por causa dos meios aéreos que o PAIGC tinha ou iria ter. Eram meios de defesa. Mas não iam melhorar a situação nem dar-nos vantagem nenhuma. Eram mísseis anti-aéreos.
Coronel Matos Gomes
Houve uma tentativa de se adquirirem Mirages em França.
General Mateus da Silva
Mas o Mirage para aquele tipo de guerra ... O Fiat G-91 era mais do que suficiente.
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O Coronel Florindo Morais entrou no debate doutro tema. Brevemente hei-de trazê-lo aqui.

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