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23 de fevereiro de 2012

395-Eu e os "Jagudis"

"Jagudis" foi o nome adoptado pelo meu grupo de combate, na Companhia de Caçadores Nº 3, em Barro. Eram do chamado "recrutamento da Província" e, por isso e tal como os recrutados na "Metrópole", tinham de cumprir o serviço militar obrigatório. Como tal foram-lhe atribuídas missões durante a guerra colonial. Ali, em Barro, era, sobretudo, tentar evitar as infiltrações de elementos do PAIGC vindos do Senegal, especialmente os abastecimentos em material de guerra e alimentos. Participavam também em operações na zona com outras companhias, particularmente em Sambuiá.
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31 de outubro de 2011

290-Éramos bandos dentro do arame farpado...

...e não fazíamos nada, apenas à espera que nos viessem atacar. Na altura comentei esta infeliz (e ofensiva) opinião noutro local (aqui), mas vou repetir o que disse, porque eu, que fui um elemento desses "bandos" com várias operações, patrulhamentos e emboscadas no pelo, muitos dias e noites nas matas da Guiné, ferido em combate e com meses no hospital da Estrela, não me posso esquecer dessas palavras, continuam a magoar-me, tanto mais que não tenho conhecimento de alguma re...consideração de quem as proferiu:
O senhor General Almeida Bruno, referindo-se aos combatentes na Guiné, disse que: “…a maioria esmagadora eram bandos que estavam atrás do arame farpado à espera que o inimigo atacasse para se defenderem… havia muito pouca iniciativa”, põe como excepção os pára-quedistas e os fuzileiros (admiro-me que não fale nos comandos…). Parece-me que se trata de uma manifestação de sobranceria estilosa e de menosprezo da actividade, dos problemas e sacrifícios dos que estavam obrigados aos dispositivos táctico-estratégicos determinados não por eles mas por quem dirigia a guerra, quer para gestão de quadrículas quer para ocupação de pontos considerados importantes para manobras operacionais ou para enquadramento de populações. Esta declaração entristece-me vindo de quem vem, sabendo eu o que sei, apesar de estar longe de ser alguma sumidade na arte da guerra, o que não é o caso do senhor General. É só pelo que vi e vivi, e também tenho lido.
Segundo os dados que colhi das publicações da CECA, 1.276 é o total de elementos que constituem o “bando”, então, dos mortos em combate na Guiné, não estando neste número, é claro, nem os fuzileiros nem os pára-quedistas (aos quais manifesto o meu respeito e admiração), que também lá tiveram mortos.
Uma “limpeza” que a guerrilha fez atrás dos nossos arames farpados?… Eu “vi” que não foi assim.
A primeira companhia em que estive (CART1690) teve 10 mortos em combate, na zona do Oio: 3 soldados e 1 alferes em ataques à base do PAIGC em Sinchã Jobel; 1 soldado e 1 capitão em deslocação entre destacamentos da companhia; 2 soldados, 1 furriel e 1 alferes em ataques do PAIGC a destacamentos nossos. Foram também evacuados para o HMP de Lisboa, por ferimentos em combate, 2 alferes (1 num deslocamento entre destacamentos, 1 numa operação) e 3 soldados (em operações).
Quanto à outra por onde passei, de guineenses do recrutamento local (não era tropa especial): enquanto foi 1.ª CCAÇ, teve 7 mortos em combate, quando andou por Bissorã, Talicó, Bedanda, mata de Cudana, Sambuiá…; depois de se transformar em CCAÇ3, teve 15 mortos em combate, sendo 3 em ataques do PAIGC a Barro, 3 em ataques do PAIGC a Guidage (onde teve elementos destacados) e os restantes em operações ou emboscadas (Sano, Sambuiá, Canja...).
Quanto à “muito pouca iniciativa”:
À CART1690, quando chegou à Guiné, foi-lhe dada a responsabilidade de uma quadrícula de 1600km2, na mata do Oio. Nessa quadrícula tinha, inicialmente, quatro destacamentos: Geba (onde era a sede da companhia), Camamudo, Cantacunda e Banjara (estes dois a cerca de 40km de Geba). Depois constituiu mais um destacamento em Sare Banda. A companhia foi, pois, desmembrada desta maneira… por “iniciativa” dos altos comandos da guerra.
Mesmo assim:
- forças suas participaram em 61 operações com nome de código, 12 destas com PCV;
- forças suas realizaram 1561 patrulhamentos, 36 emboscadas e 442 outras acções
Quanto à CCAÇ3 não tenho dados numéricos, mas, da minha experiência pessoal, garanto, senhor General, que os pelotões desta companhia realizaram inúmeras emboscadas e patrulhamentos na fronteira com o Senegal, nas zonas de Sano e Canja, e participaram em várias operações em Sambuiá.
O que diz o senhor General é a “sua” verdade, com muita coisa em falta, que, pelos vistos, desconheceu (embora me custe a crer…). Vou dar outros dados que constituíram a verdade dos “bandos” que estavam atrás do arame farpado:
- da CART1690 houve 15 elementos que foram evacuados para o HMP de Lisboa por motivo de doença
- e dois exemplos de uma das razões disso: o destacamento de Banjara esteve, em certa altura, com dois meses sem abastecimentos, tendo os seus ocupantes que se desenrascar comendo macacos e cobras; quanto à água, porque só havia fora do arame farpado, estabeleceu-se tacitamente uma escala: num dia iam os do PAIGC da zona e noutro dia iam os nossos buscá-la; em Barro, quando as barcaças demoravam muito tempo a trazer-nos os abastecimentos pelo Cacheu, tínhamos de ir “caçar” as vacas que o PAIGC tentava levar do Senegal para o Oio – era uma forma de poder comer de jeito.
As condições que tínhamos no arame farpado não eram as mesmas, naturalmente, do que as que tinha quem estava em Bissau. Até das coisas mais comezinhas tínhamos, muitas vezes, que nos privar. Eu, por exemplo, que sempre fui um fanático por óculos escuros “rayban”, nunca os pude usar. É que, quando no arame farpado, eram topados ao longe e, quando em emboscadas, patrulhamentos ou operações, seria logo referenciado. É claro que não me interessava ser um alvo privilegiado.
Parece-me que, num programa com a projecção de “A Guerra” não foram nada cuidadas as declarações do senhor General, mesmo que delas esteja (mal) convencido. Os que estão a leste do que foi a guerra pensaram mal de nós, os ex-combatentes, alguns terão mesmo pensado que andámos lá a passar férias. Os que querem conhecer o que ela foi ficaram mal informados, induzidos em erro. Para nós raiou a ofensa.
E vou, agora, acrescentar mais alguns dados:
À CART1690 foi atribuída esta quadrícula (os tais 1.600km2 na mata do Oio, não por decisão do capitão do "bando" mas sim pelos altos comados, como disse)
Foi assim disperso o "bando", com uma base do PAIGC a meio (Sinchã Jobel), nunca destruída (Jigajoga, Jigajoga2, Jacaré, Imparável, Invisível) e outra a norte (Samba Culo), destruída uma vez (Inquietar I e Inquietar II) , mas, evidentemente, reconstruída (Cantacunda). O "bando" esperava ataques (quem não esperava?...) e tiveram-nos (Banjara, Cantacunda, Sare Ganá, Sare Banda). 



Mas, contrariamente ao que diz o senhor general, também saíu do arame farpado:
E dava nisto:
Não é justo dizer que este "bando" não fez nada. Os que morreram não foi de saudades. Os que foram feitos prisioneiros não foi para passar férias em Conakry.


22 de maio de 2011

178-Guidage

São fotos de Guidage da autoria do capitão da CCAÇ3 Carlos Ricardo. Esta companhia esteve lá de 9 de Março de 1969 (altura em que saiu de Barro) até 22 de Fevereiro de 1972, quando foi para Saliquinhedim (K3).
Agradecimentos ao blogue "SPM0018-CCAÇ3", donde elas são originárias, por me ter autorizado a sua publicação. 

 Valas


 Abrigo de Transmissões

 A cozinha


Abrigo do comandante da companhia


Bunker


Secretaria


Quartel


Construção do paiol

Guidage em 1971

Ribeira de Guidage, junto à fronteira

4 de maio de 2011

139-Na escuridão, debaixo do mosquiteiro

Meu amor (que nunca foste), chega sempre a altura em que as palavras se tornam desnecessárias para explicarmos aquilo que para ambos se tornou claro, tão evidente. Para quê explicares-me que não me amas, e porquê? Os porquês não interessam. É o facto em si que conta. O que não tem remédio não tem porquês.
Porque há-de o frio ter palavras de gelo para explicar que é frio?
Durante meses teci dúvidas e elaborei respostas. Fiz delas cartas que retive e guardei, com medo de errar ou de ferir. Terá sido? No fundo, foi sempre a suspeita do que agora sucedeu.
Mas estou certo que te amarei sempre.Como, aliás, continuo a amar as outras que conheci. Como amo aquelas que quero conhecer.

138-Não saí nem houve ataque do IN - Mas "A Peste" atacou

Deparei-me com duas frases de Albert Camus que me dão muito que pensar. Todo o romance está cheio de simbolismo, mas essas frases, só essas, têm muito a ver com a minha vida presente, com os meus problemas actuais. Mas não só. Elas têm a ver com toda esta fase que atravessam os meus "concidadãos".
Procuro sempre, com as minhas leituras nocturnas, quando posso e tenho condições para me apetecer, sem pretensões de aprofundar mas apenas criar condições, relax, para um bom sono. Mas não, esta noite não me é possível.
"A Peste" apossou-se de mim, como reagente contra outra peste que de algum modo simboliza o nosso estado, e que creio se vem apossando de todos nós de uma forma já perceptível porque demasiado continuada.
Tarrou, o cronista, deixa-me perplexo e confuso: "O que é natural é o micróbio. O resto - a saúde, a integridade, a pureza, se quiser -  é o efeito da vontade, de uma vontade que não deve jamais vergar". Tomei-o, inicialmente, como um existencialista fatalista. Confundi-o com um vulgar existencialista, pessimista  idealista.
Depois, porém, penso ter descoberto nele, através desta mesma frase, um profundo defensor do papel fundamental que o indivíduo tem na evolução da sua própria história. Não já um idealista, mas um materialista; não já um fatalista, mas um defensor da dialéctica.
O micróbio do desânimo propaga-se entre nós. Sinto em mim próprio sintomas  dessa peste, sinto que os meus camaradas são igualmente atacados por ele e que alguns não conseguem reagir. Criam uma habituação à peste, conformam-se com a sua condição  e aguardam melhores dias.
Outros há que, mais gravemente, optam pela via do oportunismo. Não estou a ser exacto quando afirmo que "optam agora", pois a sua opção oportunista fizera-se necessariamente desde o início. Em termos correntes, pode dizer-se que o oportunismo se encontra na massa do sangue dos oportunistas e só em situções de crise vem ao de cima, à luz do dia.
O oportunista "distrai-se" com muita facilidade.
Manter a vigilância e a firmeza, não deixar "vergar a vontade" custa muito, é deveras penoso. Aqui, nesta altura, a segunda frase de Tarrou a Rieux: "...é bem fatigante ser um pestiferado. Mas é ainda mais fatigante não querer sê-lo".
Pensei, inicialmente, que Tarrou não tinha razão em afirmar que o micróbio era um fenómeno natural. Mas o facto é que não podemos fugir a ele, em determinadas circunstâncias. Ele nasce do cruzamento entre as nossas ilusões e os factos adversos que as desvanecem, são fruto da interacção de um facto subjectivo com um dado objectivo, contraditórios entre si. Por este motivo é que eu duvido de Tarrou: será, então, natural o micróbio? Será possível afirmá-lo, quando ele nasce das nossas próprias ilusões contrariadas pelos factos?
Tenho necessidade de aprofundar a natureza das ilusões e o seu desabar. Tenho de ver se as ilusões, dos sentidos ou da inteligência, fazem parte da natureza humana, se são naturais.
Agora vou dormir e espero que o gajos não ataquem.

3 de maio de 2011

136-A jangada de Barro

Antes da guerra havia uma jangada que, tal como a de S.Vicente, fazia a travessia do Cacheu, ligando a "estrada" que vinha de Bissorã à que ia de Barro para S. Domingos.
Por ela, conta Luís Cabral, na "Crónica da Libertação", fugiu para o Senegal o Carlos Correia em Agosto de 1959, perseguido pela PIDE, após a matança de Pidjiguiti. Foi até Barro de jangada e de Barro seguiu na sua motorizada.




Foto do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume X, nº 38, de Abril de 1955
Durante a guerra, quando a CCAÇ3 estava em Barro, apenas lá atracava, às vezes, uma barcaça para nos trazer abastecimentos.

Este rapaz que está ao meu lado de G3 tem uma história que hei-de contar um dia destes...

2 de maio de 2011

132-Antropologia visual

A minha amiga Maria Carolina, em 1998/2000, fez o Mestrado em Relações Interculturais na Universidade Aberta. Mostrei-lhe umas fotografias minhas da Guiné (estas abaixo) e ela inspirou-se nelas para um dos seus trabalhos, a que chamou "Antropologia visual":




"Não se pode possuir a realidade, mas pode possuir-se (e ser-se possuído por) imagens". Susan Sontag

Fotografar é o acto pelo qual o fotógrafo capta um momento. Neste caso, o fotógrafo que faz a fotografia (porque não a tira, não é roubada, ela é antes um acto de colaboração) foi-o a pedido dos fotografados. O seu objectivo era obter um registo duma vivência única e ao mesmo tempo diversa para cada um dos elementos do grupo. A vivência de uma presença na guerra, numa terra distante, na Guiné, com aquele grupo unido por secretos laços de camaradagem.
E porque se trata de uma relação única, aquela fotografia é um marco e também uma marca. Ela está ali a consubstanciar todos os pormenores do momento: o número de pessoas, aqueles mesmos, não outros quaisquer, aquele lugar, as sensações, os sentimentos, as emoções, o silêncio. Ela está ali há 30 anos, testemunho vivo, porque todos os testemunhos são vivos apesar daquelas imagens petrificadas pelo tempo, mas reveladoras, prenhes de uma vivência, uma voz que se agiganta quando se folheia o álbum.

"Este era um grupo muito especial. Éramos um alferes, dois furriéis, um cabo e seis soldados. Costumávamos fazer incursões no Senegal, para, nas aldeias, roubar vacas para comer. "

Havia essa necessidade, vital como a de comer, de, no futuro, disso fazer prova à memória, por vezes traiçoeira. Mas também de possuir, em substância, aqueles momentos fugazes, de secretos laços de camaradagem. É como olhar-se no espelho e observar-se ali com os outros. "Ali estou eu". Ali, naquele lugar concreto, aquela figura. Eu que não me posso ver, que só me construo por e na relação com os outros, que só me observo de dentro para fora. A fotografia é o espelho, dá-me a minha imagem com os outros, reflecte-me, constrói-me uma figura. E ao vê-la, por alastramento, eu acrescento-lhe o conteúdo, impregno-a dos sentimentos, e emoções que são o lastro da minha memória. Esta relação dialéctica entre a fotografia e o fotografado, mais tarde observador também, que dá significado à fotografia, que a faz pulsar, mesmo que aparentemente morta, num vai-vem entre um passado que foi presente e um presente que foi futuro, numa atmosfera irreal.
E ali estão todos, na pose que idealizaram para ficarem "fixados" naquele presente e serem "transportados" ao futuro. De acordo com a hierarquia, o alferes no eixo vertical central, em posição de destaque, em pé. Em volta, descendo na hierarquia, os furriéis e, alargando-se para o eixo horizontal, mais igualitário, os soldados, formando uma pirâmide de base alargada. O grupo ocupa toda a fotografia. É um grande plano. O que importa para a memória do futuro, lá longe, no continente, é o grupo, a sua ligação, as suas recordações. A fotografia é assim a reificação duma relação "estatificada", com aquelas pessoas, num determinado tempo (1968/69) num determinado local, em Barro, quase esquecida no mato, na guerra colonial, na Guiné. Ao fixar aquele momento, o fotografado, por acção do fotógrafo, quis "construir um monumento" que vencesse o esquecimento. Na sociedade de consumo, as fotografias consubstanciam a "massificação" dos heróis: do herói individual, de cada momento, de cada vivência única, das vivências únicas que se multiplicam e que, por serem únicas, necessitam de registo. A sua multiplicação permanente toma-as fugidias e por isso urgentes de memória. Todo o acto na vida do indivíduo se "inflaccionou" em rito de passagem. É o nascimento, a saída da maternidade, a 1ª mamada, o 1°banho, a 1ª papa, o 1° mês o 2°mês, do 1°dente, o 1°passeio, o 1°brinquedo, o brinquedo preferido. São tantos os momentos a registar, são tantos os marcos a assinalar! Tudo se esvai a uma velocidade impossível de estancar. A falta de tempo para agarrar o momento erige um único em monumento. Agarra-se pela fotografia. Pretende arrumar-se a memória. Quando dele necessitarmos, está à nossa disposição, arquivado no álbum para nos aclarar a memória.
A linha de montagem da produção não o é só para a mercadoria, é também para a memória. Por todo o lado, em qualquer ocasião, por mais banal que nos pareça, a câmara lá está, pronta a produzir memória. É só carregar no botão.
Também aquele foi único. Único para cada um dos protagonistas. A câmara imortalizou-o. O futuro seria de ausência. É a nostalgia dessa ausência o que reune aquele grupo de homens, com ar sério, solene, numa postura de alguma descontracção fisica, mas de preocupação interior. Nas suas mentes perpassam imagens de separação. Os olhares estão distantes, evitam o confronto com a câmara, como que a recusar um certo mergulhar no seu interior, o desvendar do que lhes vai na alma. Ou evitam o confronto com o futuro, consigo próprios, quando observadores da fotografia. A recusa é esquiva, fugidia. No entanto, ali ficou, consubstanciada. Só dois olhares enfrentam, com frontalidade, essa incógnita.
No limite esquerdo, uma cabeça, quase invisível, espreita. O seu corpo, bem visível, parece nem lhe pertencer, tal é a preocupação de evitar o confronto com a câmara. Aliás, toda aquela área quase parece tentar escapar-se da fotografia. Os tronco que constituem a paliçada como que se sobrepõem aos soldados, tornando-os ainda mais reduzidos. No limite direito, pelo contrário, o alferes em pé, isolado, quase que constitui uma outra unidade significante. Há uma distância física que o separa dos restantes. Não é muita. Possivelmente a câmara não lhe deu tempo de ajustar a pose. Por outro lado sente-se um certo desprendimento, algum desinteresse. Este espaço visível poderá ser o reflexo duma demarcação territorial psíquica, de um menor envolvimento.
Um outro elemento que nos salta à vista é o facto de os únicos três brancos do grupo, o alferes e os dois furriéis, se encontrarem todos em posição de destaque, o que corresponde à realidade hierárquica.
A incorporação no exército traduzia-se num rendimento muito acima da média. Os autóctones, dada a situação de guerra, tinham poucas oportunidades de trabalho, ainda por cima bem remunerado, ali tão longe da capital, nas aldeias praticamente perdidas na mata. Barro fica junto da Mata do Oio, mata praticamente impenetrável, salpicada de pântanos com capim de muito mais de 1 metro de altura, onde os guerrilheiros eram "reis". Terreno de muito difícil acesso em termos físicos e também de difícil penetração em termos militares, necessitava o exército de autóctones, quer como guias, quer como militares que se sentissem à vontade no terreno. As operações no mato necessitavam, para serem bem sucedidas, destes elementos, que, com alguma frequência, estavam do lado dos guerrilheiros. A guerrilha, bem armada, e também com o apoio da população e até de alguns militares incorporados, conseguia um equilíbrio de forças, muitas vezes instável, que levou ao reconhecimento, por parte das chefias portuguesas, de que aquela guerra era um beco sem saída.
Quando, em Janeiro de 1998, "o nosso fotógrafo" volta à Guiné para agarrar um pouco dessa vida perdida no mato, aos 20 anos, e também para arrumar as ideias sobre o livro que iniciou sobre a sua experiência na guerra, lá estava o mesmo chefe de Tabanca (fotografia C), agora com 90 anos, forte como um baluarte na sua coerência, outrora apoiante da guerrilha e do PAIGC, gerindo diplomaticamente a amizade com o militar para mais facilmente "jogar" o xadrez da revolução, agora o ancião, o conselheiro, o sábio, de alguma forma amargurado com os trilhos perdidos após a independência.
E este encontro foi o reviver duma relação de amizade urdida em muitos meses de comunhão de um espaço, sedimentada por uma identidade de valores que, afinal, estavam dos dois lados naquela guerra, sem sentido também para muitos daqueles que a faziam.
Guerra que está presente em ambas as fotografias (A e B). Pressentimo-la pelas fardas, a paliçada, as armas (fotografia B). Mas neste caso a exibição da metralhadora e do morteiro é como que uma espécie de encenação, Ela não me puxa pelo fio das minhas lembranças. O ar despreocupado dos fotografados dá-nos a ideia de que tudo é uma brincadeira e possivelmente em muitos dos momentos assim teve que ser encarada aquela situação de pressão psicológica extrema. A brincadeira com a função de descomprimir, fazer esquecer, para se aguentar a tensão dos momentos de violentação que eram os ataques, e as mortes daí decorrentes. Como observadora, foi a fotografia A que me espoletou a recordação de guerra, a real, não a da História ou das histórias, a guerra dos homens concretos, aquela que nós sentimos, que conhecemos, quando para isso estamos maduros. Até lá, há todo um caminho a percorrer, de muita surdez, ou falta de vista, incompreensão. Porque compreender é ligar, envolver, tomar para nós. E só quando somos capazes de pegar nessa realidade do outro, "amassá-la" com a nossa, deixar levedar como o pão, é que então estamos capazes de entendimento, de compreensão. Processo difícil, longo, que necessita de um grande esforço de deslocação, de descentração, sem no entanto se perder o Norte, "a nossa bússola, a nossa identidade", os princípios, os valores, corporizados fundamentalmente no respeito pelo Outro.
A conjugação do olhar directo com a fuga do olhar, as fisionomias sérias, o olhar carregado, os traços bem marcados do soldado negro, sentado, são sinais de dúvida, de incerteza. As imagens da minha infância agigantam-se. Aos meus ouvidos, o ressoar de "Angola é nossa" ao som abafado de botas a marchar em sintonia. Guerra era aquele som, misturado com mensagens de Natal na rádio e na televisão, e os navios apinhados de homens a largar o cais, e muitas mãos no ar a acenar, e o filho daquela vizinha da minha avó que veio fechado num caixão, tinha eu 10 anos. Ele que nunca tinha saído da aldeia, aos 20 anos atravessou o mar, cruzou os continentes, em busca da morte, lá tão longe. Veio fechado num caixão e nunca mais ninguém o pôde ver. Essa, a ideia que me ficou da morte. Um caixão fechado, misterioso, e a repetição até ao infinito daquele marchar de botas, acompanhado de "Angola é nossa". Na minha cabeça as ideias misturavam-se e assentavam todas naquele bocadinho de mapa, com palmeiras, umas bolas maiores e outras mais pequenas a assinalar as cidades, com mulheres negras com os filhos às costas. E o meu receio era que a guerra saltasse daquele mapa para este outro mapa onde eu estava.
Guerra era ainda aquela voz que mais tarde aprendi que era do Salazar. E era só a voz a encher a rádio, que as palavras não tinham para mim sentido.
A guerra preencheu o imaginário da minha infância.
Mas a guerra só a vi, alguns anos mais tarde. Já não era a guerra da minha infância, quase invisível, de palavras sem sentido. Era a guerra de corpos calcinados, ou feitos em pedaços, de olhos secos raiados de revolta, de silêncios perfurantes como lanças. Era mais uma guerra, absurda, devastadora, única, pelos meios cada vez mais refinados, sempre igual, repetida, pelos efeitos de aniquilação. A geografia desta guerra era outra, as razões sempre as mesmas: impedir que o Outro fosse Outro, cada um conjugando as suas razões.
E a nossa guerra, aquela onde os mortos eram invisíveis, mostrou o seu rosto, pelas mãos da Liberdade. Nessa altura, as fotografias dos horrores deste povo de brandos costumes. invadiram-me a retina: corpos despedaçados, cabeças penduradas em paus. Aquela guerra­ queria dar testemunho de que a morte se pode fazer com as próprias mãos, com prazer ou com raiva, ou com tudo à mistura. Porque a guerra é uma fábrica de morte. A sua essência é o paradoxo. EU-VIDA, OUTRO-MORTE.
Foi esse paradoxo que acompanhou "o nosso herói" nesta guerra. As recordações escorrem-lhe destas fotografias e à mente vêm as visões malditas, enterradas, bem fundo:
O silêncio pesou.
A morte concreta, uma vontade que conjuga a morte porque quer conjugar a vida, a própria.
No teatro de guerra, as cenas sucediam-se. A morte, sempre presente como ideia pairando, era uma realidade, mas aquela morte era um produto do seu disparo.
E muitos mortos aconteceram, fruto de conjugações absurdas.
Perdidos no mato, estão os espíritos dos que não queriam morrer, aos 20 anos, ou até mais novos, se pensarmos nos guerrilheiros, ou mais velhos, que importa. Fundo, nas consciências de cada um, continuam a fazer a guerra, a guerra mais difícil de vencer.
É preciso não calar os espíritos, dar-lhes voz, ouvir as suas razões. É urgente pôr tudo no seu lugar. Fazer regressar os mortos à sua terra, num caixão selado, não dá aos mortos o seu lugar. O seu lugar é nas palavras. Escritas, sulcando o papel. É a catarse. Reproduzidas. Lidas. Regressando à consciência. É a renúncia. Derramada num livro que está em construção para que os mortos ocupem o seu devido lugar.

30 de abril de 2011

130- Correia de Campos, um homem do 25 de Abril

O Correia de Campos que eu conheci em Sambuiá esteve em Guidage.
No Público Magazine, de 5 de Novembro de 1995, escreveu o jornalista Francisco de Vasconcelos:
“Sobre a acção de Correia de Campos no cerco (que é também destacada por Ayala Boto), um dos oficiais das forças especiais ali enviadas foi peremptório: Guidage, no fundo, não há dúvida, aguentou-se devido a ele. Foi um esforço brutal pedido a um homem de 50 anos. Uma vez terminado o cerco, Correia de Campos — hoje reformado em coronel — esteve alguns dias preso em Bissau, devido a uma infracção cometida em época anterior por um oficial sob o seu comando...
“No meio do inferno de Guidage, o governador Spínola foi ali de helicóptero para visitar a guarnição, dirigir um apelo à coragem e patriotismo dos oficiais e anunciar-lhes que iria enviar para a região o Batalhão de Comandos Africanos. Recorda Ayala Boto, que acompanhava Spínola como ajudante de campo: À chegada, a primeira imagem que surgiu foi a de uma povoação abandonada e com um único habitante que se dirigia para o heli como se estivesse a passear na Baixa de Lisboa. Era Correia de Campos.
"Após a partida do governador, gerou-se um movimento de abandono do quartel por parte de muitos militares, que queriam ir-se embora, tendo sido impedidos de o fazer por Correia de Campos, que, lembra o próprio, se postou de sentinela, à saída do aquartelamento" (...).
O cerco a Guidage, que já começara, acentuou o isolamento desta localidade a partir do dia 8 de Maio de 1973. O comandante do COP3, Correia de Campos, decidiu ir para lá no dia 10 de Maio e lá esteve até ao fim do cerco, 30 de Maio. Podia não ir e acompanhar de longe a situação. Mas foi, ele ara assim.
Foi o tenente-coronel Correia de Campos que, enviado pelo Comando da Pontinha, entrou no Ministério do Exército, às 10 horas do dia 25 de Abril de 1974, para prender diversos oficiais superiores, incluindo o coronel Álvaro Fontoura, chefe de gabinete do Ministro do Exército (este já tinha fugido). É ele que, por indicação do Comando,  manda dividir as Forças: uma coluna deve dirigir-se para o Largo do Carmo e obter a rendição do Presidente do Conselho; uma outra coluna deve dirigir-se para o Quartel da Legião Portuguesa na Penha de França, tentando obter a sua rendição. Devem manter-se em posição os efectivos no Banco de Portugal e Rádio Marconi. 
Foi também ele que às 15h25 desse dia entrou no quartel do Carmo para negociar a rendição dos seus ocupantes. Saiu cerca das 15h45, após várias ameaças de Salgueiro Maia, "se suceder alguma coisa ao nosso enviado".
Depois do 25 de Abril foi comandante de Lanceiros 2, cargo de que foi afastado após o 25 de Novembro.
Foi um bravo e nobre militar, já falecido.

27 de abril de 2011

127-Jagudi kum' el



Ida para Bigene
Íamos por uma mata serrada depois de Sindima, tinha chovido. Da CCAÇ3 só o meu pelotão estava nesta operação até ao corredor de Sambuiá.
- "Vamos ver se apanhamos alguma coisa. Eles costumam vir de Samoge, no Senegal, e passam por aqui", disse-me o major Correia de Campos. "Você vai à frente, atrás de si vai a 412. ". Tá bem, sabia que aquela era uma companhia de maçaricos, a CART2412. Como me tinham indicado, invertemos um pouco para sudeste e fomos em direcção a Talicó.
Antes de lá chegarmos fomos emboscados  ao pé dum pequeno descampado. Estão ali à esquerda, pensei, e fiquei de pé virado para lá a disparar. De repente levo um encontrão e vou parar ao chão.
- "Eles estão do lado direito!", gritou-me o Ocha, meu  guarda-costas.
- "Obrigado, pá. É a merda dos ouvidos que me enganaram." E fiquei no chão a disparar para o lado certo. Estava fodido, não era a primeira vez que os tímpanos me baralhavam.
Foi um quarto de hora de tiroteio, morteiradas da companhia de trás e roquetadas e morteiradas também deles. Às tantas, homem espantoso, aparece o Correia de Campos, de pistola à cowboy na cintura e pingalim na mão.
- "É pá, está um gajo com RPG ali naquela árvore e o morteiro está ali no lado direito".
Disse-me isto sempre de pé, e eu esticado no chão a ouvi-lo.
- "Já não adianta, os gajos piraram-se", disse-me ele, passados alguns minutos,  quando nos apercebemos que eles tinham parado de disparar . "A companhia vai retirar e vocês vão atrás".
Levantámo-nos e diz-me o Ocha:
- "Está ali um corpo do outro lado".
Disse ao furriel Lindolfo para ir com a secção dele buscá-lo.Voltaram. O Falcão e o Iofna, um de cada lado, traziam o homem, que estava ferido e andava com dificuldade. Era do PAIGC, tinha o fardardamento deles .
- "Então e a arma?", perguntei-lhes.
- "Não havia arma nenhuma", respondeu o Lindolfo
- "Está visto que os gajos levaram a arma e deixaram o ferido", conclui. 
Disse para fazerem uma maca com ramos de árvores para colocar em cima o homem ferido. Fomos andando no encalço da 412., devagar porque o Falcão e o Iofna levavam a maca com o ferido. Os últimos da companhia estavam ao pé do rio de Cunalá, estava visto que o major optara regressar por ali e não por onde viéramos, para evitar emboscadas. Vi que estava um homem estendido ao pé deles. Aproximei-me e vi que tinha o pescoço aberto, um grande rasgo horizontal,  a cabeça parecia querer separar-se do corpo. Estava morto.
- "Como é que foi isto?", perguntei. Respondeu-me um soldado que fora um estilhaço de rocket, rebentara na árvore atrás da qual ele estava.
Dois deles pegaram no morto, nos braços e pernas, e começaram a atravessar o rio. Vi que foram à vontade, sinal que já tinham visto que era atravessável. A companhia, aliás, já estava praticamente toda do outro lado.
O Falcão e o Iofna tinham pousado a maca no chão.
- "Vá lá, alguém que pegue na maca para atravessar  o rio".
Ficaram todos calados e quietos.
- "Então?... Vá lá!"
Continuaram mudos e quedos. Os furriéis olhavam para mim um bocado enrascados.
- "Meu alferes", decidiu-se o Sousa, "eles não querem atravessar o rio com a maca."
- "O quê!?", fiquei genuinamente espantado.
O matulão Clode, no meio deles:
- "Alfero, vem jagudi e kum’el".[1]
Estava feito. Mas isto não era situação nova para mim, esta recusa em ter pena ou piedade de tudo o que fosse inimigo. Tinha de resolver aquilo, não podia ficar ali a discutir com eles nem queria deixar ali o ferido. Virei-me para o furriel Sousa.
- "Ó Sousa, pegue aí à frente que eu pego atrás". Assim fizemos, pusemos a maca aos ombros . "Vamos embora".
Metemo-nos no rio. Os outros vieram atrás.
A água dava pelo peito. Não era fácil, deviam ser uns quarenta metros de largura, mas fomos andando, embora devagar e com dificuldade, sobretudo para "ver" onde púnhamos os pés.
Estávamos a meio e chegam-se o Ocha e o Falcão.
- "Alfero, nós levamos".
- "Ah!", só lhes disse isto. E eles levaram a maca até ao outro lado.
Da margem vimos que havia uma clareira larga onde estava, a cerca de cem metros um helicóptero. Chegámos até lá e vimos ao pé dele o major Correia de Campos e uma enfermeira pára-quedista.
- "Meu major, tenho aqui um homem do PAIGC ferido".
- "Entregue-o à enfermeira".
Dei indicação ao Ocha para tal. Depois disse ao furriel Sousa:
- "Mande formar o pelotão."
O major olhava para mim com curiosidade, mas não disse nada.
Olhei para o pelotão com cara de zangado, tanto que não deu para dizer nada em crioulo:
- "Estou lixado com vocês. Porque acho que vocês são uns grandes filhos da puta, pior para os da vossa raça, muito pior do que são os brancos. E podem ter a certeza que fodo o primeiro que tentar fazer mais alguma igual a esta". 
E não disse mais nada, mandei destroçar. O major estava sério.
- "Mas que é que aconteceu, nosso alferes?"
- "O que sucedeu, meu major, é que estes gajos recusaram-se a atravessar o rio com o ferido. Tive de ser eu e um furriel a carregar com ele."
- "Oh,e você não sabe que eles são assim, homem? Não se chateie. Quando chegar ao quartel pague-lhes umas cervejas e vai ver como ficam todos bem".
A enfermeira chegou-se a nós.
- "Meu major, o homem do PAIGC acaba de morrer. Não aguentou".
- "Que merda! Tanto trabalho...", pensei que disse para mim, mas ela ouviu. Não se manifestou.
- "Bem, vamos embora", disse o major.
O heli partiu e ele foi nele. Durante o regresso a Bigene e, depois, a Barro as coisas foram amainando e já estava tudo normalizado quando lá chegámos.
Mas sei e senti que o que lhes dissera não caíu em vão.



[1] Alferes, os abutre vêm e comem-no. (crioulo)



Regresso de Bigene
Eu e o Ocha, que foi meu guarda-costas. Ele vive agora em Corroios.

9 de abril de 2011

102-O "herói"...

- “Raio da carne. Mais parece que estou a comer os cornos da vaca”. Era o que me parecia porque era mesmo dura como cornos.
- “Não se queixe, ó Aiveca”, virou-se-me o capitão,.a mastigar, “se não fosse esta vaquita, estávamos agora agarrados à bianda[1] ou àquela dobrada saltitante.”
- “Ainda bem que os gajos trazem umas vacas por aqueles carreiros que armadilhámos. Não ganhávamos nada se fossem só os gajos sem as vacas”. Uma piada à Rodolfo.
Tinha razão. As armadilhas que púnhamos em alguns carreiros da mata, que sabíamos ser utilizados pelos carregadores do PAIGC, a maior parte das vezes rebentavam com as patas das vacas que eles colocavam à frente como arrebenta minas. Quando ouvíamos um estoiro, calculávamos em que carreiro seria, corríamos para lá e encontrávamos normalmente uma vaca sem pata e agonizante. Havia rancho melhorado no dia seguinte.
Era o caso deste nosso almoço. Estávamos no refeitório oficiais, sargentos e praças. Era sempre assim, comíamos em conjunto. Só não estava lá o Salvado, porque tinha saído de manhãzinha para uma emboscada em Ponta Nova.
- “Como  bo  otcha baka?[2]”, perguntei para as mesas dos soldados.
- “É baka-brutu”[3], soltou o Incanha.
Gerou-se uma confusão. Na mesa ao lado da dele o Akadite protestava..
- “Mas o que é que aconteceu?”, admirou-se o capitão.
- “Estou a ver que o Incanha fez asneira”,  levantei-me e fui até às mesas deles.
- “O que é que há?”
 O Ocha estava calmo e foi ele que me respondeu.
 - “Alfero, Baka-brutu é uma dança[4] que os bijagós mais novos fazem com uma máscara de vaca selvagem, O Akadite é bijagó e não gostou, porque para eles é sinal de coragem. Não tem nada a ver com esta carne dura…”.
- “Ah, é isso…”. Não deu para continuar, porque chegou o Salvado e o seu pelotão. Todos se viraram para os recém-chegados.
Sentaram-se nas mesas. O Salvado foi para a nossa.
- “Então como é que correu isso?”, perguntou-lhe o capitão.
- “Muito bem. Manga de Ronco!”, todo ele se ria
- “Conte lá, homem”.
O Salvado estava radiante.
- “Matámos dez gajos”.
- “O quê!?”, abrimos todos a boca de espanto.
- “Estávamos emboscados ao pé das palmeiras da bolanha da Ponta Nova, perto do sítio referenciado como ponto de passagem. Vimo-los sair da mata, deixámo-los entrar na bolanha, e a seguir foi só disparar”. Estava sorridente.
- “E trouxeram o armamento deles, claro”, preocupou-se o capitão.
- “Trouxemos três catanas[5]”.
- “Só!?”.
E eu e o Rodolfo também nos admirámos.
- “Não nos digas que os gajos vinham desarmados…”
- “É. Os gajos não tinham armas.”
- “Então, porque é que tiveste de matá-los, pá?”, perguntei-lhe com voz séria.
Ficou um bocado embaraçado e desculpou-se.
- “Houve um que começou a disparar, os outros juntaram-se-lhe, sabes como é, e só pararam quando eles já estavam todos esticados na bolanha”.
- “porque é que não os impediste?”
- “Não penses que isso é fácil”.
- “Não é fácil uma merda. Quando se quer é fácil. Outro dia em Sano foi fácil pirares-te e deixar-me sozinho no meio do tiroteio. Porque quiseste, achaste que era o melhor para ti, tiveste cagaço. E agora não, o que quiseste foi armar-te em herói contra gajos desarmados.”
Tinha levantado a voz. Já havia silêncio nas outras mesas, estavam de ouvido à escuta, e o capitão interrompeu-me.
- “Calma aí, pá. Disse-me que eram dez, mas eram só homens?”
- “Não. Eram sete homens e três mulheres”.
Estava a beber e pousei com ruído o copo na mesa.
- “Foda-se! Ainda por cima matas mulheres. Herói, sim senhor”.
- “Acabou, Aiveca”. O capitão Alves olhou-me severamente. “E os corpos deles?”
- “Mandámo-los para aquele riacho que vai desaguar no Cacheu”:
Abanei a cabeça em desacordo, mas já não disse nada.
- “A que horas é que foi isso? Não traziam nada? Tenho de mandar um relin[6] para o COP3.[7]
- “Eram oito e meia. Só traziam um garrafão com água.”
- “Era população civil que se deslocava, certamente”.
- “Claro”, disse eu.
O Rodolfo, que tinha estado sério e calado, abriu a boca.
- “Mas, ó meu capitão, se o Spínola sabe que o Salvado matou dez civis é capaz de lhe dar uma porrada.”
- “Porquê?”, perguntei-lhe com um encolher de ombros de incredulidade.
- “É pá, ele acha que a tropa deve proteger a população civil, deve apoiá-la, e não foi o caso, pelo contrário”.
Ri-me.
- “Isso é treta, é psico. Se fosse com o pessoal aqui da tabanca… Agora com o pessoal do mato, se o Salvado dissesse que foi atacado com uma catana ainda lhe dava uma cruz de guerra. Fizeste mal em não dizer, esqueceste-te, assim é que serias mesmo um grande herói, medalhado, até podias ir ao Terreiro do Paço….”
- “Chega!”, cortou o capitão Alves. “Já comeram todos?... Vamos embora”.
Saímos. O capitão foi para a secretaria, o Salvado olhou para mim de trombas e foi em direcção ao quarto dos alferes. Eu e o Rodolfo assentámo-nos ao pé do poilão[8] da secretaria a fumar um cigarro. Ouvia-se o katchu-kaleron[9] a voejar por entre os ramos.
- “Tu não gramas mesmo o Salvado”.
- “E achas que não tenho razão, Rodolfo? Aquele filho da puta deixou-me outro dia sozinho em Sano. Se os gajos tivessem lá um bigrupo, como o major do COP3 pensava, eu estava bem fodido. E agora isto… tão cobarde foi em Sano como agora na Ponta Nova…”
- “Mas ele, no fundo, não é mau gajo. Até foi seminarista.”
Soltei uma gargalhada e curvei-me para baixo a rir. O Rolando olhou-me interrogativamente.
- “Não gostas de seminaristas, é?.”, acabou  por dizer.
- “Não é nada disso, não. O que sucede é que eu também fui seminarista, pá.”
Olhou-me espantado.
- “Nunca pensei. Não tens ar disso”.
- “E qual é o ar de um ex-seminarista? O Salvado tem ar de não ser mau gajo e eu tenho? Por isso não me topaste, é isso?. Fica a saber que os ex-seminaristas são como os outros. Uns são filhos da puta e outros não.”
- “Oh, vai à merda. Sabes o que eu quero dizer. Normalmente os ex-seminaristas têm um ar encolhido, pouco aberto. Será, não sei, porque não perderam o ar do seminário, a forma como foram educados. O Salvado tem e tu não tens.”
- “E achas que o ar encolhido e pouco aberto é que o caracteriza como bom gajo? Não te fies muito nos que são assim, podes ter más surpresas às vezes.”
Tinha acabado de fumar o cigarro.
- “Olha vou ali à caserna para ver como estão os do meu pelotão”. E afastei-me do poilão.

[1] Prato guineense de arroz com molho; o arroz cozinhado no geral como arroz branco; comida  (crioulo)
[2] O que acham da vaca’? (crioulo)
[3] Vaca selvagem (crioulo)
[4] Baili di baka-brutu.
[5] Terçado, espécie de espada de folha curta e larga, usada para cortar ramos, mas também como arma.
[6] Relatório militar, “relatório de incidente”
[7] Comando Operacional nº 3, situado em Bigene.
[8] Árvore de grande porte da Guiné.
[9] Espécie de pardal de cor amarela