Querida Júlia
Lembranças da Guiné, na guerra e já fora dela. Pesquisa, comentários e factos. A memória sempre presente. Não está por ordem. É conforme me vou lembrando. Tudo o que tem a ver com a Guiné, a sua história, as etnias, a colonização e as guerras de resistência. Também a minha experiência durante a guerra colonial (está nos primeiros posts). Para quem não sabe ou viveu que veja e avalie se é realidade ou ficção. Para quem sabe ou viveu são lembranças.
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5 de março de 2011
74-Querida Júlia
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24 de fevereiro de 2011
70-Mortos em combate da CCAÇ3 (antes 1ª CCAÇ)
A 1ªCCAÇ era uma unidade de guarnição normal, anterior a 1 de Janeiro de 1961. Em 27 de Outubro de 1966 foi colocada em Barro. Em 1 de Abril de 1967 passou a designar-se CCAÇ3.
a
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16 de fevereiro de 2011
61-A CCAÇ3 em Barro
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60-Emboscada... fracassada, e rezas.
Já era noite tarde e o capitão Alves dizia-nos:
- “Esta madrugada é preciso ir montar uma emboscada no corredor que vem de Sano por Bucaur. Vai o Aiveca e o Rodolfo. O Salvado fica cá”.
- “Esta madrugada é preciso ir montar uma emboscada no corredor que vem de Sano por Bucaur. Vai o Aiveca e o Rodolfo. O Salvado fica cá”.
Fiquei lixado e ele notou-o.
- “Há algum problema, Aiveca? Não quer ir?”
- “Não é não querer ir. Mas eu acho que o meu capitão podia ter-nos avisado com mais antecedência. Os meus homens não estão a contar, e sei lá se vão estar em condições quando os for acordar de madrugada”.
O Rodolfo meteu o bedelho.
- “É pá, um gajo vai à caserna e obriga os gajos a levantar, lavam a cara e toca a andar”.
- “Falas bem pelos teus fulas porque dormem com a barriga cheia de
água. Mas os meus dormem agarrados à cana[1], sabes bem, e não vai ser
fácil acordá-los”.
- “Eu sei disso”, voltou o capitão. “Mas não podemos andar por aí a anunciar as nossas acções com antecedência. Se eles sabem falam por aí, há informadores e lá se vai o segredo. Além disso, em vez de montarmos a emboscada podemos é ser emboscados. Houve um informador nosso que me disse que hoje, durante o dia, estava em Sano um grupo que se preparava para atravessar o Cacheu na zona de Limane e Suar. E vocês sabem que eles também hão-de ter informadores aqui”.
Era a mesma merda. Este gajo também tinha a mania dos segredos e de guardar as informações para si. Os alferes que cumprissem ordens, mesmo de olhos tapados. Eu já estava farto disso, já me tinha chegado a experiência de Sinchã Jobel. Falta de confiança em mim também não dava, lembrei-me da história da fotografia do quartel.
- “Mas acha que nós íamos dizer aos homens onde era o local da emboscada? Só lhes diríamos que tínhamos de sair de madrugada, para estarem preparados para isso.”
Não teve mais argumentos ou quis cortar a conversa.
- “Pronto, pá. Vocês vão até à zona de Bucaur, que é por onde eles vão passar”.
O Rodolfo ficou preocupado.
- “Mas Bucaur fica muito longe, capitão, e é capaz de não ser o melhor local”.
- “Tem de ser porque que me garantiram que eles passariam lá.”
Passou-me pela cabeça uma interrogação sobre a anormalidade deste diálogo, que eu sabia não ser comum nas unidades em campanha, onde prevaleciam o comando e o cumprimento de ordens, sem reticências, pelo menos com a forma como aqui as estávamos a expressar. Talvez porque este gajo fosse especial. E daí, não sei. Havia muitos como ele. Era do quadro permanente, sem experiência, chegara há pouco tempo, que remédio senão ceder ao que os alferes já mais batidos que ele opinavam. Eu sabia que tinha uma certa aura, por ter estado já noutra companhia, por ter sido ferido e por ter voltado para a guerra. Além disso, ele sabia da história de Sinchã Jobel e que o meu anterior capitão morrera por não ter seguido o meu conselho. Se calhar não sabia é aquela do imbroglio da operação Inquietar I, onde também tive papel na solução. Quer o Roberto quer o Salvado já eram gajos batidos nisto, já estavam ali há meses. E também me pareceu que ele ficou um bocado enrascado com a barraca que tinha dado ao piloto da dornier.
- “Desculpe lá, meu capitão”, senti-me autorizado a dizer. “Bucaur é um local muito complicado. Está muito perto da base que eles têm em Sano, na fronteira do Senegal, onde têm grande apoio, às vezes com bigrupos[2]. Lá, só com dois pelotões e longe de Barro, podemos ter problemas se houver uma forte reacção deles. Aliás, já os tivemos quando eu e o Salvado lá fomos uma vez. Ele que conte”. Mas como o Salvado não disse nada continuei. “De qualquer modo, as acções na zona fronteiriça eram a nível de operação, om mais meios e, normalmente, com PCV (Posto de Controlo Volante). Neste caso trata-se de um mero reconhecimento com emboscada associada. Penso que será melhor irmos para Limane e Suar.”
Os outros alferes apoiaram-me. Houve mais uma troca e ideias e o Alves acedeu.
Saímos eu e o Rodolfo com os grupos de combate era ainda madrugada. Tínhamos combinado colocarmo-nos na ponta da margem esquerda da bolanha entre Limane e Suar, por indicação do nosso guia Bailo. Segundo ele havia ali vários carreiros e era por um deles que chegavam ao rio de Indafo, um pequeno afluente do Cacheu. Aí tinham, às vezes, pirogas escondidas no tarrafe para chegarem ao rio maior. Era um caçador experiente com grande conhecimento da zona e de todos os meandros da mata e das margens dos rios.
Emboscámo-nos, eu mais perto do afluente e o Rodolfo mais à frente, com a preocupação de nos virarmos para o
carreiro indicado para não haver fogo cruzado entre nós.
- “Ó Rodolfo, parece-me que é melhor deixá-los chegar mesmo até ao rio de Injafo. Assim eu apanho os da frente e tu os de trás”. Concordou.
Ali ficámos mais de uma hora sem ver nada e em silêncio. Precavera-me para que ninguém levasse cantil e estava confiante que estariam todos despertos. Só o ruído da bicharada e o zumbir dos mosquitos, situação a que eu já me habituara e que para o resto do pessoal não era problema.
Chegaram as cinco da manhã e já começara a clarear. Dei ao Bailo uma indicação que eu sabia ser do seu agrado.
- “Sibi palmera pa jubi”[3].
- “Io, nossalfero”[4].
- “Ku kuidadu i atenson kakuba verdi”[5].
O Quecuta Seidi tinha sido mordido por uma cobra de palmeira numa perna e tiveram que lha cortar. Pareceu-me zangado com esta minha observação.
- “Bailo djiru, sabi fasi. A mim ka Quecuta”[6].
- “Tá bem, anda lá”.
Subiu à palmeira mais próxima e lá ficou. De vez em quando eu olhava para ele para ver da sua reacção. A certa altura fez-me um sinal e apontou para o carreiro.
- “Turras”[7].
Fiz sinal aos meus para estarem quietos. Espreitei pelo capim e vi a cerca de cem metros dois indivíduos desarmados que vinham pelo carreiro estreito. O Rodolfo tinha-os deixado passar como combináramos. Atrás deles não vinha mais nenhum.
De repente, oiço dois tiros perto de mim. Eram de mauser! Olhei para a palmeira e vi o Bailo de arma ainda apontada. Parte do meu pessoal levantou-se agitado de arma em riste. Gritei-lhes “firma la![8]” e saiu-me toda a fúria em português.
- “Ó seu filho da puta, quem é que te mandou disparar? Salta já cá para baixo!”
O Roberto e o seu furriel Aguinaldo chegaram a correr vindos das suas posições.
- “O que é que foi, Aiveca?”
- “Foi este cabrão de merda que disparou sem ninguém lhe dar ordens para isso”. O Bailo já estava ao pé, todo encolhido.
- “Makaku pretu, bu buru suma![9]”, gritei-lhe. Estava furioso e apeteceu-me bater-lhe, mas contive-me. Era uma ofensa maior do que chamar-lhe nomes. Ele já tinha feito uma idêntica, não comigo mas com o Salvado. Duma vez só despejara do cimo de uma palmeira os cinco tiros da mauser, e todos certeiros. Era caçador por paixão e atirador viciado. Havia um outro aspecto especial para mim, fez-me pensar em eventual prejuízo próprio. É que ele tinha quatro mulheres e algumas vezes lhe assumei à porta a perguntar pretensioso se dormia com as quatro. Não queria pôr em risco essas hipóteses preciosas. Enfim, dera-me cabo de tudo. Ajudei-me com a recriminação de mim próprio por não ter previsto que o gajo podia fazer isto.
- “Dá cá a merda da mauser! Nunca mais te quero ver à minha frente! Desanda”. Entreguei a espingarda a um soldado.
- “Estão ali à vossa frente um gajo morto e um ferido, tem um tiro de raspão na coxa”, dizia-me o Roberto. “Estão lá uns gajos meus ao pé deles.”
- “O Bailo teve fraca pontaria hoje. Não vinham mais nenhuns a seguir a estes?”
- “É pá, não. Mas, quando ouvi os tiros, mandei fazer uma batida à frente na mata para ver se estavam lá mais alguns. Mas não me parece. De qualquer modo, se houver deve ser só população civil dos gajos, se não tinham reagido logo com fogachal. O Aguinaldo vai lá ver…”. Virou-se para o Aguinaldo, mas este já não estava ali. “Onde é que este caralho se meteu?”
- “Deixa lá. Vou chegar os meus homens para o pé dos teus”. Dei ordem de avançar pelo carreiro.
Encontrámos os dois corpos. Um estava morto no chão e o outro sentado e agarrado a uma perna. Estavam lá três soldados e o Aguinaldo, que estava de joelhos ao pé do morto. Espanto meu. Rezava de cabeça baixa.
- “Que estás aí a fazer, pá?”, mandou-lhe o Roberto.
- “Tás nisso agora?”.
- “Deixa-o estar. Vou mandar os meus para ajudarem os teus na batida.”
Disse ao Sousa para avançarem para a mata e se juntarem aos outros.
Percebi o Aguinaldo, de seu nome completo Aguinaldo Kindi Baldé[11]. Era mullah, um clérigo muçulmano. Estava, portanto, no seu ministério para a ocasião, como um padre católico também estaria. Spínola já lhe tinha pago o Hajj[12], como o fez a outros na intenção de captar a boa vontade dos islâmicos para a guerra que travava. Estava orgulhoso de ser el hadj[13], desejo de todo o muçulmano devoto, e cumpria bem os dois papéis, clérigo muçulmano e furriel do exército português.
Percebi o Aguinaldo, de seu nome completo Aguinaldo Kindi Baldé[11]. Era mullah, um clérigo muçulmano. Estava, portanto, no seu ministério para a ocasião, como um padre católico também estaria. Spínola já lhe tinha pago o Hajj[12], como o fez a outros na intenção de captar a boa vontade dos islâmicos para a guerra que travava. Estava orgulhoso de ser el hadj[13], desejo de todo o muçulmano devoto, e cumpria bem os dois papéis, clérigo muçulmano e furriel do exército português.
Entretanto chegaram todos do lado da mata.
- “Como é que foi, Sousa?”
- “Oh, não havia nada. Os gajos devem ter-se pirado todos. Veja lá que nem deixaram nada para trás. Acho que não eram carregadores, senão deixavam o material durante a fuga. Devia ser só civis que se deslocavam do Senegal para o Oio.”
- “O informador do capitão é mesmo um grande artista”, chasqueou o Roberto
- “Porque é que aqueles dois viriam à frente?”, uma interrogação que já fizera a mim próprio.
- “Se calhar eram batedores que vinham ver onde estavam as pirogas escondidas no tarrafe.”
Talvez fosse isso, era uma explicação. Não me apetecia muito meter-me às cegas no meio do tarrafe, enorme e complicado, para ver onde estariam as tais pirogas. Mandei a secção do Fernandes dar uma vista de olhos.
- "Dêem só um salto ali à margem do rio Injafo. Não se metam para mais longe."
Olhei para o Roberto.
- "Dêem só um salto ali à margem do rio Injafo. Não se metam para mais longe."
Olhei para o Roberto.
- “É pá, eu acho que é melhor irmo-nos embora daqui. Já não estamos cá a fazer nada. Além disso, não é bom continuarmos numa posição estática. Vê lá se consegues que o Aguinaldo acabe de rezar. Fala-lhe com calma, tá bem?”
Vi que conseguiu que ele se levantasse. Todos se preparavam para ir embora, tinham levantado o ferido, que coxeava agarrado de um lado e do outro. Olhei para o morto no chão. Ninguém lhe ligava.
- “Como é que é? O homem não pode ficar aqui desta maneira. Vamos enterrar o gajo”.
Os balantas do meu pelotão olharam-me de soslaio. Filhos da puta, preparavam-se para me fazer o mesmo que em Sambuiá, quando apanhámos um ferido do PAIGC e se recusaram a transportá-lo, dizendo-me que os jagudis haviam de comê-lo. Com essa lembrança não havia crioulo que me chegasse.
- “É já, caralho! Ocha, Besna, Iofna, Bletche, venham cá.”
Vieram, trombudos.
Chegou o Fernandes a dizer que tinham encontrado uma canoa. Fomos ver. E lá estava ela e era preciso destruí-la.
- "Bazucada para cima dela. Todos para longe."
Partiu-se e afundou-se.
Regressámos depois a Barro com o prisioneiro.
- "Bazucada para cima dela. Todos para longe."
Partiu-se e afundou-se.
Regressámos depois a Barro com o prisioneiro.
[1] Aguardente de cana, querida dos balantas.
[2] De acordo com o livro Guerra Colonial: Angola, Guiné, Moçambique (Lisboa: Diário de Notícias, s/d), da autoria de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, um bigrupo tinha 38/44 unidades e um bigrupo reforçado 70 unidades. Na Inter-Região Norte, Frente S. Domingos/Sambuiá (onde se situava Barro, teriam 630 unidades.
[3] Sobe á palmeira para observar (crioulo).
[4] Sim, nosso alferes (crioulo)
[5] Cuidado e atenção à cobra de palmeira (crioulo)
[6] O Bailo é inteligente, é fácil. Não sou o Quecuta (crioulo)
[7] Terroristas
[8] Quietos! (crioulo)
[9] Macaco preto, pareces mas é burro! (crioulo)
[10] A oração muçulmana dos mortos para pedir a Alá que perdoe o falecido.
[11] Em 1974, após o 25 de Abril, fugiu para o Senegal. Foram lá buscá-lo e foi um dos fuzilados pelo PAIGC.
[12] Peregrinação a Meca.
[13] Expressão que pode ser colocada na frente do nome das pessoas que já fizeram a peregrinação a Meca
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8 de fevereiro de 2011
50-Exercício de defesa
Quando não havia mato tinha muitas vezes de pôr o meu pessoal a mexer. Por um lado, tentava evitar que o ocupassem com cana ou com cerveja demasiadas vezes. Não se tratava de proibição, nem pensar, não era bom, era mais um pretexto para que intervalassem. De qualquer modo, este era um meio que eu achava fundamental para os manter operacionais. Era uma preocupação minha, não já dos outros alferes cujos homens eram de outras etnias, abstémias ou mais comedidas.
Várias vezes me vali da organização de exercícios de defesa do aquartelamento e de tiro.
Um dia, quando já estavam formados e sabiam para que era, houve um, o Clode, que decidiu refilar.
- Nha kurpu nesesita diskansu[1].
É verdade que tínhamos passado a noite no mato, mas tinha de ser assim.
- Deixa-te de merdas. Bo ka nesesita diskansu pa suta iagu[2].
- Aan!
Não gostou.
- Bo ka kiri izersisiu, mbes bo misti diskansu ke ka ta kaba[3]?
Calou-se e os outros não disseram nada.
Houve uma cena interessante, salvo seja, quando foi o tiro de G3.
Necessitavam de treino porque era gente sem regras, de difícil controlo
quando debaixo de fogo. Sucedeu que o Etudja, o ermonsinhu[4] do Moba,
quando disparava de rajada sobre um alvo, virou-se para
o lado a gritar sempre com o dedo no gatilho.
- Alfero, não pára!
Cagaço geral, lançaram-se todos para o chão, eu também. Foi o próprio irmão que lhe saltou para cima e lhe arrancou a G3. Se não fosse, ainda, o seu físico e a sua má cara, o ermonzinhu tinha levado uma carga de porrada de todos.
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A. Marques Lopes
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6 de fevereiro de 2011
49-O ermonsinhu
Nessa noite não havia saídas para o mato. Eu e o Rodolfo já tínhamos andado todo o dia a bater a zona entre Barro e Bigene, sem nada de interessante que acontecesse, só canseira, calor e sede. Nem um tiro para animar. O Salvado tinha ficado para garantir a segurança ao quartel. Ficou chateado e tinha protestado quando lhe disseram que o jantar era dobrada com feijão. Paciência, pá, é o que há, disse-lhe o capitão. Não tinha caído nenhuma vaca nas armadilhas e as lanchas no Cacheu ou as DOs na pista há muito tempo que não largavam nada. Eu e o Salvado, todo o dia a rações de combate, aguentámos, até não era mau. Para mim, lisboeta, dobrada até era um prato muito aceitável, já estava habituado. Á noite podia ser um bocado indigesto, mas paciência. Até vou ver como é que o gajo faz isto, pensei. E fui para o pé do cozinheiro.
A dobrada era desidratada e vinha em latas grandes. O kusinheru[1] Assana abriu as latas e despejou-as para o panelão que já estava ao lume. Perguntei-lhe se não punha o arroz e o feijão. Riu-se para mim a dizer-me com o olhar que eu não percebia nada daquilo.
- Abo bu ispera dal ferba un bukadinhu, dipus miti aruz-pintadu.[2]
Tinha razão, eu não percebia mesmo nada de cozinhados. O espectáculo foi quando aquilo começou a ferver. Foi a minha vez de rir ao ver o Assana todo atrapalhado a evitar com uma colher de pau que as dobradas com o volume aumentado saíssem do panelão.
- Kaldu pintcha dobrada.[3]
Deixei-o com essa tarefa.
Contei esta cena ao jantar, foi galhofa geral que ajudou a mastigar a dobrada e a esquecer a trabalheira que tivéramos na pesca às formigas de asa que tinham caído às dúzias dentro dos pratos da sopa. Quando as chuvas começavam e elas saíam dos ninhos era fatal. E muito chato.
Fomos depois jogar à lerpa[4] na secretaria. O furriel Florindo, que estava de sargento de dia, entrou quando eu já tinha lerpado[5] três vezes.
- Alferes Aiveca, está aqui o Moba. Parece que há um problema qualquer com o irmão dele.
- Diz ao gajo para entrar.
A figura enorme do Moba assomou à porta. Tinha cara de poucos amigos, o que era normal nele. Não me admirei.
-O que é que bo misti[6]?
Saiu-se com um palavreado em balanta.
- Vai-te foder. Fala-me em português que eu não sou balanta.
- Nha ermonsinhu duensi[7].
![]() |
| Nunca consegui tirar uma fotografia dos dois em conjunto |
Tá bem. Ainda percebia alguma coisa de crioulo e o ermonsinhu deu-me para sorrir. Era para que me dava sempre que os via ou me lembrava dos dois irmãos tão díspares. O Moba era um matulão com cerca de um metro e noventa e o Etudja se calhar não tinha mais que um metro e sessenta e cinco. Além disso, este era mais novo, um rapazinho meigo e de boas falas, enquanto o Moba era um brutamontes sempre sério e pouco atreito a amizades. Achei
tanta piada a esta situação que tentei várias vezes tirar-lhes uma fotografia em
comjunto, mas o Moba nunca quis. Dizia-me que o Diancong[8] não permitia
conseguisse arranjar mulher. Não entendi bem, como me custara antes a
entender muitas coisas e costumes daquela gente da Guiné. Ele também não
me explicou. Porque não tinha explicação, eu sabia, era só da crença. Ainda
me cheirou a questões de homossexualidade mas não quis entrar por aí.
- Então vamos lá.
Emppurrei-o para fora da porta e fomos ao quarto dos furriéis. Estava lá o
enfermeiro.
- Ó Cristiano, venha aqui comigo que há um soldado que está mal.
O Etudja estava na parte de baixo de um beliche ao fundo da caserna. Tinha a
farda ainda vestida e os lábios ensanguentados. O Cristiano meteu-lhe um
termómetro e tomou-lhe o pulso.
- O pulso está normal. Vamos ver o que dá o termómetro. Como é que isto
começou?
Olhou para o grupo que se tinha juntado. Foi o Alcamussá que
respondeu.
- Sentou-se na cama, começou a tossir e a deitar sangue da boca. Está aqui o
pano.
Agachou-se e apanhou o lenço preto do Etudja. Estava manchado. Todos
examinaram e comentaram, o Cristiano também.
- São manchas de sangue. Vamos ver o termómetro.
Esperámos mais um bocado até o enfermeiro lhe tirar o termómetro.
- Tem 38. Não é muito.
- O que será isto?
- Não sei, meu alferes. Pode ser uma gastrite, mas também pode ser uma
hemorragia do estômago, sei lá. Era melhor ser visto por um médico. Se for
uma hemorragia no estômago é perigoso.
O Cristiano riu-se com a piada.
- Ó Cristiano, vamos mas é ali explicar a situação ao capitão.
Largámos, com o Moba atrás de nós. Ainda olhei para ele para o mandar
embora. Mas não. Vi-lhe a preocupação na cara dura, como já lhe vira antes os
trejeitos nervosos à volta da cama do ermonsinhu. Deixa ir.
Olharam quando empurrei a porta. Estavam ainda todos na lerpa.
- Meu capitão, o Etudja está com um problema grave e parece que precisa de
Um médico. O furriel Cristiano é que sabe.
- Parece-me que ele tem uma gastrite ou uma hemorragia do estômago. Não
sei. Mas era urgente ser visto por um médico se for uma hemorragia.
- É pá, mas só em Bigene é que há médico. Você não pode ir entretendo a
coisa até amanhã?
- Eu podia metê-lo com soro no caso de ser uma hemorragia. Mas não temos
já. Encomendei e estava à espera que a dornier o trouxesse hoje, mas ela não
apareceu. Parece que foi por não haver tecto[14], segundo me disseram.
Era verdade. Não tinha chovido, mas o dia tinha estado sempre muito
enevoado. Era a puta de situação em que estávamos. A comida escasseava e
agora até a merda dos medicamentos.
Engoli e saltou-me uma ideia.
- Meu capitão, proponho que agarremos nuns unimogs e levamos o homem ao
médico de Bigene.
Os olhos e a boca do Moba abriram-se num sorriso, coisa rara, e pareceu-me
que me queria dar um beijinho. Foda-se, isso não! Mas o capitão tirou-lhe
qualquer ideia do género, se é que a tinha.
- Você está maluco, Aiveca? Ainda outro dia rebentou uma mina e como é que
você quer que se vá picar o caminho no meio da escuridão que já está?
Vi que o Moba voltou à sua habitual cara de cepo. O capitão tinha razão. Fiquei
calado por momentos, todos a olhar para mim. De facto a minha ideia tinha sido
infeliz. Mas, espera aí, surgiu-me agora outra, vais-me chamar maluco outra
vez.
- Eu vou com o meu pelotão levar o Etudja.
- Porra, pá. Onde é que você tem a cabeça? Já lhe disse que não é possível
agora picar o caminho.
- Mas eu não vou de viatura. Vamos a pé.
Agora é que foi. Ficaram todos de olhos abertos a chamar-me maluco. Menos o
Moba, sorriu outra vez. O sacana, afinal, percebia bem português quando
queria.
- Você já viu a trabalheira em que se vai meter? Ainda por cima no meio desta
escuridão…
Deu-me para rir. Vi que ele não gostou.
- Desculpe, meu capitão, mas sabe bem que já estou habituado, já estamos
todos habituados, aliás. Noite sim, noite não, é o que fazemos. Esta não me
calhava, mas, paciência, vai ser mais uma. E estou pronto para sair outra vez
amanhã.
O Rodolfo apoiou-me, mas o Salvado não reagiu. Mas ele arranjou mais um
argumento.
- A questão é mesmo essa. Sair à noite em missão é uma coisa, mas o que
você quer agora não tem nada a ver.
O lambe botas do Salvado dizia que sim com a cabeça. Voltou-me a raiva que
senti quando ele me deixou sozinho em Ponta Nova. O Alves também já me
estava a chatear.
- É missão minha também, é de todos, garantir que os homens estejam em
condições de desempenhar o papel que lhes é atribuído, as tais missões
cometidas à companhia. Eu nunca abandonei ninguém em dificuldades, não
sou como alguns…
O Salvado puxou dum cigarro.
- …o meu capitão pode dar-me esta ida a Bigene como missão. Não será uma
iniciativa minha mas sim de toda a companhia. Se abandonarmos este homem
vai ter um efeito muito negativo. É bom que tenham consciência que nos
preocupamos com eles em todas as circunstâncias, quando estão doentes, por
exemplo. Além disso, eu sei que este homem aqui, o Moba, um bom soldado e
combatente, nunca mais será o mesmo. Se suceder alguma coisa de grave ao
irmão, não sei mesmo se não pensará em desertar. Vai ter efeito nos outros.
Pensem bem. Para mim, por mais que digam, até o general, estes balantas não
andam aqui por amor à camisola.
Acho que lhe toquei. Virou-se para os outros alferes.
- Calma aí, Aiveca. O que é que vocês acham?
O Salvado disse o que eu esperava dele.
- Ir para montar uma emboscada não é a mesma coisa que arrastar um ferido
na mata. Não há a mesma calma nem as mesmas condições de defesa.
Tive pena que me tivessem agarrado quando, já no quartel, após o regresso de
Ponta Nova, gritei com ele, de G3 em punho, por me ter abandonado lá.
O Rodolfo falou também.
- Meu capitão, eu acho que o Aiveca tem razão. Doentes ou não, temos
que nos preocupar com os nossos homens. Para mim há muita mais razão
quando estão doentes… ou feridos. É o que deve fazer um comandante.
O Alves ficou calado um momento, todos esperámos Pareceu-me que estava a
ficar convencido.
- Mas, então, ó Aiveca, como é que você pensa fazer isso? Daqui até Bigene
são treze quilómetros…
- Eu sei, meu capitão. É um pouco mais longe do que quando vou para os lados
de Canja, para Ponta Nova, ou para Suar, para os lados de Bigene. Não é
muito. Estou a pensar ir pela mata e não pela picada, pois, com as chuvadas
que tem havido, deve estar cheia de lama e covas, e complicava a coisa. Vou
evitar as bolanhas também, claro. Não vou passar pelos sítios que os turras
costumam usar, para não haver problemas. Mas, para isso, pedia ao meu
capitão para me deixar levar o guia Bailo, ele conhece bem toda esta zona.
- Tá bem. E como é que vai levar o homem?
- Aqui o Moba vai-se encarregar disso, não é?
Olhei para o matulão, ele abanou a cabeça que sim. Mas vi que tinha de
acrescentar mais para as dúvidas do capitão.
- Vai numa maca, o Moba mais o Blulé, o Iofna e o Watna, por exemplo, que
também são gajos fortes, vão-se revesando.
- Muito bem. Eu vou dizer ao cripto para mandar uma mensagem ao
comandante de Bigene.
Agradeci-lhe, formei o pelotão e arranquei para Bigene com o Etudja.
Correu tudo bem. É claro que foi impossível não passar por carreiros que eu
sabia serem utilizados pelos carregadores do PAIGC, mas, felizmente, porque
eu não estava interessado, não encontrámos ninguém. Mas houve um episódio.
Quando estávamos a meio do caminho, talvez, perto de Capal, ia eu à frente
com o Bailo, o furriel Sousa, que vinha perto da maca, veio ter comigo.
- O Etudja saiu da maca.
- O quê?!
- Ele quer ir a pé, diz que pode andar. Estiveram todos a discutir, o Moba
também, mas ele diz que quer ir a pé.
Fui ter com ele.
- Abo pudi anda[15]?
- Sim, alfero[16].
Perguntei também ao Moba.
- Ermonsinhu pudi anda[17]?
- Sim, alfero.
Estranhei, face à perspectiva que havia dos males do homem. Mas, aqueles
Gajos tinham grande capacidade física, tudo era possível. Se era assim, dei
ordem para andar.
Tinham passado mais de três horas quando chegámos a Bigene. O alferes
médico veio logo à enfermaria. Mandou-o deitar. Só eu e o Moba é que ficámos
ao pé da cama. Contei o que se passara, do sangue vomitado. Pôs-lhe um
termómetro, apalpou-lhe o estômago e o peito, virou-o de costas, pressionou-
as, auscultou-o durante alguns momentos. Encolheu os ombros e franziu os
lábios, sério, abanou a cebeça..
- Não vejo nada.
Juntou os sobrolhos primeiro, arqueou as sobrancelhas depois. Pegou numa
lanterna e mandou-o abrir a boca. Debruçou-se, iluminou lá para dentro e
observou.
Apagou a lanterna e endireitou-se, com um sorriso e ar descansado.
- O que ele tem é as gengivas com algumas feridas e infecções. O sangue era
daí. Acontece às vezes quando eles limpam os dentes com um pau.
Dei meia volta com a cabeça baixa. Imaginei o gozo do Salvado, até o capitão
se riria dos meus princípios de bom comando. Ia-me chatear com o Etudja?
Não. O que fiz tornaria a fazer. Teria é de ter mais cuidados. Aprender sempre.
Fui ter com o “doente”.
- Abo ferga dinti cu marmulanu[18]?
- Sim, alfero.
Filho da puta. Mas não adiantava mais. Tinha pensado pedir ao comandante de
Bigene para ficarmos lá essa noite. Mas agora não. O meu desencanto fez-me
dar ordem para regressarmos de seguida para Barro. Que se lixasse se na
noite seguinte tivéssemos de ir para o mato.
[1] Cozinheiro (crioulo)
[2] Tens de esperar que ferva um bocado, pões depois o arroz e o feijão (crioulo).
[3] A água a ferver empurra a dobrada (crioulo).
[4] Jogo de cartas muito comum na tropa.
[5] Perdido
[6] …tu queres? (crioulo)
[7] O meu irmãozinho adoeceu, está doente, caiu doente. (crioulo)
[8] Divindade dos balantas
[9] Categoria social dos balantas com 25 anos
[10] Categoria social dos balantas entre os 18 e os 20 anos
[11]O furriel enfermeiro já viu (crioulo)
[12] Não viu (crioulo)
[13] Base de apoio que o PAIGC tinha na fronteira, já dentro do Senegal. Ficava a 3km de Barro.
[14] As avionetas Do27 só tinham condições meteorológicas para largar, aterrar e voar se tivessem 5 km de visibilidade e 1500 pés de tecto de nuvens, isto é, se as nuvens estivessem cerca de 4,5 km acima do solo. Sucedia muitas vezes, no tempo das chuvas na Guiné, que as nuvens baixas e o nevoeiro não o permitiam. Havia pilotos que arriscavam em certas situações, mas nem todos.
[15] Podes andar? (crioulo)
[16] Alferes
[17] O teu irmãozinho pode andar? (crioulo)
[18] Friccionas os dentes com pau-ferro? (crioulo)
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
22:42
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