A descoberta do litoral africano entre a Serra Leoa e o Congo efectuou-se em circunstância que hoje são muito mal conhecidas, devido à escassez das fontes. Os elementos principais encontram-se em DUARTE PACHECO (c. 1505) e JOÃO DE BARROS ( 1552).
O progresso desta exploração está intimamente ligado à actividade de Fernão Gomes, rico mercador de Lisboa a quem D. Afonso V. em 1469, concedeu o arrendamento, por cinco anos, do comércio das novas regiões, com a obrigação de descobrir anualmente 100 léguas de costa.
A última viagem de descobrimento de que há notícia anteriormente a esta data é a de Pedro de Sintra, em 1461 ou 1462, em que foi atingido o Bosque de Santa Maria, perto do Cabo Mesurado (Libéria), segundo relata CADAMOSTO (1507).
A primeira expedição da iniciativa de Fernão Gomes, de que há conhecimento, partiu de Portugal em fins de 1470, chefiada por João de Santarém e Pero de Escobar, atingindo, em Janeiro de 1471, Shama, na Costa do Ouro. Ignora-se, porém, se esses navegadores foram mais além.
De preciso, as fontes actualmente conhecidas apenas dizem que a Ilha de Fernão do Pó foi descoberta, em data ignorada, pelo navegador deste nome, que lhe chamou Ilha Formosa (como vem no atlas de SOLIGO, 1486), e que os Cabos de Lopo Gonçalves e Santa Catarina foram descobertos, respectivamente, por Lopo Gonçalves e Rui de Sequeira, cm datas também ignoradas. Fora disto, as fontes apenas indicam claramente que João Afonso de Aveiro, em 1486, explorou a região de Benim.
DUARTE PACHECO (c. 1505) diz ainda que o Rio de Soeiro, entre o Cabo das Palmas e o Cabo das Três Pontas, deve o nome ao navegador Soeiro da Costa, não dizendo porém em que ano foi descoberto.
O mesmo autor, no delta do Níger, a leste do Cabo Formoso, indica um rio com o nome de Pero de Sintra, o que levou FONTOURA DA COSTA (1938) a concluir que este navegador (descobridor da Serra Leoa) também colaborou na exploração do Golfo da Guiné.
Vários investigadores se têm ocupado do estudo do descobrimento do Golfo da Guiné, procurando, apoiados nos escassos elementos documentais referidos, reconstituir a sequência dos acontecimentos. De entre os trabalhos mais recentes, citamos os de FONTOURA DA COSTA (1937, 1938 e 1940), BLAKE (1937 e 1942), PERES (1942) e BOUCHAUD (1946).
O nosso objectivo, na presente comunicação, é apresentar mais alguns novos elementos para o estudo do problema, Referem-se eles a três navegadores: João de Santarém, Diogo Cão e Fernão Vaz. Os dois primeiros já eram largamente conhecidos; o último mostraremos ter também contribuído para a exploração do Golfo da Guiné.
a) João de Santarém
Já se sabia, até aqui, que João de Santarém, com Pero de Escobar, descobrira Shama, em 1471.
Uma carta náutica anónima, da Biblioteca Nacional de Paris, não datada mas que deve ser de circo 1500, e que se tem atribuído a Cristóvão Colombo, mas se afigura antes ser portuguesa, regista, no delta do Niger. a leste do Cabo Formoso, um rio com o nome de João de Santarém. Este facto permite concluir que João de Santarém também contribuiu para a descoberta ou exploração do delta do Níger.
b) Diogo Cão
Em 1479-80 o flamengo Eustache de la Fosse, a bordo dum navio espanhol, fez uma viagem à Costa do Ouro, sendo aí aprisionado por uma frota portuguesa, de que fazia parte um navio comandado por Diogo Cão. Estes factos são descritos pelo referido flamengo numa relação de que recentemente R MALXY (1949) fez nova publicação.
Como o rei D. João II escolheu Diogo Cão para comandar as expedições que em 1482-84 e 1485-86 descobriram o litoral desde o Cabo de Santa Catarina à Serra Parda (no Sudoeste Africano), é lógico deduzir que o fez devido a qualidades reveladas anteriormente por Diogo Cão e que o recomendariam para tal encargo. É de admitir, portanto, em face deste conjunto de factos, que Diogo Cão colaborou activamente na descoberta ou na subsequente exploração das costas do Golfo da Guiné.
c) - Fernão Vaz
Ainda o mesmo Eustache de la Fosse refere que da frota portuguesa que estava em 1480 no Golfo da Guiné fazia parte um outro navio, comandado por um cavaleiro chamado Fernand de les Vaux. Esse navio foi a certa altura ao Rio dos Escravos (no delta do Níger).
BLAKE (1937 e 1942) julga que o nome Fernand de les Vaux constitui deturpação de Fernão do Pó, descobridor da ilha com esta designação.
MAUNY (1949) admite, porém, que se trate do nome português Fernão Vaz.
É esta última opinião a que julgamos mais provável, para o que nos baseamos nos dois factos que passamos a referir:
1) - Uma carta náutica de GASPAR VIECAS, de 1534, traz imediatamente ao norte do Cabo de Santa Catarina, um rio com o nome de Fernão Vaz. Essa designação manteve-se até hoje, trazendo as cartas actuais, nesse local, a Lagune de Fernan Vaz e a povoação do mesmo nome. Embora tal designação não apareça nas fontes anteriores a 1536 que consultámos - SOLIGO (1486), MARTELLUS (1489), MARTINHO DA BOÉMIA (1942), LA COSA (1500), carta anónima de Paris (c. 1500), CANTINO (1502), DUARTE PACHECO (c, 1505), KUNSTMAN III (post. 1506) - é possível que se encontre em outras que não vimos.
2) -O Manuscrito de VALENTM FERNANDES (c. 1507), na descrição da Ilha de S. Tomé, indica uma ribeira com o nome de Fernão Vaz.
Estes factos levam-nos a concluir que o Femand de les Vaux referido por Eustache de la Fosse deve ser o Fernão Vaz a que dizem respeito o rio e a ribeira mencionados.
Nestas condições, parece lógico admitir ter havido um navegador Fernão Vaz, que em 1479-80 comandava um navio em serviço no Golfo da Guiné, que esteve na descoberta ou exploração do Rio de Fernão Vaz no Gabão e que foi provavelmente um dos primeiros colonizadores de S. Tomé.
Avelino Teixeira da Mota, 2.° Tenente
(*) Comunicação apresentada à lII Conferência Internacional dos Af ricanistas Ocidentais (Ibadan, Dezembro de 1949).
