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9 de maio de 2011

150-Campanhas para dominar o "gentio" da Guiné - I

Retirado da "História do Exército Português", do General Ferreira Martins, publicada pela Editorial Inquérito, em 1945.
Luís Augusto Ferreira Martins, Nasceu em Lisboa, a 7 de Abril de 1875 e morreu em Algés em 26 de Junho de 1967.
 Frequentou o Colégio Militar, ingressando na Escola Politécnica de Lisboa, onde preparou a admissão à Escola do Exército, tendo concluído o curso de Artilharia e o de Estado-Maior. Em 1897 participou na campanha de Moçambique, regressando a Portugal em 1898. Em 1906 passou para o Estado-Maior do Exército. Foi nomeado Sub - comandante do estado-maior do Corpo Expedicionário Português enviado para a Flandres, no Norte de França, em 1917 durante a Primeira Grande Guerra. Terminado o conflito foi nomeado chefe do estado-maior do Campo Entrincheirado de Lisboa. Comandou o regimento de infantaria n.º 5, e a (1929-1933), a Escola Central de Oficiais. Foi a partir de 1938 vogal do Conselho Superior do Exército. Entre a sua vasta obra, além da "História do Exército Português", destacam-se os livros: Jogo de Guerra simplificado, em 1911; Portugal na Grande Guerra, em 1935, obra colectiva que dirigiu; O poder militar da Grã-Bretanha e a aliança anglo - lusa, em 1939. Foi um defensor da causa de Olivença..
"Gentio" era aquele que não professava a religião cristã, ou era pagão.



GUINÉ




São naturalmente insubmissos todos os povos negros que ocupam a Guiné Portuguesa, por muito diferentes que sejam, como de facto são, as suas origens, os seus caracteres, e os seus costumes mais ou menos belicosos. Daí resultam as inú­meras campanhas que os portugueses se viram forçados a realizar nessa possessão africana, para manterem nela a sua soberania; e o período de que estamos tratando foi relativamente fértil em lutas dessa natureza, que sucintamente apontaremos.



Sucessivamente, em 1844 e 1853, foram os grumetes e os papeis que se sublevaram ata­cando a antiga e mal guarnecida fortaleza de Bissau, tendo de intervir em auxílio das reduzi­das forças da defesa, de uma e outra vez, as guarnições de navios franceses, que muito contri­buíram para evitar o desastre das armas portuguesas.
Em 1871, numa rebelião de grumetes de Cacheu, perde a vida o governador Álvaro Caldeira, mas logo uma força portuguesa, num severo recontro em Cacanda, castiga o rebeldes assassinos.
Os anos de 1874 a 1879 são infelizes para os portu­gueses. Avultam neles o massacre de Bolor, em que indígenas da raça felupe chacinam uma força de 50 soldados e dois oficiais, e o desastre de Nhaera, em que ficaram impu­nes os balantas revoltados, por insuficiência das forças portuguesas, muito inferiores em número às dos revoltosos. Em compensação foram coroadas de êxito as acções em­preendidas nos anos seguintes: contra os fulas no seu ataque à praça de Buba em 1880, contra os fulas e futa-fulas de Forreá em 1882, contra os biafadas em 1883, e contra o gentio de Cacanda em 1884, sob o comando, respectiva­mente, dos oficiais Manuel Pedro dos Santos, Francisco José da Rosa, Eusébio Castela do Vale e Geraldo Victor.
Em 1886[1] foi renhida a campanha contra o régulo Mus­sá-Molo que atacou as populações de Geba, sendo dominado pelas forças do tenente Marques Geraldes, do quadro colonial, desfazendo-se a lenda que reputava invencível aquele régulo rebelde, sendo por esse facto promovido aquele ofi­cial a capitão por distinção. Novas operações se desenrola­ram em Geba nos anos de 1889 a 1891, sendo particular­mente importantes as que tiveram por comandante o capitão Zacarias de Sousa Lage, cujas forças, depois de ali terem dominado os rebeldes do régulo Mali-Boiá em recontros sangrentos, tiveram ainda energia bastante para socorrerem a praça de Bissau que na mesma ocasião se defendia, mais uma vez, contra os papeis. Esta defesa de Bissau em 1891 custou a vida, numa surtida infeliz, a dois capitães portugueses Joaquim Carmo de Azevedo e Nozolino de Azevedo, ao tenente Jorge de Lucena e ao alferes Honorato Moreira.
Mais uma vez, em 1892, o capitão Sousa Lage, "oficial destemido, temido e temível", como dele disse um seu camarada que o conheceu in loco, teve de comandar novas operações contra o Mali-Boiá que, tendo conseguido fugir em 1890 para território francês, regressava à Guiné e sublevava o gentio que lhe era afeiçoado, hostilizando povos que eram fieis aos portugueses. A campanha foi difícil, mas acabou por um violento castigo aos povos revoltados pelo régulo insubmisso.
Na madrugada de 8 de Dezembro de 1893, a praça de Bissau, que tinha então por guarnição uma das três companhias de polícia que constituíam a força armada do distrito autónomo da Guiné portuguesa (as outras duas guarneciam Bolama e Geba), foi atacada pelos papeis, cujo fogo incidiu sobre o baluarte da Balança. Apoiada pelo canhão-revolver da canhoneira Flecha, a praça res­pondeu vigorosamente, sustando o assalto. Repetido o ataque à tarde, foram de novo repelidos os papeis pelo fogo certeiro de uma metra­lhadora manejada pelo capitão Pessoa, e das peças da cortina e do baluarte da Onça, apoiado pela ca­nhoneira liberal, que neles fez apreciável ceifa.
Bissau continuava, porém, a ser constantemente inquietada pelos papeis, tornando. Se quase impossível aos portugueses "afas­tarem-se das muralhas sem correrem o perigo de um vexame", como escreveu Constantino Lima, ao tempo comandante da Flecha. Só os grumetes (papeis cristãos) podiam sair impu­nemente da praça.
Em 1894, para tentar mais uma vez domi­nar os rebeldes papeis, foi enviada de Lisboa uma companhia de guerra de Marinha, a pedido do governador, coronel de artilharia Vascon­celos e Sá, que pessoalmente comandou as opera­ções e as suspendeu ao fim de oito dias "julgando suficiente o castigo infligido", quando, de facto, só tinha conseguido a tomada de lntim pela companhia de Marinha, e o bombardeamento de Bandim e Antule pela artilharia dos navios.
Menos felizes foram, também, as operações que, sob o comando do tenente Graça Falcão, se efectuaram em Oio e Farim em 1897. Este oficial por duas vezes foi atraiçoado pelos auxiliares indígenas, que lhe fugiram com armas e munições, criando-lhe a difícil situação de se defrontar em notável inferioridade de forças com os rebeldes daquelas regiões, conseguindo da primeira vez retirar sem grandes perdas, mas não podendo evitar, da segunda, que o inimigo lhe trucidasse uma parte da sua pequena coluna, morrendo o tenente António Caetano e o a!feres Luiz António, e escapando da morte, quase por milagre, o próprio comandante.
Com a ocupação da ilha de Canhabaque, dirigida pelo 1.º tenente da Armada Bernardo Diniz Ayala, e levada a efeito, já em 1900, por uma força de irregulares transportada pela canhoneira Massabi, que previamente, auxiliada pela Flecha, bombardeou a ilha, terminaram na Guiné a lutas com as várias tribos rebeldes, que no século xx viriam a repetir-se, como adiante se verá.



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AS PRIMEIRAS OPERAÇÕES NO SÉCULO XX

Logo no começo do século xx, sendo governador da Guiné o 1º tenente de Marinha Judice Biker, teve ele de reprimir as revoltas dos gentios de Jafunco[2] (1901) e do Oio (1902), utilizando as poucas tropas de que dispunha e a valiosa cooperação das canhoneiras que prestavam serviço nas suas águas, e fazendo ainda colaborar auxiliares indígenas das regiões submissas. De idênticos elementos se serviu o novo governador Soveral Martins[3], também ilustre oficial de Marinha, antigo colaborador de Mouzinho em Moçambique, quando em 1904 se sublevou o gentio do Xuro (Cacheu), investindo regiões já submetidas à autoridade portuguesa e procurando contagiá-las da sua rebelião.
Todas essas operações foram conduzidas com o desejado êxito mas, como dantes, não completadas por uma ocupação efectiva suficientemente sólida, não conseguiam garantir o domínio das regiões castigadas. Bem disse o marechal Bugeaud: "Em Africa uma expedição não seguida de ocupação, não deixa mais vestígios do que o sulco de um navio no oceano”.
Os indicios de próxima rebelião eram manifestos, em diversas regiões da Guiné, nos últimos meses de 1907, quando já governava a Província outro oficial de Marinha, que tanto se distinguiu: o então 1º tenente Oliveira Muzanty, a quem se deve a ocupação da ilha Formosa, do arquipélago dos Bijagós. Compreendendo que nada poderia fazer, com carácter definitivo,  apenas com as escassas forças da Guiné, tratou o novo governador de requisitar tropas da metrópole para empreender com elas as operações necessárias para dominar a rebelião em perspectiva.
Enquanto o governador aguardava a chegada da expedição metropolitana, manifestou-se ostensivamente a revolta de alguns povos na margem esquerda do Geba, desacatando a autori­dade portuguesa, e atacando outros povos que a esta autoridade eram fiéis. Muzanty receoso de que a demora no castigo fosse incentivo para o alastramento da rebelião, resolveu não esperar pelas forças da metrópole para dar começo às operações mais urgentes. E assim, com os elementos de que dispunha e com a colaboração da marinhagem dos navios ali surtos, organizou uma coluna de operações. de que ele próprio assumiu o comando, e marchou sobre a região revoltada de Cohor.
a régulo desta região, o célebre Infali-Sancó, tinha desrespeitado o residente de Geba, quando este. em cumprimento de ordens do governador. pretendeu que os biafadas de Cohor entregassem as armas que desde 1901 tinham em seu poder. E o mesmo régulo, servindo-se dessas armas e conseguindo aliciar o gentio de Badorá e Chime, foi atacar o régulo Abdulai, que sempre fora (mais tarde deixou de ser…) dos mais fiéis ao governo português. Foi pois em socorro de Abdulai a coluna de Muzanty, sendo a mais notável das acções realizadas o combate de Campampe, onde se distinguiram os bravos marinheiros da canhoneira D. Luiz, no assalto à tabanca que era solidamente fortificada. Esta e outras tabancas foram destruídas, e assim conseguiu a improvisada coluna evitar uma revolta iminente de quase toda a região do Geba, cuja margem esquerda, entre Chime e Bafatá ficou então pacificada.

CAMPANHA DE 1908

Em princípio de 1908, um outro destacamento também constituído por praças de Marinha e outras europeias, com uma peça de arti­lharia e alguns auxiliares indígenas, foi encarregado de, sob o comando do capitão de estado maior Ilídio Nazaré, efectuar a reparação de linhas telegráficas danificadas pelos rebeldes na Quinara, reparação que não se efectuou sem que fosse preciso dominar pela força o gentio, que foi então duramente castigado.
Pouco depois, em Março, o capitão Botelho Moniz, comandando um outro pequeno destacamento em que também tomavam parte marinheiros juntamente com as poucas forças disponíveis do depósito de adidos e da companhia indígena de atiradores, foi encarregado de bater os felupes de Varela, que se negavam ao pagamento do imposto, e impediam a passagem de brancos pelas suas terras. O castigo foi rigoroso, sofrendo os rebeldes numerosas baixas.
Em 19 do mesmo mês de Março, chegava enfim a desejada expedição da metrópole, que levava apenas uma companhia de infantaria 13 (em vez de duas requisitadas). artilharia igualmente deficiente e mal armada (uma divisão do Grupo de artilharia montada), e uma força de engenharia, e ia desprovida de cavalaria porque alguém fizera crer, no Terreiro do Paço, que esta arma não podia operar na Guiné, e tanta falta veio a fazer, como algures faz notar uma testemunha presencial.
Viu-se assim obrigado o governador Mu­zanty a reforçá·la com uma companhia de Ma­rinha e uma companhia mista de infantaria (deportados europeus e atiradores indígenas), para poder constituir a coluna de operações que, sob o seu próprio comando (tendo por chefe do estado maior o capitão Nazaré e por adjunto o tenente D. José de Serpa Pimentel), iria bater o gentio da margem direita do Geba, que na campanha de 1907 tinha ficado impune.
Atravessado o rio em Bambadinca, travava a coluna, em 6 de Abril, o seu primeiro combate -combate de Ganturé - com o gentio biafa­da que se bateu bravamente, o que não impediu que fosse assaltada e incendiada a povoação, debandando o inimigo acossado pelos auxiliares grumetes[4]. Seguidamente dispersou-se a tiro o inimigo, que atacou a coluna em marcha sobre Sambel-Nhantá, e foi aí que, segundo o testemunho do então tenente Nunes da Ponte, comandante da artilharia, não foi possível efectuar a perseguição por falta de cavalaria, pois “os negros mais leves do que nós, e conhecedores dos caminhos, corriam um pouco mais; nem um só foi possível apanhar... ".
Por fim chegou a coluna à tabanca Madina, último reduto fortificado do insubmisso régulo, a qual, ao fim de meia hora de combate, era tomada e incendiada, fugindo os seus defensor . Nesse dia, 9 de Abril, hasteava-se a bandeira portuguesa no Cohor, e sabia·se que o Infali-Sancó se encontrava quase abandonado e sem prestígio.
Dias depois chegava de Moçambique uma companhia de infantaria macua… desarmada! Forneceram-se-lhe umas velhas Sniders, e com elas ficaram os macuas guarnecendo o forte de Caranqué Cunda, cuja construção estava quase concluida em 18 de Abril, quando o governador decidiu que a coluna seguisse para Bissau.
Ia agora defrontar-se com os papeis, que em 1894 o governador Vasconcelos e Sá não tinha dominado definitivamente.
Depois de bombardeadas pela artilharia da fortaleza de Bissau as povoações de Intim, Bandim e Antula, marchou a coluna, já bastante desfalcada, sobre Intim, onde foi violentamente atacada, acabando no entanto por ocupar a povoação que, como Bandim, atingida no mesmo dia, foi destruída. No dia seguinte, destacou da coluna uma força comandada por VeIosa Cama­cho (que já encontrámos em 1902 na campanha do Báruè) para Contume, celeiro natural da ilha, onde se supunha que os papeis tivessem guardado os seus recursos. À custa de um rijíssimo combate, que custou a vida ao jovem alferes Jaime Duque, conseguiu o destacamento destruir Contume e regressar à coluna.
Mas o inimigo não desarmara, e cerca da meia noite de 10 para 11 de Maio, de súbito a coluna, tranquilamente bivacada em quadrado, se viu cercada pelos papeis, que ao mesmo tempo atacavam todas as faces do quadrado. Acordados em sobressalto, todos tomaram os seus postos de combate e responderam ao ataque, que durou intenso até perto das 3 horas, quando os papeis e balantas, não menos de 4.000, e Iançaram furiosamente contra o quadrado, cuja admirável resistência evitou a rotura. E ao romper da manhã acabava o tiroteio, e o inimigo, fugido para o mato, fazia ouvir “cada vez mais distante o seu ulular selvagem” .
Com este violento combate de Intim (11 de Maio) terminava na Guiné a campanha de 1908.

OPERAÇÕES DE 1909

"Foi o balanta talvez o indígena que maior resistência opôs à expansão do propósito colonizador - escreve Carvalho Viegas na sua bela obra Guiné Portuguesa - enfrentando com decisão e valentia as colunas enviadas a submetê-lo. Muito destro no manejo da arma branca, foi sempre um inimigo de temer, nos recontros em que as armas de fogo não puderam contê-lo a distância".
Este foi o inimigo com que se defrontaram os portugueses em 1909 quando, na região de Goli, o gentio atacou na manhã de 21 de Fevereiro o posto militar fortificado, cuja guarnição conseguiu repelir o atacante.
Havendo indícios de que em breve voltariam os balantas a atacar o fortim, com mais numerosos elementos, manJou o governador Muzanty reforçar-lhe a guarnição com tropas de infantaria e artilharia, cujo comando assumiu o capitão Ilídio Nazaré. Parte desta guarnição saiu em reconhecimento, com um destacamento da 9ª companhia de guerra de Moçambique e auxiliares do régulo Abdul·Injai, tudo sob o comando do 2.° tenente de Marinha CasaI Ribeiro, sem que fosse atacada.
Mas em 4 de Março, em nova surtida de forças , sob o mesmo comando, foram estas forte­mente atacadas pelo inimigo, que conseguiram repelir até Barram: e os auxiliares, avançando sobre Dati, destruíram as povoações como castigo ao rebelde.
O general Carvalho Viegas[5], que durante oito anos governou a colónia , comenta no seu livro, quando se refere à qualidade guerreira do balanta: “isto revela mais uma boa qualidade que, transformada pela paz, foi enriquecer-lhe as faculdades de trabalho que ele dedica, hoje em dia (1936), inteiramente ao aumento da sua riqueza, e que, adrede cultivada, pode fazer dele um brilhante componente da tropa negra, para a qual e volvem actualmente a atenções de todos quantos têm por missão cuidar da Defesa Nacional”.
Não pararam em 1909 – muito longe disso – as campanhas na Guiné; mas as que se seguiram pertencem já à nova época histórica que noutro capítulo será tratada.


Em baixo, imagens existentes na "Nova História Militar Portuguesa", dirigida por Manuel Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira.




[1[Realizou-se em 1885 a chamada Conferência de Berlim que só reconhecia a soberania sobre as colónias desde que estivessem militarmente ocupadas. Daí a necessidade da dominação completa dos povos da Guiné, e das outras colónias. (nota minha)
[2] Tabanca dos Felupes a norte do rio Cacheu (nota minha)
[3] Alfredo Cardoso Soveral Martins, governador de 1903 a 1904 (nota minha)
[4] Os grumetes eram naturais da Guiné considerados civilizados, isto é, cristianizados que viviam com ou serviam os brancos. (nota minha)
[5] Luís António de Carvalho Viegas, foi governador de 1932 a 1940 (nota minha)

13 de março de 2011

80-Além de sangue, suor e lágrimas, além da juventude perdida... que mais de nós lá terá ficado?

Tinha feito há pouco 23 anos quando cheguei à Guiné, aos 20 saíra do seminário. Tinham sido três anos a procurar libertar o amor amordaçado com acenos de futuras delícias celestiais, às vezes, e, as mais das vezes, com ameaças de eternos tormentos infernais.  As palavras aprisionadas e apertadas em sapatos de normas e mandamentos divinos apenas serviam para dançar nos lotus do jardim do senhor e embevecer-lhe o olhar. Era o que ele desejava, que eu dançasse bem perante o seu olhar.
Depois, naqueles três anos, já não deram para quem eu queria então deslumbrar com os meus talentos. Vi, com amargura, que não tinha nenhum para o que verdadeiramente precisava. A Natércia, filha da burguesia empresarial, trocou-me por um contabilista da Standard Eléctrica, a eurasiática Ângela e minha colega de Letras, filha de um coronel, achou que eu não tinha nível e deixou-se enredar por um gajo de Direito.  Aqueles gajos do outro lado vinham muito ao bar de Letras, ali é que havia caça, e houve um que me levou a Ângela. Foi depois a Dinora, já eu estava em Mafra, que me puxou para trás de um reposteiro da casa dos pais, era terrível mulher, mas veio a mãe dela e descobriu-nos em situação que não gostou. Fui escorraçado e nunca mais me quiseram ver. Nessa fase da tropa veio também a Alexandrina.  Boa moça e bonita, mas era demasiado religiosa, teve até a ideia de me oferecer uma estatueta de Santo Expedito, é o patrono dos militares, disse-me toda entusiasmada. Mas eu não gostei, santos nunca mais, e decidi acabar. Os bares que frequentei e as suas mulheres, a orgia que fizemos antes de embarcar serviram-me para desforra.
Fui, então, para a guerra, da primeira vez, sem deixar saudades a ninguém nem levar lembranças para me entreterem a alma. Conheci em Geba duas miúdas fantásticas, a Maria e a Gabi, duas cristãs. Houve amor, muito amor, amor que eu desconhecia, amor doação sem outro interesse.  Não sei, talvez o meu ar juvenil e débil as cativasse, sabendo que eu andava horas e dias no mato.
- “Alfero, ka fudi, ka pudi panha bariga” (alferes, foder não, não posso ficar de barriga), diziam-me quando lhes tirava o lope (pano que substitui as cuecas, envolvendo as pernas e as nádegas; cobre-sexo).
- “Oh, não…”, eu decepcionado… e já excitado.
- “Oi, manga dele, alfero! (Oi, está grande, alferes)”, e riam-se a olhar para o meu estado, “disinketa, bu pudi fika diskansadu, bo sikidu. Maria (ou Gabi) fasi manga de coisas boa. (está calmo, podes estar descansado, está quieto, Maria (ou Gabi) vai fazer-te muitas coisas boas)”
Eram maravilhosas. O carinho que eu precisava no meio daquilo.
Da segunda vez fui para Barro, graças ao Quecuta, conheci a Uace e a Signi. Mulheres de fanado, eram mais calmas, menos excitáveis. Eu falava com elas e elas gostavam, de certeza que o Quecuta não lhes dava muita conversa na cama.
- “Alfero es bom (o alferes é bom)”, diziam-me.
Um dia saltou-me uma ideia à cabeça. E se uma delas engravida? Vai ser um bico de obra.  Achei por bem falar com o Quecuta.
- “Quecuta, ka problema si mindjer di bo ten fidju di branco? (Quecuta, não há problema se a tua mulher tiver um filho de branco?)”
Riu-se:
- “Uace, Signi ka ten  fidju di bo (Uace, Signi não vão ter um filho teu)”.
Fiquei espantado com tanta certeza.
- “O quê!? Como é?”
- “Quecuta ieki  dungut ris di bambu in liti di kabra (Quecuta desfaz uma raiz de bambu em leite de cabra).
Fiquei a saber que a raiz de bambu molhada em leite de cabra era uma espécie de anticonceptivo que usavam quando não queriam que as mulheres tivessem filhos. O Quecuta dava-lhes a comer dessas raízes.
Mas porque estou eu a divagar sobre isto? Aqui, sentado à varanda da D. Berta, não vejo nada porque Bissau não tem electricidade, deve ter faltado mais um vez o petróleo para os geradores. Só dá para pensar, e deu-me para isto porque cheguei esta tarde de uma visita a Barro, onde tomei conhecimento de duas situações que me tocaram muito.
Em conversa com o Bala Sani, filho do Quecuta Seidi, e depois de saber que o pai dele já tinha morrido, ele disse-me que havia na tabanca um “filho de branco”.
- “Manda-o chamar, que eu gostava de falar com ele”.
Disse a uns miúdos para o irem buscar, mas estes regressaram a dizer que ele não queria vir.
- “Então, vou lá eu”.
E fui, levando os miúdos todos atrás de mim.
Envergava uma berrante camisola do Benfica e pareceu-me de trinta e poucos anos. Achei-o pouco à vontade mas deu para falar.
Jorge Gomes
- “Chamo-me Jorge Gomes, tenho trinta e três anos. O meu pai é  Fernando Gomes, foi ele que me deu o nome”.
- “Mas ele sabe que tu existes?”
- “Sabe. Às vezes manda-me coisas”.
- “E porque não vais ter com ele?”
- “Ele não quer que eu vá para Portugal”.
Não quis aprofundar esta recusa do pai dele, mas interroguei-me interiormente sobre que razões poderá ter um pai para deixar um filho tão longe e não querer tê-lo perto de si.
- “E a tua mãe? Qual a etnia dela?”
- “Não conheci a minha mãe. Ela foi embora da tabanca quando eu nasci, os mandingas não a quiseram cá. Ela era mandinga.”
Imaginei, pela idade do Jorge Gomes, que o pai dele devia ser de uma das últimas companhias que esteve em Barro, senão mesmo da última. E talvez já depois do 25 de Abril. Fácil de calcular que o Quecuta Seidi, chefe da tabanca, não teria perdoado a esta mulher, certamente em idade casadoira e, se calhar, já prometida. Gostava de ter tido mais tempo para saber mais pormenores deste caso, mas o grupo que eu acompanhava estava com pressa e tivemos que partir.
Fomos a Bigene. Não sei se por transmissão de pensamento, se por mensagem de bombolon, se por telemóvel, sei lá como foi, mas em Bigene deparou-se-me um caso idêntico.
Bacar Turé
Tinha trinta e poucos anos.
- “Olá, eu sou o Bacar Turé”.
- “Viva, Bacar”.
- “Vocês estiveram em Barro. Eu também sou filho de branco, como o Jorge de Barro”.
Estava à espera de qualquer pedido, não disto. Mas deixa lá ver.
- “Quem é o teu pai?”
- “É o imediato Varela, médico do destacamento 21 dos fuzileiros que estavam em Ganturé (porto no rio Cacheu, a sul de Bigene)”.
- “Mas como é que sabes que ele é teu pai?”
- “A minha mãe disse-me. Já morreu, mas o comandante também sabe”.
- “O comandante?”
- “O comandante Calvão”
- “O Alpoim Calvão?”
- “Sim”.
Os marinheiros têm um amor em cada porto por onde passam, dizem. Mas Ganturé não foi um porto de passagem. O Alpoim Calvão não deve ter tratado este caso da melhor maneira.
- “Mas tu chamas-te Bacar Turé…”.
- “O imediato Varela foi-se embora e não me quis dar nome.”
Desta varanda da D. Berta olho para a avenida em escuridão total. E vi escuridão, além da guerra, em casos da nossa passagem pela Guiné. Será que o Fernando Gomes e o imediato Varela não tiveram a sorte que eu tive ou as precauções que me foram impostas? Ou assumiram relações, sem pensar nas consequências, porque sabiam que eram passageiras. Deixar para trás as consequências? Eu não faria isso. Talvez porque não tinha saudades de ninguém nem lembranças que me amarrassem. Eles teriam-nas, se calhar. Mas mesmo assim…

20 de fevereiro de 2011

68-As mulheres de Geba nos tempos antigos

 A circuncisão e a família em Geba, por Marcelino Costa Ribeiro (1885)

Há um péssimo costume gentílico inveterado no povo do presídio de Geba, o qual consiste em determinado tempo aplicar a circuncisão a ambos os sexos, operação a que em Geba dão o nome de fanado.

Esta operação, apesar de ser simples, carece de algum cuidado, e não é só empregada pelos selvagens, mas também por muitos da praça de Geba, que infelizmente têm o nome de cristãos e civilizados.

Na actualidade aquele costume está mais em uso entre as supostas donzelas, vulgo bajudas, de 12 a 26 anos, do que entre os mancebos, devido talvez à luz da civilização, que vai pouco a pouco penetrando nas camadas sociais, e que se prega na boa escola confiada ao digno missionário e pároco distinto, o sr. Luiz Baptista do Rosário e Sousa.

Infelizmente as bajudas não têm quem lhes ensine as boas doutrinas, adoptadas na lei de 1809, porque as suas amas, vulgo mestral, passaram pelo mesmo caminho, e deixam que as suas educandas sigam à risca as leis gentílicas, adoptadas pela nobre universidade de Sonaco (1) , aonde vão instruir-se.

Quem conhece Geba a fundo, e está em dia com os péssimos costumes ali adoptados, sente logo a diferença no número da população que reside no presídio, sem que ninguém lhe diga nada; esta diferença é sempre notável nos princípios de Dezembro, época em que as supostas donzelas vão para diferentes povoados perto do presídio, sujeitarem-se à circuncisão.

Algumas a quem os pais impedem a ida, lamentam a sua sorte, metem empenhos, e quando não conseguem a licença de se irem circuncidar, fogem aos pais, e vão para o sítio aonde está constituída a liga, sujeitar-se à operação ; evitando por este modo que amanhã sejam consideradas na alta sociedade de Geba como olmo (não circuncidadas). Eis aí a maneira como são educadas em Geba muitas, a maior parte, das raparigas oriundas daquele presídio, e filhas de pais da classe de grumetes (2).

Agora direi alguma cousa acerca dos mesmos grumetes, explicando a maneira como eles adquirem numerosos filhos e constituem família, sem serem muitos deles verdadeiros pais. É costume e uso inveterado entre os grumetes no presídio de Geba, terem 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 mulheres. A mais antiga em casa é sempre tida como dona da mesma, e poucas vezes se ausenta ; as outras quase nunca param em casa, vão para Fulacunda (3) (pequena povoação dos gentios fulas) fazer negócio, e aí se conservam.

Estas mulheres, chegando a Fulacunda ao mesmo tempo que se ocupam da venda de sal, tabaco e outros artigos que levam para os gentios, vendem-se também a si mesmas. No fim de alguns anos, algumas voltam à praça com 2 filhos, outras com 3, outras com 4, outras com 5, os quais, longe de serem mal recebidos em casa dos supostos pais, são tratados por estes como verdadeiros filhos!

Aqueles pequenos crescendo, começam a apelidar-se com o mesmo apelido; se os supostos pais se chamam Sambú, todos se apelidam Sambú, e se forem tio-Chico, todos seguem o mesmo, etc. No recenseamento que se fez em Geba no ano de 1882, notei na relação dos recenseados alguns grumetes com 15 filhos, outros com 19, outros com 21, etc. Explica-se pela circunstância que acima mencionei.
 Marcelino da Costa Ribeiro (Geba—Guiné), in Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. 1885, pp. 277-278.

Costa Pessoa (Geba — Guiné), in Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. 1882, pp. 27/28
Notas:
(1) Será Sonaco na zona de Gabu? É que também há Sonaco, no Senegal, perto de Barro.
(2) Os grumetes eram africanos que, vivendo nas povoações luso-africanas e adoptando com grande liberdade os hábitos cristãos e os modos lusitanizados de ser, operavam como remadores, construtores e pilotos de barcos, carregadores e auxiliares no comércio. Como categoria sociológica, eles desempenhavam um papel chave no frágil compromisso em que a sociedade crioula se fundava, sendo os intermediários que faziam a delicada mediação nos relacionamentos entre a minoria de comerciantes europeus e luso-africanos e os régulos das sociedades tradicionais africanas que produziam bens para exportação (Wilson Trajano Filho, da Universidade de Brasília, in Outros Rumores de Identidade na Guiné-Bissau).
(3) Há uma tabanca Fulacunda, na zona de Geba; há outra Fulacunda na zona de Buba; e há também uma Fulacunda na Casamanse, Senegal.

Beldades de Geba, por Costa Pessoa (1882)

Quando saí de Lisboa em Outubro de 1879 com direcção á Guiné portuguesa, julgava, senão impossível, pelo menos difícil encontrar indivíduos da raça preta que me parecessem bonitos; mas logo que cheguei a Bolama e Bissau desenganei-me e muito mais depois que, navegando no rio Geba, vim parar à povoação deste nome.

É realmente interessante ver chegar a este presídio todos os dias grandes ranchos de fulas, fulas-forras e mandigas (mouras) dentre as quais aparecem tipos tão bonitos e regulares, que muitas damas da nossa terra invejariam (salvo a cor).

Principalmente dentre as fulas-forras, tribo de cor bronzeada, aparecem raparigas de rosto comprido, nariz aquilino, pequeno, lábios delgados, olhos vivos, apresentando um conjunto agradável e simpático.

O seu vestuário é o mais simples possível, consiste unicamente em um pano de algodão de 0,5m de largura, algumas vezes enfeitado com contas, que passam à volta da cintura. No pescoço e tornozelos trazem também muitos fios de contas e nos pulsos quantidade de manilhas. Do cabelo fazem um penteado em forma de barco com a quilha para cima, que vai desde o alto da cabeça até à nuca, deixando áà volta na testa e nas fontes pequenas tranças a que prendem fios de comas com moedas de prata nas extremidades.

Deu-se um dia comigo um caso engraçado : Estando eu sentado à porta de um negociante deste presídio, vi chegar um rancho de fulas que vinham fazer o seu negócio. E entre elas havia uma que sobressaía mais do que qualquer outra por ser mais bela e vir mais enfeitada. Chamei-a : ela aproximou-se e comecei então a examiná-la sem que ela a isso se opusesse; porém uma rapariga cristã, que se achava entre elas, diz-lhe :
— Repara que isto não é homem, é um boneco de molas movido por aquele (designando o negociante).
A fula retorquiu-lhe :
— Não, ele fala, tem olhos e cabelo.
— Tudo é postiço, e não diz coisa que se entenda, respondeu a cristã. Tu percebes alguma cousa do que ele diz ? Já viste homem tão branco ? (Eu era o único europeu que então me adiava em Geba, mas em Portugal não passava por ser dos mais brancos).
A esta última quartada fugiu a rapariga. Não se aproximou mais de mim, e hoje seguem todas aquele exemplo.

14 de outubro de 2010

5-Operação "Jigajoga"




OP."JIGAJOGA"  24JUN67



SITUAÇÃO PARTICULAR: 
O IN tem-se revelado em operações realizadas no regulado de MANSOMINE, ataques a tabancas a aquartelamentos e outras flagelações. Deve existir algum acampamento que lhe sirva de base para a execução de acções sobre as NT e populações que nos são fieis.

MISSÃO: 
Assegura a ocupação do Sector, tendo em atenção os regulados da faixa OESTE e as linhas de infiltração que conduzam ao interior. Detecta, vigia ou captura elementos ou grupos suspeitos de subversão que se hajam infiltrado ou constituído no sector, impedindo que a subversão alastre. Captura ou aniquila os rebeldes que se venham a revelar, destruindo as suas instalações ou meios de vida e restabelece a autoridade e a ordem nas regiões afectadas.

FORCA EXECUTANTE
a) CMDT: Cap. Art.ª Manuel Carlos Guimarães
b) MEIOS: 01 GR.COMB. da CART1690 ref. com 01 PEL. MIL/C. MIL. 3 01 PEL do EREC 1578

DESENROLAR DA ACÇÃO
O PEL REC/EREC 1578 saiu de BAFATÂ pelas 05H00 tendo-se-lhe reunido em SARE GEBA os GR. COMB. da CART1690 e em SARE GANA o PEL. MIL. Entretanto o Dest. da C.MIL.3 em SARE MADINA efectuava a picagem do itinerário SARE MADINA Ponte R. GAMBIEL. Em SUCUTA (MADINA FALI) o Dest. A iniciou a progressão apeada em direcção a SINCHÃ JOBEL e o Dest. B o patrulhamento do itinerário CHEUEL - Ponte R. GAMBIEL. Depois de atravessar a bolanha de SUCUTA o Dest. A detectou pegadas bastantes recentes, deduzindo que se tratasse de una sentinela IN. Junto a SINCHÃ JOBEL as NT foran emboscadas por um GR. IN. numeroso com mort. 82, LGF, MP e Amas Aut. tendo sofrido um ferido grave e 5 feridos ligeiros. Da reacção das NT o IN sofreu 3 mortos confirmados e 3 prováveis.
En consequência do pequeno efectivo das NT, da manobra efectuada com peque nos grupos, do grande potencial de fogo IN e da mata bastante densa desa pareceu o Cmdt. do Dest. A, Alferes Lopes, que havia saído de um grupo de manobra para ir a outro trazer um L.G.F.. Como o grupo já não se encontrasse no local previsto pelo Cmdt do Dest A este viu-se sozinho e a ser alvejado pelo fogo IN pelo que se internou na mata. Pelo que em cada grupo se pensava que o Cmdt. estava no outro, não foi dado grande importância ao facto. Só depois de reunidos todos os grupos se verificou a falta do Cmdt. O furriel agora Cmdt. do grupo de combate, resolveu, porque sendo o seu efectivo reduzido, para o potencial de fogo IN porque tendo 6 feridos, um dos quais grave e tendo ainda LGF avariado, regressar a SUCUTA para pedir reforços. Em SUCUTA onde já se encontrava o Dest. B ao corrente do sucedido por via rádio, foi resolvido pelo Cmdt. da CART1690 pedir reforços ao Comando do BCAÇ. 1877.
Comunicado ao Comando do BCAÇ. 1877 saiu imediatamente um GR. COMB./CCS constituído pelo PEL. REC. Inf. e pelo PEL. Sap. que juntamente com forças da CART1690 efectuou uma batida na área de SINCHÃ JOBEL até cerca das 21H30 sem resultado e sem contacto com o IN. As forças empenhadas na batida e o PEL. EREC., que estava a fazer a segurança às viaturas e o patrulhamento do itinerário CHEUEL-Ponte R. GAMBIEL regressaram a GEBA e BAFATÁ cerca das 23H30.
Pelas 09H30 do dia 25 saiu o GR. COMB./CCS/BCAÇ.1877 que juntamente com as forças da CART1690 iriam novamente bater a zona de SINCHÃ JOBEL. Ao chegar a SARE GEBA foi-lhes comunicado que o Alferes Lopes já tinha aparecido, tendo o GR. COMB/CCS regressado a BAFATA.

RESULTADOS OBTIDOS
-A detecção de um grupo IN numeroso e bem amado na região,
-A morte confirmada de 3 elementos IN e 3 mortos e alguns feridos prováveis.

Este foi o relatório feito pelo capitão Guimarães, comandante da CART1690, mas não foi bem assim. Mas eu vou agora contar como foi de facto, desde o princípio, como nunca tenho feito (já o fiz para outros blogues mas não tão completamente):
Na véspera, dia 23, fui chamado a Bafatá para estar no Agrupamento 1980. O, então, TCor Hélio Felgas (que substituía o Cor Assa Castel-Branco que tinha ido à Metrópole tratar-se, parece) foi quem falou comigo. Que era uma operação de rotina, que não havia problemas, que a companhia anterior já lá tinha ido, que era melhor levar uma corda pois era preciso atravessar um rio profundo, blá, blá, blá... Nem de leve aflorou a hipótese de poder haver lá uma base do PAIGC. No entanto, como se vê pela "Situação Particular", já suspeitavam ou sabiam mesmo pelos informadores. Surpresa só para mim. Mais tarde, já depois disto tudo se ter passado, deu-me para ir ver o que queria dizer "Jigajoga". E vi o que estava no dicionário: "Jiga-joga,s.m. Antigo jogo de cartas. Jogo da cabra-cega. Fig. Coisa pouco firme; engenhoca. Ludibrio." E vi que foi dada à operação o nome adequado: para o Agrupamento, admito, era uma coisa pouco firme, mas para mim foi um jogo de cabra cega e um ludibrio.
Mas avante. No dia seguinte lá parti com o meu grupo de combate, acompanhado por aquela gente toda como "Força Executante". No entanto, só eu e os meus homens é que atravessámos o tal rio profundo, acompanhados por um guia. Era o rio Gambiel, com cerca de trinta metros de largura e o guia disse-me que "a ponte" eram dois troncos de palmeira que estavam submersos (já tinham começado as chuvas). A corda afinal valeu-nos. Todos agarrados a ela, adivinhando cuidadosamente onde estavam os trocos de palmeira, chegámos à outra margem. Aí vi uma pegada de sandália. É pegada de turra, disse-me o guia.

Sentinela. É uma fotografia do PAIGC. O rio era como este e eram estas sandálias que deixavam marcas.


Vamos embora, ordenei, e avançámos pelo que parecia um carreiro estreito no meio do matagal. Do solo, da vegetação luxuriante desprende-se um vapor que paira e envolve o ambiente. É o calor acumulado durante o período seco. Há quem lhe chame cacimba e quem diga que é prejudicial à boa saúde das vias respiratórias... mas, aos 20 anos, não há cacimba que impeça de andar. A bicha de pirilau, ao longo de quase trezentos metros, pondo em relevo, na paisagem verde, todas as sinuosidades do antigo carreiro já quase totalmente coberto, movia-se como um réptil enorme, segmentado e escamoso. O silêncio profundo e agradavelmente sombrio da mata era apenas cortado pelo roçar das botas de lona e dos camuflados pelas ervas e folhagens que acompanhavam o carreiro. Ambiente para piqueniques e amor. Na hora em que o intenso sol tropical só conseguiu ainda afastar e diluir a luminosidade doentia libertada durante a noite por aquela vegetação farta de clorofila, mantinha-se o meio termo da frescura agradável que faz da Guiné um dos locais mais belos e repousantes às sete horas da manhã...
Eu ia à frente, uma parte de mim divagava poesia mas a outra estava atenta e dava indicações de marcha. E, algum tempo depois, deparámos com uma clareira larga, tinha alguns indícios de que tinha havido ali uma tabanca (aldeia), poucos e pequenos restos de moranças (casas), tinha muita vegetação curta, pelo facto mesmo de ter sido abandonada. Estava cercada por mata, do lado direito havia várias bananeiras. Juntámo-nos e eu disse a dois furriéis: vocês ficam aqui, não atravessam, eu e a secção do Ribeiro vamos atravessar a clareira. Um sexto sentido? Talvez. Levei também o apontador de morteiro 60 e o radiotelegrafista.
Avançámos. A meio da clareira, quando chegámos ao pé das bananeiras, saltou de lá um gajo com uma PPSH (pistola metralhadora de fabrico soviético) e desatou a correr. Não disparem, disse eu, agarrarem-no. Dois soldados correram atrás dele, mas ele tinha asas nos pés. Foi então que começou o fogachal, metralhadoras ligeiras e pesadas jorraram fogo do outro lado da clareira. Acoitámo-nos por trás de um grande morro de baga-baga que estava perto. A baga-baga é uma formiga que constrói isto:



Ali ficámos, o tiroteio continuava, nós respondíamos, mas já caíam também morteiradas. Disse ao homem do nosso morteiro para disparar também, mas, logo à primeira, o morteiro enterrou-se no chão. Não leváramos o prato base, nunca levávamos porque era muito pesado e um martírio para transportar naquelas matas e debaixo do calor, e as chuvas já tinham amolecido o chão. O baga-baga era um bom abrigo, as balas e os estilhaços das morteiradas chispavam nele, mas não podíamos continuar assim. Disse ao Ribeiro para ligar ao Marcelo com o Sharp (pequeno transmissor para comunicação entre secções) e dizer para mandarem bazucadas para o outro lado da clareira. Tentou e disse-me que não dava. Esta merda é sempre assim, barafustei, quando é preciso nunca funciona. Dá cá isso que eu vou ver se dá noutro lado. Saí do baga-baga e rastejei mais para o meio da clareira por entre umas ervas altas. Fiz várias tentativas, as balas e as morteiradas continuavam a chover. Mas continuou a não dar nada, e rastejei novamente para o baga-baga. Não me vi, mas devo ter ficado branco e de boca aberta: já não estava lá ninguém. Estava sozinho no meio da tormenta, que continuava.
Ali, deitado sobre a terra, desejoso de nela me afundar, como quem dorme com mulher, deixei a minha condição humana. Ali fiquei, alapado como um coelho que segue os passos do caçador à espera do momento oportuno para fugir. Levantei a cabeça e espreitei por cima do capim alto que rodeava o baga-baga. Tendo abandonado as suas posições de combate, os guerrilheiros avançavam em linha ao longo da clareira, lançando rajadas curtas de costureirinhas (nome por nós dado às PPSH, por o seu disparo parecer o trabalhar de uma máquina de costura) e kalashs (espingarda metralhadora AK-47 ou Kalashnikov, de fabrico soviético). Estou a vê-los, numa imagem de ocasião, sem saber ainda se é real se imaginária: fortes, atléticos mesmo, em passadas decididas, senhores da vitória. Despertou em mim o animal cujas reacções são comandadas pelo instinto de sobrevivência e, ao mesmo tempo, o animal especial que eu era: o animal domesticado que eu era para reagir a determinados sinais e estímulos. Mais do que um naturalista, estou agora apto a compreender todo o mecanismo de comportamento do animal encurralado por numerosos caçadores. Não há computador electrónico, por mais perfeito e programado, que consiga dar a solução tão acertada e rapidamente como o maquinismo instintivo da sobrevivência, aliado ao treino para reagir às mais variadas situações. Decidi rastejar até à orla da clareira. Mas, antes, lixado com a maçariquice de andar com eles, enterrei os galões camuflados que usava (nunca mais os usei). Achei que não me servia ali a Convenção de Genebra, que o meu futuro de prisioneiro seria melhor se não soubessem o meu posto... Estranho, agora, como é que fui assaltado por essa estúpida ideia de avaliar nesses termos a enrascada em que me encontrava.
E fui rastejando, mas, coisa que nunca imaginei que fosse possível, nem nunca acreditei que fosse mesmo quando o via nos filmes, ouvi um silvo agudo no ar, levantei a cabeça e vi uma granada de morteiro em direcção a mim, nem pensei, dei três voltas para o lado a rebolar, ela enfiou-se na terra mole do sítio onde eu tinha estado, vi de esguelha o rebentamento. Cabeça entre os braços, fiquei agarrado ao chão, continuei sem pensar durante instantes.

Mas tive de pensar e continuei a rastejar até à orla. Aí, fiquei sentado ao pé de uma palmeira jovem, ainda baixinha, tapado pelas ramadas que tocavam o chão.

E vi, depois, que eles tinham chegado ao sítio onde tínhamos estado. Manga de ronco (grande festa), desenterraram o nosso morteiro, agitavam uma pistola, pensei logo que devia ser a do radiotelegrafista, que a terá largado antes de fugir, e gritavam alegremente "alferes Lopes, alferes Lopes" passando um cinturão de mão em mão. Fiquei banzado e levei as mãos à cintura. Vi que era o meu cinturão, que tinha o meu nome escrito, e que se me soltara quando eu rastejava. Fiquei raivoso por isso, vi que tinha três carregadores de G3 (a nossa espingarda metralhadora) e passou-me pela cabeça começar a disparar sobre eles, mas ponderei que eram muitos, mais que os dez que eu vira antes avançar do outro lado da clareira, e achei por bem ficar quieto. Seria abatido com certeza, mesmo que levasse alguns à frente.
Assim fiquei alguns minutos. Quando vi que o grupo deles dispersava e que começavam a bater o terreno, decidi sair dali, com receio que me encontrassem, rastejei por entre algumas árvores que estavam perto, fui dar a uma bolanha (pântano) e entrei por ela. Tinha capim alto e a água dava-me pelos joelhos. Sentei-me a meio, tapado pelo capim. Eram umas dez horas da manhã.
Estive ali de molho todo o dia. Ouvi várias vezes ruídos e falares crioulos. Não eram os meus, nunca mais os ouvi, e julguei melhor não me levantar e caminhar pela bolanha, muito menos pela mata, seria visto, pois sabia que eles andavam por ali. Mas tive tempo de estudar o mapa da zona que tinha trazido comigo e decidir quando sairia dali, por onde ir e para onde.
Fiquei lá toda a noite também. Longa noite que começou cerca das seis horas da tarde. Fui-me distraindo com os mosquitos... Ouvi uns ruídos também durante esse tempo de escuridão. Pensei que seriam eles. Mas, se calhar, não. Disseram-me mais tarde que os nossos tinham ido lá a minha procura durante a noite. Sobre isso, um meu amigo furriel da companhia deu-me um texto que escreveu:

«O resgate falhado do Alferes Lopes
ou
O outro lado da mesma noite, a inesquecível 24.06.67.
Celebra-se, todos os anos, nesse dia e mês, na minha terra, num recanto Alentejano, o Feriado Municipal, dia de S. João, com os manjares gastronómicos e as folias próprias desse evento e que, em 1967, por ironia do destino, para além de tudo, não me deram tempo para recordar ou ter saudades. (perdoem-me a simbiose).

O Lopes sempre foi um gajo porreiro. Mas, nessa tarde, chegou-nos a triste notícia que tinha desaparecido em combate e era preciso unir esforços e trazê-lo para junto de nós.
Organizou-se, quase por instinto, um grupo não muito numeroso, já que em Geba, sede da Companhia, também não eramos muitos e assim, alguns de forma voluntária e outros por imposição (os mais desfavorecidos ou sejam o zé soldado e o preto) que, santo Deus, se dirigiu a Sinchã Jobel no final dessa tarde e lá se conservou durante uma parte da noite. Em vão é verdade, mas Ele (não o Deus) merecia o nosso sacrifício e dedicação.
Pensei nesse momento fantasmagórico e hoje, algo distante, confirmo que só os loucos, cegos pela guerra, poderiam ousar tamanha e desmedida aventura.
Aquilo que se passou, na tentativa de o recuperar, foi medonho, horrível, de tal forma que não consigo concentrar-me suficientemente para retratar o vivido na noite que considero a mais longa da minha permanência na Guiné. (tantas de autêntico inferno)
A descrição sentida e fabulosa que o Lopes, através da Net, nos transmitiu sobre a sua sobrevivência, (qual quadro real ?) quase me parece pequena comparada com o terror que se apoderou de mim e daquele grupo esforçado e socorrista.
Confesso que os minutos naquela clareira e as peripécias ali estabelecidas se tornaram do tamanho das horas, dias ou meses, tal a confusão gerada, essencialmente, por negligência do Comando ou o receio persistente de continuarmos vivos, naquele perigo, no mínimo, imaginativo.
Só quem nunca ouvira relatos da realidade de Jobel (mais tarde um dos cemitérios da 1690) e não era o caso, arriscaria perder todas aquelas vidas humanas. O caos era tanto que pediu opinião a um soldado nativo sobre o procedimento a tomar (estavam no local pelo menos 1 Alferes e 3 ou 4 Furriéis). Falo deste Comando porque foi o primeiro morto branco da Companhia, no rebentamento descuidado da mina que também vitimou o Alferes Lopes e que acabou por o trazer para uns meses de recuperação no H.M.L. Por ironia, habituei-me a pensar, a partir desse momento, que me tinha saído a sorte grande e que interiorizei, verdadeiramente, como que, mesmo que me matassem eu não morria, tais as obrigatoriedades operacionais que me impunha. O “senhor da guerra” entendia, entre outras coisas, que os outros militares do serviço de saúde não lhe mereciam confiança e então o Furriel (eu) tinha sempre de avançar. Enfim, contingências daquela guerra que, já na época, não eram compreensíveis ou aceitáveis.
Situando-me no momento, admitia eu que a nossa localização estivesse quase como a carne no assador, mas felizmente (quase um milagre) ninguém deu um tiro, porque em caso contrário, acabávamos por nos matar a nós próprios, já que a noite era de breu, não se vislumbrava um palmo para além dos nossos olhos e ali ninguém se entendia, imperava o desnorte, o medo e a incógnita.
Haverá, hoje, e referente à fase citada, uma multidão enorme, quase do tamanho do mundo, que não entende os perigos que nos envolviam e que do seu resultado dependia, para nós todos, a sobrevivência ou a morte.
Depois e para nosso bem (excluindo o Lopes) iniciámos a caminhada de regresso em silêncio, agarrados uns aos outros, embora com o enleio do emaranhado da mata cerrada, tivessem sido provocadas quedas e despegamentos, qual prolongar da odisseia, pelo que só no fim nos conseguimos juntar todos.
Quase me apetece parar, nesse presente tempo e concluir que afinal, para os bafejados pela sorte ou protegidos por algo, não decifrável, a vida continuaria.
Fomos, nessa noite, efectivamente, uns “sortudos”, mas, não me restam dúvidas, estivemos à beira de engrossar o vasto número dos desaparecidos ou mortos em combate, já que considero que enquanto lá permanecemos, coabitámos, paredes meias, com mortes anunciadas, que para bem de todos os intervenientes, nos foram perdoadas.
P.S.
Apercebo-me que a memória já não me vai confortando com muitos factos ocorridos, há mais de 40 anos e, confesso, isso me debilita em termos de me considerar perdedor de parte do vasto património da minha vivência.
Apesar de, contrastando com essa realidade, reparar com muita nitidez, que se mantêm bem transparentes quase todas as imagens daqueles tempos distantes e pernoitados na Guiné, onde, pura realidade, jamais sabíamos se o sol do dia seguinte ainda tinha algo que nos pertencesse.»

Passei toda essa noite a ruminar ideias. Que mais fazer?... Dizem que nessas situações em que a vida nos está ou pode estar a escapar nos viramos para aquela que já está, que já foi, que não se pode apagar. Passa-nos tudo pela mente. Hei-de dizer brevemente sobre esses meus pensamentos.
Às cinco da manhã do dia 25 começou a clarear e decidi fazer o que tinha pensado durante a análise do mapa no dia anterior. Não ir pelo mesmo carreiro por onde tinha vindo porque era mais que certo que tinham montado lá armadilhas. Caminhei pela bolanha porque tinha visto que ia dar ao rio que tinha atravessado na véspera. Naquela neblina matinal, os ruídos dos passos a chapinhar na água da bolanha, os capins a serem esmagados ou a agitarem-se com o andar causavam ruídos que me faziam virar a cabeça amiúde, podia ser algum bicho que habitava aquele meio, sei lá.
Sem bicho nenhum, acabei por chegar ao rio Gambiel e o problema a seguir foi encontrar o local onde estavam as palmeiras submersas, a única hipótese que eu tinha de o atravessar novamente. Vi que não havia ninguém por perto, procurei em vários metros da margem e encontrei. Fui andando devagar por cima dos troncos, num ritmo de equilibrista em corda bamba, a G3 era a vareta, sentindo-me como um pato que qualquer guerrilheiro que aparecesse na margem de onde eu vinha podia caçar com um só tiro. Mas cheguei à outra margem, o bater do coração baixou de ritmo, e iniciei o trajecto que tinha gizado na minha cabeça quando estava de molho na véspera. Andei muito tempo por entre as árvores da mata, passei por Canhagina e Cheuel.
Dei com uma pequena picada em declive que eu já conhecia. Ao fundo uma lagoazita e mulheres a lavar roupa. Aproximei-me delas. Olharam para mim estarrecidas por instantes e fugiram na direcção oposta. Devia estar de tal modo que a minha figura metia medo... Fui atrás delas, pois sabia para onde iam. Cheguei à tabanca de Sare Madina, estavam à entrada as mesmas mulheres em grande algazarra com uns homens grandes (homens mais velhos, respeitados), e os milícias. Eu já os conhecia e eles a mim. Quando me viram sorriram e acolheram-me bem. É evidente que sabiam da situação. Depois de alguma troca de palavras e mantenhas (saudações), o cabo que comandava a milícia local ofereceu-me a sua bicicleta para eu poder chegar a Geba. Aceitei.
Pedalei muito tempo, pareceu-me, por caminhos que me eram familiares, por onde eu tinha vindo aquando do início da operação. Cheguei e o primeiro que encontrei foi o alferes Moreira. Fitou-me de olhos esbugalhados. Lançou-se a mim num abraço e... desmaiou (bom rapaz, é um coração sentimental).
O meu percurso de ida e regresso de Sinchã Jobel.

Já me tinham dado para Bissau como "desaparecido em combate". Depois foi isto:
- os dois furriéis que tinham ficado na orla da clareira disseram-me que estiveram quase a dar porrada no outro que me deixou sozinho; ao capitão disse que tinha sido complicado, que não havia hipótese, que ainda bem que os outros tinham fugido - soube depois que o furriel fugidio tinha levado uma porrada de 17 dias de prisão disciplinar, com mudança de companhia, mas, se houve de facto um processo disciplinar, eu nunca fui ouvido.

O melhor:
Nesse mesmo dia, levaram-me a Bafatá (a 30 quilómetros) para ser ouvido pelo TCor Hélio Felgas. Primeira preocupação dele: Você trouxe a G3? Disse-lhe que sim e fiquei em brasa. Contei-lhe tudo, a sentinela ao pé do rio Gambiel, por onde tinha ido e por onde tinha vindo, inclusive que tinha a certeza que eles tinham em Sinchã Jobel uma base de guerrilha. Também lhe disse que não tinha visto nenhum turra morto (contrariamente ao que disse o relatório do capitão, e também nunca soube que tivesse ficado ferido algum dos nossos...). Maroto, chasqueou: Você tem aqui uma história para escrever um livro... Mas outra coisa: você esteve 24 horas no campo do inimigo e, se calhar, temos de levantar um processo... E a brasa espevitou. Levantei-me da cadeira: Está a brincar e a gozar comigo? É brincadeira, nosso alferes, não se chateie. Fiz a continência e fui-me embora.