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21 de abril de 2011

114-25 de Abril - Acção na EPI (Escola Prática de Infantaria), Mafra

RELATÓRIO DA OPERAÇÃO DESENVOLVIDA A PARTIR DE 24/25 DE ABRIL DE  1974

1. SITUAÇÃO
As F.A., descontentes com o governo, pretendem fazê-lo substituir.

2. MISSÃO

a) Ocupar, e defender das Forças Governamentais, o Aeroporto da Portela;
b) Ocupar e garantir o controlo da Vila de Mafra;
c) Ocupar e garantir o controlo do Aquartelamento.

3. FORÇA EXECUTANTE

a. Comandante
     Major de Infantaria AURÉLIO MANUEL TRINDADE.

b. Comandantes das Sub-Unidades
    - Companhia de Intervenção:
      Comandante – Capitão de Infantaria RUI RODRIGUES
      Adjuntos – Capitão de Infantaria ALBUQUERQUE
      Capitão de Infantaria AGUDA
    - Forças destinadas ao controlo da Vila de Mafra:
      Comandante – Capitão de Infantaria VICENTE FERNANDES
      Adjunto – Capitão de Infantaria BABO DE CASTRO
    - Forças destinadas ao controlo de acessos:
      Comandante – Tenente de Infantaria S: FERNANDES
    - Forças destinadas à ocupação do Aquartelamento:
      Comandante – Capitão de Infantaria SILVÉRIO

c. Meios
    - Uma Companhia de Atiradores em 3 bigrupos de 50 homens cada.
    - Dois grupos de combate a 40 homens cada.
    - Um grupo de combate a 50 homens.
    - Uma Companhia de Atiradores para a defesa do Aqurtelamento.
    - Reserva.
      Uma Companhia de Atiradores.
      Duas Companhias do C.O.M./2º Ciclo

d. Articulação das Forças
     - A indicada em c.

4. PLANOS ESTABELECIDOS PARA A ACÇÃO

a.    Ao Toque de Ordem, saída do Aquartelamento dos Oficiais do Movimento para as suas casas de acordo com horários anteriores.
b.    Em 242100ABR74 recolheram à E.P.I. os Oficiais do Movimento, que ficaram nos quartos até ser dado aos Emissores Associados o sinal do desencadear da Acção.
c.    Em 242300ABR74 recolha à E.P.I. dos Oficiais, Praças e viaturas que estavam no campo em exercícios finais C.C.C./C.O.M.
d.    Em 242400ABR74 os Oficiais do Movimento saíram dos seus quartos para formarem as Sub-Unidades de intervenção e contactarem com os Oficiais presentes na Unidade, que não estavam dentro do Movimento.
e.    Em 250200ABR74 saída da Companhia para ocupação do Aeroporto.
f.      Em 250215ABR74 saída das Forças para ocupação dos pontos chaves de Mafra, controlo  da Vila de Mafra e controlo dos acessos a esta Vila.
g.    Em 250400ABR74 ocupação do Aeroporto pelas Forças de intervenção
  
5. DESENROLAR DA ACÇÃO

Em 242400ABR74 processaram-se as seguintes acções:
- Telefonema do Oficial de Dia pra o Coronel FREITAS, informando-o de          que havia uma chamada do QG/RML, pretexto este com vista à sua saída da residência.
- Os Comandantes das Forças de intervenção começam a formar e a preparar as suas Sub-Unidades.
- O Comandante da defesa do Aquartelamento começa a assegurar a sua defesa como se tivéssemos entrado de Prevenção Rigorosa.
- Em 250015ABR74 sai da sua residência o Coronel FREITAS, que foi abordado pelo Capitão SILVÉRIO e levado a um compartimento, onde se encontravam os Majores TRINDADE e CERQUEIRA DA ROCHA.
- Às 250016ABR74 o Coronel FREITAS é posto ao corrente da situação e começa a ser preparado para aderir ao Movimento.
- Em 250100ABR74, e a pedido do Coronel FREITAS, sai uma Equipe do Aquartelamento que se desloca a casa do Tenente Coronel ROCHA GOMES, para o trazer ao Aquartelamento.
- Em 250130ABR74 chega ao Aquartelamento o Tenente Coronel ROCHA GOMES e é-lhe exposta a situação.
- Em 250200ABR74  sai do Aquartelamento a Companhia auto-transportada destinada à ocupação do Aeroporto. Forças
- Em 250230ABR74 saem do Aquartelamento as Forças destinadas à ocupação dos “pontos chaves” da Vila de Mafra, ao controlo do acesso à Vila e ao controlo de toda a Vila.
- Em 250245ABR74 tinham sido ocupados os seguintes pontos chaves da Vila:
  - Serviços Municipalizados
  - Instalações da Companhia das Àguas
  - Correios Telégrafos e Telefones
  - GNR
  - PSP
  - Delegação da Manutenção Militar
Em 250400ABR74 a Companhia, depois de se ter deslocado de Mafra até à Portela, seguindo o itinerário MAFRA-MALVEIRA-LOURES-FRIELAS-CAMARATE-AEROPORTO, ocupou as seguintes dependências:
  - Edifício principal, instalações da DGS, da Guarda Fiscal e Gabinete de Som.
  - Depósito de Combustíveis e Esquadra da PSP.
  - Torre de controlo de tráfego aéreo.
- A partir de 25400ABR74 em Mafra terminaram as operações militares, sendo os deslocamentos existentes apenas os necessários para a rendição do pessoal de vigilância e patrulhamento dos pontos ocupados.
- Em 251600ABR74 a Companhia instalada no Aeroporto recebeu ordem para com parte dos seus efectivos se deslocar para o Largo do Carmo a fim de combater as forças do RC7 fiéis ao Governo.
- Em 251700ABR74 a Companhia do Aeroporto recebeu ordem para ir ao RAL1 libertar os presos das Caldas, sendo anulada a ordem de ir para o Carmo. Deslocaram-se ao RAL1 o Capitão RODRIGUES e o Capitão ALBUQUERQUE que conversando com o Comandante da Unidade souberam que este tinha aderido ao Movimento há cerca de 30 minutos. Os presos foram libertos e os dois Oficiais regressaram ao Aeroporto.
- Finda esta missão, a Companhia recebeu nova missão de ir buscar a Monsanto o Ministro do Exército que ali se tinha refugiado. Deslocou-se aí o Capitão RODRIGUES com um efectivo de 33 homens; entabuladas conversações entre este Oficial e o General TAVARES MONTEIRO chegou-se à conclusão de que estavam em Monsanto as seguintes entidades:
  - Ministro da Defesa
  - Ministro do Exército
  - Ministro da Marinha
  - 4 Oficiais Generais
  Todas estas entidades foram detidas e levadas sob escolta para o RE1.
- Na madrugada do dia 26 a Companhia recebeu a missão de ir ao Largo do Carmo a fim de evitar distúrbios.
- Em 260800ABR74 a Companhia foi substituída por Paraquedistas e foi-se apresentar ao RE1 ao Comando do Movimento.
- Em 260900ABR74 a Companhia da EPI começou a ser comandada pelo Major de Cavalaria BIVAR, o que bastante estranhou aos Oficiais da Companhia, já que todas as missões de importância tinham sido cumpridas cabalmente sem ser necessário um Major para comandar a Companhia, estavam dois destes Oficiais na EPI que para além de serem da máxima confiança dos Oficiais do Movimento conheciam todos os Oficiais s Praças da Unidade. Tudo isso deu como consequência haver na Companhia dosi Comandos distintos: um aceite e outro imposto, que vei trazer sérios problemas disciplinares pois as ordens eram cumpridas e não aceites, pelas Praças e Oficiais Subaltenos.
- Em 261000ABR74 a companhia da EPI juntamente com uma Unidade da Marinha tomou posse das instalações da DGS na rua António Maria Cardoso. Depois da ocupação do edifício, o resto da Companhia regressou ao RE1 deixando ficar nas instalações um grupo comandado pelo Capitão AGUDA.


- Assim que a Companhia chegou ao RE1 foi-lhe dada nova missão: controlar uma manifestação popular no Rossio. A missão foi cumprida tendo um indivíduo sido entregue no Comando Geral da PSP por se suspeitar ser da DGS. A missão acabou cerca das 2200.
- Em 262330ABR74 nova missão levou parte da Companhia até às instalações do Jornal Época. Esta missão teve como consequência serem detidos 3 elementos de pertencerem à DGS tendo a Companhia regressado à A.M. cerca das 0330.


- Em 270800ABR74 parte da Companhia, juntamente com elementos da Marinha, apossou-se das instalações da Escola Prática da DGS em Sete Rios, tendo regressado à A.M. às 1200.
- Em 271000ABR74 a outra parte da Companhia sob o comando do Capitão ALBUQUERQUE foi utilizada na escolta sob prisão, para a Trafaria, de um Comandante da LP.
- Em 271100ABR74 o resto da Companhia que se encontrava na rua António Maria Cardoso, sob o comando do Capitão AGUDA, foi utilizada na escolta, para Caxias, de elementos da DGS.
- Em 271300ABR74 parte do efectivo da Companhia foi utilizado na ocupação das instalações da LP, no Castelo de S. Jorge. Tendo sido ouvidos tiros na zona do Rossio, a força deslocou-se até a esta zona, onde foi detiso um indivíduo que se tinha refugiado na Esquadra da PSP, como elemento suspeito da DGS que foi entregue em Lanceiros 2.
- Em 271600ABR74 marcharam da EPI para Lisboa 3 Companhias de Atiradores, comandadas pelo Major CERQUEIRA DA ROCHA, que se apresentaram no QG/RML
- Em 281000ABR74 a Companhia iniciou o movimento para a EPI onde chegou perto das 1200.
- Em tempo oportuno foram recolhidas pelas Forças de Mafra, as armas e munições da LP de Torres Vedras, Lourinhã, Cadaval e Mafra.
Também em tempo oportuno foram ocupadas as instalações da LP em Torres Vedras, Lourinhã e Cadaval.

6. SERVIÇOS

a.    Tansportes
Estes serviços funcionaram normalmente, e, dado que havia viaturas cedidas por empréstimo, para os exercícios finais do CCC/COM, foi possível motorizar 4 Companhias que chegaram a estar  juntas em Lisboa e ficar com as viaturas mínimas para os serviços da Unidade.

b.    Logistica
c.    Os serviços de alimentação funcionaram bem. Pelos estudos feitos antes do início da acção, havia em Mafra alimentação para 5 dias.

d.    Munições
Foi assegurada a existência na Unidade das munições necessárias para o desenrolar dos acontecimentos.
7. APOIOS
    A GNR, a PSP e a população deram às Forças da EPI todo o apoio necessário para que a missão atribuída fosse muito facilitada. Cabe aqui uma citação especial a todo o pessoal que Trabalhava no Aeroporto, com relevo para o Sr. CHAVES DE ALMEIDA e o Director do Aeroporto que muito contribuíram para o bom sucesso da missão. Também ao Capitão Piloto Aviador MARTINS cabe uma citação muito especial pois foi graças a este Oficial que se garantiu a segurança do tráfego aéreo no território Nacional.
8. CONCLUSÕES E ENSINAMENTOS
    Com determinação tudo se consegue.
9. DIVERSOS
    Todo o pessoal que sob o comando do Capitão RODRIGUES cumpriu todas as missões que lhe foram atribuídas merece, pelo seu espírito de sacrifício e pelo seu querer de bem servir as causas do Movimento das Forças Armadas,é aqui louvado, pois todo o esforço que lhe foi exigido transcende o que até aqui era humanamente possível conseguir.

O COMANDO DO MFA/EPI
·        Aurélio Manuel Trindade
Major de Inf.ª
·        Jorge Manuel Silvério
Capitão de Inf.ª
·        Rui Martins Rodrigues
Capitão de Inf.ª
·        Carlos Alberto Frias Barata
Tenente de Inf.ª
·        António da Silva Fernandes
Tenente de Inf.ª

    in "O Refrencial, N.º 21" (boletim da Associação 25 de Abril)

10 de abril de 2011

104-Papéis do baú da memória

Vi isto nuns papéis que encontrei:

Feitas as apresentações, a instrução começou pelas coisas mais simples, naturalmente, pela indicação de noções e regras de funcionamento. Toda a gente levou exemplares do RDM e do Manual do Oficial Miliciano. Eram os evangelhos, segundo foi explicado, o dever de obedecer e de fazer a guerra. Receberam manuais disto e daquilo, de armamento, de táctica militar, de uso do equipamento, sinais de combate, etc.

(a seguir há frases que não percebo, os papéis estão gastos e amarelados...)

O toque de corneta, a despertar, soou com tal brutalidade que mais parecia o chamamento para o juízo final. Mesmo já com esse som tornado habitual, todos se soergueram nas camas com o coração aos saltos. 
Se é assim que vai suceder aos mortos nesse dia definitivo, vai ser com certeza um dia terrível. Para os justos e predestinados ao gozo eterno é um castigo imerecido, não dá gozo nenhum, pelo contrário. Para os condenados ao inferno é demais antes do julgamento. Nem é justo antes de serem julgados. Não, com certeza que não será assim o despertar dos mortos no dia do juízo. Aliás, nem percebo. Para quê este dia se já há uns no céu e outros no inferno? Porquê esta encenação? Por certo só se explica por alguma manifestação de sadismo por parte da divindade. A não ser que algum bom comportamento dos já habitantes do inferno possa pesar nesse final juízo divino para a eternidade. Mas como sustentar, assim, que o  castigo é eterno logo após a morte? Mas, se for isso, porque não aproveitar e viver sempre e bem no pecado, redimindo-se depois com o bom comportamento no inferno? 
Deixa-te de tretas e levanta-te mas é.
Havia sempre o choque diário da corneta. Com o tempo, passou a ser de curta duração. O automatismo, a reacção padrão, fruto da repetição, instalara-se já como um comportamento feito de reflexos condicionados. O Aiveca foi dos primeiros a saltar da cama. O Pais, na cama ao lado, refilou como habitualmente: 
- "Cabrões de merda. Estava a dormir tão bem.  Acordaram-me mesmo na altura em que me ia pôr na miúda...". 
- "Este gajo só pensa na mulher. Não tens vergonha, pá?", disseram todos.
- "Vão-se foder. Vergonha é ser casado e não ter onde se ponha."
O Félix, que dormia perto, no vão duma janela, já arrumava metodicamente as coisas e fazia a cama. Era um tipo giro, dormia com uma espécie de pantufas de lã. 
- "Aqui ao pé da janela gelam-se-me os pés. Tive que mandar fazer isto. Não há quem mos aqueça".
Invariavelmente, vestiu o roupão, pegou na bolsa dos artigos de higiene, no rolo de papel higiénico e marchou calmamente.
- "Às cagadeiras, em frente marche. Desculpem se me descuidei. É que sofro dos intestinos."
Mas já todos à volta dele tinham debandado, tal era o pivete. Todos não. O Realinho deu meia volta na cama e virou-se de papo para o ar. Não havia nada que o demovesse. Nem o cabo corneteiro, o "juízo final", nem o Félix, "gás tóxico". 
Era assim todos os dias. Já todos estavam a escovar desalmadamente as botas, até fazer desaparecer a água que as ensopara na véspera, quando o Realinho, estremunhado, se sentava na cama e o Félix, todo lavado e bem cheiroso, aparecia calmamente do lado das cagadeiras.
- "É para compensar. Eu sei que me descuido muitas vezes, embora a mim não me cheire a nada."

(há mais umas coisas que não percebo)

Escadaria abaixo para chegar a tempo ao pequeno-almoço e à formatura da manhã. Quem chegar atrasado faz dez flexões!

18 de março de 2011

85-Alguns manuais da EPI - Mafra



A não ser o da G3, fiel e permanente companheira na Guiné, os outros não tiveram utilidade nenhuma.

14 de março de 2011

82-Guia do Instruendo - EPI - Mafra

Lembranças para quem por lá passou...


HINO DA EPI
DESCRIÇÃO HERÁLDICA DO GUIÃO DA E.P.I.







28 de dezembro de 2010

30-Uma noite, somente, no HMP

Encontrei lá o meu amigo Norberto. Fora meu colega no 2º pelotão do COM de Mafra. Magro, louro, olhos azuis grandes, era um aventureiro, uma máquina em todos os exercícios. Mas foi sempre um bom companheiro, diferente de outros que lá andavam a armar-se em bons e achavam, por isso, ser superiores. Eu sabia que ele, depois da especialidade de atirador, tinha sido mandado para os comandos, e nunca mais soubera dele. Foi um grande abraço. Perguntei-lhe:
- O que é que andas aqui a fazer?
- Ando em tratamento.
- A quê?
- Tenho hemofilia.
Fiquei banzado. Como era possível um tipo hemofílico ser enviado para os comandos!? Mesmo para a guerra. Mas para os comandos ainda por cima... Então não tinham visto isso antes?
- Parece que não te lembras como era aquilo em Mafra. Além da injecção cavalar, que diziam dar para todos os males, não se preocupavam em saber mais nada. Menos, é claro, em ver aqueles que tinham cunhas para ir para os serviços auxiliares.
- É verdade, eu sei bem. Deves lembrar-te que desde o início sabíamos que o nosso curso estava destinado para uma fornada de atiradores. Até pensei que ia gozar com os gajos dos psicotécnicos quando me puseram um papel à frente e me disseram par escolher a especialidade. Pus lá que queria ser atirador mas eles é que se riram de mim. Mas diz lá, então, como é que descobriram isso.
- Eu estava na 3ª Companhia de Comandos na Guiné e…
A conversa derivou, é claro. Disse-lhe que tinha chegado de lá na véspera, ferido por uma mina. Contei-lhe coisas, por onde andara, como tinha sido ferido, operações em que participara, o normal destas conversas. Ele também me contou das dele e acabou por me dizer que, numa operaçãozeca, segundo ele, na zona do Cantanhês, tinha levado um tiro numa perna e que, sorte, o enfermeiro tinha visto que o sangue não estancava, pelo que pediram logo um heli para o levar para Bissau. Tinha sido evacuado para Lisboa há uma semana.
- Vais ficar aqui?, perguntou-me.
- Tem que ser, não é?
- Pelo teu aspecto, pelo teu tipo de ferimentos, até te mexes bem, parece-me que não tem que ser. Tens cá família?
- Tenho os meus pais, moram em Lisboa.
- Então faz como eu. Quando cá cheguei disse-lhes que tinha família na Amadora e eles deixaram-me ir para casa deles. Só venho cá aos tratamentos. E já me disseram que não vão durar muito, porque isto não tem cura, que qualquer dia vou a uma junta médica e que me mandam embora. E até te agradecem, porque precisam de camas para casos mais graves e para gajos que são da província.
Fiquei encantado com a ideia e ele foi comigo aos serviços administrativos. Ficou assente que podia ir para casa dos meus pais e que devia estar no hospital todas as segundas, quartas e sextas, às nove horas, para tratamentos.
Foi o Norberto que me levou, a mim e a mais nada, que era o que eu tinha, no seu citroen 2 cavalos até à porta da casa dos meus pais, na Calçada da Patriarcal. Despediu-se e disse-me:
- Está aqui o meu telefone. Logo à noite, depois de jantar, dá-me um toque para combinarmos ir dar uma volta por aí.
- Claro, vamos lá. Estou com falta disso.

30 de setembro de 2010

2-Há sempre um antes


Fui uma criança encantadora.
Na Maternidade Magalhães Coutinho disse-me a minha mãe que eu era o menino mais bonito (enlevos da minha querida mãe...)



E fui também um rapazito bem comportado


Tanto que... fui ter ao seminário

e até fui professor


Mas não deu, tive de deixar os padres. Dei em estudante, deixei de ser bom rapaz, castigaram-me e mandaram-me para a tropa.


... e, depois de passar por Mafra, Lamego, de rompante, e Amadora, espetaram comigo na Guiné.