Lembranças da Guiné, na guerra e já fora dela. Pesquisa, comentários e factos. A memória sempre presente. Não está por ordem. É conforme me vou lembrando. Tudo o que tem a ver com a Guiné, a sua história, as etnias, a colonização e as guerras de resistência. Também a minha experiência durante a guerra colonial (está nos primeiros posts). Para quem não sabe ou viveu que veja e avalie se é realidade ou ficção. Para quem sabe ou viveu são lembranças.
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13 de junho de 2012
507-Aspectos e tipos da Guiné XXIV
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A. Marques Lopes
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24 de maio de 2012
490-Tabanka de lebre, lala
Tabanka de lebre, lala*
|
(Djitu ku pui lala bida Tabanka di lebre:
como é que a lala se tornou a Tabanka do lebrão)
|
Era, era…
|
Era uma vez, uma grande Tabanka de animais, chamada “lala”. Lá moravam quatro famílias. A
|
família lebre, a família cabra, a família lobo (hiena) e a família onça. Todos eram parentes tocados.
|
Porque eram todos animais da floresta. Mas mesmo assim, cada família, como é caso de todos os
|
Seres, tinha a sua Morança própria, dentro da grande Tabanka. Também cada família tinha o seu
|
dono de Morança, o chefe.
|
E o problema na Tabanka de lala era esse. Os donos de Morança não se entendiam. Ao contrário
|
das suas crianças. Essas se entendiam. Não tão perfeitamente bem, mas sim
razoavelmente.
|
Porque se cruzavam sós sem acompanhamento, não se roubavam a comida de uns aos
outros,
|
segundo a lei do mais forte, nem se furtavam, segundo a lei do
mais intriguista, e nem se brigavam
|
(como isso acontecia no caso dos seus pais, as vezes até a morte), segundo a lei do mais feroz.
|
Havia uma hierarquia entre os donos de Morança que não era observado entre os filhos. O
Papai
|
lebre era da categoria inferior de todos. Porque o mais fraco
(fisicamente), menos intriguista e
|
menos feroz. O sobrinho de todos. Ele tinha que apelar e tratar
os outros três de Tio. Tinha todavia
|
uma qualidade excepcional. Era uma pessoa de bem muito
respeitadora de outros seus
|
congéneres e uma pessoa de bons planos. E porque sobrinho, cultiva
esses valores em todas as
|
situações de vida.
|
O Papai cabra-bode era o sobrinho dos Papais lobo e onça. O Papai lobo, o sobrinho do Papai
|
onça, que era assim o único sem Tio na Tabanka. Só para lá fora tinha ele os Tios tigre, leão e
|
pecador que moravam em outras Tabankas.
|
Um dia, do regresso da caça, o Papai lebre encontra o Tio
cabra-bode numa fonte. Disse que caiu
|
lá por descuido. Fez tudo e não conseguia sair. Pedia por isso o
socorro ao sobrinho lebre.
|
O Papai lebre que não era forte, nem intriguista e nem
feroz, mas sim pessoa de bem, muito
|
respeitador das regras da vida conjunta e muito respeitadora da
força dos bons planos, pôs-se
|
logo a fabricar um bom plano sobre o assunto. Diz-se à si então, “ah, se dos três Tios maus, o
|
Senhor Deus mandou neutralizar um pelo calaboiço da fonte, então há que continuar por essa
|
via”. Princípio da solução encontrada, solução encontrada.
|
O Papai lebre fabrica logo então um acordo que apresenta ao Tio
cabra-bode. Oferecer-lhe-ia seu
|
socorro contra o abandono da Tabanka de lala, para ir morar
doravante e em definitivo, com a
|
família toda, na Tabanka do Tio pecador. Ele, o Papai lebre sabe,
que o Tio pecador, até a um certo
|
ponto, tolerava bem as famílias de animais do género de Tio cabra-bode. O Tio
cabra-bode, ciente
|
da sua situação e vantagens de se salvar a vida,
aceita o acordo. Celebram em seguida esse pela
|
partilha de uma cola de juramento. Cada um comendo uma parte,
jurando pela honra e alma deles
|
mesmos e pela honra e alma de todos os seus antepassados. O
Papai lebre vai e informa a família
|
do Tio cabra-bode, onde até lá ainda ninguém sabia de nada. Socorrido, o Tio
cabra-bode parte
|
O Tio lobo, no dia seguinte, reparando as pegadas do cabra-bode,
seu sobrinho mal querido e
|
sempre mal tratado, lança-se logo na perseguição deste sem nenhuma desconfiança. Finda a
|
caminhada exactamente na fonte.
|
O sobrinho lebre que aparece um tempo depois apresentá-lo-á a proposta do mesmo tipo de
|
acordo que celebrara com o Tio cabra-bode. Propondo-lhe mudar,
doravante e em definitivo, com
|
toda a família, para a Tabanka da mata de tarrafe e/ou de mantampa de serra
do Tio tigre. O Tio
|
lobo, ciente da sua situação e vantagens de se salvar a vida,
aceita o acordo. Os dois celebram em
|
seguida esse pela partilha de uma cola de juramento. Cada um
comendo uma parte, jurando pela
|
honra e alma deles mesmos e pela honra e alma de todos os seus
antepassados. O Papai lebre vai
|
e informa a família do Tio lobo da mesma maneira
como fez com a família do Tio cabra-bode.
|
Socorrido, o Tio lobo parte com a família toda de uma vez para sempre para
a Tabanka da mata de
|
tarrafe e/ou de mantampa de serra do Tio tigre. (A menos que
viesse mudar da atitude e do
|
comportamento no futuro de um Tio mau para um Tio bom).
|
O Tio onça é afastado pelo sobrinho lebre com a ajuda do mesmo tipo de
plano. Fabrica também
|
com a ajuda do amigo arquitecto, pedreiro e carpinteiro bagabaga
um calçado com a forma das
|
patas dos pés do Tio lobo. Depois camufla a
abertura da fonte como fez antes nos outros dois
|
casos e caminha com os sapatos da forma das patas dos pés do Tio lobo, calçados, até perto da
|
Morança do Tio onça para depois regressar ao local da
fonte.
|
O Tio onça ao acordar-se no dia seguinte e reparando as pegadas do lobo,
seu sobrinho mal
|
querido e sempre mal tratado, à volta da sua casa, lança-se logo na perseguição. Sem
|
desconfiança nenhuma. E finda também a caminhada exactamente como os
Tios cabra-bode e
|
lobo na fonte.
|
O sobrinho lebre aparece um tempo depois como fez nos dois
outros casos. Apresenta ao Tio onça
|
a proposta do mesmo tipo de acordo que apresentara aos Tios
cabra-bode e lobo e que celebrara
|
com eles. Propondo-lhe mudar, doravante e em definitivo, com
toda a família, para a Tabanka da
|
mata serrada do Tio leão. O Tio onça, também ciente da sua situação e vantagens de se salvar a
|
vida, fez como fizeram os Tios cabra-bode e lobo. Aceita o
acordo. Os dois celebram esse
|
partilhando a cola de juramento. Cada um comendo uma parte,
jurando pela honra e alma deles
|
mesmos e pela honra e alma de todos os seus antepassados. O
Papai lebre vai e informa a família
|
do Tio onça da mesma maneira como fez com a família do Tio cabra-bode e do Tio lobo.
Socorrido,
|
também o Tio onça parte com a família toda de uma vez para sempre para
a Tabanka da mata
|
serrada do Tio leão. (A menos que viesse mudar da
atitude e do comportamento no futuro de um
|
Tio mau para um Tio bom).
|
Feito tudo, a lebre, sem nunca se ter metido na categoria do
mais forte, nem do mais intriguista e
|
muito menos, do mais feroz, foi chamar toda a família para um grande meeting. Onde fez
um
|
grande discurso com grandes palavras que ficaram para sempre na
memória de todos os Seres da
|
A família lebre ficou como a única na lala. Mas, sempre esperançada de que algum dia os seus
|
parentes asilados conseguir-se-iam transformar-se em Seres bons
para assim poderem regressar
|
na sua Tabanka de lala. A sua Tabanka natal. Por isso, as lebres
até hoje, quando saem fora das
|
suas casas (esconderijos) bem arranjadas na lala, não passam o lapso de um tempinho sem
|
levantar as suas grandes orelhas para todas as direcções. É para ver se as famílias cabra, lobo e
|
onça já estão de regresso.
|
Moral da história (entre outras):
Uma comunidade com muitos membros poderosos
maus; se consegue ver colocado um desses maus, por um
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19 de maio de 2012
484-As crenças dos povos da Guiné-PARTE II
Inteligente desmontagem dos preconceitos dos brancos para com as crenças dos povos da Guiné - B) O FEITICISMO DOS BRANCOS. É de 1949, tem mérito.(Ver aqui a PARTE I deste artigo)
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17 de maio de 2012
482-As crenças dos povos da Guiné-PARTE I
Explicação das crenças dos povos da Guiné, e a sua prática. Fernando Rogado Quintino começa por nos dar uma panorâmica do aparecimento das várias crenças entre os povos da antiguidade, ligando-as, até, a muitas das crenças e simbologias do cristianismo. Homem culto, nesse aspecto, e homem interessado na compreensão dos povos que ele bem conheceu na Guiné.
(Ver aqui a PARTE II deste artigo)
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4 de abril de 2012
439-Fabulário dos Biafadas
FABULÁRIO
Não
possuem os biafadas grandes colecções de histórias para contar às crianças ou
para, entre si, os homens contarem para matar o tempo.
Das
poucas que possuem, figuram nelas quase sempre animais e por vezes, de cada
conto transparece um conceito moral. Nos contos figura quase sempre a lebre e é
a ela que cabe o papel que nas fábulas que se contam às crianças europeias cabe
à astuta raposa. É a
lebre que sempre intruja ou vence os animais mais fortes e nos papéis de tolo é
a hiena que figura.
Apresentam-se
a seguir algumas histórias.
A lebre e
a hiena
A lebre e hiena jornadeavam. Depois de caminhar durante algum tempo
avistaram uma povoação. A lebre parou e disse à hiena: «Quando chegarmos ao povoado, se nos perguntarem
os nossos nomes não os dizemos e daremos nomes falsos. Desde já podemos assentar quais os nomes que usaremos: tu serás «Só-trabalho»
e eu «Só-como».
Caminharam
mais um pouco e chegaram à povoação. O chefe desta
ordenou que eles se apresentassem em sua casa e, quando chegaram, a primeira
pergunta que lhes fez foi para saber os seus nomes. A lebre respondeu que se
chamava «Só-como» e a hiena «Só-trabalho».
O chefe disse à hiena que, visto que só trabalhava, fosse para o mato
cortar lenha e mandou trazer comida para a lebre, uma vez que só comia.
A hiena passou o dia todo a cortar lenha e, quando caiu a noite, foi pedir
comida ao chefe da povoação, este recusou-se a dar-lha. Na
manhã seguinte o chefe ordenou novamente à hiena que voltasse ao mato cortar
lenha. Vendo a hiena que estava metida em trabalhos por via da lebre, pensou em vingar-se dela. Partiu o machado au meio e foi à procura do
chefe a quem disse que não podia continuar a trabalhar por o machado se ter partido e acrescentou; «Isso, porém, não tem importância
porque conheço alguém que é capaz de coser O machado e ele fica
como novo». O
chefe perguntou-lhe quem
era capaz de fazer tal e ela respondeu que era o «Só-como». O chefe mandou chamar a lebre à sua presença e comunicou-lhe o que a hiena tinha dito. A
lebre escutou serenamente o chefe e quando este acabou de falar respondeu: «Na verdade posso coser o machado
mas não com linha. Posso cosê-lo, sim, com os tendões do «Só-trabalho».
O chefe ordenou que a hiena fosse morta e que se lhe
tirassem os tendões. Para se livrar da morte certa, a hiena
fugiu e jurou a si mesma nunca mais associar-se com a lebre.
Como a rapariga experimentou o seu namorado
Uma rapariga tinha
um namorado que passava os dias pelos campos a apascentar o gado. Certa tarde começou a
chover torrencialmente e relampejar continuamente e o rapaz, não podendo
regressar a casa, meteu-se no seu abrigo. A mãe deste
pediu a toda a gente do povoado para ir levar comida ao filho mas ninguém quis.
Então a noiva do seu filho foi ter com ela e disse-lhe que
iria à floresta levar comida ao seu noivo. Assim fez.
Depois do seu namorado ter comido, a rapariga voltou para a casa.
No caminho
encontrou alguns lobos e pediu-lhes que fingissem que a comiam e que começaria
a gritar para ver se o seu noivo a iria socorrer. Os lobos
entraram para a sua toca levando a rapariga que se pôs a gritar com quanta
força tinha. Aos gritos da rapariga, o rapaz foi ao local, onde,
juntamente com os gritos da sua namorada, ouviu vozes falando assim: «eu fico
com a perna», «eu fico com a cabeça», «eu fico com os braços». «Não
vale a pena discutir - disse um dos lobos - esperemos por aquele que está à entrada
da nossa toca». Ouvindo assim falar, o rapaz fugiu a bom fugir. A rapariga saiu
e agradeceu aos lobos o serviço que lhe tinham prestado e nunca mais quis
saber do seu namorado.
De como a lebre se viu livre do elefante e do hipopótamo
A lebre não se entendia muito bem com o elefante e o
hipopótamo e esse desentendimento vinha, ao que parece, de questões de comida -
a lebre, mais fraca, ficava sempre mal.
Depois de magicar
durante alguns dias, a lebre foi junto do elefante e disse-lhe: «Vou fazer-te
uma proposta: amarras uma ponta desta corda que aqui trago a uma perna e eu
faço o mesmo com a outra ponta e cada um puxa para o seu lado. Aquele que
arrastar o adversário ganhará um monte de milho que aqui está perto». O
elefante aceitou a proposta. A lebre amarrou o elefante com a corda por uma
perna e seguiu com a outra em direcção ao rio. Ali encontrou o hipopótamo a
quem fez a mesma proposta que tinha feito ao elefante. O hipopótamo aceitou.
Pôs a corda ao hipopótamo e disse-lhe que iria amarrar-se com a outra ponta
depois do que começaria a competição. A lebre desapareceu e o elefante e o
hipopótamo começaram a puxar, cada um para seu lado. Depois de puxar durante
algum tempo, ficaram admirados que a lebre tivesse tanta força - qualquer deles
estava convencido que tinha a lebre por adversário. Tiveram o mesmo pensamento
ao mesmo tempo: ir verificar se de facto era a lebre que estava a bater-se com
eles. Quando se encontraram e compreenderam que tinham sido enganados pela
lebre, combinaram ir em sua perseguição para a castigar A lebre que andava
perto ouviu tudo e tratou logo de se esconder. Vendo perto uma pele de gazela a
apodrecer, meteu-se dentro dela e aí deixou-se ficar. Pouco tempo depois o
elefante passou por ali e ao ver a pele, disse: «Pobre gazela, certamente foi
alguma hiena que a matou». Mas a lebre, escondida lá dentro, respondeu imitando
a voz da gazela: «Nada disso foi; tive uma desavença com a lebre e ela
rogou-me uma praga e eu fiquei neste estado». «Se ela é dessa força, exclamou o
elefante, não quero nada com ela, apesar de termos umas contas a ajustar».
Algum tempo depois
o hipopótamo encontrou a pele da gazela e o mesmo aconteceu com ele.
A partir daquele
dia a lebre andou à vontade e nunca foi incomodada pelo elefante ou pelo
hipopótamo.
De como a mulher se livrou
das pancadas do seu marido
Havia certo homem
que tinha por hábito discutir com a sua mulher acabando sempre por lhe dar uma
tosa. No final de
cada tareia, espetava a sua espada no chão, subia para cima dela e gritava: «Não há homem como eu». A mulher acrescentava:
«Nesta povoação».
Mas ele continuava
convencido que não havia homem tão forte como ele.
O tempo foi
correndo e um dia a mulher pediu-lhe que a acompanhasse a casa de seu pai ao
que de aquiesceu.
Partiram de
madrugada e, depois de muito caminhar, encontraram um grande rio no qual
navegavam grandes canoas. O homem admirado por encontrar um rio num local por onde já
havia passado anteriormente sem ver água, manifestou a sua admiração à mulher.
Ela respondeu que o
pai, quando dormia, babava muito e que o rio que via não era mais que a baba do
pai que, naquele momento, estava a dormir.
Andaram mais um
pouco e começaram a ouvir um barulho ensurdecedor. O homem, assustado,
perguntou à mulher o que era aquilo ao que ela respondeu: «Estão a
acordar o meu pai. Só com este barulho c com fortes marteladas no corpo se
consegue acordá-lo porque ele é muito
forte.
Passados alguns
dias voltaram a sua casa e, pelo caminho, o homem disse à mulher:
«De facto há homens
mais fortes do que eu». A partir daquele dia não mais bateu na mulher.
A seguir apresentam-se pequenas histórias, charadas afinal, escutadas com
grandes risadas e no fim das quais cada um tenta apresentar melhores respostas
às perguntas que se formulam.
Perante uma grande multidão, dois cavaleiros discutiam as suas habilidades,
cada um se considerando superior ao outro. Como a discussão parecia
eternizar-se sem chegarem a Um acordo, decidiram que cada um
faria uma proeza e os presentes avaliariam as suas habilidades.
Um deles espetou uma agulha no tronco de um poilão e, afastando-se um pouco, meteu o seu cavalo a galope e
passou pelo buraco. O segundo cavaleiro arrancou a agulha que estava espetada
no tronco e, recuando alguns metros, partiu em direcção ao poilão em cujo
tronco fez um orifício com a agulha que empunhava como se fora uma lança,
passando através do orifício.
Qual deles o mais habilidoso?
o homem teimava ser mais ligeiro que a mulher que não lhe
reconhecia essa superioridade.
Uma manhã saíram de casa para fazer uma viagem. A mulher levava à cabeça um balaio com farinha.
Ao chegarem junto de uma lagoa, a mulher escorregou e caiu e a farinha que
levava derramou-se pelo chão. Antes dela se levantar já o homem tinha recolhido
toda a farinha no balaio. A mulher ficou despeitada mas não disse nada. Mais
adiante encontraram uma lala - terreno alagadiço.
O homem escorregou e caiu. Levantou-se e perguntou à mulher se a sua roupa tinha ficado enlameada. Mas ela,
apresentando-lhe a roupa, disse-lhe que não estava suja porque lha tinha
despido antes dele tocar o chão.
Qual deles o mais ligeiro?
Iufu e Iafá conduziam uma vaca, indo o primeiro à frente com a corda e o
segundo, atrás, a enxotá-la.
No meio do caminho a vaca fugiu. Quando chegaram notaram com espanto que o
animal tinha fugido. Puseram-se a perguntar pela vaca.
- Então tu levas a corda e não
sentes a vaca fugir, diz Iafá.
- E tu vais atrás dela e não a vez
fugir? - replica Iufu.
Qual deles o mais tolo?
Cabucu
dunia (1)
Um velho saiu com o seu filho a correr o mundo a fim de o
pôr em contacto com a vida porque o rapaz era novo e inexperiente.
Andaram algumas horas e encontraram três fontes: duas com
água e no meio delas, uma seca.
De uma das fontes que tinha água, esta corria para a
outra e vice-versa. Para a que estava seca não ia uma gota.
O rapaz admirou-se
e perguntou ao pai por que as fontes que tinham água trocavam-na entre si e não
mandavam uma gota para aquela que estava seca. O pai respondeu-lhe: «Os ricos
associam-se entre si mas nunca verás os ricos associarem-se aos pobres».
Mais adiante
encontraram um homem a colher lenha, tendo já feito um grande feixe com o qual
não podia. De vez em quando experimentava o feixe e, apesar de não o poder
fazer, ia-o sempre aumentando. O filho manifestou a sua estranheza ao pai,
tendo-lhe este respondido: «Há homens que mal podendo sustentar uma mulher, nem
por isso deixam de tomar todas as que lhe aparecem. Homens assim nunca
conseguem ir para diante».
Finalmente
encontraram duas vacas a pastar num campo. Uma, coberta de moscas, comia
pachorrentamente ao passo que a outra sacudia-se e fugia de um lado para outro
para se livrar de uma só mosca que tinha pousado nela. Perante o espanto do
filho, o velho explicou: «Há homens que têm muita família e trabalham sempre
para a sustentar mas hás-de encontrar quem só tenha um parente para sustentar e
que empregará todos os meios para se livrar dele».
(1) Cabucu dunia significa: coisas de pasmar.
(1) Cabucu dunia significa: coisas de pasmar.
OCTÁVIO C. GOMES BARBOSA
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