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27 de abril de 2011

127-Jagudi kum' el



Ida para Bigene
Íamos por uma mata serrada depois de Sindima, tinha chovido. Da CCAÇ3 só o meu pelotão estava nesta operação até ao corredor de Sambuiá.
- "Vamos ver se apanhamos alguma coisa. Eles costumam vir de Samoge, no Senegal, e passam por aqui", disse-me o major Correia de Campos. "Você vai à frente, atrás de si vai a 412. ". Tá bem, sabia que aquela era uma companhia de maçaricos, a CART2412. Como me tinham indicado, invertemos um pouco para sudeste e fomos em direcção a Talicó.
Antes de lá chegarmos fomos emboscados  ao pé dum pequeno descampado. Estão ali à esquerda, pensei, e fiquei de pé virado para lá a disparar. De repente levo um encontrão e vou parar ao chão.
- "Eles estão do lado direito!", gritou-me o Ocha, meu  guarda-costas.
- "Obrigado, pá. É a merda dos ouvidos que me enganaram." E fiquei no chão a disparar para o lado certo. Estava fodido, não era a primeira vez que os tímpanos me baralhavam.
Foi um quarto de hora de tiroteio, morteiradas da companhia de trás e roquetadas e morteiradas também deles. Às tantas, homem espantoso, aparece o Correia de Campos, de pistola à cowboy na cintura e pingalim na mão.
- "É pá, está um gajo com RPG ali naquela árvore e o morteiro está ali no lado direito".
Disse-me isto sempre de pé, e eu esticado no chão a ouvi-lo.
- "Já não adianta, os gajos piraram-se", disse-me ele, passados alguns minutos,  quando nos apercebemos que eles tinham parado de disparar . "A companhia vai retirar e vocês vão atrás".
Levantámo-nos e diz-me o Ocha:
- "Está ali um corpo do outro lado".
Disse ao furriel Lindolfo para ir com a secção dele buscá-lo.Voltaram. O Falcão e o Iofna, um de cada lado, traziam o homem, que estava ferido e andava com dificuldade. Era do PAIGC, tinha o fardardamento deles .
- "Então e a arma?", perguntei-lhes.
- "Não havia arma nenhuma", respondeu o Lindolfo
- "Está visto que os gajos levaram a arma e deixaram o ferido", conclui. 
Disse para fazerem uma maca com ramos de árvores para colocar em cima o homem ferido. Fomos andando no encalço da 412., devagar porque o Falcão e o Iofna levavam a maca com o ferido. Os últimos da companhia estavam ao pé do rio de Cunalá, estava visto que o major optara regressar por ali e não por onde viéramos, para evitar emboscadas. Vi que estava um homem estendido ao pé deles. Aproximei-me e vi que tinha o pescoço aberto, um grande rasgo horizontal,  a cabeça parecia querer separar-se do corpo. Estava morto.
- "Como é que foi isto?", perguntei. Respondeu-me um soldado que fora um estilhaço de rocket, rebentara na árvore atrás da qual ele estava.
Dois deles pegaram no morto, nos braços e pernas, e começaram a atravessar o rio. Vi que foram à vontade, sinal que já tinham visto que era atravessável. A companhia, aliás, já estava praticamente toda do outro lado.
O Falcão e o Iofna tinham pousado a maca no chão.
- "Vá lá, alguém que pegue na maca para atravessar  o rio".
Ficaram todos calados e quietos.
- "Então?... Vá lá!"
Continuaram mudos e quedos. Os furriéis olhavam para mim um bocado enrascados.
- "Meu alferes", decidiu-se o Sousa, "eles não querem atravessar o rio com a maca."
- "O quê!?", fiquei genuinamente espantado.
O matulão Clode, no meio deles:
- "Alfero, vem jagudi e kum’el".[1]
Estava feito. Mas isto não era situação nova para mim, esta recusa em ter pena ou piedade de tudo o que fosse inimigo. Tinha de resolver aquilo, não podia ficar ali a discutir com eles nem queria deixar ali o ferido. Virei-me para o furriel Sousa.
- "Ó Sousa, pegue aí à frente que eu pego atrás". Assim fizemos, pusemos a maca aos ombros . "Vamos embora".
Metemo-nos no rio. Os outros vieram atrás.
A água dava pelo peito. Não era fácil, deviam ser uns quarenta metros de largura, mas fomos andando, embora devagar e com dificuldade, sobretudo para "ver" onde púnhamos os pés.
Estávamos a meio e chegam-se o Ocha e o Falcão.
- "Alfero, nós levamos".
- "Ah!", só lhes disse isto. E eles levaram a maca até ao outro lado.
Da margem vimos que havia uma clareira larga onde estava, a cerca de cem metros um helicóptero. Chegámos até lá e vimos ao pé dele o major Correia de Campos e uma enfermeira pára-quedista.
- "Meu major, tenho aqui um homem do PAIGC ferido".
- "Entregue-o à enfermeira".
Dei indicação ao Ocha para tal. Depois disse ao furriel Sousa:
- "Mande formar o pelotão."
O major olhava para mim com curiosidade, mas não disse nada.
Olhei para o pelotão com cara de zangado, tanto que não deu para dizer nada em crioulo:
- "Estou lixado com vocês. Porque acho que vocês são uns grandes filhos da puta, pior para os da vossa raça, muito pior do que são os brancos. E podem ter a certeza que fodo o primeiro que tentar fazer mais alguma igual a esta". 
E não disse mais nada, mandei destroçar. O major estava sério.
- "Mas que é que aconteceu, nosso alferes?"
- "O que sucedeu, meu major, é que estes gajos recusaram-se a atravessar o rio com o ferido. Tive de ser eu e um furriel a carregar com ele."
- "Oh,e você não sabe que eles são assim, homem? Não se chateie. Quando chegar ao quartel pague-lhes umas cervejas e vai ver como ficam todos bem".
A enfermeira chegou-se a nós.
- "Meu major, o homem do PAIGC acaba de morrer. Não aguentou".
- "Que merda! Tanto trabalho...", pensei que disse para mim, mas ela ouviu. Não se manifestou.
- "Bem, vamos embora", disse o major.
O heli partiu e ele foi nele. Durante o regresso a Bigene e, depois, a Barro as coisas foram amainando e já estava tudo normalizado quando lá chegámos.
Mas sei e senti que o que lhes dissera não caíu em vão.



[1] Alferes, os abutre vêm e comem-no. (crioulo)



Regresso de Bigene
Eu e o Ocha, que foi meu guarda-costas. Ele vive agora em Corroios.

9 de abril de 2011

102-O "herói"...

- “Raio da carne. Mais parece que estou a comer os cornos da vaca”. Era o que me parecia porque era mesmo dura como cornos.
- “Não se queixe, ó Aiveca”, virou-se-me o capitão,.a mastigar, “se não fosse esta vaquita, estávamos agora agarrados à bianda[1] ou àquela dobrada saltitante.”
- “Ainda bem que os gajos trazem umas vacas por aqueles carreiros que armadilhámos. Não ganhávamos nada se fossem só os gajos sem as vacas”. Uma piada à Rodolfo.
Tinha razão. As armadilhas que púnhamos em alguns carreiros da mata, que sabíamos ser utilizados pelos carregadores do PAIGC, a maior parte das vezes rebentavam com as patas das vacas que eles colocavam à frente como arrebenta minas. Quando ouvíamos um estoiro, calculávamos em que carreiro seria, corríamos para lá e encontrávamos normalmente uma vaca sem pata e agonizante. Havia rancho melhorado no dia seguinte.
Era o caso deste nosso almoço. Estávamos no refeitório oficiais, sargentos e praças. Era sempre assim, comíamos em conjunto. Só não estava lá o Salvado, porque tinha saído de manhãzinha para uma emboscada em Ponta Nova.
- “Como  bo  otcha baka?[2]”, perguntei para as mesas dos soldados.
- “É baka-brutu”[3], soltou o Incanha.
Gerou-se uma confusão. Na mesa ao lado da dele o Akadite protestava..
- “Mas o que é que aconteceu?”, admirou-se o capitão.
- “Estou a ver que o Incanha fez asneira”,  levantei-me e fui até às mesas deles.
- “O que é que há?”
 O Ocha estava calmo e foi ele que me respondeu.
 - “Alfero, Baka-brutu é uma dança[4] que os bijagós mais novos fazem com uma máscara de vaca selvagem, O Akadite é bijagó e não gostou, porque para eles é sinal de coragem. Não tem nada a ver com esta carne dura…”.
- “Ah, é isso…”. Não deu para continuar, porque chegou o Salvado e o seu pelotão. Todos se viraram para os recém-chegados.
Sentaram-se nas mesas. O Salvado foi para a nossa.
- “Então como é que correu isso?”, perguntou-lhe o capitão.
- “Muito bem. Manga de Ronco!”, todo ele se ria
- “Conte lá, homem”.
O Salvado estava radiante.
- “Matámos dez gajos”.
- “O quê!?”, abrimos todos a boca de espanto.
- “Estávamos emboscados ao pé das palmeiras da bolanha da Ponta Nova, perto do sítio referenciado como ponto de passagem. Vimo-los sair da mata, deixámo-los entrar na bolanha, e a seguir foi só disparar”. Estava sorridente.
- “E trouxeram o armamento deles, claro”, preocupou-se o capitão.
- “Trouxemos três catanas[5]”.
- “Só!?”.
E eu e o Rodolfo também nos admirámos.
- “Não nos digas que os gajos vinham desarmados…”
- “É. Os gajos não tinham armas.”
- “Então, porque é que tiveste de matá-los, pá?”, perguntei-lhe com voz séria.
Ficou um bocado embaraçado e desculpou-se.
- “Houve um que começou a disparar, os outros juntaram-se-lhe, sabes como é, e só pararam quando eles já estavam todos esticados na bolanha”.
- “porque é que não os impediste?”
- “Não penses que isso é fácil”.
- “Não é fácil uma merda. Quando se quer é fácil. Outro dia em Sano foi fácil pirares-te e deixar-me sozinho no meio do tiroteio. Porque quiseste, achaste que era o melhor para ti, tiveste cagaço. E agora não, o que quiseste foi armar-te em herói contra gajos desarmados.”
Tinha levantado a voz. Já havia silêncio nas outras mesas, estavam de ouvido à escuta, e o capitão interrompeu-me.
- “Calma aí, pá. Disse-me que eram dez, mas eram só homens?”
- “Não. Eram sete homens e três mulheres”.
Estava a beber e pousei com ruído o copo na mesa.
- “Foda-se! Ainda por cima matas mulheres. Herói, sim senhor”.
- “Acabou, Aiveca”. O capitão Alves olhou-me severamente. “E os corpos deles?”
- “Mandámo-los para aquele riacho que vai desaguar no Cacheu”:
Abanei a cabeça em desacordo, mas já não disse nada.
- “A que horas é que foi isso? Não traziam nada? Tenho de mandar um relin[6] para o COP3.[7]
- “Eram oito e meia. Só traziam um garrafão com água.”
- “Era população civil que se deslocava, certamente”.
- “Claro”, disse eu.
O Rodolfo, que tinha estado sério e calado, abriu a boca.
- “Mas, ó meu capitão, se o Spínola sabe que o Salvado matou dez civis é capaz de lhe dar uma porrada.”
- “Porquê?”, perguntei-lhe com um encolher de ombros de incredulidade.
- “É pá, ele acha que a tropa deve proteger a população civil, deve apoiá-la, e não foi o caso, pelo contrário”.
Ri-me.
- “Isso é treta, é psico. Se fosse com o pessoal aqui da tabanca… Agora com o pessoal do mato, se o Salvado dissesse que foi atacado com uma catana ainda lhe dava uma cruz de guerra. Fizeste mal em não dizer, esqueceste-te, assim é que serias mesmo um grande herói, medalhado, até podias ir ao Terreiro do Paço….”
- “Chega!”, cortou o capitão Alves. “Já comeram todos?... Vamos embora”.
Saímos. O capitão foi para a secretaria, o Salvado olhou para mim de trombas e foi em direcção ao quarto dos alferes. Eu e o Rodolfo assentámo-nos ao pé do poilão[8] da secretaria a fumar um cigarro. Ouvia-se o katchu-kaleron[9] a voejar por entre os ramos.
- “Tu não gramas mesmo o Salvado”.
- “E achas que não tenho razão, Rodolfo? Aquele filho da puta deixou-me outro dia sozinho em Sano. Se os gajos tivessem lá um bigrupo, como o major do COP3 pensava, eu estava bem fodido. E agora isto… tão cobarde foi em Sano como agora na Ponta Nova…”
- “Mas ele, no fundo, não é mau gajo. Até foi seminarista.”
Soltei uma gargalhada e curvei-me para baixo a rir. O Rolando olhou-me interrogativamente.
- “Não gostas de seminaristas, é?.”, acabou  por dizer.
- “Não é nada disso, não. O que sucede é que eu também fui seminarista, pá.”
Olhou-me espantado.
- “Nunca pensei. Não tens ar disso”.
- “E qual é o ar de um ex-seminarista? O Salvado tem ar de não ser mau gajo e eu tenho? Por isso não me topaste, é isso?. Fica a saber que os ex-seminaristas são como os outros. Uns são filhos da puta e outros não.”
- “Oh, vai à merda. Sabes o que eu quero dizer. Normalmente os ex-seminaristas têm um ar encolhido, pouco aberto. Será, não sei, porque não perderam o ar do seminário, a forma como foram educados. O Salvado tem e tu não tens.”
- “E achas que o ar encolhido e pouco aberto é que o caracteriza como bom gajo? Não te fies muito nos que são assim, podes ter más surpresas às vezes.”
Tinha acabado de fumar o cigarro.
- “Olha vou ali à caserna para ver como estão os do meu pelotão”. E afastei-me do poilão.

[1] Prato guineense de arroz com molho; o arroz cozinhado no geral como arroz branco; comida  (crioulo)
[2] O que acham da vaca’? (crioulo)
[3] Vaca selvagem (crioulo)
[4] Baili di baka-brutu.
[5] Terçado, espécie de espada de folha curta e larga, usada para cortar ramos, mas também como arma.
[6] Relatório militar, “relatório de incidente”
[7] Comando Operacional nº 3, situado em Bigene.
[8] Árvore de grande porte da Guiné.
[9] Espécie de pardal de cor amarela

18 de março de 2011

16 de fevereiro de 2011

60-Emboscada... fracassada, e rezas.


Já era noite tarde e o capitão Alves dizia-nos:
- “Esta madrugada é preciso ir montar uma emboscada no corredor que vem de Sano por Bucaur. Vai o Aiveca e o Rodolfo. O Salvado fica cá”.
Fiquei lixado e ele notou-o.
- “Há algum problema, Aiveca? Não quer ir?”
- “Não é não querer ir. Mas eu acho que o meu capitão podia ter-nos avisado com mais antecedência. Os meus homens não estão a contar, e sei lá se vão estar em condições quando os for acordar de madrugada”.
O Rodolfo meteu o bedelho.
- “É pá, um gajo vai à caserna e obriga os gajos a levantar, lavam a cara e toca a andar”.
- “Falas bem pelos teus fulas porque dormem com a barriga cheia de
água. Mas os meus dormem agarrados à cana[1], sabes bem, e não vai ser
fácil acordá-los”.
- “Eu sei disso”, voltou o capitão. “Mas não podemos andar por aí a anunciar as nossas acções com antecedência. Se eles sabem falam por aí, há informadores e lá se vai o segredo. Além disso, em vez de montarmos a emboscada podemos é ser emboscados. Houve um informador nosso que me disse que hoje, durante o dia, estava em Sano um grupo que se preparava para atravessar o Cacheu na zona de Limane e Suar. E vocês sabem que eles também hão-de ter informadores aqui”.
Era a mesma merda. Este gajo também tinha a mania dos segredos e de guardar as informações para si. Os alferes que cumprissem ordens, mesmo de olhos tapados. Eu já estava farto disso, já me tinha chegado a experiência de Sinchã Jobel. Falta de confiança em mim também não dava, lembrei-me da história da fotografia do quartel.
- “Mas acha que nós íamos dizer aos homens onde era o local da emboscada? Só lhes diríamos que tínhamos de sair de madrugada, para estarem preparados para isso.”
Não teve mais argumentos ou quis cortar a conversa.
- “Pronto, pá. Vocês vão até à zona de Bucaur, que é por onde eles vão passar”.
O Rodolfo ficou preocupado.
- “Mas Bucaur fica muito longe, capitão, e é capaz de não ser o melhor local”.
- “Tem de ser porque que me garantiram que eles passariam lá.”
Passou-me pela cabeça uma interrogação sobre a anormalidade deste diálogo, que eu sabia não ser comum nas unidades em campanha, onde prevaleciam o comando e o cumprimento de ordens, sem reticências, pelo menos com a forma como aqui as estávamos a expressar. Talvez porque este gajo fosse especial. E daí, não sei. Havia muitos como ele. Era do quadro permanente, sem experiência, chegara há pouco tempo, que remédio senão ceder ao que os alferes já mais batidos que ele opinavam. Eu sabia que tinha uma certa aura, por ter estado já noutra companhia, por ter sido ferido e por ter voltado para a guerra. Além disso, ele sabia da história de Sinchã Jobel e que o meu anterior capitão morrera por não ter seguido o meu conselho. Se calhar não sabia é aquela do imbroglio da operação Inquietar I, onde também tive papel na solução. Quer o Roberto quer o Salvado já eram gajos batidos nisto, já estavam ali há meses. E também me pareceu que ele ficou um bocado enrascado com a barraca que tinha dado ao piloto da dornier.
- “Desculpe lá, meu capitão”, senti-me autorizado a dizer. “Bucaur é um local muito complicado. Está muito perto da base que eles têm em Sano, na fronteira do Senegal, onde têm grande apoio, às vezes com bigrupos[2]. Lá, só com dois pelotões e longe de Barro, podemos ter problemas se houver uma forte reacção deles. Aliás, já os tivemos quando eu e o Salvado lá fomos uma vez. Ele que conte”. Mas como o Salvado não disse nada continuei. “De qualquer modo, as acções na zona fronteiriça eram a nível de operação, om mais meios e, normalmente, com PCV (Posto de Controlo Volante). Neste caso trata-se de um mero reconhecimento com emboscada associada. Penso que será melhor irmos para Limane e Suar.”

Os outros alferes apoiaram-me. Houve mais uma troca e ideias e o Alves acedeu.
Saímos eu e o Rodolfo com os grupos de combate era ainda madrugada. Tínhamos combinado colocarmo-nos na ponta da margem esquerda da bolanha entre Limane e Suar, por indicação do nosso guia Bailo. Segundo ele havia ali vários carreiros e era por um deles que chegavam ao rio de Indafo, um pequeno afluente do Cacheu. Aí tinham, às vezes, pirogas escondidas no tarrafe para chegarem ao rio maior. Era um caçador experiente com grande conhecimento da zona e de todos os meandros da mata e das margens dos rios.
Emboscámo-nos, eu mais perto do afluente e o Rodolfo mais à frente, com a preocupação de nos virarmos para o 
carreiro indicado para não haver fogo cruzado entre nós.
- “Ó Rodolfo, parece-me que é melhor deixá-los chegar mesmo até ao rio de Injafo. Assim eu apanho os da frente e tu os de trás”. Concordou.
Ali ficámos mais de uma hora sem ver nada e em silêncio. Precavera-me para que ninguém levasse cantil e estava confiante que estariam todos despertos. Só o ruído da bicharada e o zumbir dos mosquitos, situação a que eu já me habituara e que para o resto do pessoal não era problema.
Chegaram as cinco da manhã e já começara a clarear. Dei ao Bailo uma indicação que eu sabia ser do seu agrado.
- “Sibi palmera pa jubi”[3].
- “Io, nossalfero”[4].
- “Ku kuidadu i atenson kakuba verdi”[5].
O Quecuta Seidi tinha sido mordido por uma cobra de palmeira numa perna e tiveram que lha cortar. Pareceu-me zangado com esta minha observação.
- “Bailo djiru, sabi fasi. A mim ka Quecuta”[6].
- “Tá bem, anda lá”.
Subiu à palmeira mais próxima e lá ficou. De vez em quando eu olhava para ele para ver da sua reacção. A certa altura fez-me um sinal e apontou para o carreiro.
- “Turras”[7].
Fiz sinal aos meus para estarem quietos. Espreitei pelo capim e vi a cerca de cem metros dois indivíduos desarmados que vinham pelo carreiro estreito. O Rodolfo tinha-os deixado passar como combináramos. Atrás deles não vinha mais nenhum.
De repente, oiço dois tiros perto de mim. Eram de mauser! Olhei para a palmeira e vi o Bailo de arma ainda apontada. Parte do meu pessoal levantou-se agitado de arma em riste. Gritei-lhes “firma la![8]” e saiu-me toda a fúria em português.
- “Ó seu filho da puta, quem é que te mandou disparar? Salta já cá para baixo!”
O Roberto e o seu furriel Aguinaldo chegaram a correr vindos das suas posições.
- “O que é que foi, Aiveca?”
- “Foi este cabrão de merda que disparou sem ninguém lhe dar ordens para isso”. O Bailo já estava ao pé, todo encolhido.
- “Makaku pretu, bu buru suma![9]”, gritei-lhe. Estava furioso e apeteceu-me bater-lhe, mas contive-me. Era uma ofensa maior do que chamar-lhe nomes. Ele já tinha feito uma idêntica, não comigo mas com o Salvado. Duma vez só despejara do cimo de uma palmeira os cinco tiros da mauser, e todos certeiros. Era caçador por paixão e atirador viciado. Havia um outro aspecto especial para mim, fez-me pensar em eventual prejuízo próprio. É que ele tinha quatro mulheres e algumas vezes lhe assumei à porta a perguntar pretensioso se dormia com as quatro. Não queria pôr em risco essas hipóteses preciosas. Enfim, dera-me cabo de tudo. Ajudei-me com a recriminação de mim próprio por não ter previsto que o gajo podia fazer isto. 
- “Dá cá a merda da mauser! Nunca mais te quero ver à minha frente! Desanda”. Entreguei a espingarda a um soldado.
- “Estão ali à vossa frente um gajo morto e um ferido, tem um tiro de raspão na coxa”, dizia-me o Roberto. “Estão lá uns gajos meus ao pé deles.”
- “O Bailo teve fraca pontaria hoje. Não vinham mais nenhuns a seguir a estes?”
- “É pá, não. Mas, quando ouvi os tiros, mandei fazer uma batida à frente na mata para ver se estavam lá mais alguns. Mas não me parece. De qualquer modo, se houver deve ser só população civil dos gajos, se não tinham reagido logo com fogachal. O Aguinaldo vai lá ver…”. Virou-se para o Aguinaldo, mas este já não estava ali. “Onde é que este caralho se meteu?”
- “Deixa lá. Vou chegar os meus homens para o pé dos teus”. Dei ordem de avançar pelo carreiro.
Encontrámos os dois corpos. Um estava morto no chão e o outro sentado e agarrado a uma perna. Estavam lá três soldados e o Aguinaldo, que estava de joelhos ao pé do morto. Espanto meu. Rezava de cabeça baixa.
- “Que estás aí a fazer, pá?”, mandou-lhe o Roberto.
Ergueu a cabeça, rosto compenetrado e sereno.
- Namaaz-e meyyef.[10]
- “Tás nisso agora?”.
- “Deixa-o estar. Vou mandar os meus para ajudarem os teus na batida.”
Disse ao Sousa para avançarem para a mata e se juntarem aos outros. 
Percebi o Aguinaldo, de seu nome completo Aguinaldo Kindi Baldé[11]. Era mullah, um clérigo muçulmano. Estava, portanto, no seu ministério para a ocasião, como um padre católico também estaria. Spínola já lhe tinha pago o Hajj[12], como o fez a outros na intenção de captar a boa vontade dos islâmicos para a guerra que travava. Estava orgulhoso de ser el hadj[13], desejo de todo o muçulmano devoto, e cumpria bem os dois papéis, clérigo muçulmano e furriel do exército português.
Entretanto chegaram todos do lado da mata.
- “Como é que foi, Sousa?”
- “Oh, não havia nada. Os gajos devem ter-se pirado todos. Veja lá que nem deixaram nada para trás. Acho que não eram carregadores, senão deixavam o material durante a fuga. Devia ser só civis que se deslocavam do Senegal para o Oio.”
- “O informador do capitão é mesmo um grande artista”, chasqueou o Roberto
- “Porque é que aqueles dois viriam à frente?”, uma interrogação que já fizera a mim próprio.
- “Se calhar eram batedores que vinham ver onde estavam as pirogas escondidas no tarrafe.”
Talvez fosse isso, era uma explicação. Não me apetecia muito meter-me às cegas no meio do tarrafe, enorme e complicado, para ver onde estariam as tais pirogas. Mandei a secção do Fernandes dar uma vista de olhos.
- "Dêem só um salto ali à margem do rio Injafo. Não se metam para mais longe."
Olhei para o Roberto.
- “É pá, eu acho que é melhor irmo-nos embora daqui. Já não estamos cá a fazer nada. Além disso, não é bom continuarmos numa posição estática. Vê lá se consegues que o Aguinaldo acabe de rezar. Fala-lhe com calma, tá bem?”
Vi que conseguiu que ele se levantasse. Todos se preparavam para ir embora, tinham levantado o ferido, que coxeava agarrado de um lado e do outro. Olhei para o morto no chão. Ninguém lhe ligava.
- “Como é que é? O homem não pode ficar aqui desta maneira. Vamos enterrar o gajo”.
Os balantas do meu pelotão olharam-me de soslaio. Filhos da puta, preparavam-se para me fazer o mesmo que em Sambuiá, quando apanhámos um ferido do PAIGC e se recusaram a transportá-lo, dizendo-me que os jagudis haviam de comê-lo. Com essa lembrança não havia crioulo que me chegasse.
- “É já, caralho! Ocha, Besna, Iofna, Bletche, venham cá.”
Vieram, trombudos.
- “Fazer uma cova aqui com as facas de mato. Vá lá.”


Fizemos uma cova e enterrámos o homem. 
Chegou o Fernandes a dizer que tinham encontrado uma canoa. Fomos ver. E lá estava ela e era preciso destruí-la.
- "Bazucada para cima dela. Todos para longe."
Partiu-se e afundou-se.


Regressámos depois a Barro com o prisioneiro.

[1] Aguardente de cana, querida dos balantas.
[2] De acordo com o livro Guerra Colonial: Angola, Guiné, Moçambique (Lisboa: Diário de Notícias, s/d), da autoria de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, um bigrupo tinha 38/44 unidades e um bigrupo reforçado 70 unidades. Na Inter-Região Norte, Frente S. Domingos/Sambuiá (onde se situava Barro, teriam 630 unidades.
[3] Sobe á palmeira para observar (crioulo).
[4] Sim, nosso alferes (crioulo)
[5] Cuidado e atenção à cobra de palmeira (crioulo)
[6] O Bailo é inteligente, é fácil. Não sou o Quecuta (crioulo)
[7] Terroristas
[8] Quietos! (crioulo)
[9] Macaco preto, pareces mas é burro! (crioulo)
[10] A oração muçulmana dos mortos para pedir a Alá que perdoe o falecido.
[11] Em 1974, após o 25 de Abril, fugiu para o Senegal. Foram lá buscá-lo e  foi um dos fuzilados pelo PAIGC.
[12] Peregrinação a Meca.
[13] Expressão que pode ser colocada na frente do nome das pessoas que já fizeram a peregrinação a Meca

14 de outubro de 2010

5-Operação "Jigajoga"




OP."JIGAJOGA"  24JUN67



SITUAÇÃO PARTICULAR: 
O IN tem-se revelado em operações realizadas no regulado de MANSOMINE, ataques a tabancas a aquartelamentos e outras flagelações. Deve existir algum acampamento que lhe sirva de base para a execução de acções sobre as NT e populações que nos são fieis.

MISSÃO: 
Assegura a ocupação do Sector, tendo em atenção os regulados da faixa OESTE e as linhas de infiltração que conduzam ao interior. Detecta, vigia ou captura elementos ou grupos suspeitos de subversão que se hajam infiltrado ou constituído no sector, impedindo que a subversão alastre. Captura ou aniquila os rebeldes que se venham a revelar, destruindo as suas instalações ou meios de vida e restabelece a autoridade e a ordem nas regiões afectadas.

FORCA EXECUTANTE
a) CMDT: Cap. Art.ª Manuel Carlos Guimarães
b) MEIOS: 01 GR.COMB. da CART1690 ref. com 01 PEL. MIL/C. MIL. 3 01 PEL do EREC 1578

DESENROLAR DA ACÇÃO
O PEL REC/EREC 1578 saiu de BAFATÂ pelas 05H00 tendo-se-lhe reunido em SARE GEBA os GR. COMB. da CART1690 e em SARE GANA o PEL. MIL. Entretanto o Dest. da C.MIL.3 em SARE MADINA efectuava a picagem do itinerário SARE MADINA Ponte R. GAMBIEL. Em SUCUTA (MADINA FALI) o Dest. A iniciou a progressão apeada em direcção a SINCHÃ JOBEL e o Dest. B o patrulhamento do itinerário CHEUEL - Ponte R. GAMBIEL. Depois de atravessar a bolanha de SUCUTA o Dest. A detectou pegadas bastantes recentes, deduzindo que se tratasse de una sentinela IN. Junto a SINCHÃ JOBEL as NT foran emboscadas por um GR. IN. numeroso com mort. 82, LGF, MP e Amas Aut. tendo sofrido um ferido grave e 5 feridos ligeiros. Da reacção das NT o IN sofreu 3 mortos confirmados e 3 prováveis.
En consequência do pequeno efectivo das NT, da manobra efectuada com peque nos grupos, do grande potencial de fogo IN e da mata bastante densa desa pareceu o Cmdt. do Dest. A, Alferes Lopes, que havia saído de um grupo de manobra para ir a outro trazer um L.G.F.. Como o grupo já não se encontrasse no local previsto pelo Cmdt do Dest A este viu-se sozinho e a ser alvejado pelo fogo IN pelo que se internou na mata. Pelo que em cada grupo se pensava que o Cmdt. estava no outro, não foi dado grande importância ao facto. Só depois de reunidos todos os grupos se verificou a falta do Cmdt. O furriel agora Cmdt. do grupo de combate, resolveu, porque sendo o seu efectivo reduzido, para o potencial de fogo IN porque tendo 6 feridos, um dos quais grave e tendo ainda LGF avariado, regressar a SUCUTA para pedir reforços. Em SUCUTA onde já se encontrava o Dest. B ao corrente do sucedido por via rádio, foi resolvido pelo Cmdt. da CART1690 pedir reforços ao Comando do BCAÇ. 1877.
Comunicado ao Comando do BCAÇ. 1877 saiu imediatamente um GR. COMB./CCS constituído pelo PEL. REC. Inf. e pelo PEL. Sap. que juntamente com forças da CART1690 efectuou uma batida na área de SINCHÃ JOBEL até cerca das 21H30 sem resultado e sem contacto com o IN. As forças empenhadas na batida e o PEL. EREC., que estava a fazer a segurança às viaturas e o patrulhamento do itinerário CHEUEL-Ponte R. GAMBIEL regressaram a GEBA e BAFATÁ cerca das 23H30.
Pelas 09H30 do dia 25 saiu o GR. COMB./CCS/BCAÇ.1877 que juntamente com as forças da CART1690 iriam novamente bater a zona de SINCHÃ JOBEL. Ao chegar a SARE GEBA foi-lhes comunicado que o Alferes Lopes já tinha aparecido, tendo o GR. COMB/CCS regressado a BAFATA.

RESULTADOS OBTIDOS
-A detecção de um grupo IN numeroso e bem amado na região,
-A morte confirmada de 3 elementos IN e 3 mortos e alguns feridos prováveis.

Este foi o relatório feito pelo capitão Guimarães, comandante da CART1690, mas não foi bem assim. Mas eu vou agora contar como foi de facto, desde o princípio, como nunca tenho feito (já o fiz para outros blogues mas não tão completamente):
Na véspera, dia 23, fui chamado a Bafatá para estar no Agrupamento 1980. O, então, TCor Hélio Felgas (que substituía o Cor Assa Castel-Branco que tinha ido à Metrópole tratar-se, parece) foi quem falou comigo. Que era uma operação de rotina, que não havia problemas, que a companhia anterior já lá tinha ido, que era melhor levar uma corda pois era preciso atravessar um rio profundo, blá, blá, blá... Nem de leve aflorou a hipótese de poder haver lá uma base do PAIGC. No entanto, como se vê pela "Situação Particular", já suspeitavam ou sabiam mesmo pelos informadores. Surpresa só para mim. Mais tarde, já depois disto tudo se ter passado, deu-me para ir ver o que queria dizer "Jigajoga". E vi o que estava no dicionário: "Jiga-joga,s.m. Antigo jogo de cartas. Jogo da cabra-cega. Fig. Coisa pouco firme; engenhoca. Ludibrio." E vi que foi dada à operação o nome adequado: para o Agrupamento, admito, era uma coisa pouco firme, mas para mim foi um jogo de cabra cega e um ludibrio.
Mas avante. No dia seguinte lá parti com o meu grupo de combate, acompanhado por aquela gente toda como "Força Executante". No entanto, só eu e os meus homens é que atravessámos o tal rio profundo, acompanhados por um guia. Era o rio Gambiel, com cerca de trinta metros de largura e o guia disse-me que "a ponte" eram dois troncos de palmeira que estavam submersos (já tinham começado as chuvas). A corda afinal valeu-nos. Todos agarrados a ela, adivinhando cuidadosamente onde estavam os trocos de palmeira, chegámos à outra margem. Aí vi uma pegada de sandália. É pegada de turra, disse-me o guia.

Sentinela. É uma fotografia do PAIGC. O rio era como este e eram estas sandálias que deixavam marcas.


Vamos embora, ordenei, e avançámos pelo que parecia um carreiro estreito no meio do matagal. Do solo, da vegetação luxuriante desprende-se um vapor que paira e envolve o ambiente. É o calor acumulado durante o período seco. Há quem lhe chame cacimba e quem diga que é prejudicial à boa saúde das vias respiratórias... mas, aos 20 anos, não há cacimba que impeça de andar. A bicha de pirilau, ao longo de quase trezentos metros, pondo em relevo, na paisagem verde, todas as sinuosidades do antigo carreiro já quase totalmente coberto, movia-se como um réptil enorme, segmentado e escamoso. O silêncio profundo e agradavelmente sombrio da mata era apenas cortado pelo roçar das botas de lona e dos camuflados pelas ervas e folhagens que acompanhavam o carreiro. Ambiente para piqueniques e amor. Na hora em que o intenso sol tropical só conseguiu ainda afastar e diluir a luminosidade doentia libertada durante a noite por aquela vegetação farta de clorofila, mantinha-se o meio termo da frescura agradável que faz da Guiné um dos locais mais belos e repousantes às sete horas da manhã...
Eu ia à frente, uma parte de mim divagava poesia mas a outra estava atenta e dava indicações de marcha. E, algum tempo depois, deparámos com uma clareira larga, tinha alguns indícios de que tinha havido ali uma tabanca (aldeia), poucos e pequenos restos de moranças (casas), tinha muita vegetação curta, pelo facto mesmo de ter sido abandonada. Estava cercada por mata, do lado direito havia várias bananeiras. Juntámo-nos e eu disse a dois furriéis: vocês ficam aqui, não atravessam, eu e a secção do Ribeiro vamos atravessar a clareira. Um sexto sentido? Talvez. Levei também o apontador de morteiro 60 e o radiotelegrafista.
Avançámos. A meio da clareira, quando chegámos ao pé das bananeiras, saltou de lá um gajo com uma PPSH (pistola metralhadora de fabrico soviético) e desatou a correr. Não disparem, disse eu, agarrarem-no. Dois soldados correram atrás dele, mas ele tinha asas nos pés. Foi então que começou o fogachal, metralhadoras ligeiras e pesadas jorraram fogo do outro lado da clareira. Acoitámo-nos por trás de um grande morro de baga-baga que estava perto. A baga-baga é uma formiga que constrói isto:



Ali ficámos, o tiroteio continuava, nós respondíamos, mas já caíam também morteiradas. Disse ao homem do nosso morteiro para disparar também, mas, logo à primeira, o morteiro enterrou-se no chão. Não leváramos o prato base, nunca levávamos porque era muito pesado e um martírio para transportar naquelas matas e debaixo do calor, e as chuvas já tinham amolecido o chão. O baga-baga era um bom abrigo, as balas e os estilhaços das morteiradas chispavam nele, mas não podíamos continuar assim. Disse ao Ribeiro para ligar ao Marcelo com o Sharp (pequeno transmissor para comunicação entre secções) e dizer para mandarem bazucadas para o outro lado da clareira. Tentou e disse-me que não dava. Esta merda é sempre assim, barafustei, quando é preciso nunca funciona. Dá cá isso que eu vou ver se dá noutro lado. Saí do baga-baga e rastejei mais para o meio da clareira por entre umas ervas altas. Fiz várias tentativas, as balas e as morteiradas continuavam a chover. Mas continuou a não dar nada, e rastejei novamente para o baga-baga. Não me vi, mas devo ter ficado branco e de boca aberta: já não estava lá ninguém. Estava sozinho no meio da tormenta, que continuava.
Ali, deitado sobre a terra, desejoso de nela me afundar, como quem dorme com mulher, deixei a minha condição humana. Ali fiquei, alapado como um coelho que segue os passos do caçador à espera do momento oportuno para fugir. Levantei a cabeça e espreitei por cima do capim alto que rodeava o baga-baga. Tendo abandonado as suas posições de combate, os guerrilheiros avançavam em linha ao longo da clareira, lançando rajadas curtas de costureirinhas (nome por nós dado às PPSH, por o seu disparo parecer o trabalhar de uma máquina de costura) e kalashs (espingarda metralhadora AK-47 ou Kalashnikov, de fabrico soviético). Estou a vê-los, numa imagem de ocasião, sem saber ainda se é real se imaginária: fortes, atléticos mesmo, em passadas decididas, senhores da vitória. Despertou em mim o animal cujas reacções são comandadas pelo instinto de sobrevivência e, ao mesmo tempo, o animal especial que eu era: o animal domesticado que eu era para reagir a determinados sinais e estímulos. Mais do que um naturalista, estou agora apto a compreender todo o mecanismo de comportamento do animal encurralado por numerosos caçadores. Não há computador electrónico, por mais perfeito e programado, que consiga dar a solução tão acertada e rapidamente como o maquinismo instintivo da sobrevivência, aliado ao treino para reagir às mais variadas situações. Decidi rastejar até à orla da clareira. Mas, antes, lixado com a maçariquice de andar com eles, enterrei os galões camuflados que usava (nunca mais os usei). Achei que não me servia ali a Convenção de Genebra, que o meu futuro de prisioneiro seria melhor se não soubessem o meu posto... Estranho, agora, como é que fui assaltado por essa estúpida ideia de avaliar nesses termos a enrascada em que me encontrava.
E fui rastejando, mas, coisa que nunca imaginei que fosse possível, nem nunca acreditei que fosse mesmo quando o via nos filmes, ouvi um silvo agudo no ar, levantei a cabeça e vi uma granada de morteiro em direcção a mim, nem pensei, dei três voltas para o lado a rebolar, ela enfiou-se na terra mole do sítio onde eu tinha estado, vi de esguelha o rebentamento. Cabeça entre os braços, fiquei agarrado ao chão, continuei sem pensar durante instantes.

Mas tive de pensar e continuei a rastejar até à orla. Aí, fiquei sentado ao pé de uma palmeira jovem, ainda baixinha, tapado pelas ramadas que tocavam o chão.

E vi, depois, que eles tinham chegado ao sítio onde tínhamos estado. Manga de ronco (grande festa), desenterraram o nosso morteiro, agitavam uma pistola, pensei logo que devia ser a do radiotelegrafista, que a terá largado antes de fugir, e gritavam alegremente "alferes Lopes, alferes Lopes" passando um cinturão de mão em mão. Fiquei banzado e levei as mãos à cintura. Vi que era o meu cinturão, que tinha o meu nome escrito, e que se me soltara quando eu rastejava. Fiquei raivoso por isso, vi que tinha três carregadores de G3 (a nossa espingarda metralhadora) e passou-me pela cabeça começar a disparar sobre eles, mas ponderei que eram muitos, mais que os dez que eu vira antes avançar do outro lado da clareira, e achei por bem ficar quieto. Seria abatido com certeza, mesmo que levasse alguns à frente.
Assim fiquei alguns minutos. Quando vi que o grupo deles dispersava e que começavam a bater o terreno, decidi sair dali, com receio que me encontrassem, rastejei por entre algumas árvores que estavam perto, fui dar a uma bolanha (pântano) e entrei por ela. Tinha capim alto e a água dava-me pelos joelhos. Sentei-me a meio, tapado pelo capim. Eram umas dez horas da manhã.
Estive ali de molho todo o dia. Ouvi várias vezes ruídos e falares crioulos. Não eram os meus, nunca mais os ouvi, e julguei melhor não me levantar e caminhar pela bolanha, muito menos pela mata, seria visto, pois sabia que eles andavam por ali. Mas tive tempo de estudar o mapa da zona que tinha trazido comigo e decidir quando sairia dali, por onde ir e para onde.
Fiquei lá toda a noite também. Longa noite que começou cerca das seis horas da tarde. Fui-me distraindo com os mosquitos... Ouvi uns ruídos também durante esse tempo de escuridão. Pensei que seriam eles. Mas, se calhar, não. Disseram-me mais tarde que os nossos tinham ido lá a minha procura durante a noite. Sobre isso, um meu amigo furriel da companhia deu-me um texto que escreveu:

«O resgate falhado do Alferes Lopes
ou
O outro lado da mesma noite, a inesquecível 24.06.67.
Celebra-se, todos os anos, nesse dia e mês, na minha terra, num recanto Alentejano, o Feriado Municipal, dia de S. João, com os manjares gastronómicos e as folias próprias desse evento e que, em 1967, por ironia do destino, para além de tudo, não me deram tempo para recordar ou ter saudades. (perdoem-me a simbiose).

O Lopes sempre foi um gajo porreiro. Mas, nessa tarde, chegou-nos a triste notícia que tinha desaparecido em combate e era preciso unir esforços e trazê-lo para junto de nós.
Organizou-se, quase por instinto, um grupo não muito numeroso, já que em Geba, sede da Companhia, também não eramos muitos e assim, alguns de forma voluntária e outros por imposição (os mais desfavorecidos ou sejam o zé soldado e o preto) que, santo Deus, se dirigiu a Sinchã Jobel no final dessa tarde e lá se conservou durante uma parte da noite. Em vão é verdade, mas Ele (não o Deus) merecia o nosso sacrifício e dedicação.
Pensei nesse momento fantasmagórico e hoje, algo distante, confirmo que só os loucos, cegos pela guerra, poderiam ousar tamanha e desmedida aventura.
Aquilo que se passou, na tentativa de o recuperar, foi medonho, horrível, de tal forma que não consigo concentrar-me suficientemente para retratar o vivido na noite que considero a mais longa da minha permanência na Guiné. (tantas de autêntico inferno)
A descrição sentida e fabulosa que o Lopes, através da Net, nos transmitiu sobre a sua sobrevivência, (qual quadro real ?) quase me parece pequena comparada com o terror que se apoderou de mim e daquele grupo esforçado e socorrista.
Confesso que os minutos naquela clareira e as peripécias ali estabelecidas se tornaram do tamanho das horas, dias ou meses, tal a confusão gerada, essencialmente, por negligência do Comando ou o receio persistente de continuarmos vivos, naquele perigo, no mínimo, imaginativo.
Só quem nunca ouvira relatos da realidade de Jobel (mais tarde um dos cemitérios da 1690) e não era o caso, arriscaria perder todas aquelas vidas humanas. O caos era tanto que pediu opinião a um soldado nativo sobre o procedimento a tomar (estavam no local pelo menos 1 Alferes e 3 ou 4 Furriéis). Falo deste Comando porque foi o primeiro morto branco da Companhia, no rebentamento descuidado da mina que também vitimou o Alferes Lopes e que acabou por o trazer para uns meses de recuperação no H.M.L. Por ironia, habituei-me a pensar, a partir desse momento, que me tinha saído a sorte grande e que interiorizei, verdadeiramente, como que, mesmo que me matassem eu não morria, tais as obrigatoriedades operacionais que me impunha. O “senhor da guerra” entendia, entre outras coisas, que os outros militares do serviço de saúde não lhe mereciam confiança e então o Furriel (eu) tinha sempre de avançar. Enfim, contingências daquela guerra que, já na época, não eram compreensíveis ou aceitáveis.
Situando-me no momento, admitia eu que a nossa localização estivesse quase como a carne no assador, mas felizmente (quase um milagre) ninguém deu um tiro, porque em caso contrário, acabávamos por nos matar a nós próprios, já que a noite era de breu, não se vislumbrava um palmo para além dos nossos olhos e ali ninguém se entendia, imperava o desnorte, o medo e a incógnita.
Haverá, hoje, e referente à fase citada, uma multidão enorme, quase do tamanho do mundo, que não entende os perigos que nos envolviam e que do seu resultado dependia, para nós todos, a sobrevivência ou a morte.
Depois e para nosso bem (excluindo o Lopes) iniciámos a caminhada de regresso em silêncio, agarrados uns aos outros, embora com o enleio do emaranhado da mata cerrada, tivessem sido provocadas quedas e despegamentos, qual prolongar da odisseia, pelo que só no fim nos conseguimos juntar todos.
Quase me apetece parar, nesse presente tempo e concluir que afinal, para os bafejados pela sorte ou protegidos por algo, não decifrável, a vida continuaria.
Fomos, nessa noite, efectivamente, uns “sortudos”, mas, não me restam dúvidas, estivemos à beira de engrossar o vasto número dos desaparecidos ou mortos em combate, já que considero que enquanto lá permanecemos, coabitámos, paredes meias, com mortes anunciadas, que para bem de todos os intervenientes, nos foram perdoadas.
P.S.
Apercebo-me que a memória já não me vai confortando com muitos factos ocorridos, há mais de 40 anos e, confesso, isso me debilita em termos de me considerar perdedor de parte do vasto património da minha vivência.
Apesar de, contrastando com essa realidade, reparar com muita nitidez, que se mantêm bem transparentes quase todas as imagens daqueles tempos distantes e pernoitados na Guiné, onde, pura realidade, jamais sabíamos se o sol do dia seguinte ainda tinha algo que nos pertencesse.»

Passei toda essa noite a ruminar ideias. Que mais fazer?... Dizem que nessas situações em que a vida nos está ou pode estar a escapar nos viramos para aquela que já está, que já foi, que não se pode apagar. Passa-nos tudo pela mente. Hei-de dizer brevemente sobre esses meus pensamentos.
Às cinco da manhã do dia 25 começou a clarear e decidi fazer o que tinha pensado durante a análise do mapa no dia anterior. Não ir pelo mesmo carreiro por onde tinha vindo porque era mais que certo que tinham montado lá armadilhas. Caminhei pela bolanha porque tinha visto que ia dar ao rio que tinha atravessado na véspera. Naquela neblina matinal, os ruídos dos passos a chapinhar na água da bolanha, os capins a serem esmagados ou a agitarem-se com o andar causavam ruídos que me faziam virar a cabeça amiúde, podia ser algum bicho que habitava aquele meio, sei lá.
Sem bicho nenhum, acabei por chegar ao rio Gambiel e o problema a seguir foi encontrar o local onde estavam as palmeiras submersas, a única hipótese que eu tinha de o atravessar novamente. Vi que não havia ninguém por perto, procurei em vários metros da margem e encontrei. Fui andando devagar por cima dos troncos, num ritmo de equilibrista em corda bamba, a G3 era a vareta, sentindo-me como um pato que qualquer guerrilheiro que aparecesse na margem de onde eu vinha podia caçar com um só tiro. Mas cheguei à outra margem, o bater do coração baixou de ritmo, e iniciei o trajecto que tinha gizado na minha cabeça quando estava de molho na véspera. Andei muito tempo por entre as árvores da mata, passei por Canhagina e Cheuel.
Dei com uma pequena picada em declive que eu já conhecia. Ao fundo uma lagoazita e mulheres a lavar roupa. Aproximei-me delas. Olharam para mim estarrecidas por instantes e fugiram na direcção oposta. Devia estar de tal modo que a minha figura metia medo... Fui atrás delas, pois sabia para onde iam. Cheguei à tabanca de Sare Madina, estavam à entrada as mesmas mulheres em grande algazarra com uns homens grandes (homens mais velhos, respeitados), e os milícias. Eu já os conhecia e eles a mim. Quando me viram sorriram e acolheram-me bem. É evidente que sabiam da situação. Depois de alguma troca de palavras e mantenhas (saudações), o cabo que comandava a milícia local ofereceu-me a sua bicicleta para eu poder chegar a Geba. Aceitei.
Pedalei muito tempo, pareceu-me, por caminhos que me eram familiares, por onde eu tinha vindo aquando do início da operação. Cheguei e o primeiro que encontrei foi o alferes Moreira. Fitou-me de olhos esbugalhados. Lançou-se a mim num abraço e... desmaiou (bom rapaz, é um coração sentimental).
O meu percurso de ida e regresso de Sinchã Jobel.

Já me tinham dado para Bissau como "desaparecido em combate". Depois foi isto:
- os dois furriéis que tinham ficado na orla da clareira disseram-me que estiveram quase a dar porrada no outro que me deixou sozinho; ao capitão disse que tinha sido complicado, que não havia hipótese, que ainda bem que os outros tinham fugido - soube depois que o furriel fugidio tinha levado uma porrada de 17 dias de prisão disciplinar, com mudança de companhia, mas, se houve de facto um processo disciplinar, eu nunca fui ouvido.

O melhor:
Nesse mesmo dia, levaram-me a Bafatá (a 30 quilómetros) para ser ouvido pelo TCor Hélio Felgas. Primeira preocupação dele: Você trouxe a G3? Disse-lhe que sim e fiquei em brasa. Contei-lhe tudo, a sentinela ao pé do rio Gambiel, por onde tinha ido e por onde tinha vindo, inclusive que tinha a certeza que eles tinham em Sinchã Jobel uma base de guerrilha. Também lhe disse que não tinha visto nenhum turra morto (contrariamente ao que disse o relatório do capitão, e também nunca soube que tivesse ficado ferido algum dos nossos...). Maroto, chasqueou: Você tem aqui uma história para escrever um livro... Mas outra coisa: você esteve 24 horas no campo do inimigo e, se calhar, temos de levantar um processo... E a brasa espevitou. Levantei-me da cadeira: Está a brincar e a gozar comigo? É brincadeira, nosso alferes, não se chateie. Fiz a continência e fui-me embora.