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22 de junho de 2012

509-Lembranças do ex-alferes Alfredo Reis

O Alfredo Reis é um bom amigo e ex-camarada de armas da CART1690. Passou o tempo todo de Guiné nessa companhia. Ressalto, em especial, a sua "estadia" nos destacamentos de Banjara e Cantacunda, situados em plena mata do Oio e a cerca de 40 kms da sede da companhia, situada em Geba, nas margens do rio do mesmo nome. Sítios de isolamento, privações e grandes riscos de vida. Cantacunda ainda tinha população civil, mas Banjara era só tropa, uma agravante. São fotos dele (apenas acrescentei a "quadrícula da CART1690" ).
São lembranças para recordar aquilo que nunca mais se esquece. Como sucede com todos os ex-combatentes.



11 de junho de 2012

505-O Nosso Primeiro Livro de Leitura

Um dos livro utilizados nas escolas do mato pelo PAIGC durante a guerra colonial.
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22 de maio de 2012

488-A guerra colonial e o fim do regime

É na próxima 5ª feira, na Livraria Círculo das Letras, Rua Augusto Gil, 15B, em Lisboa (transversal da Av. João XXI)

487-Marcas da guerra colonial


«Compêndio» da Guerra
está de volta às livrarias


O livro MARCAS DA GUERRA COLONIAL voltou aos escaparates, vítima involuntária de um processo de insolvência em que a sua editora se viu envolvida durante os últimos três anos.

As “Marcas”, da autoria de Jorge Ribeiro, permaneceram – em conjunto com todos os títulos da Editora Campo das Letras – fora dos circuitos de comercialização por ordem judicial e enquanto o processo não foi concluído.

A partir de agora, os exemplares em stock podem ser adquiridos em Lisboa, na Livraria Círculo das Letras, à Rua Augusto Gil, 15 B (ao Campo Pequeno), telf: 210938753 livraria@circulodasletras.pt, e no Porto na Livraria da UNICEPE, na Praça de Carlos Alberto, 128 (esquina com a Praça dos Leões), telf: 222056606 Unicepe@net.novis.pt.

“Marcas da Guerra Colonial” (1999) foi objecto de duas edições, e revelou-se cedo uma fonte extraordinária de consulta para o estudo da guerra em África, referência em inúmeros trabalhos académicos e na Imprensa. Um antigo ministro da Educação, Marçal Grilo, chegou a considerar as “Marcas” como obra imprescindível nas bibliotecas escolares.

Segundo o escritor Jorge Ribeiro, «as Marcas abordam questões pouco discutidas, aprofunda outras com dados nunca revelados, e recolhe um vasto leque de opiniões de figuras da nossas História recente, capazes de facilitar um juízo mais claro e correcto do que foi a empresa de guerra que o colonialismo português produziu no Ultramar».

Capítulos: «Os Dias da Raça», «Os Estropiados», «As Doenças», «As Tropas Auxiliares», «As Mulheres na Guerra», «A Igreja e a Guerra», «A Guerra Química», «Os Crimes de Guerra», «O Natal do Soldado», «As Canções da Guerra», «A Camaradagem».

15 de maio de 2012

480-A Viagem do Tangomau

«A Viagem do Tangomau»
Lançamento em 19 de Junho,18:30, no Museu da Farmácia, Rua Marechal Saldanha, 1, em Lisboa



4 de maio de 2012

476-Reunião do Comando-Chefe da Guiné em Maio de 1973

Obrigado ao António Moreira por me ter reenviado este documento. Disse ele:
"Reenvio para os meus Amigos certo de que terão interesse em ficar a conhecer o importante documento em apreço, o qual passados todos estes anos perdeu a elevada classificação de segurança que lhe foi à época atribuída.
Vai na íntegra inclusive com a "recomendação" de quem me enviou.
*********************************************************************************
Esta reunião do ComChefe/Guiné em Maio de 1973 é de leitura obrigatória particularmente para os que emprenham de ouvido frases feitas por ignorantes atrevidos."

Lembro que ainda foi no tempo do General Spínola, que só deixou a Guiné em Novembro de 1973.


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2 de maio de 2012

474-Guerra colonial

Com agradecimento ao Carlos Vinhal por enviar este documento

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19 de abril de 2012

455-Documentário sobre a guerra colonial

Documentário realizado pela Escola Básica e Secundária de Santa Maria (Açores), para o concurso "Como se vivia em Portugal no tempo da Guerra Colonial" organizado pela Associação 25 de Abril e pela Associação de Professores de História.



Documentário sobre a guerra colonial from Cantacunda on Vimeo.

12 de abril de 2012

448-Relato sobre a guerra de Portugal na Guiné


Venter, Al J. Portugal's war in Guiné-Bissau. Pasadena, CA: California Institute of Technology, 1973. Munger Africana Library Notes No. 19.



É uma brochura de 202 páginas relatando a acção portuguesa na guerra, com algumas imprecisões e, até, confusões, como, por exemplo, a que refere que a ARA era uma organização maoista (sobre a ARA ver neste blogue aqui e aqui). Mostro as fotografias que contém. O texto, em inglês, pode ser lido em http://authors.library.caltech.edu/25695/


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5 de abril de 2012

441-Pidjiguiti

«A situação das equipagens das lanchas e outras embarca­ções das empresas coloniais era, em 1959, bastante deplorável. Os salários variavam entre 150 e 300 escudos; o capitão da em­barcação ganhava ainda menos do que o motorista, pois este em geral sabia ler e gozava do estatuto de «civilizado». Os restantes membros da tripulação, sendo considerados «indígenas», tinham de contentar-se com um salário de miséria, sem quaisquer rega­lias.
O transporte de cabotagem era, sem dúvida, o que garantia os maiores lucros às empresas, dado que os seus encargos por to­nelada transportada eram de longe os mais baratos. Para cada viagem, o tripulante recebia, para a sua alimentação, uma deter­minada quantidade de arroz e mais 15$00 por mês para ma/é, quer dizer, $50 por dia destinados à compra dos condimentos necessários ao molho para o arroz.
Havia já muitos meses que os marinheiros vinham pedindo uma melhoria da sua situação, sem qualquer resultado. Faziam­-lhes promessas, é certo, mas a mesma situação mantinha-se e os trabalhadores não viam, na verdade, nenhumas perspectivas de mudança.
Encorajados com o descontentamento crescente dos traba­lhadores das docas, cuja situação também era escandalosamente má, os marinheiros fizeram saber às empresas que estavam deci­didos a parar o trabalho, se as suas reivindicações não fossem atendidas. As respostas das direcções das empresas, já concerta- das quanto à sua acção, continuaram a ser promessas sem quais­quer garantias.
A situação política no meio dos trabalhadores africanos já não era, no entanto, a mesma na Guiné. O trabalho clandestino do Partido tinha avançado bastante e no meio dos marinheiros e dos homens das docas existiam militantes já seguros da justiça da luta.
A nossa zona geográfica vivia com entusiasmo o fenómeno novo da independência da República da Guiné e seguia os prepa­rativos para a independência do Senegal, tudo isso concorrendo para dar mais força às palavras de ordem do Partido e galvanizar o interesse geral na conquista duma vida melhor e mais digna.
Nesta nova conjuntura, os marinheiros e os trabalhadores do porto juntaram as suas forças, concertaram-se e chegaram à conclusão de que a única solução para os seus males só podia vir da luta corajosa contra as empresas exploradoras.
A partir da noite do dia 2 de Agosto de 1959, as embarca­ções que chegavam ao porto de Bissau eram cuidadosamente ar­rumadas nas cercanias do velho cais de Pidjiguiti. Os homens de­sembarcavam confiantes em si próprios e nas cerimónias certa­mente feitas aqui e ali, onde as entranhas das galinhas sacrifica­das teriam futurado um bom augúrio para a luta que se aproxi­mava. Os capitães das lanchas dirigiam-se aos responsáveis das empresas para lhes dizer que os. tripulantes tinham abandonado as suas embarcações.
Na manhã do dia 3 de Agosto, centenas de homens esta­vam estacionados no recinto do cais de Pidjiguiti, Nos seus espíri­tos decididos, a interrogação era grande sobre a reacção das auto­ridades coloniais, à qual iam opor a sua firme decisão de conti­nuarem a greve enquanto não fossem atendidas as suas reivindi­cações.
Os chefes das empresas, encabeçados pelo subgerente da Casa Gouveia, mandaram um ultimato aos grevistas: ou regres­savam às suas embarcações e aos seus postos de trabalho em ter­ra, ou pediam a intervenção do exército e da polícia. Homens co­mo os que se encontravam ali, no Pidjiguiti, juntos, unidos e conscientes dos seus direitos, não podiam ceder a um primeiro ultimato, e mantiveram-se por isso firmes na sua decisão de con­tinuar a luta.
As autoridades estavam atónitas diante da maneira como a greve fora organizada. Nenhuma fuga de informação pudera ser detectada e ali estavam eles impotentes para quebrar o bloco ho­mogéneo que não cedia às ameaças, e que às promessas aliciantes que lhes foram apresentadas, poucas palavras tinham para dizer: mais pão, mais justiça.'
No fim da manhã, as autoridades reuniram-se com os diri­gentes das empresas para decidir das medidas a tomar. A Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), cujos tentáculos cri­minosos se tinham já estendido aos nossos países, fora surpreen­dida como toda a gente e teve de reconhecer que havia qualquer coisa de novo na Guiné.
A decisão fatal foi rapidamente tomada: se até à tarde os trabalhadores não retomassem o trabalho, as forças da repressão deviam agir com a maior prontidão e dureza, para servir de exemplo; só uma acção enérgica e pronta das autoridades poderia convencer os grevistas e o povo em geral de que o Governo não estava disposto a ceder à subversão.
Os homens do porto, esses, não estavam dispostos a ver­gar. Os tambores que no passado tanto tocaram para chamar o povo à resistência até arrebentarem voltaram de novo a recom­por-se para apelar à luta contra a dominação estrangeira. Ti­nham voltado de novo a vibrar, desta vez com mais força e vigor, ao ritmo da nova esperança nascida com o aparecimento do nosso Partido.
A vida em Bissau parecia ter parado para seguir os aconte­cimentos. Apenas se viam passar nas ruas os carros da polícia, até ao momento em que as forças militares e paramilitares avan­çaram para o porto.
Os trabalhadores em greve fecharam o portão de acesso ao cais de Pidjiguiti, apanharam tudo quanto podia servir para se de­fenderem e aguardaram. Mas como defender-se com remos, com paus ou pedaços de ferro, quando o inimigo trazia armas autornáticas modernas e estava disposto a matar? E isso, infelizmente, os heróicos trabalhadores do porto ainda não sabiam.
Poucos minutos depois ouviam-se os primeiros tiros: os soldados e a polícia tinham acabado de romper a frágil barragem do portão e penetravam no recinto do cais, atirando impiedosa­mente contra os grevistas, que, a princípio, ainda tentaram de­fender-se. Cedo, porém, depois de verem cair muitos companhei­ros, compreenderam que, diante da cruel realidade, a única solu­ção era procurar fugir do cais, para escapar à morte.
À medida que uns caíam mortos ou feridos, outros pro­curavam por todos os meios alcançar a saída mais livre e a única que parecia segura, tentando, enquanto ainda era tempo, atra­vessar a estreita passagem que conduzia ao rio Geba, portanto às embarcações que ali estavam ancoradas.
À medida que os homens conseguiam alcançar a ponta do cais iam-se atirando às águas do rio e nadavam desesperadamente para alcançar as embarcações. A horda colonialista com os monstruosos sucessos alcançados, também avançou para a ponta do cais de Pidjiguiti. Fazendo dali calmamente a pontaria, conse­guiram ainda matar ou ferir muitos homens entre os que se ti­nham atirado desesperadamente ao rio Geba. E não eram só mili­tares, ou só militares e agentes da polícia, os que atiravam. Tam­bém se juntaram a eles elementos civis com as suas armas pes­soais, que depois se vangloriavam da sua participação na caça sel­vagem aos homens do 3 de Agosto.
Saímos cedo do trabalho. Os escritórios da Casa Gouveia fi­cavam perto do cais de Pidjiguiti e não era possível trabalhar com o barulho terrível do tiroteio, tendo às portas tão criminoso es­pectáculo, sem precedentes nos nossos dias. Ficámos de pé no passeio, mesmo em frente do grande edifício onde trabalháva­mos. Além de mim, estavam Carlos Correia, Elysée Turpin e outros colegas. Os polícias que ali passavam, mesmo à nossa frente, estavam muito excitados e queriam mais vítimas, empur­rando e provocando as pessoas sem qualquer razão ou talvez com o objectivo premeditado de ver as reacções que se seguiam.
Um dos polícias empurrou pelo peito o Carlos Correia, que protestou pela incorrecção que isso representava. Foi o suficiente para o agente o prender e mandar imediatamente para a esquadra mais próxima. Que podíamos nós, seus companheiros, fazer na­quele momento? Unicamente sair dali, procurar abrigar-nos nas nossas casas contra a fúria criminosa desencadeada no porto de Bissau.
Da varanda do meu apartamento, que estava situado frente ao porto, pude presenciar a parte final do monstruoso crime da caça ao homem no rio Geba. O sol desaparecera nessa tarde dos céus de Bissau; a atmosfera pesada e escura parecia gritar com o povo. A tarde sangrenta de 3 de Agosto fizera mais de cinquenta mortos e muitas dezenas de feridos entre os marinheiros pacífi­cos que mais não queriam que viver um pouco melhor.
Saí. Queria andar, tinha necessidade absoluta de me en­contrar com camaradas meus. Consegui alcançar as traseiras do banco onde encontrei alguns camaradas que me informaram de que um marinheiro ferido estava escondido no pavilhão dos sol­teiros. Fui vê-lo. Tinha um ferimento superficial numa perna e teria certamente sido apanhado pelos agentes se não o tivessem escondido. O ferido fora cuidadosamente tratado e, a coberto da noite, pôde voltar para a sua casa.
Na noite de 3 de Agosto, reuni-me com o Aristides e o Fortes. Este, na sua qualidade de chefe da Estação Postal, tinha podido meter no correio que devia partir na manhã seguinte, có­pias de um comunicado elaborado rapidamente sobre os aconte­cimentos, endereçadas às principais emissoras escutadas em Bis­sau. Lembro-me bem que Rádio Brazzaville, BBC, Rádio Co­nakry e Rádio Dakar, estavam entre aquelas que receberam e di­fundiram a noticia que os colonialistas não queriam que saísse da Guiné. Simultaneamente, foi também enviado um primeiro rela­tório ao Amílcar que se encontrava nesse momento em Angola.
No dia seguinte de manhã, logo depois da minha chegada aos escritórios da Casa Gouveia, fui ver o subgerente António Carreira e expliquei-lhe como se tinha dado a prisão do camarada Carlos Correia. Telefonou imediatamente à polícia e o Carlos foi posto em liberdade.
Entretanto, o Aristides tinha sido requisitado pela polícia política para estar em permanência ao seu serviço. As conversa­ções telefónicas do governador ou do director da PIDE, com Lis­boa, revestiam-se de um carácter altamente secreto e só podiam, por isso, ser controladas pessoalmente por ele, chefe da Estação, como pessoa de toda a confiança.
Naquela mesma tarde, o director da PIDE em Bissau, falou com o seu director-geral em Lisboa. Este queria as últimas notí­cias; não acreditavam que a greve tivesse sido organizada pelos próprios marinheiros, quase todos analfabetos. Havia certamen­te alguém com mais conhecimentos e experiência por trás, a diri­gir e a orientar a acção; era absolutamente indispensável encon­trar essa pessoa. Não se teria distinguido, por acaso, no meio da confusão, nenhum filho da Guiné com habilitações a que se pu­desse atribuir tal responsabilidade?
O director-geral da PIDE insistiu para que o seu represen­tante pensasse bem e se informasse junto da Polícia de Segurança Pública; que também pusesse os seus agentes em campo para re­colherem todas as. informações que conduzissem à identificação dos promotores da greve de 3 de Agosto. O director de Bissau lembrou-se então da prisão de Carlos Correia. no próprio mo­mento da confrontação das autoridades com os grevistas: era afri­cano, filho da Guiné, tinha o Curso Geral dos Liceus e ainda por cima trabalhava na Casa Gouveia, onde havia o maior número de marinheiros. «Prenda-o de novo -disse o director-geral- e mande-o para cá, para ser interrogado por nós.»
Toda a gente sabia o que eram os interrogatórios da PIDE, em Lisboa. Quantos não foram os patriotas portugueses e africa­nos que sucumbiram às torturas e maus tratos da polícia fascista!
O Aristides mandou imediatamente avisar o Carlos, que me devia contactar e fazer tudo para sair do país, antes de ser de novo apanhado pela polícia.
Carlos saiu nesse mesmo instante à minha procura. Foi pri­meiro à minha casa, embora isso tivesse sido imprudente, pois se alguém o visse a entrar no fim da tarde no prédio de três andares onde eu era o único africano residente, saberia logo que ele só podia dirigir-se à minha casa; procurou-me em seguida em casa da dr.s Sofia Pomba Guerra.
A noite acabava de cair bruscamente quando finalmente me encontrou na Sede do Benfica. Chuviscava um pouco, mas mesmo assim saí à rua para falarmos longe de possíveis ouvidos curiosos. Carlos estava acompanhado de um amigo, quando me pôs ao corrente da situação. Disse-lhe que fosse imediatamente esconder-se e que só se mostrasse quando eu mandasse chamá­lo. Pedi-lhe o seu impermeável, e confirmei que tudo seria trata­do de forma que ele pudesse sair do país ainda naquela noite.
Tornava-se indispensável encontrar o Elysée Turpin, o ho­mem do nosso grupo capaz de conseguir um meio de transporte. Com a ajuda do meu irmão T oi, que tinha uma motorizada, saí­mos à procura do Elysée que sempre considerámos o homem mais difícil de encontrar em Bissau, depois das horas de trabalho. Encontrámo-lo finalmente e, informando-o da situação, disse-lhe que tinha de conseguir um carro para pôr o Carlos na fronteira naquela mesma noite. O único indivíduo das suas relações que tinha uma camioneta era conhecido notoriamente pelas relações com a polícia, mas não tínhamos outra escolha e não havia tem­po para hesitações. Ficou combinado que o Elysée pediria o carro explicando abertamente qual o objectivo da missão. Confiámos assim nas boas relações existentes entre os dois, e também por­que o Carlos era um jovem com muita simpatia e respeito, em Bissau, para o que concorria, além da sua idoneidade moral, o facto de ser um excelente praticante do futebol.
Enquanto o Elysée devia garantir o transporte para a fron­teira, eu fui por outro lado à procura dos meios para a viagem.
Terminados os preparativos para a sua saída imediata, pre­cisava encontrar-me com o Carlos e comunicar-lhe os planos es­tabelecidos. Estava muito escuro e continuava a chuviscar. Aproximava-me da casa da sua mãe, no Chão de Papel. Ia todo envolvido no seu impermeável, quando senti que um carro se aproximava muito devagar atrás de mim. Não parei. Os faróis chegaram tão perto que pareciam queimar-me. O pára-choques do carro quase bateu nas minhas pernas, quando parou.
Voltei-me então e vi que se tratava de um jipe militar cheio de homens fardados; pensei logo que a sua chegada estava rela­cionada com a prisão do Carlos.
Os militares riam quando arrancaram de novo, continuando a sua ronda em-direcção à Central Eléctrica. Confesso que, apesar do fresco da chuva, estava a transpirar dentro do imper­meável de borracha. Felizmente, os homens só quiseram divertir-se à minha custa.
Voltei para trás e aproximei-me da casa do Carlos. Tive de pedir ao irmão que o fosse procurar. É que eu tinha-lhe dito que se escondesse' bem, mas não ficou estabelecido onde.
O Elysée apareceu confirmando que tinha conseguido o carro. Ele seguiria pela estrada do Aeroporto e o Carlos, na sua motorizada, iria juntar-se-lhe. logo que o víssemos. Ficou ainda assente que o Elysée faria tudo para estar de regresso antes das sete da manhã, para não faltar ao trabalho, não fosse a policia li­gar a sua ausência com a fuga do seu colega de serviço.
Chegou finalmente o Carlos. Via-se que estava preocupa­do, apesar da sua calma aparente. Dei-lhe o dinheiro e o imper­meável, abraçámo-nos, tomou a motorizada e partiu. Eram mais ou menos dez horas da noite. O seu irmão mais novo devia pas­sar pela Gouveia à hora da abertura dos escritórios para dizer que o Carlos estava doente.
Foi só depois da partida do Carlos, quando regressava a casa na pequena motorizada conduzida pelo meu irmão, que me apercebi dos erros e imprudências que foram cometidos: ele an­dou à minha procura em minha casa e noutros lugares e era mui­to natural que nos tivessem visto juntos conversando à porta do Benfica; entretanto, na manhã seguinte, nada se sabia do Carlos em Bissau. Convenci-me de que a PIDE, a famigerada PIDE que acabava sempre por saber tudo, facilmente me identificaria como sendo uma das pessoas que intervieram directamente na fuga do Carlos.
O meu estado de excitação era, pois, bastante grande no dia seguinte. Tentava imaginar como seria interrogado pela polícia e ia formando mentalmente as respostas que daria às suas pergun­tas. Recorri à dr.s Sofia e ela aconselhou-me a tomar um calman­te que me ajudaria a controlar. Arranjou-me um medicamento a que chamou a «pastilha da felicidade». Eu precisava de facto de muita calma, no caso de ser interpelado pela PIDE ...
À nossa chegada ao trabalho, no dia seguinte, às 7.30 h, o Elysée informou-me que conduzira o Carlos até à jangada de Bar­ro, continuando ele, a partir dali, na sua motorizada a caminho da fronteira senegalesa. Via-se bem que não tinha dormido a noi­te toda.
Antes das oito horas, já o irmão do Carlos aparecia para di­zer que ele estava doente e não podia apresentar-se na Gouveia. Alguns minutos depois, chegavam os homens da PIDE. Contac­taram a direcção e perguntaram pelo Carlos. Saíram imediata­mente e foram à casa da sua mãe, mas o Carlos tinha desapareci­do sem deixar rastos.
O Elysée, entretanto, pedira licença para sair. Ia dormir ... Logo que recebeu a comunicação sobre o massacre de Piji­guiti, o Amílcar fez-nos saber que passaria por Bissau o mais breve possível, para fazermos o balanço dos acontecimentos e de­finir o caminho a seguir
"Crónica da Libertação", Luís Cabral 

De notar que François Mendy, lider da FLING, apoiado pelo Senegal, fala francês e não crioulo ou português.


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28 de março de 2012

429-Além do Bojador


«Guiné, 1969-1971: em plena guerra colonial acontece este romance, cuja ficção vai buscar sustento nessa funesta realidade, sujeitando toda uma juventude a perigos extremos, muito para além da dor.
Os horrores da guerra, o medo, os perigos, a revolta, a saudade, mas também a esperança, os afectos, a tolerância, o amor, e a paixão que nasce e cresce entre dois jovens de origens, credos e culturas desiguais, sucedem-se na longa narrativa, despojada de adornos, mas mantendo o leitor atento até à última página.
Em Além do Bojador, o autor revela-nos também a história mais antiga da África Ocidental, nunca respeitada e ainda hoje pouco conhecida, para concluir, com convicção, que o seu justo acatamento teria afinal alterado o curso da dominação colonial a que estiveram subjugados todos estes povos, por mais de cinco séculos.
Manuel Mariano Ribeiro Fialho é natural de Moura. Formado em engenharia mecânica, tem exercido cargos de gestão em empresas industriais no país e no estrangeiro.
seu largo trajecto profissional, interrompido pela experiência na guerra colonial, motivo para esta obra com que se estreia em ficção, acumulou mais de uma década vivida no Brasil, de onde também operou para países da África Ocidental, a sul do Cabo Bojador.
Iniciou-se na edição em 2004 com Reabilitando o Gerúndio, um extenso trabalho de gestão e de análise económica, financeira e sócio-cultural - um reconhecido contributo para a recuperação do desalentado cooperativismo agroindustrial no Alentejo.»

27 de março de 2012

428-A arte da guerra no Cacheu


«A ARTE DA GUERRA NO CACHEU
A nossa deambulação castrense na região média do Rio Ca­cheu, a partir de Ganturé, fez-me embrenhar, em pleno, nos mean­dros, puros e duros, da guerra de guerrilha.
Quem viveu, fez campanha e conheceu o inimigo nessa zona durante meses adquiriu no terreno todas as «manhas» e efeitos de alocroado da arte da guerra.
Investe quando for vantajoso, aproveita o silêncio da floresta para confundires a outra parte, quando não conheces o terreno e o inimigo age nele a seu bel-prazer, tens de saber atacar com eficácia, rapidez e mobilidade para desarticular as suas unidades. Se tiveres de recuar, por dificuldades várias, fá-lo com a maior rapidez, para evitares ser emboscado e atingido em condições de inferioridade.
Todas estas e outras manobras, artimanhas, habilidades, sub­terfúgios de sobrevivência, foram cumpridas e utilizadas, pensadas programadamente ou exercidas espontaneamente, nos combates vitoriosos, nas derrotas havidas, nos momentos de glória guerreira ou de fraquezas nossas.
Jogámos, durante muito tempo, ao gato e ao rato com o PAIGC nas bolanhas do Talicó, do Iador, nas terras de Jagali Balanta, de Concolim, de Queré ou em Matar.
Contudo, eu, na minha humilde condição de simples mari­nheiro, que cumpria, religiosamente, as orientações operacionais, não descortinava as manigâncias tácticas da guerra de guerrilha, nem conseguia fazer raciocínios elaborados da arte guerreira.
Para mim, naquela altura, a questão era apenas de saber onde íamos actuar, pois não participávamos - praças e sargentos - no planeamento, nem sequer se discutia da justeza da acção naquele momento.
O «planeamento» para nós resumia-se em tomar conhecimento de que a determinada hora íamos partir e o objectivo era realizar a tarefa X, que implicava as medidas Y.
A preocupação das praças ficava pelas tarefas «primárias»: ve­rificar se levávamos as armas lubrificadas e prontas a disparar, se tínhamos as munições suficientes, se transportávamos a comida e bebida suficiente para a duração da operação.
Claro que a condução do acto de guerra não era da nossa res­ponsabilidade, nem nós éramos treinados para isso. «Cada macaco no seu galho». Esta máxima estava entranhada na nossa mentali­dade de conduzidos, nem nós sentíamos então qualquer «crise de consciência» com a situação onde gravitávamos. Obedecíamos, porque essa era a nossa condução de subordinados disciplinados, treinados em meses intensos de exercícios físicos e teóricos na Es­cola de Fuzileiros.
Com a experiência e com a «ascensão» de carreira e também de capacidade operacional - e isto com os anos - eu percebia que, muitas vezes, o condutor «prático» do combate no terreno era o sargento ou a praça veterana, carregada de saber feito - com o calo no cu como os macacos, como assinalávamos então, muito ufanos da nossa madureza guerreira.
As duas operações na zona de Canjaja Mandinga que relato de seguida são o exemplo de todas as acções que se pelejaram nessa altura nos campos de batalha, que se estendiam, sem frentes, por muitas dezenas de quilómetros.
A primeira operação em Canjaja foi planeada depois de ter havido informações da presença regular de forças do PAIGC na região, forças estas que estavam a controlar a população.
Havia uma quase certeza do local onde se escontrava o inimigo.
O comando da unidade estudou a situação, planeou, organizou as coisas de modo que agíssemos com habilidade e presteza para ata­car os guerrilheiros com toda a certeira capacidade da unidade.
Só que nos «esquecemos» de que éramos alóctones. Eles ti­nham a vantagem de estar no local e ter conseguido detectar-nos uns momentos antes de nós termos essa supremacia.
Assim, desembarcámos durante a noite, fizemos uma progres­são no terreno muito cuidadosa, pois tivemos de atravessar uma larga zona pantanosa, que se estendia entre o tarrafo na margem do rio e a orla da mata. Tudo isto de noite, enterrados na lama, chafurdando na viscosidade. Só conseguíamos ver o homem que ia à frente. Para lá dessa visão, era o escuro como breu. Sentiam os apenas um arfar profundo de homens cansados.
(Ainda hoje me rio quando vejo e revejo aqueles filmes da guerra de guerrilha, especialmente os do Vietname, com os solda­dos a correrem que nem uns desalmados, de noite, no interior da selva cerrada e praticamente impenetrável, como se isso fosse pos­sível. Quantas caminhadas tivemos de fazer no escuro da floresta tropical, de mãos dadas, andado quase a passo para não nos per­dermos! Quantas armas foram perdidas, porque no meio da noite as unidades tiveram, precipitadamente, de abandonar o local onde pernoitavam, por terem sido flageladas à distância)
Nesta operação, eu era o homem que seguia à frente da coluna.
Era desgastante. Não o sentia. Ia preocupado com a responsabili­dade, pois levava na cabeça a ideia de que «ia haver molho».
Os olhos pouco viam no escuro, mas eles estavam bem abertos.
Como medida de segurança, não podíamos aventurarmo-nos pelo meio da bolanha. Assim, eu seguia colado à orla do palmeiral, numa andança cautelosa, lenta, preguiçosa. Atrás, disciplinada­mente, eu percebia que todos me seguiam sem pestanejar.
Como bom alentejano que sou, ria comigo próprio: «Até parecemos alentejanos, devagar, devagarinho.»
Estava a clarear e reparei que naquela zona, junto ao palmeiral, havia um cruzamento de caminhos.
Avisei para trás aonde tinha chegado. O comandante mandou fazer um alto e montar uma emboscada. Ficámos à cuca de qual­quer ruído, de qualquer vestígio de que se notasse gente por perto. O silêncio era a resposta. Nem os macacos se movimentavam. No ar, para nós, «cheirava a alguma coisa».
O Sol já caminhava no céu. Passara cerca de uma hora. O frio das calças molhadas começava a sentir-se menos, pois notava-se que estavam a secar. Havia uma ligeira bruma matinal que parecia pairar junto às águas pantanosas.
Ouvíamos os abutres a grasnar, a zona parecia, realmente, tran-
quila.
Como não havia qualquer movimento humano, e a claridade já
permitia uma visão mais alargada, verificámos que a mata mais à frente era mais aberta.
Não andámos mais de 200 metros e, de repente, caiu sobre nós uma saraivada de balas de metralhadora. Dei um salto para detrás de uma árvore e dois rebentamentos de RPG fizeram-se ouvir a al­guns metros.
Mas, nós, como estávamos tensos e alerta, há muito tempo, e nessa medida, dominávamos o «campo de batalha», iniciámos, de imediato, a reacção. A mata era aberta e podíamos utilizar, com suficiente capacidade de manobra, as nossas bazucas. O que fize­mos. Corremos na sua direcção. Eles já não estavam no local da emboscada.
No chão, apenas vimos três guerrilheiros mortos. Os disparos dos combatentes do PAIGC continuavam, mas eram feitos em re­tirada. Disparavam para o ar. Afastavam-se em marcha desorde­nada.
Revistámos os mortos, verificámos que havia material, algum de guerra, no local que o inimigo abandonara precipitadamente.
Saímos com toda a velocidade da área, pois sabíamos que iría­mos ser flagelados com morteiros. Parámos numa zona de mata mais densa e emboscámos. Ouvimos, ao longe, rebentamentos que caíam onde se dera o contacto de fogo.
Ali permanecemos até ao meio-dia, depois o comandante man­dou que eu iniciasse a progressão. A caminhada durou uma hora até que a unidade se aproximou de uma clareira. Via-se muita ve­getação e as árvores que predominavam eram cajueiros.
Foi dada ordem de alto. Fui até à pequena mata e lancei uma mirada. Dei um pequeno salto para trás de surpresa e fiz sinal, apressado, que estava ali alguém. Espreitei, novamente, e vi que era um elemento da população, desarmado. Esperei que se aproxi­masse e deitei-lhe a mão, impedindo que ele gritasse.
O seu interrogatório foi logo ali. Tínhamos na unidade, homens que conheciam e falavam o crioulo. Com mais ou menos persuasão, informou-nos onde se localizava o acampamento e quantos guerrilheiros lá se encontravam.
Pelo que percebi a distância dali até esse acampamento não se­ria mais de 500 metros. Recebi ordens de avançar, mas estava com o pressentimento que já estávamos detectados.
Foi uma longa marcha para tão poucos metros. Cautelosa, lenta: os olhos a mirarem e remirarem em todas as direcções, o dedo indicador aperrado ao gatilho, o outro, o polegar, nervoso, para movimentar rapidamente a patilha de segurança.
Começo a ver as primeiras cubatas. Um dobrar instintivo do corpo, faço um sinal de que o acampamento estava à vista. Um si­lêncio de sepulcro. Nem vivalma, nem um animal se movimentava. Havia, no entanto, lume junto às primeiras casas.
O comandante veio até junto de mim, trocámos, em sussuro,
algumas palavras.
- O que achas? - perguntou-me.
- Estão algures do outro lado -, respondi.
- Eles tiveram mortos e feridos no contacto, devem estar
fragilizados. Talvez tenham fugido para outro acampamento -, alvitrou.
- Não sei, penso que nos temos de preparar para uma embos­cada -, sentenciei.
Concordou.
- Vais tentar controlar o acampamento, passando para o outro lado. Montas em seguida segurança, para que o resto do destaca­mento possa passar uma revista a este.
Afastou-se, foi dar ordens.
A primeira secção passou à linha e preparava-se para avançar, mas teve de retomar outra formação, pois a aglomeração de palho­tas era tão elevada, que perdíamos o contacto uns com os outros.
Assim, só uma equipa - a minha - passou à linha. Os outras duas seguiam em coluna. O resto do destacamento tinha a missão de nos dar cobertura.
Pé ante pé, deslizávamos com o máximo de segurança. Todos a postos para disparar. Tinha a nítida percepção que dentro de segun­dos ia dar-se o combate.
Inesperadamente, o combate deu-se quando ia a meio do acam­pamento. Um fogachal tremendo, tiros, bazucadas, granadas. Há um rebentamento de RPG-7 que atinge a minha equipa, todos fomos atravessados por estilhaços. Há gritos lancinantes de dor. Vejo ao meu lado um monte de baga-baga (morro de formigas) e consigo dizer para o meu pessoal para se abrigar ali, o que eles fazem, rastejando como podem. Instalámo-nos, o morro deu-nos protecção. Sinto uma dor horrível num pulso, algo que me parecia uma queimadura profunda. Um estilhaço atingira-me e sangrava bastante. Reparo que os meus camaradas estavam feridos.
Fiz-lhe sinal para se manterem ali, e avancei para um árvore que estava um pouco mais à frente para tentar ver qual era a situação e passar ao ataque. Comecei a gritar «vamos a eles». Disparava ao mesmo tempo. Quando me preparava para mudar o carregador, reparei que somente o guia nativo me acompanhava. Os outros pareciam estar feridos com gravidade e não podiam acompanhar-me.
Entretanto, o tiroteio generalizara-se, os nossos homens das bazucas estavam a responder. A batalha já durava há uns largos minutos. Estava a ficar preocupado, pois encontrava-me isolado e com feridos.
Os tiros tornam-se mais raros, à minha frente. Aproveito para regressar à posição anterior. Já ali estavam mais camaradas. Reti­rámos os três feridos para a retaguarda.
O inimigo desaparece. Os nossos feridos estão em estado apa­rentemente preocupante.
O comandante mandou montar um dispositivo defensivo e pediu a evacuação aérea dos feridos. Cerca de meia hora depois chegou um helicóptero, que trazia a bordo uma enfermeira pára­-quedista, e estava apoiado por um heli-canhão.
Os olhos dos fuzileiros centraram-se naturalmente na enfer­meira. Ela, todavia, actuou com todo o profissionalismo. Tratou, com ternura, dos feridos, passando a mão pela cabeça. Desapare­ceu, poucos minutos depois, levando a bordo os camaradas para o hospital militar em Bissau.
Imediatamente, o comandante Pedrosa mandou fazer a retirada do local. Como primeiro homem da coluna, pus-me em marcha, fazendo-o pelo lado do sul do acampamento, pois o terreno era mais aberto, o que permitiu um passo mais lesto e continuado. Para o efeito, aproveitámos, também, o facto de estar no local o apoio aéreo: Todavia, o inimigo não nos largou. Embora de certa distância, continuou a flagelar-nos com morteiradas, que caíam um pouco distantes da nossa fila de progressão.
O heli-canhão fez a protecção, praticamente, até à zona de reembarque.
Alguns de nós resmungávamos:
- Temos de ter a desforra. Porque será que esses cabrões não nos atacam agora, que nós dávamos-lhe uma arraial de porrada.
Havia um desejo real de vingança entre alguns camaradas. Mas, o comando pensava em termos de táctica de guerra. Nós - eu e mais uns quantos - agíamos como se fosse uma «batalha» de rua: tínhamos de nos desforrar, porque levámos na cabeça. Retirámos apressadamente, com baixas.
O inimigo movia-se agora à vontade, porque sabia que tivéramos baixas e estávamos em recuo, com algum desgaste. E dar-se um combate nessas condições poderia produzir mais mossa nas nossas fileiras, já derreadas e quase sem munições.
Claro que eu retiro agora essas lições, mas, na altura, estava vazio de ideias e de pensamentos tácticos. Era apenas um número na engrenagem, com o sangue na guelra.
Quando começámos a ou vir os ruídos dos motores das lanchas de desembarque que esperavam por nós, o nosso corpo ganhou a sensação de que o melhor era voltar para o quartel para descansar.
A realidade é que o dia fora mau para a unidade, apesar de ter entrado em combate, feito mortos, apanhado uma arma, munições e outro material. Para mim, cheirou-me no entanto a pouco. Estava acabrunhado.
O reembarque foi feito já ao anoitecer, com o apoio de navios de fiscalização - os patrulhas.
Claro que o «bichinho» da vingança ficou para outra ope­ração.»