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18 de janeiro de 2012

357-Depoimento de Elisée Turpin


Elisée Turpin é um dos fundadores do PAIGC, no dia 19 de Setembro de 1956. Nasceu a 23 de Maio de 1930, em Bissau, onde frequentou Escolas Primária e Secundária.  
Mais tarde, vinha a concluir o curso de Contabilidade por correspondência. Foi empregado da Companhia Francesa S.C.O.A. – Sociedade Comercial Oeste Africana (de 1942 a 1956).  
De 1958 a 1964, Foi empregado da Casa António Silva Gouveia, e de 1964 a 1973, exerceu a função de Gerente da ANCAR.  
De 1973 a 1976, exerceu a função de Secretário Geral da Associação Comercial. A partir de 1976, começou a trabalhar por conta própria.  
Foi Militante do Partido Comunista Português na clandestinidade em Bissau, e é Militante do PAIGC desde a sua criação. 
O presente depoimento está ligado à fundação do PAIGC, expondo alguns factos de que se recorda e em que participou, para permitir uma maior e melhor percepção deste acontecimento histórico ocorrido em 19 de Setembro de 1956, em Bissau.
"... O espírito de revolta contra a presença colonial aumentou consideravelmente, a partir de 1942, altura em que o Governador da Província da Guiné era o Sr. Ricardo Vaz Monteiro, e o Administrador de Bissau era Pereira Cardoso.
O Governador Ricardo Vaz Monteiro, fortemente influenciado pela esposa Maria Augusta, quis introduzir o sistema de "Apartheid" na Província, ao tentar impor que nos estabelecimentos comerciais fossem criadas zonas separadas para brancos e pretos. A tentativa gorou, pois foi contestada pelos proprietários dos estabelecimentos comerciais.
Na sequência dessa tentativa, foi preso o maior comerciante guineense na altura, Sr. Benjamim Correia, alegadamente por se ter queixado junto do Governo Central de Lisboa sobre o ocorrido. Ele foi preso e transportado para Cabo Verde - Tarrafal. 
O mesmo Governador introduziu um código de postura em que era proibido andar nos passeios de Bissau a todo o indígena que não tivesse sapatos nos pés.
Estes factos e mais outros que ocorreram durante os anos 50, reforçaram o espírito nacionalista e patriótico em muitos guineenses. Foi nesse período dos anos 50 que o Amilcar Cabral regressou à Guiné e começou a fazer contactos com vista à criação duma Associação Desportiva, através da qual levávamos a cabo actividades políticas.
Alguns de nós eram militantes clandestinos do Partido Comunista Português, nomeadamente, Abílio Duarte e eu (mais tarde soube que o Rafael Barbosa o era também). Os activistas políticos não se conheciam todos, por motivos ligados à segurança.
Amilcar Cabral nos dizia que devíamos trabalhar como uma pirâmide. Isto é, o núcleo principal e de contactos permanentes seria pequeno, mas cada um devia ter a sua "Célula". Eu, por exemplo, tendo como Célula a Zona Velha da Cidade de Bissau (pois morava nessa zona), nunca tive contacto com Rafael Barbosa. Só mais tarde vim a saber dele, como sendo um dos principais activistas políticos desde anos 40 e um dos mentores da criação do Partido. 
                                                              A minha residência era no interior deste edifício.
Para além das Células, estabeleceram-se pontos focais, ou seja elos de ligação no interior do País. Por exemplo, o elo de ligação em Farim era o Dionísio Dias Monteiro; em Bolama era Carlos Domingos Gomes (Cadogo Pai); em Catio era Manuel da Silva. 
Lembro-me de algumas pessoas que se movimentavam na altura como activistas políticos e muitos deles envolvidos na criação do Partido:
  • Amilcar Cabral, Aristides Pereira, Rafael Barbosa, Luís Cabral, Abílio Duarte, Fernando Fortes, João Rosa, Inácio Semedo, Victor Robalo, Júlio Almeida, João Vaz, Domingos Cristovão Gomes Lopes.
Contudo, no dia 19 de Setembro de 1956, na fundação (criação formal do Partido, denominado PAI - Partido Africano da Independência), compareceram apenas 6 pessoas:
  • Amilcar Cabral, Aristides Pereira, Luís Cabral, Fernando Fortes, Júlio Almeida, Elisée Turpin.
Muitos não compareceram devido a constantes perseguições dos elementos da então PIDE. Nós que conseguimos participar no encontro, tivemos que ser muito prudentes e discretos: entravamos um a um e saíamos da mesma forma.
       Edifício onde foi fundado o PAI, sito no Bairro de Tchada, em Bissau.
O evento teve lugar no primeiro andar do edifício onde residiam Aristides Pereira e Fernando Fortes, no Bairro de Tchada, próximo do Hospital Nacional "Simão Mendes".
Eram volta das 5 horas de tarde desse dia. Foram aprovados os Estatutos do PAI elaborados e apresentados por Amilcar. A reunião deve ter durado cerca de 1 hora de tempo.
A partir dessa data, intensificaram-se os contactos, visando levar a mensagem junto dos guineenses e cabo-verdianos e anunciar as nossas intenções. O grosso das reuniões do PAI, a partir da sua criação, tiveram lugar na residência de João Rosa, que se situava no Chão de Papel.
Nessas movimentações participaram muitos outros activistas. Lembro-me de alguns:
  • Quintino Nosoline, Ladislau Lopes Justado, Manuel Lopes Justado, Rui Barreto, Epifanio Soto Amado, Alfredo Menezes, Carlos Correia José Ferreira de Lacerda, Gudifredo Vermão de Sousa (Tatá), Milton Sezimudo Pereira de Borja, José Opadai, Armando Lobo de Pina.
O intensificar de actividades e constantes movimentações políticas levaram a que a PIDE reforçasse as perseguições e, consequentemente, muitos activistas foram sendo aprisionados e torturados nas diferentes celas de prisões. Este facto e outros, nomeadamente os acontecimentos de Pindjiguiti em 1959, levaram à tomada de decisão do Partido de instalar a sua Direcção no país vizinho independente - Guiné Conakry...." 
  
http://www.paigc.org/  

17 de janeiro de 2012

355-Lançamento de livro de Leopoldo Amado


Trata-se de uma adaptação para o grande público da tese de doutoramento que, em 2007, Leopoldo Amado apresentou à Universidade de Lisboa.

Nota biográfica

Leopoldo Amado licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, concluiu o curso de Pós-graduação em Relações Internacionais (Estudos Islâmicos) pela extinta Universidade Internacional de Lisboa, e frequentou o curso de Mestrado em Estudos Africanos no Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa. Concluiu em 2007 o Doutoramento em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa e atualmente, além da atividade de docência na Uni-CV, em Cabo Verde, conduz um projeto de pós-doutoramento no CES.

4 de janeiro de 2012

344-Operação Safira Solitária


Com a devida vénia e agradecimento ao Carlos Fortunato dos Leões Negros.

20 de Dezembro 1971 - Operação Safira Solitária realizada por duas companhias de comandos africanos na zona de Morés, Oeste da Guiné, com vários contactos com forças do PAIGC. Disse o Comunicado Especial do Comando-Chefe: 
“...Montada a operação, denominada "Safira Solitária", foi esta levada a efeito por unidades da força africana e teve início ao alvorecer do dia 20 prolongando-se até à tarde do dia 26 tendo as nossas forças sido guiadas na floresta por elementos das populações da área pertencentes à nossa rede de informações que conhecia a localização precisa das posições inimigas.  Apesar de colhido de surpresa o inimigo estimado em 6 bigrupos, 2 grupos armados de armas pesadas instalados em posições fortificadas e cerca de 333 elementos armados da milícia popular, opôs durante os três primeiros dias tenaz resistência acabando todavia por ser desarticulado e aniquilado, tendo sofrido 215 mortos confirmados, entre os quais três cubanos, e alguns mercenários estrangeiros africanos, 28 capturados, além de apreciável número de feridos.  Segundo declarações dos capturados, encontravam-se na área pelo menos mais 4 elementos cubanos.  Verificou-se que o inimigo estava implantando no Morés um sistema de fortificação de campanha do qual se destacavam espaldões para armas pesadas e abrigos subterrâneos para pessoal.  Os grupos de guerrilha, pela resistência que ofereceram revelaram uma sensível melhoria de enquadramento e uma técnica mais avançada de guerra de posição.  No decurso da operação foi capturado o seguinte material: 1 canhão sem recúo B-10, 2 morteiros de 82 mm, 2 morteiros de 60mm, 3 metralhadoras pesadas Goryonov, 7 lança-granadas RPG-7, 14 espingardas automáticas Kalashnikov, 38 espingardas semi-automáticas Simonov, 8 espingardas Mosin Nagant, 14 pistolas metralhadoras PPSH, além de avultado número de armas de repetição, de cunhetes de munições, fitas e carregadores, destruídos no local por desnecessários. As nossas forças sofreram 8 mortos, 12 feridos graves e 41 feridos ligeiros." 
Amadu Bailó Djaló alferes da 1ªCompanhia de Comandos Africanos, conta que o seu grupo não participou no inicio da operação, e quando se juntou aos restantes comandos, estes estavam concentrados na zona dos cajueiros do Morés, que era perto da barraca central. Quando lá chegou começava a anoitecer, e apercebeu-se que já estavam ali desde o meio-dia, pelo que alertou para o perigo que isso representava, mas responderam-lhe, que se atacassem era bom, era maneira como lhe apanhava-mos todas as armas, pois estavam ali 200 comandos. 
Quando a noite caiu, o PAIGC  atacou, um violento e certeiro bombardeamento de morteiros, provocou de imediato muitos feridos, e uma fuga precipitada para outra posição, lançando a confusão. 
"Tivemos que fugir rapidamente para outra posição, pois as granadas caíram mesmo em cima de nós. mas depois regressei novamente ao local onde tinha estado, dado ter deixado lá a minha arma."  
Quando procurava a arma, uma voz chamou-o, era um soldado ferido, disse-lhe que estava ferido nos pés, como estava muito escuro, apalpou-lhe os pés para ver como estavam, eram uma massa de sangue, foi chamar o enfermeiro.  O enfermeiro chamou-o à parte e disse-lhe que não havia nada a fazer, ele iria morrer durante a noite, pois iria esvaziar-se em sangue até de manhã, altura em que poderia ser evacuado.
“Amadu voltou para me juntar ao meu grupo, mas no caminho chamaram-no novamente, era outro soldado ferido”.  
Estava ferido numa perna, parecia que tinha um tendão cortado, mas não teve tempo para o ajudar, a resposta dos comandos africanos ao poder de fogo do PAIGC revelava-se insuficiente para deter, e este avançava rapidamente no terreno, ao assalto às posições dos comandos, pelo que lhe disse voltaria para o vir buscar (quando lá voltou tinha sido morto pelo PAIGC com um tiro na cabeça). 
Amadu juntou-se ao seu grupo, e recuaram novamente, inicialmente queriam recuar para a zona das bananeiras, que era um local escuro e que dava alguma protecção, mas a Amadu pareceu-lhe demasiado óbvio, e disse para recuarem para o meio do capim, local com pouca protecção. 
"O PAIGC bombardeou com morteiros a zona das bananeiras, suspeitando que nós estávamos lá, e passou perto de nós da zona do capim, gritavam: "Cú, Cú", "Comando",  "Aparece se és homem", mas ficamos calados." - comenta Amadu.
Os confrontos pararam, pois conseguiram não ser detectados, e ao amanhecer deslocaram-se para uma zona, onde pudessem evacuar os feridos, mas ai receberam ordem para regressar, e o assalto à barraca central nunca se efectuou.
Quebá Sedi combateu desde 1963 até 1974, foi chefe de um bigrupo no Morés, e lembra-se bem da operação ocorrida em Dezembro de 1971, em que a tropa veio passar o natal com os combatentes pela liberdade da pátria. Segundo as suas palavras, o que se passou foi o seguinte: 
“Primeiro veio uma avioneta que andou a sobrevoar a mata, depois durante 13 dias, bombardeiros, helicópteros, e os canhões do Olossato, Bissorã, Cutia e Mansabá, bombardearam de dia e de noite o Morés. No fim dos bombardeamentos, devem ter pensado que estava tudo morto, e helicópteros trouxeram as tropas, que largaram em várias zonas, à volta do Morés.  Os combatentes fizeram-lhes duas emboscadas, mas depois perderam-lhes o rasto, muita gente pensou que se tivessem ido embora, pois não de ouvia nada. As tropas tinham-se reunido no Morés, na zona dos cajueiros, muito perto da barraca grande do Morés, era véspera de Natal, e era sua intenção atacar a barraca grande do Morés, no dia seguinte, pelo que passaram aqui a noite.  Um homem grande detectou o brilho de um cigarro, de um soldado que estava de pé a fumar, com a arma ao lado, e foi avisar os combatentes da barraca grande. O comandante da barraca grande era Abu Ladja, mas existiam ali outros comandantes como Lamam Sisse, Dique Daringue, e outros. Gerou-se alguma discussão se era mesmo tropa que estava ali, pois não queriam ir bombardear a população, uns diziam "É tuga", outros "É cá tuga". Dique Daringue foi encarregado de investigar, e os combatentes levaram 2 morteiros 60 e 2 morteiros 82. Dique Daringue para ter a certeza de que era tropa mandou disparar uma rajada, em resposta ouviu-se falar português, eram "tugas", e abriu-se fogo. As tropas tiveram muitos mortos e feridos, foram apanhadas muitas armas e um rádio. As tropas também conseguiram apanhar algumas armas, pois dias antes tinham encontrado em Bongontom uma arrecadação com armas velhas, e outra com armas novas no Morés".

(Publicado em 21/05/2006, e revisto em 1/08/2007 por Carlos Fortunato, http://leoesnegros.com.sapo.pt/ )

2 de janeiro de 2012

341-Ataque a Djagali, no encalço de Amílcar Cabral

Um enorme roncar de aviões despertou-nos, Vestimo-nos rapidamente e saímos. Começaram a largar bombas e a metralhar. Minuciosamente. São 6 horas da manhã. Uma dúzia de B26 giram no céu plúmbeo [devem referir-se aos T6, pois parece-me que na Guiné nunca houve B26; além disso, é um exagero falar em uma dúzia numa só acção, além de que nunca estariam tantos disponíveis…], quatro caças volteiam, traçando círculos concêntricos à nossa volta. Desta vez vieram em força e bombardeiam-nos com estrondo. Ouvimos explosões muito perto. Saímos rapidamente da base. O bombardeio continua durante uma hora pelo menos. Afastamo-nos para longe da área de Djagali [na margem esquerda do rio Farim]. Foi certamente um informador que avisou durante a noite um dos postos portugueses na região. Os portugueses devem saber que Cabral está na área. Depois de andarmos durante algum tempo, escondemo-nos num matagal, éramos um pequeno grupo de quinze – esperámos que tudo ficasse calmo. O bombardeio tornou-se menos intenso, deitámo-nos ou sentámo-nos debaixo dos ramos, encostados aos troncos das árvores.
- “Inocêncio”, disse Amílcar.
- “Hum!”
- “Inocêncio, é a guerra”.
Enquanto isso, Titina prepara Nescafé numa pequena caixa de metal. Pelas 7h30 um avião de reconhecimento voou sobre nós. Quinze minutos depois, uns  camponeses passam levando toros de madeira à cabeça.. "Balantas”, disse Inocêncio, “há uma piada entre os Balantas: querem reconstruir a palhota antes que ela acabe por arder".
Os aviões continuam a bombardear, agora esporadicamente.
- “Antes”, disse Amílcar, “o portugueses no Norte concentraram as suas tropas no Oio. O Congresso de 1964 decidiu levar a luta a todo o lado. E isso foi feito num ano. O que é que eles podem fazer? Bombardear. Temos milhares de homens em armas. Eles destroem o que podem... Já não controlam o país "
Um pouco mais tarde, os combatentes conduzem ao nosso objectivo. Os aviões continuam a girar, já longe de nós, que esperamos; o tempo de inatividade está a ser longo.
Inocêncio canta uma canção popular em crioulo:

GALO BEDJU [Galo velho]

I

"Senhor António, o que é que você tem?
Porque está tão triste?
Ó meus amigos, não é nada,
Tenho é saudades da minha juventude.

II

Quando era galo novo
Comia o milho nas tuas mãos,
Agora que sou galo velho
Obrigas-me a estalar o bico contra a terra.

   Cerca das 8h30 chegam dois combatentes. Bombardearam a tabanca de Djagali, não se sabe ainda o no número de mortos e feridos. Titina parte imediatamente para tratar dos feridos.
-“Para cá chegarem, precisam concentrar forças em Olossato”, disse Amílcar, “mas nós cortámos a estrada e a ponte está destruída "
De qualquer modo foi tomada a decisão de não partir dali para Yadur, como estava planeado para saírem da Guiné. Iria multiplicar desnecessariamente os riscos. Especialmente porque as medidas para garantir a segurança do Secretário-Geral iriam afectar a mobilidade dos combatentes e seria necessário mobilizar demasiados homens.
Um camponês passa, carregando madeira. Cumprimenta-nos.
-“Então”, diz Amílcar, “não te abrigas? "
"-Eles não nos podem matar todos num só dia", responde o homem. 
Ficámos a saber que havia 7 mortos e 5 feridos em Djagali. Era quase meio-dia quando regressámos à base de Maké. Trazido por Nino, responsável do Sul, estava lá um jornalista da Jeune Afrique, Justin Vieyra.. Cabral concede-lhe uma breve entrevista onde lhe disse que a ajuda dos Estados africanos era muito insuficiente.
Partimos nessa noite para atravessar a fronteira.
 Ao longo do caminho fomos saudados amigavelmente pelos camponeses,
Já mais longe, dois rapazes com idades entre 16-17 anos dirigem-se a Amílcar e pedem-lhe armas para lutar:
"Havemos de tê-las muito em breve, para vocês também", disse Cabral.
A marcha é rápida e silenciosa por entre a atmosfera húmida.. As camisas estão coladas à pele.
Fazemos uma breve paragem perto de uma fonte. A água está morna, mas sabe bem. Aproximam-se dois camponeses, reconhecem Cabral e abraçam-no. São dois Fula, velhos militantes do Partido.
Durante a caminhada, encontrámos mais dois rapazes que nos cumprimentam. cumprimentar.
"- Coragem”, disse Amílcar, “vamos vencê-los”
"- Claro," responderam eles .
17h. Na margem esquerda do Farim. Já nos esperava uma vintena de combatentes. Entrámos numa piroga. Ouvimos um ruído de motor do outro lado do cotovelo do rio. 
"- A canhoneira! ", diz alguém.
Aceleramos as remadas. O ruído aproxima-se. Enfiamo-nos num canal do outro lado, protegidos pelo mangais.  A canhoneira passa, o barulho vai diminuindo.
Do outro lado do rio, há uma grande planície túmida e nua. Há três quilómetros antes de alcançar a cobertura de palmeiras. Mesmo indo rápido, com as armas, a carga e o terreno lamacento, devemos demorar pelo menos 20 minutos para atravessar. É dia, há muito sol. O risco de sermos descobertos por um avião de reconhecimento é muito grande. Decidimos esperar pelo anoitecer. Meia-hora mais tarde chegauma segunda piroga com combatentes. Pouco tempo depois chega mais uma com outro grupo de combatentes. Ficamos todos sentados. Fumamos cigarros portugueses fabricados em Angola “Fábrica de Tabaco Ultramarina”, marca AC.
"- Chamamos-lhes Amílcar Cabral", diz Inocêncio.
O dia começa a declinar. Partimos. Levanta-se vento. Um grupo precede-nos e outro vai atrás de nós. Andamos de noite, sem dizer uma palavra, a passo rápido.
Para 21 horas encontramos um grupo de combatentes. "É Bobo, o responsável da área de Sambuiá", disse Cabral.  Ele chega-se e conta-nos.
Esta manhã, os portugueses tentaram um cordão de envolvimento. Seis helicópteros desembarcaram cerca de cinquenta portugueses e auxiliares africanos a 20 km da fronteira. Bobo reuniu 36 homens, procurou depois o contacto com os portugueses e conseguiu empurrá-los para uma área arborizada. A emboscada ocorreu por volta das 17 horas. Os portugueses tiveram cinco mortos e feridos. Depois retiraram-se. Há quatro feridos no grupo Bobo, incluindo três com gravidade
Comemos algumas mangas. Combatentes do grupo de Bobo deram-nos algumas rações de combate tiradas dos cadáveres portugueses. Pegámos  numa.
" - Esta era de um mercenário africano", disse um dos combatentes. 
É uma ração individual "Tipo E", pacote verde escuro. Contém alimentos em um tubo, um filtro para água, etc.
Retomamos a marcha. Estamos agora numa savana arborizada. Continuamos sempre precedidos e seguidos por um grupo de combatentes. Mas, como precaução adicional, Bobo colocou dois grupos nas asas, a uma centena de metros de nós. Andarmos rapidamente: os últimos quilómetros, os menos arborizados, onde os riscos podem ser grandes, são cobertos em um ritmo recorde.
Depressa chegámos à primeira aldeia senegalesa. A ambulância do P.A.I.G.C. estava lá com os três gravemente feridos na emboscada da tarde.. É uma hora da manhã.



Tradução minha de extracto de "Lutte Armée en Afrique", de Gérard Challiand, Cahiers Libres 101, François Maspéro

29 de dezembro de 2011

339-Vigília na Capela do Rato em 31 de Dezembro de 1972

Os acontecimentos que se desenrolaram na Capela do Rato, nos últimos dias de 1972, enquadram-se num movimento crescente de contestação à guerra colonial que alastrava na sociedade portuguesa, sobretudo nos sectores mais politizados ou mais directamente afectados pela sua continuação, como era o caso da juventude. A vigília do Rato teve, aliás, como precursora a ocupação da Igreja de S. Domingos, em Lisboa, em 1 de Janeiro de 1969, também feita por um grupo de católicos, conhecidos então por «progressistas». A data de 1 de Janeiro de cada ano fora escolhida pelo papa Paulo VI como dia dedicado à Paz, na sequência da célebre encíclica de João XXIII Pacem in Terris. Naquela igreja, após a missa da meia-noite da passagem do ano, celebrada pelo cardeal Cerejeira, um grupo de fiéis comunicou-lhe, através de um texto que lhe foi lido, a sua decisão de permanecer no interior da igreja até ao dia seguinte, em clima de reflexão sobre a paz, na situação de guerra como era a de Portugal. Para esta vigília a poetisa Sophia de Mello Breyner tinha composto o poema que depois se celebrizou «Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar». Ouviram-se muitos testemunhos de vários dos presentes, entre eles jovens que tinham combatido nas colónias, e sustentou-se um vivo debate com o pároco da igreja, que também permaneceu, com a intenção de impedir a vigília. Na manhã seguinte, os fiéis saíram da igreja já sob a vigilância da PIDE, que todavia, para não dar alarde ao caso, não efectuou prisões.
Passados três anos sobre este acontecimento, na vigília da Capela do Rato, iniciada em finais de Dezembro de 1972, repercute-se o crescente mal-estar provocado pela continuação de uma guerra injusta e sem saída, que se verificava agora em meios muito mais alargados. A sua preparação foi mais organizada e previa-se um jejum de três dias, a observar pelos ocupantes, segundo uma declaração lida por Maria da Conceição Moita na tarde do dia 29. Ao mesmo tempo, decidia-se abrir as portas da capela a todos aqueles, crentes e não crentes, que desejassem debater o problema da guerra. A coordenação de toda a acção foi assegurada por Luís Moita, que pediu a colaboração das Brigadas Revolucionárias, organização clandestina chefiada por Carlos Antunes e Isabel do Carmo, com a missão de divulgar o acontecimento na região de Lisboa, o que foi feito através de panfletos.
A escolha da Capela do Rato, situada na Calçada Bento Cabral, para esta acção ficou a dever-se ao facto de se tratar de um local de culto dirigido pelo padre Alberto Neto, frequentado pelos meios mais inquietos da comunidade católica, e que se tomara conhecido pelas inovações litúrgicas e pelas preocupações de ordem social promovidas e proclamadas por aquele sacerdote.
Para o dia 1 de Janeiro de 1972 a palavra de ordem de Paulo VI era imperativa: «A paz é possível, a paz é obrigatória.»No decurso da sua mensagem, o Papa proclamava que era através do diálogo, e não da guerra, que se deviam procurar as soluções para os conflitos. Tal como em ocasiões anteriores, e perante a atitude da hierarquia católica portuguesa que silenciava as directivas de Roma nesta matéria, o grupo de católicos que promoveu a vigília assumia por inteiro aquela palavra de ordem e propôs-se tirar dela consequências práticas.
Nos dias 30 e 31 de Dezembro as portas da capela estiveram abertas de par em par, sem prejuízo no entanto para os oficios religiosos habituais nos fins-de-semana. Centenas de pessoas improvisaram assembleias de discussão, testemunhando o seu ódio à guerra, dissertando sobre os inconvenientes morais e materiais que ela produzia e proclamando a necessidade urgente de lhe pôr cobro, sublinhando o seu carácter injusto. Afixados nas portas, diversos cartazes transcreviam números relativos aos mortos em combate, às populações das colónias dizimadas e aos estropiados de ambos os lados.
Mas a repressão não tardou.
Ao fim do dia 31, perto da hora do jantar, fez-se uma pausa nas discussões, enquanto cerca de cinquenta pessoas permaneciam na capela. Foi nesta altura que se começaram a ouvir ruídos de carros da polícia de choque, acompanhados do latido de cães-polícias, e fez-se o cerco ao local. Os polícias penetraram no templo e, arrastando à força algumas pessoas que resistiam, levaram todos os assistentes para a vizinha esquadra do Rato, onde foi feita uma primeira triagem. A maior parte foi levada para os calabouços do Governo Civil, onde se deu a passagem do ano. Na manhã do dia seguinte, dezasseis de entre eles foram entregues à Pide que os levou para o Forte de Caxias. Foram aí submetidos a interrogatório, mas não torturados e ao fim de um máximo de quinze dias libertados sob caução. Estes processos não tiveram seguimento, talvez com o intuito de não empolar o caso.
Entretanto, e devido à importância pública que os acontecimentos tinham provocado, a Censura não os pôde calar, reproduzindo os jornais uma nota oficiosa cheia de diatribes contra os manifestantes, acusando-os de subversão, traição à Pátria, etc. 
Alguns dias depois o caso foi mesmo levantado na Assembleia Nacional, onde se assistiu a um acalorado combate verbal entre o deputado ultra Casal-Ribeiro e o da Miller Guerra. Este deputado teve a coragem de dizer que não se tratava apenas de um pequeno grupo de agitadores, mas que os ocupantes da capela traduziam um mal-estar crescente e alargado acerca da guerra, e que eram tão fiéis da Igreja como outros. No entanto, a repressão não ficou por aqui: cerca de quinze pessoas que foram identificadas pela polícia e que eram funcionários públicos, entre os quais o professor de Economia Pereira de Moura, foram alvo de processos disciplinares conducentes ao seu despedimento. 
O cardeal-patriarca publicou um comunicado criticando a ocupação e demitiu de capelão o padre Alberto Neto, não obstante este não se encontrar presente durante os acontecimentos, por motivo de doença. Por uma trágica coincidência, nestes dias da ocupação da Capela do Rato, o Exército português em Moçambique massacrava as populações civis das aldeias de Wiriyamu e Chawola, uma operação militar que havia de custar caro à sua credibilidade internacional. Estes massacres foram conhecidos apenas alguns meses mais tarde, através de denúncias feitas por missionários. O caso da Capela do Rato, como ficou conhecido, não deixou de ser referência para acções posteriores de combate à guerra em Africa e teve projecção internacional, manifestando o descontentamento de parte da população portuguesa contra o seu prosseguimento. Tratou-se de uma acção que se inscreveu na actividade dos chamados «católicos progressistas*» contra a guerra colonial, que se vinha desenvolvendo desde 1963 com a publicação do jornal clandestino «Direito à Informação» e continuada no final da década com os «Cadernos GEDOC», animados pelo padre Felicidade Alves, demitido de pároco de Belém. Por esta altura, o mesmo grupo, que se alargara a vários pontos do país, nomeadamente à cidade do Porto, onde também se desenvolviam acções de consciencialização face ao problema da guerra, criou em Lisboa um centro clandestino de informação e divulgação que deu origem, a seguir ao 25 de Abril, ao CIDAC, organização não governamental de cooperação com as antigas colónias. E de salientar neste contexto a acção do padre Mário de Oliveira, pároco de Macieira da Lixa, capelão militar que recusara a guerra, e que foi por duas vezes preso e julgado em Tribunal Plenário. Toda esta acção tinha em vista abrir uma brecha nas posições da hierarquia católica, que não ousava confrontar-se com o Governo, ignorando sistematicamente as directivas do Vaticano acerca dos problemas da paz e da guerra. 

Dicionário da História do Estado Novo – Fernando Rosas, J.M Brandão de Brito 
http://www.25abril.org/images/dot.gif

14 de dezembro de 2011

327-Endechas a Bárbara Escrava

Uma belíssima aguarela da amiga Leonor Machado. Mais uma vez ela teve a amabilidade de nos presentear com um belo poema (foi antes a "Lágrima de preta", do António Gedeão): desta vez do nosso Luís de Camões. E é verdade: muitas canções melancólicas,  endechas, nos lembram as presenças serenas que muitas tormentas amansaram com pretidões de amor. Mas não eram escravas: eram senhoras de quem estava cativo.

2 de dezembro de 2011

312-Pedido de independência para as colónias

 Carta ao Senhor Presidente do Conselho de Ministros da República de Portugal1

Dakar, a 10 de Junho de 1960

Excelência,

Os filhos dos territórios da Guiné dita portuguesa e das Ilhas de Cabo Verde, agrupados no seio do M.L.G.C.2.- movimento nascido na República do Senegal, país livre, pleno de esperança e democracia - apresentam a Vossa Excelência, por intermédio do Cônsul de Portugal em Dakar, os seus objectivos.
Considerando que o ano de 1960 é o ano histórico da libertação e da independência da África Negra;
Considerando que os territórios de expressão francesa, inglesa ou belga, bem como os territórios sob tutela da O.N.U., entram no concerto das nações livres;
Considerando que a liberdade é nula na Guiné dita portuguesa e no arquipélago de Cabo Verde;
Considerando que os trabalhadores desses territórios não se podem associar em sindicatos verdadeiramente independentes porque as ditas associações de trabalhadores dependem exclusivamente do governo e da classe patronal;
    Considerando que a escravatura, abolida no mundo inteiro, ainda perdura em larga escala nas colónias portuguesas (trabalho forçado, contrato de trabalho indígena, etc., etc.) ; Considerando que o regime que Vossa Excelência preside desde há trinta e dois anos tem sempre combatido a evolução do homem africano;
Considerando que a discriminação racial é uma realidade cruel e flagrante nas possessões portuguesas da África e da Ásia (brancos, mestiços, indígenas civilizados, indígenas não civilizados, etc. ,etc. ) ;
Considerando que os povos da Guiné e de Cabo Verde rejeitam sem condições as fórmulas de integração, de assimilação ou de províncias ultramarinas, por traduzirem todas elas a mesma finalidade de esconder o colonialismo e exploração do homem africano, impedindo a sua evolução no caminho do progresso e da democracia,
Pedem a Vossa Excelência,
Em nome do preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos do Homem - "os homens nascem, vivem e morrem iguais" -, em nome da convenção de Filadélfia - "a trabalho igual, salário igual" - que Vossa Excelência dê a independência aos territórios africanos sob dominação portuguesa3.

1 A carta tem por remetente: « Mouvement de Libération de la Guinée et du Cap Vert (M.L.G.C.), Ecole Corona Diallo, Rebeuse, Dakar ». Segundo fontes autorizadas, atribui-se a carta a Amílcar Cabral, mas não há certeza quanto à sua autoria
2 O M.L.C.G.. é o movimento que deu origem ao P.A.I.G.C.(Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) fundado por Amílcar Cabral.
3 Escrito em vermelho como no documento original.

Mas Salazar já tinha, há muito, "argumentos" para recusar a descolonização:


  «As terras coloniais, ricas, extensas e de fraquíssima densidade populacional são o natural complemento da agricultura metropolitana, nos géneros pobres sobretudo, e das matérias-primas para a indústria, além de fixadores de uma população em excesso daquilo que a metrópole ainda comporte e o Brasil não deseje receber. ( ... )
     Quanto a nós, o caminho seguido define-se por uma linha de integração num Estado unitário, formado de províncias dispersas e constituído de raças diferentes. Trata-se, se bem interpreto a nossa história, de uma tendência secular, alimentada por uma forma peculiar de convivência com os povos de outras raças e cores que descobrimos e a que levamos, com a nossa organização administrativa, a cultura e a religião comuns aos portugueses, os mesmos meios de acesso à civilização.
    Nós cremos que há raças decadentes ou atrasadas, como se queira, em relação às quais perfilhamos o dever de chamá-las à civilização. Que assim o entendemos e praticamos, comprova-se pelo facto de não existir qualquer teia de rancores ou de organizações subversivas que neguem ou que pretendam substituir a soberania portuguesa. ( ... )
  Tem-se apresentado contra o conceito português das províncias ultramarinas a objecção da separação geográfica, da falta de continuidade territorial. O argumento não pode ser decisivo já que, no Atlântico, os Açores são ilhas adjacentes, Cabo Verde aspira ao mesmo regime e também porque há numerosos Estados constituídos por parcelas distanciadas mais do que Lisboa está de algumas das províncias do Ultramar. Trata-se de factos ou criações históricas para as quais se procuram, debalde, ajustamentos a teorias lineares.»

António Oliveira Salazar. Discursos e Notas Politicas, vols. III e V (1943 e 1957).
Coimbra, Coimbra Editora, sem data. 

31 de outubro de 2011

290-Éramos bandos dentro do arame farpado...

...e não fazíamos nada, apenas à espera que nos viessem atacar. Na altura comentei esta infeliz (e ofensiva) opinião noutro local (aqui), mas vou repetir o que disse, porque eu, que fui um elemento desses "bandos" com várias operações, patrulhamentos e emboscadas no pelo, muitos dias e noites nas matas da Guiné, ferido em combate e com meses no hospital da Estrela, não me posso esquecer dessas palavras, continuam a magoar-me, tanto mais que não tenho conhecimento de alguma re...consideração de quem as proferiu:
O senhor General Almeida Bruno, referindo-se aos combatentes na Guiné, disse que: “…a maioria esmagadora eram bandos que estavam atrás do arame farpado à espera que o inimigo atacasse para se defenderem… havia muito pouca iniciativa”, põe como excepção os pára-quedistas e os fuzileiros (admiro-me que não fale nos comandos…). Parece-me que se trata de uma manifestação de sobranceria estilosa e de menosprezo da actividade, dos problemas e sacrifícios dos que estavam obrigados aos dispositivos táctico-estratégicos determinados não por eles mas por quem dirigia a guerra, quer para gestão de quadrículas quer para ocupação de pontos considerados importantes para manobras operacionais ou para enquadramento de populações. Esta declaração entristece-me vindo de quem vem, sabendo eu o que sei, apesar de estar longe de ser alguma sumidade na arte da guerra, o que não é o caso do senhor General. É só pelo que vi e vivi, e também tenho lido.
Segundo os dados que colhi das publicações da CECA, 1.276 é o total de elementos que constituem o “bando”, então, dos mortos em combate na Guiné, não estando neste número, é claro, nem os fuzileiros nem os pára-quedistas (aos quais manifesto o meu respeito e admiração), que também lá tiveram mortos.
Uma “limpeza” que a guerrilha fez atrás dos nossos arames farpados?… Eu “vi” que não foi assim.
A primeira companhia em que estive (CART1690) teve 10 mortos em combate, na zona do Oio: 3 soldados e 1 alferes em ataques à base do PAIGC em Sinchã Jobel; 1 soldado e 1 capitão em deslocação entre destacamentos da companhia; 2 soldados, 1 furriel e 1 alferes em ataques do PAIGC a destacamentos nossos. Foram também evacuados para o HMP de Lisboa, por ferimentos em combate, 2 alferes (1 num deslocamento entre destacamentos, 1 numa operação) e 3 soldados (em operações).
Quanto à outra por onde passei, de guineenses do recrutamento local (não era tropa especial): enquanto foi 1.ª CCAÇ, teve 7 mortos em combate, quando andou por Bissorã, Talicó, Bedanda, mata de Cudana, Sambuiá…; depois de se transformar em CCAÇ3, teve 15 mortos em combate, sendo 3 em ataques do PAIGC a Barro, 3 em ataques do PAIGC a Guidage (onde teve elementos destacados) e os restantes em operações ou emboscadas (Sano, Sambuiá, Canja...).
Quanto à “muito pouca iniciativa”:
À CART1690, quando chegou à Guiné, foi-lhe dada a responsabilidade de uma quadrícula de 1600km2, na mata do Oio. Nessa quadrícula tinha, inicialmente, quatro destacamentos: Geba (onde era a sede da companhia), Camamudo, Cantacunda e Banjara (estes dois a cerca de 40km de Geba). Depois constituiu mais um destacamento em Sare Banda. A companhia foi, pois, desmembrada desta maneira… por “iniciativa” dos altos comandos da guerra.
Mesmo assim:
- forças suas participaram em 61 operações com nome de código, 12 destas com PCV;
- forças suas realizaram 1561 patrulhamentos, 36 emboscadas e 442 outras acções
Quanto à CCAÇ3 não tenho dados numéricos, mas, da minha experiência pessoal, garanto, senhor General, que os pelotões desta companhia realizaram inúmeras emboscadas e patrulhamentos na fronteira com o Senegal, nas zonas de Sano e Canja, e participaram em várias operações em Sambuiá.
O que diz o senhor General é a “sua” verdade, com muita coisa em falta, que, pelos vistos, desconheceu (embora me custe a crer…). Vou dar outros dados que constituíram a verdade dos “bandos” que estavam atrás do arame farpado:
- da CART1690 houve 15 elementos que foram evacuados para o HMP de Lisboa por motivo de doença
- e dois exemplos de uma das razões disso: o destacamento de Banjara esteve, em certa altura, com dois meses sem abastecimentos, tendo os seus ocupantes que se desenrascar comendo macacos e cobras; quanto à água, porque só havia fora do arame farpado, estabeleceu-se tacitamente uma escala: num dia iam os do PAIGC da zona e noutro dia iam os nossos buscá-la; em Barro, quando as barcaças demoravam muito tempo a trazer-nos os abastecimentos pelo Cacheu, tínhamos de ir “caçar” as vacas que o PAIGC tentava levar do Senegal para o Oio – era uma forma de poder comer de jeito.
As condições que tínhamos no arame farpado não eram as mesmas, naturalmente, do que as que tinha quem estava em Bissau. Até das coisas mais comezinhas tínhamos, muitas vezes, que nos privar. Eu, por exemplo, que sempre fui um fanático por óculos escuros “rayban”, nunca os pude usar. É que, quando no arame farpado, eram topados ao longe e, quando em emboscadas, patrulhamentos ou operações, seria logo referenciado. É claro que não me interessava ser um alvo privilegiado.
Parece-me que, num programa com a projecção de “A Guerra” não foram nada cuidadas as declarações do senhor General, mesmo que delas esteja (mal) convencido. Os que estão a leste do que foi a guerra pensaram mal de nós, os ex-combatentes, alguns terão mesmo pensado que andámos lá a passar férias. Os que querem conhecer o que ela foi ficaram mal informados, induzidos em erro. Para nós raiou a ofensa.
E vou, agora, acrescentar mais alguns dados:
À CART1690 foi atribuída esta quadrícula (os tais 1.600km2 na mata do Oio, não por decisão do capitão do "bando" mas sim pelos altos comados, como disse)
Foi assim disperso o "bando", com uma base do PAIGC a meio (Sinchã Jobel), nunca destruída (Jigajoga, Jigajoga2, Jacaré, Imparável, Invisível) e outra a norte (Samba Culo), destruída uma vez (Inquietar I e Inquietar II) , mas, evidentemente, reconstruída (Cantacunda). O "bando" esperava ataques (quem não esperava?...) e tiveram-nos (Banjara, Cantacunda, Sare Ganá, Sare Banda). 



Mas, contrariamente ao que diz o senhor general, também saíu do arame farpado:
E dava nisto:
Não é justo dizer que este "bando" não fez nada. Os que morreram não foi de saudades. Os que foram feitos prisioneiros não foi para passar férias em Conakry.