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23 de maio de 2012

489-História da Guiné-Bissau em datas

O Mário Beja Santos enviou-me este texto com a nota, que transcrevo, de quem lho terá enviado a ele:

Meus caros, 
Mandaram-me o documento anexo que tem algum interesse, apesar de incompleto. Na parte final, verifiquei também que existiam alguns erros. De qualquer forma, fazia falta para todos os que se interessam pela história da Guiné, uma cronologia. Este escrito, supre uma lacuna importante apesar de alguns defeitos. Eu próprio estou a trabalhar numa cronologia da Guiné-Bissau contemporânea, tarefa muito trabalhosa onde luto com uma notória falta de documentação. Necessitaria de toda a possível ajuda para levar este projecto por diante, ficando-vos muito grato se me indicarem possíveis pistas, para além do Google e dos livros que tenho em casa e que já estão super-consultados. Os anos do consulado de Luís Cabral(74-80) são muito importantes e é sobre esse período que tenho uma maior carência de elementos.

Já agora a introdução é perfeitamente dispensável.

Com um abraço

Francisco Henriques da Silva

Este documento, controverso e discutível, em minha opinião, nas interpretações históricas que faz nos parágrafos iniciais, tem, como diz o Francisco Henrique da Silva, o mérito da elaboração de uma resenha cronológica da história dos povos da Guiné.



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28 de março de 2012

429-Além do Bojador


«Guiné, 1969-1971: em plena guerra colonial acontece este romance, cuja ficção vai buscar sustento nessa funesta realidade, sujeitando toda uma juventude a perigos extremos, muito para além da dor.
Os horrores da guerra, o medo, os perigos, a revolta, a saudade, mas também a esperança, os afectos, a tolerância, o amor, e a paixão que nasce e cresce entre dois jovens de origens, credos e culturas desiguais, sucedem-se na longa narrativa, despojada de adornos, mas mantendo o leitor atento até à última página.
Em Além do Bojador, o autor revela-nos também a história mais antiga da África Ocidental, nunca respeitada e ainda hoje pouco conhecida, para concluir, com convicção, que o seu justo acatamento teria afinal alterado o curso da dominação colonial a que estiveram subjugados todos estes povos, por mais de cinco séculos.
Manuel Mariano Ribeiro Fialho é natural de Moura. Formado em engenharia mecânica, tem exercido cargos de gestão em empresas industriais no país e no estrangeiro.
seu largo trajecto profissional, interrompido pela experiência na guerra colonial, motivo para esta obra com que se estreia em ficção, acumulou mais de uma década vivida no Brasil, de onde também operou para países da África Ocidental, a sul do Cabo Bojador.
Iniciou-se na edição em 2004 com Reabilitando o Gerúndio, um extenso trabalho de gestão e de análise económica, financeira e sócio-cultural - um reconhecido contributo para a recuperação do desalentado cooperativismo agroindustrial no Alentejo.»

4 de fevereiro de 2012

379-História da Guiné


HISTÓRIA DA GUINÉ.
PORTUGUESES E AFRICANOS NA SENEGÂMBIA (1841-1936)
de René Pélissier

Imprensa Universitária n.º 75, Edito­rial Estampa, 2 volumes, Lisboa, 1989.
Tradução: Franco Sousa.
Tttulo original: Naissance de la Guiné. Portugais et Africains en Senégambie (1841-1936).

Daniel A. PEREIRA

Com prefácio de Léopold Sédar Senghor, a leitura na horizontal desta obra em 2 volumes de René Pélissier não me cativou de forma muito particular. Apesar de uma grande expectativa criada em mim desde o anúncio da publicação da versão portuguesa em 1989 e que foi financia­da pelo Programa Nacional de Edições Comemorativas dos Descobri­mentos Portugueses.
Desde logo. uma primeira contrariedade de que o autor não é certa­mente culpado: o título português traiu, em meu entender, o original e não corresponde, ainda a meu ver, ao conteúdo. Aliás, diga-se de passagem que o título original francês também não corresponde cabalmente à temática desenvolvida e talvez fosse mais consequente se referenciasse expressamente o sucedâneo de conflitos que pontuou, ao longo dos séculos, o processo da colonização da Guiné, dita portuguesa. Ademais, até o título parece inspirar-se na obra de António Carreira «Os Portugue­ses nos Rios de Guiné (1500-1900)», Lisboa, 1984.
Em segundo lugar, o trabalho de Pélissier padece de uma excessiva compartimentação esquemática quando, na maioria dos casos, tal opção a não justificava pela absoluta insuficiência de desenvotvimento dos  subtítulos apresentados. Se a intenção era tomar a leitura mais agradável e atractiva, o grande prejudicado acabou por ser o conjunto de os resultados obtidos não satisfizeram um dos objectivos preconizados pelo autor, que consistia «em tentar preencher um vazio no conhecimento da África Ocidental pelos francófonos»  (Vol. I, p. 24). Se tal pode não ter sucedido em relação aos leitores francófonos, mormente terá conseguido «trazer aos Portugueses, aos cidadãos destas três nações lusófonas (pelo menos no que concerne à Guiné-Bissau) e, eventualmente, a alguns leitores periféricos,  elementos para que compreendam de onde vêm ...» (Vol.I, p. 26). Iria mais longe e diria até que terá sido a pressa em ocupar este espaço que contribuiu para desvirtuar esse fim de grande mérito, se fosse efectivamente atingido.
Seja como for, a obra enveredou por um caminho que hoje quase não se usa na historiografia contemporânea: a petite histoire, com manifes­to prejuízo para a intelegibilidade do todo, além de cair em algumas contradições e incompreensões, de que o autor não se dá conta, panicu­lannente no que toca a certos maus entendidos no que se refere ao relacionamento histórico caboverdiano-guineense, que abordaremos com algum pormenor mais adiante.
Com efeito, num espaço de tempo de praticamente um sécuto (1841-1936), penado relativamente longo, não discernimos os grandes mo­mentos da história desta zona geográfica, eleita por Pélissier como campo da sua actividade pesquisadora, pese embora a realidade de se tratar de um mosaico ou de um puzzle cujas peças são de difícil colocação. Sem embargo, as grandes oscilações económicas não aparecem e as movimen­tações sociais não surgem. Quedou-se pela história politica e, mesmo essa, restringiu-a às lutas intestinas inter-tribais ou às reacções, por parte da diversa população, às tentativas, esporádicas ou não, de ocupação levadas a cabo pelos portugueses ou seus agentes. E se Pélissier tivesse analisado mais detidamente todo o período anterior, a partir dos meados do século XV, ter-se-ia dado conta, facilmente, que a soberania portugue­sa nos «Rios de Guiné» sempre foi um mito, porque periclitante e instável, dependendo essencialmente do jogo de interesses económicos em presença, no qual os autóctones detinham a supremacia e ditavam as regras. Assim, o período compreendido entre 1841 e 1936 não constitui copiosos extractos dos arquivos publicados entre 1899 e 1913 nos Subsídios para a História de Cabo Verde e Guiné pelo pertinaz oficial de marinha caboverdiano Christiano José de Senna Barcelos, e utiliza igualmente uma compilação de documentos do AHU já publicada. No entanto, não nada que substitua a pesquisa directa no AHU. Muita informação importante sobre as relações comerciais e as ligações familiares dos portugueses e particularmente dos luso-africanos com grupos africanos pode ser extraída das petições, testamentos, declarações e listas de habitantes das comunidades comerciais. Estes e outros documentos teriam contribuído significativamente para uma compreensão das causas dos conflitos e das suas soluções, muitas das quais Pélissier reconhece serem inexplicáveis a partir das fontes por ele consultadas.
Infelizmente Pélissier não fez pesquisa na Guiné. Nos últimos anos o pessoal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa tem recolhido documentos coloniais de todas as regiões do país. Os arquivos paroquiais contêm informação sobre nascimentos, mortes e casamentos, do mesmo modo que as inscrições tumulares dos cemitérios.
De grande utilidade potencial para a investigação do período que Pélissier abrange no seu estudo é o crescente corpo de tradições orais re­colhidas pelos historiadores guineenses desde a independência. Esta pesquisa está agora a ser publicada, nomeadamente na revista Soronda, fundada pelo lNEP em 1986.
O livro de Pélissier estimulará novas contribuições e promoverá a pesquisa de terreno ao longo de linhas de investigação novas ou inade­quadamente exploradas. Seguramente muita mais informação sobre a perspectiva dos africanos pode ser recolhida junto dos filhos e netos daqueles que participaram nas últimas campanhas militares que Pélissier descreve.
Os materiais auxiliares do livro são assinaláveis. Existem seis mapas bem concebidos, e Pélissier vê-se aflito para explicar na sua nota introdutória que, apesar dos seus esforços, a localização de alguns lugares é problemática. Numerosos quadros organizam os dados disponíveis. Existe um útil glossário de 4 páginas, e a lista de fontes publicadas e documentos de arquivos (24 páginas) contém breves anotações. Também o indíce (18 pp.) se encontra elaborado com profissionalismo, incluindo símbolos-chave que fomecem informações sobre indivíduos. Para os estudiosos da Guiné-Bissau e das áreas vizinhas, Naissance de la Guinée constitui uma obra de referência indispensável para os investigadores especializados noutras áreas de África que possam eventualmente ficar desmobilizados pelo tamanho do livro de Pélissier.
Finalmente, debrucemo-nos sobre certas contradições, incompreen­sões e maus entendidos àcerca do relacionamento histórico caboverdia­no-guineense a que, no meu entendimento, o autor não soube ou não quis dar o devido tratamento.
Antes de mais, a utilização da terminologia «colónia» ou «coloniza­ção» (Vol. I, pp. 41 e seguintes), com tudo o que isso implica «no plano da gestão administrativa, das prioridades nos investimentos, do próprio povoamento ... », ocupação efectiva, etc., antes de se operar a partilha colonial ém 1886, é conceptualmente incorrecta. Quanto muito, poder­-se-ía falar de feitorias (Bissau, Cacheu, etc., etc.). Mas isso não é relevante para as minhas apreciações. Portante adiante.
Em primeito lugar, «a sufocante hegemonia de Cabo Verde sobre os seus confett! guineenses ... " (Vol. I, p. 104), que Pélissier pretende provar, ao longo de largas páginas da sua obra, ao ponto de falar da «colónia de uma colónia» (Vol. I, p. 41), não me parece corresponder inteiramente à verdade dos factos. Na realidade, se bem que houvesse desde sempre relações de dependência institucionais das autoridades de Cacheu face ao governador e capitão-geral de Cabo Verde, diz Carreira que tal situação não tinha efeitos práticos, tanto mais que «eram os próprios Regimentos que contrariavam a subordinação. Desde o ano de 1615 até 1664 (e outros), todos estabeleciam sucessivamente: "porém o dito governador vos não poderá, nem suspender de nenhum dos cargos de que vos encarrego". Proclamava-se a subordinação, e ao mesmo tempo concedia-se um princípio de independência ou não sujeição (Documentos para a História das Ilhas de Cabo Verde e "Rios de Guiné" (Séculos XVII e XVIll, p. 15).
Por outro lado, as condições de permanência dos portugueses (leia-se cabo-verdíanos) eram determinadas em função do pagamento de tributos aos «reis» locais e, no dizer de A. Carreira, «quem paga tributo não é soberano, é dependente» (idem, p. 28).
Além disso, Pélissier pretende assacar responsabilidades a Cabo Verde, às autoridades cabo-verdianas e aos maiorais do arquipélago pelo estado das coisas na Guiné, face à sua dependência administrativa, política e militar.
No entanto, é ele mesmo quem se contradiz quando afirma que «em treze anos. a metrópole e os seus militares demonstraram que, com efectivos duplos, quase mesmo triplos, em relação a 1878, (data a partir da qual se consuma a autonomia da Guiné relativamente a Cabo Verde) eram tão impotentes quanto Cabo Verde em se tornarem senhores da Guiné». Mais adiante: «neste ponto, não há, portanto, grande coisa de diferente em relação ao período "cabo-verdiano" tão criticado» (Vol. I, p.277).
lndependentemente disso, René Pélissier parece não considerar as razões históricas que estão no cerne do facto de as ilhas de Cabo Verde se terem tornado na cabeça da administração dos «rios de Guiné».
Efectivamente, a resistência demonstrada por parte dos africanos do continente desde os primórdios, levou a que o tipo de relações estabelecidas tivesse por base, ao longo do tempo, uma certa desconfiança e muita insegurança dos mercadores portugueses, sediados em algumas poucas localidades da costa ou fluviais, o que mostra o grau de instabilidade em que viviam e a precariedade da sua permanência.
Tal situação levou a que se privilegiasse a ocupação das ilhas donde, com certa dose de segurança para as populações brancas ou mestiças, se pudesse «administrar» económica, política e militarmente determinadas zonas do continente. Foi a estratégia montada para tentar controlar a actividade mercantil dessas mesmas zonas, procurando, simultaneamente, subtraí-Ias à concorrência de outras potências marítimas europeias, com o mfnimo de gastos económico-fínanceíros e pequeno dispêndio dio humano que uma colocação permanente no terreno contrariava, face às constantes investidas das populações autóctones.
Não esquecer, também, que uma das características fundamentais do relacionamento de Portugal com as suas possessões foi o abandono e o ostracismo a que as votou, o que se explica, em parte, pela fraqueza económica e militar portuguesa e a inexistência de uma marinha suficientemente forte para defender os seus interesses. Como dizia Oliveira Martins, «sem marinha, não colónias».
Também não é negligenciável o factor humano, ou seja, o tipo de pessoas que eram enviadas, tanto para a Guiné como para Cabo Verde. Como dirá Pélissier, «nunca se insistiria demasiado quanto ao papel nefasto destes militares recrutados entre os "malfeitores de Portugal e soldados incorregíveis, vadios e ratoneíros da ilha de S. Thiago" porque, por um lado, dão às populações que os rodeiam uma imagem desvalorizada de Portugal e, por outro, dão confirmação, aos governantes de Cabo Verde e da metrópole, à sua convicção de que, decididamente, esta terra de deportação está reservada à escória do Exército e de que só a título excepcional deve acolher soldados europeus normais» (Vol. I, p. 56).
O mesmo ou pior acontecia igualmente em Cabo Verde. A análise lúcida e implacável do governador Joaquim Pereira Marinho, por volta de 1838, não nos pode levar a outra conclusão senão essa. Vejamos: «Cabo Verde tem hoje quarenta e cinco, ou cinquenta e cinco oficiais militares de todos os graus ou espécies. ( ... ) Em geral, esses oficiais, com mui poucas excepções, não são de facto oficiais militares, são dezenas de tratantes, ineptos, intriguistas, bêbados, debochados, rechincheiros, tira­dos de Lisboa de oficiais e aprendizes de sapateiro. alfaiates. que por desmoralizados e, ineptos, não puderam aprender os ofícios a que os seus pais os destinaram. Outros são tirados desta classe de rapazes de Lisboa, e mesmo províncias, que as famílias não podem sofrer pelo seu deboche, e desmoralização, e por não puderem servir para coisa alguma. Em cinco mos de experiência contínua que tive, vi que não eram mais que súcias de tratantes que todas as noites se constituíam réus de polícia, que davam sempre ao Governo muito incómodo, e muita desonra. Nenhum Governo do mundo é capaz de sofrer tal canalha, também não no mundo Governo algum, que seja tão mau, que seja capaz de gastar somas imensas que o Governo Português gasta inutilmente, e para escandaloso e para desonra com tal gente.» (Memória sobre Cabo Verde do governador Joaquim Pereira Marinho. A.H.U .Sala 12. Cx. SS (1831-1838) - Inédíto).
Por tudo o que explanámos se deduz, naturalmente, que Cabo Verde era uma peça da engrenagem do sistema, esse sim, responsável pelos males que sofreram tanto um como outro território, males extensivos a Angola, Moçambique, etc.
Seja como for, ninguém pode negar que, historicamente falando, mal ou bem. a actual Guiné-Bissau, tal qual ela existe, dificilmente seria o que é se não fosse a acção, a persistência e o sacrifício de muitos cabo­-verdíanos anónimos que, no decurso de muitos séculos, se ligaram indelevelmente a este território. Mutis mutandis, o mesmo se aplica a Cabo Verde. E talvez fosse mais próprio falar-se em interdependência e complementaridade, quando se se refere a estas duas entidades tão intimamente ligadas por fortes laços histórico-culturais, do que procurar ver a dependência de um em benefício de outro.
Por fim e muito rapidamente para terminar, podemos dizer que a obra que nos foi dado ensejo de recensear, apesar dos seus aspectos positivos e das suas incursões em terreno tão árido quão difícil, não dispensa, de modo algum, os clássicos como Teixeira da Mota, António Carreira, Fausto Duarte, João Barreto, Cristiano José de Sena Barcelos, entre outros. Tem, por outro lado. uma grande virtude, na medida em que sistematizou um conjunto de informações sobre este período conturbado da Guiné. informações essas que, por esparsas, teriam o seu acesso muito mais dificultado. Nesse aspecto, o esforço do autor valeu bem a pena. Além disso, abre novas pistas de investigação que devem ser aproveita­das pelos potenciais interessados na matéria, particularmente os historia­dores do jovem Estado da Guiné-Bissau. Exige. simultaneamente, um maior aprofundamento do lema em si, alargando a área de actuação, tentando perceber o todo no conjunto social, económico, cultural...


13 de agosto de 2011

236-Aspectos e tipos da Guiné - XIII

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XXVIII, Nº 109, Janeiro de 1973

5 de agosto de 2011

231-Aspectos e tipos da Guiné - XII

Subida à palmeira - Bijagós
Morro de baga-baga

Boletim Cultural da Guiné Portugesa, Volume XXVIII, Nº 110, Abril 1973

12 de julho de 2011

6 de julho de 2011

216-Aspectos e tipos da Guiné - X

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume IX, nº 35, Julho 1954

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume I, 1946

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume II, nº 5, 1947

29 de junho de 2011

17 de junho de 2011

201-Boletim Cultural da Guiné Portuguesa


Tenho consultado, e continuarei a consultar, o "Boletim Cultural da Guiné Portuguesa", porque o considero uma fonte prestimosa para conhecimento das "coisas da Guiné", sobre o tempo em que esteve sob domínio colonial e também sobre as suas gentes.
O primeiro volume saiu em 1946, incluindo os números de 001 a 004. Teve à cabeça um texto de Marcello Caetano, então Ministro das Colónias, intitulado "Uma crónica nova da conquista da Guiné..." e que, de acordo com o espírito colonialista que ele tinha (embora 22 anos mais tarde o negasse...), é claro, acabava assim:
«Que esta revista seja, a partir de hoje, o registo fiel de um progresso incessante, a crónica nova da conquista da Guiné para a civilização e para a ciência, sempre dentro das concepções tradicionais da política colonial que soube casar a fé e o império: - a necessidade do mando com a fraternidade cristã!»
Também o Governador Sarmento Rodrigues afirmou, no artigo "Para a elevação do nível cultural da Guiné": 
«Foi criado para permitir que a gente da Guiné pudesse mais facilmente tomar parte no movimento literário, científico, artístico, numa palavra, intelectual, com' vista à formação e desenvolvimento dos valores espirituais. Ler e escrever.
(...) Estou certo que o «Boletim» nos não há-de envergonhar. Corresponderá, certamente, pelo seu aperfeiçoamento contínuo, ao desejo principal que motivou a sua criação: a elevação do nível cultural da Guiné. O seu êxito depende da capacidade e do esforço que cada um empreender para se valorizar. 
É tempo de a Guiné ser mais alguma coisa do que um campo fértil de produtos materiais. É preciso que pelo valor dos seus habitantes se transforme num meio onde floresçam também as culturas do espírito, acima de todas, expoentes de uma civilização.» 
É conhecida a célebre frase de Sarmento Rodrigues quando lhe perguntaram como conseguia manter a paz entre as várias etnias: "Sabe... é que eu ouço-os a todos atentamente, mas depois não ligo a nenhum". É um pouco como esta de, com a revista, pôr a gente da Guiné a tomar parte no movimento literário, científico e artístico... Somente Amílcar Cabral, nascido na Guiné, colaborou no Boletim como engenheiro agrónomo que era, e só durante algum tempo, obviamente. Os restantes foi tudo "gente" da Metrópole.
Mas com muito valor, reconheça-se. Tanto que é uma obra considerada pelos especialistas a melhor publicação científica das ex-colónias portuguesas. Foram publicados 110 números desde 1946 a 1973, e um número especial,   em 1947, comemorativo do V Centenário do Descobrimento da Guiné.
Têm muito valor os documentos históricos, os etnográficos e os científicos sobre a flora, a geografia, as pragas e as doenças, bem como a revista de imprensa e bibliografia, e mesmo os dados estatísticos e económicos. Para ver como era, há a "Crónica da Província", as notícias sobre a governação da colónia.
O INEP, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa da Guine-Bissau, é que mantém os direitos sobre esta publicação, por ser herdeiro do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa. Todos os números podem ser consultados na Biblioteca Digital em "Memória de África", criação da Universidade de Aveiro.

3 de junho de 2011

193- Comunicado Nº 1 das Forças Armadas da Guiné

«Grupos de indivíduos vindos do exterior e que se intitulam libertadores da nossa Guiné pretenderam assaltar, na madrugada de 18, o quartel da unidade esta­cionada em S. Domingos, mas puseram-se em debandada quando pressentidos.
Ao atacarem de novo o mesmo aquartelamento, na madrugada de 21 foram energicamente repelidos, tudo fazendo crer que os assaltantes sofreram baixas. Entre o nosso pessoal registaram-se ferimentos leves num sargento, em três soldados euro­peus, e num soldado natural da província.
Na madrugada de 24 perpetraram actos de vandalismo em Varela, destruindo completamente o mobiliário das casas existentes e cortaram as linhas telefónicas.
No dia seguinte, à noite, perpetraram novos actos de vandalismo em Suzana, onde incendiaram praticamente todos os edifícios de utilidade para a população, tendo destruído com requintes de malvadez todos os medicamentos existentes no edifício da Missão do Sono e destinados ao tratamento da população daquela área.
Destruíram também todas as fichas de tratamentos o que vem dificultando a continuação dos mesmos.
Nas acções de limpeza levadas a cabo por unidades deste comando na área dos assaltos realizaram-se batidas em pormenor e prestou-se auxílio às populações que sempre dispensaram o melhor acolhimento e manifestaram o seu desejo de perma­necer em paz.
O pessoal do serviço de saúde militar que acompanhou as tropas, prestou toda a assistência médica que careciam os doentes daquelas áreas.
Durante estas acções das nossas forças não houve qualquer baixa da nossa parte e não foram em nada molestadas as populações.
Todas as unidades deste comando reprimirão com a maior energia quaisquer outras acções desta natureza que surjam no nosso território.»


Segundo o Governador Comandante Peixoto Correia, que organizou uma manifestação "dos habitantes dos bairros populares de Bissau", estes exprimiram "a sua lealdade à Nação e a sua repulsa pelas incursões". Disse também que os régulos e notáveis da população tinham manifestado "alto sentido patriótico" não aderindo nem pactuando com os "invasores".
Notificou-se que o alferes de 2ª linha Mamadú Sanhá,de Begene, e régulo daquela área, "acompanhado de um grupo de habitantes" se deslocou a Bissau " a fim de solicitarem ao Governador da Província a necessária autorização para desmentir a atoarda divulgada através da emissora do Senegal pelos bandoleiros, que se intitulam nacionalistas, relativa a tumultos que teriam ocorrido na área do seu regulado".
Houve também no Cupelon uma "Juma Saló" (prece islâmica), orando "pelas prosperidades da Pátria e pelo futuro da Guiné, integrado na Nação Portuguesa".
Também em Bolama, Catió, e outros locais, houve manifestações de apoio ao Governador.
Por causa dos ataques ou como prémio pelo amor pátrio manifestado pelos guineenses, não sei, o Ministro do Ultramar publicou novas disposições legislativas, entre as quais a CONCESSÃO DA CIDADANIA A TODOS OS ELEMENTOS DA POPULAÇÃO (finalmente todos portugueses!!).
Houve a 5 de Setembro, por isso, grande manifestação na Praça do Império, em Bissau, reunindo "vários milhares de nativos com as autoridades gentílicas, oficiais de segunda linha e todos os elementos mais destacados da cidade, tanto metropolitanos como ultramarinos, vindos de todos os sectores da vida da Província".
 Falaram vários oradores sendo o primeiro o sr. Luís Ledo Pontes, natural de Bolama, que entre outras coisas disse:
«A Nação Portuguesa, desde as lonjuras da sua fundação, obedeceu ao caldeamento dos povos e isso serviu maravilhosamente de lição nas epopeias da Índia e no levantamento da África. A permanente insistência de estranhos, acalentando sórdidas ambições, em comentar e torturar as raízes fundas que nos entrelaçam, fundindo uma só Nação, está bem revelada nas características étni­cas de cada um de nós - os presentes - digamos bem alto! de todos os portu­gueses ultramarinos."
E a terminar: - “Portugueses de todas as raças e cores! Nunca é demais, prin­cipalmente em hora critica a que atentamente assistimos, repetirmos o nosso portu­guesismo, dispondo-nos à custa de todos os sacrifícios lutar em defesa da nossa posição na História Universal, da nossa civilização cristã e do nosso excelso patri­mónio nacional, para continuidade da imensa família portuguesa…”
Usou, depois, da palavra a menina Maria Odete Davies, aluna do 7.º ano do Liceu Honório Barreto, e por último a Sr.ª D. Alexandra Ribeiro Neves, natural de Cabo Verde, que recitou um patriótico poema da sua autoria.
Todos os oradores foram muito ovacionados e interrompidos com muitos vivas a Portugal. 
Também o Ministro do Exército, o brigadeiro Mário Silva, acorreu. Chegou a Bissau em 9 de Agosto e foi visitar S. Domingos juntamente com o Comandante Militar.

Extraído de Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XVI, nº 64, Outubro de 1961

Nota: Apesar de oficialmente a luta armada na Guiné ter começado em 1963, este foi o primeiro ataque do PAIGC (Abbott & Rodrigues, 1998). Segundo o "Crisis Group Africa Report N°142, 2 July 2007", Amílcar Cabral anunciou em 3 de Agosto de 1961 que o PAIGC tinha já começado as suas acções militares. Na altura havia só duas companhias de Infantaria na Guiné (Morris, 1974)



31 de maio de 2011

189-Os "portugueses" segundo o censo feito à "população civilizada" da Guiné Portuguesa em 1950

Baseado no censo à "população civilizada" realizado em 1950, o artigo de António Carreira publicado no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa (Volume XIV, nº 56 de Outubro 1959) é interessante para avaliar, mais uma vez, se os guineenses eram, na sua generalidade, considerados "portugueses".

Isto é, dos 510.777 habitantes que a Guiné tinha na altura  (segundo dados da Delegação da UE em Bissau), só 4.644 (Varões e Fêmeas) é que eram civilizados e, portanto, portugueses.
Na mesma óptica, refere ele, na página 550, que: «Só os naturais da Guiné expressam mais de 58,3% da população nacional [o sublinhado é meu], seguindo-se Cabo Verde com 21,4%, a Metrópole com 18,8% e as outras províncias com 1,3%».
Mais à frente:
Eram estes os "portugueses" nestas circunscrições. E refere que os libaneses representam cerca de 81,1% da população estrangeira. Já não eram muitos no meu tempo, mas sei que era assim. Tem outros quadros depois com o número de "portugueses" nas principais localidades de cada circunscrição. Refiro só as que, anos mais tarde, conheci:
- em Geba havia 8 (V e F) e em Barro havia 19 (V e F).
Significou que, nesta estatística de «civilizados», não contaram os muitos milhares de habitantes das inúmeras tabancas do mato. Esses não eram «civilizados», não eram considerados "portugueses".
Não eram preconceitos de António Carreira. Era a ideia oficial dos governantes das colónias, embora lhes chamassem já províncias.
Aliás, a certa altura, diz o autor do artigo: «Arrependi-me de fazer esta enumeração de problemas porque o leitor da Guiné, depois de a ler, dirá logo ao primeiro amigo que tudo isso é desnecessário (se não disser qualquer nome feio) porque sempre se viveu sem saber das condições de vida do preto e a Guiné progrediu sem isso e até porque desses inquéritos não resultará aumento de volume de negócios ou de riqueza material.»
E os problemas por ele levantados foram estes:
- saber dos movimentos migratórios da principal riqueza da Guiné, o seu nativo:
- o êxodo das populações rurais sobre as concentrações urbanas de tipo civilizado;
- a falta de trabalho ou de ocupação ou actividades dos destribalizados;
- as condições de vida dos aglomerados populacionais das zonas suburbanas;
- a prostituição;
- a influência do islamismo sobre as populações animistas;
- as dietas e orçamentos domésticos das populações rurais e suas condições de habitação;
- as possíveis influências das tributações na vida económica e social;
- etc, etc
Claro que nada disto importava a quem apenas queria explorar o que desse dinheiro na colónia.
Finalmente, para se ter uma ideia do grau de «civilização» dos inquiridos no censo:



188-Francisco da Costa Gomes, Subsecretário do Exército. Para a História.

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XIV, nº  56, Outubro 1959


11 de maio de 2011

154-Aspectos e tipos da Guiné - V

Do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XVI, nº 64, Outubro de 1961