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14 de maio de 2011

168-Lembrando as baixas

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
26 de Maio

Se já era difícil dormirmos alguma coisa no abrigo, mais difícil foi fechar os olhos nas valas. Passámos mais uma noite em claro, percebemos melhor as queixas dos que já habitavam no “metro” há mais dias, não conseguimos dormitar nem um cagagésimo de tempo. Quando rompeu o sol vimos que na palmeira pendia não só o cacho de dendém, mas um volume escuro e grosso, cheio de abelhas a entrar e a sair. Não é nada agradável conviver com favos àquela distância. Para já, ninguém se queixa de ter sido picado, talvez o dia se torne mais propício a uma soneca, estendidos no fundo da vala.

No fundo? Logo eu, que ainda em Gadamael ganhei complexos de me atirar para dentro de valas, sobretudo, à noite. Tinha acabado de sair do banho (que se tomava em balneários construídos com bidões, já perto do rio), de chegar ao meu quarto e me enxugar, a única roupa que tinha no corpo era um par de peúgas e nesse instante uma sentinela dispara uma rajada (teria dado por “saídas” de fogo IN e deu assim o alarme de flagelação), e mal tive tempo de agarrar na G3 e correr naquele estado para a vala mais próxima. Agachado, mas positivamente com o rabo de fora, passados instantes pressinto algo no pé. Apesar do lusco-fusco, vislumbro uma senhora cobra a roçar-se nos meus tornozelos, levando-me a esquecer os perigos das bernardas que caíam em redor e a pular para fora, naquela triste figura… Foram os soldados que ali se encontravam que, calçados com botas de lona, a mataram e atiraram para fora da vala. Como os rebentamentos continuaram, tornei ao interior da vala. Foi uma incursão breve, pois duas lombrigonas, filhotes da falecida, andavam no fundo aos pinotes…

Cedo nos confirmam o que já se esperava: a morte do furriel Fernandes. Um pouco mais tarde, sucumbe também devido aos ferimentos o soldado da CCaç 19, António Talibó Baio.


27 de Maio

Sou mandado chamar à secretaria. Sou, isto é, ninguém reclama o meu nome, querem é a presença do “mais-velho” graduado dos pelotões da CCaç 3518. Lá fui, não por ser “mais-velho” de nada, mas por ser o único dos seis graduados que vieram do COMBIS que ainda podia andar com relativa ligeireza. Um alferes (não me lembro de o ter visto antes, deve ser da CCaç 19) pede-me que mobilize quatro soldados que devem apresentar-se ali uma hora depois, para ajudarem a sulcar novas covas, pois o comandante decidiu mandar enterrar os defuntos que restavam na enfermaria. E repete-me as explicações que é possível dar: a situação é insustentável, não se prevêem evacuações, o cheiro já não se aguenta… Sim, é evidente que serão também sepultados os homens da minha companhia. E devo preparar uma secção que, tão ataviada quanto possível (os mais limpinhos e com camuflados menos rasgados?), irá prestar as honras militares durante o funeral, porém, sem salvas de tiros para o ar, para se evitar o charivari da cerimónia anterior com os camaradas pára-quedistas, e também para que o IN não contabilize de ouvido o número das nossas baixas.

Dói-me participar nos enterros do Machado, do Telo e do Ferreira, particularmente nestas condições. E não se sabe quanto tempo irá durar a débil respiração do Gonçalves. Meu caro, – advertiu o alferes, – é o que tem de ser feito e não há que hesitar. Apesar de compreendida, às primeiras impressões a solução não é bem aceite. Dizem-me os soldados em tom de revolta que fazem e acontecem e que levam os corpos às costas até Bissau, e por aí fora! Deixar os corpos em Guidaje é que está fora de causa. Mais tarde, conformam-se, alguns de lágrimas nos olhos.

À hora marcada, transportam-se os corpos para o local que, embora já conhecido por cemitério “provisório” de Guidaje, tem um número reduzido de sepulturas. De facto, não alberga a maioria das vítimas da batalha que travamos, nomeadamente os comandos tombados durante o assalto a Koumbamory, enterrados algures.

Os dez voluntários de Os Marados de Gadamael a quem dei refrescamento prévio de “ordem unida” já se encontram perfilados junto aos jazigos cavados durante a manhã, comigo à frente. Apesar da profunda tristeza, foi caricato ter passado o resto da manhã a treinar manobras com as G3 com estes homens, até que atinassem, e mal, com a posição de funeral-arma, difícil de efectuar devido ao maior número de movimentos de braços que é preciso efectuar. Haviam-na treinado uma única vez, na recruta. Quase dois anos depois e numa ocasião destas, a motivação para treinos de ordem unida também não é muita…

Outros homens, em especial os membros da companhia, concentram-se nas imediações para um último olhar, uma despedida dos camaradas que viram a vida ceifada pela morteirada filha da puta. Experimentem enterrar um irmão no quintal para perceberem o que isto é! Jazem neste quintal de casa alheia, logo adiante, os restantes corpos que já referi. Todas as campas têm espetadas em cima cruzes de pau, e já existem outras cruzes prontas para serem espetadas na vertical sobre os novos defuntos que, por agora, estão deitados no chão, embrulhados em panos de tenda, lençóis, penso que também em rolos de gaze e adesivos, cada qual frente à cova que não sabemos se será a sua derradeira morada. Chega o tenente-coronel Correia de Campos, pela posição em que me encontro, à frente dos soldados já perfilados, percebe que serei eu a gritar as palavras de comando e faz-me sinal com o pingalim para que inicie a cerimónia.

Grito “firme”, “sentido”, etc., até ao “funeral arma”! Faço continência ao comandante sem saber o que procedimento deveria seguir-se (já sabia que não daríamos tiro algum em honra dos tombados). O comandante murmurou algumas palavras de circunstância a rimar com pátria e nação, que estamos aqui para render homenagem a estes nossos heróis, mas as condições ditam que temos de ser breves, e manda avançar os dois africanos da CCaç 19 e os dois madeirenses da minha companhia (tenho ideia de que um deles era o Abreu, do meu pelotão), que em silêncio, neste caso, verdadeiramente sepulcral, da direita para a esquerda e um por um, começam a descer os corpos e a cobri-los com pás de terra.

Quero lembrar-me de outras imagens desses companheiros, mas vivos, como se fosse possível não arquivar na memória esta forma de os ver desaparecer sob as pazadas de terra. O primeiro a ser depositado é o corpo do Fernandes. O que pensar a seu respeito, se mal o conheci? Só o convívio recente, o rogar pragas à vida, o ter falado mais que uma vez da sua origem, da aldeia de onde é natural, – Carção, e por não sabermos onde fica nos explicar ser terra de almocreves e a capital portuguesa dos marranos (judeus convertidos à força) e que conserva as tradições dos “cristão novos”, como o pão ázimo, feito sem fermento e para ser comido durante a Páscoa judaica. Ficas aqui a dois passos do teu quase vizinho Geraldes, de Algoso. Será que chegaram a conhecer-se?

O soldado Manuel Geraldes, – o primeiro corpo sepultado na fiada de campas onde se encontram os três pára-quedistas, – era apreciado na freguesia de Algoso pelas qualidades pessoais, que deviam ser muitas, tal a saudade que deixou, não apenas entre familiares, conforme ficou demonstrado tantos tempo depois, quando o seu corpo foi exumado e trasladado até ao Vimioso. Ainda foi recordado ser um rapaz trabalhador, por ter um gira-discos trazido de França que ajudava a animar a juventude local do seu tempo, organizando bailaricos e puxando-a também para o futebol.

Segue-se o Telo. Até sempre, Telo! Por este andar, até breve, amigo! Também já não devemos resistir muito, a quantas mais morteiradas vão esquivar-se os nossos corpos? Já sentimos saudades tuas. Os teus familiares, esses, já as sentem desde que partiste de Paul do Mar, da fajã linda e sossegada que tantas vezes enalteceste, da salina antiga onde começaste a dar os primeiros chutos numa bola, da igreja que ajudaste a construir e onde foste sacristão. Adeus companheiro, para além do militar exemplar que te revelaste ao longo deste tempo em que caminhámos todos juntos, demonstraste perante nós uma atitude e uma educação invulgares. E foste o atleta que muitos de nós também gostaríamos de ser, – tão depressa, o União da Madeira não vai arranjar um substituto à altura para constituir o onze… Já não apanhas mais o barco até ao Funchal, capaz de regressares a casa só quinze dias depois, passados em treinos e jogos pelos pelados da ilha. Só assim se formam os verdadeiros atletas! Lembras-te, camarada, do belo Dia da Infantaria (14 de Agosto) em que, para queimar o tempo e animar as hostes em Gadamael, o capitão resolveu comemorar com uma mão-cheia de actividades desportivas e ambos fizemos parte da equipa de voleibol? Ganhámos que nem ginjas o primeiro lugar e limpámos o prémio das duas grades de cerveja à equipa de “Os Pipas”, – vinda expressamente de Cacine a bordo dos Sintex, –  e vingámos a derrota por 2-0 no futebol… E tu, – quem mais poderia ser? – ex-aequo com os furriéis Custódio e Almeida, ainda ficaste em primeiro no salto em altura… Por agora, Telo, ficas aqui, em solo africano. Podem dizer cobras e lagartos de que vieste para a Guiné fazer a guerra, mas tu há muito que combatias era pela paz no continente negro, há muito que enviavas donativos para ajudar as crianças de África, através das missões católicas em que militavas.

Passados dias será mandado um telegrama para a Fajã da Ovelha dirigido aos pais. Perante o remetente, já conhecido, nenhum carteiro o quis entregar, nem ler o conteúdo pelo telefone. A irmã do Gabriel Telo, mais nova dois anos (Gabriela) estava sozinha em casa e vieram chamá-la para ir atender um telefonema à mercearia. Era para levantar o telegrama na Fajã, para onde não tinha meios de se deslocar. Desconfiou que fosse algo relacionado com o irmão mais velho (eram cinco ao todo, três rapazes e duas raparigas). Lá conseguiria uma boleia e acabou por ser um outro irmão, ainda mais novo, quem foi buscar a notícia, que a todo o custo queriam ocultar à mãe, para adiar o desgosto. Mais tarde veio a mala e os pertences, gerando novas angústias e a revolta por nada mais haver a fazer, que o corpo já estava enterrado. Quem poderia imaginar que o mesmo corpo chegaria à terra 36 anos depois e que, a pedido da família, iria restar no mesmo local onde o pai, João de Jesus Telo, fora entretanto sepultado? “Agora ele está na sua terra!” A vida tem destas coisas. O Telo (e também um irmão mais velho) foi jogador no União da Madeira. Nesse tempo, os clubes pagavam a outros militares para que fossem mobilizados no lugar dos seus craques (o regime não se opunha a tais trocas, e nem protegia só os atletas, mas as gentes endinheiradas, cujos filhos, caso enveredassem por tal “modalidade”, ou não iam à guerra ou o faziam a cobro de especialidades não operacionais). No caso do Telo havia já um voluntário, só que este, à última hora, terá sido também mobilizado e a troca abortou. Era um homem bondoso. Quantos de nós, no regresso de férias da metrópole, nos lembrámos de trazer roupas “para os pretinhos”? Ele fê-lo! O destino existe? O Telo e os outros do seu pelotão, poderia nem ter ido parar a Guidaje. Seria o quarto pelotão a alinhar na malfadada coluna a (presumiam os soldados) Farim, mas como o respectivo alferes (António Francisco Lopes Monteiro) passou a ser o comandante interino da companhia devido à ausência do capitão, que estava de férias no Porto Santo, alguém entendeu ser preferível escalar os primeiro e segundo pelotões naquele dia de Maio de 1973.

Agora, caro João, és tu a descer à cova. Já estilhaços traiçoeiros te tinham ferido na estrada de Guileje (aquela mina maldita que ceifou a vida ao Raposeiro e que também feriu o soldado João Manuel Oliveira, do pelotão Fox 2260, em 7 de Agosto do ano passado). Foste evacuado para Bissau, depois para Lisboa e, tratadas as feridas, vieste cair de novo neste lamaçal. Pensar que voltaste há pouco mais de três meses à companhia para ficares agora neste estado? Que pôrra, Ferreira, também contigo somos levados a acreditar no destino? Já tinhas o teu quinhão, rapaz!

E tu, meu querido camarada e amigo Zé Carlos? Que grande partida te pregaram! Não lembra ao diabo que por vires trazer madeira para reordenamentos acabarias por morrer neste inferno, tu que te calhou em sorte teres o reordenamento como tarefa, o capitão não te mandou a Bissau para tirares o estágio há um ano e picos? Nunca, meu amigo, nunca te vi de verdadeiro mau humor, sempre cordial com toda a gente. Tanto que, quando azedavas, quando te fazias de zangado, ninguém te levava a sério. Nas nossas brincadeiras de garotos, digo bem, acordarmo-nos uns aos outros arremessando botas para cama alheia não é próprio de homens que andam na guerra, nem as camas à espanhola nem os baldes de água nos umbrais das portas, divertimo-nos imenso com estas e muitas outras brincadeiras de garotos. Tiveste sempre a habilidade de contabilizar mais partidas aos outros do que encarnares o papel de vítima. Taparam-te agora o rosto, embrulhado dessa maneira. Mas estou a imaginar por baixo da gaze o leve sorriso que sempre te vimos nos lábios, como que a dizer-me, desta vez, apanharam-me, fui eu que caí, mas na volta já vos fodo!

Também em Sá, concelho de Valpaços, a família do José Carlos Machado amenizou a angústia e o pesar trinta e seis anos depois. “Já o cá temos connosco”! Irmão, mãe e pai (com o qual, se bem me lembro, por circunstâncias da vida o Machado conviveu durante pouco tempo), todos em lágrimas, como se o Mundo estivesse parado ao longo desta eternidade, por uma incerteza, um enterro não resolvido. Em 1973, a notícia oficial chegou a Sá igualmente através de um telefonema para o posto público: os familiares andavam a tirar ervas de uma terra de batatas e foram obviamente apanhados de surpresa. É que, apesar de quem tinha lá fora os filhos e os maridos andar sempre com o coração em sobressalto, temendo o pior, restava sempre a esperança de que as desgraças que abalavam todas as localidades do país acontecessem só aos outros…

Embora ninguém mo tenha solicitado, memorizo a ordem por que ficam em repouso para elaborar e entregar mais tarde um croquis. O comandante do COP3 manda destroçar  e abandona o local quando o corpo do Machado desaparece sob a terra. Nada mais há a fazer e digo ao meu pessoal que pode regressar às valas onde “residimos”. A maioria não arreda pé tão depressa e deixa-se ficar a olhar as sepulturas, num último adeus. Dois soldados passam as armas aos parceiros do lado, ajoelham-se, fazem o sinal da cruz e rezam. Os camaradas que fazem de coveiros alisam a terra com as costas das pás e espetam as cruzes de pau improvisadas, que ali ao lado aguardavam o seu destino. Interrogo-me se e quando seriam resgatados os corpos destes camaradas?

Neste dia imaginei que quando a situação operacional estivesse normalizada fosse possível levantar as campas e transportar os féretros para Bissau e daí para os seus destinos (famílias). Mais tarde, a seguir ao 25 de Abril, pensei que antes da retirada da Guiné-Bissau, as autoridades militares acautelariam essa questão em devido tempo. Era a altura ideal, antes da passagem administrativa do poder para as novas autoridades. Depois ficou a incógnita, o território passou a ser um Estado independente e a burocracia e confusão das primeiras décadas de soberania só poderiam trazer dificuldades, tanto mais que a política externa dos governos portugueses, sobretudo nos anos 70, 80 e ainda 90, foi sempre uma lástima no tocante a cooperação, por motivos que são basto conhecidos e que não vêm à baila nestas páginas. Por que é que isso não foi feito (nem com estes nem com outros corpos sepultados nas antigas colónias), só quem lá esteve nessa altura poderá eventualmente ter explicações. Curiosamente, o BCaç 4512, – uma das unidades com mais vítimas mortais durante esta “crise” e a cuja primeira companhia pertencia o soldado Geraldes, um dos corpos a exumar, – comandado pelo tenente-coronel de infantaria António Vaz Antunes, foi quem “comandou e coordenou a execução do plano de retracção do dispositivo de desactivação e entrega dos aquartelamentos ao PAIGC, a qual foi efectuada no subsector de Guidaje, em 21 de Agosto de 1974”. Na perspectiva de uma qualquer iniciativa, coloquei a questão ainda nos anos oitenta durante um encontro/convívio de “Marados” em Lisboa. Há muito que tinham passado os cinco (havia quem dissesse sete) anos, tempo mínimo técnica e legalmente (?) para se poder proceder ao levantamento de ossadas. (Maria Lourenço, irmã do pára-quedista Lourenço da CCP 121, disse que recebeu a notícia da morte a 28 de Maio de 1973, e que lhe disseram que nada havia a fazer quanto a funerais, pois o irmão já estava enterrado e “só quando fizesse sete anos é que mandavam os ossos”). Por razões pessoais, eu vim a ter bom relacionamento com dirigentes do PAIGC e admitia ser bem sucedido para obter autorização do governo de Bissau com vista a desbloquear os procedimentos administrativos e tratar do assunto. Um dia, em Fevereiro de 1987, aproveitei uma conversa com Vasco Cabral (por coincidência, nascido em Farim e que, escapando por um triz à morte quando do assassinato do líder do PAIGC, viria a falecer muito recentemente, suponho que há dois anos) e pedi-lhe uma opinião sobre o assunto. Apesar de torcer o nariz ao precedente e de considerar que “mexer nos mortos é sempre complicado”, disse-me que nunca ninguém teria levantado essa questão, pelo menos que fosse do seu conhecimento, mas que as autoridades não deixariam de analisar e de encontrar a melhor solução para que os corpos sepultados em Guidaje pudessem voltar às suas famílias. Apesar do apelido e de estar na génese da criação dos movimentos de libertação nacional das ex-colónias, Vasco não tinha qualquer parentesco com Amílcar Cabral. Ambos, conjuntamente com Agostinho Neto e Mário de Andrade (angolanos) e Marcelino dos Santos (moçambicano), todos a viver e/ou a estudar em Lisboa, foram os dinamizadores das actividades da Casa dos Estudantes do Império, ao Arco Cego/Lisboa, integraram o MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática, ao lado de muitos anti-fascistas portugueses), entre outras façanhas que marcaram a nossa história política e cultural. No encontro de Marados em Lisboa, a minha proposta foi derrotada pelo argumento do reavivar desnecessário dos choques para as famílias e, democrata que sou, aceitei também o silêncio. A questão das famílias é argumento válido para muitas delas, mas não para a maioria, como se tem demonstrado. As famílias dos três pára-quedistas da 121, as do Telo, do Machado e do Geraldes viram com bom olhos as trasladações… Um funeral adiado só prolonga o sofrimento, a constrição, é um nó na garganta. O enterro, religioso ou não, consuma a despedida, encerra o ciclo. 

1 de abril de 2011

96-Os mortos da CART1690 em "Guiné-As Duas Faces da Guerra"

Diana Andringa vê os restos do monumento em Geba aos mortos da CART1690




Sobre isto escreveu este texto:

Mortos. Estes nomes não podem ser senão de mortos. Guimarães, ... ndo Fernandes. Carlos A. Peixoto .... ul C. Ferreira, ... ostinho Câmara, ... o Alves Aguiar, .. .ime M.N. Estevão, ... sé A. V. Sousa, ... tónio D. Gomes.
Tudo em redor, aliás, fala de morte. As paredes em derrocada do que terá sido um quartel português. As viaturas a apodrecer sob o intenso sol africano. Os cacos de garrafas de cerveja. (Bebidas para enganar o medo? Suspensas por arame para, tinindo umas contra as outra, despertar os que dormissem ainda?).
E esta pedra caída, tumular.
Vivos, apenas os meninos que se cutucam, sorrindo, a olhar para nós, estranhos fotógrafos deste cemitério de metal e pedra.
A outra pedra, de pé, tem nomes de cidades, vilas, aldeias: Lisbaa. S. Tirso. Moçâmedes. Alcobaça. Madeira. (Nas ilhas não haverá também povoações?) Ponte de Lima. Vila Nova de Ourém. Vila Pouca de Aguiar. Bissau. O tempo, ou a guerra, quebrou-­lhe a parte de cima, e agora é uma pirâmide truncada, rasgada do lado direito, onde se inscrevem as primeiras letras dos postos, ou dos nomes, dos naturais dessas terras, que presumimos mortos.
De novo a primeira pedra, a que jaz por terra. A frente dos nomes dos que se presumem ter morrido, inscrevem-se o que supomos serem as datas dessas mortes: 1967, 1968. A última, na pedra, não em tempo, sobressalta-me: 21 de Agosto de 1967. Fiz vinte anos nesse dia. Nesse mesmo dia morreu António D. Gomes. Teria feito, sequer, os vinte anos? Lembro-me de ter feito vinte anos. Das prendas dos meus pais. E pergunto-me como terão os pais do soldado António D. Gomes suportado a morte do seu filho. Se terão chegado um dia a conhecer este local onde uma pedra caída por terra assinala a data em que o perderam.
"Nós enterramos os nossos mortos nas nossas aldeias, ao lado das nossas casas ... Os portugueses deveriam ter, também, um lugar para honrar os seus mortos, os que morreram aqui, durante a guerra", dissera-me, algumas horas antes, um antigo adversário. Aqui. Tão longe de casa, tão longe dos seus. Longe de mais para que possam trazer-lhes flores, arranjar-lhes as campas, preservar-lhes a memória.
Olho de novo as pedras, tentando compreender como se juntavam. Será a que jaz por terra a continuação da outra? Releio as terras e os nomes. Câmara pode ser da Madeira ... Será mesmo? Sim. Lá estão em frente de Madeira o posto, sold., e as primeiras letras do seu nome: Ag ... -
Agora cada morto tem o posto e a terra onde nasceu, excepto o primeiro, que parece ser de Lisboa, mas cujo posto e nome próprio se perderam, e João Alves Aguiar, de Ponte de Lima, a que o tempo corroeu o posto. Dois alferes, um furriel, sete soldados. Em cima, fragmentado, aquilo que parece a indicação do regimento a que pertenciam: ... RAL-1 .
... Combate.
Postas assim as duas pedras em conjunto, apercebo-me de que o soldado que morreu no dia dos meus vinte anos era de Bissau, e de certa forma isso tranquiliza-me, porque não está, afinal, tão longe de casa- como se isso tivesse alguma importância depois de se estar morto, como se me tivesse contagiado essa lista de terras inscrita sobre a pedra, ou outras, sobre outras pedras encontradas ao longo da viagem, onde outros soldados, cabos, furriéis, escreveram como se a naturalidade fosse a sua primeira identificação e a mais forte, o nome da terra natal, primeiro, e só depois o posto, o nome, a data em que escreviam, por vezes uma frase de desesperança, algo como "até quando Deus quiser" - como que temendo que esse "até" fosse curtíssimo, coisa de poucas horas, minutos, talvez, e houvesse que inscrever urgentemente, sobre esses caminhos, placas, pontes, esse sinal de vida e de memória.
Parece estranho que alguém possa ter tido medo aqui, neste local tão calmo, com o tempo suspenso e o silêncio apenas cortado pelo ruído persistente das cigarras. É difícil imaginar, enquanto os meninos se agrupam à nossa volta, curiosos do que fazemos e olhamos, que em tempos houve aqui tiros e gemidos - e homens cumprindo a triste tarefa de escrever sobre estas pedras os nomes dos companheiros mortos.
Um pouco mais adiante, numa das paredes que ainda se mantêm de pé, alguém desenhou um rinoceronte e um leão. Tê-Ios-á visto realmente? Tê-Ios-á imaginado? Em frente, sobre uma paisagem aparentemente urbana de prédios e chaminés, voa uma ave. Uma gaivota? Uma pomba? Um símbolo de paz? Um piscar de olho a esse adversário que, a todo o momento, lembrava que a sua luta era "contra o colonialismo português e não contra o povo de Portugal'? E que, muito antes de disparar o primeiro tiro, advertira: ':4 via pela qual vai ser feita a liquidação total do colonialismo português na Guiné-Bissau e em Cabo Verde depende exclusivamente do colonialismo português. ( ... ) Ainda não é tarde para proceder à liquidação pacífica da dominação colonial portuguesa nas nossas terras. A menos que o Governo português queira arrastar o povo de Portugal para o desastre de uma guerra colonial."
"O desastre de uma guerra colonial". Legenda para fotografia de pedras com listas de mortos, veículos destruídos, quartéis em derrocada - e, contrastando, os sorrisos dos meninos a dar-nos as boas-vindas.
Todos os anos, pelo 10 de Junho - esse dia que o regime colonial-fascista celebrava como Dia da Raça, e em que condecorava, no Terreiro do Paço, os pais, as viúvas e os órfãos dos militares caídos em combate -, ressuscitam algumas vozes saudosas do Império, a criticar a descolonizaçáo e a independência das ex-colónias portuguesas. Fazem-no, muitas vezes, usando a memória dos soldados mortos na guerra colonial. Escamoteando sempre que essas mortes se deveram, exclusivamente, à intransigência de um regime incapaz de compreender a inevitabilidade das independências, e à teimosia de um homem que, nunca tendo posto um pé em África, cuidava saber, bem melhor do que eles, o que melhor convinha aos africanos.
Releio a lista de mortos sobre a pedra e pergunto-me se, vinte anos depois, não será tempo de aceitar, claramente, que foram esses os únicos responsáveis dessas mortes ...
...
Diana Andringa. Público. 10 e Junho de 1995.

6 de março de 2011

76-Fogo até ao osso

Foi durante a operação Inquietar I. Vi um soldado da CART1689 agarrado à perna direita, que estava a arder, e soltando gritos lancinantes. À volta dele estavam uns tantos, baralhados e sem saber que fazer.

Cheguei-me lá.
- "Ai, minha mãezinha! Ai, minha mãezinha", gritava o rapaz, desesperado. A perna direita das calças ardia e ele, na ânsia de apagar as chamas com as mãos, tinha-as já todas queimadas. Em dois dedos saíam dois ossos por entre a pele.
- "Tirem-lhe as calças", e olhei-lhe para os dedos. Horrível. "Água, dêem cá água".
Ninguém tinha, nem eu. Tínhamos andado na mata nesta situação, sem água nos cantis.
- "Vai dizer ao capitão que é preciso um heli", disse a um. Com as calças fora, vi-lhe a perna queimada, mas já não havia fogo. A dor era grande e ele continuava "Ai, minha mãezinha! Ai, minha querida mãezinha". Na tragédia e no desespero é o que está mais perto do coração de um filho. Sempre o protegeu, sempre o amparou, é ela que lhe pode valer.
Havia que fazer qualquer coisa. Não era o melhor,sabia, mas não havia outra alternativa. Tirei os pacotes de manteiga das rações de combate e barrei-lhe as pernas e os dedos. Seria um alívio.
E foi.
- "O meu alferes é tão bom", disse-me.
- "Como é que foi isto?",perguntei aos outros.
- "Rebentou uma granada de fumos que ele tinha no bolço das calças".
Veio um helicóptero e levou-o.
Na altura nem soube o nome dele. Fiquei a sabê-lo depois, muito mais tarde. Quando estive no QG da Região Militar do Norte, em conversa com o general Moreira Maia, que tinha sido o comandante da companhia do homem nessa operação. Lembrava-se disso.
- "Era o Banharia. Já o encontrei aqui no Porto. Tem uma data de cicatrizes nas mãos, mas está bem".
Falámos sobre essa operação Inquietar I, mas ele já não se lembrava de me ter enviado três vezes furar o cerco que o PAIGC nos fizera nas margens do rio Camjambari.
Lembramo-nos do que nos marcou. Do que foi marca para os outros não. Percebe-se.

24 de fevereiro de 2011

71-Mortos em combate da CART1690

Mas há também os que foram dados como "desaparecidos em campanha" mas que morreram de facto.

Croqui. Quando passei por Geba em 1998 já este monumento estava completamente destruído.
Fonte: História da Unidade CART1690

70-Mortos em combate da CCAÇ3 (antes 1ª CCAÇ)

A 1ªCCAÇ era uma unidade de guarnição normal, anterior a 1 de Janeiro de 1961. Em 27 de Outubro de 1966 foi colocada em Barro. Em 1 de Abril de 1967 passou a designar-se CCAÇ3.

a

Fonte: CECA - Comissão para o Estudo  das Campamhas de África

18 de fevereiro de 2011

66-...e ainda os "desaparecidos em campanha" e os mortos no cativeiro

Vou primeiro tentar recuperar lembranças das minhas aulas de Linguística na Faculdade de Letras de Lisboa, onde não acabei o curso porque “tens de ir para a guerra, não precisamos de gajos de caneta mas sim gajos com G3”. Claro que houve outros de caneta que não foram porque eram bem comportados, e eu não era, mas isso é outra questão. Foi o que me disseram numa repartição do Exército sita na Rua do Passadiço em Lisboa quando fui pedir o adiamento, não me lembro o seu nome mas sei que era perto da antiga sede do meu Sporting. Se vou dizer asneira, os meus queridos professores da altura que me perdoem, lá no sítio onde estiverem, não sei se há, pois já morreram todos. E mais perdão ainda peço ao Saussure, que também anda há muito mais tempo não sei por onde. 
A palavra, como símbolo material falado ou escrito, visa definir um objecto, um conceito ou uma ideia, por isso, quer significar algo, é um significante. Esse algo é o concreto, o definido ou o real que ela quer representar, é o seu significado. Assim, quando não se quer um determinado significado muda-se a palavra, o significante, para levar à ideia de outro objecto, em termos latos, de outro concreto ou outro real.
Neste aspecto, já antes reflectira sobre o uso de algumas palavras que o regime fez durante a guerra: acções de policiamento contra bandidos e terroristas”, não guerra, “retidos pelo IN”, não prisioneiros de guerra. Eram manipulações para outros significados, mas é claro que os pais choravam porque o filho “ia para guerra”, angustiavam-se porque o filho “está prisioneiro” dos terroristas, ninguém lhes falou em movimentos de libertação. Sentiam o significado real daqueles significantes oportunistas. 
Vem isto a propósito das expressões “desaparecido em campanha” e "desaparecido em combate”, sendo aquela a utilizada em todos os documentos das Forças Armadas. “Campanhas” de pacificação fizeram o Mouzinho de Albuquerque, em Moçambique, e o Teixeira Pinto, na Guiné. E nenhumas das “campanhas” deles tiveram 13 anos de duração. Posso, pois, ser levado a pensar que a expressão “desaparecido em campanha”, a que era levada às famílias, serviu também como tentativa de encobrir que havia uma guerra. E não entendo que se dissesse “ferido em combate” e “morte em combate” mas não “desaparecido em combate”. Os americanos, por exemplo, sempre disseram guerra do Vietnam e desaparecido em combate. Ah, eles estavam fora da terra deles mas nós estávamos na nossa... lá havia uma guerra, aqui não. Talvez seja isso.


DESAPARECIDOS EM CAMPANHA

Pessoalmente não conheço outros casos de "desaparecidos em campanha"... então, a não ser estes, mas palpita-me que não serão casos únicos. Serão as únicas situações havidas? Não creio.
Na CART1690 foram dados como "desaparecidos em campanha" o alferes FERNANDO DA COSTA FERNANDES , o soldado AGOSTINHO FRANCISCO DA CÂMARA  e o soldado ANTÓNIO DOMINGOS GOMES. 
in "HISTÓRIA DA UNIDADE" da CART1690


Sabemos que "desaparecido" era o termo para designar, também, aqueles cujos corpos não se recuperavam, e podemos aceitar que assim fosse, dado que até podiam ter ficado no terreno, mas feridos. Mas, muito tempo depois, e acabada a guerra, os nomes destes homens deviam constar da lista dos mortos em combate na Guiné, porque assim sucedeu de facto. Mas não constam. 
Talvez as famílias se tenham já socorrido do novo ordenamento do Código Civil (estou a meter a mão em seara alheia, as minhas desculpas):
 "artigo 7º - Pode ser declarada a morte presumida, sem decretação de ausência: I - se for extremamente provável a morte de quem estava em perigo de vida; II - se alguém desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não for encontrado até dois anos após o término da guerra. Parágrafo único. A declaração da morte presumida nesses casos, somente poderá ser requerida depois de esgotadas as buscas e averiguações, devendo a sentença fixar a data provável do falecimento."
Se o fizeram, mais uma razão para que estejam oficialmente na lista dos mortos em combate.

O alferes FERNANDO DA COSTA FERNANDES morreu em Sinchã Jobel em 19 de Dezembro de 1967, durante a Operação Invisível. Diz quem fez o relatório desta operação:
"Começou também nessa altura o IN a fazer fogo com o Mort 82, com que abateu o alferes miliciano Fernandes; verifiquei que nessa altura já o Destacamento B tinha as seguintes baixas: Alferes Miliciano Fernandes, 1º Cabo Sousa, da CART 1742, e que estava a fazer fogo com a Metralhadora Ligeira MG-42, soldado Metropolitano Fragata e um soldado milícia que não consegui identificar, além de vários feridos. Procurei trazer o alferes miliciano Fernandes para a retaguarda e quando o puxava pelos pés, fui surpreendido por um grupo IN, que corriam em direcção aos furriéis milicianos Marcelo e Vaz e em minha direcção gritando que nos iriam apanhar vivos. Note-se que neste grupo IN avistei elementos brancos os quais usavam os cabelos bastante compridos (a cobrir as orelhas), facto também confirmado pelos já citados furriéis milicianos. Devido a tal tive que abandonar o corpo do alferes Miliciano Fernandes e retirar."
Mas morreu também nesta operação o soldado
VITO DA SILVA GONÇALVES, que foi dado como "morto em combate" porque o corpo foi recuperado. Mas também não vem nessa lista! 
E porque é que não foi dado como "desaparecido em campanha" o soldado Metropolitano Fragata, o MANUEL FRAGATA FRANCISCOo, que também ficou nesta operação? É uma história das teias que o império tecia. Eu conto: ele foi crivado com uma roquetada nessa operação, mas vivo, e os guerrilheiros do PAIGC levaram-no numa maca, atravessando a mata do Oio, o rio Mansoa e o rio Cacheu, até ao hospital que servia o PAIGC em Ziguinchor, no Senegal, onde, coincidência, foi tratado pelo doutor Pádua, que se tinha passado para o outro lado. A PIDE sabia disso, claro. Parece lógico que se pense que teriam feito o mesmo com o alferes Fernandes se ele tivesse ficado vivo. Mas foi muito claro que estava morto.
O soldado AGOSTINHO FRANCISCO DA CÂMARA (e não Camará..., era açoreano) morreu também em Sinchã Jobel em 16 de Outubro de 1967, aquando da Operação Imparável. O mesmo relator disse assim:
"O nosso bazuqueiro (passe o termo) Soldado Agostinho Camará que estava a fazer um fogo certeiro, foi atingido mortalmente (note-se que este L.G.F. era o único que estava a fazer fogo). Foi o Soldado enfermeiro Alipio Parreira que se encontrava próximo e que estava a fazer fogo com a ML MG-42 (para a qual o referido soldado se oferecera como voluntário) pegar no LGF e continuar a fazer fogo com ele. Nesta altura tive que pegar na MG-42 e fazer fogo com ela. Logo a seguir tive que me dirigir à rectaguarda a fim de falar com o PCV que me chamava. Quando regressei à frente verifiquei o já referido soldado enfermeiro recomeçara a fazer fogo com a ML MG-42 que passado mais alguns momentos ficou impossibilitado de fazer fogo devido a uma avaria, ao mesmo tempo que o soldado enfermeiro e o municiador eram feridos por estilhaços.
"Atingido mortalmente" não quererá dizer que ficou morto? Com essa expressão a língua portuguesa não cometeu nenhuma traição. Ele morreu lá, de facto. Mas o relatório desta operação diz mais à frente:
"Ainda foram abatidos a tiro de G-3 2 elementos IN um destes pretendia agarrar o Soldado Armindo Correia Paulino".
 
E o soldado ARMINDO CORREIA PAULINO também lá ficou. Vem na História da Unidade como “retido pelo IN”, mas não foi assim, e, por isso, na lista dos prisioneiros libertados aquando da op. Mar Verde está como “não apresentado”. O que sucedeu é que, ele e o 1º Cabo Joaquim Pinto de Sousa, da CART1742, que também participou na operação, foram perseguidos até à outra margem do rio Gambiel e abatidos em Canhagina. Mas este consta na lista de Mortos da CECA como “corpo não recuperado”. O Paulino não.
No fim hei-de voltar a isto. 
O soldado ANTÓNIO DOMINGOS GOMES era um guineense de Bissau, do "recrutamento da Província", portanto, e era o guarda-costas do capitão da CART 1690. Sei que morreu às 8 horas do dia 21 de Agosto de 1967 na picada de Geba para Banjara. A mina da minha vida foi a mina que o fez em bocados, espalhado pelas árvores e pela mata. Eu e o meu guarda-costas, o Lamine Turé, ficámos feridos e o capitão, que quiz ir comigo nesse dia, também ficou muito ferido. Na esperança de ainda o salvar, fui rapidamente para Bafatá, onde havia o médico do batalhão. O Domingos Gomes lá ficou espalhado nas bermas da picada, e o capitão acabou por morrer. Não há relatório da ocorrência, por razões óbvias, mas eu vi e dei testemunho disso, assim como os que me acompanhavam. O Domingos Gomes morreu. Aplicar-lhe a ele "desaparecido em campanha" parece brincadeira de muito mau gosto.


É evidente que houve desleixo ou desinteresse dos responsáveis, que não fizeram os devidos e capazes processos sobre estas situações. A CART 1742 fez e o nome do Joaquim Pinto de Sousa vem naquela lista da CECA.


PRISIONEIROS FEITOS PELO PAIGC

Esta é uma situação gritante. Mas há outra, que é a dos prisioneiros feitos pelo PAIGC, os tais "retidos pelo IN", e que morreram no cativeiro na Guiné-Conakry. É o caso do soldado Luís dos Santos Marques, do soldado João da Costa Sousa e do soldado Manuel José Machado da Silva.
Estes dados tirei-os de um documento que falava dos prisioneiros libertados aquando da Operação Mar Verde:
- o soldado Luís dos Santos Marques, da CART 1690, aprisionado em Cantacunda em 11 de Abril de 1968, "não compareceu entre os libertados", dado como "morto no cativeiro", dizia. E está confirmado pelos seus companheiros de prisão. Segundo uns, morreu de malária; ou, segundo o major piloto-aviador António Lourenço Sousa Lobato, depois de levar uma tareia dos seus carcereiros;
- o soldado João da Costa Sousa, da CART1690, para onde fora em rendição individual a 19 de Agosto de 1967, e também aprisionado em Cantacunda em 11 de Abril de 1968, também "não compareceu entre os libertados", não havendo mais indicações;
- o soldado Manuel José Machado da Silva, não sei de que companhia era (sei só os que eram da CART 1690), também "não compareceu entre os libertados", e é dado como "morto no cativeiro".
Quer dizer que há dois sobre os quais se tem a certeza que morreram prisioneiros. Porque não constam os seus nomes na tal lista? Inadmissível também. Não há razão.

17 de fevereiro de 2011

65-...e aqueles que nem no caixão regressaram.

OBS:
Haverá, com certeza, algumas, penso que poucas, imprecisões ou algum erro, resultantes de uma deficiente recolha que possa ter havido. De qualquer modo, penso que dá uma imagem perfeita de todos aqueles que lá ficaram, sem que as suas famílias tenham podido recuperar os corpos. Para os recuperar eram exigidos aos familiares 50.000§00. Muito dinheiro para a altura, muito poucos puderam. Só nos últimos anos o Estado de encarregou dos transportes.
Os corpos que a Liga dos Combatentes recuperou há pouco de Guidage eram de pára-quedistas, portanto da Força Aérea, na altura da guerra. Não estão nesta lista, onde só estão os do Exército.

(Fonte: CECA - Comissão para o Estudo das Campanhas de África)






















64-Número de militares portugueses mortos e com feridas permanentes resultantes da guerra colonial na Guiné

Dados colhidos junto da CECA (Comissão para o Estudo das Campanhas de África)







E mais os feridos permanentes que se podem ver nesta tabela:


in “Guerra Colonial”, de Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes (Editorial Notícias, 1972)

17 de janeiro de 2011

39-Novamente no mato

Apresentei-me na Repartição de Pessoal do QG de Bissau. Disse-me o capitão que lá estava, não sei o nome, nem quis saber:
- Você vai ser colocado na CCAÇ3 que está em Barro, ao pé do Senegal. É uma companhia do recrutamento da Província.
Abri a boca de espanto.
- Mas, meu capitão, eu vim do hospital da Estrela. Não estou em condições de ir para uma companhia operacional.
- É pá, o chefe da Repartição decidiu assim. Há um alferes de lá que teve de ir para o hospital e tem de ser substituído urgentemente. Tem de ser.
- Mas eu estou à rasca dos ouvidos. Como é que vai ser?
- Paciência, nosso alferes. Amanhã, logo de manhã, sai uma DO para levar os frescos e o correio e você vai nela. O capitão de lá já sabe.
Estava feito. Que fazer? Nada, não pude fazer nada. Apenas ficar furioso e desforrar-me nuns whiskys no bar de oficiais.
Na manhã seguinte lá parti nesta do-27, que acabei por ver outras vezes, quando ela aparecia lá em Barro.


Vi, pela primeira vez, a paisagem aérea da Guiné. Quando o piloto me disse que sobrevoávamos o rio Cacheu perto de Barro tirei umas fotografias. 


Nunca tinha visto nada assim. O rio pequenino a serpentear com as bolanhas largas por companhia, a imagem longínqua das matas cerradas, eram uma sensação de maravilha e admiração pela natureza, incutiu-me um sentimento de sossego e paz, e também de domínio. Diferente das emoções que já sentira lá em baixo, ao virar apreensivo as curvas do rio Geba, ao atravessar receoso o rio Gambiel, ao calcorrear as matas à volta de Sinchã Jobel e do Oio. Ao ver e sentir a morte.
- Estamos a chegar.
O piloto avisou-me. Estava ali a pista.


Deu mais umas voltas para apontar a aterragem. Este é o quartel, disse-me ele.


Esta fotografia deu-me alguns problemas mais tarde. Quando o rolo veio da Foto Iris já revelado, o capitão Olavo quis confiscá-la, porque era perigosa se caísse nas mãos do IN. Deu-me para rir. Perguntei-lhe se ele achava que eu, que tinha sido ferido e quase morrido por acção do IN, estava feito com ele. Não sei se o convenci ou se lhe prevaleceu o bom senso. Garanti-lhe que era uma recordação minha que ia ficar guardada dentro da mala debaixo da minha cama.

14 de janeiro de 2011

38-Novamente para a Guiné

Passados oito meses, quando fui ao tratamento no hospital diz-me o otorrino:
- Então como está? Já não tem os tampões nos ouvidos há muito tempo. Como é que se tem sentido?
- Mais ou menos.
Dos estilhaços já só tinha as cicatrizes para me lembrar. Mas dos ouvidos era mesmo mais ou menos. Não tinha dores nem incómodos de maior, mas sentia que não era o mesmo, que tinha perdido parte da audição.
- Olhe, amanhã a esta hora, tem de vir cá para ir a uma junta médica. Vão decidir o seu futuro.
- E qual vai ser, doutor?
- Não sei. Isso é com eles.
- Mas acha que eu estou em condições?
- Não me compete a mim, nosso alferes. A junta é que vai dizer.
Mais nada.
No dia seguinte fui à junta médica. Era um coronel e um tenente-coronel. Mandaram-me sentar à frente deles. O coronel puxou duns papéis, devia ser o meu processo, Folheou-os e olharam os dois para eles.
- O ouvido esquerdo tem 10% de incapacidade, no direito tem 20%. Está apto para todo o serviço.
O tenente-coronel abanou a cabeça que sim. Levantaram-se.
- Vá apresentar-se no Depósito Geral de Adidos.
Mais nada.
Fui para o Depósito Geral de Ardidos, na Ajuda. Ao fim de dois ou três dias, não sei bem, meteram-me nas mãos uma Guia de Marcha para embarcar no Uíge, também não me lembro em que dia exacto, só sei que foi nos primeiros dias de Maio, era para me apresentar no Quartel-General do CTIG (Comando Territorial Independente da Guiné).
Fiquei mesmo a arder. Queriam que eu fosse acabar a comissão na Guiné, mas, sabendo o que já sabia, não me agradava nada. Da primeira vez ainda fui embalado na ignorância, mas agora não, já conhecia bem como que era. Ainda pensei dar o salto para França. Pensei, pensei muito. E lembrei-me do que me dissera o Norberto no Comodoro e fui falar com o seu substituto naquele grupo de conspiradores. Convenceu-me que era melhor não desertar, que havia trabalho a fazer na Guiné. Disse-me mais:
- Tens Guia de Marcha para o QG do CTIG, não é? Ali é que é porreiro, não vais para o mato e podes trabalhar muita gente no sítio ideal.
Convenceu-me. Mas concluí mais tarde que ele não percebia nada dos mecanismos de funcionamento da tropa.
E embarquei no Uíge para a Guiné. Pela segunda vez.

UÍGE

Não era nada como no Ana Mafalda. Como não ia integrado em nenhuma companhia, era só dormir, comer, jogar às cartas, apanhar sol. Ia um grupo de gajos em rendição individual. Foram bons parceiros.
Eu sou o de livro debaixo do braço. Não me lembro dos nomes dos outros. Só do Almodôvar, que me parece o do lado esquerdo do tenente-coronel.
Grandes comesainas! Sou o terceiro a contar da direita.

Foi uma viagem magnífica.