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15 de março de 2012

416-Os Donos do Chão





Mamadu Camará é o régulo de  Cadique Nalu. Aos 39 anos, recebeu a pesada herança de suceder 
ao seu pai, Aladje Salifo Camará, falecido em Janeiro de2011. Salifo era conhecido como 'o rei dos Nalus', etnia que vive no sul da Guiné-Bissau há vários séculos. Homem de extraordinária 
sabedoria, Salifo era um dos mais respeitados régulos da região de Cantanhez.
Com a sua morte, os irmãos mais velhos de Mamadu decidiram que seria este jovem agricultor a suceder ao pai. Apanhado de surpresa pela decisão, Mamadu aceitou o cargo. O filme pretende mostrar o seu percurso antes da cerimónia de 'empossamento', e a sua nova vida como líder da comunidade
As filmagens começaram em Maio de 2011 e a equipa vai voltar à Guiné-Bissau em 2012 para continuar a rodagem do documentário.




Os Donos do Chão - teaser01 from Pedro Mesquita on Vimeo.

Nota de intenções
Mamadu Camará é um jovem régulo, num país em que as lideranças tradicionais estão a perder o seu lugar, tanto em termos simbólico como de efectivo exercício dopoder. A sua história é um exemplo do tempo de mudança que se vive no país. Após a independência, em 1973/74, o novo Estado reprimiu a acção dos regulados, por serem vistos como um legado do colonialismo português, mas houve depois um movimento de reabilitação dos poderes tradicionais. O poder central decidiu apoiar os regulados como forma de governação de populações habituadas a viver com escassos apoios de Bissau, mas hoje a influência dos régulos tem vindo a perder força.
Mamadu Camará vive em Cadique Nalu, uma tabanca do sul da Guiné-Bissau integrada no Parque Natural de Cantanhez. É uma zona de terras férteis, em que a agricultura e a pesca são as actividades primordiais. As várias espécies de animais quevivem no Parque atraem investigadores de todas as partes, sobretudo pela presença de populações de chimpanzés.
Tal como a generalidade da Guiná-Bissau, a região de Tombali, onde se situa o parque natural e a tabanca de Cadique Nalu, é um mosaico de etnias e religiões diversas. Os Nalu, oriundos da actual Guiné-Conacri, foram dos primeiros a instalar-se. A família de Mamadu estabeleceu uma longa linhagem de líderes carismáticos, que permitiu que diferentes povos se instalassem e prosperassem antes e depois da colonização europeia. Hoje, passada a guerra colonial e o conturbado período da construção de um novo estado independente, as autoridades tradicionais lutam por manter a sua importância. Importa realçar também o papel dos 'homens grandes' – os velhos que são a memória viva das comunidades. Pilares da coesão social e da cultura ancestral do seu povo, estes homens guardam os segredos dos irans, os misteriosos espíritos da floresta. Os Nalu conciliam a religião muçulmana com cultos animistas, feitos de cerimónias misteriosas e muitas vezes secretas.
O filme a que nos propomos pretende mostrar o caminho de Mamadu Camará antes e depois de assumir o cargo de régulo de Cadique. Traçamos ainda os retratos de outros líderes tradicionais da região, dos 'homens grandes' e das populações do sul da Guiné. Acompanhamos o dia-a-dia de agricultores e pescadores, numa terra muito rica em produtos agrícolas, mas em que o isolamento ditado pela falta de vias de comunicação impede um desenvolvimento económico que melhore as condições de vida das populações

Agradecimentos ao Mário Beja Santos e ao Carlos Vinhal por darem a conhecer isto, e também aos autores do sítio de onde extraí, com a devida vénia, os textos e o video (http://donos-do-chao.info/).

5 de março de 2012

406-A morte de Nuno Tristão


«O Chefe de Posto António Baptista Morais Trigo enviou-nos para apreciação uma curiosa lenda que acaba de recolher entre os nalús de Cacine, e que também corre entre os de Boqué, no território francês por onde passa o rio Nuno.
Essa lenda, que os indígenas dizem vir-se transmitindo de pais para filhos através de muitas gerações, narra a chegada de uma caravela portuguesa ao rio Nancheribá e os sucessos que aí ocorreram e explica a razão da mudança de denominação do rio para Nuno.
O chefe de posto Morais Trigo entende ser essa lenda motivo sufi­ciente para demonstrar que Nuno Tristão foi morto no Noncheribá.
Em nosso juízo parece-nos o assunto bem mais complexo. Se algum dia o pudermos fazer, investigaremos no local o que os indígenas dizem de modo a discernir o grau de crédito que tal lenda merece. Podia, por exemplo, ter sucedido que ela se formasse muito depois dos acontecimen­tos e em consequência da influência dos civilizados, facto que, a dar-se, não seria único.
De qualquer maneira, a dar inteiro crédito à narração indígena, ela não vem provar que Nuno Tristão atingiu o Nancheribá. O próprio chefe de posto Morais Trigo nos confessou que os nalús não falam em Nuno Tristão, mas simplesmente, em Nuno, e que a identificação com aquele navegador é ilacção sua. Por isso, e por serem complementarmente diver­gentes dos de Zurara os pormenores do que se passo no rio, seria mais lógico deduzir que se traia de um navegador diferente, possivelmente com o nome de Nuno também, como já aventámos no nosso trabalho publicado no primeiro número deste «Boletim». Seria portanto esse i.gno­rodo Nuno quem teria descoberto o Noncheribâ, encarregando-se depois a lenda de confundir a sua morte com a de Nuno Tristão.
Dado, porém, o seu evidente interesse, publica-se seguidamente o escrito do chefe de posto Morais Trigo.
A. TEIXEIRA DA MOTA.

Lemos com grande interesse no «Boletim Cultural da Guiné Portu­guesa» um trabalho largamente documentado da autoria do senhor Te­nente Avelino Teixeira da Mota [ver aqui], em que o digno investigador esclarece de modo impecável que Nuno Tristão não podia ter terminado os seus dias no rio Nuno nem nas suas proximidades.
Nós somos alheios às artes de navegar nem podemos consultar doutos tratadistas e modernos compêndios. Não é portanto nossa intenção ofuscar tão exaustivo estudo. Apresento, assim, este trabalho com singeleza e des­pretensão, desejando somente que a morte do grande navegador, do herói magnífico, do palpitante marinheiro e do audacioso português seja dis­cutida por quem tenha competência.
É certo que não temos documentos escritos de peso e parece-nos também que os cronistas e escritores posteriores tiveram carência de elementos relativos ao facto. Por isso surgiram opiniões e controvérsias, e finalmente se pretende negar o que cinco séculos de história e de tra­dição disseram ao pais e ao mundo, isto é, que Nuno Tristão foi morto pelos nalús no rio «Nancheribá» - depois rio Nuno.
Nós, por enquanto, aderimos espontaneamente à tradição ininterrupta de pais para filhos, fonte de história digna de fé, com cinco séculos de existência. A tradição é a voz do povo e esta é a voz de Deus: «voz populi, vox dei». Por ela me guio e ela me basta. Conhecendo-a, acho-a suficiente para escrever algumas palavras incultas, a fim de transmitir aos leitores o remexer sagaz e fecundo da acção de um povo. Este trans­mite a verdade. Não vem nos livros, porque podem estar mal feitos, por motivos vários; não vem nos mapas, porque podem também estar errados por razões idênticas; mas encontra-se em cinco ou seis gerações, nas quais não houve indisposições nem deturpações dos cronistas, que tantas vezes aumentavam ou diminuíam 'os acontecimentos a seu talante por causas estranhas. A tribo nalú não sabia escrever e ainda hoje poucos o sabem fazer; por isso não pode ter sido influenciada por escritos de qualquer natureza ou nacionalidade. No entanto, exige a lógica das coisas, que as suas palavras narrativas não fiquem vibrando no ar sem se transforma­rem em escrita. E, de resto, as suas afirmações não são intermitentes.
O que dizem os indígenas nalús, que hoje respeitam a bandeira por­tuguesa e a francesa? Simplesmente o seguinte:
A caravela de Nuno Tristão, vinda do mar, entrou no rio Nanche­ribá e encalhou pouco depois perto da povoação de Tassequene; o intré­pido navegador, com alguns tripulantes, entrou no batel, continuou a na­vegar no rio referido, e bastante mais acima sentiu falar na margem esquerda, vendo gente momentos depois. Como havia um riacho de cerca de duzentos ou trezentos metros de comprido nesse local, entrou nele e foi até ao lugar, porto da povoação de Sógóboli, termo derivado da pala­vra nalú «insóbole» que significa cobra grande e muito venenosa. A gente, admirada de ver brancos, tinha fugido para a povoação, a qual distava e dista do porto certa de duzentos metros; o caminho estava relativamente limpo como costumavam estar todos os que vão para os portos. Nuno Tristão, com os seus companheiros, seguiu a pé até Sógóboli; os nalús fugiam dele por ser branco, por não o entenderem e por desconfiarem que os brancos queriam levar pretos; apenas os velhos se conservaram na aldeia. Nesse dia nada sucedeu; Nuno Tristão e os seus companheiros regressaram à caravela incólumes. No dia imediato, o audacioso mari­nheiro, com bastantes pessoas, foi novamente ao porto de Sógóboli e à tabanca, enterrou uma bola de chumbo, tendo antes metido no chumbo' não sabem ~ quê, e assentou-se no lugar aonde havia enterrado a bola, conversando com os companheiros. Momentos depois procuravam agarrar indígenas, estes fugiam, os navegadores teimavam em querê-los agarrar, e como se não entendiam por palavras começou o barulho; por último já queriam os brancos correr para o porto, tomar o batel e recolher ao navio, mas era tarde pois estavam feridos e alguns mortos, em conse­quência das azagaias, lanças, punhais, etc., estarem envenenados com sucos herbáticos e veneno da cabeça de réptis malignos (ex.: da cobra «insó­bole», que abunda naquela região). Os nalús continuaram a luta, quando estavam a entrar no bote e enquanto seguiam na direcção da caravela. De entre os mortos de terra, figurava Nuno Tristão, que foi sepul­tado próximo de um «poilão», onde nos revelaram que, ocultamente, faziam a cerimónia do Machol,
Quem seria o assassino do grande português? Foi um homem nalú de nome Samane, filho do chefe da povoação de Sógóboli. Dias depois dessa carnificina, o assassino foi nomeado chefe da aldeia e passou a chamar-se Samane-Mandapilon, que significa dono do Dapilom; Dapilom é palavra nalú, cujo significado é brilhante.
Assim a povoação de Sógóboli passou a designar-se por Dapilom; ainda hoje existe no mesmo lugar e continua a ser habitada por nalús descendentes dos assassinos de Nuno Tristão e dos seus companheiros.
E por nas proximidades do rio Nancheribá ter sido morto e sepul­tado esse Português de rija têmpera, o rio em causa começou a ser de­signado pelos indígenas pelo nome de Nuno.
Pelo exposto, concluímos que, de facto, o herói em foco foi morto pelos nalús na povoação de Sógóboli, hoje Dapilom, bem perto do rio Nan­cheribá e presentemente chamado Nuno pelos indígenas e civilizados. 
António Baptista Morais Trigo, Chefe de Posto, interino


Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume II, Nº 5, 1947