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13 de maio de 2012

479-A escola de Samba Culo


Região do Oio>Mata do Oio> Zona de Tambicó - Samba Culo
Este Banquinho da Nova Escola de Samba Culo, trazido em 29-03-2010 por Carlos Silva – ex-combatente, representa e simboliza a Escola de outrora existente algures na zona onde se deu a batalha aqui narrada e onde morreram vários combatentes, incluindo a Professora, guerrilheira do PAIGC
Foto Carlos Silva

 Fui mandado e disseram-me antes: Que é assim, vais ter que matar e até podes morrer, pode suceder, depende de ti.
Não me convenci disso, porque nunca na minha vida tinha querido matar alguém e nunca quis morrer, sempre desejei viver.
E, já lá na guerra, fui vendo alguns morrerem sem que quisessem, só porque tinham sido enviados para aquela operação, só porque os colocaram naquele posto ou naquela viatura, não dependeu deles.
Eu, como quase todos, disparei muito a G3 em operações e emboscadas, mas nunca soube se ficou alguém morto por mim no meio daquela mata ou atrás daquelas árvores. A maior parte das vezes nem os víamos.
Mas, naquelas operações “Inquietar” para tomar a base que o PAIGC tinha em Samba Culo [o comandante era Braima Bangura, que foi fuzilado por Nino Viera depois do golpe de 1980], verifiquei, infelizmente, que era assim como me tinham dito.
Foram duas companhias de intervenção e o meu pelotão, da companhia de quadrícula, foi-lhes agregado.


Região do Oio>Mata do Oio> Zona de Tambicó - Samba Culo, 29-03-2010
A nova Escola construída com o apoio do Padre Carlo Andolfi da Missão Católica de Farim
Foto Carlos Silva

 A “Inquietar I”, de 9 a 13 de Junho de 1967, não correu bem.

As primeiras emboscadas fizeram-na à companhia da frente. Dei indicação ao meu pelotão, que estava a meio, que entrasse pela mata para fazer um envolvimento.
Fui á frente e, a certa altura, disse-me o Lamine, meu guarda-costas, “estão ali turras”. E estavam lá. Apontei, sempre fui bom atirador, mas, horror em matar, apontei baixo e acertei na perna dum deles. Corremos, mas eles fugiram arrastando o ferido.
Complicada aquela mata. Foram três dias de marchas entre árvores e várias emboscadas. No terceiro dia encostaram-nos ao rio Canjambari. Dizendo-me o capitão comandante da operação:
Ó Lopes, tenho aqui os meus homens organizados, vá você ver se fura o cerco.
Lá fui, vi um e disparei, ouvi-o gritar “o cú” [não o matei pensei], mas levei porrada e voltei para trás.
Passado tempo disse-me para ir tentar novamente. Fui e de novo levei porrada, com a agravante de um soldado meu ter levado um tiro nas costas, dos do capitão, que também começaram a disparar.
Disse-lhe não vou mais, é melhor chamar os T6.
Vieram, despejaram umas bujardas à volta e lá nos safámos. 

A seguir, a “Inquietar II”, de 4 a 7 de Julho, com os mesmos.


Região do Oio> Zona de Tambicó-Samba Culo>Uma sala da Nova Escola, cujo equipamento utilizado é o que está à vista , 29-04-2009 Foto Carlos Silva

 Não foi diferente quanto às andanças na mata e às várias emboscadas, mas houve alguns feridos nossos desta vez.
O Comandante, ao terceiro dia, optou por nova táctica: deixar uma companhia a levar porrada a sul da base e, à socapa, a mata era cerrada, foi com a dele mais o meu pelotão para oeste, virando para norte e atacando pelo lado do rio Canjambari.
Entrámos de repente, o grosso deles estava entretido com a outra Companhia, havia lá três ou quatro que tentaram reagir mas foram abatidos pela Companhia, o meu pelotão entrou por uma barraca coberta de colmo.
Estava lá uma rapariga que agarrou numa kalashnikov.
Gritei-lhe “tá quieta, firma lá!”. Mas ela apontou-me a arma. Despejei-lhe uma rajada na barriga, caiu no chão.
Fiquei primeiro estático a olhar para ela, era bonita.
Virei-me, mandei a G3 para o chão e gritei furioso “Merda!”. Os meus soldados olharam para mim espantados. Um furriel disse-me: “Olhe que ela matava-o”
Havia várias carteiras, à minha frente um quadro preto com um desenho a giz branco de um vaso de flores. Por baixo tinha escrito, também a giz branco, “Um vaso de flores”.
Dei depois com o 1º cabo P… em cima da rapariga agonizante e a levantar-lhe o vestido.
Ainda a tremer fui-me a ele, dei-lhe um murro e uns pontapés:
“Eu dou cabo de ti, grande cabrão!” [coitado, o Gazela matou-o, mais tarde, em Sinchã Jobel].
Veio o Capitão, olhou para tudo, disse que era preciso ir fazer uma revista àquilo tudo, que os gajos tinham largado a outra Companhia, tinham-se pirado.
Vi o guia ao pé dele e perguntei-lhe se sabia quem era aquela rapariga que jazia ali no chão.
É a professora, Abess, disse-me ele.
Encontrámos muita coisa. Ao sairmos pegámos fogo a um armazém de munições, que esteve a rebentar durante vários minutos enquanto nos afastámos.
Aquela morte que sei, não me tem saído da cabeça……

 
Região Oio>Mata do Oio> Zona de Tambicó - Samba Culo, 29-03-2010. Foto Carlos Silva

 [Romagem do Autor em ficção ao trágico local] 

Ali estava ela, jovem e bela como a conheci há trinta anos, mas agora com um olhar calmo e um sorriso nos lábios, vi-a na expectativa do meu abraço. E abracei-a... e chorei.
Professora, este jovem é o Cinco, que me trouxe de jeep até aqui, e este é o Blétch Intéte, filho da siguê[1] dos balantas de Barro.
O outro teu patrício, homem-grande[2], é o Cacuto Seidi, chefe da tabanca[3] de Barro. Foi ele que me disse que o Blétch Intéte tem irã[4] e que só ele podia fazer com que eu te encontrasse.
A minha chegada aqui, há trinta anos, [1967] foi muito diferente, como deves calcular, e não me refiro, evidentemente, às razões de cada uma das viagens.
Desta vez, assim que pisei o aeroporto Osvaldo Vieira[5], tive de levar as mãos ao peito para que o coração não me abandonasse.
Por mais esforços, por mais conversas apaziguadoras, durante as quatro horas que durou a viagem, não consegui acalmá-lo nem convencê-lo de que era preciso dominar a ansiedade e moderar os desejos de ti.


Região do Oio>Mata do Oio> Zona de Tambicó-Samba Culo>Escola de Samba Culo, 18-03-2009
Eram assim, ou pior ainda, as escolas e casas de mato onde os guerrilheiros se acoitavam, nos anos 60/70 – Na Foto: Carlos Silva; Prof Calabus Ferreta e o Ussumane Seik, Comando DFA

Perdido, cego de alegria e paixão, chegara a hora da realização do sonho de vários anos, depois de desvanecidos todos os fantasmas, é claro, porque, quando saí daqui a primeira vez, evacuado para o hospital, este coração estava enraivecido com vocês todos, que me tinham ferido e matado amigos meus.
Passados nove meses, aqui voltei, para continuar na guerra, é verdade, ainda confuso mas já sem ódio e desejoso de entender o que se passava.


Região do Oio> Zona de Tambicó-Samba Culo>Local da ex-Escola de Samba Culo, 29-04-2010

Foi nessa minha fase, Professora, que nos conhecemos, quando dei contigo na tua escola de Samba Culo, naquela manhã de 7 de Julho.
Da segunda vez que abandonei a Guiné e deixei a guerra, a minha vontade e empenho foi esquecê-la, varrer-vos a todos da minha memória, lavar as marcas do sangue dos meus amigos, do meu próprio, e também do vosso, banir o medo e o cansaço que se me entranhara na alma ao percorrer as matas deste chão que, agora, vê lá!, reguei com lágrimas de alegria e de saudade consolada.
Para aqui chegar, frequentei bares e prostitutas, acumulei sessões contínuas no Olímpia[6], fui estudante mas nunca acabei cursos, percorri a Europa, estive em Paris, no Quartier Latin das minhas leituras, Londres, vi a Royal Guard e a rainha, Roma, não vi o Papa porque estava de férias em Castelgandolfo, e vê lá que me atrevi a passar a cortina de ferro, em Praga, Moscovo, onde namorei uma soviética na Praça Vermelha, a tchetchena Aniuska, Leninegrado e Kiev, fui activista sindical e militante político, participei em primeiros de Maio, fiz trabalhos clandestinos e levei porrada da polícia, dormi em esquadras, casei-me, fiz filhos e apanhei bebedeiras, bati nos filhos e descasei-me, conheci muitas mulheres, fiz amor por todo o lado, levei muitas negas e passei noites de solidão, dormi em bancos de jardim e debaixo de árvores, mas nunca te esqueci, não houve prazer-anfetamina que cauterizasse esta memória em carne viva nem bebida que a afogasse, cansei-me da vida, como me cansara antes para não morrer, e pensei em matar-me. Mas, olha, não consegui, não por causa de Deus, pois nesse período nunca fui à missa e nunca me confessei. Não o fiz porque tinha começado a amar-te e não queria morrer sem voltar a ver-te, sem deixar de to dizer.
Está a ficar noite e tenho três horas para chegar a Bissau.
Cinc, prépare le jeep, nous en allons tout de suite.
Sabes, professora, porque é que o meu condutor se chama Cinco?
Nasceu no dia 5 de Maio e é o quinto filho de sua mãe, que decidiu dar-lhe esse nome tão significativo.
Não, não te preocupes que ele não percebeu nada da nossa conversa, além do crioulo só sabe francês, pois frequentou apenas uma escola em Dakar.
É que, professora, nasceu há 23 anos, muito depois daquele dia em que tive de te abrir o ventre com uma rajada de G3 por te ver empunhar a kalash que tinhas pendurada no quadro da escola.
Ele não estava aqui entre os teus meninos. Se tivesse estado, saberia falar e escrever português, com certeza.
Sei que foste uma boa professora.
Vi que escrevias no quadro as palavras com o desenho correspondente para os teus alunos identificarem bem em português os objectos do seu dia-a-dia.
Vi os livros por onde aprendiam a ler.
vi os cadernos de redacção e de cópias.
Está descansada, não matei nenhum deles, garanto-te. Devem estar por aí, cidadãos do teu país.
Tenho de partir, de voltar a Portugal.
Gostei muito de falar contigo, tinha mesmo necessidade de o fazer, já que, naquele dia em que nos encontrámos pela primeira vez, só eu te disse “firma lá!”[7] e tu não me disseste nada. Percebo que nem me quisesses ouvir...
E nunca mais dormi descansado até agora.
Quero pedir-te uma última coisa, que desculpes aquele meu soldado que tentou violar-te quando estavas agonizante. Conseguiste ver ainda que não o deixei fazer isso. Perdoa-lhe, era bom rapaz, um camponês minhoto que para aqui foi lançado e, sabes, é fácil perder a cabeça numa guerra de inimigos fabricados. Talvez o encontres por aí, o teu camarada Gazela matou-o em Jobel e o corpo dele por cá ficou.Deve andar, como tu, no meio desta floresta do Oio.
Fala com ele agora.



[1] Feiticeira tribal
[2] Homem idoso, respeitável, aceite como autoridade pelos mais novos da povoação.
[3] Povoação.
[4] “Irã”, entre os balantas, que são animistas, é qualquer ser da natureza, árvore ou animal, ou qualquer objecto a que é atribuído poder mágico. «Tem irã» significa ter poder sobrenatural que é preciso respeitar e temer.
[5] Aeroporto de Bissau, a que foi dado o nome de Osvaldo Vieira, herói do PAIGC, morto durante a guerra de libertação.
[6] Cinema popular na Rua dos Condes, em Lisboa.
[7] Está quieta aí!

4 de janeiro de 2012

344-Operação Safira Solitária


Com a devida vénia e agradecimento ao Carlos Fortunato dos Leões Negros.

20 de Dezembro 1971 - Operação Safira Solitária realizada por duas companhias de comandos africanos na zona de Morés, Oeste da Guiné, com vários contactos com forças do PAIGC. Disse o Comunicado Especial do Comando-Chefe: 
“...Montada a operação, denominada "Safira Solitária", foi esta levada a efeito por unidades da força africana e teve início ao alvorecer do dia 20 prolongando-se até à tarde do dia 26 tendo as nossas forças sido guiadas na floresta por elementos das populações da área pertencentes à nossa rede de informações que conhecia a localização precisa das posições inimigas.  Apesar de colhido de surpresa o inimigo estimado em 6 bigrupos, 2 grupos armados de armas pesadas instalados em posições fortificadas e cerca de 333 elementos armados da milícia popular, opôs durante os três primeiros dias tenaz resistência acabando todavia por ser desarticulado e aniquilado, tendo sofrido 215 mortos confirmados, entre os quais três cubanos, e alguns mercenários estrangeiros africanos, 28 capturados, além de apreciável número de feridos.  Segundo declarações dos capturados, encontravam-se na área pelo menos mais 4 elementos cubanos.  Verificou-se que o inimigo estava implantando no Morés um sistema de fortificação de campanha do qual se destacavam espaldões para armas pesadas e abrigos subterrâneos para pessoal.  Os grupos de guerrilha, pela resistência que ofereceram revelaram uma sensível melhoria de enquadramento e uma técnica mais avançada de guerra de posição.  No decurso da operação foi capturado o seguinte material: 1 canhão sem recúo B-10, 2 morteiros de 82 mm, 2 morteiros de 60mm, 3 metralhadoras pesadas Goryonov, 7 lança-granadas RPG-7, 14 espingardas automáticas Kalashnikov, 38 espingardas semi-automáticas Simonov, 8 espingardas Mosin Nagant, 14 pistolas metralhadoras PPSH, além de avultado número de armas de repetição, de cunhetes de munições, fitas e carregadores, destruídos no local por desnecessários. As nossas forças sofreram 8 mortos, 12 feridos graves e 41 feridos ligeiros." 
Amadu Bailó Djaló alferes da 1ªCompanhia de Comandos Africanos, conta que o seu grupo não participou no inicio da operação, e quando se juntou aos restantes comandos, estes estavam concentrados na zona dos cajueiros do Morés, que era perto da barraca central. Quando lá chegou começava a anoitecer, e apercebeu-se que já estavam ali desde o meio-dia, pelo que alertou para o perigo que isso representava, mas responderam-lhe, que se atacassem era bom, era maneira como lhe apanhava-mos todas as armas, pois estavam ali 200 comandos. 
Quando a noite caiu, o PAIGC  atacou, um violento e certeiro bombardeamento de morteiros, provocou de imediato muitos feridos, e uma fuga precipitada para outra posição, lançando a confusão. 
"Tivemos que fugir rapidamente para outra posição, pois as granadas caíram mesmo em cima de nós. mas depois regressei novamente ao local onde tinha estado, dado ter deixado lá a minha arma."  
Quando procurava a arma, uma voz chamou-o, era um soldado ferido, disse-lhe que estava ferido nos pés, como estava muito escuro, apalpou-lhe os pés para ver como estavam, eram uma massa de sangue, foi chamar o enfermeiro.  O enfermeiro chamou-o à parte e disse-lhe que não havia nada a fazer, ele iria morrer durante a noite, pois iria esvaziar-se em sangue até de manhã, altura em que poderia ser evacuado.
“Amadu voltou para me juntar ao meu grupo, mas no caminho chamaram-no novamente, era outro soldado ferido”.  
Estava ferido numa perna, parecia que tinha um tendão cortado, mas não teve tempo para o ajudar, a resposta dos comandos africanos ao poder de fogo do PAIGC revelava-se insuficiente para deter, e este avançava rapidamente no terreno, ao assalto às posições dos comandos, pelo que lhe disse voltaria para o vir buscar (quando lá voltou tinha sido morto pelo PAIGC com um tiro na cabeça). 
Amadu juntou-se ao seu grupo, e recuaram novamente, inicialmente queriam recuar para a zona das bananeiras, que era um local escuro e que dava alguma protecção, mas a Amadu pareceu-lhe demasiado óbvio, e disse para recuarem para o meio do capim, local com pouca protecção. 
"O PAIGC bombardeou com morteiros a zona das bananeiras, suspeitando que nós estávamos lá, e passou perto de nós da zona do capim, gritavam: "Cú, Cú", "Comando",  "Aparece se és homem", mas ficamos calados." - comenta Amadu.
Os confrontos pararam, pois conseguiram não ser detectados, e ao amanhecer deslocaram-se para uma zona, onde pudessem evacuar os feridos, mas ai receberam ordem para regressar, e o assalto à barraca central nunca se efectuou.
Quebá Sedi combateu desde 1963 até 1974, foi chefe de um bigrupo no Morés, e lembra-se bem da operação ocorrida em Dezembro de 1971, em que a tropa veio passar o natal com os combatentes pela liberdade da pátria. Segundo as suas palavras, o que se passou foi o seguinte: 
“Primeiro veio uma avioneta que andou a sobrevoar a mata, depois durante 13 dias, bombardeiros, helicópteros, e os canhões do Olossato, Bissorã, Cutia e Mansabá, bombardearam de dia e de noite o Morés. No fim dos bombardeamentos, devem ter pensado que estava tudo morto, e helicópteros trouxeram as tropas, que largaram em várias zonas, à volta do Morés.  Os combatentes fizeram-lhes duas emboscadas, mas depois perderam-lhes o rasto, muita gente pensou que se tivessem ido embora, pois não de ouvia nada. As tropas tinham-se reunido no Morés, na zona dos cajueiros, muito perto da barraca grande do Morés, era véspera de Natal, e era sua intenção atacar a barraca grande do Morés, no dia seguinte, pelo que passaram aqui a noite.  Um homem grande detectou o brilho de um cigarro, de um soldado que estava de pé a fumar, com a arma ao lado, e foi avisar os combatentes da barraca grande. O comandante da barraca grande era Abu Ladja, mas existiam ali outros comandantes como Lamam Sisse, Dique Daringue, e outros. Gerou-se alguma discussão se era mesmo tropa que estava ali, pois não queriam ir bombardear a população, uns diziam "É tuga", outros "É cá tuga". Dique Daringue foi encarregado de investigar, e os combatentes levaram 2 morteiros 60 e 2 morteiros 82. Dique Daringue para ter a certeza de que era tropa mandou disparar uma rajada, em resposta ouviu-se falar português, eram "tugas", e abriu-se fogo. As tropas tiveram muitos mortos e feridos, foram apanhadas muitas armas e um rádio. As tropas também conseguiram apanhar algumas armas, pois dias antes tinham encontrado em Bongontom uma arrecadação com armas velhas, e outra com armas novas no Morés".

(Publicado em 21/05/2006, e revisto em 1/08/2007 por Carlos Fortunato, http://leoesnegros.com.sapo.pt/ )

13 de julho de 2011

220-Operação Tridente

Começou no dia 15 de Janeiro de 1964 e visava desalojar a guerrilha das ilhas de Como, Caiar e Catungo. Na véspera, a artilharia portuguesa instalada em Catió flagelou longamente o norte dessas ilhas. Para enganar, porque a entrada das forças portuguesas começou pelo sul.
INTERVENIENTES (1.100 homens no total):
- Comandante - tenente-coronel Fernando Cavaleiro.
- Agrupamento A, comandado pelo major António Romeiras, constituído por: Companhia de Cavalaria 487, do capitão Rui Soeiro Cidrais; Destacamento de Fuzileiros Especiais 7, do primeiro-tenente João Ribeiro Pacheco; Pelotão de sapadores.
- Agrupamento B, comandado pelo capitão Ferreira, constituído por: Companhia de Cavalaria 488, do capitão Manuel Arrabaça; Destacamento de Fuzileiros Especiais 8, do primeiro-tenente Alpoim Calvão; Pelotão de sapadores.
- Agrupamento C, comandado pelo capitão Cabral: Companhia de Cavalaria 489, do capitão Pato Anselmo; Pelotão de sapadores.
- Agrupamento DDestacamento de Fuzileiros Especiais 2, do primeiro-tenente Faria de Carvalho.
- Agrupamento E: Companhia de Caçadores 557, do capitão Aires.
- Outras forças: um pelotão de pára-quedistas (o Pelotão 111 foi rendido a meio da operação pelo Pelotão 222 que, mais tarde, foi rendido pelo primeiro); Pelotão de morteiros do Batalhão de Caçadores 600; Grupo de 20 comandos; 73 carregadores indígenas; 10 guias de etnia fula.  
Desembarque da Companhia de Caçadores 557 em Caiar
Lancha de desembarque, na manhã de 15 de Janeiro de 1964, ao largo do Como
Desembarques, acessos difíceis, violentos combates
- dia 15 de Janeiro, às 8h30 - desembarcam o DFE7 para Caiar e o DFE8 para Como, a fim de estabelecerem testas de ponte para o desembarque, quarenta e cinco minutos depois, das companhias da cavalaria;
dia 15 de Janeiro, às 9h15 - desembarca a CCAV487 na ilha de Caiar e marcha para a tabanca de Caiar; marcha lenta, longa e custosa: ficam sem água e são flagelados por fogo inimigo; chegam à tabanca de Caiar cerca das 15h30 do dia seguinte, mas esta estava abandonada já, sem população;
- dia 15 de Janeiro, às 9h15 - desembarca a CCAV488 na ilha do Como e marcham para Cauane, one chegam cerca das 15h00 desse dia; primeiros combates violentos, meteu Força Aérea; os fuzileiros conseguem afugentar a guerrilha e a companhia instala-se no ilhéu de Caiame para proteger o desembarque da CCAV489 na ilha de Catungo, no dia seguinte;
T6
- dia 16 de Janeiro, às 09h00 - desembarca a CCAV489 na ilha de Catungo e toma Catungo Papel e Catungo Balanta sem resistência; desembarca também o DFE7 na costa leste de Catungo, perto do rio Cumbijã, e ocupa a tabanca de Cametonco também sem resistência;
- dia 18 de Janeiro - desembarca o grupo de comandos do alferes Saraiva e vão para Cauane para se juntarem aos fuzileiros, no meio de intenso fogachal;
- dia 20 de Janeiro - o DFE8 de Alpoim Calvão avança para a mata entre Cauane e S. Nicolau, aí enfrentando durante duas horas um grupo de 100 guerrilheiros dentro da mata; os comandos juntam-se-lhes, o comando Mário Dias é morto com um tiro na cabeça; a guerrilha resiste; 20 comandos e 80 fuzos são obrigados a retirar;
- 21 de Janeiro - o grupo de comandos e uma secção de fuzileiros, com apoio aéreo, tentam calar as metralhadoras do inimigo; sem êxito e um T6 é abatido, tendo morrido o piloto, alferes João Manuel Pité;
- 26 de Janeiro - ao fim de uma semana de assanhados combates, os comandos conseguem entrar na mata junto a Cauane.
DFE7, na zona de Cachil, onde travou violento combate
DFE7, em Caiar, na manhã de 15 de Janeiro de 1964
Assalto final
«É nesta última fase que se travam os combates mais intensos. Os guerrilheiros, ainda em grande número, estavam bem armados e instruídos. Instalados na mata densa ao redor de Cassacá, que lhes conferia grande protecção, vigiavam as entradas - e, dotados de incrível agilidade, faziam deslocar rapidamente as forças necessárias para reforçar uma das suas posições debaixo da metralha.
A guerrilha, sob o comando de Nino Vieira, demonstra nestes combates grande mobilidade e considerável poder de fogo e de manobra - de tal maneira que até as nossas tropas de elite, fuzileiros especiais, pára-quedistas, comandos, sentem grandes dificuldades. As unidades de combate portuguesas quase são surpreendidas pela táctica dos guerrilheiros. O te­nente-coronel Cavaleiro dá conta da eficácia da guerrilha em relatórios para quartel-general em Bissau: "As forças inimigas tentam sempre o cerco de núcleos pequenos das nossas for­ças e combinam acções de movimento com tiro flanqueante ou frontal de metralhadoras pesadas e ligeiras".
Os fuzileiros especiais do Destacamento 7, comandados pelo primeiro-tenente Ribeiro Pacheco, flagelam os guerri­lheiros pelo lado Norte - enquanto o Destacamento de Fu­zileiros Especiais 8, de AIpoim Calvão, os pára-quedistas e o grupo de comandos os mantém debaixo de fogo a Sul e a Este. O mais intenso dos combates em Cassacá decorreu entre as seis da manhã e as quatro da tarde. Os pára-quedis­tas sofrem um morto.
Os combatentes conseguem internar-se progressivamente na mata através de vários flancos. Os guerrilheiros estão cercados, mas ainda resistem. A artilharia e a Força Aérea bombardeiam, dia e noite, pontos suspeitos da mata - o que provoca grande insegurança à guerrilha
São destruídos dois grandes acampamentos das forças do PAIGC, dezenas de casas de mato, abrigos e depósitos de arroz. Foram arrasadas as tabancas de Cauane, S. Nicolau, Curco, Cachida e Cachil.
Operação inútil
Em 24 de Março, ao fim de 71 dias de campanha, o tenen­te-coronel Fernando Cavaleiro dá o assunto por encerrado. Quatro dias antes, á noite, passeara triunfante com o grupo de comandos e o pelotão de pára-quedistas pelas matas de Cauane, de Cassaca e de Cachil. Os guerrilheiros, incapa­zes de travar os ataques portugueses, estão em fuga.
Os combates custaram ás nossas tropas 9 mortos e 47 feri­dos - além de 193 combatentes evacuados por doença. O tenente-coronel Fernando Cavaleiro escreveu no relatório final: "mais uma vez se verificaram as extraordinárias quali­dades do nosso soldado. Apesar de pessimamente instalados em abrigos, vigilantes dia e noite, de terem tomado parte de inúmeras operações, de durante 23 dias se alimentarem ex­clusivamente da mesma ementa de ração de combate à base de conserva, de durante os restantes 48 dias apenas terem comido uma refeição quente, apesar da falta de água para beber - a tudo resistiram, mostrando assim um verdadeiro e inigualável poder de adaptação e espirito de sacrifício"
A Operação Tridente foi das mais ingratas de toda a Guerra Colonial - um sacrificio inútil. Os guerrilheiros foram expulsos da região. mas o comandante-chefe que veio a seguir, general Arnaldo Schultz, retirou a guarnição que lá tinha ficado. Resultado: os guerrilheiros voltaram a ocupar as ilhas.»
Extraído (dados, imagens e texto entre aspas) de:
"As Grandes Operações da Guerra Colonial, 1961-1974. IV Operação Tridente", Suplemento do "Correio da Manhã"

27 de abril de 2011

127-Jagudi kum' el



Ida para Bigene
Íamos por uma mata serrada depois de Sindima, tinha chovido. Da CCAÇ3 só o meu pelotão estava nesta operação até ao corredor de Sambuiá.
- "Vamos ver se apanhamos alguma coisa. Eles costumam vir de Samoge, no Senegal, e passam por aqui", disse-me o major Correia de Campos. "Você vai à frente, atrás de si vai a 412. ". Tá bem, sabia que aquela era uma companhia de maçaricos, a CART2412. Como me tinham indicado, invertemos um pouco para sudeste e fomos em direcção a Talicó.
Antes de lá chegarmos fomos emboscados  ao pé dum pequeno descampado. Estão ali à esquerda, pensei, e fiquei de pé virado para lá a disparar. De repente levo um encontrão e vou parar ao chão.
- "Eles estão do lado direito!", gritou-me o Ocha, meu  guarda-costas.
- "Obrigado, pá. É a merda dos ouvidos que me enganaram." E fiquei no chão a disparar para o lado certo. Estava fodido, não era a primeira vez que os tímpanos me baralhavam.
Foi um quarto de hora de tiroteio, morteiradas da companhia de trás e roquetadas e morteiradas também deles. Às tantas, homem espantoso, aparece o Correia de Campos, de pistola à cowboy na cintura e pingalim na mão.
- "É pá, está um gajo com RPG ali naquela árvore e o morteiro está ali no lado direito".
Disse-me isto sempre de pé, e eu esticado no chão a ouvi-lo.
- "Já não adianta, os gajos piraram-se", disse-me ele, passados alguns minutos,  quando nos apercebemos que eles tinham parado de disparar . "A companhia vai retirar e vocês vão atrás".
Levantámo-nos e diz-me o Ocha:
- "Está ali um corpo do outro lado".
Disse ao furriel Lindolfo para ir com a secção dele buscá-lo.Voltaram. O Falcão e o Iofna, um de cada lado, traziam o homem, que estava ferido e andava com dificuldade. Era do PAIGC, tinha o fardardamento deles .
- "Então e a arma?", perguntei-lhes.
- "Não havia arma nenhuma", respondeu o Lindolfo
- "Está visto que os gajos levaram a arma e deixaram o ferido", conclui. 
Disse para fazerem uma maca com ramos de árvores para colocar em cima o homem ferido. Fomos andando no encalço da 412., devagar porque o Falcão e o Iofna levavam a maca com o ferido. Os últimos da companhia estavam ao pé do rio de Cunalá, estava visto que o major optara regressar por ali e não por onde viéramos, para evitar emboscadas. Vi que estava um homem estendido ao pé deles. Aproximei-me e vi que tinha o pescoço aberto, um grande rasgo horizontal,  a cabeça parecia querer separar-se do corpo. Estava morto.
- "Como é que foi isto?", perguntei. Respondeu-me um soldado que fora um estilhaço de rocket, rebentara na árvore atrás da qual ele estava.
Dois deles pegaram no morto, nos braços e pernas, e começaram a atravessar o rio. Vi que foram à vontade, sinal que já tinham visto que era atravessável. A companhia, aliás, já estava praticamente toda do outro lado.
O Falcão e o Iofna tinham pousado a maca no chão.
- "Vá lá, alguém que pegue na maca para atravessar  o rio".
Ficaram todos calados e quietos.
- "Então?... Vá lá!"
Continuaram mudos e quedos. Os furriéis olhavam para mim um bocado enrascados.
- "Meu alferes", decidiu-se o Sousa, "eles não querem atravessar o rio com a maca."
- "O quê!?", fiquei genuinamente espantado.
O matulão Clode, no meio deles:
- "Alfero, vem jagudi e kum’el".[1]
Estava feito. Mas isto não era situação nova para mim, esta recusa em ter pena ou piedade de tudo o que fosse inimigo. Tinha de resolver aquilo, não podia ficar ali a discutir com eles nem queria deixar ali o ferido. Virei-me para o furriel Sousa.
- "Ó Sousa, pegue aí à frente que eu pego atrás". Assim fizemos, pusemos a maca aos ombros . "Vamos embora".
Metemo-nos no rio. Os outros vieram atrás.
A água dava pelo peito. Não era fácil, deviam ser uns quarenta metros de largura, mas fomos andando, embora devagar e com dificuldade, sobretudo para "ver" onde púnhamos os pés.
Estávamos a meio e chegam-se o Ocha e o Falcão.
- "Alfero, nós levamos".
- "Ah!", só lhes disse isto. E eles levaram a maca até ao outro lado.
Da margem vimos que havia uma clareira larga onde estava, a cerca de cem metros um helicóptero. Chegámos até lá e vimos ao pé dele o major Correia de Campos e uma enfermeira pára-quedista.
- "Meu major, tenho aqui um homem do PAIGC ferido".
- "Entregue-o à enfermeira".
Dei indicação ao Ocha para tal. Depois disse ao furriel Sousa:
- "Mande formar o pelotão."
O major olhava para mim com curiosidade, mas não disse nada.
Olhei para o pelotão com cara de zangado, tanto que não deu para dizer nada em crioulo:
- "Estou lixado com vocês. Porque acho que vocês são uns grandes filhos da puta, pior para os da vossa raça, muito pior do que são os brancos. E podem ter a certeza que fodo o primeiro que tentar fazer mais alguma igual a esta". 
E não disse mais nada, mandei destroçar. O major estava sério.
- "Mas que é que aconteceu, nosso alferes?"
- "O que sucedeu, meu major, é que estes gajos recusaram-se a atravessar o rio com o ferido. Tive de ser eu e um furriel a carregar com ele."
- "Oh,e você não sabe que eles são assim, homem? Não se chateie. Quando chegar ao quartel pague-lhes umas cervejas e vai ver como ficam todos bem".
A enfermeira chegou-se a nós.
- "Meu major, o homem do PAIGC acaba de morrer. Não aguentou".
- "Que merda! Tanto trabalho...", pensei que disse para mim, mas ela ouviu. Não se manifestou.
- "Bem, vamos embora", disse o major.
O heli partiu e ele foi nele. Durante o regresso a Bigene e, depois, a Barro as coisas foram amainando e já estava tudo normalizado quando lá chegámos.
Mas sei e senti que o que lhes dissera não caíu em vão.



[1] Alferes, os abutre vêm e comem-no. (crioulo)



Regresso de Bigene
Eu e o Ocha, que foi meu guarda-costas. Ele vive agora em Corroios.

19 de abril de 2011

112-Operação Mar Verde


in "Os Anos da Guerra Colonial", suplemento As Grandes Operações da Guerra Colonial XI, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes
in "Os Anos da Guerra Colonial", suplemento As Grandes Operações da Guerra Colonial XI, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes
in "Os Anos da Guerra Colonial", suplemento As Grandes Operações da Guerra Colonial XI, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes
Há livros sobre esta operação:


Este é do comandante da operação
Do jornalista António Luís Marinho
...e de prisioneiros libertados:


Do ex-alferes António Júlio Rosa
Do ex-sargento piloto António Lobato
Sobre a Operação Mar Verde lê-se no site "Guerra Colonial - A25A/RTP"
Um mar de mistérios 

A Operação Mar Verde é uma acção singular entre todas as realizadas, durante a guerra, nos três teatros de operações. Na clássica divisão dos manuais militares, que consideram três grandes grupos de operações - convencionais, especiais e irregulares -, ela pertence ao grupo das irregulares, e foi neste âmbito a de maior envergadura, complexidade e impacte internacional. 

Foi realizada para obter efeitos políticos directos através da execução de um golpe de Estado em país estrangeiro, a Guiné-Conacri, por militares portugueses a actuarem com uniformes e equipamentos das forças desse país e em conjunto com elementos estrangeiros oposicionistas ao Governo, prevendo a eliminação de um chefe de Estado, Sekou Touré.

Como escreve o comandante da operação, o capitão-tenente da Marinha Portuguesa Alpoim Calvão, no seu livro "De Conacri ao MDLP", que constitui a base de informações que sobre ela se conhece, a proposta que fez ao comandante-chefe das Forças Armadas Portuguesas na Guiné tinha por objectivo principal a execução de um golpe de Estado na Guiné-Conacri, sendo os objectivos secundários a captura do líder do PAIGC, Amílcar Cabral, e a libertação dos militares portugueses prisioneiros que se encontravam em Conacri. 

A operação, que nunca foi assumida por Portugal, aproveitou a existência de oposicionistas ao regime de Sekou Touré, disponíveis para participarem numa acção deste género, e visou a instalação, em Conacri, de um regime mais favorável às posições portuguesas. Para atingir este fim, foram equacionadas duas alternativas, uma prevendo a instalação no território da Guiné-Bissau de bases a partir das quais esses oposicionistas pudessem realizar acções de guerrilha no seu país, e a outra considerando o lançamento de uma operação rápida e decisiva. A análise de vantagens e inconvenientes levou os autores da proposta a optar pela segunda alternativa. 

Seguiu-se um período de preparação essencialmente de âmbito político e das informações estratégicas, que envolveu o Governo de Lisboa, o Governo da Guiné e os serviços de informações de vários países, com a participação decisiva da DGS. 

Por fim, realizou-se a operação militar propriamente dita, com o planeamento, a reunião dos meios, o gizar da manobra e a execução.
………………………….
Mas, além do segredo, outro aspecto fundamental de uma operação irregular é a existência de boas informações e também neste campo existiram graves deficiências assumidas pelo inspector Matos Rodrigues, da DGS, que apoiou a acção. Os mapas para a operação foram obtidos a partir de folhetos turísticos desactualizados, o porto de Conacri observado através de uma acção de reconhecimento efectuada à distância por um navio português, numa operação também ela dirigida pelo comandante Calvão. Em Conacri não existia qualquer informador da DGS que actualizasse elementos e permitisse cruzar informações. Apesar destas graves deficiências e de não haver uma situação militar tão crítica no terreno que justificasse correr os riscos dela decorrentes, a
Por estas ou outras razões, as forças invasoras não encontraram o presidente operação foi desencadeada.  Sekou Touré no local que previam, Amílcar Cabral estava no estrangeiro, os aviões Mig noutra base e a emissora não foi tomada, impedindo os oposicionistas de ler a sua proclamação. 
Estes factos permitem admitir que, além do êxito que constituiu a libertação dos prisioneiros portugueses e a retirada sem comprometimento das forças da Mar Verde, os fracassos nos outros objectivos foram, contudo, os que melhor serviram os interesses das autoridades portuguesas. Os fracassos, ao limitarem os resultados a uma operação de resgate de prisioneiros, evitaram as imprevisíveis consequências no plano externo que adviriam para Portugal da responsabilidade por uma invasão do território de uma nação soberana e pela morte de um chefe de Estado no seu próprio país. Evitaram ainda o problema de ficar com Amílcar Cabral, um dos mais prestigiados líderes de movimentos de libertação africanos, prisioneiro em Bissau ou em Lisboa. 
Hoje persistem as interrogações sobre o futuro do general Spínola e sobre o destino do próprio Marcelo Caetano, caso os objectivos da operação tivessem sido alcançados. O primeiro seria inevitavelmente apresentado como o principal responsável por uma aventura deste tipo, que lhe retiraria credibilidade como dirigente político em qualquer solução alternativa para o regime português. O segundo não deixaria de ter de suportar os custos políticos, internos e externos, em especial quanto à credibilidade da sua anunciada política de abertura, que ainda mantinha alguns apoios. 
As razões que levaram estes dois homens a patrocinar uma operação que envolvia tais riscos continuam, hoje, difíceis de entender.


Prisioneiros que foram libertados:
Esta foi uma lista que entreguei ao jornalista José Manuel Saraiva para o ajudar no encontro que promoveu de ex-combatentes (daí as observações nela constantes)
O soldado Francisco Gomes da Silva "não compareceu entre os libertados" porque tinha ido para Argel; o João da Costa Sousa não se sabe das razões.
Quanto ao Armindo Correia Paulino houve um erro: ele tinha sido dado como "retido pelo IN" mas não foi assim. O que sucedeu é que ele foi morto em Sinchã Jobel na operação "Imparável" em 16 de Outubro de 1967, tendo o seu corpo ficado no terreno.
O 1º cabo José Manuel Moreira Duarte, que foi, depois de libertado, para o Brasil, mas onde passou muito mal e de onde teve de voltar. Está agora com uma pensão de ex-prisioneiro.  É este aqui assinalado  no barco "de regresso", o navio patrulha Hidra:
e aqui nesta foto em que estou com alguns dos que foram do meu pelotão na CART1690: