Extraído de "PARA UM DOSSIER GUINÉ", publicado na revista "Vida Mundial" de 19 de Novembro de 1971
Lembranças da Guiné, na guerra e já fora dela. Pesquisa, comentários e factos. A memória sempre presente. Não está por ordem. É conforme me vou lembrando. Tudo o que tem a ver com a Guiné, a sua história, as etnias, a colonização e as guerras de resistência. Também a minha experiência durante a guerra colonial (está nos primeiros posts). Para quem não sabe ou viveu que veja e avalie se é realidade ou ficção. Para quem sabe ou viveu são lembranças.
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14 de março de 2011
81-Operação Fanta
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6 de março de 2011
76-Fogo até ao osso
Foi durante a operação Inquietar I. Vi um soldado da CART1689 agarrado à perna direita, que estava a arder, e soltando gritos lancinantes. À volta dele estavam uns tantos, baralhados e sem saber que fazer.
Cheguei-me lá.
- "Ai, minha mãezinha! Ai, minha mãezinha", gritava o rapaz, desesperado. A perna direita das calças ardia e ele, na ânsia de apagar as chamas com as mãos, tinha-as já todas queimadas. Em dois dedos saíam dois ossos por entre a pele.
- "Tirem-lhe as calças", e olhei-lhe para os dedos. Horrível. "Água, dêem cá água".
Ninguém tinha, nem eu. Tínhamos andado na mata nesta situação, sem água nos cantis.
- "Vai dizer ao capitão que é preciso um heli", disse a um. Com as calças fora, vi-lhe a perna queimada, mas já não havia fogo. A dor era grande e ele continuava "Ai, minha mãezinha! Ai, minha querida mãezinha". Na tragédia e no desespero é o que está mais perto do coração de um filho. Sempre o protegeu, sempre o amparou, é ela que lhe pode valer.
Havia que fazer qualquer coisa. Não era o melhor,sabia, mas não havia outra alternativa. Tirei os pacotes de manteiga das rações de combate e barrei-lhe as pernas e os dedos. Seria um alívio.
E foi.
- "O meu alferes é tão bom", disse-me.
- "Como é que foi isto?",perguntei aos outros.
- "Rebentou uma granada de fumos que ele tinha no bolço das calças".
Veio um helicóptero e levou-o.
Na altura nem soube o nome dele. Fiquei a sabê-lo depois, muito mais tarde. Quando estive no QG da Região Militar do Norte, em conversa com o general Moreira Maia, que tinha sido o comandante da companhia do homem nessa operação. Lembrava-se disso.
- "Era o Banharia. Já o encontrei aqui no Porto. Tem uma data de cicatrizes nas mãos, mas está bem".
Falámos sobre essa operação Inquietar I, mas ele já não se lembrava de me ter enviado três vezes furar o cerco que o PAIGC nos fizera nas margens do rio Camjambari.
Lembramo-nos do que nos marcou. Do que foi marca para os outros não. Percebe-se.
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16 de fevereiro de 2011
60-Emboscada... fracassada, e rezas.
Já era noite tarde e o capitão Alves dizia-nos:
- “Esta madrugada é preciso ir montar uma emboscada no corredor que vem de Sano por Bucaur. Vai o Aiveca e o Rodolfo. O Salvado fica cá”.
- “Esta madrugada é preciso ir montar uma emboscada no corredor que vem de Sano por Bucaur. Vai o Aiveca e o Rodolfo. O Salvado fica cá”.
Fiquei lixado e ele notou-o.
- “Há algum problema, Aiveca? Não quer ir?”
- “Não é não querer ir. Mas eu acho que o meu capitão podia ter-nos avisado com mais antecedência. Os meus homens não estão a contar, e sei lá se vão estar em condições quando os for acordar de madrugada”.
O Rodolfo meteu o bedelho.
- “É pá, um gajo vai à caserna e obriga os gajos a levantar, lavam a cara e toca a andar”.
- “Falas bem pelos teus fulas porque dormem com a barriga cheia de
água. Mas os meus dormem agarrados à cana[1], sabes bem, e não vai ser
fácil acordá-los”.
- “Eu sei disso”, voltou o capitão. “Mas não podemos andar por aí a anunciar as nossas acções com antecedência. Se eles sabem falam por aí, há informadores e lá se vai o segredo. Além disso, em vez de montarmos a emboscada podemos é ser emboscados. Houve um informador nosso que me disse que hoje, durante o dia, estava em Sano um grupo que se preparava para atravessar o Cacheu na zona de Limane e Suar. E vocês sabem que eles também hão-de ter informadores aqui”.
Era a mesma merda. Este gajo também tinha a mania dos segredos e de guardar as informações para si. Os alferes que cumprissem ordens, mesmo de olhos tapados. Eu já estava farto disso, já me tinha chegado a experiência de Sinchã Jobel. Falta de confiança em mim também não dava, lembrei-me da história da fotografia do quartel.
- “Mas acha que nós íamos dizer aos homens onde era o local da emboscada? Só lhes diríamos que tínhamos de sair de madrugada, para estarem preparados para isso.”
Não teve mais argumentos ou quis cortar a conversa.
- “Pronto, pá. Vocês vão até à zona de Bucaur, que é por onde eles vão passar”.
O Rodolfo ficou preocupado.
- “Mas Bucaur fica muito longe, capitão, e é capaz de não ser o melhor local”.
- “Tem de ser porque que me garantiram que eles passariam lá.”
Passou-me pela cabeça uma interrogação sobre a anormalidade deste diálogo, que eu sabia não ser comum nas unidades em campanha, onde prevaleciam o comando e o cumprimento de ordens, sem reticências, pelo menos com a forma como aqui as estávamos a expressar. Talvez porque este gajo fosse especial. E daí, não sei. Havia muitos como ele. Era do quadro permanente, sem experiência, chegara há pouco tempo, que remédio senão ceder ao que os alferes já mais batidos que ele opinavam. Eu sabia que tinha uma certa aura, por ter estado já noutra companhia, por ter sido ferido e por ter voltado para a guerra. Além disso, ele sabia da história de Sinchã Jobel e que o meu anterior capitão morrera por não ter seguido o meu conselho. Se calhar não sabia é aquela do imbroglio da operação Inquietar I, onde também tive papel na solução. Quer o Roberto quer o Salvado já eram gajos batidos nisto, já estavam ali há meses. E também me pareceu que ele ficou um bocado enrascado com a barraca que tinha dado ao piloto da dornier.
- “Desculpe lá, meu capitão”, senti-me autorizado a dizer. “Bucaur é um local muito complicado. Está muito perto da base que eles têm em Sano, na fronteira do Senegal, onde têm grande apoio, às vezes com bigrupos[2]. Lá, só com dois pelotões e longe de Barro, podemos ter problemas se houver uma forte reacção deles. Aliás, já os tivemos quando eu e o Salvado lá fomos uma vez. Ele que conte”. Mas como o Salvado não disse nada continuei. “De qualquer modo, as acções na zona fronteiriça eram a nível de operação, om mais meios e, normalmente, com PCV (Posto de Controlo Volante). Neste caso trata-se de um mero reconhecimento com emboscada associada. Penso que será melhor irmos para Limane e Suar.”
Os outros alferes apoiaram-me. Houve mais uma troca e ideias e o Alves acedeu.
Saímos eu e o Rodolfo com os grupos de combate era ainda madrugada. Tínhamos combinado colocarmo-nos na ponta da margem esquerda da bolanha entre Limane e Suar, por indicação do nosso guia Bailo. Segundo ele havia ali vários carreiros e era por um deles que chegavam ao rio de Indafo, um pequeno afluente do Cacheu. Aí tinham, às vezes, pirogas escondidas no tarrafe para chegarem ao rio maior. Era um caçador experiente com grande conhecimento da zona e de todos os meandros da mata e das margens dos rios.
Emboscámo-nos, eu mais perto do afluente e o Rodolfo mais à frente, com a preocupação de nos virarmos para o
carreiro indicado para não haver fogo cruzado entre nós.
- “Ó Rodolfo, parece-me que é melhor deixá-los chegar mesmo até ao rio de Injafo. Assim eu apanho os da frente e tu os de trás”. Concordou.
Ali ficámos mais de uma hora sem ver nada e em silêncio. Precavera-me para que ninguém levasse cantil e estava confiante que estariam todos despertos. Só o ruído da bicharada e o zumbir dos mosquitos, situação a que eu já me habituara e que para o resto do pessoal não era problema.
Chegaram as cinco da manhã e já começara a clarear. Dei ao Bailo uma indicação que eu sabia ser do seu agrado.
- “Sibi palmera pa jubi”[3].
- “Io, nossalfero”[4].
- “Ku kuidadu i atenson kakuba verdi”[5].
O Quecuta Seidi tinha sido mordido por uma cobra de palmeira numa perna e tiveram que lha cortar. Pareceu-me zangado com esta minha observação.
- “Bailo djiru, sabi fasi. A mim ka Quecuta”[6].
- “Tá bem, anda lá”.
Subiu à palmeira mais próxima e lá ficou. De vez em quando eu olhava para ele para ver da sua reacção. A certa altura fez-me um sinal e apontou para o carreiro.
- “Turras”[7].
Fiz sinal aos meus para estarem quietos. Espreitei pelo capim e vi a cerca de cem metros dois indivíduos desarmados que vinham pelo carreiro estreito. O Rodolfo tinha-os deixado passar como combináramos. Atrás deles não vinha mais nenhum.
De repente, oiço dois tiros perto de mim. Eram de mauser! Olhei para a palmeira e vi o Bailo de arma ainda apontada. Parte do meu pessoal levantou-se agitado de arma em riste. Gritei-lhes “firma la![8]” e saiu-me toda a fúria em português.
- “Ó seu filho da puta, quem é que te mandou disparar? Salta já cá para baixo!”
O Roberto e o seu furriel Aguinaldo chegaram a correr vindos das suas posições.
- “O que é que foi, Aiveca?”
- “Foi este cabrão de merda que disparou sem ninguém lhe dar ordens para isso”. O Bailo já estava ao pé, todo encolhido.
- “Makaku pretu, bu buru suma![9]”, gritei-lhe. Estava furioso e apeteceu-me bater-lhe, mas contive-me. Era uma ofensa maior do que chamar-lhe nomes. Ele já tinha feito uma idêntica, não comigo mas com o Salvado. Duma vez só despejara do cimo de uma palmeira os cinco tiros da mauser, e todos certeiros. Era caçador por paixão e atirador viciado. Havia um outro aspecto especial para mim, fez-me pensar em eventual prejuízo próprio. É que ele tinha quatro mulheres e algumas vezes lhe assumei à porta a perguntar pretensioso se dormia com as quatro. Não queria pôr em risco essas hipóteses preciosas. Enfim, dera-me cabo de tudo. Ajudei-me com a recriminação de mim próprio por não ter previsto que o gajo podia fazer isto.
- “Dá cá a merda da mauser! Nunca mais te quero ver à minha frente! Desanda”. Entreguei a espingarda a um soldado.
- “Estão ali à vossa frente um gajo morto e um ferido, tem um tiro de raspão na coxa”, dizia-me o Roberto. “Estão lá uns gajos meus ao pé deles.”
- “O Bailo teve fraca pontaria hoje. Não vinham mais nenhuns a seguir a estes?”
- “É pá, não. Mas, quando ouvi os tiros, mandei fazer uma batida à frente na mata para ver se estavam lá mais alguns. Mas não me parece. De qualquer modo, se houver deve ser só população civil dos gajos, se não tinham reagido logo com fogachal. O Aguinaldo vai lá ver…”. Virou-se para o Aguinaldo, mas este já não estava ali. “Onde é que este caralho se meteu?”
- “Deixa lá. Vou chegar os meus homens para o pé dos teus”. Dei ordem de avançar pelo carreiro.
Encontrámos os dois corpos. Um estava morto no chão e o outro sentado e agarrado a uma perna. Estavam lá três soldados e o Aguinaldo, que estava de joelhos ao pé do morto. Espanto meu. Rezava de cabeça baixa.
- “Que estás aí a fazer, pá?”, mandou-lhe o Roberto.
- “Tás nisso agora?”.
- “Deixa-o estar. Vou mandar os meus para ajudarem os teus na batida.”
Disse ao Sousa para avançarem para a mata e se juntarem aos outros.
Percebi o Aguinaldo, de seu nome completo Aguinaldo Kindi Baldé[11]. Era mullah, um clérigo muçulmano. Estava, portanto, no seu ministério para a ocasião, como um padre católico também estaria. Spínola já lhe tinha pago o Hajj[12], como o fez a outros na intenção de captar a boa vontade dos islâmicos para a guerra que travava. Estava orgulhoso de ser el hadj[13], desejo de todo o muçulmano devoto, e cumpria bem os dois papéis, clérigo muçulmano e furriel do exército português.
Percebi o Aguinaldo, de seu nome completo Aguinaldo Kindi Baldé[11]. Era mullah, um clérigo muçulmano. Estava, portanto, no seu ministério para a ocasião, como um padre católico também estaria. Spínola já lhe tinha pago o Hajj[12], como o fez a outros na intenção de captar a boa vontade dos islâmicos para a guerra que travava. Estava orgulhoso de ser el hadj[13], desejo de todo o muçulmano devoto, e cumpria bem os dois papéis, clérigo muçulmano e furriel do exército português.
Entretanto chegaram todos do lado da mata.
- “Como é que foi, Sousa?”
- “Oh, não havia nada. Os gajos devem ter-se pirado todos. Veja lá que nem deixaram nada para trás. Acho que não eram carregadores, senão deixavam o material durante a fuga. Devia ser só civis que se deslocavam do Senegal para o Oio.”
- “O informador do capitão é mesmo um grande artista”, chasqueou o Roberto
- “Porque é que aqueles dois viriam à frente?”, uma interrogação que já fizera a mim próprio.
- “Se calhar eram batedores que vinham ver onde estavam as pirogas escondidas no tarrafe.”
Talvez fosse isso, era uma explicação. Não me apetecia muito meter-me às cegas no meio do tarrafe, enorme e complicado, para ver onde estariam as tais pirogas. Mandei a secção do Fernandes dar uma vista de olhos.
- "Dêem só um salto ali à margem do rio Injafo. Não se metam para mais longe."
Olhei para o Roberto.
- "Dêem só um salto ali à margem do rio Injafo. Não se metam para mais longe."
Olhei para o Roberto.
- “É pá, eu acho que é melhor irmo-nos embora daqui. Já não estamos cá a fazer nada. Além disso, não é bom continuarmos numa posição estática. Vê lá se consegues que o Aguinaldo acabe de rezar. Fala-lhe com calma, tá bem?”
Vi que conseguiu que ele se levantasse. Todos se preparavam para ir embora, tinham levantado o ferido, que coxeava agarrado de um lado e do outro. Olhei para o morto no chão. Ninguém lhe ligava.
- “Como é que é? O homem não pode ficar aqui desta maneira. Vamos enterrar o gajo”.
Os balantas do meu pelotão olharam-me de soslaio. Filhos da puta, preparavam-se para me fazer o mesmo que em Sambuiá, quando apanhámos um ferido do PAIGC e se recusaram a transportá-lo, dizendo-me que os jagudis haviam de comê-lo. Com essa lembrança não havia crioulo que me chegasse.
- “É já, caralho! Ocha, Besna, Iofna, Bletche, venham cá.”
Vieram, trombudos.
Chegou o Fernandes a dizer que tinham encontrado uma canoa. Fomos ver. E lá estava ela e era preciso destruí-la.
- "Bazucada para cima dela. Todos para longe."
Partiu-se e afundou-se.
Regressámos depois a Barro com o prisioneiro.
- "Bazucada para cima dela. Todos para longe."
Partiu-se e afundou-se.
Regressámos depois a Barro com o prisioneiro.
[1] Aguardente de cana, querida dos balantas.
[2] De acordo com o livro Guerra Colonial: Angola, Guiné, Moçambique (Lisboa: Diário de Notícias, s/d), da autoria de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, um bigrupo tinha 38/44 unidades e um bigrupo reforçado 70 unidades. Na Inter-Região Norte, Frente S. Domingos/Sambuiá (onde se situava Barro, teriam 630 unidades.
[3] Sobe á palmeira para observar (crioulo).
[4] Sim, nosso alferes (crioulo)
[5] Cuidado e atenção à cobra de palmeira (crioulo)
[6] O Bailo é inteligente, é fácil. Não sou o Quecuta (crioulo)
[7] Terroristas
[8] Quietos! (crioulo)
[9] Macaco preto, pareces mas é burro! (crioulo)
[10] A oração muçulmana dos mortos para pedir a Alá que perdoe o falecido.
[11] Em 1974, após o 25 de Abril, fugiu para o Senegal. Foram lá buscá-lo e foi um dos fuzilados pelo PAIGC.
[12] Peregrinação a Meca.
[13] Expressão que pode ser colocada na frente do nome das pessoas que já fizeram a peregrinação a Meca
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15 de dezembro de 2010
22-Regresso a Sinchã Jobel
A 6 de Abril de 2006, eu e o meu amigo Xico Allen mais dois camaradas, o Armindo e o Costa, e mais dois jovens, a filha do Xico Allen, a Inês, e o filho do Albano Costa, o Hugo, largámos do Porto em direcção à Guiné-Bissau. Fomos por terra de jipe numa viagem interessante, não sem alguns percalços, mas bem superados pela experiência e desembaraço do habitué dessas andanças, o Xico Allen. Ao fim de sete dias chegámos a Bissau, tendo-se juntado a nós, depois, mais três camaradas chegados de avião. Na semana seguinte, com o jipe com que fôramos e mais um alugado, visitámos alguns dos locais por onde tínhamos passado aquando das nossas comissões de serviço na Guiné. No fim dessa semana, eu e o Xico Allen ficámos e os outros regressaram todos a Portugal de avião.Tive, então. e com a ajuda do meu amigo, oportunidade de programar com calma aquilo que era o meu grande objectivo nesta viagem: ENTRAR FINALMENTE EM SINCHÃ JOBEL. Da minha experiência passada sabia que seria impossível o acesso de jipe pelo sul, por Sucuta, visto o rio e as bolanhas, pelo que vi ser melhor ir pelo norte por Sare Banda.
Até aí foi por uma picada cheia de buracos, um deles seria mesmo o da mina que me feriu a mim e matou o capitão, pois ela estava na mesma como há trinta e tal anos, e foi perto de Sare Banda que a tal mina rebentou. Chegámos e verifiquei que era uma tabanca mais pequena do que aquela que eu conhecera antes. Tivéramos lá um destacamento e havia poucos restos disso.
Restos nossos em Sare Banda.
Perguntámos a um grupo qual o caminho para Sinchã Jobel, mas disseram-nos que não havia picada, só um carreiro. Um rapaz que lá estava disse-nos que era difícil ir lá com o jipe mas que, se quiséssemos tentar, nos podia indicar o caminho. Fomos com ele. Chamava-se Maliq e era taxista em Bissau, tinha vindo ali visitar a família. Perante o meu espanto por ver agora a tabanca tão pequena, explicou-nos que depois da guerra cada etnia tinha saído para tabancas próprias. Ali, agora, tinham-se mantido os fulas. E eu, é claro, que sabia que o reordenamento forçado durante a guerra tinha esvaziado tudo à volta e concentrado as populações da zona em Sare Banda.
Foi muito difícil o caminho até Darsaleme e Sare Dembel, mas mais difícil ainda quando saímos daí em direcção a Sinchã Jobel. Porque era uma mata serrada com um carreiro muito estreito. Mas, em marcha lentíssima, solavancos e inclinações, a arte do Xico Allen levou-nos ao destino.
Manga de ronco um jipe ali! O grupo que estava debaixo da árvore chegou-se logo ao pé de nós e partiram-se mantenhas (trocaram-se cumprimentos). Disse ao que vinha, que tinha sido militar português e tinha estado ali durante a guerra. Um homem grande (velho) apontou para outros dois:
- O Darami e o Mulé lutaram aqui.
Simpáticos, falaram connosco e ofereceram-se para nos acompanhar a dar uma volta na zona.
...A clareira onde apanhei a emboscada e fiquei sozinho ( Operação Jigajoga)
Estão aqui sinais visíveis nas árvores dos bombardeamentos da aviação portuguesa. O Darami e o Mulé confirmaram-me que muitas ou rebentavam nas árvores ou caíam no chão sem deflagrar
- O Darami e o Mulé lutaram aqui.
Simpáticos, falaram connosco e ofereceram-se para nos acompanhar a dar uma volta na zona.
...A clareira onde apanhei a emboscada e fiquei sozinho ( Operação Jigajoga)
Estão aqui sinais visíveis nas árvores dos bombardeamentos da aviação portuguesa. O Darami e o Mulé confirmaram-me que muitas ou rebentavam nas árvores ou caíam no chão sem deflagrar
Nesta zona tinha o PAIGC montadas as "baracas", na expressão deles, isto é, as casas de mato que não eram visíveis do ar porque estavam cobertas por grandes árvores. Às vezes, disse o Darami, mudavam de local, mais para trás ou mais para o lado, conforme as circunstâncias e as informações que tinham de ataques da tropa portuguesa.
Além de terem sentinelas junto do rio e das bolanhas tinham sempre um em cima desta árvore.
Estavam sempre preparados para "receber" a tropa .
O Darami diz-me que, como não tinham tempo, não faziam covas para os enterrar. Os corpos dos mortos eram atirados para dentro deste poço.
"Os nossos também?", perguntei-lhe.
"Sim, todos."
Pensei com tristeza que lá estarão o alferes Fernandes (Op. Invisível) e o soldado Câmara (Op. Imparável).
Disseram-me que tinham caído várias sem rebentar, que tinham conseguido destruir todas menos esta. Deixaram-na ficar ao longo destes anos todos.
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11 de dezembro de 2010
21-Op. Invisível

De facto, os resultados desta operação Invisível levantam-me interrogações sobre o "sucesso" da operação Insistir e sobre como foi a "exploração desse sucesso" na operação Instar, estas realizadas 20 dias antes daquela.
O Alferes Fernandes, referido no relatório que se segue, e cujo corpo lá ficou morto, foi quem me foi substituir depois de eu ter sido evacuado. O soldado Fragata (Manuel Fragata Francisco), um alentejano de Alpiarça, também aí referido como tendo lá ficado, tinha sido do meu grupo de combate. Mas a história deste foi outra depois: ficou furado por vários estilhaços de uma roquetada e foi levado, em maca, pelos guerrilheiros desde a mata do Óio até a um hospital de Ziguinchor, na Casamansa, Senegal. Foi obra, hão-de concordar, e não foi fácil, como calculam. Aí, em Ziguinchor, foi tratado pelo portugês Dr. Pádua, um médico desertor, e que me confirmou isto quando, há alguns anos, o encontrei em Lisboa. Depois desse tratamento foi repatriado pela Cruz Vermelha Internacional e foi para o Anexo do HMP, na Rua Artilharia Um, em Lisboa. Infelizmente, o Fragata, passado pouco tempo após a saída do Anexo, morreu num desastre de motorizada na sua terra.
Depois desta operação, aquela zona foi considerada ZLIFA (Zona Livre de Intervenção da Força Aérea), isto é, só os T6 e os Fiat é que passaram a voar para lá para despejarem toneladas de bombas e napalm sobre a floresta que rodeava a clareira de Sinchã Jobel. Sem grande efeito prático, pois as bombas rebentavam no cimo das copas das árvores, deixando praticamente intactas as partes no solo. Tenho fotos disso (publicarei mais tarde). E a guerra continuou...
Op Invisível. 16 de Dezembro de 1967
Situação particular:
Em face das acções realizadas sabe-se que o IN actua no regulado de Mansomine onde possui a base de Sinchã Jobel.
Missão:
Executar uma batida nesta região tentando desalojar o IN.
Força executante:
CMDT: Cap.Mil.Art. Carlos Manuel Ferreira
Dest A – CART 1742, a 2 Gr Comb.
DEst B - CART 1690 a 2 Gr Comb ref. c/ 1 PEL MIL 110 / C MIL 3
Desenrolar da acção:
Em 1822H00DEZ67, as forças intervenientes saíram auto transportadas de Geba em direcção a SARE GANÁ, progredindo em seguida apeadamente em direcção a Ganhagina, que atingiram em 1904H00DEZ67. Não se pôde efectuar a cambança da bolanha nessa altura, em virtude do guia não conhecer o caminho, para atingir a bolanha pelo que as forças intervenientes se instalaram, montando a devida segurança. Pelas 06H00 as forças intervenientes iniciaram novamente a progressão à bolanha, que atingiram pelas 07H50 hora a que se iniciou a cambança da mesma. Nesta altura foram avistados elementos IN em cima de árvores, pelo que se tomaram as devidas medidas de segurança para a travessia da mesma. A cambança terminou às 08H30, iniciando-se em seguida a progressão à base de patrulhas. Cerca das 11H30 fez-se um alto, devido novamente ao guia se ter perdido e precisar de se orientar. Foi destacada 01 Secção reforçada comandada pelo Furriel Miliciano Pombeiro para fazer a protecção ao guia, enquanto a restante força interveniente montava segurança no local de estacionamento.
Às 12H45 iniciou-se novamente a progressão à base de patrulhas que foi atingida às 15H52. Nesta altura ouviram-se vozes de elementos IN, o que levou as forças intervenientes a supor que o IN se encontrava instalado naquele local. Devido a este facto a missão foi alterada e estabeleceu-se que o Dest B faria o assalto ao objectivo enquanto o Dest A faria a detenção do IN. Para o assalto ao acampamento IN o Dest B nomeou 01 Gr Comb, enquanto o 2º. Gr Comb faria a protecção ao 1.º e serviria de reserva.
Estabeleceu-se também o ponto de reunião das forças intervenientes. Quando o 1º GR Comb progredia em direcção do acampamento IN, foi emboscado e surpreendido por um súbito desencadear de intenso e nutrido fogo IN. Tentou anular-se o mesmo reagindo as NT fortemente. Como o 1° Gr Comb fosse o que nessa altura se encontrasse mais submetido ao fogo IN, veio o 2º Gr Comb comandado pelo Alferes Miliciano Fernandes em auxilio do primeiro, mas o mesmo foi atacado pela rectaguarda e, portanto, não pode proteger a retirada do primeiro. Começou também nessa altura o IN a fazer fogo com o Mort 82, com que abateu o alferes miliciano Fernandes. Verifiquei que nessa altura já o Dest B tinha as seguintes baixas: Alferes Miliciano Fernandes, 1º. Cabo Sousa da CART 1742 e que estava a fazer fogo com a ML MG-42, soldado metropolitano Fragata e um soldado milícia que não consegui identificar, além de vários feridos. Procurei trazer o alferes miliciano Fernandes para a rectaguarda, e quando o puxava pelos pés, fui surpreendido por um grupo IN, que corriam em direcção aos furriéis milicianos Marcelo e Vaz e em minha direcção gritando que nos iriam apanhar vivos. Note-se que neste grupo IN avistei elementos brancos os quais usavam o cabelo bastante comprido (a cobrir as orelhas), facto também confirmado pelos já citados furriéis milicianos. Devido a tal, tive que abandonar o corpo do alferes Miliciano Fernandes e retirar. Quando retirava em direcção ao ponto de reunião, encontrei uma secção da CART 1742, e 4 soldados da minha Companhia que me informaram ser impossível entrar em contacto com a CART 1742, enviei 3 soldados desta última Companhia afim de averiguar tal impossibilidade, enquanto se montava a segurança com os restantes elementos. Logo após esses 3 Soldados regressaram informando-me que a CART 1742 já retirara. Devido a tal e uma vez que o IN já nos estava a envolver, iniciei a retirada em direcção à bolanha. Durante a retirada fomos constantemente perseguidos pelo IN que disparava incessantemente rajadas de armas automáticas ligeiras e metralhadora pesada, além de encontrarmos diversos elementos IN já instalados ao longo do caminho que conduzia à bolanha e que fez com que este grupo tivesse que atravessar a bolanha num local diferente do que inicialmente estava previsto, e que batiam o caminho por onde nos deslocávamos. Quando atravessámos a bolanha o IN bateu a mesma com granadas de morteiro 82 (algumas das granadas estavam equipadas com espoleta de tempos), rajadas de armas pesadas, ligeiras e roquetadas, tendo o mesmo entrado na bolanha em nossa perseguição, e ainda após concluída a travessia depararam-se-nos alguns elementos IN instalados deste lado da bolanha. Conseguimos, no entanto, fazer a travessia da mesma e iniciarmos a progressão em direcção a SARE GANÁ, que atingimos às 21H00. Chegados a SARE GANÁ, verifiquei que a CART 1742 já aí se encontrava e que faltavam 16 elementos da minha Companhia e 1 elemento da CART 1742. [estes militares foram recuperados no dia 21 de Dezembro de 1967, durante a Op Invisível II, realizada com esse objectivo, tendo sido encontrados a vaguear na mata] .
Resultados obtidos:
Baixas sofridas pelo IN: Mortos confirmados 14; numerosas baixas prováveis.
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19-Op. Imparável


Foi a operação que se fez a seguir àquela em que entraram dois grupos de comandos, e que ficou em águas de bacalhau. Esta foi feita com cassanhos, só, e deu o que vão ler.
O Agrupamento não teve em conta o que eu dissera ao T.Cor. Hélio Felgas sobre as condições de difícil acesso à base, cercada por um rio e por duas bolanhas (Operação "Jigajoga"), e as consequências podem ver-se neste "capítulo" e nos seguintes.
A operação foi comandada do PCV (Posto de Controlo Volante) pelo Comandante do Agrupamento. Quem faz o relatório da operação é o comandante da companhia, o Cap.Mil.Art. Carlos Manuel Ferreira. O Agostinho Francisco da Câmara (e não Camará), morto na operação, era açoriano e do meu grupo de combate quando eu lá estava, o corpo dele não foi recuperado; o Armindo Correia Paulino, aqui referido, também era do meu grupo de combate, o Bigodes, como lhe chamávamos, acabou por ser morto durante a retirada desta operação na bolanha, e o seu corpo também não foi recuperado. O Lamine Turé foi nessa companhia o meu guarda-costas, ferido comigo pela mina. Igualmente nessa bolanha foi gravemente ferido o alferes Leite Rodrigues com uma roquetada, sendo actualmente capitão reformado da GNR e frequentador assíduo da Tabanca de Matosinhos (é um aparte...).
Sobre o aparecimento de um helicóptero, o relator da operação diz que sim, mas há quem me tenha dito que não viu nada. Também aquando da Op. Jigajoga houve quem dissesse que viu cubanos, mas aqui eu garanto que não vi lá nenhum entre os guerrilheiros. E tive tempo para isso... Penso que há situações que dão para algumas fantasias.
Op Imparável. 15 de 16 de Outubro de 1967:
Situação particular:
O IN tem-se revelado no regulado de Mansomine não só durante as operações, como em ataques a tabancas e aquartelamentos. Possui um acampamento na região de Sinchã Jobel que lhe serve de base às suas acções.
Missão:
Golpe de mão ao acampamento de Sinchã Jobel seguido de uma batida na região.
Força executante:
CMDT: PCV
MEIOS:
Dest A - C CAV 1748.
Dest B -CCAÇ.1685 a 2 Gr Comb ref. c/ 1 PEL MIL/C MIL 3.
Dest C -CART 1690 a 2 Gr Comb ref. c/ 1 PEL MIL/C MIL 3.
Desenrolar da acção:
Em 1504H30, o Dest C saiu auto-transportado de Geba, em direcção a SARE MADINA, progredindo apeadamente em direcção a SUCUTA que atingiu às 08H45 instalou-se no orla junto à bolanha, tendo mantido essas posições até 1610H30OUT67. Durante a noite de 15 para 16 fomos flagelados com 4 tiros de morteiro e rajadas de armas ligeiras automáticas. Cerca das 03H00 foi avistado um Helicóptero IN que sobrevoou o acampamento IN. , tendo o Dest. B e C feito fogo às minhas ordens sobre o IN instalado na margem oposta. Este Dest. não conseguiu atravessar a bolanha, o mesmo sucedendo ao Dest. B, embora quando este último tentou a travessia já tivesse apoio aéreo (ATAP) o PCV ordenou então ao Dest. C a travessia da bolanha às 11H30. Cerca das 03H00 foi avistado um Helicóptero IN que sobrevoou o acampamento IN. Quando o Dest A iniciou a travessia da bolanha em 1609H00OUT67 o mesmo foi atacado por tiros de morteiro e rajadas de armas ligeiras automáticas, tendo o Dest B e C feito fogo de morteiro às minhas ordens, sobre o IN instalado na margem oposta. Este Dest não conseguiu atravessar a bolanha, o mesmo sucedendo ao Dest B embora, quando este último tentou a travessia, já tivesse apoio aéreo (ATAP) o PCV ordenou então ao Dest. C para nomear uma secção e tentar a travessia da bolanha às 11H30. Esta secção foi constituída por: Cap.Mil. Carlos Manuel Ferreira, Alf.Mil. António Costa Neto, Fur.Mil. Abílio José Pombeiro e Soldados Armindo Paulino, António Lopes, Lamine Turé, Mama Baldé e Saliu Baldé.
Esta Secção atravessou a bolanha sob fogo IN e com apoio aéreo dos T-6 chegando ao outro lado da bolanha às 12H45. As 15H00 os Dest A e C tinham atravessado a bolanha e preparavam-se para progredir em direcção ao acampamento IN. Antes de iniciarem a progressão teve de se rebentar uma armadilha A/P, constituída por uma granada do LGF. Os dois Dest A e C atingiram a clareira de Sinchã Jobel pelas l6H40, onde se estabeleceu que o Dest C reforçado por um Gr Comb do Dest A, comandado pelo Alf.Mil. Leite Rodrigues, iria fazer o ataque ao acampamento IN pelas 17H00, caiu-se numa emboscada montada pelo IN. Tentou-se anular a emboscada, que seria conseguido senão fosse a hora tardia, a incapacidade de duas armas pesadas (LGF e MORT 60) e algumas G-3 encravadas do Dest C.
Outra razão talvez decisiva e que fez com que as NT não calassem a emboscada foi o facto de o Dest A não ter envolvido o IN devido ao fogo cerrado do morteiro 60 e 82 do IN. Além destas armas, o IN possuía armas automáticas individuais, 3 MP [metralhadoras pesadas] e alguns lança rocketes ou LGF (Não sei precisar). Uma das MP foi calada pelo nosso LGF. Vários contras para nós surgiram durante a emboscada: O nosso bazuqueiro (passe o termo) Soldado Agostinho Camará que estava a fazer um fogo certeiro, foi atingido mortalmente (note-se que este LGF era o único que estava a fazer fogo). Foi o Soldado enfermeiro Alípio Parreira que se encontrava próximo e que estava a fazer fogo com a ML MG-42 (para a qual o referido soldado se oferecera como voluntário) pegar no LGF e continuar a fazer fogo com ele. Nesta altura tive que pegar na MG-42 e fazer fogo com ela. Logo a seguir tive que me dirigir à rectaguarda a fim de falar com o PCV que me chamava. Quando regressei à frente verifiquei que o já referido soldado enfermeiro recomeçara a fazer fogo com a ML MG-42 e que passado mais alguns momentos ficou impossibilitado de fazer fogo devido a uma avaria, ao mesmo tempo que o soldado enfermeiro e o municiador eram feridos por estilhaços. Mesmo assim este soldado enfermeiro veio para a rectaguarda, onde agarrou no morteiro 60 e continuou a fazer fogo com o mesmo. Foi-me impossível continuar o ataque ao acampamento IN, em virtude de se terem esgotado as munições que levava, as armas pesadas não funcionarem, a noite já ter caído por completo e desconhecermos o terreno.
Deve notar-se, contudo, que nesta altura já o IN dava sinais de fraqueza e, segundo alguns soldados nativos que se encontram juntamente comigo na frente, estarem a gritar que tinham que fugir.
Para retirar, pedi auxilio ao Dest A que foi à frente, permitindo que o Dest C retirasse para fora da zona de morte, donde protegeu a retirada do Dest A.
Já fora da zona de morte, verifiquei que não se tinham trazido os mortos, pelo que enviei novamente à zona de morte alguns soldados para os trazerem. Tal não foi possível, visto estarem armas automáticas do IN apontadas para o local onde se encontravam os corpos. Ainda foram abatidos a tiro de G-3 dois elementos IN, um destes pretendia agarrar o Soldado Armindo Correia Paulino, quando este estava a arrastar um dos nossos mortos para a rectaguarda e que se salvou devido ao aviso oportuno do soldado Saliu Baldé e que permitiu ao primeiro soldado citado abater esse elemento IN, ao mesmo tempo que o soldado citado abatia um segundo elemento IN, que se encontrava armado e estava a proteger o outro elemento IN abatido.
Seguidamente efectuou-se a retirada (e friso mais uma vez que esta teve de ser feita devido ao Dest C ter esgotado as munições e as armas avariadas), tendo o IN vindo em nossa perseguição até à bolanha onde os últimos elementos a atravessá-la (o Dest C) foram alvejados por rajadas de armas automáticas. Após a travessia da bolanha verifiquei que o Dest B já não se encontrava em Sucuta. Os Dest A e C atingiram SARE MADINA pelas 02H00 de 17, onde aguardaram viaturas do Dest C que os transportaram para GEBA, tendo uma viatura do Dest C seguido para Bafatá com os feridos mais graves.
Resultados obtidos:
-Baixas sofridas pelo IN: - Mortos confirmados 8 e baixas prováveis numerosas.
-Foi destruída uma armadilha A/P e destruída ou danificada uma MP.
Comentários:
O plano de acção inicial não foi cumprido. Se tivesse sido, o acampamento IN teria sido destruído porque o Dest A conseguiu chegar a 50 metros do acampamento IN sem ser detectado.
Nota:
Em 27 de Agosto de 1967 foi recebida uma noticia C2 em que referia que o IN tinha sofrido 54 mortos e muitos feridos ainda não controlados.
As NT tiveram tarefa bastante penosa no regresso devido a terem que transportar 12 feridos graves e 22 ligeiros por as evacuações não poderem ser feitas de Helicóptero durante a noite.
Publicada por
A. Marques Lopes
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17:08
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18-Op. Jacaré
Entre os feridos estiveram o alferes Reis, com menos gravidade, e o alferes Maçarico, gravemente ferido e que teve de sr evacuado para o HMP.
Op. Jacaré. 16 de Setembro de 1967
Situação particular:
Situação particular:
O IN tem-se revelado em operações realizadas nos regulados de Mansomine. Possui um acampamento forte em Sinchã Jobel que serve de base para as suas acções.
Missão:
- Assegura a ocupação do sector, tendo em atenção os regulados da faixa Oeste e as linhas de infiltração que conduzem ao interior.
- Detecta, vigia ou captura elementos ou grupos suspeitos de subversão que se hajam infiltrado ou constituído no sector, impedindo que a subversão alastre.
- Captura ou aniquila os rebeldes que se venham a revelar, destruindo as suas instalações ou meios de vida e restabelece a autoridade e a ordem nas regiões afectadas.
Força executante:
CMDT: Cp.Inf.Manuel Correia dos Santos Luís
MEIOS:
DEST A - CCAV 1650 (-); CART 1690 (2 Gr Comb); CCAÇ 1685 (1 Gr Comb); PEL MIL 111/C MIL 3
DEST. B - 01 PEL REC/EREC 1578.
DEST C - 2 Gr. COMANDOS.
DEST D - 1 Gr. Comb /CCS/BCAÇ 1877.
DEST E - 1 Secção / AML 1143.
DEST F - 1 Secção / AML 1143.
DEST A - CCAV 1650 (-); CART 1690 (2 Gr Comb); CCAÇ 1685 (1 Gr Comb); PEL MIL 111/C MIL 3
DEST. B - 01 PEL REC/EREC 1578.
DEST C - 2 Gr. COMANDOS.
DEST D - 1 Gr. Comb /CCS/BCAÇ 1877.
DEST E - 1 Secção / AML 1143.
DEST F - 1 Secção / AML 1143.
Desenrolar da acção:
Em 16 de Setembro de 1967, pelas 6H30, o Dest A menos o PEL MIL /C MIL 5 deslocou-se em meios auto em direcção a Cheüel. Após a saída de Geba uma viatura avariou, sendo o pessoal distribuído pelas outras viaturas que constituíam a coluna.
Cerca das 08H00, uma mina anti-carro destruiu a terceira viatura da coluna a 100 metros de Chüel, projectando os ocupantes, dos quais 8 foram evacuados por Heli para o Hospital Militar 241, tendo os restantes ficado em condições de não prosseguir a operação, o mesmo acontecendo, com outros que ao saltar das viaturas se haviam magoado.
Montada a segurança aos feridos e viaturas, procedeu-se a escolha e preparação do campo de aterragem para o Heli que imediatamente fora pedido pelo PCV [posto de controlo volante] que na altura nos sobrevoava. Posta a situação ao PCV, quanto a baixas, foi ordenado ao Dest A para regressar ao quartel depois de evacuar as viaturas, e onde chegou pelas 17H00.
Devido à quebra do segredo foi ordenado pelo CMDT AGRUP 1980 o cancelamento da operação.
Cerca das 08H00, uma mina anti-carro destruiu a terceira viatura da coluna a 100 metros de Chüel, projectando os ocupantes, dos quais 8 foram evacuados por Heli para o Hospital Militar 241, tendo os restantes ficado em condições de não prosseguir a operação, o mesmo acontecendo, com outros que ao saltar das viaturas se haviam magoado.
Montada a segurança aos feridos e viaturas, procedeu-se a escolha e preparação do campo de aterragem para o Heli que imediatamente fora pedido pelo PCV [posto de controlo volante] que na altura nos sobrevoava. Posta a situação ao PCV, quanto a baixas, foi ordenado ao Dest A para regressar ao quartel depois de evacuar as viaturas, e onde chegou pelas 17H00.
Devido à quebra do segredo foi ordenado pelo CMDT AGRUP 1980 o cancelamento da operação.
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
16:26
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