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9 de dezembro de 2010

11-Sei que matei

Fui mandado e disseram-me antes:
“É assim, vais ter que matar e até podes morrer, pode suceder, depende de ti.”
Não me convenci disso, porque nunca na minha vida tinha querido matar alguém e nunca quis morrer, sempre desejei viver. E, já lá na guerra, fui vendo alguns morrerem sem que quisessem, só porque tinham sido enviados para aquela operação, só porque os colocaram naquele posto ou naquela viatura, não dependeu deles. Eu, como quase todos, disparei muito a G3 em operações e emboscadas, mas nunca soube se ficou alguém morto por mim no meio daquela mata ou atrás daquelas árvores. A maior parte das vezes nem os víamos.
Mas, naquelas operações para tomar a base do PAIGC verifiquei, infelizmente, que era assim como me tinham dito. Foram duas companhias de intervenção e o meu pelotão, da companhia de quadrícula, foi-lhes agregado.
A primeira operação não correu bem. As primeiras emboscadas fizeram-na à companhia da frente. Dei indicação ao meu pelotão, que estava a meio, que entrasse pela mata para fazer um envolvimento. Fui á frente e, a certa altura, disse-me o Lamine, meu guarda-costas, “estão ali turras”. E estavam lá. Apontei, sempre fui bom atirador, mas, horror em matar, apontei baixo e acertei na perna dum deles. Corremos, mas eles fugiram arrastando o ferido. Complicada aquela mata. Foram três dias de marchas entre árvores e várias emboscadas. Destruímos umas casas de mato, mas não chegámos ao acampamento. No terceiro dia encostaram-nos ao rio Camjambari. Disse-me o capitão comandante da operação:
“Ó Aiveca, tenho aqui os meus homens organizados, vá você ver se fura o cerco.”
Lá fui. Vi um e disparei, ouvi-o gritar “ai o cú!”. Não o matei, pensei. Depois e muito tiroteio, levei porrada e tive de voltar para trás. Passado tempo disse-me para ir tentar novamente. Fui e levei porrada novamente, com a agravante de um soldado meu ter levado um tiro nas costas, dos do capitão, que também começaram a disparar. Passado tempo, disse-me para ir novamente furar.
“Não vou mais, meu capitão. Viu o que aconteceu há pouco. Além disso está visto que não dá. Não é melhor chamar os T6?”
Reconsiderou. Vieram os T6, despejaram umas bujardas à volta e lá nos safámos.
A outra a seguir foi com os mesmos. Não foi diferente quanto às andanças na mata e às várias emboscadas, mas houve alguns feridos nossos desta vez. O comandante, ao terceiro dia, optou por nova táctica: deixar uma companhia a levar porrada a sul da base e, à socapa (a mata era cerrada), foi com a dele mais o meu pelotão para oeste, virando para norte e atacando pelo lado do rio Camjambari. Entrámos de repente, o grosso deles estava entretido com a outra companhia, havia lá três ou quatro que tentaram reagir mas foram abatidos pela companhia, o meu pelotão entrou por uma barraca coberta de colmo. Estava lá uma rapariga que agarrou numa kalashnikov. Gritei-lhe:
“Firma lá!” (está quieta!).
Mas ela apontou-me a arma. Despejei-lhe uma rajada na barriga, caiu no chão. Fiquei primeiro estático a olhar para ela. Era bonita. Virei-me, mandei a G3 para o cão e gritei furioso:
“Merda!”.
Os meus soldados olharam para mim espantados. Um furriel disse-me:
“Olhe que ela matava-o”.
Havia várias carteiras, á minha frente um quadro preto com um desenho a giz branco de um vaso de flores. Por baixo tinha escrito, também a giz branco, “Um vaso de flores”. Dei depois com o 1º cabo Paulo em cima da rapariga agonizante e a levantar-lhe o vestido. Ainda a tremer fui-me a ele, dei-lhe um murro e uns pontapés:
“Eu dou cabo de ti, grande cabrão!”
Veio o capitão, olhou para tudo, disse que era preciso ir fazer uma revista àquilo tudo, que os gajos tinham largado a outra companhia, tinham-se pirado. Vi o guia ao pé dele e perguntei-lhe se sabia quem era aquela rapariga no chão.
“É a professora, a Abess, manjaca”, disse-me ele
Encontrámos muita coisa. Ao sairmos pegámos fogo a um armazém de munições, que esteve a rebentar durante vários minutos enquanto nos afastámos.
Aquela morte que sei não me tem saído da cabeça..

8 de dezembro de 2010

10-Inquietar II



OP."INQUIETAR II" 4 a 7JUL67

SITUAÇÃO PARTICULAR
Ha noticias que o IN. tem um acampamento em CANJAMBARI, além de outros espalhados pela nata do 010. Tem-se revelado durante operações realizadas e implantado engenhos explosivos nos itinerários.
MISSÃO
Executar uma acção em força sobre o acampanento IN de CANJAMBARI e a coordenação com forças do AGRP. 1976.
FORÇA EXECUTANTE
DEST. "A"
-C.CAÇ. 1685 - Cap.Raiano
-01GR.COMB. CART. 1690 - Alf. Lopes
-01 Sec. C.MIL. 3
DEST. "B"
-CART. 1689 - Cap. Maia
-01 PEL.(-)/C.MIL.3
DEST. "C"
-01 PEL. EREC 1578
DESENROLAR DA ACÇÃO
04JUL67
Concentração das forças em BANJARA pelas 17H00
05JUL67
Pelas 00H00 iniciaram o movimento em direcção a SAMBA CTJLO (050.0p.) seguindo o itinerário BANJARA - GENDO - TAMBICÓ - SAMBA CULO. Pelas 07H00 atingiram GENDO. um pouco à frente desta antiga tabanca, pelas 08H00 foi detectado um grupo IN o qual tentaram cercar e capturar, só ão o conseguindo por alguns elementos da Milícia na testa da coluna, que não entenderam a manobra, terem aberto fogo pondo-os em fuga. Entretanto foram avistadas 2 casas de mato (010 OP), que foram destruídas bem como diversos utensílios domésticos. Retomado a progressão e cerca das 11HOO foi detectado um núcleo de 10 casas de mato (050 OP), incluindo uma escola com vinte carteiras, tendo sido totalmente destruídas pelo fogo. Retomado a progressão e ainda perto deste último acampamento, as NT emboscaram um grupo IN não estimado do qual foi capturado um elemento portador de uma faca de mato. Reiniciado a progressão, TAMBICÓ (Base de patrulhas) foi atingida às 14H00. Junto a base de patrulhas pelas 14H20, um grupo IN que seguia em coluna por um, detectou as NT abrindo fogo e tendo ferido um Soldado, pondo-se em fuga pela reacção das NT. Pelas 14H45 saiu um grupo de combate em patrulhamento ao longo do R. CANJAMBARI e regressou sem contacto. Pelas 15H20 um grupo IN estimado em 30 a 40 elementos atacou a base de patrulhas com mort. 60, LGF, PM e Armas Automáticas, durante 15 minutos sem consequências. Os T-6 que nessa altura sobrevoavam a base de patrulhas para protegerem o HELI na
evacuação do ferido, fizeram umas rajadas sobre o grupo IN. Nessa altura foi evacuado em HELI para o H.M. 241 o soldado ferido na acção IN anterior. Pelas 17H00 saiu um outro grupo de combate para fazer o reconhecimento do itinerário TAMBICO - SAMBA CULO. Percorridas apenas algumas dezenas de metros, foi emboscado por um grupo IN de cerca de 60 elementos armados de mort. 60, LG-F, PM e Armas Automáticas, tendo ferido 2 soldados, evacuados mais tarde para o H.M. 241, por HELI. Juntamente com a emboscada o IN flagelou a base de patrulhas com 2 granadas de mort. 60. Perante a reacção das NT o IN furtou-se ao contacto com baixas prováveis.
06JUL67
Cerca das 11H20, orientado pelo PCV iniciou-se a progressão em direcção ao acampamento de SAMBA CULO (050.OP.), tendo atingido pelas 15H20. O IN, que estava instalado do lado SUL do acampamento e que tinha reagido fortemente impedindo o Dest. B de entrar no acampamento, reagiu à manobra de envolvimento e assalto ao acampamento com Mort. 60 e PM, tendo ferido dois soldados, evacuados posteriormente para o H.M. 241 por HELI. O IN, apercebendo-se do cerco que se preparava, furtou-se ao contacto tendo as NT assaltado e destruído o acampamento composto por 30 casas de mato, sendo algumas cobertas a zinco. Foram destruídos também alguns utensílios domésticos. Já no regresso o guia conduziu as NT a uma arrecadação de material, que o destacamento B conquistou tendo capturado todo o armamento lá existente. Capturado o material foi destruída a arrecadação ouvindo-se então fortes rebentamentos de cartuchos e granadas que se prolongaram por 50 minutos. Retomado a progressão de regresso para BANJARA as NT por alturas de FARIM 8H8-44, accionaram uma armadilha tendo ficado ferido um elemento do Dest B.
07JUL67
As NT atingiram BANJARA pelas 05H00 após o que regressaram a quartéis. A operação terminou às l6H530.
RESULTADOS OBTIDOS
-Foi capturado armamento IN.
-Foram mortos, feridos e feitos prisioneiros elementos IN.
-Foi destruído diverso material e utensílios donéstico.
-Foram destruídos cerca de 10.000 munições e diverso material explosivo algum do qual se supõe encontrar-se enterrado, dado a violência das detonações.

9-Inquietar I




OP. "I N Q U I E T A R l" 9 a 15JUN67


SITUAÇÃO PARTICULAR
Há noticias de que o IN tem um acampamento em CANJAMBARI além de outros espalhados pela mata do 0I0. O IN tem-se revelado durante operações rea lizadas e implantado engenhos explosivos nos itinerários.
MISSÃO
Executar uma acção em força sobre o acampamento IN de CANJAMBARI em coordenação com as forças do Agrupamento 1976.
FORÇA EXECUTANTE
-DEST. "A"
-CCAç. 1685
- 01GR. COMB. CART. l690
-01 PEL.MIL./C.MIL 3
-DEST. "B"
-C.CAÇ. 1689
-01 Sec. (+)C.MIL.3
-DEST."C "
-C.CAÇ. 1501 - ( l GR. COMB.)
-C.CAÇ. 1499 - ( l GR. COMB.)
-02 Secções C.MIL. 2
-01 Secção C.MIL.4
DESENROLAR DA ACCÃO
09JUN67
Os destacamentos A e B deslocaram-se em meios auto de FÁ para BANJARA. Devido à falta da viaturas militares para os transportar houve necessidade de recorrer a requisição de viaturas civis, utilizadas apenas no troço FÁ - SARE BANDA. A concentração das forças em BANJARA foi morosa, pois teve que se fazer por escalões. Iniciada pelas 07H00 terminou pelas
l6H0010JUN67
Pelas 02H00 os destacamentos A e B iniciaram juntos o movimento para CASA NOVA que atingiram pelas 06H00. Pelas 06H50 as NT abriram fogo sobre 2 elementos desarmados tendo abatido l e ferido outro num braço, quando tentavam a fuga. Interrogado este revelou a existência de una tabanca nas proximidades, localizado depois em BANJARA 2A4. Pelas 13H50 atacaram este objectivo que o IN abandonou precipitadamente. As NT destruíram 10 casas de mato, depois de terem passado revista e capturado uma longa, roupas e utensílios domésticos. Pelas 12H30 as NT atingiram GENDO, utilizando o prisioneiro como guia, onde pararam para comer. Em exploração das declarações prestadas pelo guia os CMDTS. DEST. A e B que estavam juntos dicidiram seguir a corta nato para SAMBA CULO, durante a noite, se até iniciarem a progressão não fossem detectadas. Pelas 13H00 ouviram l tiro isolado do lado NW, que lhes pareceu de reconhecimento, pelas 14H40 um GR. IN estimado em 15 a 20 elementos flagelou durante cerca de 20 minutos com armas aut. PM, LGF, e Mort. 60, a posição onde as NT se encontravam, mas sem consequências. O Comandante do Dest. B dicidiu então, como medida de decepção desviar-se para BANJARA 5A5 e daqui progrediu durante a noite em direcção a SAMBA CULO. Pelas 17H30 as NT já se encontravam em andamento quando ouviram o rebentamento de duas granadas de mort. 60 no local onde estacionaram. Cerca das 18H00 as NT avistaram 2 elementos dos que seguiam em direcção às NT. Ao detectá-los internaram-se no mato. Momentos depois ouviu-se o lançamento de 1 granada de Mort., tendo as NT avançado imediatamente sobre a posição onde se supunha estar instalada a arma. Assaltado o acampamento foram capturadas 2 longas, destruídos numerosos artigos e utensílios domésticos, roupas, alimentos, catanas, bicicletas e destruídas 50 casas de mato, acampamento de CAMBAJÜ situado em BANJARA, 3CL. O CMDT. DEST. B dicidiu então atravessar a bolanha do R. GAMBAJU, para passar a noite em BANJARA 3EL e progredir depois sobre SAMBA CULO.
11JUN67
Pelas 05H00, debaixo de chuva torrencial as NT progrediram ao longo do R. CAMBAJU, seguindo o Dest. B à frente. Pelas 08H00 o Dest. B capturou 1 elemento IN, que explorado levou as NT a destruir outro acampamento. Cerca das 12H00 o PCV entrou em contacto com o Dest. B, que lhe solicitou que sobre voasse o Dest. C que necessitava da sua presença e voltasse depois. Em vão o PCV tentou contactar de novo com o Dest. A e B. No resto da manhã e durante a tarde de 11JUN, pelo que não foi possível reabastecê-los como estava previsto, apesar de todos os esforços de ligação do PCV, dos T-6 e HELI. Finalmente pelas 17H50 conseguiu o PCV contactar com o Dest B, que pedia a evacuação de 1 ferido, evacuado momentos depois por um HELI. no seu regresso a Bissau, depois de feito o reabastecimento do Dest. C verificou-se que os Dests. A e B se encontravam por região do ponto 38 (BANJARA 2D4) e dado o estado precário do pessoal, pediu autorização para retirar o que lhes foi negado,
12JUN67
Pelas 08H00, como o PCV não aparecesse e os Dest. A e B não tivessem sido reabastecidos os Cmdts. dos Dests. decidiram progredir para SW, tendo atingido BANJARA pelas 09H00 altura em que surgiu o PCV e lhes comunicou que de BAFATA saíra uma coluna com os reabastecimentos e com as instruções a cumprir durante o dia 12 e na noite de 12/13JUN. O Dest. A recebeu ordem de montar emboscadas sobre o itinerário BANJARA - MANTIDA e o Dest. B recebeu ordem de montar emboscada por região de BANTAJÃ, mas que não resultaram.
13JUN67
Iniciado o regresso, os Dest. A e B chegaram a FÁ pelas 12H50.

8-O destino

Mais arranjados, mas em paço lento, desencontraído, e arrastando as tralhas pessoais, foram-se chegando às viaturas. Desta vez não foi o ranger, já subira estoicamente e estava a arrumar a sua bagagem encostada aos taipais, fui eu que me preocupei:

“Vamos só nós, sem nada?”
“O capitão Palmeira vai mandar dois pelotões dele em Unimogs e devidamente armados para ir connosco, além disso, nosso alferes, aqui nesta zona não há problemas”, sossegou-me o Braga.
“ Ah, bem.”
Mais resignação que concordância. O Zé Pedro e o Aprígio esfregavam os olhos e bocejavam.
A coluna avançou, com os Unimogs dos velhinhos, ordenados e atentos, à frente e atrás, os novatos, à molhada e apreensivos, no meio. Foi uma viagem mais cansativa do que a que tínhamos feito pelo rio, o balanço suave da lancha avançando na serenidade da água não tinha nada a ver com os solavancos das viaturas naquelas estradas maltratadas, além de que a noite no barco fora calma apesar da expectativa e a anterior, em terra dura e de mosquitos, deixara traços de stress, cansaço e desejos de melhor. A paisagem era idêntica, mas enquanto as verduras que afagavam o Geba estreito me pareceram belas e incutiam serenidade, fazendo esquecer os receios provocados pelo homem da metralhadora, estas não. Estas acompanhavam os caminhos, mas longe, porque vi que tinham sido cortados os arbustos e as árvores das bermas nuns bons dez metros, fazendo com que a coluna parecesse uma minhoca desesperada à procura de um buraco e gerando a todos interrogações sobre o que estaria por detrás das árvores à vista. A noite não ajudara à boa disposição.
Parámos numa povoação. Havia lá pretos mas a maior parte dos presentes eram brancos de camuflado, esfusiantes de alegria e a bater palmas. O capitão levantou-se, virou-se para trás e gritou:
“Chegámos, é aqui. Saltem das viaturas e formem por pelotões.”
E ele saltou logo, tinha dormido bem e comido melhor. Houve alguns que também saltaram, por exemplo o ranger, mas a maior parte foi descendo cuidadosamente para não cair.
“São os gajos que viemos render”, disse o Castro.
“Não hão-de estar contentes não, vão-se ver livres disto, pudera”, acrescentei.
O Zé Pedro, que ascendera à categoria de segundo comandante por, entre os agora alferes, ser o que teve nota mais alta no COM, ordenou:
“Companhia formar! Sen-up!”
Deu uma meia-volta impecável, disse:
“Apresenta-se a companhia”, fazendo continência ao capitão.
Este murmurou qualquer merda que ninguém percebeu. O Zé Pedro deu nova meia- volta e comandou:
“Companhia, scan-sar! À-vontade.”
Leu-se na cara de todos “uf! ainda bem!”
“Já estou farto destas paneleirices”, pensei.
Por causa destas tretas ia-me lixando quando estava a dar instrução aos gajos que vieram comigo para a guerra. Um dia puseram-me de Oficial de Dia e tive de entrar lá numas cerimónias com espada e tudo. Daquela vez, ainda por cima com a espada, armei uma grande barracada em plena parada. Apesar dos montes de ordem unida em Mafra, isto sempre me chateou, um dia até dei um murro noutro cadete que me empurrou parvamente na formatura.
Ouvi o Braga falar. Dizia ele:
“Vão tirando as tralhas das viaturas e fiquem aqui, que eu vou ali ter com o comandante da companhia que viemos render e depois falarei com os nossos alferes. O primeiro-sargento vai receber as armas e todo o material que ficará agora à carga da nossa unidade.”
E foi. Deu para observar aquilo que nos rodeava, os velhinhos misturaram-se curiosos.
“Donde és, em que unidade tiveram instrução, como é que foi, como é o capitão.”
“Este sítio como é?”, perguntavam os chegados.
“Isto aqui não é muito mau, só morreu um gajo dos nossos, mas porque foi burro e caiu numa armadilha nossa, demos muita porrada nos turras, mas há sítios piores, e felizmente vou-me embora porque já estava farto, estou com uma vontade de saltar para cima da minha namorada, vocês aqui vão ter umas bajudas, mas não é a mesma coisa”.
“Mas o que é uma bajuda?”
“São as raparigas novas. Há muitas. As lavadeiras também servem, uma ou outra dá tudo, mas umas é só brochadas e punhetas.”
Cagança para novato ouvir. Abriam os olhos e sonhavam, não é nada mau, vá lá. Havia uma rua única com algumas casas nas bermas com telhados de zinco e várias palhotas mais fora cobertas de palha. Mais abaixo, no interior, uma igreja.
“Fomos nós que a construímos, não percebo para quê pois nunca cá veio padre nenhum.”
Mais longe, á direita e numa pequena elevação, um edifício longo e baixo de cimento.
“É o quartel novo, foi construído há pouco tempo.”
À volta disto tudo havia mata e grandes árvores, lá ao fundo via-se o rio. O recém chegado 1º cabo Armindo, da Caparica, olhou embevecido e exclamou:
“Olha uma praia!...”
“Não é nada, pá, é uma bolanha, aparece quando a maré está baixa.”
O Armindo calou-se e ficou a pensar o que é que a maré tinha a ver com aquela terra ali no meio do mato. Não disse mais nada, a velhice explicava tudo, e os periquitos acatavam-na porque sempre é um posto.
Quando regressou da conversa com o outro, o capitão chamou os alferes, foi um briefing de pé.
“Estes gajos vão-se embora ainda hoje nas viaturas que nos trouxeram, e nós temos muito que fazer, a nossa companhia vai ficar aqui em quadrícula.”
“Mas que é isso de quadrícula?”, perguntaram todos.
“Vamos ficar dependentes de um batalhão que está na cidade mais próxima, a cerca de 30 km, e quer dizer que vamos ocupar uma área, que até nem é pequena, que fica à nossa responsabilidade. A sede fica aqui, mas há três destacamentos, dois um bocado longe e um mais perto.”
“Não vamos ficar todos aqui?”
“Claro que não, é evidente.”
Os alferes ficaram de monco caído.
“O Zé Pedro fica cá, porque é o segundo comandante. O Aiveca também, é ele que vai fazer as ligações com os destacamentos e fazer os patrulhamentos na nossa zona. O Castro vai para um dos destacamentos mais longe, o Aprígio vai para o outro, e uma secção do Zé Pedro vai para o que está mais perto, mande a do furriel Arménio, nosso alferes”.
Fiquei macambúzio.
“Ó meu capitão, desculpe lá, mas não estou a entender. O Castro é que é de operações especiais, é o homem indicado para as andanças por aí, acho que ele até gosta disso, não é, pá? O Aprígio é de minas e armadilhas, ele é que podia ir fazer as ligações, sempre me disseram que há montes de minas nas estradas da Guiné…”
O Zé Pedro estava calado, tudo bem para ele O Castro e o Aprígio aprovaram.
“Está decidido assim, tem que ser. Não é como você pensa, isto tem de ser pensado doutra maneira.”
Ninguém perguntou qual, e ele também não disse.
“Alferes Castro e alferes Aprígio, metam os vossos homens com o que é deles nas viaturas. Zé Pedro diga ao Arménio para meter a secção dele. Vão furriéis destes gajos para lhes indicar o caminho, têm de ser rápidos porque aquele pessoal de lá já está à espera para se vir embora.”
Foram cumprir as ordens e o Braga ficou a ver o andamento das coisas. Cheguei-me ao meu pelotão e disse-lhes:
“Eles vão para destacamentos e nós vamos ficar aqui na sede da companhia.”
“Eh, porreiro!”. Satisfação geral, sorrisos.
“Não sei se vai ser tão bom assim.”
“Mas aqui há bajudas!”, os olhos do Fragoso riram-se de satisfação. O Paulino bateu palmas.
“É bom”, disse o furriel Ramiro.
Os outros sorriram-se também. O furriel Martins disse que tinha falado com um tipo que também era da Covilhã e ele lhe tinha contado que nunca tiveram problemas de maior.
“Tá bem, vão pensando nisso. A ver vamos, como dizia o cego.”
“Pessimismo, meu alferes?”
“É pá, não é nada disso. É que os dois anos deles já passaram, nos próximos nós é que vamos cá ficar, e sabe-se lá como vão ser”.
O capitão e o alferes Zé Pedro chegaram-se ao grupo e já as GMC estavam a arrancar. Alegres acenos dos que ficavam. Mais ténues os daqueles que partiam, cara cerrada.
“Esta merda das viagens nunca mais acaba”, queixavam-se.
“Os furriéis que levem os vossos homens para cima, para o quartel, é onde estão a caserna, a cozinha e o refeitório, ficam todos lá.”
Virou-se para mim e para o Zé Pedro depois:
“ Ali, estão a ver aquelas duas casas cercadas de arame farpado, vamos ficar nós. Naquela primeira fica a secretaria, na outra são os nossos quartos. Vamos levar as nossas coisas e vamos lá ver aquilo.”
Os primeiros-sargentos, da anterior e da actual, já estavam a falar ao pé da secretaria. Esta tinha uma sala com duas secretárias e um cubículo anexo onde era a casa de banho. A outra casa tinha dois quartos e uma casa de banho também. Nas traseiras das duas, um pequeno descampado, separado de umas palhotas com arame farpado.
“Neste quarto aqui fico eu”, disse o capitão, “Naquele ficam vocês os dois.”
As casas não tinham janelas, só portas.
“É para não entrar nada pelas janelas, sabe-se lá…”, explicou o Braga, e convidou, depois de arrumadas as coisas de cada um:
“Vamos ali ao bar beber um copo.”
Já tardava. Disto é que ele sabia muito, era perito. E aprendi muito com ele, é verdade. Aos fins-de-semana, depois da instrução da companhia, dava-me boleia até Lisboa no seu Alfa Romeo e tive grandes noitadas na Cave, no Comodoro, na Taverna Imperial, bebidas, mulheres…e eu disso sabia pouco ou nada… no seminário não dava, e depois cá fora também não deu.
O bar ficava por trás daquelas casas, era uma barraquita muito pequena coberta de colmo, com um balcãozito que só dava para três.
“Não está cá ninguém. O barista da outra companhia deve estar a preparar-se para ir embora, mas isto agora é nosso. Os primeiros-sargentos estão a tratar. Whisky simples ou com água?”
“Com água”, disseram os alferes.
“Então estão aqui as perriers, é melhor que a castelo.”
Ficaram a conhecer as garrafinhas verdes da água perrier. O capitão foi bebendo e falando.
“Quando chegarem os dos destacamentos estes gajos vão-se embora. Temos de montar guardas lá em cima no quartel e aqui em baixo. O primeiro-sargento há-de fazer as escalas. Você, Aiveca, amanhã vai comigo até à sede do batalhão, tenho de falar com o tenente-coronel.”
“Tá bem, vou avisar os furriéis”
“Não é preciso, é aqui a trinta quilómetros.”
“Sozinhos?!”
“Não há problemas, vamos só nós.”
Este sacana quando bebe passa-se dos carretos, pensei eu, mas não disse nada. Fomos, depois, para os quartos.
“Belas camas”, e assentei-me.
“ É como as mulheres, quando estamos à rasca qualquer uma serve”, e o Zé Pedro esticou-se ao comprido.
“Não é bem assim.”
“ Ai não, não é. Ó filho, não percebes nada.”
“Talvez não.”
“ Mas ouve lá, vocês são malucos, irem-se meter por aí sozinhos, é arriscado.”
“O que é que queres, o gajo é que manda." Virei-me para o lado, não deu para mais conversa. O cansaço e o whisky venceram.
Parecia-me que tinha acabado de me deitar, que ainda era noite. Mas não, já era dia quando a porta se abriu e o capitão nos acordou.
“Temos de ir embora, Aiveca. Zé Pedro, você fica a mandar nisto, vá ver se está tudo bem no quartel e se o primeiro pôs a secretaria a funcionar, veja se está tudo nos conformes e a andar. Nós só voltamos depois do almoço.”
Já estava um jipe pronto, entrámos nele, cada um com a sua G3. O Braga foi a conduzir, passámos por um grupo de palhotas e metêmo-nos à estrada. Não se podia chamar tal, era uma picada muito má, a paisagem já não era novidade, árvores e erva muito alta à volta. A viatura ia aos solavancos.
“Ó capitão, ainda não percebi porque é que fui eu que fiquei na sede da companhia e não o Aprígio ou o Castro, acho que eles são mais capazes do que eu para aquilo.”
“É pá, para o que eu quero e é preciso não são, não é nenhum deles. O Castro é um bocado emproado e senhor do seu nariz, tenho receio que disparate coisas que eu não quero, o Aprígio é demasiado calmo, um bocado mosca morta, também não dá.”
“Mas eu não sou muito diferente deles, em certos aspectos.”
“É pá, mas eu já te conheço bem, deu para isso nas nossas andanças pelos bares de Lisboa… és um bocado nabo com as mulheres, mas isso para aqui não interessa nada. Eu tenho de ter alguém em que possa confiar plenamente para me dar segurança.”
“Mas eu acho que quer o Aprígio quer o Castro são seguros e não vão borrar nada.”
“Talvez, mas é em ti que eu tenho mais confiança.”
Foi uma viagem de poeira e buracos mas chegámos, sem problemas, de facto. Em ponto pequeno, mas parecia uma cidade. Fomos dar uma volta, tinha um mercado de paredes castanho avermelhado, algumas casas tipo colonial, outras normais, branco escuro do pó e da soalheira, um complexo com piscina e vista sobre o rio. Não era Lisboa, nada que se parecesse, muitíssimo longe, mas não desgostei. Bom para quem só tinha visto água e mato nos últimos dias.
“Só daqui a meia hora é que tenho que ir falar com o comandante do batalhão, agora vamos ver um amigo que tenho aqui.”
Entrámos num restaurante pequeno.
“Olha o Braga”, exclamou um sujeito pro-gordo e careca que estava atrás do balcão.
“Cá estou de novo, grande Coelho”, e o capitão abraçou-se a ele.
“Outra vez?”
“É, mas agora é diferente, venho comandar uma companhia. Este aqui é um dos alferes.”
“Ah, tá bem. Vão uns camarõezitos?”
“Venham eles. O Alberto anda por aí? Queria falar com ele”
“Tá aí, tá. Ó Mamadu”, virou-se para um preto que estava lá,” vai dizer ao senhor Alberto que está aqui o capitão Braga e quer falar com ele”.
“Sim, patrão”.
Apareceu depois um tipo baixo, de bigode e cabelo preto, cara de poucos amigos. Ar um bocado soturno, pareceu-me. Sorriu para o capitão e cumprimentaram-se.
“De novo?”
“Mas não é a mesma coisa”, repetiu o Braga.
“Eu sei”, disse o Alberto e juntou-se nos camarões e na cerveja.
Depois de um copo, lançou, com ar sacaninha:
“O Coelho só tem um tomate, tiveram que lhe cortar um”.
“Tive uma merda qualquer, teve de ser. Mas o meu nome diz tudo, pá, continuo em acção. Nenhuma se queixa, nem a minha mulher”.
Virou a cabeça para trás, um bocado atrapalhado, para ver se estava a mulher ao balcão. E estava, tinha vindo para ver os visitantes. Era baixa, um pouco cheia, de cabelos alourados, cara bonita. Viu-se que pensou alguma coisa, mas não disse nada.
“Olá D. Ester”, cumprimentou o Braga.
“Olá, por cá?”
“É verdade, tem de ser”.
Passou algum tempo e estava quase na meia hora.
“Tenho de ir, depois volto cá para almoçar. O alferes Aiveca fica aqui à minha espera, a não ser que queira ir dar uma volta”.
“Não, já vi o que era de ver”.
“Eu não me vou demorar, com certeza”.
“Eu vou também. O tenente-coronel disse-me que vinhas e pediu-me para ir contigo”.
“Bora, então, Alberto”.
E eu fiquei, agarrado ainda aos camarões e a uma imperial. Estava intrigado sobre quem seria aquele gajo. Não estava fardado… não compreendia por que é que ia também à reunião com o Braga. O Coelho tinha ido para o pé da D. Ester, conversavam baixo. Parecia explicar qualquer coisa, mas ela dava ar de não compreender, cara cerrada, acabou por se ir embora. Ele voltou para a mesa.
“Os camarões estão bons?”
“Muito bons”.
Agarrou-se também a um bicho e deu-lhe para falar.
“Aquele Alberto é um brincalhão, mas tem sido um elemento muito importante contra os turras”.
“De que companhia é ele?”
“Ele não é militar, é o homem da Pide aqui na zona”.
De camarão em riste, olhei para o Coelho.
“O gajo espreme-lhes os tomates, salvo seja, até eles bufarem tudo cá para fora. Limpou o sebo a muitos que não disseram nada”.
Consegui tragar o bicho mas tive de beber meio copo para não me engasgar.
“Tem de ser, senão estes gajos fodiam-nos a todos. Você até tem sorte porque esta zona está mais ou menos bem, noutros sítios é que está mau, além de que aqui é zona dos fulas. Estão connosco, e o seu capitão já conhece isto, já esteve cá antes”.
“Já?”, manifestei-me surpreso, embora já tivesse percebido isso pelas conversas anteriores
“Esteve aqui na polícia há uns anos”.
Uns pretos assomaram à porta.
“Senhor Coelho, patrão, dá licença?”
“Tenho que ir ver o que é que estes nharros querem. O que é, ó pá?”
Mergulhei na cerveja. Aquele sacana só me dissera que tinha estado na polícia em Lisboa, quando era tenente. Que foi mobilizado depois de ser promovido a capitão. Que lhe tinham dito primeiro que ia para Timor, mas que o tinham fodido quando lhe disseram que, afinal, ia para a Guiné. Nunca me disse que já tinha cá estado. Devia estar mesmo fodido, acredito. A situação não é a mesma quando era polícia… e está explicado este à vontade com os pides.
O Braga e o Alberto acabaram por regressar. Era hora de almoço, e a D. Ester já tinha preparado um belo frango de chabéu, uma delícia que, regado com vinho branco fresquinho, eu nunca tinha provado.
“Muito bom!”, exclamei.
“Aqui há pratos bestiais”, disse o capitão, “e a mulher do Coelho é boa cozinheira, havemos de vir cá mais vezes”.
A conversa foi trivial, entre risos e piadas, mulheres, caju, mancarra, bebidas. A D. Ester, ocupada no balcão, não ouvia nada, ou fazia que. Só o Coelho é que derivou, a certa altura.
“Então como estão as coisas?”
O pide e o capitão trocaram olhares e este disse que estava tudo sob controlo.
Novamente no jipe de regresso à companhia, o capitão abriu-se.
“Temos que nos pôr a pau. Os gajos andam lá na nossa zona.”
Até me admirava se não andassem.

6 de dezembro de 2010

7-Chegada à Guiné


A planície de água amarelenta estendia-se até onde a neblina deixava ver e o ar quente que dela se desprendeu penetrou-me na pele e nos pulmões. 0s olhos não conseguiam ir mais além nesta paisagem fechada. Um sufoco na voz e um suor pelo corpo todo não me deixaram dizer nada quando alguém perto de mim comentou que era o rio Geba, fora atingido pelo espanto e pelo receio que vinham do incógnito, ricocheteando pela água e pelo nevoeiro. Onde é que eu vim parar!...
Lera muitos condores, cavaleiros andantes, mundos de aventuras… mas as perspectivas juvenis que tivera de aventura e emoção diluíram-se naquele ambiente mortiço, apenas apossando-se de mim o sentimento da chegada ao inevitável. Fiquei apreensivo com o que estaria para mais além. Ao pé ninguém se riu, ninguém cantou, ninguém agitou os braços de contentamento, o futuro era aquilo para todos, amarelo e nebuloso. Quedei-me com o olhar perdido, tentando adivinhar o concreto ainda invisível, apenas com o vislumbre que me fora dado em Mafra na especialidade de atirador, e que era para vir matar ou para vir ser morto.
Não mato nem uma mosca nem um mosquito, só os enxoto para não me incomodarem, as abelhas e vespas deixo-as voltear à vontade, esperando que não vejam nada em mim que lhes interesse e sintam que não lhes quero mal, aos gatos e cães só faço festas e atiro comida, até já fui arranhado e mordido mas nunca lhes bati, apenas bato com o pé para ver as lagartixas correrem velozes por entre as ervas, pego no rabo das osgas que vejo nas paredes da minha casa e amando-as pela janela fora. É verdade que, quando estava no seminário, atirei um martelo à cabeça do Jaime, o meu amigo cabo-verdiano, porque nos chateámos e ele me chamou um nome que eu não gostei, mas fiquei contente por não lhe ter acertado e continuámos amigos, e também dei um murro num colega cadete que me empurrou quando estávamos numa formatura em Mafra. Mas nunca me passou pela cabeça matar alguém, nem agora. E morrer, morrer foi um desejo quando seminarista amargurado com os recalcamentos da minha natureza e por causa da pressão da instituição que me amarrava, mas depois disso quero é viver a vida que sonhei, não quero já morrer. É mau matar, e morrer também. Que vou fazer?
A questão do mal menor, evidência da situação imposta, o menos mau quando não há remédio, o dilema de quem não consegue matar uma mosca face aos que vêm do mato a gritar mata, mata, como me disseram?
Não tive tempo de cimentar qualquer ideia, porque veio o capitão e disse que chegava uma vedeta que o ia levar a Bissau, para ir ao QG receber ordens, que os alferes podiam ir com ele, mas que tinha de ficar um em troca com o que estava de Oficial de Dia. Ofereci-me.
“Fico eu, não estou com disposição para andar mais de barco”.
Agora não estava nada para isso, não imaginando, é claro, para o que estava destinado no dia seguinte. A vedeta levou o capitão e os outros alferes, fiquei com todos no “transatlântico” que nos trouxe durante sete dias, o Ana Mafalda.
Ao fim de sete longos e incómodos dias e noites tenebrosas em que se viu só mar, sem gaivotas nem terra à vista, o cargueiro chegou à foz do, então, chamado rio Geba. Eram cinco da tarde e já começava a escurecer. Viam-se ao longe já algumas luzes que, foi dito a todos, era a cidade Bissau. Já nos tinham falado que iríamos parar à Guiné, mas isto do rio e da cidade eram nomes novos. Acabava por ser a visão directa do que tinha sido o vago conhecimento quando me mostravam os mapas na escola e me diziam que era o Império Colonial Português, a que começaram a chamar, mais recentemente, Províncias Ultramarinas. Ali estava a Guiné, uma delas, ficámos todos a saber que tinha uma capital chamada Bissau no estuário do rio Geba. Eram aquelas luzes ao longe.
Fiquei esticado no meu beliche. Já dormitava quando abriram a porta de rompante, vinham excitados.
“É pá, não sabes o que perdeste. A cidade é pequena e não vale nada, só se vêem pretos e tropa por todo o lado, mas tem uns bares porreiros, há marisco e cerveja ao preço da chuva. Não quiseste vir, agora estás feito, o Braga disse que amanhã logo de manhã vamos numa LDM pelo rio acima até ao nosso destino.”
“Feito já eu estou há muito tempo. Sei lá o que é uma LDM… E, já agora, qual vai ser o nosso destino?.”
“É pá, é uma lancha onde nos vão meter a todos, é uma lancha de desembarque, chamam-lhe menor… quanto ao sítio para onde vamos o capitão disse que é sigiloso.”
“Tá bem, caguei, tanto me faz, deve ser a mesma merda em todo o lado.”
Assim foi. Mas só depois do almoço, pois disseram que só podia ser com a maré a encher, é que a tal LDM encostou à bochecha do barco. Com ordens e reparos das tripulações de cima e de baixo, a escada de portaló foi baixada e presa na lancha, após o que todos fomos descendo, ajoujados de sacos, malas e outras bagagens, os soldados e sargentos para o convés e os oficiais no alto, perto da cabine. Largou pelo rio acima, com águas tão claras como as do mar, nada que se parecesse com as que estavam quando tínhamos chegado. Do lado direito uma ilha verdejante, à esquerda a cidade de Bissau, casas pequenas amareladas, várias embarcações no porto pequeno, montes de pretos a ver passar. Seguiu ronronando os motores.
Parecia um cruzeiro turístico, todos procurando, dum lado e doutro, encontrar pontos altos para ver a paisagem, nós, os alferes, e o capitão víamos melhor porque estávamos lá alto ao pé da cabine. Rio largo, maravilha, lembrava-me das travessias do Tejo debaixo do sol escaldante do verão. Mas não, não havia Cacilhas à vista, nem os guindastes gigantes da Lisnave ou, mais longe, as chaminés fumegantes da CUF no Barreiro. Não ia apanhar a camioneta para a Costa da Caparica nem ia atravessar o Sado para Tróia.
Nas vésperas de vir vagueei pela avenida, deixei-me ir por ela baixo, como a chuva. Como ela, escorri para as sarjetas, à procura de uma “saída”. Mergulhei nos antros da Rua dos Condes, da Rua das Portas de Santo Antão... Tentei apagar a minha tristeza. Subi a avenida. Fui subindo, recordando os meus fracassados amores. As mulheres são falsas. Como poderá esse animal belo, sedutor, pérfido, como poderá ele tornar feliz um homem? Lembrei-me da Roberta, da Carla e também da Claudine, turista no Cais do Sodré que dizia morar na rue du Faubourg Poissonière em Paris. E jureique nunca mais.
Mas não, eu sou o morto a cavalo de Henri Ghéon. É melhor não jurar. Procurarei fazer o melhor. Mas não tenho a certeza de nada. Não confio em mim. Os fortes, os grandes homens de virtude, os santos, caíram. Só Cristo não caiu porque era Deus, mas até ele foi tentado. O homem, todo o homem deveria ser como Norberto: consciente da sua incerteza, condenado a ser um joguete das circunstâncias. Gergório, o chefe, e os que juraram, faltaram a esse juramento, por motivos que eles julgaram justos. E eram justos, humanos, dignos de consideração. Mas faltaram, e pecaram por isso. Ninguém jura falso impunemente. Bem fez Norberto que não jurou. Julgou-se como realmente era, inconstante, sujeito às circunstâncias, teve medo de não cumprir o jurado. Qualquer juramento é forçado. Força-se o homem a jurar aquilo que ele não está seguro de poder fazer. O homem é forçado a cumprir um juramento. Quando o cumpre não pratica uma boa acção. Que esta deve vir do fundo, com gosto. Quem jura vai contra a sua própria natureza inconstante, contra o seu próprio destino. Coloca o homem em situações angustiosas ou, então, faz com que ele falte levianamente. Porque será necessário ao homem jurar, às vezes? Para se enganar a si mesmo, ou, melhor, para calar aquela voz contínua que lhe diz que “todo o homem é mentiroso”, que é incerto o dia de amanhã, que tudo pode acontecer na vida.
Estava nestas divagações quando se gerou grande agitação ao pé da cabine. O rio estreitara muito, com densa floresta nas margens, com curvas e contracurvas sempre a aparecerem, o marinheiro agarrado à metralhadora pesada dizia que na próxima curva costumavam ser atacados, provocando grande apreensão nos rostos de todos. O alferes Castro, o ranger, de olhos esbugalhados, gritava:
“Onde estão as nossas armas?”

Mas o capitão dizia:
“Quando chegarmos ao destino é que as temos”.
“Estão a gozar com os periquitos”, rosnava o Zé Pedro, de riso céptico. O Aprígio, o mais novo e sempre calado normalmente, olhava sem dizer nada. Eu, sacado abruptamente dos meus pensamentos, fiquei receoso, enquanto o Braga dizia para a tropa no convés que se baixasse.
“Já começam a foder-nos. Não sei se são eles ou são os nossos. Ou uns e outros…”, deu-me para comentar.
Mas não houve nada, seguíamos por aquele rio que parecia serpentear por entre árvores descomunais, palmeiras e outra vegetação densa e intrincada de nomes ainda desconhecidos. Após uma curva mais apertada vimos ao longe uma clareira à beira rio, parecia uma praia, estava com gente, cheia de camuflados. Chegámos. Alívio de todos. A lancha chegou-se à frente, abriu a porta da proa, o capitão foi o primeiro a saltar para a água baixa, atrás foi a tropa fandanga com os seus haveres, ordenada pelos alferes. Amontoaram-se em terra seca, sacudindo os pés molhados, enquanto o Braga conversava com outro capitão que se encontrava entre aqueles camuflados todos que olhavam risonhos para os recém-chegados. Chegou-se depois o capitão a nós:
“A lancha vai regressar a Bissau, antes que a maré comece a descer. A companhia vai dormir aqui e amanhã seguirá em coluna auto para o seu destino.”
“Então isto ainda não acabou?”, grunhiu o Zé Pedro.
“Está a começar”, e ri-me.
“Uma caminha fazia-me jeito agora”, largou o ranger enquanto se espreguiçava.
“Mas não vai haver camas”, disse o capitão. “O comandante daqui disse-me que as camas estão todas ocupadas pela companhia dele, só arranja uma para mim. Ali mais à frente há um terreno, levem os homens para lá, abanquem por pelotões, ficarão ali durante a noite”.
O Zé Pedro baixou a cabeça, apertou os dedos e exclamou:
“Que foda do caralho.”
O Aprígio disse que merda, baixinho. Eu encolhi os ombros e abri os braços de resignação, o ranger Castro desvairou-se perguntando onde estavam as G3.
“Já disse que amanhã, só quando chegarmos onde ficaremos definitivamente é que teremos as armas da companhia que vamos render! O capitão daqui garantiu-me que não haverá problemas!”
“Meu capitão, mas isto assim não pode ser, não é seguro”, segredava-lhe o ranger, de olhos esbugalhados.
“Ó nosso alferes, garantiram-me que estarão em segurança, vamos lá para o sítio onde ficarão esta noite!”
“Já começo a ver quem é que nos está a lixar”, disse eu baixinho.
Já passava muito das cinco horas e o sol já estava longínquo, quase adormecido, acenando rente às matas que estava para se ir deitar. Um céu de laranja suja permitiu-lhes ainda ver que era um terreno com alguns arbustos pequenos e ervas rasteiras em frente do aquartelamento.
“Instalem-se como puderem”, ordenaram os alferes, “amanhã vamos largar cedíssimo.”
O capitão já tinha basado para ir comer com o outro lá do sítio. Passado uns tempos apareceram uns soldados da companhia local com um grande caldeirão de sopa e umas malgas de lata, distribuíram também o conduto: rações de combate. Todos comeram a sopinha e, a seguir, as conservas de feijão com chouriço e de sardinhas, os biscoitos secos e adoçaram a boca com frutas cristalizadas. Vários protestaram com a ementa, mas a maior parte achou que, já que não havia outro remédio para a fome que tinham, tinha de ser. O Zé Pedro refilou:
“Estamos feitos”, e mandou as latas por abrir para longe.
Eu fiz como ele mas com as latas já vazias, aconselhando que era melhor para as formigas não nos chatearem toda a noite. Depois de terem vindo os mesmos a recolher as malgas vazias, o pessoal começou a ajeitar os leitos, uns faziam dos pés martelo-pilão para alisar a terra, outros colhiam erva para fazer travesseiros, procuravam comodidades. Acabaram por se deitar naquilo, que o corpo estava cansado e pedia descanso. Ninguém esteve para conversas. Só o soldado Paulino é que gritou:
“ Ó Fonseca, não te peides senão ainda foge tudo pensando que é um ataque.”
“Tinha que ser este gajo”, disse eu, “está calado pá e põe-te mas é a dormir.”
O que me valeu é que esta merda para mim já não era tão novidade assim. Dormi várias noites como agora quando fiz parte do pelotão do inimigo durante a semana de campo na serra do Montejunto, no final do COM em Mafra. Só numa noite estive melhor, foi quando a Teresa Tarouca nos deixou dormir num palheiro da sua quinta. Simpática, ah fadista. De resto foi em chãos como este. Mas aquela foi uma guerra gira, esta não ia ser de certeza. Andávamos de camuflado, éramos os únicos, e as populações, quando descíamos às aldeias, recebiam-nos de braços abertos, coitadinhos vão para a guerra, e davam-nos comida e levavam-nos para as adegas. Muito porreiro. Quando havia jogos lá íamos nós à tasca que tinha televisão e lançávamos very-lights quando Portugal ganhava, foi um delírio com aqueles golos do Eusébio à Coreia. Grande bebedeira apanhámos. Até era uma festa para nós. Só aquele palerma do capitão Ferreira é que ia estragando tudo quando nos apanhou um dia a comer numa adega e disse que estávamos presos. Bem protestámos, que à hora de almoço não podia haver guerra, mas ele não quis saber. Houve porrada com os dele, claro, e tiro de bala simulada, e ele, ridículo, a atirar tiros de pistola para o ar e a dizer ao zé-povinho do sítio vejam lá como são valentes os soldados portugueses. Palerma. Também o lixámos. Ainda me dá vontade de rir, na noite seguinte fomos ao acampamento deles e cortámos as espias das tendas. Grande gozo. Não gostei lá muito foi da última noite quando nos cercaram, estávamos nós a dormir nos regos de um campo de milho, deixei lá o sabre quando fugi, e o comandante da Escola Prática deu-me nove dias de detenção. Mas até foi um gajo porreiro, pois disse que não me dava dez senão eu passava a sargento. Por causa do filho da puta do tenente Gorjão, que me apanhou no S. Jorge à civil e fez queixa de mim, já me tinha dado dez antes. Nunca gostei daquele sacana, mau para os nossos cadetes.
E os cabrões dos mosquitos que não me largavam, estava farto, eram aos montes. No Montejunto não havia. Que coisa do caraças… não ia poder dormir com certeza.
E assim foi. A noite foi muito agitada. Já não era só o chão duro que não deixava dormir, era a mosquitada que se banqueteava nas peles finas com o sangue fresco que provocava o desconforto daqueles corpos, com palmadas repetidas, virando-se e revirando-se. Mas chegaram as cinco da manhã, o sol também parecia estar a chegar, quando o Braga apareceu a bater palmas e a gritar:
“Toca a levantar que temos de ir embora, ó nossos alferes ponham o pessoal a mexer.”