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15 de outubro de 2010

6-Uma noite na bolanha dá para pensar



Bonito! Os outros foram-se embora e aqui estou eu... O que vale é que não perdi o quico. Sempre me dá jeito e vou já mergulhá-lo na água, para ficar com as ideias mais frescas...Sabe di más! (é bom!)... Como é que eu não perdi o raio do quico no meio desta baralhada toda?!... Tem estado agarrado à minha cabeça como qualquer coisa que é parte integrante de mim mesmo... mas não é, claro. No entanto, tenho-o enfiado na cabeça de tal modo que mais parece o contrário, parece que faz parte de mim.
Tenho que pensar para ver como me vou safar daqui. Por agora, é de aguentar. Aqueles gajos continuam a andar por aí, que eu bem os oiço, mas não os vejo, no meio destas cortinas de capim. Se eu não os vejo, eles também não me vêem a mim... mas, é melhor não me armar em avestruz e pôr-me mas é a pau! Há barulho de passos no carreiro e na clareira e oiço cortar ramos e bater no chão. Estão a montar armadilhas, com certeza. Com uma base aqui, era o que eu faria também, para prevenir novas aproximações. Não são parvos, não senhor... e isso não me ajuda nada, pois estou a sentir-me cada vez mais entalado. Mesmo que se vão embora daqui a bocado, não me atrevo a meter-me por esses caminhos. É mais que certo que vou topar com uma armadilha, e não me agrada nada... se não lerpei até agora, não será por minha vontade que isso vai suceder daqui para a frente.
É evidente que eles não podem armadilhar toda a zona... têm de garantir o regresso do grupo que foi até à margem do rio Gambiel. Deve haver, evidentemente, um caminho não armadilhado... mas como vou adivinhar qual é? Não me atrevo a voltar por aqueles que conheço, por onde vim até aqui, pois esses estão-no, com certeza... porque são os mais evidentes. Posso procurar outros... mas quem me garante que não vou pisar uma puta duma bailarina? Não me arrisco. Tenho de pensar noutra maneira de sair daqui. Mas como?... só se me armar em Tarzan de árvore em árvore, agarrado às lianas... Havia de ter piada!... De qualquer modo, nem isso pode ser, pois lianas... cá tem (não há). Não vi lianas em lado nenhum deste matagal. Nos filmes é que elas estão ali, mesmo à mão de semear, no sítio exacto e necessário. Mas aqui, de facto, não há nada no seu lugar devido, para me facilitar a vida.
Já lá vai o tempo em que as coisas para mim eram fáceis. Em termos de garantia de subsistência, em termos de programação de vida. Quando eu estava nos padres. Tinha tudo. Pequeno almoço, almoço e jantar a horas certas, brincadeiras e estudos programados e dirigidos. Havia, apenas, que cumprir o regulamento e ser piedoso. Mas tinha um grande contra para mim: não se podia cometer pecados.
(...) Não vou, agora, pensar nessas coisas, senão ainda me ponho aqui a rezar em vez de puxar pela cabeça e ver se nos safamos... O mapa, o mapinha que trago sempre comigo quando venho para estas coisas! Sou um gajo cumpridor das regras...Goza, goza, mas o facto é que o mapa me vai fazer jeito. Sare Ganá... Sinchã Sutu aqui... a picada para sul e, aqui à direita, o desvio de Sare Madina... mais à frente... aqui está Sucuta, a bolanha e o rio Gambiel... que atravessámos com cuidado, por cima do troco submerso... avançámos por este carreiro... e aqui está Jobel... Sinchã Jobel, como vem aqui no mapa!... Aqui, no extremo da clareira, foi a emboscada... e cá está assinalado o palmeiral e, ao lado, a bolanha onde... por aqui, mais ou menos... estou com o cú de molho!... E estou mesmo todo encharcado, pés, botas, calças... Debaixo deste sol, o melhor seria estar só com a cabeça de fora, como as rãs. Mas não pode ser. Já não é mau ter o material ao fresco.
A nossa posição, pelo que estou a ver no mapa, não é famosa. A bolanha, que deve ter servido para as culturas de arroz de Jobel, vai até ao rio Gambiel, formando no encontro com ele um ângulo recto. Portanto, segue paralelamente ao caminho por onde vim para chegar ao local da tabanca. Esta bolanha é uma espécie de braço do rio na época das chuvas, mas na época seca tem mais capim que água. Está à vista. Assim sendo, e se estou a ver bem, se regressarmos ao longo e por dentro da bolanha, vamos ter a umas centenas de metros mais a norte do sítio onde atravessámos o rio. E tem mesmo de ser assim. Não vejo outra alternativa mais segura. E também me parece que, se o local de atravessar o rio era aquele que me indicou o guia quando viemos para cá, é porque não havia outro mais acima. Não, não estou disposto a correr o risco de atravessar noutro sítio que não seja o que já conheço. Esta bolanha não a conheço e não tenho, portanto, outra alternativa senão ir por ela, com cuidado, só se tiver azar é que vou cair nalgum buraco. Mas, quando chegar ao rio, já sei que há um lugar seguro para passar, Sucuta. Temos de descer até lá. Um rio não é uma bolanha, para se ir assim à aventura.
Tem que ser. Desço a bolanha até ao rio e vou passá-lo no mesmo sítio da vinda. O problema é que, se me ponho agora a andar pela bolanha abaixo, caçam-me que nem pato na água. Topam-me no meio e é só apontar calmamente. Quer dizer que não posso largar daqui em pleno dia. Não tropeço numa mina nem caio num buraco, mas o mais certo é não dar dois passos sem levar uma rajada nas costas. Merda! Será que tenho mesmo de fazer isto à noite, cair num buraco e enfiar-me pelo rio dentro?... Puta de vida! Mas, não, não posso estar condenado, tem de haver uma saída. Deixa pensar mais um bocado. Vou refrescar os miolos outra vez... mais uma chapelada de água... Parece sopa, mas é mesmo boa! A vantagem de ter abancado neste charco é que tenho água para me refrescar, quanta quiser.
(...) A única possibilidade que tenho de me safar daqui é arrancar amanhã muito cedo. Às 5,30 já se começa a ver alguma coisa. Já poço ir vendo onde pôr os pés e orientar-me... além de que, segundo dizem os manuais, as sentinelas têm tendência para abrandar a vigilância pela madrugada e deixarem-se adormecer antes de despontar a aurora... Terá de ser nessa altura que vou desandar daqui p´ra fora. E oxalá os gajos não tenham lido os manuais também!...
(...) Que calor infernal faz aqui no meio do capim! O sol e o ar quente entranham-se por entre os caules e permanecem também eles poisados sobre a água. Não há a mais leve aragem. A estagnação é total, na água e no ar. Afinal, não é nada bom estar aqui de molho... As rãs devem sentir-se melhor, com certeza, mas eu mais pareço uma azeitona em água parada, opaca e gordurosa. Começo a ter sede. Não trouxe o cantil, pois não contava com esta variante no programa das festas. A estas horas já eu devia estar a comer um bom bife de vaca, isto é, um bife dos cornos da vaca... nesta terra parece que não há carne tenra. De qualquer modo, com batatas fritas e empurrado com cerveja, com muita cerveja, não há nada que não entre pelas goelas adentro. E cerveja não falta para a tropa. Valha-nos isso... Afinal, lamento-me com sede, mas estou rodeado de água por todos os lados, como as ilhas. É só enfiar a cabeça no charco e abrir as goelas... Mas há por todo o tipo de bicharada. Eu seja cão se vou beber esta porcaria. Prefiro beber mijo.
Há vozes e barulho. O IN continua por aqui, a rebuscar no mato e a montar armadilhas. O tipo que eu vi com um penso no braço e companhia não vão largar tão cedo. Devem estar bastante confiantes, uma vez que não largam este sítio e não se preocupam com o barulho que fazem. Devem ter montado uma sentinela do lado de cá do rio. Sabendo de qualquer avanço, poderão organizar a defesa ou montar emboscadas com facilidade e segurança. Este local é de acesso muito difícil. Segundo o mapa, só de um lado é que não está cercado de matagal. É o lado da bolanha e do rio. E mesmo este é um bom bico d'obra. Tenho de aguentar e ver, pois eles não estão com vontade de se ir embora.
Relax e esquece o IN... O IN! Toda a gente usa isto. É mais fácil dizer IN do que "inimigo". Acho que é por isso que usamos estas abreviaturas... No entanto, tornando mais fácil a referência àqueles ou àquele de quem falamos, o "in" e o "turra" são, de facto, expressões meramente referenciais e sem o significado profundo contido nas palavras "inimigo" e "terrorista". Se não abreviasse, é claro que eu acabava por me cansar a pronunciar as palavras por inteiro. Passaria, enfim, a tratá-los com demasiada familiaridade, teria que me arrimar aos inevitáveis "os gajos", ou "os tipos" ou mesmo "os filhos da puta". Era tratá-los como trato, às vezes, os que me são indiferentes, os que me pisam ou dão um empurrão... Isto seria, seguramente, o abandalhamento da guerra. Em vez de balas a malta começava a amandar-lhes com nomes feios, a gritar-lhes que fossem levar no olho, que não chateassem, que nos deixassem em paz... Era complicado. Não havia guerra que durasse. Poderia ser uma das consequências, resultante do cansaço pelas palavras difíceis e compridas demais para inserir na linguagem corrente da soldadesca. E poderia dar noutra coisa, se o maralhal não usasse profusamente estas abreviaturas: ao pronunciar por inteiro as palavras "inimigo" e "terrorista" é natural que começássemos a interrogar-nos sobre a correspondência entre o significado e o significante... Ai estas aulas de Linguística!... O que é isso de "inimigo"? Aqui, na terra deles, são eles meu inimigo?... Atacam-me para me roubar, para ficar com o que é meu?... Têm interesses opostos aos meus e atacam-me, por isso?... Para eles, sou eu o inimigo? Venho roubar o que é deles? Tenho interesses opostos aos deles?... Claro, cinco séculos de história, civilização, blá, blá, blá..., como diz o Salazar. O facto é que isso se traduz nos libaneses a dominar o comércio, no nazi Landorf, fugido da Alemanha depois da guerra, a vender quinquilharias aos pretos de Geba. Eu, aqui, só estou a perder uma coisa: o curso de Filologia Românica que estes filhos da puta não me deixaram continuar. ... Não me parece que o "in" seja meu "inimigo". Eu sou, com certeza, o "inimigo" deles. Linguística à parte, isto é mesmo uma situação aberrante.
(...) Há pouco, quando os vi ali todos juntos, ainda pensei em disparar. Acabei por não o fazer e acho que fiz bem. É claro que eles devem ser muitos mais do que os que andam por aqui... E, sei lá, disparar, assim à queima-roupa sem que eles esperassem, sem mais, ainda era capaz de ficar com algum peso na consciência... Os meus anseios nunca foram matar. Só por medo o faria, por necessidade, pela situação. Tenho encarado isto como uma aventura. A verdade é que nunca desejei vir para a guerra. Se me tivessem dado o adiamento da incorporação, estaria, agora, a terminar o segundo ano de Românicas. Eu até gostava daquilo. Mas aos senhores da guerra não interessam os doutores em Letras. Se eu estivesse em Engenharia ou Medicina, isso sim... há sempre pernas e braços para cortar, certidões de óbito para passar, há que fazer quartéis, arame farpado para erguer e picadas para abrir. Para os doutores ou candidatos de Letras há que pôr-lhes mas é uma canhota nas mãos. Na guerra não servem para mais nada...
(...) Se eu tivesse continuado nos padres, o mais certo era não ter vindo à guerra ou, então, vinha como capelão, um ofício que, aliás, também faz muito jeito na guerra. Há preconceitos a alimentar, consciências a adormecer e angústias para apaziguar. Sou vítima da vingança concertada dos senhores da guerra e dos senhores da consciência: já que não quiseste reconhecer os imensos benefícios da religião, sentir a honra de pertencer ao número dos eleitos, vais sentir as agruras da guerra... que é um inferno na terra.
(...) Dentro em breve será noite. Já se estendeu sobre a bolanha um manto enorme de sombras, sinal de que o sol se começou a esconder por detrás da grande floresta de poilões que rodeiam a clareira de Jobel.
Já não estou tão calmo e seguro. A previsão do perigo eminente, a expectativa da emboscada ou do ataque repentinos não são nada comparados com um perigo que nos rodeia mas que não sabemos qual é, nada em comparação com este manto de escuridão que se abate sobre nós, que se entranha na minha farda, que me cobre as mãos, as pernas, o local onde estou. As trevas, meu Deus, é o pior que me pode acontecer. Mil vezes a emboscada que desaba sobre o grupo, mas que eu vejo, que acabo por limitar em todas as suas proporções, do que o perigo que só se imagina mas que nunca se vê, nem mesmo quando está em cima de nós.
Nesta terra de ténues ondulações a noite surge depressa. Começo a não distinguir as minhas próprias mãos. Não percebo como os outros ao longe as poderão ver. Mas vou fazer o que mandam as regras, barrá-las, e à cara também, com esta lama onde me assento. Mas, antes, vou beber desta água que me tem de molho há várias horas. Que remédio, tenho sede. Nunca a fome me atacou durante todo este tempo, mas a sede é um tormento e eu quero que se lixe a limpeza. Vou mesmo beber esta água, agora que já não consigo ver o seu grau de sujidade e inquinação.
Os sons nocturnos assumem proporções descomunais em relação aos diurnos. Aquilo que durante o dia me parece uma grande algaraviada, uma sinfonia de cacofonias, aparece-me agora como uma execução em estereofonia. Consigo distinguir todos os sons e vozes de pássaros. Aquilo que me parecia uniforme na promiscuidade de vozes aparece-me agora como o conjunto de várias espécies de pássaros e mamíferos. Não sei identificá-los pelo nome, a não ser o dos macacos, mas sou capaz de os contar através das diferenças de vozes. Na margem da bolanha, entre as árvores, são os macacos e os periquitos que dominam. Aqui, por aqui mais perto, são as moscas e mosquitos que não cessam de zumbir aos meus ouvidos. De vez em quando há um ruído na água. Pode ser um peixe a saltar, mas também pode não ser... Ao longe, um pássaro, penso eu que é um pássaro, lança um pipilar modulado que mais me parece um uivo de lobo. Mas, segundo sei, aqui na Guiné não há desses bichos...
Quem me dera a mim que se ouvissem só os macacos, os periquitos, as moscas e os mosquitos! O que me enerva e causa medo são os mil sons que eu desconheço. Este borbulhar na água pode ser uma cobra e aquele chapinhar mais além pode ser um javali, o resfolegar que vem das palmeiras pode ser uma onça...
Lá mais para a frente, do outro lado da clareira, precisamente daquele sítio onde os guerrilheiros montaram a emboscada, vêm ruídos que parecem provocados por pessoas. Ia jurar que há uma tabanca para estes lados... Como é que eu não me apercebi destes ruídos durante o dia? Seria mais lógico que os ouvisse melhor , uma vez que as pessoas fazem mais barulho durante o dia do que à noite. As marteladas, ou outras pancadas em madeira, deveriam ser mais audíveis durante o dia, quando não há tanta preocupação em manter o silêncio, em não incomodar. A explicação tem de ser esta: a tal enorme cacofonia diurna, que não deixa qualquer hipótese de identificação dos sons a que nos habituámos no nosso dia-a-dia. Porque a noite não deve ter sons, qualquer um que surja é identificável e sobressai no meio do silêncio, como milhares de pirilampos que, apesar de minúsculos, sobressaem na escuridão sem, no entanto, se conseguirem juntar num sol que torne a noite em dia.
Distingo perfeitamente os toques na madeira. Pilão ou martelo, é bater de gente. E surgem agora sons que só podem ser vozes de gente também. Então, contrariamente ao que me garantiram, esta zona não é desabitada! Isto explica a emboscada. Entrei no terreno deles, com tanto à vontade... e estupidez! Tenho de falar com o palerma do tenente-coronel... se conseguir sair daqui.
(...) De olhar no escuro, tentando fazer luz com os olhos e com a mente, ver mais além do que esta escuridão me permite, na expectativa. Esta noite faz-me lembrar outras noites que passei à janela, de olhar perdido no escuro ou na barreira de ciprestes que cercavam aquele pequeno mundo do seminário. Mas bem pior estava então, apesar de tudo. Neste momento, estou esperando, pacientemente; nervoso, mas não desesperado; receoso, mas não em pânico; sozinho, mas não perdido. Não estou triste, não choro e não desejo a morte. Pelo contrário. Impaciente, desesperado, perdido, em pânico e desejando a morte... assim era eu, não há muito tempo. Passaram-se apenas três anos. Tinha vinte anos e não tinha outros horizontes senão uma vida de torturas e recalcamentos, ou o inferno como alternativa.
Mais do que as obrigatórias meditações em conjunto no seminário, no meio dos maus cheiros dos "irmãos em Cristo", de olhos fechados em atitude piedosa, este é o ambiente ideal para meditar, ligado pela escuridão à natureza. Naquelas mais de mil noites nunca consegui estar sozinho, apesar de me lamentar de uma solidão terrífica. Os outros e a organização estavam sempre presentes em mim, quando lutava sozinho para me ver livre deles. Por isso mesmo. Enquanto tive dúvidas nunca me largaram. Só me deixaram quando eu passei a ter a certeza do que queria e do que não queria.
Aqui, na guerra, não há outra coisa que me ligue aos outros a não ser o desejo de sobrevivência, e este desejo liga-me efectivamente, mas não o sinto como prisão. Pelo contrário, liberta-me para este tipo de meditações, para aceitar e tirar partido desta noite, para estar com todos no desejo de regressar, de não morrer, de viver. Lá, não. Os laços que me prendiam aos outros só me arrastavam para desejos de morrer e de os odiar. Aqui, na guerra, não há perigo de ter dúvidas, a certeza surge-nos dos factos do dia-a-dia. É tudo muito real, muito directo, entra-nos pelos olhos dentro, por todos os sentidos. Quando se nos revela assim, e surge sempre, mais tarde ou mais cedo, é um facto que faz parte de nós e é, portanto, uma certeza. Quando vim para cá não sabia nada o que era esta guerra. Mas já estou a saber o que é.
Tenho-me interrogado variadas vezes sobre as razões por que entrei para o seminário. Mais para carpir uma mágoa por um passo mal dado do que para tentar esclarecer aquilo que já sei. Foi a minha condição de menino pobre que me pôs perante essa necessidade. Mas nem por isso, naturalmente, fui responsável por essa decisão. A necessidade foi dos meus pais, que aproveitaram o desejo de um padre que se arvorou em meu protector. As pressões daí decorrentes, o meio em que passei a ter de me mover, fizeram o resto. À distância, sinto em mim uma grande mágoa por não ter conseguido libertar-me mais cedo dessa catástrofe que sucedeu na minha vida. Mas, nem sei se poderia ter sido diferente. Para quem tinha fome, para quem passava o dia com uma fatia de pão com margarina ou, mais do que uma vez, com uma côdea seca, era impossível recusar a possibilidade de ter refeições a tempo e horas. Como não aceitar a perspectiva do café com leite e pão com marmelada, da sopa, da carne e do peixe, se cheguei, quando era puto, a ter que andar aos caixotes?... Já tenho desejado muitas vezes não acreditar em Deus. Mas não consigo. Numa guerra, nesta guerra em que me encontro como interveniente activo, a fuga, os desejos, a esperança, a ideia de quem morre são os outros e não eu, tudo está depositado em Deus, que me há-de proteger e guardar... Mas porquê a mim e não aos outros?... aos que morreram, aos que ficaram sem braços e sem pernas, aos que ficaram cegos e aos que ficaram loucos? É uma dúvida e, ao mesmo tempo, uma incompreensão muito funda que se afoga e perde naquilo que a minha formação religiosa chama "os insondáveis desígnios de Deus"... Quer dizer que, se eu morrer ou ficar estropeado, foi desígnio de Deus, se eu sair bem disto tudo, será também vontade de Deus. E posso, desta maneira, encontrar em Deus a "explicação" de todas as coisas, poderei continuar tranquilamente a fazer a guerra. Posso matar, porque nos desígnios de Deus tanto pode estar o castigo como o prémio. O desígnio que eu mate, o desígnio que o outro morra. O prémio para mim que matei e não morri e o castigo para o outro que não me matou e morreu? Ou serei eu castigado porque matei e o outro terá um prémio na outra vida porque não me matou? Se eu comparecer perante Deus, durante ou após esta guerra, serei condenado às penas eternas ou entrarei no rol dos bem-aventurados? Serei condenado ou premiado se tiver obedecido aos meus "legítimos superiores", àqueles que " têm sobre si a pesada responsabilidade de governar e mandar"? Serei condenado ou premiado se lhes desobedecer e não matar?
"A Deus o que é de Deus e a César o que é de César". A citação fatal do director do instituto filosófico onde andei, quando seminarista, o qual, desta forma, tentava calar as minhas dúvidas. Que confusão, se o que interessa a César vai contra o mandamento "não matarás"! É uma resposta hipócrita. Procura justificar a passividade da Igreja perante a guerra... Ou consentimento? Como admitir que a Igreja abençoe a guerra? Antes de vir para a Guiné, o meu batalhão foi obrigado - é o termo - a assistir a uma missa na parada do quartel. Tal como no tempo das cruzadas, quando se partia para combater os infiéis e libertar os lugares santos. O padre capelão, o senhor major-capelão, fez uma eloquente exortação ao cumprimento do dever para com a pátria, da necessidade de defender os valores da civilização ocidental e o património legado pelos nossos antepassados... enfim, a mesma conversa dos senhores da política, abstracta, situada em algo que não me toca, em valores que não compreendo, em património que não possuo. E, ainda por cima, era um dos padres do seminário onde andei, um que eu bem conhecia.
Pode a Igreja justificar a sua atitude perante a guerra pela necessidade que há de acompanhar, assistir os soldados que passam dias e meses, anos até, de profunda angústia e desespero? Que o objectivo não é apoiar a guerra, mas sim servir de consolo religioso a quem necessita da religião? Para mim, não serve. Tentando diluir as contradições que naturalmente emergem da mente de quem é religioso, está-se a colaborar na manutenção de uma situação que o soldado não deseja instintivamente, está-se a diluir as dificuldades para que essa situação indesejável se mantenha o máximo possível. E, o que é mais grave para mim, não se responde às angústias e interrogações de quem se vê confrontado com uma realidade que é pura negação de tudo o que lhe incutiram de bom, de justiça, de amor, de fraternidade. Utilizando uma única frase dos Evangelhos - dar a César o que é de César - subverte-se todo o restante texto dos livros sagrados. Por oportunismo, pela mais rematada hipocrisia. São muitas as críticas que tenho a fazer àqueles que dizem representar-te cá na terra, ó Deus. Mas confio que me hás-de ajudar a sair deste aperto.
Tenho os membros anquilosados de tanta imobilidade. A pele das mãos está toda encarquilhada pelo permanente e prolongado contacto com a água. O mesmo deve suceder com os pés e com o material, devo ter tudo mirrado e encolhido.... Sinto nas mãos, nos braços e pelo corpo todo uma imensa comichão que, curiosamente, nunca tive vontade de coçar. Estou cheio de bolhas e ampolas, que só vejo nos braços e nas mãos mas que devem estar por todo o corpo, até na cara. À minha volta há milhares, talvez milhões de mosquitos e moscas tzé-tzé. A minha esperança é que só tenha sido picado por novecentas e noventa e nove moscas do sono... segundo dizem as estatísticas, só uma em mil é portadora da doença do sono, não é?... De qualquer modo, não sei se me fariam efeito: estou tão cheio de vacinas contra tudo que essa tal milésima, se me picou, deve ter morrido entoxicada, com certeza...
Devo ser um nojo completo. Uma merda da cintura para baixo.
(...) Começa a surgir uma luminosidade por detrás das palmeiras, uma luz branca muito mortiça. Por aqui, começo a vislumbrar uma neblina leitosa a empastar a bolanha. Há outro silêncio neste despertar da mata e dos seres que a povoam. Imagino-os dolentes, agora conscientemente enrolados sobre si mesmos, sem se mexerem, como fazem inconscientemente durante o sono. Procuram forçar o prolongamento desse sono. Por isso, este, agitado ou tranquilo, deu lugar a modorra prolongada e estática, intencionalmente silenciosa, para não acordar. No entanto, porque não é só o ouvido que está desperto e atento, como sucede na mais completa escuridão, toda esta imensa calma que precede a agitação e luta de mais um dia na vida da natureza é apenas perceptível ao nível dos sentimentos mais íntimos do meu ser, pois a luz que penetra nos meus olhos desperta nestes uma segunda dimensão que faz sentir as coisas de uma forma avassaladora e total. Tudo aquilo que povoou a minha mente, os ruídos que se apossaram de mim através do ouvido, tudo isso passou a estar submerso pela impressão visual do que me é exterior. Durante estas horas de vigília nocturna estive dominado e cercado por mim mesmo, por toda a minha vida, pelo passado.
Agora não. Sinto que tudo se vai diluindo, que a realidade externa se apossa de mim, que a posse da totalidade dos meus sentidos me introduz novamente no seio do meu destino, composto também de exterior. É uma visão "ruidosa", na medida em que este contacto com a realidade da manhã consegue abafar o domínio exclusivista do ouvido e do raciocínio. O conjunto harmonioso da vida não deixará que prevaleçam as sensações parcelares e limitadas. A total percepção da realidade não deixará que me deixe dominar por um único dos seus aspectos. A prefeita e clara percepção em todos os sentidos, agora, não deixará que me domine o medo do desconhecido ou do indefinido. É tão bom estar vivo e saber onde estou e o que quero!

14 de outubro de 2010

5-Operação "Jigajoga"




OP."JIGAJOGA"  24JUN67



SITUAÇÃO PARTICULAR: 
O IN tem-se revelado em operações realizadas no regulado de MANSOMINE, ataques a tabancas a aquartelamentos e outras flagelações. Deve existir algum acampamento que lhe sirva de base para a execução de acções sobre as NT e populações que nos são fieis.

MISSÃO: 
Assegura a ocupação do Sector, tendo em atenção os regulados da faixa OESTE e as linhas de infiltração que conduzam ao interior. Detecta, vigia ou captura elementos ou grupos suspeitos de subversão que se hajam infiltrado ou constituído no sector, impedindo que a subversão alastre. Captura ou aniquila os rebeldes que se venham a revelar, destruindo as suas instalações ou meios de vida e restabelece a autoridade e a ordem nas regiões afectadas.

FORCA EXECUTANTE
a) CMDT: Cap. Art.ª Manuel Carlos Guimarães
b) MEIOS: 01 GR.COMB. da CART1690 ref. com 01 PEL. MIL/C. MIL. 3 01 PEL do EREC 1578

DESENROLAR DA ACÇÃO
O PEL REC/EREC 1578 saiu de BAFATÂ pelas 05H00 tendo-se-lhe reunido em SARE GEBA os GR. COMB. da CART1690 e em SARE GANA o PEL. MIL. Entretanto o Dest. da C.MIL.3 em SARE MADINA efectuava a picagem do itinerário SARE MADINA Ponte R. GAMBIEL. Em SUCUTA (MADINA FALI) o Dest. A iniciou a progressão apeada em direcção a SINCHÃ JOBEL e o Dest. B o patrulhamento do itinerário CHEUEL - Ponte R. GAMBIEL. Depois de atravessar a bolanha de SUCUTA o Dest. A detectou pegadas bastantes recentes, deduzindo que se tratasse de una sentinela IN. Junto a SINCHÃ JOBEL as NT foran emboscadas por um GR. IN. numeroso com mort. 82, LGF, MP e Amas Aut. tendo sofrido um ferido grave e 5 feridos ligeiros. Da reacção das NT o IN sofreu 3 mortos confirmados e 3 prováveis.
En consequência do pequeno efectivo das NT, da manobra efectuada com peque nos grupos, do grande potencial de fogo IN e da mata bastante densa desa pareceu o Cmdt. do Dest. A, Alferes Lopes, que havia saído de um grupo de manobra para ir a outro trazer um L.G.F.. Como o grupo já não se encontrasse no local previsto pelo Cmdt do Dest A este viu-se sozinho e a ser alvejado pelo fogo IN pelo que se internou na mata. Pelo que em cada grupo se pensava que o Cmdt. estava no outro, não foi dado grande importância ao facto. Só depois de reunidos todos os grupos se verificou a falta do Cmdt. O furriel agora Cmdt. do grupo de combate, resolveu, porque sendo o seu efectivo reduzido, para o potencial de fogo IN porque tendo 6 feridos, um dos quais grave e tendo ainda LGF avariado, regressar a SUCUTA para pedir reforços. Em SUCUTA onde já se encontrava o Dest. B ao corrente do sucedido por via rádio, foi resolvido pelo Cmdt. da CART1690 pedir reforços ao Comando do BCAÇ. 1877.
Comunicado ao Comando do BCAÇ. 1877 saiu imediatamente um GR. COMB./CCS constituído pelo PEL. REC. Inf. e pelo PEL. Sap. que juntamente com forças da CART1690 efectuou uma batida na área de SINCHÃ JOBEL até cerca das 21H30 sem resultado e sem contacto com o IN. As forças empenhadas na batida e o PEL. EREC., que estava a fazer a segurança às viaturas e o patrulhamento do itinerário CHEUEL-Ponte R. GAMBIEL regressaram a GEBA e BAFATÁ cerca das 23H30.
Pelas 09H30 do dia 25 saiu o GR. COMB./CCS/BCAÇ.1877 que juntamente com as forças da CART1690 iriam novamente bater a zona de SINCHÃ JOBEL. Ao chegar a SARE GEBA foi-lhes comunicado que o Alferes Lopes já tinha aparecido, tendo o GR. COMB/CCS regressado a BAFATA.

RESULTADOS OBTIDOS
-A detecção de um grupo IN numeroso e bem amado na região,
-A morte confirmada de 3 elementos IN e 3 mortos e alguns feridos prováveis.

Este foi o relatório feito pelo capitão Guimarães, comandante da CART1690, mas não foi bem assim. Mas eu vou agora contar como foi de facto, desde o princípio, como nunca tenho feito (já o fiz para outros blogues mas não tão completamente):
Na véspera, dia 23, fui chamado a Bafatá para estar no Agrupamento 1980. O, então, TCor Hélio Felgas (que substituía o Cor Assa Castel-Branco que tinha ido à Metrópole tratar-se, parece) foi quem falou comigo. Que era uma operação de rotina, que não havia problemas, que a companhia anterior já lá tinha ido, que era melhor levar uma corda pois era preciso atravessar um rio profundo, blá, blá, blá... Nem de leve aflorou a hipótese de poder haver lá uma base do PAIGC. No entanto, como se vê pela "Situação Particular", já suspeitavam ou sabiam mesmo pelos informadores. Surpresa só para mim. Mais tarde, já depois disto tudo se ter passado, deu-me para ir ver o que queria dizer "Jigajoga". E vi o que estava no dicionário: "Jiga-joga,s.m. Antigo jogo de cartas. Jogo da cabra-cega. Fig. Coisa pouco firme; engenhoca. Ludibrio." E vi que foi dada à operação o nome adequado: para o Agrupamento, admito, era uma coisa pouco firme, mas para mim foi um jogo de cabra cega e um ludibrio.
Mas avante. No dia seguinte lá parti com o meu grupo de combate, acompanhado por aquela gente toda como "Força Executante". No entanto, só eu e os meus homens é que atravessámos o tal rio profundo, acompanhados por um guia. Era o rio Gambiel, com cerca de trinta metros de largura e o guia disse-me que "a ponte" eram dois troncos de palmeira que estavam submersos (já tinham começado as chuvas). A corda afinal valeu-nos. Todos agarrados a ela, adivinhando cuidadosamente onde estavam os trocos de palmeira, chegámos à outra margem. Aí vi uma pegada de sandália. É pegada de turra, disse-me o guia.

Sentinela. É uma fotografia do PAIGC. O rio era como este e eram estas sandálias que deixavam marcas.


Vamos embora, ordenei, e avançámos pelo que parecia um carreiro estreito no meio do matagal. Do solo, da vegetação luxuriante desprende-se um vapor que paira e envolve o ambiente. É o calor acumulado durante o período seco. Há quem lhe chame cacimba e quem diga que é prejudicial à boa saúde das vias respiratórias... mas, aos 20 anos, não há cacimba que impeça de andar. A bicha de pirilau, ao longo de quase trezentos metros, pondo em relevo, na paisagem verde, todas as sinuosidades do antigo carreiro já quase totalmente coberto, movia-se como um réptil enorme, segmentado e escamoso. O silêncio profundo e agradavelmente sombrio da mata era apenas cortado pelo roçar das botas de lona e dos camuflados pelas ervas e folhagens que acompanhavam o carreiro. Ambiente para piqueniques e amor. Na hora em que o intenso sol tropical só conseguiu ainda afastar e diluir a luminosidade doentia libertada durante a noite por aquela vegetação farta de clorofila, mantinha-se o meio termo da frescura agradável que faz da Guiné um dos locais mais belos e repousantes às sete horas da manhã...
Eu ia à frente, uma parte de mim divagava poesia mas a outra estava atenta e dava indicações de marcha. E, algum tempo depois, deparámos com uma clareira larga, tinha alguns indícios de que tinha havido ali uma tabanca (aldeia), poucos e pequenos restos de moranças (casas), tinha muita vegetação curta, pelo facto mesmo de ter sido abandonada. Estava cercada por mata, do lado direito havia várias bananeiras. Juntámo-nos e eu disse a dois furriéis: vocês ficam aqui, não atravessam, eu e a secção do Ribeiro vamos atravessar a clareira. Um sexto sentido? Talvez. Levei também o apontador de morteiro 60 e o radiotelegrafista.
Avançámos. A meio da clareira, quando chegámos ao pé das bananeiras, saltou de lá um gajo com uma PPSH (pistola metralhadora de fabrico soviético) e desatou a correr. Não disparem, disse eu, agarrarem-no. Dois soldados correram atrás dele, mas ele tinha asas nos pés. Foi então que começou o fogachal, metralhadoras ligeiras e pesadas jorraram fogo do outro lado da clareira. Acoitámo-nos por trás de um grande morro de baga-baga que estava perto. A baga-baga é uma formiga que constrói isto:



Ali ficámos, o tiroteio continuava, nós respondíamos, mas já caíam também morteiradas. Disse ao homem do nosso morteiro para disparar também, mas, logo à primeira, o morteiro enterrou-se no chão. Não leváramos o prato base, nunca levávamos porque era muito pesado e um martírio para transportar naquelas matas e debaixo do calor, e as chuvas já tinham amolecido o chão. O baga-baga era um bom abrigo, as balas e os estilhaços das morteiradas chispavam nele, mas não podíamos continuar assim. Disse ao Ribeiro para ligar ao Marcelo com o Sharp (pequeno transmissor para comunicação entre secções) e dizer para mandarem bazucadas para o outro lado da clareira. Tentou e disse-me que não dava. Esta merda é sempre assim, barafustei, quando é preciso nunca funciona. Dá cá isso que eu vou ver se dá noutro lado. Saí do baga-baga e rastejei mais para o meio da clareira por entre umas ervas altas. Fiz várias tentativas, as balas e as morteiradas continuavam a chover. Mas continuou a não dar nada, e rastejei novamente para o baga-baga. Não me vi, mas devo ter ficado branco e de boca aberta: já não estava lá ninguém. Estava sozinho no meio da tormenta, que continuava.
Ali, deitado sobre a terra, desejoso de nela me afundar, como quem dorme com mulher, deixei a minha condição humana. Ali fiquei, alapado como um coelho que segue os passos do caçador à espera do momento oportuno para fugir. Levantei a cabeça e espreitei por cima do capim alto que rodeava o baga-baga. Tendo abandonado as suas posições de combate, os guerrilheiros avançavam em linha ao longo da clareira, lançando rajadas curtas de costureirinhas (nome por nós dado às PPSH, por o seu disparo parecer o trabalhar de uma máquina de costura) e kalashs (espingarda metralhadora AK-47 ou Kalashnikov, de fabrico soviético). Estou a vê-los, numa imagem de ocasião, sem saber ainda se é real se imaginária: fortes, atléticos mesmo, em passadas decididas, senhores da vitória. Despertou em mim o animal cujas reacções são comandadas pelo instinto de sobrevivência e, ao mesmo tempo, o animal especial que eu era: o animal domesticado que eu era para reagir a determinados sinais e estímulos. Mais do que um naturalista, estou agora apto a compreender todo o mecanismo de comportamento do animal encurralado por numerosos caçadores. Não há computador electrónico, por mais perfeito e programado, que consiga dar a solução tão acertada e rapidamente como o maquinismo instintivo da sobrevivência, aliado ao treino para reagir às mais variadas situações. Decidi rastejar até à orla da clareira. Mas, antes, lixado com a maçariquice de andar com eles, enterrei os galões camuflados que usava (nunca mais os usei). Achei que não me servia ali a Convenção de Genebra, que o meu futuro de prisioneiro seria melhor se não soubessem o meu posto... Estranho, agora, como é que fui assaltado por essa estúpida ideia de avaliar nesses termos a enrascada em que me encontrava.
E fui rastejando, mas, coisa que nunca imaginei que fosse possível, nem nunca acreditei que fosse mesmo quando o via nos filmes, ouvi um silvo agudo no ar, levantei a cabeça e vi uma granada de morteiro em direcção a mim, nem pensei, dei três voltas para o lado a rebolar, ela enfiou-se na terra mole do sítio onde eu tinha estado, vi de esguelha o rebentamento. Cabeça entre os braços, fiquei agarrado ao chão, continuei sem pensar durante instantes.

Mas tive de pensar e continuei a rastejar até à orla. Aí, fiquei sentado ao pé de uma palmeira jovem, ainda baixinha, tapado pelas ramadas que tocavam o chão.

E vi, depois, que eles tinham chegado ao sítio onde tínhamos estado. Manga de ronco (grande festa), desenterraram o nosso morteiro, agitavam uma pistola, pensei logo que devia ser a do radiotelegrafista, que a terá largado antes de fugir, e gritavam alegremente "alferes Lopes, alferes Lopes" passando um cinturão de mão em mão. Fiquei banzado e levei as mãos à cintura. Vi que era o meu cinturão, que tinha o meu nome escrito, e que se me soltara quando eu rastejava. Fiquei raivoso por isso, vi que tinha três carregadores de G3 (a nossa espingarda metralhadora) e passou-me pela cabeça começar a disparar sobre eles, mas ponderei que eram muitos, mais que os dez que eu vira antes avançar do outro lado da clareira, e achei por bem ficar quieto. Seria abatido com certeza, mesmo que levasse alguns à frente.
Assim fiquei alguns minutos. Quando vi que o grupo deles dispersava e que começavam a bater o terreno, decidi sair dali, com receio que me encontrassem, rastejei por entre algumas árvores que estavam perto, fui dar a uma bolanha (pântano) e entrei por ela. Tinha capim alto e a água dava-me pelos joelhos. Sentei-me a meio, tapado pelo capim. Eram umas dez horas da manhã.
Estive ali de molho todo o dia. Ouvi várias vezes ruídos e falares crioulos. Não eram os meus, nunca mais os ouvi, e julguei melhor não me levantar e caminhar pela bolanha, muito menos pela mata, seria visto, pois sabia que eles andavam por ali. Mas tive tempo de estudar o mapa da zona que tinha trazido comigo e decidir quando sairia dali, por onde ir e para onde.
Fiquei lá toda a noite também. Longa noite que começou cerca das seis horas da tarde. Fui-me distraindo com os mosquitos... Ouvi uns ruídos também durante esse tempo de escuridão. Pensei que seriam eles. Mas, se calhar, não. Disseram-me mais tarde que os nossos tinham ido lá a minha procura durante a noite. Sobre isso, um meu amigo furriel da companhia deu-me um texto que escreveu:

«O resgate falhado do Alferes Lopes
ou
O outro lado da mesma noite, a inesquecível 24.06.67.
Celebra-se, todos os anos, nesse dia e mês, na minha terra, num recanto Alentejano, o Feriado Municipal, dia de S. João, com os manjares gastronómicos e as folias próprias desse evento e que, em 1967, por ironia do destino, para além de tudo, não me deram tempo para recordar ou ter saudades. (perdoem-me a simbiose).

O Lopes sempre foi um gajo porreiro. Mas, nessa tarde, chegou-nos a triste notícia que tinha desaparecido em combate e era preciso unir esforços e trazê-lo para junto de nós.
Organizou-se, quase por instinto, um grupo não muito numeroso, já que em Geba, sede da Companhia, também não eramos muitos e assim, alguns de forma voluntária e outros por imposição (os mais desfavorecidos ou sejam o zé soldado e o preto) que, santo Deus, se dirigiu a Sinchã Jobel no final dessa tarde e lá se conservou durante uma parte da noite. Em vão é verdade, mas Ele (não o Deus) merecia o nosso sacrifício e dedicação.
Pensei nesse momento fantasmagórico e hoje, algo distante, confirmo que só os loucos, cegos pela guerra, poderiam ousar tamanha e desmedida aventura.
Aquilo que se passou, na tentativa de o recuperar, foi medonho, horrível, de tal forma que não consigo concentrar-me suficientemente para retratar o vivido na noite que considero a mais longa da minha permanência na Guiné. (tantas de autêntico inferno)
A descrição sentida e fabulosa que o Lopes, através da Net, nos transmitiu sobre a sua sobrevivência, (qual quadro real ?) quase me parece pequena comparada com o terror que se apoderou de mim e daquele grupo esforçado e socorrista.
Confesso que os minutos naquela clareira e as peripécias ali estabelecidas se tornaram do tamanho das horas, dias ou meses, tal a confusão gerada, essencialmente, por negligência do Comando ou o receio persistente de continuarmos vivos, naquele perigo, no mínimo, imaginativo.
Só quem nunca ouvira relatos da realidade de Jobel (mais tarde um dos cemitérios da 1690) e não era o caso, arriscaria perder todas aquelas vidas humanas. O caos era tanto que pediu opinião a um soldado nativo sobre o procedimento a tomar (estavam no local pelo menos 1 Alferes e 3 ou 4 Furriéis). Falo deste Comando porque foi o primeiro morto branco da Companhia, no rebentamento descuidado da mina que também vitimou o Alferes Lopes e que acabou por o trazer para uns meses de recuperação no H.M.L. Por ironia, habituei-me a pensar, a partir desse momento, que me tinha saído a sorte grande e que interiorizei, verdadeiramente, como que, mesmo que me matassem eu não morria, tais as obrigatoriedades operacionais que me impunha. O “senhor da guerra” entendia, entre outras coisas, que os outros militares do serviço de saúde não lhe mereciam confiança e então o Furriel (eu) tinha sempre de avançar. Enfim, contingências daquela guerra que, já na época, não eram compreensíveis ou aceitáveis.
Situando-me no momento, admitia eu que a nossa localização estivesse quase como a carne no assador, mas felizmente (quase um milagre) ninguém deu um tiro, porque em caso contrário, acabávamos por nos matar a nós próprios, já que a noite era de breu, não se vislumbrava um palmo para além dos nossos olhos e ali ninguém se entendia, imperava o desnorte, o medo e a incógnita.
Haverá, hoje, e referente à fase citada, uma multidão enorme, quase do tamanho do mundo, que não entende os perigos que nos envolviam e que do seu resultado dependia, para nós todos, a sobrevivência ou a morte.
Depois e para nosso bem (excluindo o Lopes) iniciámos a caminhada de regresso em silêncio, agarrados uns aos outros, embora com o enleio do emaranhado da mata cerrada, tivessem sido provocadas quedas e despegamentos, qual prolongar da odisseia, pelo que só no fim nos conseguimos juntar todos.
Quase me apetece parar, nesse presente tempo e concluir que afinal, para os bafejados pela sorte ou protegidos por algo, não decifrável, a vida continuaria.
Fomos, nessa noite, efectivamente, uns “sortudos”, mas, não me restam dúvidas, estivemos à beira de engrossar o vasto número dos desaparecidos ou mortos em combate, já que considero que enquanto lá permanecemos, coabitámos, paredes meias, com mortes anunciadas, que para bem de todos os intervenientes, nos foram perdoadas.
P.S.
Apercebo-me que a memória já não me vai confortando com muitos factos ocorridos, há mais de 40 anos e, confesso, isso me debilita em termos de me considerar perdedor de parte do vasto património da minha vivência.
Apesar de, contrastando com essa realidade, reparar com muita nitidez, que se mantêm bem transparentes quase todas as imagens daqueles tempos distantes e pernoitados na Guiné, onde, pura realidade, jamais sabíamos se o sol do dia seguinte ainda tinha algo que nos pertencesse.»

Passei toda essa noite a ruminar ideias. Que mais fazer?... Dizem que nessas situações em que a vida nos está ou pode estar a escapar nos viramos para aquela que já está, que já foi, que não se pode apagar. Passa-nos tudo pela mente. Hei-de dizer brevemente sobre esses meus pensamentos.
Às cinco da manhã do dia 25 começou a clarear e decidi fazer o que tinha pensado durante a análise do mapa no dia anterior. Não ir pelo mesmo carreiro por onde tinha vindo porque era mais que certo que tinham montado lá armadilhas. Caminhei pela bolanha porque tinha visto que ia dar ao rio que tinha atravessado na véspera. Naquela neblina matinal, os ruídos dos passos a chapinhar na água da bolanha, os capins a serem esmagados ou a agitarem-se com o andar causavam ruídos que me faziam virar a cabeça amiúde, podia ser algum bicho que habitava aquele meio, sei lá.
Sem bicho nenhum, acabei por chegar ao rio Gambiel e o problema a seguir foi encontrar o local onde estavam as palmeiras submersas, a única hipótese que eu tinha de o atravessar novamente. Vi que não havia ninguém por perto, procurei em vários metros da margem e encontrei. Fui andando devagar por cima dos troncos, num ritmo de equilibrista em corda bamba, a G3 era a vareta, sentindo-me como um pato que qualquer guerrilheiro que aparecesse na margem de onde eu vinha podia caçar com um só tiro. Mas cheguei à outra margem, o bater do coração baixou de ritmo, e iniciei o trajecto que tinha gizado na minha cabeça quando estava de molho na véspera. Andei muito tempo por entre as árvores da mata, passei por Canhagina e Cheuel.
Dei com uma pequena picada em declive que eu já conhecia. Ao fundo uma lagoazita e mulheres a lavar roupa. Aproximei-me delas. Olharam para mim estarrecidas por instantes e fugiram na direcção oposta. Devia estar de tal modo que a minha figura metia medo... Fui atrás delas, pois sabia para onde iam. Cheguei à tabanca de Sare Madina, estavam à entrada as mesmas mulheres em grande algazarra com uns homens grandes (homens mais velhos, respeitados), e os milícias. Eu já os conhecia e eles a mim. Quando me viram sorriram e acolheram-me bem. É evidente que sabiam da situação. Depois de alguma troca de palavras e mantenhas (saudações), o cabo que comandava a milícia local ofereceu-me a sua bicicleta para eu poder chegar a Geba. Aceitei.
Pedalei muito tempo, pareceu-me, por caminhos que me eram familiares, por onde eu tinha vindo aquando do início da operação. Cheguei e o primeiro que encontrei foi o alferes Moreira. Fitou-me de olhos esbugalhados. Lançou-se a mim num abraço e... desmaiou (bom rapaz, é um coração sentimental).
O meu percurso de ida e regresso de Sinchã Jobel.

Já me tinham dado para Bissau como "desaparecido em combate". Depois foi isto:
- os dois furriéis que tinham ficado na orla da clareira disseram-me que estiveram quase a dar porrada no outro que me deixou sozinho; ao capitão disse que tinha sido complicado, que não havia hipótese, que ainda bem que os outros tinham fugido - soube depois que o furriel fugidio tinha levado uma porrada de 17 dias de prisão disciplinar, com mudança de companhia, mas, se houve de facto um processo disciplinar, eu nunca fui ouvido.

O melhor:
Nesse mesmo dia, levaram-me a Bafatá (a 30 quilómetros) para ser ouvido pelo TCor Hélio Felgas. Primeira preocupação dele: Você trouxe a G3? Disse-lhe que sim e fiquei em brasa. Contei-lhe tudo, a sentinela ao pé do rio Gambiel, por onde tinha ido e por onde tinha vindo, inclusive que tinha a certeza que eles tinham em Sinchã Jobel uma base de guerrilha. Também lhe disse que não tinha visto nenhum turra morto (contrariamente ao que disse o relatório do capitão, e também nunca soube que tivesse ficado ferido algum dos nossos...). Maroto, chasqueou: Você tem aqui uma história para escrever um livro... Mas outra coisa: você esteve 24 horas no campo do inimigo e, se calhar, temos de levantar um processo... E a brasa espevitou. Levantei-me da cadeira: Está a brincar e a gozar comigo? É brincadeira, nosso alferes, não se chateie. Fiz a continência e fui-me embora.

1 de outubro de 2010

4-Breve história da CART1690

Hei-de contar mais coisas desta primeira companhia onde estive. Mas agora vou dar uma breve história. Pode ser vista em:
(para ver em ponto grande carregar em X, em baixo à direita)

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Este foi o quartel onde a CART1690 esteve. Tinha sido inaugurado pela compamhia anterior, a CCAÇ1426, que o inaugurou novinho em cimento. Em 1998 estive lá e viu-o degradado e abandonado. Em 2006 não estive mas não deveria estar melhor.


3-Para a Guiné no Ana Mafalda, já e em força!

Falam muito no Niassa e no Uíge. Mas já ouviram falar no Ana Mafalda? Se calhar, não. Pois o Ana Mafalda é (ou era, porque já foi abatido) este barquito que aqui mostro:




Tinha 103 metros de comprimento e 14 metros de largura, em linguagem de pescador de canoa em água doce, e tinha uma velocidade máxima de 13,5 nós, isto é, em linguagem de velho motorista de fim-de-semana, dava no máximo 25km por hora.Tinha 16 alojamentos em primeira classe, 24 em segunda e 12 em terceira. Tinha 47 tripulantes (estou muito agradecido a um deles, um que me vendeu a máquina fotográfica com a qual tirei as fotografias lá na Guiné). Alguns dos modernos "cacilheiros" que atravessam o rio Tejo não serão tão "grandes", mas aproximam-se. Pois é verdade, meus amigos, foi neste transatlântico que a CART 1690 [Geba, 1967/69] largou do cais de Alcântara até à Guiné. Era a única unidade que lá ia, porque não cabia mesmo mais ninguém, penso eu.

Como alguns meses antes de embarcarmos nos tinham dito que íamos para Timor, ficámos satisfeitos por decidirem mandar-nos para a Guiné, pois pensámos que seria terrível ir num barco daqueles até à Oceânia...

Os alferes, sargentos e furriéis foram distribuídos pelos beliches dos "camarotes" de segunda e terceira classe. Em primeira classe ficou o capitão da companhia, o comandante do navio, o imediato, o oficial das máquinas, certamente, e uns mangas que se penduraram em nós à boleia, que eu não sei quem eram nem procurei saber (mas falava-se à socapa que eram uns gajos da Pide).

O Zé Soldado, sempre o mais fodido nestas situações, foi para o porão onde estavam montados uns beliches de ferro com umas enxergas em cima, e onde casa de banho não havia.

Largámos às 12h00 do dia 8 de Abril de 1967. Foi uma bela viagem, como devem calcular, com os baldes dos dejectos do porão a serem despejados borda fora de manhã e ao fim da tarde (ao menos haja regras). Mas os "despejos" começaram logo à saída da barra do Tejo. Eu, pessoalmente, nunca tinha chamado tantas vezes pelo Gregório.

Mas vou contar o que aconteceu antes do embarque. No dia 3 de Abril houve a cerimónia de despedida, assim lhe chamaram, no RAC (Regimento de Artilharia de Costa) de Oeiras, que era onde estávamos à espera de embarque. Houve missa na parada celebrada pelo o senhor Major-Capelão Nazário, que, ainda por cima tinha sido meu "superior" quando eu fiz a instrução primária nas Oficinas de S. José, em Lisboa!

Não fui à missa, porque já me tinham chegado as do seminário, nem ouvi o sermão que ele fez, mas disseram-me que foi uma bela dissertação sobre o amor à pátria e a defesa do património nacional. Mas tive que o gramar mais tarde, porque ele, um dia, apareceu em Geba para ver como estava a guerra. Ontem morreram três, mas nós por cá todos bem, é claro, disse-lhe eu (não o mandei para o caralho porque ainda não tinha adquirido o linguajar das gentes do norte, onde vivo agora).
O homem é (ou era, não sei se já morreu) este:


Depois, no dia 8 de Abril, então, seguimos de comboio especial para a gare marítima. Fizemos um belíssimo e aprumadíssimo desfile perante um representante de Sua Ex.ª o Ministro do Exército, com a nossa mascote Morena à frente (vai a fotografia dela a falar com um macaco; coitada, não vem na lista dos mortos, mas estava em Sare Banda aquando de um ataque, e foi morta durante ele; morreu em combate também; era uma cadela muito porreira).


As senhoras do Movimento Nacional Feminino deram muitos santinhos, calendários e bolachas a todos. O representante de Sua Ex.ª o Ministro do Exército ainda fez uma prelecção aos sargentos e oficiais dentro do navio. Aos soldados não deu trela. E lá embarcámos com as lágrimas dos familiares presentes. Às 16h00 do dia 15 de Abril de 1967 o Ana Mafalda chegou ao porto de Bissau. A 16 de Abril a companhia passou directamente do navio para uma LDM e seguiu pelo rio Geba acima até Bambadinca.


Foi engraçado e giro para o pessoal que ia todo enfiado ouvir os fuzileiros que nos levaram ir dizendo, em cada curva ou ponto mais apertado do rio:
- Olhem que aqui costuma haver ataques!...

Dormimos em Bambadinca, em tendas, ao pé do rio, porque não havia instalações. Foi o primeiro combate... com a mosquitada.


A 17 de Abril seguimos de Bambadinca para a povoação de Geba em coluna auto.


30 de setembro de 2010

2-Há sempre um antes


Fui uma criança encantadora.
Na Maternidade Magalhães Coutinho disse-me a minha mãe que eu era o menino mais bonito (enlevos da minha querida mãe...)



E fui também um rapazito bem comportado


Tanto que... fui ter ao seminário

e até fui professor


Mas não deu, tive de deixar os padres. Dei em estudante, deixei de ser bom rapaz, castigaram-me e mandaram-me para a tropa.


... e, depois de passar por Mafra, Lamego, de rompante, e Amadora, espetaram comigo na Guiné.






1-O que vou pondo

É conforme me vou lembrando, e vou também pescando algumas coisas minhas que já publiquei ou que outros publicaram em blogues existentes.