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15 de dezembro de 2010

22-Regresso a Sinchã Jobel

A 6 de Abril de 2006, eu e o meu amigo Xico Allen mais dois camaradas, o Armindo e o Costa, e mais dois jovens, a filha do Xico Allen, a Inês, e o filho do Albano Costa, o Hugo, largámos do Porto em direcção à Guiné-Bissau. Fomos por terra de jipe numa viagem interessante, não sem alguns percalços, mas bem superados pela experiência e desembaraço do habitué dessas andanças, o Xico Allen. Ao fim de sete dias chegámos a Bissau, tendo-se juntado a nós, depois, mais três camaradas chegados de avião. Na semana seguinte, com o jipe com que fôramos e mais um alugado, visitámos alguns dos locais por onde tínhamos passado aquando das nossas comissões de serviço na Guiné. No fim dessa semana, eu e o Xico Allen ficámos e os outros regressaram todos a Portugal de avião.
Tive, então. e com a ajuda do meu amigo, oportunidade de programar com calma aquilo que era o meu grande objectivo nesta viagem: ENTRAR FINALMENTE EM SINCHÃ JOBEL. Da minha experiência passada sabia que seria impossível o acesso de jipe pelo sul, por Sucuta, visto o rio e as bolanhas, pelo que vi ser melhor ir pelo norte por Sare Banda.
Até aí foi por uma picada cheia de buracos, um deles seria mesmo o da mina que me feriu a mim e matou o capitão, pois ela estava na mesma como há trinta e tal anos, e foi perto de Sare Banda que a tal mina rebentou. Chegámos e verifiquei que era uma tabanca mais pequena do que aquela que eu conhecera antes. Tivéramos lá um destacamento e havia poucos restos disso.

Restos nossos em Sare Banda.

Perguntámos a um grupo qual o caminho para Sinchã Jobel, mas disseram-nos que não havia picada, só um carreiro. Um rapaz que lá estava disse-nos que era difícil ir lá com o jipe mas que, se quiséssemos tentar, nos podia indicar o caminho. Fomos com ele. Chamava-se Maliq e era taxista em Bissau, tinha vindo ali visitar a família. Perante o meu espanto por ver agora a tabanca tão pequena, explicou-nos que depois da guerra cada etnia tinha saído para tabancas próprias. Ali, agora, tinham-se mantido os fulas. E eu, é claro, que sabia que o reordenamento forçado durante a guerra tinha esvaziado tudo à volta e concentrado as populações da zona em Sare Banda.
Foi muito difícil o caminho até Darsaleme e Sare Dembel, mas mais difícil ainda quando saímos daí em direcção a Sinchã Jobel. Porque era uma mata serrada com um carreiro muito estreito. Mas, em marcha lentíssima, solavancos e inclinações, a arte do Xico Allen levou-nos ao destino.
Manga de ronco um jipe ali! O grupo que estava debaixo da árvore chegou-se logo ao pé de nós e partiram-se mantenhas (trocaram-se cumprimentos). Disse ao que vinha, que tinha sido militar português e tinha estado ali durante a guerra. Um homem grande (velho) apontou para outros dois:
- O Darami e o Mulé lutaram aqui.
Simpáticos, falaram connosco e ofereceram-se para nos acompanhar a dar uma volta na zona.
...A clareira onde apanhei a emboscada e fiquei sozinho ( Operação Jigajoga)





Estão aqui sinais visíveis nas árvores dos bombardeamentos da aviação portuguesa. O Darami e o Mulé confirmaram-me que muitas ou rebentavam nas árvores ou caíam no chão sem deflagrar



Nesta zona tinha o PAIGC montadas as "baracas", na expressão deles, isto é, as casas de mato que não eram visíveis do ar porque estavam cobertas por grandes árvores. Às vezes, disse o Darami, mudavam de local, mais para trás ou mais para o lado, conforme as circunstâncias e as informações que tinham de ataques da tropa portuguesa.

Além de terem sentinelas junto do rio e das bolanhas tinham sempre um em cima desta árvore.
Estavam sempre preparados para "receber" a tropa .



O Darami diz-me que, como não tinham tempo, não faziam covas para os enterrar. Os corpos dos mortos eram atirados para dentro deste poço.
"Os nossos também?", perguntei-lhe.
"Sim, todos."
Pensei com tristeza que lá estarão o alferes Fernandes (Op. Invisível) e o soldado Câmara (Op. Imparável).


Disseram-me que tinham caído várias sem rebentar, que tinham conseguido destruir todas menos esta. Deixaram-na ficar ao longo destes anos todos.

11 de dezembro de 2010

21-Op. Invisível


De facto, os resultados desta operação Invisível levantam-me interrogações sobre o "sucesso" da operação Insistir e sobre como foi a "exploração desse sucesso" na operação Instar, estas realizadas 20 dias antes daquela.
O Alferes Fernandes, referido no relatório que se segue, e cujo corpo lá ficou morto, foi quem me foi substituir depois de eu ter sido evacuado. O soldado Fragata (Manuel Fragata Francisco), um alentejano de Alpiarça, também aí referido como tendo lá ficado, tinha sido do meu grupo de combate. Mas a história deste foi outra depois: ficou furado por vários estilhaços de uma roquetada e foi levado, em maca, pelos guerrilheiros desde a mata do Óio até a um hospital de Ziguinchor, na Casamansa, Senegal. Foi obra, hão-de concordar, e não foi fácil, como calculam. Aí, em Ziguinchor, foi tratado pelo portugês Dr. Pádua, um médico desertor, e que me confirmou isto quando, há alguns anos, o encontrei em Lisboa. Depois desse tratamento foi repatriado pela Cruz Vermelha Internacional e foi para o Anexo do HMP, na Rua Artilharia Um, em Lisboa. Infelizmente, o Fragata, passado pouco tempo após a saída do Anexo, morreu num desastre de motorizada na sua terra.


Depois desta operação, aquela zona foi considerada ZLIFA (Zona Livre de Intervenção da Força Aérea), isto é, só os T6 e os Fiat é que passaram a voar para lá para despejarem toneladas de bombas e napalm sobre a floresta que rodeava a clareira de Sinchã Jobel. Sem grande efeito prático, pois as bombas rebentavam no cimo das copas das árvores, deixando praticamente intactas as partes no solo. Tenho fotos disso (publicarei mais tarde). E a guerra continuou...


Op Invisível. 16 de Dezembro de 1967


Situação particular:

Em face das acções realizadas sabe-se que o IN actua no regulado de Mansomine onde possui a base de Sinchã Jobel.


Missão:

Executar uma batida nesta região tentando desalojar o IN.


Força executante:


CMDT: Cap.Mil.Art. Carlos Manuel Ferreira
Dest A – CART 1742, a 2 Gr Comb.
DEst B - CART 1690 a 2 Gr Comb ref. c/ 1 PEL MIL 110 / C MIL 3


Desenrolar da acção:

Em 1822H00DEZ67, as forças intervenientes saíram auto transportadas de Geba em direcção a SARE GANÁ, progredindo em seguida apeadamente em direcção a Ganhagina, que atingiram em 1904H00DEZ67. Não se pôde efectuar a cambança da bolanha nessa altura, em virtude do guia não conhecer o caminho, para atingir a bolanha pelo que as forças intervenientes se instalaram, montando a devida segurança. Pelas 06H00 as forças intervenientes iniciaram novamente a progressão à bolanha, que atingiram pelas 07H50 hora a que se iniciou a cambança da mesma. Nesta altura foram avistados elementos IN em cima de árvores, pelo que se tomaram as devidas medidas de segurança para a travessia da mesma. A cambança terminou às 08H30, iniciando-se em seguida a progressão à base de patrulhas. Cerca das 11H30 fez-se um alto, devido novamente ao guia se ter perdido e precisar de se orientar. Foi destacada 01 Secção reforçada comandada pelo Furriel Miliciano Pombeiro para fazer a protecção ao guia, enquanto a restante força interveniente montava segurança no local de estacionamento.
Às 12H45 iniciou-se novamente a progressão à base de patrulhas que foi atingida às 15H52. Nesta altura ouviram-se vozes de elementos IN, o que levou as forças intervenientes a supor que o IN se encontrava instalado naquele local. Devido a este facto a missão foi alterada e estabeleceu-se que o Dest B faria o assalto ao objectivo enquanto o Dest A faria a detenção do IN. Para o assalto ao acampamento IN o Dest B nomeou 01 Gr Comb, enquanto o 2º. Gr Comb faria a protecção ao 1.º e serviria de reserva.
Estabeleceu-se também o ponto de reunião das forças intervenientes. Quando o 1º GR Comb progredia em direcção do acampamento IN, foi emboscado e surpreendido por um súbito desencadear de intenso e nutrido fogo IN. Tentou anular-se o mesmo reagindo as NT fortemente. Como o 1° Gr Comb fosse o que nessa altura se encontrasse mais submetido ao fogo IN, veio o 2º Gr Comb comandado pelo Alferes Miliciano Fernandes em auxilio do primeiro, mas o mesmo foi atacado pela rectaguarda e, portanto, não pode proteger a retirada do primeiro. Começou também nessa altura o IN a fazer fogo com o Mort 82, com que abateu o alferes miliciano Fernandes. Verifiquei que nessa altura já o Dest B tinha as seguintes baixas: Alferes Miliciano Fernandes, 1º. Cabo Sousa da CART 1742 e que estava a fazer fogo com a ML MG-42, soldado metropolitano Fragata e um soldado milícia que não consegui identificar, além de vários feridos. Procurei trazer o alferes miliciano Fernandes para a rectaguarda, e quando o puxava pelos pés, fui surpreendido por um grupo IN, que corriam em direcção aos furriéis milicianos Marcelo e Vaz e em minha direcção gritando que nos iriam apanhar vivos. Note-se que neste grupo IN avistei elementos brancos os quais usavam o cabelo bastante comprido (a cobrir as orelhas), facto também confirmado pelos já citados furriéis milicianos. Devido a tal, tive que abandonar o corpo do alferes Miliciano Fernandes e retirar. Quando retirava em direcção ao ponto de reunião, encontrei uma secção da CART 1742, e 4 soldados da minha Companhia que me informaram ser impossível entrar em contacto com a CART 1742, enviei 3 soldados desta última Companhia afim de averiguar tal impossibilidade, enquanto se montava a segurança com os restantes elementos. Logo após esses 3 Soldados regressaram informando-me que a CART 1742 já retirara. Devido a tal e uma vez que o IN já nos estava a envolver, iniciei a retirada em direcção à bolanha. Durante a retirada fomos constantemente perseguidos pelo IN que disparava incessantemente rajadas de armas automáticas ligeiras e metralhadora pesada, além de encontrarmos diversos elementos IN já instalados ao longo do caminho que conduzia à bolanha e que fez com que este grupo tivesse que atravessar a bolanha num local diferente do que inicialmente estava previsto, e que batiam o caminho por onde nos deslocávamos. Quando atravessámos a bolanha o IN bateu a mesma com granadas de morteiro 82 (algumas das granadas estavam equipadas com espoleta de tempos), rajadas de armas pesadas, ligeiras e roquetadas, tendo o mesmo entrado na bolanha em nossa perseguição, e ainda após concluída a travessia depararam-se-nos alguns elementos IN instalados deste lado da bolanha. Conseguimos, no entanto, fazer a travessia da mesma e iniciarmos a progressão em direcção a SARE GANÁ, que atingimos às 21H00. Chegados a SARE GANÁ, verifiquei que a CART 1742 já aí se encontrava e que faltavam 16 elementos da minha Companhia e 1 elemento da CART 1742. [estes militares foram recuperados no dia 21 de Dezembro de 1967, durante a Op Invisível II, realizada com esse objectivo, tendo sido encontrados a vaguear na mata] .


Resultados obtidos:

Baixas sofridas pelo IN: Mortos confirmados 14; numerosas baixas prováveis.

19-Op. Imparável






















Foi a operação que se fez a seguir àquela em que entraram dois grupos de comandos, e que ficou em águas de bacalhau. Esta foi feita com cassanhos, só, e deu o que vão ler.
O Agrupamento não teve em conta o que eu dissera ao T.Cor. Hélio Felgas sobre as condições de difícil acesso à base, cercada por um rio e por duas bolanhas (Operação "Jigajoga"), e as consequências podem ver-se neste "capítulo" e nos seguintes.


A operação foi comandada do PCV (Posto de Controlo Volante) pelo Comandante do Agrupamento. Quem faz o relatório da operação é o comandante da companhia, o Cap.Mil.Art. Carlos Manuel Ferreira. O Agostinho Francisco da Câmara (e não Camará), morto na operação, era açoriano e do meu grupo de combate quando eu lá estava, o corpo dele não foi recuperado; o Armindo Correia Paulino, aqui referido, também era do meu grupo de combate, o Bigodes, como lhe chamávamos, acabou por ser morto durante a retirada desta operação na bolanha, e o seu corpo também não foi recuperado. O Lamine Turé foi nessa companhia o meu guarda-costas, ferido comigo pela mina. Igualmente nessa bolanha foi gravemente ferido o alferes Leite Rodrigues com uma roquetada, sendo actualmente capitão reformado da GNR e frequentador assíduo da Tabanca de Matosinhos (é um aparte...).
Sobre o aparecimento de um helicóptero, o relator da operação diz que sim, mas há quem me tenha dito que não viu nada. Também aquando da Op. Jigajoga houve quem dissesse que viu cubanos, mas aqui eu garanto que não vi lá nenhum entre os guerrilheiros. E tive tempo para isso... Penso que há situações que dão para algumas fantasias.


Op Imparável. 15 de 16 de Outubro de 1967:



Situação particular:


O IN tem-se revelado no regulado de Mansomine não só durante as operações, como em ataques a tabancas e aquartelamentos. Possui um acampamento na região de Sinchã Jobel que lhe serve de base às suas acções.


Missão:


Golpe de mão ao acampamento de Sinchã Jobel seguido de uma batida na região.


Força executante:

CMDT: PCV
MEIOS:

Dest A - C CAV 1748.
Dest B -CCAÇ.1685 a 2 Gr Comb ref. c/ 1 PEL MIL/C MIL 3.
Dest C -CART 1690 a 2 Gr Comb ref. c/ 1 PEL MIL/C MIL 3.


Desenrolar da acção:


Em 1504H30, o Dest C saiu auto-transportado de Geba, em direcção a SARE MADINA, progredindo apeadamente em direcção a SUCUTA que atingiu às 08H45 instalou-se no orla junto à bolanha, tendo mantido essas posições até 1610H30OUT67. Durante a noite de 15 para 16 fomos flagelados com 4 tiros de morteiro e rajadas de armas ligeiras automáticas. Cerca das 03H00 foi avistado um Helicóptero IN que sobrevoou o acampamento IN. , tendo o Dest. B e C feito fogo às minhas ordens sobre o IN instalado na margem oposta. Este Dest. não conseguiu atravessar a bolanha, o mesmo sucedendo ao Dest. B, embora quando este último tentou a travessia já tivesse apoio aéreo (ATAP) o PCV ordenou então ao Dest. C a travessia da bolanha às 11H30. Cerca das 03H00 foi avistado um Helicóptero IN que sobrevoou o acampamento IN. Quando o Dest A iniciou a travessia da bolanha em 1609H00OUT67 o mesmo foi atacado por tiros de morteiro e rajadas de armas ligeiras automáticas, tendo o Dest B e C feito fogo de morteiro às minhas ordens, sobre o IN instalado na margem oposta. Este Dest não conseguiu atravessar a bolanha, o mesmo sucedendo ao Dest B embora, quando este último tentou a travessia, já tivesse apoio aéreo (ATAP) o PCV ordenou então ao Dest. C para nomear uma secção e tentar a travessia da bolanha às 11H30. Esta secção foi constituída por: Cap.Mil. Carlos Manuel Ferreira, Alf.Mil. António Costa Neto, Fur.Mil. Abílio José Pombeiro e Soldados Armindo Paulino, António Lopes, Lamine Turé, Mama Baldé e Saliu Baldé.
Esta Secção atravessou a bolanha sob fogo IN e com apoio aéreo dos T-6 chegando ao outro lado da bolanha às 12H45. As 15H00 os Dest A e C tinham atravessado a bolanha e preparavam-se para progredir em direcção ao acampamento IN. Antes de iniciarem a progressão teve de se rebentar uma armadilha A/P, constituída por uma granada do LGF. Os dois Dest A e C atingiram a clareira de Sinchã Jobel pelas l6H40, onde se estabeleceu que o Dest C reforçado por um Gr Comb do Dest A, comandado pelo Alf.Mil. Leite Rodrigues, iria fazer o ataque ao acampamento IN pelas 17H00, caiu-se numa emboscada montada pelo IN. Tentou-se anular a emboscada, que seria conseguido senão fosse a hora tardia, a incapacidade de duas armas pesadas (LGF e MORT 60) e algumas G-3 encravadas do Dest C.
Outra razão talvez decisiva e que fez com que as NT não calassem a emboscada foi o facto de o Dest A não ter envolvido o IN devido ao fogo cerrado do morteiro 60 e 82 do IN. Além destas armas, o IN possuía armas automáticas individuais, 3 MP [metralhadoras pesadas] e alguns lança rocketes ou LGF (Não sei precisar). Uma das MP foi calada pelo nosso LGF. Vários contras para nós surgiram durante a emboscada: O nosso bazuqueiro (passe o termo) Soldado Agostinho Camará que estava a fazer um fogo certeiro, foi atingido mortalmente (note-se que este LGF era o único que estava a fazer fogo). Foi o Soldado enfermeiro Alípio Parreira que se encontrava próximo e que estava a fazer fogo com a ML MG-42 (para a qual o referido soldado se oferecera como voluntário) pegar no LGF e continuar a fazer fogo com ele. Nesta altura tive que pegar na MG-42 e fazer fogo com ela. Logo a seguir tive que me dirigir à rectaguarda a fim de falar com o PCV que me chamava. Quando regressei à frente verifiquei que o já referido soldado enfermeiro recomeçara a fazer fogo com a ML MG-42 e que passado mais alguns momentos ficou impossibilitado de fazer fogo devido a uma avaria, ao mesmo tempo que o soldado enfermeiro e o municiador eram feridos por estilhaços. Mesmo assim este soldado enfermeiro veio para a rectaguarda, onde agarrou no morteiro 60 e continuou a fazer fogo com o mesmo. Foi-me impossível continuar o ataque ao acampamento IN, em virtude de se terem esgotado as munições que levava, as armas pesadas não funcionarem, a noite já ter caído por completo e desconhecermos o terreno.
Deve notar-se, contudo, que nesta altura já o IN dava sinais de fraqueza e, segundo alguns soldados nativos que se encontram juntamente comigo na frente, estarem a gritar que tinham que fugir.

Para retirar, pedi auxilio ao Dest A que foi à frente, permitindo que o Dest C retirasse para fora da zona de morte, donde protegeu a retirada do Dest A.
Já fora da zona de morte, verifiquei que não se tinham trazido os mortos, pelo que enviei novamente à zona de morte alguns soldados para os trazerem. Tal não foi possível, visto estarem armas automáticas do IN apontadas para o local onde se encontravam os corpos. Ainda foram abatidos a tiro de G-3 dois elementos IN, um destes pretendia agarrar o Soldado Armindo Correia Paulino, quando este estava a arrastar um dos nossos mortos para a rectaguarda e que se salvou devido ao aviso oportuno do soldado Saliu Baldé e que permitiu ao primeiro soldado citado abater esse elemento IN, ao mesmo tempo que o soldado citado abatia um segundo elemento IN, que se encontrava armado e estava a proteger o outro elemento IN abatido.
Seguidamente efectuou-se a retirada (e friso mais uma vez que esta teve de ser feita devido ao Dest C ter esgotado as munições e as armas avariadas), tendo o IN vindo em nossa perseguição até à bolanha onde os últimos elementos a atravessá-la (o Dest C) foram alvejados por rajadas de armas automáticas. Após a travessia da bolanha verifiquei que o Dest B já não se encontrava em Sucuta. Os Dest A e C atingiram SARE MADINA pelas 02H00 de 17, onde aguardaram viaturas do Dest C que os transportaram para GEBA, tendo uma viatura do Dest C seguido para Bafatá com os feridos mais graves.


Resultados obtidos:



-Baixas sofridas pelo IN: - Mortos confirmados 8 e baixas prováveis numerosas.
-Foi destruída uma armadilha A/P e destruída ou danificada uma MP.



Comentários:



O plano de acção inicial não foi cumprido. Se tivesse sido, o acampamento IN teria sido destruído porque o Dest A conseguiu chegar a 50 metros do acampamento IN sem ser detectado.



Nota:



Em 27 de Agosto de 1967 foi recebida uma noticia C2 em que referia que o IN tinha sofrido 54 mortos e muitos feridos ainda não controlados.
As NT tiveram tarefa bastante penosa no regresso devido a terem que transportar 12 feridos graves e 22 ligeiros por as evacuações não poderem ser feitas de Helicóptero durante a noite.


18-Op. Jacaré

Entre os feridos estiveram o alferes Reis, com menos gravidade, e o alferes Maçarico, gravemente ferido e que teve de sr evacuado para o HMP.
Op. Jacaré. 16 de Setembro de 1967

Situação particular:

O IN tem-se revelado em operações realizadas nos regulados de Mansomine. Possui um acampamento forte em Sinchã Jobel que serve de base para as suas acções.
Missão:
- Assegura a ocupação do sector, tendo em atenção os regulados da faixa Oeste e as linhas de infiltração que conduzem ao interior.
- Detecta, vigia ou captura elementos ou grupos suspeitos de subversão que se hajam infiltrado ou constituído no sector, impedindo que a subversão alastre.
- Captura ou aniquila os rebeldes que se venham a revelar, destruindo as suas instalações ou meios de vida e restabelece a autoridade e a ordem nas regiões afectadas.

Força executante:
CMDT: Cp.Inf.Manuel Correia dos Santos Luís
MEIOS:
DEST A - CCAV 1650 (-); CART 1690 (2 Gr Comb); CCAÇ 1685 (1 Gr Comb); PEL MIL 111/C MIL 3
DEST. B - 01 PEL REC/EREC 1578.
DEST C - 2 Gr. COMANDOS.
DEST D - 1 Gr. Comb /CCS/BCAÇ 1877.
DEST E - 1 Secção / AML 1143.
DEST F - 1 Secção / AML 1143.
Desenrolar da acção:
Em 16 de Setembro de 1967, pelas 6H30, o Dest A menos o PEL MIL /C MIL 5 deslocou-se em meios auto em direcção a Cheüel. Após a saída de Geba uma viatura avariou, sendo o pessoal distribuído pelas outras viaturas que constituíam a coluna.
Cerca das 08H00, uma mina anti-carro destruiu a terceira viatura da coluna a 100 metros de Chüel, projectando os ocupantes, dos quais 8 foram evacuados por Heli para o Hospital Militar 241, tendo os restantes ficado em condições de não prosseguir a operação, o mesmo acontecendo, com outros que ao saltar das viaturas se haviam magoado.
Montada a segurança aos feridos e viaturas, procedeu-se a escolha e preparação do campo de aterragem para o Heli que imediatamente fora pedido pelo PCV [posto de controlo volante] que na altura nos sobrevoava. Posta a situação ao PCV, quanto a baixas, foi ordenado ao Dest A para regressar ao quartel depois de evacuar as viaturas, e onde chegou pelas 17H00.
Devido à quebra do segredo foi ordenado pelo CMDT AGRUP 1980 o cancelamento da operação.

17-Op. Jigajoga 2

Deixei aquela companhia (Breve história da CART1690) quando fui evacuado para o HMP (A mina da minha vida), mas fiquei sempre ligado àqueles meus camaradas e vou mostrar algumas das situações em que estiveram envolvidos. Faço-o socorrendo-me da "História da Unidade" e, naturalmente, de conversas que temos tido.
Como compreenderão, Sinchã Jobel, a base do PAIGC que descobri involuntariamente (Operação "Jigajoga"), tem um significado muito especial para mim.
Depois dessa minha "descoberta", mas sem surpresa para os senhores do batalhão e do agrupamento, iniciaram-se algumas operações mais elaboradas com o objectivo da sua destruição.

Era uma antiga tabanca, já destruída, sendo agora uma clareira de cerca de 2.000m2, cercada por uma mata densa, tendo a sul o Rio Gambiel, com água pelo peito e uma "ponte" submersa, isto é, dois troncos de palmeira debaixo de água, (quando fui para lá o meu guia indicou-ma, quando regressei, sem guia, tive de a descobrir); a Oeste e a Este tem várias bolanhas, uma delas mesmo perto da clareira (a tal onde durante a noite toda a minha vida me passou pelo pensamento); a Norte, até Banjara, tem uma floresta muito densa e dezenas de poilões (há lá, na Guiné-Bissau de agora, uma serração).

Nas margens do rio Gambiel e das bolanhas os guerrilheiros tinham sentinelas; pelo lado de Banjara, a floresta impenetrável tornava o acesso impossível. É claro que a base de guerrilha não estava na clareira de Sinchã Jobel (nem antes dela, pois não a encontrei quando ia para lá) (Na bolanha uma noite dá para pensar) mas em algum local deste contexto que vos descrevo, para Norte, muito bem situada e com óptimas condições de defesa.


Op. Jigajoga 2. 31 de Agosto de 1967.
Situação particular:
O IN tem-se revelado a sul de Banjara, com mais intensidade nos regulados de Mansomine e Joladu. Em Sinchã Jobel possui uma base forte, que serve de apoio às suas acções.
Missão:
Assegura a ocupação do Sector, tendo em atenção os regulados da faixa Oeste e as linhas de infiltração que conduzem ao interior.
Detecta, vigia ou captura elementos ou grupos suspeitos de subversão que se hajam infiltrado ou constituído no sector, impedindo que a subversão alastre.
Captura ou aniquila os rebeldes que se venham a revelar, destruindo as suas instalações ou meios de vida e restabelece a autoridade e a ordem nas regiões afectadas.
Armadilha os itinerários utilizados pelo IN.

Força executante:

CMDT: Cap.Inf.Manuel Correia dos Santos Luís
MEIOS:
DEST A - CART 1690 (2 Gr Comb); CCAÇ 1685 (1 Gr Comb); CCVA 1693 (1 Gr Comb); 1 PEL SAP / CCS 1877 (2 secções); 1 PEL 109/CAÇ MIL 3
DEST B - CCS 1877 (1 Gr Comb) /CCS 1877 (1 Gr COmb); 1 PEL REC/EREC 1578.
Desenrolar da acção:
Em 31 de Agosto de 1967, pelas 4.30h., iniciou-se a progressão a partir de Darsalame. Durante a progressão foi batida toda a zona do itinerário, procurando vestígios e/ou trilhos que indicassem a existência do IN.
Pelas 09H00 aproximação de Sare Tamba, os cuidados de pesquisa redobraram no sentido de localizar e assaltar o possível acampamento IN. Batida toda a mata durante 2 horas onde se supunha existir o referido acampamento, não foi possível localizá-lo nem o IN se revelou.
No deslocamento para o objectivo pelas 11H00 foi ouvido um disparo de espingarda tipo Muaser ao longe, não sendo possível determinar a sua direcção. Continuada a batida foram encontrados restos de um camuflado IN não sendo possível, porém, encontrar mais nada. Pelas 11H50 foram ouvidos muito ao longe alguns rebentamentos fora da zona de acção.
Por parecer mais fácil passou-se a bolanha junto a Sinchã Bolo e a seguir o Rio Jago na direcção de Sucuta (Madina Fali) onde se chegou pelas 15H00. Fez-se uma paragem para se conferir pessoal e material, porque as bolanhas foram de difícil travessia e foi a coluna atacada por um enxame de abelhas durante a transposição da primeira bolanha.
Reiniciada a progressão em direcção a Sare Budi foi detectada pelas l6H00, em 1445 121.07H, 100 metros após a entrar na mata uma armadilha A/P a qual foi destruída pela Secção do PEL SAP/1877. Em Sare Budi no itinerário para Sare Madina foram montadas 2 armadilhas A/P cujo croqui será elaborado pelo Cmdt SAP/BCAÇ 1877.
Continuando a progressão em direcção a Sinchã Fero Demori, não foi possível montar mais armadilhas em virtude do adiantamento da hora e não ser possível determinar o itinerário de acesso ao interior do sector desta CART.
A chegada a Sare Banda verificou-se às 19H30, seguindo em meios auto até Geba, o que se registou às 20H30, tendo regressado às suas unidades o Gr Comb/CCAÇ 1685 e o 1 PEL SAP / CCS 1877 (2 secções)".

10 de dezembro de 2010

16-A NOVA ESCOLA DE SAMBA CULO





































Mas a escola de Samba Culo foi recuperada e está a melhorar!
E isso deve-se ao interesse da Missão Católica de Farim
e ao auxílio que tem sido prestado pela ONGD Ajuda Amiga (http://ajudaamiga.com.sapo.pt/),
de que são dirigentes e activistas o Carlos Silva e o Carlos Fortunato, e da qual também sou associado, mas não activista por motivos vários.

No próximo ano esta Ajuda Amiga lá estará com mais materiais e equipamentos-


Apresento, com a devida vénia ao seu autor, fotografias dessa nova escola retiradas do site do Carlos Silva http://carlosilva-guine.i9tc.com/site/.

Nelas sinto ainda a imagem da professora Abess, que morreu sem ver aquilo por que lutou.
Ver: Ainda a escola de Samba Culo; Um vaso de flores; Abess; Sei que matei; Inquietar I; Inquietar II

15-Ainda a escola de Samba Culo


Nessa escola de Samba Culo encontrámos, imaginem, uns paramentos de padre católico! Em conversa uma vez com o falecido Luís Cabral ele disse-me que sim, que havia naquela zona um padre, mas não se recordava do nome. Em próximos spots mostrarei que esta ligação continua.

Havia também montes de maços de cigarros cubanos sem filtro numa arrecadação. Tentei fumar um mas não gostei. Aliás, nunca fui fumador durante a guerra.
Lembro que as escolas do PAIGC no mato não eram só para as crianças mas também para os guerrilheiros. Durante o ataque não havia crianças, que já teriam sido levadas para outro local, naturalmente. Apenas alguns combatentes, que foram abatidos.
Mas o que mais me impressionou, além do "vaso de flores" no quadro de madeira, foram os livros escolares onde aprendiam o português.Eram como este que mostro em baixo.
"O Nosso Primeiro Livro de Leitura" das escolas do PAIGC (para ver em ponto grande carregar em "Menu" e depois em "View Fullscreen")
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9 de dezembro de 2010

14-A mina da minha vida


De manhã muito cedo tinha saído uma coluna para o destacamento mais longínquo. Eu e o capitão ficámos no snack-bar da companhia (ver que beleza na fotografia) a tomar o pequeno -almoço: uma fresquíssima garrafa de vinho verde e uns cachorros. Maravilha, o nosso frigorífico a petróleo funcionava mesmo bem! Era o menu matinal do capitão, não o meu habitualmente, mas nesta altura acompanhava-o.

Eis se não quando chega o radiotelegrafista a correr todo agitado:
“Meu capitão, a coluna encontrou uma mina!”
“Deflagrou?”, perguntou o capitão com preocupação.
“Dizem que não. Os picadores detectaram-na e agora estão lá parados.”
“Então, vou lá ver isso aqui com o nosso alferes. Vamos?”
“Claro, vamos lá.”
Ainda eram alguns quilómetros, saímos num unimog com uma secção do meu pelotão. Eu próprio já tinha feito várias vezes aquele percurso para o tal destacamento, quer para levar abastecimentos quer para operações na sua zona. Quando chegámos lá estava a coluna parada, o alferes comandante desta, o Domingos Maçarico, e alguns soldados e milícias picadores à volta da mina. Era uma TMD, uma anti-carro. O capitão deu ordem para se afastarem todos para longe. Ficou ele e eu e os nossos guarda-costas. Virou-se para mim:
“Vamos oferecer esta mina ao nosso comandante de batalhão. Além disso isto dá dinheiro.”
Não sabia quanto é que dava e não estava nada interessado em ganhar dinheiro dessa maneira. Como estava fodido com os mandões do batalhão e do agrupamento, porque me tinham antes mandado para a boca do lobo abusando da minha ingenuidade, também não estava nada virado para lhes oferecer prendas.        
Mas, enfim, a prenda era dele, que se lixe.
Ajoelhámo-nos os quatro, peguei na minha faca de mato e comecei a escavar à volta da mina. Chegou-se, entretanto, um furriel ao pé de nós e tirou uma fotografia. O capitão enxotou-o:
“Já disse para saírem daqui, caralho!” Continuei a escavar. Quando já não havia terra nenhuma à volta da mina, levantei-me e achei por bem dizer-lhe:
“Não vejo nada aqui à volta. Mas eu não sou especialista nestas coisas e parece-me que é melhor rebentá-la com uma granada ou puxá-la de longe com uma corda. É melhor não arriscar.”
“Nada disso, pá. Vai ser um ronco e quero oferecê-la ao comandante de batalhão. Vamos levantar isto.”
O meu guarda-costas já se tinha levantado também, estava ao pé de mim e olhava-me com aprovação. Disse decididamente:
“Então não sou eu que pego nisso.”
Ficou o capitão mais o seu guarda-costas ajoelhados ao pé da TMD. Quando o guarda-costas dele começou a levantar a mina eu e o meu recuámos dois passos.
É outra dimensão. O trovão e a faísca rápidos que nos lançam no vazio,sem passado nem presente, nem nada pela frente. Não se sente, nem há qualquer pensamento, nem dor ou sofrimento. Forma rápida de sair da vida para o nada.
Só sei que dei por mim deitado na mata, fora da picada. Levantei-me e vi ao pé o capitão também deitado. Não se mexia, a farda tinha desaparecido quase toda, a perna direita estava pegada ao joelho por uma tira de pele, os testículos estavam desfeitos. Mais à frente estava o meu guarda-costas, que se tinha levantado e parecia não ter nada. Perguntei-lhe como estava. Disse-me que só tinha uns estilhaçositos. Fui até ao buracão da mina, olhei para o fundo e vi lá bocados de uma granada de morteiro. Tinha sido assim, um rebentamento por simpatia. Vários elementos da coluna tinham-se aproximado. O alferes comandante olhou para mim estarrecido:
“Estás a deitar sangue dos ouvidos.”Ouvi-o mal mas ainda percebi e levei lá as mãos. Vieram cheias de sangue.
“E o guarda-costas do capitão?”, perguntei-lhe.
“Já o procurei mas não o encontro.”Decidimos colocar o capitão em cima dum poncho e levá-lo para a sede do batalhão, onde havia um médico. Na nossa companhia não havia. Ainda pensámos que podia estar vivo. Por isso vimos que não havia tempo de procurar o homem que levantara a mina, o qual, concluímos, devia ter os bocados espalhados no meio da mata. Depois se veria.
Ouvia-me ao longe, mas sei que fui todo o caminho a chamá-los turras filhos da puta, cabrões, hei-de fodê-los… e montes de impropérios, misturados com várias lágrimas.
O médico do batalhão disse que o capitão estava morto. Viu o meu guarda-costas e confirmou que tinha dois pequenos estilhaços, retirou-os e tratou dele. Com dificuldade, mas ouvi-o a dizer-me que tinha dois estilhaços no peito, tirou-mos e olhou-me:
“Estes não têm importância. Mas olhe que você teve uma sorte do caraças. Há um que lhe passou na virilha direita, deixou aí um traço mas não atingiu nada de importante.” Sorriu-se mas eu não achei piada nenhuma.
“De qualquer modo tem de ser evacuado porque tem os dois ouvidos furados.”
E fui. Veio um helicóptero e levou-me para o HM241, em Bissau. Fiquei lá uma semana, tratado a mais de 15 comprimidos por dia. Hão-de ter-me feito bem a alguma coisa, não duvido, mas ao fim de alguns dias o meu estômago nem a água aguentava. No fim dessa semana fui evacuado para o HMP, para Lisboa.
Mas isso é outra história



13-Um vaso de flores

Contei a uma amiga e ela fez este poema:



Um vaso de Flores
Para ser homem
Enrolei sílabas clandestinas
Embandeirei sonhos em sobressalto
Entrincheirei o vento na raiz do sangue
Semeei a semente derradeira
E não encontrei pétalas.
Abri cada minuto do meu tempo
Ocultando palavras em campos minados
E desocupei silêncios sem disfarce de temor.
Para ser homem
Esventrei savanas numa geografia de luta
Esfumei revoltas em bares
Num gesto escravo de emaranhadas teias.
Adiei a vida vezes sem conta
Instalei residência em terras em chama
E com os pés nus,
Na esperança de descobrir mistérios indecifráveis,
Entre a esperança e o desejo
Fui escavando o carvão da resistência.
Um dia, aproximei-me do abismo
E num minuto sem sabor a nada,
Num idioma de rosto ferido
Ficámos olhos nos olhos
Separados por um vaso de flores.
Era a hora dos sonhos enlutados
A escorrer de um sonho de menina
A morte encarava os corredores do infinito.
Num vaso de flores encontrei a dimensão da Vida
Tapei o firmamento da minha pátria
Encostei-me a um luar sem luz
E acrescentei o meu desassossego
Antes que a escuridão me avassalasse.
As flores não murcharam no vaso
E do seu rosto não saiu a minha madrugada
A seiva ficou no chão
Numa funda transparência de vertigem.
Eu, homem, descobri que a morte também beija
E que ser homem cava séculos de silêncios e de cinzas.
Clara Roque Esteves

12-Abess


Ali estava ela, jovem e bela como a conheci há trinta anos, mas agora com um olhar calmo e um sorriso nos lábios, vi-a na expectativa do meu abraço. E abracei-a... e chorei.
Abess, este jovem é o Cinco, que me trouxe de jeep até aqui, e este é o Blétch Intéte, filho da siguê[1] dos balantas de Barro . O outro teu patrício homem-grande[2], é o Cacuto Seidi, chefe da tabanca[3] de Barro. Foi ele que me disse que o Blétch Intéte tem irã[4] e que só ele podia fazer com que eu te encontrasse. A minha chegada aqui, há trinta anos, foi muito diferente, como deves calcular, e não me refiro, evidentemente, às razões de cada uma das viagens. Desta vez, assim que pisei o aeroporto Osvaldo Vieira[5], tive de levar as mãos ao peito para que o coração não me abandonasse. Por mais esforços, por mais conversas apaziguadoras, durante as quatro horas que durou a viagem, não consegui acalmá-lo nem convencê-lo de que era preciso dominar a ansiedade e moderar os desejos de ti. Perdido, cego de alegria e paixão, chegara a hora da realização do sonho de vários anos, depois de desvanecidos todos os fantasmas, é claro, porque, quando saí daqui a primeira vez, evacuado para o hospçital, este coração estava enraivecido com vocês todos, que me tinham ferido e matado amigos meus. Passados nove meses, aqui voltei, para continuar na guerra, é verdade, ainda confuso mas já sem ódio e desejoso de entender o que se passava. Foi nessa minha fase, Professora, que nos conhecemos, quando dei contigo na tua escola de Samba Culo, naquela manhã de 7 de Julho. Da segunda vez que abandonei a Guiné e deixei a guerra, a minha vontade e empenho foi esquecê-la, varrer-vos a todos da minha memória, lavar as marcas do sangue dos meus amigos, do meu próprio, e também do vosso, banir o medo e o cansaço que se me entranhara na alma ao percorrer as matas deste chão que, agora, vê lá!, reguei com lágrimas de alegria e de saudade consolada. Para aqui chegar, frequentei bares e prostitutas, acumulei sessões contínuas no Olímpia[6], fui estudante mas nunca acabei cursos, percorri a Europa, estive em Paris, no Quartier Latin das minhas leituras, Londres, vi a Royal Guard e a rainha, Roma, não vi o Papa porque estava de férias em Castelgandolfo, e vê lá que me atrevi a passar a cortina de ferro, em Praga, Moscovo, onde namorei uma soviética na Praça Vermelha, a tchetchena Aniuska, Leninegrado e Kiev, fui activista sindical e militante político, participei em primeiros de Maio, fiz trabalhos clandestinos e levei porrada da polícia, dormi em esquadras, casei-me, fiz filhos e apanhei bebedeiras, bati nos filhos e descasei-me, conheci muitas mulheres, fiz amor por todo o lado, levei muitas negas e passei noites de solidão, dormi em bancos de jardim e debaixo de árvores, mas nunca te esqueci, não houve prazer-anfetamina que cauterizasse esta memória em carne viva nem bebida que a afogasse, cansei-me da vida, como me cansara antes para não morrer, e pensei em matar-me. Mas, olha, não consegui, não por causa de Deus, pois nesse período nunca fui à missa e nunca me confessei. Não o fiz porque tinha começado a amar-te e não queria morrer sem voltar a ver-te, sem deixar de to dizer.

...
Está a ficar noite e tenho três horas para chegar a Bissau. Cinc, prépare le jeep, nous en allons tout de suite. Sabes, professora, porque é que o meu condutor se chama Cinco? Nasceu no dia 5 de Maio e é o quinto filho de sua mãe, que decidiu dar-lhe esse nome tão significativo. Não, não te preocupes que ele não percebeu nada da nossa conversa, além do crioulo só sabe francês, pois frequentou apenas uma escola em Dakar. É que, professora, nasceu há 23 anos, muito depois daquele dia em que tive de te abrir o ventre com uma rajada de G3 por te ver empunhar a kalash que tinhas pendurada no quadro da escola. Ele não estava aqui entre os teus meninos. Se tivesse estado, saberia falar e escrever português, com certeza. Sei que foste uma boa professora. Vi que escrevias no quadro as palavras com o desenho correspondente para os teus alunos identificarem bem em português os objectos do seu dia-a-dia. Vi os livros por onde aprendiam a ler, vi os cadernos de redacção e de cópias. Está descansada, não matei nenhum deles, garanto-te. Devem estar por aí, cidadãos do teu país.
...
Tenho de partir, de voltar a Portugal. Gostei muito de falar contigo, tinha mesmo necessidade de o fazer, já que, naquele dia em que nos encontrámos pela primeira vez, só eu te disse “firma lá!”[7] e tu não me disseste nada. Percebo que nem me quizesses ouvir... E nunca mais dormi descansado até agora. Quero pedir-te uma última coisa, que desculpes aquele meu soldado que tentou violar-te quando estavas agonizante. Conseguiste ver ainda que não o deixei fazer isso. Perdoa-lhe, era bom rapaz, um camponês minhoto que para aqui foi lançado e, sabes, é fácil perder a cabeça numa guerra de inimigos fabricados. Talvez o encontres por aí, o teu camarada Gazela matou-o em Jobel e o corpo dele por cá ficou. Deve andar, como tu, no meio desta floresta do Oio. Fala com ele agora.


[1] Feiticeira tribal
[2] Homem idoso, respeitável, aceite como autoridade pelos mais novos da povoação.
[3] Povoação.
[4] “Irã”, entre os balantas, que são animistas, é qualquer ser da natureza, árvore ou animal, ou qualquer objecto a que é atribuído poder mágico. «Tem irã» significa ter poder sobrenatural que é preciso respeitar e temer.
[5] Aeroporto de Bissau, a que foi dado o nome de Osvaldo Vieira, herói do PAIGC, morto durante a guerra de libertação.
[6] Cinema popular na Rua dos Condes, em Lisboa.
[7] Está quieta aí!
Ver: Ainda a escola de Samba Culo; A nova escola de Samba Culo; Um vaso de flores; Sei que matei; Inquietar I;Inquietar II