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20 de dezembro de 2010

26-Ataque a Banjara


UM DIA EM BANJARA

(texto do ex-alferes António Moreira)

Banjara fica situada a cerca de 40Km de Geba e a cerca de 20Km de Mansabá, na estrada Bissau/Bafatá. Fica no coração da mata do OHIO, e teve antes da guerra colonial, uma unidade industrial de serração de madeiras. Pertencia, durante a guerra, à área de actuação da Companhia de Geba, do Batalhão de Bafatá.

Gozava da fama, e do “proveito”, de ser o 2.º pior destacamento da Guiné, a seguir a Beli, na zona de Madina do Boé. Não apenas pelos ataques mas, sobretudo, pelo perigo que representava, por estar muito isolado da Companhia, e por estar cercado por uma cintura de destacamentos IN, que vigiavam de fora do arame farpado e do alto das gigantescas árvores que o envolviam todos os movimentos da nossa tropa.

Era constituída por uma caserna, quatro abrigos subterrâneos, e um posto de comando, que era uma casa abarracada, sem portas nem janelas, por onde os sardões o as cobras vagueavam livremente, sem nenhum obstáculo que lhes barrasse a passagem, a não ser a presença humana. Tinha ainda outros abrigos à superfície.  A envolver este destacamento, que no essencial era uma clareira circular com cerca de mil metros de diâmetro, 2 fiadas de arame farpado, paralelas e em círculo. O capim era necessário cortá-lo de dois em dois meses, para evitar a aproximação camuflada do  IN. As casas de banho, como é de calcular, eram a céu aberto.

A guarnição deste destacamento, comandado por um Alferes, variava entre 60 a 80 homens, normalmente, bem armados e disciplinados, capazes de aguentar debaixo de fogo uma boas dezenas de horas.

O seu comando era rotativo e por lá passámos os mais longos meses da nossa juventude, então com 23 anos, e responsabilidades tremendas em cima dos galões de Alferes.

A paisagem envolvente era de uma beleza indescritível, com dezenas de cajueiros, mangueiras, árvores gigantes, capim e as célebres lianas. O barulho ensurdecedor dos milhares de pássaros e a vozearia nocturna da mais variada bicharada, desde macacos a hienas, tornavam aquele ambiente um mistério todos os dias renovado.

  O “dia” em Banjara, iniciava-se naqueles anos (1967/1968), por volta das 18 horas. A essa hora o Comandante mandava distribuir a 3.ª refeição, e as sentinelas avançadas ocupavam os seus postos. Toda a gente vestia então o seu camuflado, calçava as botas e recarregava as armas. Não é que de dia estivessem todos a dormir, mas durante a noite, entrava-se em alerta máximo. Durante a noite era rigorosamente proibido acender luzes, fazer fogo e fumar à vista desarmada para não denunciar a presença e a localização de ninguém.

   Tomada a 3.ª refeição e colocadas as sentinelas, que eram sempre dobradas, iniciava-se toda uma série de rondas de posto a posto, podendo os soldados que estavam de folga, e só nos abrigos subterrâneos, jogar cartas, conviver e confraternizar, pôr a correspondência em dia, etc. De vez em quando dormia-se uma hora ou duas mas sempre em sobressalto, e sem a mínima tranquilidade. Posso dizer que durante o tempo que passei neste destacamento não dormi uma única noite descansado.

   Durante a noite, de vez em quando, uma sentinela nossa dava um tiro, à aproximação do arame farpado de um macaco ou qualquer outro bicho (podia náo ser...). Logo todos corriam para as armas pesadas e, normalmente, o IN respondia com dois tiros ao longe. Então a nossa sentinela, aquela ou outra, respondia passado algum tempo com três tiros. A seguir a resposta de novo do IN, então com 4 tiros. Era um jogo macabro, que nos mantinha constantemente vivos e despertos.

   O dia amanhecia, então, e, pelas 7 da manhã, iniciava-se a distribuição da 1.ª refeição. As horas mortas do pessoal eram gastas, durante o dia, à caça, quando isso era possível e o capim estava seco e caído no chão, a jogar cartas, pôr a correspondência em dia e jogar futebol. O jogo de futebol era normalmente diário, mas sempre a horas diferentes, para não se cair na rotina, e sempre com os abrigos guarnecidos de atiradores.

   Terminada a 1ª refeição iniciavam-se os trabalhos de rotina, para o que o efectivo estava dividido em 4 grupos, cada um deles composto por 15 ou 20 homens, comandados por um sargento.Um grupo estava de serviço à água e à lenha para as refeições. Os banhos eram tomados na bolanha a um quilómetro do arame farpado, e sempre com 10 ou 12 homens armados em vigia. Outro dos grupos era o piquete que realizava, normalmente, uma patrulha de reconhecimento nas imediações do aquartelamento. O terceiro grupo estava de prevenção rigorosa e o quarto estava de "folga".

  Este destacamento tinha apenas uma coluna de reabastecimento por mês, no máximo, mas chegava a estar mais de 2 meses sem alimentos frescos e sem correio. Não havia população civil, apenas militares.

  Mas nesta situação de extrema insegurança, com privações de toda a ordem e dificuldades sem fim, estabeleceram-se relações de amizade, de solidariedade e de união de tal modo fortes, e com exemplos de lealdade e entrega total de tal modo intensos que considero ser a parte positiva da guerra colonial, que a todos marcou de uma forma mais ou menos traumática.










Ataque a Banjara  24 de Julho de 1968.

DESENROLAR DA ACÇÃO
No passado dia 24, pelas 18H00, o destacamento de Banjara foi atacado por numeroso grupo IN, estimado em cerca de 80 elementos (Bigrupo reforçado) com o seguinte armamento:
-Morteiro 82
-Morteiro 60
-Bazooka
-Lança-Rocketes
-Metralhadoras pesadas
-Armas ligeiras
O ataque terminou às 19H15. Verificou-se que, durante o ataque, as NT sofreram 1 morto, o soldado Jaime Maria Nunes Estêvão. [O Estêvão era uma pessoa forte, trabalhador e empenhado, bom amigo e camarada. Tinha sido ajudante de camionista. Durante esse ataque estava atrás de uma árvore e veio uma granada de morteiro que nela deflagrou. Um estilhaço entrou-lhe directamente no peito e cortou-lhe a aorta. Caiu numa possa de lama a esvair-se em sangue e morreu rapidamente.] Houve também 2 feridos, tendo sido atingido por uma granada de morteiro a caserna e por uma granada do lança-rocketes o depósito de géneros.
O ataque foi efectuado no sentido Norte-Sul tendo o IN instalado alguns elementos do lado Sul. Verificou-se que mal o IN abriu fogo com os morteiros 82 e 60, alguns elementos correram imediatamente para a rede de arame farpado, cortando o arame nalguns sítios, procurando penetrar no aquartelamento. No entanto, devido à pronta reacção das NT, não o conseguiram, tendo sido obrigados a retirar, após o que continuaram a flagelar o aquartelamento sem, contudo, causarem mais baixas às NT.
Diversos: A hora a que o ataque se realizou quase que coincidiu com a hora da terceira refeição. Verificou-se que a maioria dos soldados se encontravam a tomar banho, pois tinham acabado de jogar uma partida de futebol.
O impacto inicial do ataque foi sustido principalmente pelo soldado Manuel da Costa que, mal se iniciou o ataque, correu para a metralhadora pesada Breda e, sem ser apontador da mesma, pô-la imediatamente [em acção] e manteve-se sempre nesse posto, e pelo soldado José Manuel Moreira da Silva Marques que, sozinho, em virtude dos outros dois camaradas que constituíam a esquadra do morteiro 81, terem sido feridos, funcionou com o mesmo, tendo a presença de espírito para, a certa altura, e após ter verificado que algumas das granadas estavam sujas de terra, despir os calções para limpar as mesmas e poder assim continuar a bater o IN com um fogo bastante certeiro.
A coluna de socorro, constituída por 1 PEL REC do EREC [Esquadrão de Reconhecimento]2350, 1 GR COMB da CART 1690 e pelo PEL CAÇ NAT 64, saiu de Sare Banda às 07H30 do dia 25 (e tal deveu-se a ter sido necessário recolher as forças que executavam a Operação Iluminado) e atingiu Banjara às 15H00, pois foi necessário picar toda a estrada até ao destacamento de Banjara.
Quando a coluna lá chegou ordenei que um GR COMB batesse toda a região, tendo o mesmo detectado várias manchas de sangue e pedaços de camuflado IN, e munições de armas ligeiras.
Devido às baixas, deixei uma secção a reforçar o destacamento de Banjara, tendo em seguida regressado a Geba.

RESULTADOS OBTIDOS: 
Baixas sofridas pelo IN: dois mortos confirmados; várias baixas prováveis; material capturado: munições de armas ligeiras e uma granada de morteiro 82.

25-Ataque ao destacamento de Cantacunda



Antes de ser ferido, estive algum tempo neste destacamento. Conheci-o bem. Caracterizava-se pelas péssimas condições das instalações do pessoal e pelos deficientíssimos meios e condições de defesa. Sublinho que ficava a cerca de 50 kms. da sede da companhia. Sem luz eléctrica (como todos os destacamentos da CART 1690), nem um miserável gerador… estava, como se vê pelo relatório, pegado à floresta. O armamento era ultrapassadas metralhadoras pesadas Dreyses e Bredas, morteiro 81 e 60. Os abrigos eram uns buracos de difícil acesso e sem condições interiores. E com pouco efectivo, um pelotão normalmente. No dia deste ataque estavam lá apenas duas secções. Situava-se relativamente perto da base de Samba Culo do PAIGC (a tal que foi destruída em 1967, mas que, é claro, foi logo reconstruída de seguida…). O soldado Aguiar (João Alves Aguiar) era do meu grupo de combate, foi o único que tentou resistir com a G3 à boca do abrigo e morreu, por isso. 11 foram capturados, entre eles o furriel que comandava o destacamento, o Vaz. Foram libertados, depois, aquando da tentativa de invasão na Guiné-Conakri. Apesar das péssimas condiçõe e dos fracos efectivos, é evidente ( e sei que foi assim, porque me contaram) que houve desleixo e facilitismo em excesso. Se não tivesse havido, não tenho dúvidas que as coisas não teriam sido tão fáceis para os atacantes.











ATAQUE A CANTACUNDA
10/11ABR68
DESENROLAR DA ACÇÃO
  No dia 10 do corrente cerca das 00H00, o destacamento de CANTACUNDA foi  atacado por numeroso grupo IN.
  Devido à hora a que o ataque foi realizado a guarnição do destacamento encontrava-se quase toda a dormir na caserna; Devido à configuração do terreno ( do lado NORTE do destacamento existe uma floresta que dista, no máximo de 5 metros do arame farpado; do lado POENTE essa floresta prolonga-se  e verifica-se que havia 2 aberturas no arame farpado; Uma que durante a  noite era fechada com um cavalo de frisa outra que devido às obras e construção da pista de aterragem se encontrava aberta; Do lado SUL existia a tabanca cujas moranças confinavam com o arame farpado; do lado NASCENTE  existe uma bolanha), devido também à falta de iluminação exterior o IN  pôde aproximar-se do arame farpado sem ser detectado pelas sentinelas e abrir fogo com bazookas e lança rocketes sobre a caserna, tendo em seguida atacado pelos lados NORTE, POENTE e SUL: pelo lado NORTE o IN atirou com  troncos do árvores para cima do arame farpado tendo em seguida ultrapassado o mesmo; Do lado POENTE afastou o cavalo de frisa e penetrou por essa  abertura, e pelo lado da pista; Pelo lado SUL infiltrou-se pelas tabancas  que queimou e em seguida penetrou no aquartelamento.
  Devido à simultaneidade com que os movimentos foram efectuados (Os mesmos  foram comandados do exterior por apitos) verificou-se que as NT não poderam  atingir os abrigos e foram surpreendidos no meio da parada. Note-se, contudo, que alguns elementos das NT ainda conseguiram atingir os abrigos (por exemplo os 1°s. Cabos ESTEVES E GOUTINHO e os Soldados AREIA e AGUIAR  tendo este último sido morto no local e os restantes conseguido escapar).
  Devido ao numeroso grupo IN não foi possível contudo organizar uma defesa  eficaz pelo que as NT foram obrigadas a abandonar o destacamento; No entan to só 9 elementos é que conseguiram escapar, tendo 11 desaparecido ( provavelmente feitos prisioneiros) e 1 morto.
POSSÍVEIS CAUSAS DO INSUCESSO DAS NT:
 -O poder de fogo do IN
 -O grande numero de elementos que constituíam  o grupo IN
 -A violência com que o ataque foi desencadeado
 -A pontaria certeira do grupo IN, que acertou os primeiros disparos na caserna das NT.
 -O Comando eficaz do grupo IN.
 -A falta de iluminação existente no destacamento
 -Possível insuficiência de abrigos
 -As proximidades da mata do arame farpado
 -As proximidades da tabanca do arame farpado
 -O reduzido efectivo das NT
 -Possível abrandamento das condições de segurança
 -Longa distância deste destacamento à Sede da Companhia (cerca de 50 kms)
COMENTÁRIOS
  Posteriormente veio a saber-se, por declarações de alguns milícias e elementos da população civil detidos para averiguações, que o ataque teve a conivência do próprio Comandante da milícia e de elementos da população. Todos os elementos que precisavam, tais como distâncias para colocar as armas pesadas, local da entrada no destacamento e vias de acesso ao mesmo,  foram fornecidos por esses indivíduos que traíram as NT.
Os que foram capturados em Cantacunda foram libertados aquando da operação Mar Verde. Menos os soldado Luís dos Santos Marques, que morreu no cativeiro. Há quem diga que foi por doença. Sobre o Armindo Correia Paulino há um erro que começou logo na companhia, que o deu como "retido pelo IN": ele "não compareceu" porque não foi feito prisioneiro, morreu na operação Imparável e o corpo não foi recuperado. Os outros dois, o João da Costa Sousa e o Francisco Gomes da Silva, consta que foram para Argel. Nunca mais se soube deles.
De referir que, a CART2743, a segunda a substituir a CART1690 em Geba, tinha um pelotão em Cantacunda que foi atacado em na noite de 26.10.71. De dados que eu tenho, os guerrilheiros chegaram a ultrapassar a primeira linha de arame farpado (estavam melhor que na altura da CArt1690...), mas as NT aguentaram-se. Unidades de Geba e de Bafatá (elementos do Bart2920 e ERFox 2640) foram em seu auxílio logo nessa madrugada, tendo sido emboscados no caminho entre Camamudo e Cantacunda, morrendo nessa emboscada seis elementos da CArt 2743: o 1º Cabo Atirador António João Ferreira dos Santos, os Soldados Atiradores Avelino da Costa Gomes, Diamantino da Encarnação Cunha, Jorge da Encarnação Lourenço e Luciano Augusto Paula. O Soldado Condutor José Henriques Teixeira Silva foi ferido e acabou por morrer no HM241 a 31.10.71. Foi também morto nesta emboscada o Alferes de 2ª Linha Malique José Semedo Baldé, da CMil3. 

24-As minas

É um exemplo das minas naquela picada para Banjara. Precisamente no local onde foi colocada aquela que me feriu e matou o capitão e o Domingos Gomes (A mina da minha vida). Esta fez 6 mortos e um ferido grave entre os milícias.


OP. S/NOME     16JUL68

SITUAÇÃO PARTICULAR
Do antecedente o IN coloca minas no itinerário SARE BANDA – BANJARA

MISSÃO
Transporte de frescos e correio. Patrulhamento do itinerário GEBA-BANJARA-GEBA

FORÇA EXECUTANTE
CMDT – Cap.Mil. Carlos Manuel Ferreira
MEIOS – DEST. A – CART 1690 (01SEC.+) ref. c/PEL.MIL 111/CMIL3
                DEST.B – PEL.CAÇ.NAT. nº 64
                DEST. C – 01 PEL REC/EREC 2350

DESENROLAR DA ACÇÃO
Em 1611H15 saiu do destacamento de SARE BANDA o 1º GR. Constituído por 2 secções do PEL.CAÇ.NAT nº 64 e seis milícias que iniciaram a picagem da estrada. Às 12H05 verificou-se o rebentamento de uma mina A/P, reforçada com uma mina A/C que provocou 6 mortos e 1 ferido grave às NT pelo que tive de pedir uma evacuação urgente e fiz transportar os corpos dos mortos (com excepção de um que ficou completamente pulverizado) e o ferido para SARE BANDA. O transporte foi feito num UNIMOG, levando como escolta uma secção de atiradores e 1 daimler. O restante pessoal ficou a manter segurança no local do rebentamento e aguardando a chegada destas viaturas. Quando as mesmas regressaram verifiquei que os elementos da Companhia de Milícia não queriam prosseguir na operação, pelo que tive de os obrigar a continuar a desempenhar a missão de que iam incumbidos: Picar a estrada. Consegui que a coluna prosseguisse em direcção a BANJARA, que se atingiu às 16H25. A saída de BANJARA verificou-se às 17H00, tendo a coluna atingido BAFATÁ às 18H30. Foi cumprida integralmente a missão apesar do grande atraso em relação ao previsto.

16 de dezembro de 2010

23-Encontro com o IN

Nas vésperas de "entrar finalmente" em Sinchã Jobel estivemos a jantar com aquele que era o comandante da base do PAIGC na altura em que lá fiquei (Op.Jigajoga), o comandante Lúcio Soares. Isso deveu-se aos bons préstimos do Simões de Jugudul e do Pepito (Carlos Schwartz), ambos naturais de Bolama, que é também a terra do Lúcio Soares.
Lúcio Soares é um veterano da guerra de libertação. Foi responsável político da zona de Bafatá, foi comandante da base de Sinchã Jobel e depois comandante da Frente Norte. Como membro do Comité Executivo da Luta, foi um dos assinantes do Acordo de Argel com Portugal. Após a independência foi Ministro da Defesa do governo de Luís Cabral. Encontrava-se em Cabo Verde aquando do golpe de Nino Vieira de 14 de Novembro de 1980, regressando à Guiné-Bissau 14 anos depois. Após o golpe militar que depôs Kumba Yalá em Setembro de 2003 foi conselheiro para a Defesa do Presidente Henrique Rosa. Afastou-se após a eleição de Nino Vieira em 2005. Em 8 de Janeiro de 2009 foi nomeado Ministro do Interior por Carlos Gomes Júnior, mas saiu em 6 de Novembro desse ano.
Fotos do Xico Allen
O jantar foi no restaurante Colete Encarnado, propriedade de um ribatejano. Ele veio acompanhado do Braima Camará, conhecido por Braima Dakar (soube que morreu em Janeiro de 2010), que foi comandante na zona de Teixeira Pinto durante a guerra. A brincar, no início, Lúcio Soares disse-me que o Braima Dakar era o seu guarda-costas. Pensei, no princípio, que era uma maneira de ele justificar a presença do outro, mas, depois, a seguir ao que vi, já pensei que era mesmo capaz de ser verdade. Respondi-lhe, igualmente na brincadeira, que o Xico Allen era também meu guarda-costas.
É um homem muito reservado. Mas foi-me dizendo algumas coisas. Que tinha estado em Cabo Verde durante 14 anos após o golpe de Nino Vieira. Que tinham montado a base em Sinchã Jobel em Abril de 1967, altura em que a nossa companhia lá chegou. Que tinha 23 anos quando comandou essa base e que o Gazela era seu comissário político. Em 1968, disse-me, foi para o Morés e o Gazela passou a comandante da base.
"Eu também tinha 23 anos e fui eu que descobri a vossa base. Fiquei lá uma noite." (Op.Jigajoga)
"Eu sei. Isto é, só soubemos depois. Na altura não soubemos, não demos por isso."
"E se dessem?"
"Apanhávamos. Manga de ronco." E riu-se.
Falei-lhe da mina que me feriu.
"Desculpa. É pena que andássemos aos tiros, podia ser resolvido de outra maneira. Mas eu tinha de lutar pela minha terra."
Como ele tinha dito que estivera na zona de Canchungo (Teixeira Pinto) perguntei ao Braima Dakar sobre a morte dos três majores. Mas ele encolheu-se, disse que sabia muito mas não queria falar.
Passado tempo, entraram dois polícias e sentaram-se numa mesa perto. Nessa altura eu estava a dizer-lhe que queria ir a Sinchã Jobel e perguntava-lhe se ele não queria ir connosco. Era importante para mim estar lá com o homem que comandou aquela base. Ele apercebeu-se da presença dos polícias, disse-me que não podia ir e que tinha de ir embora. Levantou-se, despediu-se e partiu com o Braima Dakar.
Foi em Abril de 2006, já o Nino era novamente presidente. Era evidente que não estava à-vontade e, se calhar, o Braima Dakar era mesmo um acompanhante para sua segurança.


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15 de dezembro de 2010

22-Regresso a Sinchã Jobel

A 6 de Abril de 2006, eu e o meu amigo Xico Allen mais dois camaradas, o Armindo e o Costa, e mais dois jovens, a filha do Xico Allen, a Inês, e o filho do Albano Costa, o Hugo, largámos do Porto em direcção à Guiné-Bissau. Fomos por terra de jipe numa viagem interessante, não sem alguns percalços, mas bem superados pela experiência e desembaraço do habitué dessas andanças, o Xico Allen. Ao fim de sete dias chegámos a Bissau, tendo-se juntado a nós, depois, mais três camaradas chegados de avião. Na semana seguinte, com o jipe com que fôramos e mais um alugado, visitámos alguns dos locais por onde tínhamos passado aquando das nossas comissões de serviço na Guiné. No fim dessa semana, eu e o Xico Allen ficámos e os outros regressaram todos a Portugal de avião.
Tive, então. e com a ajuda do meu amigo, oportunidade de programar com calma aquilo que era o meu grande objectivo nesta viagem: ENTRAR FINALMENTE EM SINCHÃ JOBEL. Da minha experiência passada sabia que seria impossível o acesso de jipe pelo sul, por Sucuta, visto o rio e as bolanhas, pelo que vi ser melhor ir pelo norte por Sare Banda.
Até aí foi por uma picada cheia de buracos, um deles seria mesmo o da mina que me feriu a mim e matou o capitão, pois ela estava na mesma como há trinta e tal anos, e foi perto de Sare Banda que a tal mina rebentou. Chegámos e verifiquei que era uma tabanca mais pequena do que aquela que eu conhecera antes. Tivéramos lá um destacamento e havia poucos restos disso.

Restos nossos em Sare Banda.

Perguntámos a um grupo qual o caminho para Sinchã Jobel, mas disseram-nos que não havia picada, só um carreiro. Um rapaz que lá estava disse-nos que era difícil ir lá com o jipe mas que, se quiséssemos tentar, nos podia indicar o caminho. Fomos com ele. Chamava-se Maliq e era taxista em Bissau, tinha vindo ali visitar a família. Perante o meu espanto por ver agora a tabanca tão pequena, explicou-nos que depois da guerra cada etnia tinha saído para tabancas próprias. Ali, agora, tinham-se mantido os fulas. E eu, é claro, que sabia que o reordenamento forçado durante a guerra tinha esvaziado tudo à volta e concentrado as populações da zona em Sare Banda.
Foi muito difícil o caminho até Darsaleme e Sare Dembel, mas mais difícil ainda quando saímos daí em direcção a Sinchã Jobel. Porque era uma mata serrada com um carreiro muito estreito. Mas, em marcha lentíssima, solavancos e inclinações, a arte do Xico Allen levou-nos ao destino.
Manga de ronco um jipe ali! O grupo que estava debaixo da árvore chegou-se logo ao pé de nós e partiram-se mantenhas (trocaram-se cumprimentos). Disse ao que vinha, que tinha sido militar português e tinha estado ali durante a guerra. Um homem grande (velho) apontou para outros dois:
- O Darami e o Mulé lutaram aqui.
Simpáticos, falaram connosco e ofereceram-se para nos acompanhar a dar uma volta na zona.
...A clareira onde apanhei a emboscada e fiquei sozinho ( Operação Jigajoga)





Estão aqui sinais visíveis nas árvores dos bombardeamentos da aviação portuguesa. O Darami e o Mulé confirmaram-me que muitas ou rebentavam nas árvores ou caíam no chão sem deflagrar



Nesta zona tinha o PAIGC montadas as "baracas", na expressão deles, isto é, as casas de mato que não eram visíveis do ar porque estavam cobertas por grandes árvores. Às vezes, disse o Darami, mudavam de local, mais para trás ou mais para o lado, conforme as circunstâncias e as informações que tinham de ataques da tropa portuguesa.

Além de terem sentinelas junto do rio e das bolanhas tinham sempre um em cima desta árvore.
Estavam sempre preparados para "receber" a tropa .



O Darami diz-me que, como não tinham tempo, não faziam covas para os enterrar. Os corpos dos mortos eram atirados para dentro deste poço.
"Os nossos também?", perguntei-lhe.
"Sim, todos."
Pensei com tristeza que lá estarão o alferes Fernandes (Op. Invisível) e o soldado Câmara (Op. Imparável).


Disseram-me que tinham caído várias sem rebentar, que tinham conseguido destruir todas menos esta. Deixaram-na ficar ao longo destes anos todos.

11 de dezembro de 2010

21-Op. Invisível


De facto, os resultados desta operação Invisível levantam-me interrogações sobre o "sucesso" da operação Insistir e sobre como foi a "exploração desse sucesso" na operação Instar, estas realizadas 20 dias antes daquela.
O Alferes Fernandes, referido no relatório que se segue, e cujo corpo lá ficou morto, foi quem me foi substituir depois de eu ter sido evacuado. O soldado Fragata (Manuel Fragata Francisco), um alentejano de Alpiarça, também aí referido como tendo lá ficado, tinha sido do meu grupo de combate. Mas a história deste foi outra depois: ficou furado por vários estilhaços de uma roquetada e foi levado, em maca, pelos guerrilheiros desde a mata do Óio até a um hospital de Ziguinchor, na Casamansa, Senegal. Foi obra, hão-de concordar, e não foi fácil, como calculam. Aí, em Ziguinchor, foi tratado pelo portugês Dr. Pádua, um médico desertor, e que me confirmou isto quando, há alguns anos, o encontrei em Lisboa. Depois desse tratamento foi repatriado pela Cruz Vermelha Internacional e foi para o Anexo do HMP, na Rua Artilharia Um, em Lisboa. Infelizmente, o Fragata, passado pouco tempo após a saída do Anexo, morreu num desastre de motorizada na sua terra.


Depois desta operação, aquela zona foi considerada ZLIFA (Zona Livre de Intervenção da Força Aérea), isto é, só os T6 e os Fiat é que passaram a voar para lá para despejarem toneladas de bombas e napalm sobre a floresta que rodeava a clareira de Sinchã Jobel. Sem grande efeito prático, pois as bombas rebentavam no cimo das copas das árvores, deixando praticamente intactas as partes no solo. Tenho fotos disso (publicarei mais tarde). E a guerra continuou...


Op Invisível. 16 de Dezembro de 1967


Situação particular:

Em face das acções realizadas sabe-se que o IN actua no regulado de Mansomine onde possui a base de Sinchã Jobel.


Missão:

Executar uma batida nesta região tentando desalojar o IN.


Força executante:


CMDT: Cap.Mil.Art. Carlos Manuel Ferreira
Dest A – CART 1742, a 2 Gr Comb.
DEst B - CART 1690 a 2 Gr Comb ref. c/ 1 PEL MIL 110 / C MIL 3


Desenrolar da acção:

Em 1822H00DEZ67, as forças intervenientes saíram auto transportadas de Geba em direcção a SARE GANÁ, progredindo em seguida apeadamente em direcção a Ganhagina, que atingiram em 1904H00DEZ67. Não se pôde efectuar a cambança da bolanha nessa altura, em virtude do guia não conhecer o caminho, para atingir a bolanha pelo que as forças intervenientes se instalaram, montando a devida segurança. Pelas 06H00 as forças intervenientes iniciaram novamente a progressão à bolanha, que atingiram pelas 07H50 hora a que se iniciou a cambança da mesma. Nesta altura foram avistados elementos IN em cima de árvores, pelo que se tomaram as devidas medidas de segurança para a travessia da mesma. A cambança terminou às 08H30, iniciando-se em seguida a progressão à base de patrulhas. Cerca das 11H30 fez-se um alto, devido novamente ao guia se ter perdido e precisar de se orientar. Foi destacada 01 Secção reforçada comandada pelo Furriel Miliciano Pombeiro para fazer a protecção ao guia, enquanto a restante força interveniente montava segurança no local de estacionamento.
Às 12H45 iniciou-se novamente a progressão à base de patrulhas que foi atingida às 15H52. Nesta altura ouviram-se vozes de elementos IN, o que levou as forças intervenientes a supor que o IN se encontrava instalado naquele local. Devido a este facto a missão foi alterada e estabeleceu-se que o Dest B faria o assalto ao objectivo enquanto o Dest A faria a detenção do IN. Para o assalto ao acampamento IN o Dest B nomeou 01 Gr Comb, enquanto o 2º. Gr Comb faria a protecção ao 1.º e serviria de reserva.
Estabeleceu-se também o ponto de reunião das forças intervenientes. Quando o 1º GR Comb progredia em direcção do acampamento IN, foi emboscado e surpreendido por um súbito desencadear de intenso e nutrido fogo IN. Tentou anular-se o mesmo reagindo as NT fortemente. Como o 1° Gr Comb fosse o que nessa altura se encontrasse mais submetido ao fogo IN, veio o 2º Gr Comb comandado pelo Alferes Miliciano Fernandes em auxilio do primeiro, mas o mesmo foi atacado pela rectaguarda e, portanto, não pode proteger a retirada do primeiro. Começou também nessa altura o IN a fazer fogo com o Mort 82, com que abateu o alferes miliciano Fernandes. Verifiquei que nessa altura já o Dest B tinha as seguintes baixas: Alferes Miliciano Fernandes, 1º. Cabo Sousa da CART 1742 e que estava a fazer fogo com a ML MG-42, soldado metropolitano Fragata e um soldado milícia que não consegui identificar, além de vários feridos. Procurei trazer o alferes miliciano Fernandes para a rectaguarda, e quando o puxava pelos pés, fui surpreendido por um grupo IN, que corriam em direcção aos furriéis milicianos Marcelo e Vaz e em minha direcção gritando que nos iriam apanhar vivos. Note-se que neste grupo IN avistei elementos brancos os quais usavam o cabelo bastante comprido (a cobrir as orelhas), facto também confirmado pelos já citados furriéis milicianos. Devido a tal, tive que abandonar o corpo do alferes Miliciano Fernandes e retirar. Quando retirava em direcção ao ponto de reunião, encontrei uma secção da CART 1742, e 4 soldados da minha Companhia que me informaram ser impossível entrar em contacto com a CART 1742, enviei 3 soldados desta última Companhia afim de averiguar tal impossibilidade, enquanto se montava a segurança com os restantes elementos. Logo após esses 3 Soldados regressaram informando-me que a CART 1742 já retirara. Devido a tal e uma vez que o IN já nos estava a envolver, iniciei a retirada em direcção à bolanha. Durante a retirada fomos constantemente perseguidos pelo IN que disparava incessantemente rajadas de armas automáticas ligeiras e metralhadora pesada, além de encontrarmos diversos elementos IN já instalados ao longo do caminho que conduzia à bolanha e que fez com que este grupo tivesse que atravessar a bolanha num local diferente do que inicialmente estava previsto, e que batiam o caminho por onde nos deslocávamos. Quando atravessámos a bolanha o IN bateu a mesma com granadas de morteiro 82 (algumas das granadas estavam equipadas com espoleta de tempos), rajadas de armas pesadas, ligeiras e roquetadas, tendo o mesmo entrado na bolanha em nossa perseguição, e ainda após concluída a travessia depararam-se-nos alguns elementos IN instalados deste lado da bolanha. Conseguimos, no entanto, fazer a travessia da mesma e iniciarmos a progressão em direcção a SARE GANÁ, que atingimos às 21H00. Chegados a SARE GANÁ, verifiquei que a CART 1742 já aí se encontrava e que faltavam 16 elementos da minha Companhia e 1 elemento da CART 1742. [estes militares foram recuperados no dia 21 de Dezembro de 1967, durante a Op Invisível II, realizada com esse objectivo, tendo sido encontrados a vaguear na mata] .


Resultados obtidos:

Baixas sofridas pelo IN: Mortos confirmados 14; numerosas baixas prováveis.

19-Op. Imparável






















Foi a operação que se fez a seguir àquela em que entraram dois grupos de comandos, e que ficou em águas de bacalhau. Esta foi feita com cassanhos, só, e deu o que vão ler.
O Agrupamento não teve em conta o que eu dissera ao T.Cor. Hélio Felgas sobre as condições de difícil acesso à base, cercada por um rio e por duas bolanhas (Operação "Jigajoga"), e as consequências podem ver-se neste "capítulo" e nos seguintes.


A operação foi comandada do PCV (Posto de Controlo Volante) pelo Comandante do Agrupamento. Quem faz o relatório da operação é o comandante da companhia, o Cap.Mil.Art. Carlos Manuel Ferreira. O Agostinho Francisco da Câmara (e não Camará), morto na operação, era açoriano e do meu grupo de combate quando eu lá estava, o corpo dele não foi recuperado; o Armindo Correia Paulino, aqui referido, também era do meu grupo de combate, o Bigodes, como lhe chamávamos, acabou por ser morto durante a retirada desta operação na bolanha, e o seu corpo também não foi recuperado. O Lamine Turé foi nessa companhia o meu guarda-costas, ferido comigo pela mina. Igualmente nessa bolanha foi gravemente ferido o alferes Leite Rodrigues com uma roquetada, sendo actualmente capitão reformado da GNR e frequentador assíduo da Tabanca de Matosinhos (é um aparte...).
Sobre o aparecimento de um helicóptero, o relator da operação diz que sim, mas há quem me tenha dito que não viu nada. Também aquando da Op. Jigajoga houve quem dissesse que viu cubanos, mas aqui eu garanto que não vi lá nenhum entre os guerrilheiros. E tive tempo para isso... Penso que há situações que dão para algumas fantasias.


Op Imparável. 15 de 16 de Outubro de 1967:



Situação particular:


O IN tem-se revelado no regulado de Mansomine não só durante as operações, como em ataques a tabancas e aquartelamentos. Possui um acampamento na região de Sinchã Jobel que lhe serve de base às suas acções.


Missão:


Golpe de mão ao acampamento de Sinchã Jobel seguido de uma batida na região.


Força executante:

CMDT: PCV
MEIOS:

Dest A - C CAV 1748.
Dest B -CCAÇ.1685 a 2 Gr Comb ref. c/ 1 PEL MIL/C MIL 3.
Dest C -CART 1690 a 2 Gr Comb ref. c/ 1 PEL MIL/C MIL 3.


Desenrolar da acção:


Em 1504H30, o Dest C saiu auto-transportado de Geba, em direcção a SARE MADINA, progredindo apeadamente em direcção a SUCUTA que atingiu às 08H45 instalou-se no orla junto à bolanha, tendo mantido essas posições até 1610H30OUT67. Durante a noite de 15 para 16 fomos flagelados com 4 tiros de morteiro e rajadas de armas ligeiras automáticas. Cerca das 03H00 foi avistado um Helicóptero IN que sobrevoou o acampamento IN. , tendo o Dest. B e C feito fogo às minhas ordens sobre o IN instalado na margem oposta. Este Dest. não conseguiu atravessar a bolanha, o mesmo sucedendo ao Dest. B, embora quando este último tentou a travessia já tivesse apoio aéreo (ATAP) o PCV ordenou então ao Dest. C a travessia da bolanha às 11H30. Cerca das 03H00 foi avistado um Helicóptero IN que sobrevoou o acampamento IN. Quando o Dest A iniciou a travessia da bolanha em 1609H00OUT67 o mesmo foi atacado por tiros de morteiro e rajadas de armas ligeiras automáticas, tendo o Dest B e C feito fogo de morteiro às minhas ordens, sobre o IN instalado na margem oposta. Este Dest não conseguiu atravessar a bolanha, o mesmo sucedendo ao Dest B embora, quando este último tentou a travessia, já tivesse apoio aéreo (ATAP) o PCV ordenou então ao Dest. C para nomear uma secção e tentar a travessia da bolanha às 11H30. Esta secção foi constituída por: Cap.Mil. Carlos Manuel Ferreira, Alf.Mil. António Costa Neto, Fur.Mil. Abílio José Pombeiro e Soldados Armindo Paulino, António Lopes, Lamine Turé, Mama Baldé e Saliu Baldé.
Esta Secção atravessou a bolanha sob fogo IN e com apoio aéreo dos T-6 chegando ao outro lado da bolanha às 12H45. As 15H00 os Dest A e C tinham atravessado a bolanha e preparavam-se para progredir em direcção ao acampamento IN. Antes de iniciarem a progressão teve de se rebentar uma armadilha A/P, constituída por uma granada do LGF. Os dois Dest A e C atingiram a clareira de Sinchã Jobel pelas l6H40, onde se estabeleceu que o Dest C reforçado por um Gr Comb do Dest A, comandado pelo Alf.Mil. Leite Rodrigues, iria fazer o ataque ao acampamento IN pelas 17H00, caiu-se numa emboscada montada pelo IN. Tentou-se anular a emboscada, que seria conseguido senão fosse a hora tardia, a incapacidade de duas armas pesadas (LGF e MORT 60) e algumas G-3 encravadas do Dest C.
Outra razão talvez decisiva e que fez com que as NT não calassem a emboscada foi o facto de o Dest A não ter envolvido o IN devido ao fogo cerrado do morteiro 60 e 82 do IN. Além destas armas, o IN possuía armas automáticas individuais, 3 MP [metralhadoras pesadas] e alguns lança rocketes ou LGF (Não sei precisar). Uma das MP foi calada pelo nosso LGF. Vários contras para nós surgiram durante a emboscada: O nosso bazuqueiro (passe o termo) Soldado Agostinho Camará que estava a fazer um fogo certeiro, foi atingido mortalmente (note-se que este LGF era o único que estava a fazer fogo). Foi o Soldado enfermeiro Alípio Parreira que se encontrava próximo e que estava a fazer fogo com a ML MG-42 (para a qual o referido soldado se oferecera como voluntário) pegar no LGF e continuar a fazer fogo com ele. Nesta altura tive que pegar na MG-42 e fazer fogo com ela. Logo a seguir tive que me dirigir à rectaguarda a fim de falar com o PCV que me chamava. Quando regressei à frente verifiquei que o já referido soldado enfermeiro recomeçara a fazer fogo com a ML MG-42 e que passado mais alguns momentos ficou impossibilitado de fazer fogo devido a uma avaria, ao mesmo tempo que o soldado enfermeiro e o municiador eram feridos por estilhaços. Mesmo assim este soldado enfermeiro veio para a rectaguarda, onde agarrou no morteiro 60 e continuou a fazer fogo com o mesmo. Foi-me impossível continuar o ataque ao acampamento IN, em virtude de se terem esgotado as munições que levava, as armas pesadas não funcionarem, a noite já ter caído por completo e desconhecermos o terreno.
Deve notar-se, contudo, que nesta altura já o IN dava sinais de fraqueza e, segundo alguns soldados nativos que se encontram juntamente comigo na frente, estarem a gritar que tinham que fugir.

Para retirar, pedi auxilio ao Dest A que foi à frente, permitindo que o Dest C retirasse para fora da zona de morte, donde protegeu a retirada do Dest A.
Já fora da zona de morte, verifiquei que não se tinham trazido os mortos, pelo que enviei novamente à zona de morte alguns soldados para os trazerem. Tal não foi possível, visto estarem armas automáticas do IN apontadas para o local onde se encontravam os corpos. Ainda foram abatidos a tiro de G-3 dois elementos IN, um destes pretendia agarrar o Soldado Armindo Correia Paulino, quando este estava a arrastar um dos nossos mortos para a rectaguarda e que se salvou devido ao aviso oportuno do soldado Saliu Baldé e que permitiu ao primeiro soldado citado abater esse elemento IN, ao mesmo tempo que o soldado citado abatia um segundo elemento IN, que se encontrava armado e estava a proteger o outro elemento IN abatido.
Seguidamente efectuou-se a retirada (e friso mais uma vez que esta teve de ser feita devido ao Dest C ter esgotado as munições e as armas avariadas), tendo o IN vindo em nossa perseguição até à bolanha onde os últimos elementos a atravessá-la (o Dest C) foram alvejados por rajadas de armas automáticas. Após a travessia da bolanha verifiquei que o Dest B já não se encontrava em Sucuta. Os Dest A e C atingiram SARE MADINA pelas 02H00 de 17, onde aguardaram viaturas do Dest C que os transportaram para GEBA, tendo uma viatura do Dest C seguido para Bafatá com os feridos mais graves.


Resultados obtidos:



-Baixas sofridas pelo IN: - Mortos confirmados 8 e baixas prováveis numerosas.
-Foi destruída uma armadilha A/P e destruída ou danificada uma MP.



Comentários:



O plano de acção inicial não foi cumprido. Se tivesse sido, o acampamento IN teria sido destruído porque o Dest A conseguiu chegar a 50 metros do acampamento IN sem ser detectado.



Nota:



Em 27 de Agosto de 1967 foi recebida uma noticia C2 em que referia que o IN tinha sofrido 54 mortos e muitos feridos ainda não controlados.
As NT tiveram tarefa bastante penosa no regresso devido a terem que transportar 12 feridos graves e 22 ligeiros por as evacuações não poderem ser feitas de Helicóptero durante a noite.


18-Op. Jacaré

Entre os feridos estiveram o alferes Reis, com menos gravidade, e o alferes Maçarico, gravemente ferido e que teve de sr evacuado para o HMP.
Op. Jacaré. 16 de Setembro de 1967

Situação particular:

O IN tem-se revelado em operações realizadas nos regulados de Mansomine. Possui um acampamento forte em Sinchã Jobel que serve de base para as suas acções.
Missão:
- Assegura a ocupação do sector, tendo em atenção os regulados da faixa Oeste e as linhas de infiltração que conduzem ao interior.
- Detecta, vigia ou captura elementos ou grupos suspeitos de subversão que se hajam infiltrado ou constituído no sector, impedindo que a subversão alastre.
- Captura ou aniquila os rebeldes que se venham a revelar, destruindo as suas instalações ou meios de vida e restabelece a autoridade e a ordem nas regiões afectadas.

Força executante:
CMDT: Cp.Inf.Manuel Correia dos Santos Luís
MEIOS:
DEST A - CCAV 1650 (-); CART 1690 (2 Gr Comb); CCAÇ 1685 (1 Gr Comb); PEL MIL 111/C MIL 3
DEST. B - 01 PEL REC/EREC 1578.
DEST C - 2 Gr. COMANDOS.
DEST D - 1 Gr. Comb /CCS/BCAÇ 1877.
DEST E - 1 Secção / AML 1143.
DEST F - 1 Secção / AML 1143.
Desenrolar da acção:
Em 16 de Setembro de 1967, pelas 6H30, o Dest A menos o PEL MIL /C MIL 5 deslocou-se em meios auto em direcção a Cheüel. Após a saída de Geba uma viatura avariou, sendo o pessoal distribuído pelas outras viaturas que constituíam a coluna.
Cerca das 08H00, uma mina anti-carro destruiu a terceira viatura da coluna a 100 metros de Chüel, projectando os ocupantes, dos quais 8 foram evacuados por Heli para o Hospital Militar 241, tendo os restantes ficado em condições de não prosseguir a operação, o mesmo acontecendo, com outros que ao saltar das viaturas se haviam magoado.
Montada a segurança aos feridos e viaturas, procedeu-se a escolha e preparação do campo de aterragem para o Heli que imediatamente fora pedido pelo PCV [posto de controlo volante] que na altura nos sobrevoava. Posta a situação ao PCV, quanto a baixas, foi ordenado ao Dest A para regressar ao quartel depois de evacuar as viaturas, e onde chegou pelas 17H00.
Devido à quebra do segredo foi ordenado pelo CMDT AGRUP 1980 o cancelamento da operação.

17-Op. Jigajoga 2

Deixei aquela companhia (Breve história da CART1690) quando fui evacuado para o HMP (A mina da minha vida), mas fiquei sempre ligado àqueles meus camaradas e vou mostrar algumas das situações em que estiveram envolvidos. Faço-o socorrendo-me da "História da Unidade" e, naturalmente, de conversas que temos tido.
Como compreenderão, Sinchã Jobel, a base do PAIGC que descobri involuntariamente (Operação "Jigajoga"), tem um significado muito especial para mim.
Depois dessa minha "descoberta", mas sem surpresa para os senhores do batalhão e do agrupamento, iniciaram-se algumas operações mais elaboradas com o objectivo da sua destruição.

Era uma antiga tabanca, já destruída, sendo agora uma clareira de cerca de 2.000m2, cercada por uma mata densa, tendo a sul o Rio Gambiel, com água pelo peito e uma "ponte" submersa, isto é, dois troncos de palmeira debaixo de água, (quando fui para lá o meu guia indicou-ma, quando regressei, sem guia, tive de a descobrir); a Oeste e a Este tem várias bolanhas, uma delas mesmo perto da clareira (a tal onde durante a noite toda a minha vida me passou pelo pensamento); a Norte, até Banjara, tem uma floresta muito densa e dezenas de poilões (há lá, na Guiné-Bissau de agora, uma serração).

Nas margens do rio Gambiel e das bolanhas os guerrilheiros tinham sentinelas; pelo lado de Banjara, a floresta impenetrável tornava o acesso impossível. É claro que a base de guerrilha não estava na clareira de Sinchã Jobel (nem antes dela, pois não a encontrei quando ia para lá) (Na bolanha uma noite dá para pensar) mas em algum local deste contexto que vos descrevo, para Norte, muito bem situada e com óptimas condições de defesa.


Op. Jigajoga 2. 31 de Agosto de 1967.
Situação particular:
O IN tem-se revelado a sul de Banjara, com mais intensidade nos regulados de Mansomine e Joladu. Em Sinchã Jobel possui uma base forte, que serve de apoio às suas acções.
Missão:
Assegura a ocupação do Sector, tendo em atenção os regulados da faixa Oeste e as linhas de infiltração que conduzem ao interior.
Detecta, vigia ou captura elementos ou grupos suspeitos de subversão que se hajam infiltrado ou constituído no sector, impedindo que a subversão alastre.
Captura ou aniquila os rebeldes que se venham a revelar, destruindo as suas instalações ou meios de vida e restabelece a autoridade e a ordem nas regiões afectadas.
Armadilha os itinerários utilizados pelo IN.

Força executante:

CMDT: Cap.Inf.Manuel Correia dos Santos Luís
MEIOS:
DEST A - CART 1690 (2 Gr Comb); CCAÇ 1685 (1 Gr Comb); CCVA 1693 (1 Gr Comb); 1 PEL SAP / CCS 1877 (2 secções); 1 PEL 109/CAÇ MIL 3
DEST B - CCS 1877 (1 Gr Comb) /CCS 1877 (1 Gr COmb); 1 PEL REC/EREC 1578.
Desenrolar da acção:
Em 31 de Agosto de 1967, pelas 4.30h., iniciou-se a progressão a partir de Darsalame. Durante a progressão foi batida toda a zona do itinerário, procurando vestígios e/ou trilhos que indicassem a existência do IN.
Pelas 09H00 aproximação de Sare Tamba, os cuidados de pesquisa redobraram no sentido de localizar e assaltar o possível acampamento IN. Batida toda a mata durante 2 horas onde se supunha existir o referido acampamento, não foi possível localizá-lo nem o IN se revelou.
No deslocamento para o objectivo pelas 11H00 foi ouvido um disparo de espingarda tipo Muaser ao longe, não sendo possível determinar a sua direcção. Continuada a batida foram encontrados restos de um camuflado IN não sendo possível, porém, encontrar mais nada. Pelas 11H50 foram ouvidos muito ao longe alguns rebentamentos fora da zona de acção.
Por parecer mais fácil passou-se a bolanha junto a Sinchã Bolo e a seguir o Rio Jago na direcção de Sucuta (Madina Fali) onde se chegou pelas 15H00. Fez-se uma paragem para se conferir pessoal e material, porque as bolanhas foram de difícil travessia e foi a coluna atacada por um enxame de abelhas durante a transposição da primeira bolanha.
Reiniciada a progressão em direcção a Sare Budi foi detectada pelas l6H00, em 1445 121.07H, 100 metros após a entrar na mata uma armadilha A/P a qual foi destruída pela Secção do PEL SAP/1877. Em Sare Budi no itinerário para Sare Madina foram montadas 2 armadilhas A/P cujo croqui será elaborado pelo Cmdt SAP/BCAÇ 1877.
Continuando a progressão em direcção a Sinchã Fero Demori, não foi possível montar mais armadilhas em virtude do adiantamento da hora e não ser possível determinar o itinerário de acesso ao interior do sector desta CART.
A chegada a Sare Banda verificou-se às 19H30, seguindo em meios auto até Geba, o que se registou às 20H30, tendo regressado às suas unidades o Gr Comb/CCAÇ 1685 e o 1 PEL SAP / CCS 1877 (2 secções)".

10 de dezembro de 2010

16-A NOVA ESCOLA DE SAMBA CULO





































Mas a escola de Samba Culo foi recuperada e está a melhorar!
E isso deve-se ao interesse da Missão Católica de Farim
e ao auxílio que tem sido prestado pela ONGD Ajuda Amiga (http://ajudaamiga.com.sapo.pt/),
de que são dirigentes e activistas o Carlos Silva e o Carlos Fortunato, e da qual também sou associado, mas não activista por motivos vários.

No próximo ano esta Ajuda Amiga lá estará com mais materiais e equipamentos-


Apresento, com a devida vénia ao seu autor, fotografias dessa nova escola retiradas do site do Carlos Silva http://carlosilva-guine.i9tc.com/site/.

Nelas sinto ainda a imagem da professora Abess, que morreu sem ver aquilo por que lutou.
Ver: Ainda a escola de Samba Culo; Um vaso de flores; Abess; Sei que matei; Inquietar I; Inquietar II