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28 de dezembro de 2010

30-Uma noite, somente, no HMP

Encontrei lá o meu amigo Norberto. Fora meu colega no 2º pelotão do COM de Mafra. Magro, louro, olhos azuis grandes, era um aventureiro, uma máquina em todos os exercícios. Mas foi sempre um bom companheiro, diferente de outros que lá andavam a armar-se em bons e achavam, por isso, ser superiores. Eu sabia que ele, depois da especialidade de atirador, tinha sido mandado para os comandos, e nunca mais soubera dele. Foi um grande abraço. Perguntei-lhe:
- O que é que andas aqui a fazer?
- Ando em tratamento.
- A quê?
- Tenho hemofilia.
Fiquei banzado. Como era possível um tipo hemofílico ser enviado para os comandos!? Mesmo para a guerra. Mas para os comandos ainda por cima... Então não tinham visto isso antes?
- Parece que não te lembras como era aquilo em Mafra. Além da injecção cavalar, que diziam dar para todos os males, não se preocupavam em saber mais nada. Menos, é claro, em ver aqueles que tinham cunhas para ir para os serviços auxiliares.
- É verdade, eu sei bem. Deves lembrar-te que desde o início sabíamos que o nosso curso estava destinado para uma fornada de atiradores. Até pensei que ia gozar com os gajos dos psicotécnicos quando me puseram um papel à frente e me disseram par escolher a especialidade. Pus lá que queria ser atirador mas eles é que se riram de mim. Mas diz lá, então, como é que descobriram isso.
- Eu estava na 3ª Companhia de Comandos na Guiné e…
A conversa derivou, é claro. Disse-lhe que tinha chegado de lá na véspera, ferido por uma mina. Contei-lhe coisas, por onde andara, como tinha sido ferido, operações em que participara, o normal destas conversas. Ele também me contou das dele e acabou por me dizer que, numa operaçãozeca, segundo ele, na zona do Cantanhês, tinha levado um tiro numa perna e que, sorte, o enfermeiro tinha visto que o sangue não estancava, pelo que pediram logo um heli para o levar para Bissau. Tinha sido evacuado para Lisboa há uma semana.
- Vais ficar aqui?, perguntou-me.
- Tem que ser, não é?
- Pelo teu aspecto, pelo teu tipo de ferimentos, até te mexes bem, parece-me que não tem que ser. Tens cá família?
- Tenho os meus pais, moram em Lisboa.
- Então faz como eu. Quando cá cheguei disse-lhes que tinha família na Amadora e eles deixaram-me ir para casa deles. Só venho cá aos tratamentos. E já me disseram que não vão durar muito, porque isto não tem cura, que qualquer dia vou a uma junta médica e que me mandam embora. E até te agradecem, porque precisam de camas para casos mais graves e para gajos que são da província.
Fiquei encantado com a ideia e ele foi comigo aos serviços administrativos. Ficou assente que podia ir para casa dos meus pais e que devia estar no hospital todas as segundas, quartas e sextas, às nove horas, para tratamentos.
Foi o Norberto que me levou, a mim e a mais nada, que era o que eu tinha, no seu citroen 2 cavalos até à porta da casa dos meus pais, na Calçada da Patriarcal. Despediu-se e disse-me:
- Está aqui o meu telefone. Logo à noite, depois de jantar, dá-me um toque para combinarmos ir dar uma volta por aí.
- Claro, vamos lá. Estou com falta disso.

23 de dezembro de 2010

29-Como fui evacuado

A partir de 17 de Abril de 1967, data em que cheguei a Geba, participei nas seguintes operações: 

Imberbe, em 10MAI67, 
Janota, em 20 e 21MAI67, 
Jaguar, em 03JUN67, 
Inquietar I, em 9 a 13JUN67, 
Jigajoga, em 24JUN67,
Inquietar II, em 04 a 07JUL67, 
Jagudi, em 15 e 16JUL67, 
Jaguar, a 22JUL67, 
Ignora, a 25JUL67,
Ímpeto 2, a 07AGO67

Além disso, fiz vários patrulhamentos na zona com o meu Grupo de Combate e várias colunas de abastecimentos aos destacamentos da companhia, para Banjara,  Cantacunda e Camamudo. Eram as missões que me foram atribuídas, outros dois alferes estavam nos destacamentos e o outro era o segundo comandante da companhia. Em Camamudo era um furriel que comandava.

Mas, a 21AGO67, fui ferido por uma mina no caminho de SARE BANDA para BANJARA (A mina da minha vida). Estive uma semana no Hospital de Bissau (HM241) e daí saí para a Base Aérea para ser evacuado para a Metrópole.  Foi num dakota C47.
Não foi neste, é claro. Sem asas não voava...
Fui só com as calças e uma camisa, Foram também outros feridos que entraram no avião. Os bancos que vêem na gravura foram ocupados por uma senhoras, não sei quem eram, nós os feridos, uns cinco ou seis, fomos esticados numas macas no corredor. Ainda disse que não estava assim tão mal e que podia ir numa cadeira. Mas que não, que devia ir numa maca. Lá fui, e quando o avião já estava alto comecei a deitar sangue pelos ouvidos (era o meu ferimento principal), por causa da descompressão. Ninguém ligou mas eu tratei de mim.
Ao fim de cinco ou seis horas, não sei bem, chegámos ao aeroporto militar de Las Palmas, disseram-nos. Que quem quisesse podia sair para descontrair. Saí e estava cheio de fome, não nos tinham dado nada para comer, nem as "queridas" rações de combate. Vi vários militares e olhei para uma porta que me pareceu a entrada de um bar. Fui até lá e entrei.
Olharam para mim, mas ninguém pareceu espantado, já deviam estar habituados a estas visitas. Pedi uma cerveja e uma sandes. Devorei-as, era a fome. No fim fiquei atrapalhado porque vi que não tinha dinheiro. Nem escudos, nem pesos, muito menos pesetas. Baixei a cabeça e fui-me afastando do balcão até à porta. Ninguém olhou para mim, pareceram-me distraídos. Zarpei para o dakota e estiquei-me na minha maca. Passados tempos o avião arrancou até Lisboa. Ainda agora não sei se fui eu que fui esperto ou se foram eles que me deixaram ir sem me agarrarem para pagar.
Depois de quatro ou cinco, ou cinco ou seis horas, não sei, chegámos ao Figo Maduro. Estava lá os meus pais e a minha irmã, tinham-lhes dito que eu fora ferido e vinha. Choraram e ficaram contentes por me ver de pé. Foi pouco tempo, porque me meteram numa ambulância para ir para a Estrela, o HMP.


21 de dezembro de 2010

28-Ataque a Sare Banda

Sare Banda estava perto de Sinchã Jobel. Todas as tabancas entre Sare Banda e Sinchã Jobel estavam desabitadas devido ao reordenamento. Por ela passei quando "regressei" a Sinchã Jobel em Abril de 2006 (Regresso a Sinchã Jobel).
Ao lado pode ver-se bem "a estrada" que era o caminho para Banjara. Aí morreram e ficaram feridos vários, entre os quais eu.
Inicialmente, a CART1690 tinha 3 destacamentos: Camamudo, a cerca de 20 quilómetros da sede da companhia, e Cantacunda e Banjara, ambos a cerca de 40 quilómetros da sede e dentro da mata do Oio. Mais tarde foi atribuído à companhia mais este destacamento em Sare Banda, no caminho para Banjara.

O alferes morto neste ataque foi o Carlos Alberto Trindade Peixoto. Ele tinha vindo substituir o alferes Fernandes, que me substituíra a mim quando fui ferido (A mina da minha vida), e que tinha sido morto em Sinchã Jobel (Op. Invisível). Esses meus dois substitutos não tiveram a minha sorte, infelizmente. O outro morto foi o Furriel Raul Canadas Ferreira. 
As circunstâncias da morte deles não estão devidamente relatadas. Mas foi assim: este, como todos os destacamentos da CART 1690, não tinha luz eléctrica, nem mesmo um miserável gerador. Eles estavam os dois numa tenda a jogar às cartas, com um petromax aceso (depreende-se do relatório as péssimas condições de instalação). Para os guerrilheiros foi muito simples, foi só apontar o RPG2… e, mais uma vez, como vêem, a tentativa de entrar no destacamento. 



Ataque a Sare Banda

8 de Setembro de 1968:


DESENROLAR DA ACÇÃO

1. Acção inicial do IN: 


Em  0821H00SET68, um numeroso grupo IN, estimado em cerca de 100 elementos instalados em semicírculo nas direcções NE-SW e SE-NW, atacou o destacamento de Sare Banda com o seguinte armamento:

-Canhão s/recuo

-Morteiro 82
-Lança granadas RPG-2
-Lança granadas P-27 Pancerovka
-Metralhadoras pesadas
-Metralhadoras ligeiras
-Armas automáticas
-Armas semi-automáticas
O ataque foi iniciado com um tiro ao canhão sem recuo e dois Lança Granadas Foguete, dirigidos contra a cantina e depósitos de géneros que atingiram mortalmente o Alferes Comandante do Destacamento e um furriel e provocaram ferimentos numa praça. Estes tiros iniciais do IN atingiram e destruíram ainda o mastro da antena horizontal do rádio, ficando assim o destacamento de comunicações cortadas com toda a rede de GEBA. No seguimento da acção, o IN atingiu com uma granada incendiária uma barraca coberta por 2 panos de lona de viaturas pesadas, onde costumavam dormir vários elementos das NT por não caberem todos nos abrigos, o que provocou a destruição de todo o material lá existente e iluminação das posições das NT.
2. REACÇÃO DAS NT
2.1. Das forças do destacamento:
Apôs a surpresa inicial dos elementos que se encontravam fora dos abrigos, estes correram para os mesmos e reagiram imediatamente ao ataque IN. Não obstante terem ficado sem o seu Comandante e sem comunicações logo aos tiros iniciais, nunca perderam a calma e o moral, opondo tenaz resistência aos intentos do IN. Refira-se que logo no início da reacção as NT atingiram com tiros de morteiro a guarnição IN do canhão s/recuo, calando-o definitivamente e, em determinada altura do ataque, repeliram energicamente uma tentativa de penetração de elementos IN ao destacamento, que para o efeito haviam conseguido chegar junto da rede do arame farpado. Essa reacção, feita só à base de tiros de espingarda G-3 e granadas de mão em virtude de se ter avariado o Lança Granadas Foguete, foi verdadeiramente eficaz e decisiva para o desenrolar dos acontecimentos, pois o IN foi obrigado a recuar deixando no terreno 3 mortos além de armamento e arrastado consigo outros elementos feridos e mortos. O IN, sempre perseguido pelo fogo das NT, recuou cerca de 200 metros instalando-se entre Sare Banda e Sinchã Sutu donde continuou a flagelar o destacamento até cerca das 22H30 (1 hora e 30 minutos depois do início do ataque, após o que desistiu dos seus intentos, retirando definitivamente.
2.2. Das forças de Geba (CART 1690):
Em virtude das péssimas condições atmosféricas não foram ouvidos em GEBA os rebentamentos de forma a poderem ter sido localizados. Refira-se ainda que o facto do destacamento de SARE BANDA ter ficado sem comunicações logo no início do ataque, só permitiu que em GEBA se tivesse conhecimento do sucedido cerca das 09H02 do dia 9 de Setembro de 1968, através de dois praças do destacamento que haviam vindo a pé voluntariamente comunicar a ocorrência. Prontamente saiu de GEBA uma coluna de socorro que, ao atingir SARE BANDA, às 05H45, fez um reconhecimento nos arredores, seguido de batida de madrugada, mas já não conseguindo contactar com o IN, que havia retirado na direcção de Darsalame e dirigindo-se para Sincã Jobel.

RESULTADOS OBTIDOS
Baixas sofridas pelo IN:

 8 mortos confirmados; muitos feridos sendo possível que hajam mais mortos devido aos rastos de sangue encontrados no carreiro de retirada do IN.

 Material capturado ao IN:

-1 Espingarda semi-automádica Simonov cal.7,62mm
- 1 Espingarda automática G-3 7,62mm
- 1 Granada de canhão s/recuo
- 2 Granadas de lança-granadas foguete
- 1 Granadas de morteiro 82
- 2 Granadas de mão ofensivas RG-4
- 8 Carregadores de Met. Lig.
- 2 Fitas de Met. Lig.
- 2 Facas de mato
- 2 Bolsas p/transporte de munições
- 2 Cantis
- Diversas munições de armas aut.
- Bolsa de medicamentos com o seguinte: Streptomycin. Sulphite-ampolas de 5.000.000 (3 Frascos); éter ( 1frasco; mercúrio cromo (1 frasco); bálsamo (1 frasco); Injecções (desconhecidas) (10 ampolas); Aspirinas em comprimidos (178 carteiras):; madexposte em comprimidos (96); Chinim Sulfur (comp) (6 embalagens de 5); Codemel (carteiras de 10) (5 Comprimidos); adesivo (1 rolo); algodão cardado (1 maço; 1 garrote; 20 mLigaduras de gase de 10 cm x 5cm; 1 seringa de plástico c/agulha". 

27-Ataque a Sare Ganá


Sare Ganá era uma tabanca resultante do reordenamento. As referidas agora no Google Earth, Sare Budi, Dando, Sucuta, Cafia, Gã Soares, Aldeia,  estavam desabitadas. Tal como Sare Banda, ficava perto de Sinchã Jobel, de onde veio o grupo de guerrilheiros que fez o ataque. Estava em autodefesa e tinha um pelotão da Companhia de Milícia 3, sob o comando da CART 1690.


Ataque a Sare Ganá
 12 de Agosto de 1968




ACÇÃO INICIAL DO IN
A 12, às 00H02, um grupo IN estimado em cerca de 60 elementos atacou Sare Ganá. 
O ataque iniciou-se por tiros de morteiro 82 e 60, lança-granadas-foguete, lança -rocketes e metralhadoras.

Após a preparação de fogo de armas pesadas durante a qual foram utilizadas muitas granadas incendiárias, o IN cortou o arame farpado do lado Norte e penetrou em Sare Ganá por este lado e pelo lado Sul, aproveitando uma pequena passagem existente que se encontrava incompletamente fechada, passando a utilizar armas ligeiras automáticas e a incendiar casas.



REACÇÃO DAS NT

a) Da Companhia de Milícias nº 3:

O pelotão 109 da CMIL 3, ao qual está confiado a defesa de Sare Ganá, reagiu pelo fogo, não só instalada nos abrigos como também dispersa pela tabanca, aguentando o impeto inicial do ataque e dificultando o mais que pôde a infiltração das forças IN, no que foi apoiada por grande parte da população (a quase totalidade dos que dispunham de armas). 
Deve notar-se que os soldados milícias começaram a retirar apenas quando as munições que dispunham já rareavam.

b)Da CART l690

Em Geba, logo após os primeiros rebentamentos serem ouvidos, dei ordem para que se comunicasse pela rádio esse facto ao Comando do BCAV 1905 e ordenei que saíssem imediatamente o maior número de homens possível, sem descurar a defesa de Geba; às 00H08 um grupo de 14 soldados, 1 alferes e 1 furriel, saiu em viatura em direcção a Saré Ganá. A última parte do percurso foi feita a pé tendo Sare Ganá sido atingida às 00H20. 
A aproximação da povoação fez-se com as forças divididas em 3 grupos:
O 1º Comandado pelo Capitão Comandante da Companhia, com mais 5 praças;
O 2º Comandado por um  furriel com mais 4 praças e o terceiro comandado por 1 alferes com mais 3 praças.
A população retirava pelo acesso utilizado pelas NT na aproximação. O primeiro grupo, que seguia na frente, lançou-se para o interior da tabanca e foi imediatamente alvejado por uma granada de morteiro que feriu ligeiramente uma praça na cabeça e matou uma mulher da população. Não obstante, o grupo na sua totalidade entrou na tabanca pelo arruamento principal, progredindo de casa em casa sob fogo do IN que enfiava o citado arruamento. Para possibilitar o avanço foram feitos 4 tiros do Lança Granadas Foguete estabelecendo-se em seguida contacto pelo fogo de armas ligeiras, à vista, com o IN. A progressão continuou com o apoio de mais tiros de Lança-Granadas Foguete. 
O 2º grupo entrou na tabanca em seguida, inicialmente pelo mesmo arruamento mas tomando um outro arruamento à direita, começando a alvejar com os seus fogos os elementos IN que actuavam nesse lado. Nesse momento viu-se que o IN lançou um sinal luminoso e iniciou a sua retirada, arrastando as baixas que sofrera e carregando o respectivo material.
O 3º grupo, à retaguarda, cobria a acção dos outros dois. A retirada do IN fez-se duma forma ordenada e a coberto do seu próprio fogo, aproveitando a abertura feita na rede de arame farpado e através da passagem para Oeste depois de deslocado o cavalo de frisa respectivo. Moveu-se uma outra perseguição que não foi além da orla da mata próxima devido à escassos de efectivos.
Entretanto sentia-se ao longe a aproximação de uma coluna de viaturas vinda de Bafatá.
c) DO BCAV 1905 e EREC 2350
Às 01H00 atingiram Sare Ganá as forças de socorro de Bafatá e enviados pelo Comando de Batalhão. Estas forças eram constituídas a primeira por um pelotão do EREC 2350 e o PEL CAÇ NAT 64 a segunda por outro PEL REC do EREC 2350 e 2 secções da CCS/BCAV 1905.
Uma vez que a situação estava praticamente normalizada, um pelotão do EREC 2350 e as 2 secções da CCS regressaram a Bafatá levando os feridos mais graves, tanto milícias como população, enquanto as outras forças se instalavam em Saré Ganá, montando segurança à tabanca.



RESULTADOS OBTIDOS

a) Baixas causadas ao IN: 5 mortos confirmados; várias baixas prováveis

b) Material capturado ao IN: 1 Met. Lig. Dectyarev com bipé; l Pist. Metr. Sundaiev; 2 Carregadores de Pist. Met.; l Carregador de Metr. Lig. ; l Fita com 85 cartuchos para Metr. Lig.; 2 Granadas de Mão Ofensivas.



20 de dezembro de 2010

26-Ataque a Banjara


UM DIA EM BANJARA

(texto do ex-alferes António Moreira)

Banjara fica situada a cerca de 40Km de Geba e a cerca de 20Km de Mansabá, na estrada Bissau/Bafatá. Fica no coração da mata do OHIO, e teve antes da guerra colonial, uma unidade industrial de serração de madeiras. Pertencia, durante a guerra, à área de actuação da Companhia de Geba, do Batalhão de Bafatá.

Gozava da fama, e do “proveito”, de ser o 2.º pior destacamento da Guiné, a seguir a Beli, na zona de Madina do Boé. Não apenas pelos ataques mas, sobretudo, pelo perigo que representava, por estar muito isolado da Companhia, e por estar cercado por uma cintura de destacamentos IN, que vigiavam de fora do arame farpado e do alto das gigantescas árvores que o envolviam todos os movimentos da nossa tropa.

Era constituída por uma caserna, quatro abrigos subterrâneos, e um posto de comando, que era uma casa abarracada, sem portas nem janelas, por onde os sardões o as cobras vagueavam livremente, sem nenhum obstáculo que lhes barrasse a passagem, a não ser a presença humana. Tinha ainda outros abrigos à superfície.  A envolver este destacamento, que no essencial era uma clareira circular com cerca de mil metros de diâmetro, 2 fiadas de arame farpado, paralelas e em círculo. O capim era necessário cortá-lo de dois em dois meses, para evitar a aproximação camuflada do  IN. As casas de banho, como é de calcular, eram a céu aberto.

A guarnição deste destacamento, comandado por um Alferes, variava entre 60 a 80 homens, normalmente, bem armados e disciplinados, capazes de aguentar debaixo de fogo uma boas dezenas de horas.

O seu comando era rotativo e por lá passámos os mais longos meses da nossa juventude, então com 23 anos, e responsabilidades tremendas em cima dos galões de Alferes.

A paisagem envolvente era de uma beleza indescritível, com dezenas de cajueiros, mangueiras, árvores gigantes, capim e as célebres lianas. O barulho ensurdecedor dos milhares de pássaros e a vozearia nocturna da mais variada bicharada, desde macacos a hienas, tornavam aquele ambiente um mistério todos os dias renovado.

  O “dia” em Banjara, iniciava-se naqueles anos (1967/1968), por volta das 18 horas. A essa hora o Comandante mandava distribuir a 3.ª refeição, e as sentinelas avançadas ocupavam os seus postos. Toda a gente vestia então o seu camuflado, calçava as botas e recarregava as armas. Não é que de dia estivessem todos a dormir, mas durante a noite, entrava-se em alerta máximo. Durante a noite era rigorosamente proibido acender luzes, fazer fogo e fumar à vista desarmada para não denunciar a presença e a localização de ninguém.

   Tomada a 3.ª refeição e colocadas as sentinelas, que eram sempre dobradas, iniciava-se toda uma série de rondas de posto a posto, podendo os soldados que estavam de folga, e só nos abrigos subterrâneos, jogar cartas, conviver e confraternizar, pôr a correspondência em dia, etc. De vez em quando dormia-se uma hora ou duas mas sempre em sobressalto, e sem a mínima tranquilidade. Posso dizer que durante o tempo que passei neste destacamento não dormi uma única noite descansado.

   Durante a noite, de vez em quando, uma sentinela nossa dava um tiro, à aproximação do arame farpado de um macaco ou qualquer outro bicho (podia náo ser...). Logo todos corriam para as armas pesadas e, normalmente, o IN respondia com dois tiros ao longe. Então a nossa sentinela, aquela ou outra, respondia passado algum tempo com três tiros. A seguir a resposta de novo do IN, então com 4 tiros. Era um jogo macabro, que nos mantinha constantemente vivos e despertos.

   O dia amanhecia, então, e, pelas 7 da manhã, iniciava-se a distribuição da 1.ª refeição. As horas mortas do pessoal eram gastas, durante o dia, à caça, quando isso era possível e o capim estava seco e caído no chão, a jogar cartas, pôr a correspondência em dia e jogar futebol. O jogo de futebol era normalmente diário, mas sempre a horas diferentes, para não se cair na rotina, e sempre com os abrigos guarnecidos de atiradores.

   Terminada a 1ª refeição iniciavam-se os trabalhos de rotina, para o que o efectivo estava dividido em 4 grupos, cada um deles composto por 15 ou 20 homens, comandados por um sargento.Um grupo estava de serviço à água e à lenha para as refeições. Os banhos eram tomados na bolanha a um quilómetro do arame farpado, e sempre com 10 ou 12 homens armados em vigia. Outro dos grupos era o piquete que realizava, normalmente, uma patrulha de reconhecimento nas imediações do aquartelamento. O terceiro grupo estava de prevenção rigorosa e o quarto estava de "folga".

  Este destacamento tinha apenas uma coluna de reabastecimento por mês, no máximo, mas chegava a estar mais de 2 meses sem alimentos frescos e sem correio. Não havia população civil, apenas militares.

  Mas nesta situação de extrema insegurança, com privações de toda a ordem e dificuldades sem fim, estabeleceram-se relações de amizade, de solidariedade e de união de tal modo fortes, e com exemplos de lealdade e entrega total de tal modo intensos que considero ser a parte positiva da guerra colonial, que a todos marcou de uma forma mais ou menos traumática.










Ataque a Banjara  24 de Julho de 1968.

DESENROLAR DA ACÇÃO
No passado dia 24, pelas 18H00, o destacamento de Banjara foi atacado por numeroso grupo IN, estimado em cerca de 80 elementos (Bigrupo reforçado) com o seguinte armamento:
-Morteiro 82
-Morteiro 60
-Bazooka
-Lança-Rocketes
-Metralhadoras pesadas
-Armas ligeiras
O ataque terminou às 19H15. Verificou-se que, durante o ataque, as NT sofreram 1 morto, o soldado Jaime Maria Nunes Estêvão. [O Estêvão era uma pessoa forte, trabalhador e empenhado, bom amigo e camarada. Tinha sido ajudante de camionista. Durante esse ataque estava atrás de uma árvore e veio uma granada de morteiro que nela deflagrou. Um estilhaço entrou-lhe directamente no peito e cortou-lhe a aorta. Caiu numa possa de lama a esvair-se em sangue e morreu rapidamente.] Houve também 2 feridos, tendo sido atingido por uma granada de morteiro a caserna e por uma granada do lança-rocketes o depósito de géneros.
O ataque foi efectuado no sentido Norte-Sul tendo o IN instalado alguns elementos do lado Sul. Verificou-se que mal o IN abriu fogo com os morteiros 82 e 60, alguns elementos correram imediatamente para a rede de arame farpado, cortando o arame nalguns sítios, procurando penetrar no aquartelamento. No entanto, devido à pronta reacção das NT, não o conseguiram, tendo sido obrigados a retirar, após o que continuaram a flagelar o aquartelamento sem, contudo, causarem mais baixas às NT.
Diversos: A hora a que o ataque se realizou quase que coincidiu com a hora da terceira refeição. Verificou-se que a maioria dos soldados se encontravam a tomar banho, pois tinham acabado de jogar uma partida de futebol.
O impacto inicial do ataque foi sustido principalmente pelo soldado Manuel da Costa que, mal se iniciou o ataque, correu para a metralhadora pesada Breda e, sem ser apontador da mesma, pô-la imediatamente [em acção] e manteve-se sempre nesse posto, e pelo soldado José Manuel Moreira da Silva Marques que, sozinho, em virtude dos outros dois camaradas que constituíam a esquadra do morteiro 81, terem sido feridos, funcionou com o mesmo, tendo a presença de espírito para, a certa altura, e após ter verificado que algumas das granadas estavam sujas de terra, despir os calções para limpar as mesmas e poder assim continuar a bater o IN com um fogo bastante certeiro.
A coluna de socorro, constituída por 1 PEL REC do EREC [Esquadrão de Reconhecimento]2350, 1 GR COMB da CART 1690 e pelo PEL CAÇ NAT 64, saiu de Sare Banda às 07H30 do dia 25 (e tal deveu-se a ter sido necessário recolher as forças que executavam a Operação Iluminado) e atingiu Banjara às 15H00, pois foi necessário picar toda a estrada até ao destacamento de Banjara.
Quando a coluna lá chegou ordenei que um GR COMB batesse toda a região, tendo o mesmo detectado várias manchas de sangue e pedaços de camuflado IN, e munições de armas ligeiras.
Devido às baixas, deixei uma secção a reforçar o destacamento de Banjara, tendo em seguida regressado a Geba.

RESULTADOS OBTIDOS: 
Baixas sofridas pelo IN: dois mortos confirmados; várias baixas prováveis; material capturado: munições de armas ligeiras e uma granada de morteiro 82.

25-Ataque ao destacamento de Cantacunda



Antes de ser ferido, estive algum tempo neste destacamento. Conheci-o bem. Caracterizava-se pelas péssimas condições das instalações do pessoal e pelos deficientíssimos meios e condições de defesa. Sublinho que ficava a cerca de 50 kms. da sede da companhia. Sem luz eléctrica (como todos os destacamentos da CART 1690), nem um miserável gerador… estava, como se vê pelo relatório, pegado à floresta. O armamento era ultrapassadas metralhadoras pesadas Dreyses e Bredas, morteiro 81 e 60. Os abrigos eram uns buracos de difícil acesso e sem condições interiores. E com pouco efectivo, um pelotão normalmente. No dia deste ataque estavam lá apenas duas secções. Situava-se relativamente perto da base de Samba Culo do PAIGC (a tal que foi destruída em 1967, mas que, é claro, foi logo reconstruída de seguida…). O soldado Aguiar (João Alves Aguiar) era do meu grupo de combate, foi o único que tentou resistir com a G3 à boca do abrigo e morreu, por isso. 11 foram capturados, entre eles o furriel que comandava o destacamento, o Vaz. Foram libertados, depois, aquando da tentativa de invasão na Guiné-Conakri. Apesar das péssimas condiçõe e dos fracos efectivos, é evidente ( e sei que foi assim, porque me contaram) que houve desleixo e facilitismo em excesso. Se não tivesse havido, não tenho dúvidas que as coisas não teriam sido tão fáceis para os atacantes.











ATAQUE A CANTACUNDA
10/11ABR68
DESENROLAR DA ACÇÃO
  No dia 10 do corrente cerca das 00H00, o destacamento de CANTACUNDA foi  atacado por numeroso grupo IN.
  Devido à hora a que o ataque foi realizado a guarnição do destacamento encontrava-se quase toda a dormir na caserna; Devido à configuração do terreno ( do lado NORTE do destacamento existe uma floresta que dista, no máximo de 5 metros do arame farpado; do lado POENTE essa floresta prolonga-se  e verifica-se que havia 2 aberturas no arame farpado; Uma que durante a  noite era fechada com um cavalo de frisa outra que devido às obras e construção da pista de aterragem se encontrava aberta; Do lado SUL existia a tabanca cujas moranças confinavam com o arame farpado; do lado NASCENTE  existe uma bolanha), devido também à falta de iluminação exterior o IN  pôde aproximar-se do arame farpado sem ser detectado pelas sentinelas e abrir fogo com bazookas e lança rocketes sobre a caserna, tendo em seguida atacado pelos lados NORTE, POENTE e SUL: pelo lado NORTE o IN atirou com  troncos do árvores para cima do arame farpado tendo em seguida ultrapassado o mesmo; Do lado POENTE afastou o cavalo de frisa e penetrou por essa  abertura, e pelo lado da pista; Pelo lado SUL infiltrou-se pelas tabancas  que queimou e em seguida penetrou no aquartelamento.
  Devido à simultaneidade com que os movimentos foram efectuados (Os mesmos  foram comandados do exterior por apitos) verificou-se que as NT não poderam  atingir os abrigos e foram surpreendidos no meio da parada. Note-se, contudo, que alguns elementos das NT ainda conseguiram atingir os abrigos (por exemplo os 1°s. Cabos ESTEVES E GOUTINHO e os Soldados AREIA e AGUIAR  tendo este último sido morto no local e os restantes conseguido escapar).
  Devido ao numeroso grupo IN não foi possível contudo organizar uma defesa  eficaz pelo que as NT foram obrigadas a abandonar o destacamento; No entan to só 9 elementos é que conseguiram escapar, tendo 11 desaparecido ( provavelmente feitos prisioneiros) e 1 morto.
POSSÍVEIS CAUSAS DO INSUCESSO DAS NT:
 -O poder de fogo do IN
 -O grande numero de elementos que constituíam  o grupo IN
 -A violência com que o ataque foi desencadeado
 -A pontaria certeira do grupo IN, que acertou os primeiros disparos na caserna das NT.
 -O Comando eficaz do grupo IN.
 -A falta de iluminação existente no destacamento
 -Possível insuficiência de abrigos
 -As proximidades da mata do arame farpado
 -As proximidades da tabanca do arame farpado
 -O reduzido efectivo das NT
 -Possível abrandamento das condições de segurança
 -Longa distância deste destacamento à Sede da Companhia (cerca de 50 kms)
COMENTÁRIOS
  Posteriormente veio a saber-se, por declarações de alguns milícias e elementos da população civil detidos para averiguações, que o ataque teve a conivência do próprio Comandante da milícia e de elementos da população. Todos os elementos que precisavam, tais como distâncias para colocar as armas pesadas, local da entrada no destacamento e vias de acesso ao mesmo,  foram fornecidos por esses indivíduos que traíram as NT.
Os que foram capturados em Cantacunda foram libertados aquando da operação Mar Verde. Menos os soldado Luís dos Santos Marques, que morreu no cativeiro. Há quem diga que foi por doença. Sobre o Armindo Correia Paulino há um erro que começou logo na companhia, que o deu como "retido pelo IN": ele "não compareceu" porque não foi feito prisioneiro, morreu na operação Imparável e o corpo não foi recuperado. Os outros dois, o João da Costa Sousa e o Francisco Gomes da Silva, consta que foram para Argel. Nunca mais se soube deles.
De referir que, a CART2743, a segunda a substituir a CART1690 em Geba, tinha um pelotão em Cantacunda que foi atacado em na noite de 26.10.71. De dados que eu tenho, os guerrilheiros chegaram a ultrapassar a primeira linha de arame farpado (estavam melhor que na altura da CArt1690...), mas as NT aguentaram-se. Unidades de Geba e de Bafatá (elementos do Bart2920 e ERFox 2640) foram em seu auxílio logo nessa madrugada, tendo sido emboscados no caminho entre Camamudo e Cantacunda, morrendo nessa emboscada seis elementos da CArt 2743: o 1º Cabo Atirador António João Ferreira dos Santos, os Soldados Atiradores Avelino da Costa Gomes, Diamantino da Encarnação Cunha, Jorge da Encarnação Lourenço e Luciano Augusto Paula. O Soldado Condutor José Henriques Teixeira Silva foi ferido e acabou por morrer no HM241 a 31.10.71. Foi também morto nesta emboscada o Alferes de 2ª Linha Malique José Semedo Baldé, da CMil3. 

24-As minas

É um exemplo das minas naquela picada para Banjara. Precisamente no local onde foi colocada aquela que me feriu e matou o capitão e o Domingos Gomes (A mina da minha vida). Esta fez 6 mortos e um ferido grave entre os milícias.


OP. S/NOME     16JUL68

SITUAÇÃO PARTICULAR
Do antecedente o IN coloca minas no itinerário SARE BANDA – BANJARA

MISSÃO
Transporte de frescos e correio. Patrulhamento do itinerário GEBA-BANJARA-GEBA

FORÇA EXECUTANTE
CMDT – Cap.Mil. Carlos Manuel Ferreira
MEIOS – DEST. A – CART 1690 (01SEC.+) ref. c/PEL.MIL 111/CMIL3
                DEST.B – PEL.CAÇ.NAT. nº 64
                DEST. C – 01 PEL REC/EREC 2350

DESENROLAR DA ACÇÃO
Em 1611H15 saiu do destacamento de SARE BANDA o 1º GR. Constituído por 2 secções do PEL.CAÇ.NAT nº 64 e seis milícias que iniciaram a picagem da estrada. Às 12H05 verificou-se o rebentamento de uma mina A/P, reforçada com uma mina A/C que provocou 6 mortos e 1 ferido grave às NT pelo que tive de pedir uma evacuação urgente e fiz transportar os corpos dos mortos (com excepção de um que ficou completamente pulverizado) e o ferido para SARE BANDA. O transporte foi feito num UNIMOG, levando como escolta uma secção de atiradores e 1 daimler. O restante pessoal ficou a manter segurança no local do rebentamento e aguardando a chegada destas viaturas. Quando as mesmas regressaram verifiquei que os elementos da Companhia de Milícia não queriam prosseguir na operação, pelo que tive de os obrigar a continuar a desempenhar a missão de que iam incumbidos: Picar a estrada. Consegui que a coluna prosseguisse em direcção a BANJARA, que se atingiu às 16H25. A saída de BANJARA verificou-se às 17H00, tendo a coluna atingido BAFATÁ às 18H30. Foi cumprida integralmente a missão apesar do grande atraso em relação ao previsto.

16 de dezembro de 2010

23-Encontro com o IN

Nas vésperas de "entrar finalmente" em Sinchã Jobel estivemos a jantar com aquele que era o comandante da base do PAIGC na altura em que lá fiquei (Op.Jigajoga), o comandante Lúcio Soares. Isso deveu-se aos bons préstimos do Simões de Jugudul e do Pepito (Carlos Schwartz), ambos naturais de Bolama, que é também a terra do Lúcio Soares.
Lúcio Soares é um veterano da guerra de libertação. Foi responsável político da zona de Bafatá, foi comandante da base de Sinchã Jobel e depois comandante da Frente Norte. Como membro do Comité Executivo da Luta, foi um dos assinantes do Acordo de Argel com Portugal. Após a independência foi Ministro da Defesa do governo de Luís Cabral. Encontrava-se em Cabo Verde aquando do golpe de Nino Vieira de 14 de Novembro de 1980, regressando à Guiné-Bissau 14 anos depois. Após o golpe militar que depôs Kumba Yalá em Setembro de 2003 foi conselheiro para a Defesa do Presidente Henrique Rosa. Afastou-se após a eleição de Nino Vieira em 2005. Em 8 de Janeiro de 2009 foi nomeado Ministro do Interior por Carlos Gomes Júnior, mas saiu em 6 de Novembro desse ano.
Fotos do Xico Allen
O jantar foi no restaurante Colete Encarnado, propriedade de um ribatejano. Ele veio acompanhado do Braima Camará, conhecido por Braima Dakar (soube que morreu em Janeiro de 2010), que foi comandante na zona de Teixeira Pinto durante a guerra. A brincar, no início, Lúcio Soares disse-me que o Braima Dakar era o seu guarda-costas. Pensei, no princípio, que era uma maneira de ele justificar a presença do outro, mas, depois, a seguir ao que vi, já pensei que era mesmo capaz de ser verdade. Respondi-lhe, igualmente na brincadeira, que o Xico Allen era também meu guarda-costas.
É um homem muito reservado. Mas foi-me dizendo algumas coisas. Que tinha estado em Cabo Verde durante 14 anos após o golpe de Nino Vieira. Que tinham montado a base em Sinchã Jobel em Abril de 1967, altura em que a nossa companhia lá chegou. Que tinha 23 anos quando comandou essa base e que o Gazela era seu comissário político. Em 1968, disse-me, foi para o Morés e o Gazela passou a comandante da base.
"Eu também tinha 23 anos e fui eu que descobri a vossa base. Fiquei lá uma noite." (Op.Jigajoga)
"Eu sei. Isto é, só soubemos depois. Na altura não soubemos, não demos por isso."
"E se dessem?"
"Apanhávamos. Manga de ronco." E riu-se.
Falei-lhe da mina que me feriu.
"Desculpa. É pena que andássemos aos tiros, podia ser resolvido de outra maneira. Mas eu tinha de lutar pela minha terra."
Como ele tinha dito que estivera na zona de Canchungo (Teixeira Pinto) perguntei ao Braima Dakar sobre a morte dos três majores. Mas ele encolheu-se, disse que sabia muito mas não queria falar.
Passado tempo, entraram dois polícias e sentaram-se numa mesa perto. Nessa altura eu estava a dizer-lhe que queria ir a Sinchã Jobel e perguntava-lhe se ele não queria ir connosco. Era importante para mim estar lá com o homem que comandou aquela base. Ele apercebeu-se da presença dos polícias, disse-me que não podia ir e que tinha de ir embora. Levantou-se, despediu-se e partiu com o Braima Dakar.
Foi em Abril de 2006, já o Nino era novamente presidente. Era evidente que não estava à-vontade e, se calhar, o Braima Dakar era mesmo um acompanhante para sua segurança.


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