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6 de janeiro de 2011

34-Fomos ao Comodoro

Ao meio dia telefonei ao Norberto. Há meses que não o via, só uma vez ou outra no hospital, mas já há muito tempo.
- Queres ir dar uma volta esta noite? Ou tens que ir ao hospital amanhã?
- Não, não tenho. Olha, ainda bem que me ligaste porque precisava de falar contigo. Mas aonde é que estavas a pensar ir?
- Não vou aos fados, pá, nem penses. Quero ir ao Comodoro, é um sítio porreiro e já tenho saudades daquilo.
- Ui, isso é muito chique, de gente fina! Há outros sítios de gente mais como nós. Além disso, não podes antes encontrar-te comigo esta tarde?
Falava alto pra caraças, porra. E não estava a perceber as reticências daquele gajo. Já tínhamos andado os dois por vários lados, umas vezes onde ele queria, outras onde eu dizia. Desta vez tinha de ser eu a decidir.
- Não, não pode ser. Já tenho o meu esquema montado, tenho uns filmes para ver e estou mesmo decidido a ir ao Comodoro. E fala-me mais baixo, pá, tirei os tampões para te ouvir. Os tímpanos parece que estão melhor, não me dês cabo deles.
Ficou um bocado calado.
- Desculpa lá. Então, está bem, vamos ao Comodoro. Mas, olha, a Júlia vai contigo?
- Não. A miúda tem que estudar, além de que não quero que ela se perca nestes antros por onde eu ando.
- Acho bem.
Encontrámo-nos à meia-noite junto ao D. Maria.

Este Comodoro de que falo ficava ali. Esta é uma fotografia antiga, não sei se, na altura, ele já existia. Mas era ali naquela zona, na Praça D. João da Câmara, do lado esquerdo o teatro D. Maria e à direita a estação do Rossio.

Não encontrei dele nenhuma fotografia mais recente. Há vários meses, quando fui a Lisboa para um jantar no restaurante Colina com meus ex-companheiros de armas na Guiné, saímos muito “animados” e decidimos ir ao Comodoro. Caíram-nos os qualquer coisa ainda ao chão quando olhámos para onde ele devia estar e vimos uma loja de artigos ópticos! Ficámos defraudados. Fui, depois, à internet e havia lá informação sobre ele. Que: “Ambiente In”. Boa! Ainda se mantinha. Que: “Serviços fora de horas”. Boa! Era o que se queria. Que: “Acesso para deficientes Não”. Tá bem, já não me admirava (vão ver a seguir porquê), que se lixe. “Recomendado a crianças”. Porra! Isto é que não batia certo, qualquer coisa estava errada. Ainda vi que havia um telefone - 213 464 996 – e liguei. Mas a menina da PT disse-me uma data de vezes, com voz meiga de gravador, que “esse número não se encontra atribuído, tente novamente, piu, piu, piu…”. Era certo, então: o Comodoro que eu conheci já não existia, parece que lhe tinham dado a volta, aquela coisa de recomendação para crianças já não era a mesma coisa, mas nem assim.
Sinceramente, se alguém que me leia souber o que foi feito dele agradeço que me diga. Gostava de saber o que fizeram a essa minha lembrança.

Fomos até lá e tocámos à campainha. O porteiro abriu-nos a porta solicitamente, pareceu-nos. Mal. Depois de nos mirar de alto a baixo com ar de inquiridor, disse-nos com ar de cepo:
- Não podem entrar. É reservado.
O Norberto ficou calado, mas eu perguntei-lhe em voz alta:
- O que é isso de reservado?
- É só para clientes e seus acompanhantes.
Levantei mais a voz:
- Mas eu sou cliente. Vim aqui várias vezes antes de ir para a guerra. Andei lá a defender isto, mas agora que vim de lá ferido já não sou cliente, é?
O meu amigo só me dizia deixa lá, deixa lá, vamos a outro lado. Mas eu vi que o porteiro ficara roxo de enrascado e já me falava como lírio do campo.
- O senhor desculpe, mas são as normas. Se conhece alguém...
- Claro que conheço. Conheço o Zeferino do bar e o gerente.
Não conhecia nada o gerente, só de vista e nunca tinha falado com ele. Mas o Zeferino sim, várias horas passara sentado no bar e tínhamos tido conversas. O típico barista confidente de whiskys e gins tónicos.
Pareceu-me que o meu falar alto já tinha chegado lá dentro pois apareceu à porta um tipo de fatinho azul e todo engravatado. Era o gerente, topei-o.
- O que se passa, Romeu?
Está calado Romeu, agora sou eu, pensei. Não o deixei falar.
- Eu e o meu amigo viemos feridos da Guiné, queríamos entrar, mas aqui o senhor Romeu diz que não pode ser. Eu sou alferes da companhia do capitão Braga. Vim aqui várias vezes com ele, lembra-se?
Foi um golpe que eu sabia ser certeiro. O homem ficou sério.
- Ah, o Braga, claro que me lembro. Sei que morreu lá, coitado. 
Não se havia de lembrar, não. E a morte dele custou-lhe muito, sim, sim, também me parecia. Grande sacana é que ele era. Virou-se para o porteiro:
- Romeu, deixa estes senhores entrar.
Conduziu-nos até ao bar.
- Zeferino, serve uma bebida a estes senhores. É por conta da casa. Estejam à vontade.
Afastou-se e nós sentámo-nos. O Zeferino chegou-se e perguntou-nos o que queríamos. Ri-me para ele:
- Ó Zeferino, não me digas que te esqueceste das minhas preferências.
Olhou-me interrogativamente primeiro, mas depois fixou-me, abriu-se num sorriso e estendeu-me a mão.
- Como está, senhor alferes? Então por cá?
- É verdade. Não como eu queria, mas estou cá.
Serviu-me um whisky com gelo e o Norberto também quis um. Falámos que tínhamos sido evacuados, sobre a guerra, da morte do Braga, ele já sabia, perguntei-lhe pela mulher e pelos filhos... Enfim, coisas da nossa normalidade e do costume. Quando os copos estavam a ficar vazios perguntei-lhe:
- Ouve lá, o Braga não deixou aí nenhuma garrafa?
- Não há nenhuma. Se deixou, sabe como estas coisas são, já desapareceu.
- Tá bem, abelha. Então trás uma dimple para aqui que eu pago.
- Pra que é isso, pá? Não vamos beber uma garrafa inteira.
- Claro que não, Norberto. Vou fazer como o Braga. Ele tinha sempre uma garrafa reservada, para quando cá vinha se servir. Esta vai ficar aqui para quando cá voltarmos. É o esquema, pá.
O Zeferino estava a servir dois tipos que se tinham chegado também ao balcão. Virámo-nos os dois para observar a sala. Eu já sabia como era. Um ou dois gajos em cada mesa, e em todas elas uma ou mais mulheres também, bem aconchegadas de vestimentas mas todas com ar de profissionais. Lá está o filho da puta do banqueiro todo enleado com três, pensei. Uma delas olhou para nós, cochichou para as outras e para o banqueiro, viraram-se todas e riram-se. Não reagi, de propósito, porque me palpitou por que se riam. Achei melhor sair dali.
- Há ali uma mesa vazia naquele canto. Não é melhor irmos para ali?
Fomos, ele com o balde do gelo e eu com a garrafa. Quando nos sentámos, dei-lhe um toque com o cotovelo e apontei-lhe com a cabeça a mesa onde estavam as gajas que se riram.
- Aquele engravatadinho com cara de fuinha é banqueiro.
- Como é que ele se chama?
- Não sei. O Braga disse-me o nome dele mas já não me lembro. Passa aqui as noites, e sabes qual é o divertimento dele?
O Norberto encolheu os ombros e abriu as mãos.
- Anda a comer as gajas, não?
- Qual quê, pá. Não vez que o gajo já está com os pés para a cova? Não sei se já fez isso esta noite. Se calhar não, ainda é cedo, e além disso ainda estão poucas na mesa dele. Agarra uma nota de mil na mão e pergunta-lhes: par ou ímpar? Aquela que primeiro adivinhar a terminação do número da nota ganha. Passa-lhe a nota para a mão, os olhos brilham-lhe de felicidade, e é aí que ele se vem, acho eu.
- Filho da puta.
- Dizes bem, também já lhe chamei esse nome. Mas há mais. Nas vésperas de embarcarmos para a Guiné, viemos todos aqui, os alferes e o capitão. Ele é que conhecia este gajo e esteve uma data de tempo a falar com ele, enquanto nós bebíamos ao balcão. Olha, nessa altura mamei quase uma garrafa inteira do Braga. Passados tempos veio ter connosco e disse-nos que o banqueiro, porque íamos para a guerra, tinha pago a cinco gajas para irem connosco - o Norberto ia beberricando o whisky e olhava-me  fixamente com olhos de camaleão - e fomos mesmo. Fomos para uma casa em Queluz, era a casa duma delas, precisamente daquela que olhou há pouco para nós e que pôs as outras a rir, eu bem a topei. Começámos com um jogo a que elas chamaram "tira". Quem perdia tinha de despir uma peça de roupa. Íamos bebendo, jogando, despindo e, passado mais de uma hora, sei lá, já não havia noção de nada,      passados uns tempos ficámos todos nus. Foi a desbunda completa, cada um com a sua pelos quartos que havia e pelos cantos da casa.
O meu amigo olhou-me reprovadoramente:
- É pá, porra, como é que vocês entraram numa merda dessas?
E eu fiquei lixado:
- Não me fodas, pá. O que é que querias que fizéssemos? Que fôssemos a Fátima rezar o terço? Tás maluco, pá. Nós já sabíamos que íamos para o mato e que mulheres era zero. Não íamos ter a sorte que os comandos tinham, uns saltos ao mato e depois era passar o tempo em Bissau para andar atrás das putas. Sim, foram meses no mato e zero, zero, assim - juntei o indicador e o polegar - tás a ver?
Ele fez-me sinal para baixar a voz. Calei-me porque vi que olhavam para nós de outras mesas. O gerente, ao pé de uma delas, estava com cara de poucos amigos. Tive tempo para pensar que tinha feito mal em mandar aquela  dos comandos. Ele tinha sido comando e também viera evacuado.
- Descupa lá, exaltei-me.
Disse-me em voz baixa:
- Eu não estou contra que vocês tivessem ido com elas. É outra coisa. Nós andamos na guerra por causa do banqueiro e outros gajos da laia dele. E dão uns rebuçadinhos, às vezes, só às vezes, que é para nós irmos para lá e estarmos lá todos contentinhos. Foi o que ele vos fez.
Sabia que ele tinha razão. Ainda estive quase a dizer-lhe que uma oportunidade daquelas não se podia perder, apesar disso. Mas não, porque me pareceu que era melhor acabar ali esta conversa.
- Ouve lá. Quando te liguei disseste-me que estavas a pensar falar comigo. O que era?
- Aqui não dá. Isto deve estar cheio de bufos e de pides. Eu levo-te a casa e no carro logo falamos.
Levantámo-nos. Levei a garrafa, entreguei-a ao Zeferino e recomendei-lhe que a guardasse. À saída fiz um aceno de despedida ao gerente. Achei que era bom para o futuro.

4 de janeiro de 2011

33-Os cinemas

Todos nós tivemos os paliativos ou as formas de escolha possível para animar a mente em cada fase da nossa vida, para diluir tristezas, adormecer ideias ou maus pensamentos, esquecer amores ou amarfanhar desejos. Também tivemos ou escolhemos meios para criar alegrias e sonhos, espevitar amores e desejos, intervalar obrigações ou deveres com o esquecimento deles.
Era bom poder fazer isso. Quando não se podia era pior.
No meu tempo da “pirata assada”, as minhas preocupações ou tormentos de criança desapareciam nas salas do Cinema Europa e do Cinema Paris. Que bom que era o “Facho e a Flecha”, o “Pirata Negro”, ou outros do género ou de cóbóis, bater palmas e gritar “vem aí o rapaz!”. Ou aquele dos indianos no “Prestígio Real”, e mesmo um em que tive de usar uns óculos de cartão para ver melhor. As reguadas e castigos da escola, as reprimendas e ralhos em casa, não andava ali nada disso.
Às vezes, com a Maria João, a Maria Emília ou a Zélia, só por tê-las a meu lado, já afagava aí os amores infantis criados no Jardim da Parada ou no Jardim da Estrela.
Depois fui para o seminário e tudo mudou. Nunca mais vi desses filmes que adorava. Ainda nos puseram a ver "Os Dez Mandamentos", mas não era a mesma coisa, não podia gritar, porque o Moisés não se parecia nada com o "rapaz", além de que não tinha a meu lado os meus amigos e amigas dos jardins. Um dia deram o "Sansão e Dalila", mas acabaram-no a meio. Foi quando a Dalila se atirou para cima do Sansão, acenderam as luzes e disseram que não havia mais. Fiquei chateado porque até estava a gostar. 


E agora? O que eram estes cinemas para mim evacuado?
Eram para não ter nada. 
Os que estavam ao meu lado não falavam, e eu também não lhes ligava.
Vi montes de filmes de guerra, de cowboys e policiais, mas os meus ouvidos tapados diziam-me que os tiros eram muito longe.
Além disso, não ouvia G3, kalshnikovs, ppsh, nem rpg2 ou rpg7, nem morteiros nem minas. Não tinham nada a ver comigo.
O inimigo, os índios e os bandidos não eram pretos. Eu não tinha nada a ver com eles.
Por mais que fizessem não provocavam que me atirasse para o chão.
E saí sempre dos cinemas com vontade de encontrar, então, alguma coisa nos bares... ou em casa da Júlia.

2 de janeiro de 2011

32-Os meus tratamentos

Passei todas as segundas, quartas e sextas de manhã no HMP. Foi tira penso e mete penso nas feridas que tinha dos estilhaços, mas o pior era o esgravatar doloroso em que se empenhavam nos meus dois ouvidos, despejando depois para dentro deles umas porcarias que eu não via, mas que pareciam torrentes de água, umas vezes quente outras fria, a penetrar-me por toda a cabeça e pelo pescoço. Saía sempre atordoado e, quando na rua, o ruído dos carros que passavam, e até os meus próprios passos, ribombavam-me na cabeça como trovões. As gazes que enfiavam como estopa nos meus buracos laterais diminuíam os sons, mas incomodavam muito. Um dia, quando descia a Calçada da Estrela, decidi tirá-las. Fiz mal. O 28 da Carris veio por trás com o chiar arrepiante nos carris e as setas perfurantes do tilintar de campainha do guarda-freio, tive de me encostar a uma parede com as mãos nos ouvidos. Uns passantes ainda pararam a olhar, mas o 28 passou e eu pus as gazes, e fui também. Mas nunca mais as tirei.
Era viver fora do contexto. Só as lembranças e os ruídos da Guiné dominavam na minha mente, não penetravam agora nos meus ouvidos tapados, mantinham-se lá desde há muito, agora estavam sempre onde eu estava. Só os factos da minha vida presente é que me pareciam longínquos, com ténues sons que não davam para compreender o que me rodeava, nem quebravam o silêncio da bolanha em que eu estava ainda. Até as discussões lá em casa entre o meu pai e a minha mãe, ou entre a minha irmã e eles os dois, eram uma coisa que não me dizia nada. No hospital, solícitos, não duvido, que o tratamento era para recompor os tímpanos e tudo à volta, e para me proteger das agressões dos sons externos. Mas eu continuava a ouvir o matraquear da G3 que ceifara a professora Abess e a explosão da mina que matara o capitão e desfizera o Domingos Gomes. Aquele tratamento só não dava, senti necessidade de fazer planos para outro.
A Calçada da Patriarcal, a da casa dos meus pais, onde eu aboletava agora, era um sítio estratégico.
Descendo as Escadinhas da Mãe d’Água e a Rua da Alegria, havia logo ali à direita o Ritz Club, na Rua da Glória. Mais abaixo, numa esquina da Praça da Alegria, havia o Maxime, e, se quisesse, logo à esquerda, havia o Cantinho dos Artistas à entrada do Parque Mayer. Podia descer a Avenida até à Taverna Imperial, nos Restauradores, ou ir ao Comodoro, ao pé do D. Maria.
Se fosse por cima, pelo Príncipe Real, também tinha hipóteses. Depois de S. Pedro de Alcântara tinha o Lua Nova, na Travessa da Queimada, ao pé da Misericórdia. Podia também ir à Trindade, logo a seguir, mas não, esse não era sítio para este meu tratamento. O Bar D. Quixote, que ficava também por ali, perto do Largo do Carmo, esse é que sim, convinha-me, era agradável e tinha boa frequência. Idêntica à dos outros sítios, aliás.
Havia outros, mas estes eram os sítios que eu já conhecia, por eles tinha passado com os meus camaradas alferes e o capitão antes de embarcarmos na Ana Mafalda. As minhas vivências lá, os sons deles, os conhecimentos, o que gostei, tudo coabitava dentro de mim com as lembranças da Guiné. Era bom para o tratamento.
Mas um problema se levantava. Eram locais para altas horas da noite e madrugadas. Que fazer até lá? Também achei solução. Na Avenida havia logo à esquerda o cinema S. Jorge. Mais abaixo tinha o Condes, o Odeon e o Olímpia na Rua dos Condes, e o Politeama nas Portas de Santo Antão.
Estava gizado o plano de tratamento: cinemas à tarde e à noite, a seguir bares.
Cumpri-o durante meses. Segundas, quartas e sextas de manhã no hospital, tinha de ser. À tarde, sessão das 15H00 num cinema, sessão das 18H00 noutro e sessão das 21H00 noutro ainda. À noite e madrugada bares, uma vez num outra vez noutro. Foi assim quase todos os dias durante meses. O ordenado de alferes dava, nunca juntei dinheiro. Mas fez-me bem, gostei deste tratamento.

31 de dezembro de 2010

31-O primeiro amor de evacuado

http://www.youtube.com/watch?v=xF4hMVhN38A

Nessa noite fomos ao Timpanas. Deu-nos as saudades dos nossos fados. Eu sabia que o Norberto era grande amante, lembrava-me bem das vezes em que, em plena caserna 3, nos massacrava até altas horas da noite, só se calando quando os mais dorminhocos se chateavam e armavam zaragata.



Ainda opinei que fôssemos ao Bairro Alto, a mim dava-me mais jeito por ser perto da casa dos meus pais. Mas que não, disse ele, era muito mais caro e ali no Timpanas é que era melhor, era o fado mais legítimo. Tá bem, acedi, porque, embora gostasse de fado, não era nenhum perito nas legitimidades dele.
Lá fomos no seu 2 cavalos até à Rua Gilberto Rola, junto às Docas de Alcântara. Não me lembro bem como era, já lá vão  muitos anos e montes de coisas passaram, mas sei é que a entrada não era assim com todas essas luzes que vêem na fotografia. Entrámos para uma sala não muito ampla com várias mesas de madeira quadradas, estava tudo à média luz, menos dois guitarristas e um fadista que cantava em cima de um estrado que estava a um canto. Vimos uma mesa vazia à esquerda e sentámo-nos.
As mesas estavam quase todas ocupadas por casais ou por homens comuns, na mesa ao nosso lado, nem tínhamos reparado antes, estavam duas mulheres jovens, uma loira e outra morena. Reparámos agora, comiam uns jaquinzinhos fritos e bebiam de uma caneca de vinho tinto e riam-se. O empregado chegou-se e pedimos o mesmo. O homem em cima do estrado cantava a "Júlia Florista" no meio do silêncio geral. O Norberto estava intrigado com o riso das vizinhas.
- O homem até nem canta mal.
Percebi o que o Norberto disse ao pé de mim, mas pareceu-me ouvir a loura a responder lá longe.
- Não estamos a rir dele. É que a minha amiga chama-se Júlia e achámos piada.
- E não me diga que também é florista - fui eu agora a rir-me.
Várias caras nas mesas se viraram para mim com ar reprovador e o Norberto deu-me uma cotovelada.
- Não fales tão alto, pá.
Fiquei vermelho, com certeza, de envergonhado. Na mesa ao lado a Júlia ficou séria e a loira deixou de sorrir também. Olhei para as raparigas e ganhei coragem para dizer, procurando que fosse em voz baixa:
- Peço desculpa por ter falado alto. Nós viemos há poucos dias da Guiné, viemos feridos. Estas gazes que tenho enfiadas nos ouvidos é que me fazem falar alto. Houve uma mina que deu cabo deles.
Olharam-nos com espanto e interesse. Estava para continuar, mas o meu amigo aproveitou-se. Era mesmo dele.
- Se calhar, é melhor nós irmos para a vossa mesa, senão ele continua a falar alto e ainda nos expulsam daqui.
Acederam e abancámos na mesa delas. Eu em frente da Júlia e ele em frente da loira. Que se apresentou, era a Gisela.
Olhei para a Júlia e gostei dela. Lábios carnudos, olhos castanhos, cabelo preto liso, um sorriso que me encantou. Contei como foi a história da mina e outras coisas, sempre a olhar para ela, via-a fascinada. O Norberto ia contando as dele também, com olhos grandes e expressivos.
Depois de vários fados, umas tantas canecas de vinho e travessas de janquinzinhos, muitas perguntas e sorrisos e olhares, fez-se tarde.
- Amanhã logo de manhã tenho de estar no hospital. Tenho de me ir embora. Queres boleia?
- Eu não vou ainda, Norberto. Só tenho tratamento depois de amanhã. Vou ficar mais um bocado.
- Eu vou também, – disse a Gizela – não queres vir, Júlia?
- Não, ainda não. Amanhã falo-te.
Saíram os dois e nós ficámos. Houve olhos baixos, copos e cigarros a disfarçar, monossílabos, umas miradas forçadas para o artista que cantava. Estamos a encenar, pensei, não pode ser.
- Isto é muito diferente do que tem sido a nossa vida na Guiné. O ambiente, este convívio, foi-nos tirado. Regressar a isto é uma coisa maravilhosa. É o bom que faz esquecer o mau que lá passámos. Estar aqui consigo é como regressar ao céu depois de passar pelo inferno. Sobretudo porque não há ninguém que queira o inferno, não é?, quando fomos condenados não sei porquê.
- Eu sei. Tive alguns colegas em Letras que tiveram de ir para a guerra, sem mais nem menos. Sei o que eles sentiram.
Foi uma aberta para nova conversa. Ainda não nos tinham dito o que faziam. Foi novidade saber que ela estava na Faculdade de Letras. Mas foi óptimo, disse-lhe que também tinha sido de lá tirado há dois anos, estava em Românicas, ela disse-me que estava também em Românicas mas só há um ano. Falámos do Padre Manuel Antunes da Cultura Clássica, do Lindley Cintra… Sentimo-nos chegados. Já não quisemos nem mais carapauzinhos nem fado.
- Eu sou de Évora, mas vim estudar para Lisboa.
Maravilha! Mais chegados ainda ficámos, falámos do Alentejo, ela de Évora e eu do meu Penedo Gordo da minha meninice e de Beja. Os pais dela eram ricos, segundo percebi, os meus eram pobres, pensei. Mas não fez mal nenhum no final de tudo.
- Olhe, isto aqui já deu o que tinha a dar. Eu vou apanhar um táxi e, se quiser, levo-a a sua casa.
- Estou numa casa que os meus pais têm em Campolide, ao pé da Valenciana. Não é longe para si?
- Não é nada longe, sei bem onde é. Vamos lá que os seus pais já devem estar preocupados.
- Não. Eles só vão lá às vezes, quando o meu pai tem de vir a Lisboa. Vivo lá sozinha.
Tocaram-me uns sininhos, o coração saltou, e não só.
Levei-a a casa e fiquei lá essa noite. Houve explosões, mas não de minas, foram as granadas que eu tinha dentro de mim e que descavilhei. Não houve guerra, só paz. 


28 de dezembro de 2010

30-Uma noite, somente, no HMP

Encontrei lá o meu amigo Norberto. Fora meu colega no 2º pelotão do COM de Mafra. Magro, louro, olhos azuis grandes, era um aventureiro, uma máquina em todos os exercícios. Mas foi sempre um bom companheiro, diferente de outros que lá andavam a armar-se em bons e achavam, por isso, ser superiores. Eu sabia que ele, depois da especialidade de atirador, tinha sido mandado para os comandos, e nunca mais soubera dele. Foi um grande abraço. Perguntei-lhe:
- O que é que andas aqui a fazer?
- Ando em tratamento.
- A quê?
- Tenho hemofilia.
Fiquei banzado. Como era possível um tipo hemofílico ser enviado para os comandos!? Mesmo para a guerra. Mas para os comandos ainda por cima... Então não tinham visto isso antes?
- Parece que não te lembras como era aquilo em Mafra. Além da injecção cavalar, que diziam dar para todos os males, não se preocupavam em saber mais nada. Menos, é claro, em ver aqueles que tinham cunhas para ir para os serviços auxiliares.
- É verdade, eu sei bem. Deves lembrar-te que desde o início sabíamos que o nosso curso estava destinado para uma fornada de atiradores. Até pensei que ia gozar com os gajos dos psicotécnicos quando me puseram um papel à frente e me disseram par escolher a especialidade. Pus lá que queria ser atirador mas eles é que se riram de mim. Mas diz lá, então, como é que descobriram isso.
- Eu estava na 3ª Companhia de Comandos na Guiné e…
A conversa derivou, é claro. Disse-lhe que tinha chegado de lá na véspera, ferido por uma mina. Contei-lhe coisas, por onde andara, como tinha sido ferido, operações em que participara, o normal destas conversas. Ele também me contou das dele e acabou por me dizer que, numa operaçãozeca, segundo ele, na zona do Cantanhês, tinha levado um tiro numa perna e que, sorte, o enfermeiro tinha visto que o sangue não estancava, pelo que pediram logo um heli para o levar para Bissau. Tinha sido evacuado para Lisboa há uma semana.
- Vais ficar aqui?, perguntou-me.
- Tem que ser, não é?
- Pelo teu aspecto, pelo teu tipo de ferimentos, até te mexes bem, parece-me que não tem que ser. Tens cá família?
- Tenho os meus pais, moram em Lisboa.
- Então faz como eu. Quando cá cheguei disse-lhes que tinha família na Amadora e eles deixaram-me ir para casa deles. Só venho cá aos tratamentos. E já me disseram que não vão durar muito, porque isto não tem cura, que qualquer dia vou a uma junta médica e que me mandam embora. E até te agradecem, porque precisam de camas para casos mais graves e para gajos que são da província.
Fiquei encantado com a ideia e ele foi comigo aos serviços administrativos. Ficou assente que podia ir para casa dos meus pais e que devia estar no hospital todas as segundas, quartas e sextas, às nove horas, para tratamentos.
Foi o Norberto que me levou, a mim e a mais nada, que era o que eu tinha, no seu citroen 2 cavalos até à porta da casa dos meus pais, na Calçada da Patriarcal. Despediu-se e disse-me:
- Está aqui o meu telefone. Logo à noite, depois de jantar, dá-me um toque para combinarmos ir dar uma volta por aí.
- Claro, vamos lá. Estou com falta disso.

23 de dezembro de 2010

29-Como fui evacuado

A partir de 17 de Abril de 1967, data em que cheguei a Geba, participei nas seguintes operações: 

Imberbe, em 10MAI67, 
Janota, em 20 e 21MAI67, 
Jaguar, em 03JUN67, 
Inquietar I, em 9 a 13JUN67, 
Jigajoga, em 24JUN67,
Inquietar II, em 04 a 07JUL67, 
Jagudi, em 15 e 16JUL67, 
Jaguar, a 22JUL67, 
Ignora, a 25JUL67,
Ímpeto 2, a 07AGO67

Além disso, fiz vários patrulhamentos na zona com o meu Grupo de Combate e várias colunas de abastecimentos aos destacamentos da companhia, para Banjara,  Cantacunda e Camamudo. Eram as missões que me foram atribuídas, outros dois alferes estavam nos destacamentos e o outro era o segundo comandante da companhia. Em Camamudo era um furriel que comandava.

Mas, a 21AGO67, fui ferido por uma mina no caminho de SARE BANDA para BANJARA (A mina da minha vida). Estive uma semana no Hospital de Bissau (HM241) e daí saí para a Base Aérea para ser evacuado para a Metrópole.  Foi num dakota C47.
Não foi neste, é claro. Sem asas não voava...
Fui só com as calças e uma camisa, Foram também outros feridos que entraram no avião. Os bancos que vêem na gravura foram ocupados por uma senhoras, não sei quem eram, nós os feridos, uns cinco ou seis, fomos esticados numas macas no corredor. Ainda disse que não estava assim tão mal e que podia ir numa cadeira. Mas que não, que devia ir numa maca. Lá fui, e quando o avião já estava alto comecei a deitar sangue pelos ouvidos (era o meu ferimento principal), por causa da descompressão. Ninguém ligou mas eu tratei de mim.
Ao fim de cinco ou seis horas, não sei bem, chegámos ao aeroporto militar de Las Palmas, disseram-nos. Que quem quisesse podia sair para descontrair. Saí e estava cheio de fome, não nos tinham dado nada para comer, nem as "queridas" rações de combate. Vi vários militares e olhei para uma porta que me pareceu a entrada de um bar. Fui até lá e entrei.
Olharam para mim, mas ninguém pareceu espantado, já deviam estar habituados a estas visitas. Pedi uma cerveja e uma sandes. Devorei-as, era a fome. No fim fiquei atrapalhado porque vi que não tinha dinheiro. Nem escudos, nem pesos, muito menos pesetas. Baixei a cabeça e fui-me afastando do balcão até à porta. Ninguém olhou para mim, pareceram-me distraídos. Zarpei para o dakota e estiquei-me na minha maca. Passados tempos o avião arrancou até Lisboa. Ainda agora não sei se fui eu que fui esperto ou se foram eles que me deixaram ir sem me agarrarem para pagar.
Depois de quatro ou cinco, ou cinco ou seis horas, não sei, chegámos ao Figo Maduro. Estava lá os meus pais e a minha irmã, tinham-lhes dito que eu fora ferido e vinha. Choraram e ficaram contentes por me ver de pé. Foi pouco tempo, porque me meteram numa ambulância para ir para a Estrela, o HMP.


21 de dezembro de 2010

28-Ataque a Sare Banda

Sare Banda estava perto de Sinchã Jobel. Todas as tabancas entre Sare Banda e Sinchã Jobel estavam desabitadas devido ao reordenamento. Por ela passei quando "regressei" a Sinchã Jobel em Abril de 2006 (Regresso a Sinchã Jobel).
Ao lado pode ver-se bem "a estrada" que era o caminho para Banjara. Aí morreram e ficaram feridos vários, entre os quais eu.
Inicialmente, a CART1690 tinha 3 destacamentos: Camamudo, a cerca de 20 quilómetros da sede da companhia, e Cantacunda e Banjara, ambos a cerca de 40 quilómetros da sede e dentro da mata do Oio. Mais tarde foi atribuído à companhia mais este destacamento em Sare Banda, no caminho para Banjara.

O alferes morto neste ataque foi o Carlos Alberto Trindade Peixoto. Ele tinha vindo substituir o alferes Fernandes, que me substituíra a mim quando fui ferido (A mina da minha vida), e que tinha sido morto em Sinchã Jobel (Op. Invisível). Esses meus dois substitutos não tiveram a minha sorte, infelizmente. O outro morto foi o Furriel Raul Canadas Ferreira. 
As circunstâncias da morte deles não estão devidamente relatadas. Mas foi assim: este, como todos os destacamentos da CART 1690, não tinha luz eléctrica, nem mesmo um miserável gerador. Eles estavam os dois numa tenda a jogar às cartas, com um petromax aceso (depreende-se do relatório as péssimas condições de instalação). Para os guerrilheiros foi muito simples, foi só apontar o RPG2… e, mais uma vez, como vêem, a tentativa de entrar no destacamento. 



Ataque a Sare Banda

8 de Setembro de 1968:


DESENROLAR DA ACÇÃO

1. Acção inicial do IN: 


Em  0821H00SET68, um numeroso grupo IN, estimado em cerca de 100 elementos instalados em semicírculo nas direcções NE-SW e SE-NW, atacou o destacamento de Sare Banda com o seguinte armamento:

-Canhão s/recuo

-Morteiro 82
-Lança granadas RPG-2
-Lança granadas P-27 Pancerovka
-Metralhadoras pesadas
-Metralhadoras ligeiras
-Armas automáticas
-Armas semi-automáticas
O ataque foi iniciado com um tiro ao canhão sem recuo e dois Lança Granadas Foguete, dirigidos contra a cantina e depósitos de géneros que atingiram mortalmente o Alferes Comandante do Destacamento e um furriel e provocaram ferimentos numa praça. Estes tiros iniciais do IN atingiram e destruíram ainda o mastro da antena horizontal do rádio, ficando assim o destacamento de comunicações cortadas com toda a rede de GEBA. No seguimento da acção, o IN atingiu com uma granada incendiária uma barraca coberta por 2 panos de lona de viaturas pesadas, onde costumavam dormir vários elementos das NT por não caberem todos nos abrigos, o que provocou a destruição de todo o material lá existente e iluminação das posições das NT.
2. REACÇÃO DAS NT
2.1. Das forças do destacamento:
Apôs a surpresa inicial dos elementos que se encontravam fora dos abrigos, estes correram para os mesmos e reagiram imediatamente ao ataque IN. Não obstante terem ficado sem o seu Comandante e sem comunicações logo aos tiros iniciais, nunca perderam a calma e o moral, opondo tenaz resistência aos intentos do IN. Refira-se que logo no início da reacção as NT atingiram com tiros de morteiro a guarnição IN do canhão s/recuo, calando-o definitivamente e, em determinada altura do ataque, repeliram energicamente uma tentativa de penetração de elementos IN ao destacamento, que para o efeito haviam conseguido chegar junto da rede do arame farpado. Essa reacção, feita só à base de tiros de espingarda G-3 e granadas de mão em virtude de se ter avariado o Lança Granadas Foguete, foi verdadeiramente eficaz e decisiva para o desenrolar dos acontecimentos, pois o IN foi obrigado a recuar deixando no terreno 3 mortos além de armamento e arrastado consigo outros elementos feridos e mortos. O IN, sempre perseguido pelo fogo das NT, recuou cerca de 200 metros instalando-se entre Sare Banda e Sinchã Sutu donde continuou a flagelar o destacamento até cerca das 22H30 (1 hora e 30 minutos depois do início do ataque, após o que desistiu dos seus intentos, retirando definitivamente.
2.2. Das forças de Geba (CART 1690):
Em virtude das péssimas condições atmosféricas não foram ouvidos em GEBA os rebentamentos de forma a poderem ter sido localizados. Refira-se ainda que o facto do destacamento de SARE BANDA ter ficado sem comunicações logo no início do ataque, só permitiu que em GEBA se tivesse conhecimento do sucedido cerca das 09H02 do dia 9 de Setembro de 1968, através de dois praças do destacamento que haviam vindo a pé voluntariamente comunicar a ocorrência. Prontamente saiu de GEBA uma coluna de socorro que, ao atingir SARE BANDA, às 05H45, fez um reconhecimento nos arredores, seguido de batida de madrugada, mas já não conseguindo contactar com o IN, que havia retirado na direcção de Darsalame e dirigindo-se para Sincã Jobel.

RESULTADOS OBTIDOS
Baixas sofridas pelo IN:

 8 mortos confirmados; muitos feridos sendo possível que hajam mais mortos devido aos rastos de sangue encontrados no carreiro de retirada do IN.

 Material capturado ao IN:

-1 Espingarda semi-automádica Simonov cal.7,62mm
- 1 Espingarda automática G-3 7,62mm
- 1 Granada de canhão s/recuo
- 2 Granadas de lança-granadas foguete
- 1 Granadas de morteiro 82
- 2 Granadas de mão ofensivas RG-4
- 8 Carregadores de Met. Lig.
- 2 Fitas de Met. Lig.
- 2 Facas de mato
- 2 Bolsas p/transporte de munições
- 2 Cantis
- Diversas munições de armas aut.
- Bolsa de medicamentos com o seguinte: Streptomycin. Sulphite-ampolas de 5.000.000 (3 Frascos); éter ( 1frasco; mercúrio cromo (1 frasco); bálsamo (1 frasco); Injecções (desconhecidas) (10 ampolas); Aspirinas em comprimidos (178 carteiras):; madexposte em comprimidos (96); Chinim Sulfur (comp) (6 embalagens de 5); Codemel (carteiras de 10) (5 Comprimidos); adesivo (1 rolo); algodão cardado (1 maço; 1 garrote; 20 mLigaduras de gase de 10 cm x 5cm; 1 seringa de plástico c/agulha".