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14 de janeiro de 2011

37-Mataram o Norberto

Telefonei para casa da tia do Norberto.
- Boa noite D. Olinda. Queria falar com o Norberto.
Houve um silêncio. Respondeu-me depois uma voz de mulher chorosa.
- O meu sobrinho morreu.
Devia ser brincadeira, ou então a tia tinha-o posto na rua por qualquer motivo. Só podia ser isso. Falei-lhe meigamente.
- Desculpe lá. Eu preciso mesmo de falar com ele. Não tem o contacto dele?
Agora foi uma voz de soluços.
- Ele morreu. Mataram-no.
Pareceu-me ver as lágrimas, o soluçar eram palavras da D. Olinda a dizer-me que era verdade. Fiquei mudo por momentos, a conjecturar perseguições, prisão, torturas, assassinato. Queria saber.
- Mas como é que foi isso? Diga-me lá, por favor.
- Ele ia na auto-estrada, depois do viaduto Duarte Pacheco…
Foi aqui que (X) morreu o Norberto

O choro continuava.
- Mas o que é que sucedeu aí, D. Olinda?
- Houve um carro que se avariou, era uma mulher…
Não parava de soluçar, tive de a animar.
- Mas não chore. Diga-me lá mais. O que é que aconteceu?
- Ele parou o carro dele para ir ajudar a mulher, mas veio outro carro e atropelou-o… Ai, ai, meu querido sobrinho.
E não parava de chorar.
- Mas, ó D.Olinda, não o ajudaram?
- Não, ninguém o ajudou. Quando chegaram os da ambulância já ele não tinha pinga de sangue. Estava morto.
Lamentei-me também, procurei consolar a mulher o melhor que pude, mas não adiantou muito, o mal estava feito. Desliguei. Os meus pais e a minha irmã aperceberam-se que qualquer coisa estava mal porque me viram consternado. Expliquei-lhes o sucedido e disse-lhes que não queria jantar, que ia dar uma volta. Tinha ficado em casa nessa noite para poder falar com o Norberto, muito longe de imaginar esta desgraça. Tinha de ir arejar.
Ainda pensei ir carpir as mágoas para casa da Júlia, mas achei que não, que não devia ir massacrar a rapariga com lamentações, com ela era só para coisas boas. Desci a Rua da Alegria e, quando na Praça, vi o Maxime. Mas ali não queria entrar mais. Da última vez que lá tínhamos estado, eu e o Norberto, chateámo-nos com um gajo que nos queria oferecer uma cautela da lotaria, como prenda por termos estado na guerra. Era outro filho da puta como o banqueiro do Comodoro. Decidi-me por ir antes ao Cantinho dos Artistas. Era mais abaixo, na entrada do Parque Mayer.
Aqui (X) era a entrada do Cantinho dos Artistas. Já não existe.

Era outro tipo de gente. Artistas, boémios noctívagos com o coração na boca, mulheres cativantes, coristas esbeltas com simpatia sem salamaleques.
Havia barulho e alegria como era hábito. Pedi um bitoque e uma imperial. E fui cortando e rilhando o bife, deglutindo pensamentos amargos sobre o destino do Norberto.
- Olá. Estás muito pensativo, rapaz.
Era a Fatinha que se chegara à minha mesa. Era bailarina, como me dizia, não corista. E é verdade que era uma artista na dança, já a vira actuar no Maria Vitória, ali ao lado. Sentou-se ao pé de mim.
- Estou triste.
- Porquê? O que é que aconteceu? A Júlia zangou-se contigo?
- Não, não é nada disso. Morreu um amigo meu.
Ficou séria.
- É a merda da guerra – a voz era pesarosa – que anda a matar a juventude.
Sabia que estava sentida. Já me tinha dito que tinha um primo em Moçambique.
- Não foi na guerra. Olha, se fosse até já nem me admirava, já é normal. Foi o Norberto, ele já esteve aqui comigo, se calhar lembras-te dele.
- O quê, aquele loiro de olhos azuis grandes?
- Sim, esse.
- Mas como é que foi isso?
- Ele tinha sido evacuado por ser hemofílico. Felizmente deram por isso lá na Guiné e mandaram-no embora. Mas, outro dia, foi socorrer uma mulher que tinha tido uma avaria no carro em plena auto-estrada e veio um gajo que o atropelou. Não teve ninguém que visse a situação dele, que se esvaía em sangue, e já estava morto quando chegou a ambulância para o levar.
- Que coisa, meu Deus!
- É lixado vir morrer aqui desta forma tão estúpida, depois de se ter visto livre da guerra. Primeiro, lá do hospital mandam-no à vida, já não fazes falta, desenrasca-te agora. Depois foi a incúria e a falta de cuidados. Lá na guerra sabíamos que era normal podermos morrer, mas aqui não me entra. Não dá para entender.
Fiquei calado e sem vontade de continuar a comer. A Fátima não disse nada, primeiro, mas, olhando para o meu rosto, pôs-me uma mão no braço.
- Estás mal, vê-se na tua cara. Se calhar é melhor ires ter com a tua amiga Júlia. É capaz de te fazer bem, ficas melhor.
- Não, não vou. Não estou com disposição. Além disso, ela não vai perceber, não entende destas coisas, não vai perceber nada.
Fiquei silencioso a beberricar a cerveja. Ela já conhecia a Júlia, eu tinha estado ali algumas vezes com ela e tínhamo-nos juntado os três a conversar. Sabia que a Júlia era assim, despreocupada e pouco sensível aos problemas dos outros.
Mas a Fatinha estava sensível às minhas preocupações.
- Ouve lá, não podes ficar assim. Eu hoje já não tenho que fazer nada aqui e vou-me embora para casa. Anda comigo, estás lá melhor sem estes barulhos. Bebemos um copo, falamos e ficas mais calmo.
Era uma moça maravilhosa, pensei. Aquelas conversas barulhentas que noutras alturas me davam gozo não calhavam agora com o meu estado de espírito. Normalmente até entrava nelas também, galhofava com aquela gente porreira. Mas agora não, não estava para aí virado. Pelo mesmo motivo não estava com disposição para ir deambular por outros bares, nem ir para a casa dos meus pais e deitar-me a magicar na tragédia do meu amigo. Fui com ela.
Morava perto do Chiado, na Rua Duques de Bragança, num andar alugado perto da Livraria Morais. Tinha à frente o Teatro S. Carlos e mais ao fundo as traseiras das instalações da PIDE da António Maria Cardoso. Mas não me perturbei, fiquei bem num sofá da sala dela a beber um whisky. Estávamos os dois mudos, eu olhava para ela apreciativamente. Tinha vestido um robe e traçara a perna, pele branca e suave, pensei, os seios espreitavam-me. Sorriu-se, pareceu-me divertida com o meu olhar. Puxou de um cigarro.
- Sabes quem foi o Saint-Éxupéry?
- Sim, não sou burro. É aquele do “Principezinho”.
- Podias não saber. Nem todos sabem, ignorar não quer dizer ser burro. Eu tenho lido algumas coisas dele. É um homem interessante, que reflecte sobre a guerra.
- Quando estava em Mafra deu-me para ler o Jean Lartéguy. Li os livros quase todos dele. Mas esse não conheço.
- Ele tem um livro que é o “Piloto de Guerra”. Ele pilotou aviões na primeira guerra mundial, deves saber. Quando morreu lá um amigo, diz ele, penso que é nesse livro, que lhe custava sentir que nunca mais o poderia ver nesta vida, que não o podia ver a seu lado, que nem sequer o podia aborrecer. Custava-lhe que ele já não tivesse necessidade dele. Não é como te estás a sentir?
Não era isso.
- É uma visão egoísta, acho eu. O que me custa é que desapareceu alguém que parecia gostar de mim, era meu amigo, não era como os outros que eu acho que não gostam.
- Então e isso não é egoísmo também?
- Não sei, talvez. Mas não é só isso. Olha, quando eu era miúdo e estava no Penedo Gordo, o meu avô Salustiano morreu e eu chorei, tive pena. Mas chorei e tive pena porque vi a minha mãe e a minha avó a chorar. Gostava dele, mas era velho e a morte em si não me disse grande coisa. Mas agora não, agora e naquelas mortes que vi e vivi na Guiné, agora eu tenho consciência da morte, das suas causas. Não são por velhice.
Fiquei pensativo e ela também. Esta conversa não me estava a ajudar nada.
- Fatinha, desculpa lá mas eu vou andando. Já é tarde.
Ficou séria primeiro, mas explodiu pouco depois.
- És maluco. Não estás em condições. Ficas aqui, anda para a cama. Amanhã estás melhor.
Senti que era o que eu queria, lá no fundo. Fui com ela. Agarrou-se a mim debaixo dos lençóis.
- Hoje não estou muito capaz, percebes?
- Mas eu estou aqui, garoto, vamos ver.
A sua pele era de facto muito suave, uma maravilha os seios, de sabor enlouquecedor. A sua boca húmida fez-me despertar. Fui capaz.

10 de janeiro de 2011

35-Percalços da clandestinidade

Já vínhamos no carro e disse-me ele:
- O que eu te queria dizer é que temos que nos encontrar amanhã com outra malta e era preciso uma casa para isso. Na da minha tia não dá porque há lá gente e estava a pensar na tua. Será que pode ser?
- E a que horas é?
- Às dez horas da manhã.
- A essa hora tenho estar no hospital. Só se forem vocês e depois falas comigo sobre o que decidiram. O meu pai e a minha irmã estão a trabalhar e a minha mãe vai a uma consulta ao hospital. Eu dou-te a chave de casa.
- Está bem. Falamos os dois depois.
Chegámos, entretanto, ao largo da Calçada da Patriarcal.

Este é o largo da Calçada da Patriarcal. Os meus pais moravam aqui (X), no nº 1, 2º Esqº. Já não moram porque já morreram. É verdade que também morou aqui, anos antes deles, o pide São José Lopes.
Parou o carro ao pé das árvores. E eu lembrei-me duma coisa.
- Mas espera aí, ó Norberto. Não sei se é o melhor ser em minha casa. É que, há uns dias, apareceu lá na caixa do correio uma carta para um tal Aníbal de São José Lopes. A minha mãe foi perguntar à vizinha se não seria para ela. E a vizinha disse-lhe que era um gajo da PIDE que tinha antes lá morado mas que, agora, estava em Angola.
Vi que ficou apreensivo, pensou um bocado.
- Mas há quanto tempo é que ele morou lá?
- Não sei, pá. Mas, como os meus pais já moram lá há mais de 20 anos, já foi há mais tempo.
- Então deixa estar. Dá cá a chave. Até tem piada.
Dei-lhe a minha chave.
- Mas, olha, já gora digo-te outra coisa: há quinze dias fui a uma junta médica e os gajos deram-me como inapto para a tropa. Isto da hemofilia não tem remédio.
- Porreiro! Então estás livre da guerra.
- Não é nada porreiro. Sabes muito bem que a orientação é não fugir à guerra. É lá com os outros que temos de estar, é lá que podemos influenciar, não é fugindo para França. Mas paciência, comigo já não há hipóteses. Para compensar pus-me a vendedor de materiais de construção civil, dá-me para andar por aí e desenvolver o trabalho clandestino.
- Mas deves concordar que é melhor do que estar na guerra.
- Claro. Mas lá também se pode trabalhar, e é muito importante.
Disse que estava bem e despedi-me. Fui de manhã ao hospital ao tratamento. Quando voltei a casa para almoçar vi que não tinha a chave, tinha-me esquecido, toquei à porta. Disse-me a minha mãe:
- Então e a chave?
- Devo-me ter esquecido dela num bolso qualquer.
- Olha, estiveram aqui uns amigos teus a perguntar por ti.
- Estiveram? Mas quando?
- Eram aí umas dez horas.
Merda, que bronca! Fiquei com tal cara que a minha mãe até se assustou.
- Mas houve algum problema?
- Não, não houve nada, mãe. Mas não tinha dito que hoje ia ao médico?
-Tinha, mas decidi não ir porque já vi que aquele homem não me resolve nada. Ando lá há uma data de tempo e não vejo solução, nada. É só gastar dinheiro. Tenho de arranjar outro médico.
Tinha osteoporose, andava bastante mal, coitada.
Quando acabava almoçar tocou o telefone e a minha mãe foi atender.
- É para ti.
Atendi. Era o Norberto.
- Era um dos meus amigos que estiveram aqui. Vou ter com eles ao Jardim da Estrela quando acabar de almoçar.
Fui e vi-o sentado na esplanada, estava sorumbático.


- Desculpa lá aquilo, mas não tive culpa nenhuma. A minha mãe à última da hora decidiu não ir ao médico.
- Pega lá a chave. Por acaso, por uma questão de segurança, toquei á porta primeiro. Imagina que tinha metido a chave na fechadura, a tua mãe chamava a polícia e íamos de cana por arrombamento.
- Oh, não chamava nada. Dizias que te tinha emprestado a chave para, não sei, inventavas qualquer merda.  
- É pá, mas não, isto não pode ser assim.
- Mas o que é que queres, caralho? Já te disse que não tenho culpa. Foi azar.
Também já estava a ficar chateado.
- Mas, ouve lá, reuniram ou não?
- Claro que não. Temos de marcar outro dia e outro sítio, mas um sítio seguro agora.
Gozei:
- Um bom sítio é o Comodoro.
- Vai-te foder.
Bebemos umas imperiais e perguntei-lhe mais coisas sobre a junta médica. Tinham-lhe recomendado uns medicamentos, que tivesse cuidados, que já não servia para a tropa.
Despedimo-nos e desde esse dia nunca mais o vi.

6 de janeiro de 2011

34-Fomos ao Comodoro

Ao meio dia telefonei ao Norberto. Há meses que não o via, só uma vez ou outra no hospital, mas já há muito tempo.
- Queres ir dar uma volta esta noite? Ou tens que ir ao hospital amanhã?
- Não, não tenho. Olha, ainda bem que me ligaste porque precisava de falar contigo. Mas aonde é que estavas a pensar ir?
- Não vou aos fados, pá, nem penses. Quero ir ao Comodoro, é um sítio porreiro e já tenho saudades daquilo.
- Ui, isso é muito chique, de gente fina! Há outros sítios de gente mais como nós. Além disso, não podes antes encontrar-te comigo esta tarde?
Falava alto pra caraças, porra. E não estava a perceber as reticências daquele gajo. Já tínhamos andado os dois por vários lados, umas vezes onde ele queria, outras onde eu dizia. Desta vez tinha de ser eu a decidir.
- Não, não pode ser. Já tenho o meu esquema montado, tenho uns filmes para ver e estou mesmo decidido a ir ao Comodoro. E fala-me mais baixo, pá, tirei os tampões para te ouvir. Os tímpanos parece que estão melhor, não me dês cabo deles.
Ficou um bocado calado.
- Desculpa lá. Então, está bem, vamos ao Comodoro. Mas, olha, a Júlia vai contigo?
- Não. A miúda tem que estudar, além de que não quero que ela se perca nestes antros por onde eu ando.
- Acho bem.
Encontrámo-nos à meia-noite junto ao D. Maria.

Este Comodoro de que falo ficava ali. Esta é uma fotografia antiga, não sei se, na altura, ele já existia. Mas era ali naquela zona, na Praça D. João da Câmara, do lado esquerdo o teatro D. Maria e à direita a estação do Rossio.

Não encontrei dele nenhuma fotografia mais recente. Há vários meses, quando fui a Lisboa para um jantar no restaurante Colina com meus ex-companheiros de armas na Guiné, saímos muito “animados” e decidimos ir ao Comodoro. Caíram-nos os qualquer coisa ainda ao chão quando olhámos para onde ele devia estar e vimos uma loja de artigos ópticos! Ficámos defraudados. Fui, depois, à internet e havia lá informação sobre ele. Que: “Ambiente In”. Boa! Ainda se mantinha. Que: “Serviços fora de horas”. Boa! Era o que se queria. Que: “Acesso para deficientes Não”. Tá bem, já não me admirava (vão ver a seguir porquê), que se lixe. “Recomendado a crianças”. Porra! Isto é que não batia certo, qualquer coisa estava errada. Ainda vi que havia um telefone - 213 464 996 – e liguei. Mas a menina da PT disse-me uma data de vezes, com voz meiga de gravador, que “esse número não se encontra atribuído, tente novamente, piu, piu, piu…”. Era certo, então: o Comodoro que eu conheci já não existia, parece que lhe tinham dado a volta, aquela coisa de recomendação para crianças já não era a mesma coisa, mas nem assim.
Sinceramente, se alguém que me leia souber o que foi feito dele agradeço que me diga. Gostava de saber o que fizeram a essa minha lembrança.

Fomos até lá e tocámos à campainha. O porteiro abriu-nos a porta solicitamente, pareceu-nos. Mal. Depois de nos mirar de alto a baixo com ar de inquiridor, disse-nos com ar de cepo:
- Não podem entrar. É reservado.
O Norberto ficou calado, mas eu perguntei-lhe em voz alta:
- O que é isso de reservado?
- É só para clientes e seus acompanhantes.
Levantei mais a voz:
- Mas eu sou cliente. Vim aqui várias vezes antes de ir para a guerra. Andei lá a defender isto, mas agora que vim de lá ferido já não sou cliente, é?
O meu amigo só me dizia deixa lá, deixa lá, vamos a outro lado. Mas eu vi que o porteiro ficara roxo de enrascado e já me falava como lírio do campo.
- O senhor desculpe, mas são as normas. Se conhece alguém...
- Claro que conheço. Conheço o Zeferino do bar e o gerente.
Não conhecia nada o gerente, só de vista e nunca tinha falado com ele. Mas o Zeferino sim, várias horas passara sentado no bar e tínhamos tido conversas. O típico barista confidente de whiskys e gins tónicos.
Pareceu-me que o meu falar alto já tinha chegado lá dentro pois apareceu à porta um tipo de fatinho azul e todo engravatado. Era o gerente, topei-o.
- O que se passa, Romeu?
Está calado Romeu, agora sou eu, pensei. Não o deixei falar.
- Eu e o meu amigo viemos feridos da Guiné, queríamos entrar, mas aqui o senhor Romeu diz que não pode ser. Eu sou alferes da companhia do capitão Braga. Vim aqui várias vezes com ele, lembra-se?
Foi um golpe que eu sabia ser certeiro. O homem ficou sério.
- Ah, o Braga, claro que me lembro. Sei que morreu lá, coitado. 
Não se havia de lembrar, não. E a morte dele custou-lhe muito, sim, sim, também me parecia. Grande sacana é que ele era. Virou-se para o porteiro:
- Romeu, deixa estes senhores entrar.
Conduziu-nos até ao bar.
- Zeferino, serve uma bebida a estes senhores. É por conta da casa. Estejam à vontade.
Afastou-se e nós sentámo-nos. O Zeferino chegou-se e perguntou-nos o que queríamos. Ri-me para ele:
- Ó Zeferino, não me digas que te esqueceste das minhas preferências.
Olhou-me interrogativamente primeiro, mas depois fixou-me, abriu-se num sorriso e estendeu-me a mão.
- Como está, senhor alferes? Então por cá?
- É verdade. Não como eu queria, mas estou cá.
Serviu-me um whisky com gelo e o Norberto também quis um. Falámos que tínhamos sido evacuados, sobre a guerra, da morte do Braga, ele já sabia, perguntei-lhe pela mulher e pelos filhos... Enfim, coisas da nossa normalidade e do costume. Quando os copos estavam a ficar vazios perguntei-lhe:
- Ouve lá, o Braga não deixou aí nenhuma garrafa?
- Não há nenhuma. Se deixou, sabe como estas coisas são, já desapareceu.
- Tá bem, abelha. Então trás uma dimple para aqui que eu pago.
- Pra que é isso, pá? Não vamos beber uma garrafa inteira.
- Claro que não, Norberto. Vou fazer como o Braga. Ele tinha sempre uma garrafa reservada, para quando cá vinha se servir. Esta vai ficar aqui para quando cá voltarmos. É o esquema, pá.
O Zeferino estava a servir dois tipos que se tinham chegado também ao balcão. Virámo-nos os dois para observar a sala. Eu já sabia como era. Um ou dois gajos em cada mesa, e em todas elas uma ou mais mulheres também, bem aconchegadas de vestimentas mas todas com ar de profissionais. Lá está o filho da puta do banqueiro todo enleado com três, pensei. Uma delas olhou para nós, cochichou para as outras e para o banqueiro, viraram-se todas e riram-se. Não reagi, de propósito, porque me palpitou por que se riam. Achei melhor sair dali.
- Há ali uma mesa vazia naquele canto. Não é melhor irmos para ali?
Fomos, ele com o balde do gelo e eu com a garrafa. Quando nos sentámos, dei-lhe um toque com o cotovelo e apontei-lhe com a cabeça a mesa onde estavam as gajas que se riram.
- Aquele engravatadinho com cara de fuinha é banqueiro.
- Como é que ele se chama?
- Não sei. O Braga disse-me o nome dele mas já não me lembro. Passa aqui as noites, e sabes qual é o divertimento dele?
O Norberto encolheu os ombros e abriu as mãos.
- Anda a comer as gajas, não?
- Qual quê, pá. Não vez que o gajo já está com os pés para a cova? Não sei se já fez isso esta noite. Se calhar não, ainda é cedo, e além disso ainda estão poucas na mesa dele. Agarra uma nota de mil na mão e pergunta-lhes: par ou ímpar? Aquela que primeiro adivinhar a terminação do número da nota ganha. Passa-lhe a nota para a mão, os olhos brilham-lhe de felicidade, e é aí que ele se vem, acho eu.
- Filho da puta.
- Dizes bem, também já lhe chamei esse nome. Mas há mais. Nas vésperas de embarcarmos para a Guiné, viemos todos aqui, os alferes e o capitão. Ele é que conhecia este gajo e esteve uma data de tempo a falar com ele, enquanto nós bebíamos ao balcão. Olha, nessa altura mamei quase uma garrafa inteira do Braga. Passados tempos veio ter connosco e disse-nos que o banqueiro, porque íamos para a guerra, tinha pago a cinco gajas para irem connosco - o Norberto ia beberricando o whisky e olhava-me  fixamente com olhos de camaleão - e fomos mesmo. Fomos para uma casa em Queluz, era a casa duma delas, precisamente daquela que olhou há pouco para nós e que pôs as outras a rir, eu bem a topei. Começámos com um jogo a que elas chamaram "tira". Quem perdia tinha de despir uma peça de roupa. Íamos bebendo, jogando, despindo e, passado mais de uma hora, sei lá, já não havia noção de nada,      passados uns tempos ficámos todos nus. Foi a desbunda completa, cada um com a sua pelos quartos que havia e pelos cantos da casa.
O meu amigo olhou-me reprovadoramente:
- É pá, porra, como é que vocês entraram numa merda dessas?
E eu fiquei lixado:
- Não me fodas, pá. O que é que querias que fizéssemos? Que fôssemos a Fátima rezar o terço? Tás maluco, pá. Nós já sabíamos que íamos para o mato e que mulheres era zero. Não íamos ter a sorte que os comandos tinham, uns saltos ao mato e depois era passar o tempo em Bissau para andar atrás das putas. Sim, foram meses no mato e zero, zero, assim - juntei o indicador e o polegar - tás a ver?
Ele fez-me sinal para baixar a voz. Calei-me porque vi que olhavam para nós de outras mesas. O gerente, ao pé de uma delas, estava com cara de poucos amigos. Tive tempo para pensar que tinha feito mal em mandar aquela  dos comandos. Ele tinha sido comando e também viera evacuado.
- Descupa lá, exaltei-me.
Disse-me em voz baixa:
- Eu não estou contra que vocês tivessem ido com elas. É outra coisa. Nós andamos na guerra por causa do banqueiro e outros gajos da laia dele. E dão uns rebuçadinhos, às vezes, só às vezes, que é para nós irmos para lá e estarmos lá todos contentinhos. Foi o que ele vos fez.
Sabia que ele tinha razão. Ainda estive quase a dizer-lhe que uma oportunidade daquelas não se podia perder, apesar disso. Mas não, porque me pareceu que era melhor acabar ali esta conversa.
- Ouve lá. Quando te liguei disseste-me que estavas a pensar falar comigo. O que era?
- Aqui não dá. Isto deve estar cheio de bufos e de pides. Eu levo-te a casa e no carro logo falamos.
Levantámo-nos. Levei a garrafa, entreguei-a ao Zeferino e recomendei-lhe que a guardasse. À saída fiz um aceno de despedida ao gerente. Achei que era bom para o futuro.

4 de janeiro de 2011

33-Os cinemas

Todos nós tivemos os paliativos ou as formas de escolha possível para animar a mente em cada fase da nossa vida, para diluir tristezas, adormecer ideias ou maus pensamentos, esquecer amores ou amarfanhar desejos. Também tivemos ou escolhemos meios para criar alegrias e sonhos, espevitar amores e desejos, intervalar obrigações ou deveres com o esquecimento deles.
Era bom poder fazer isso. Quando não se podia era pior.
No meu tempo da “pirata assada”, as minhas preocupações ou tormentos de criança desapareciam nas salas do Cinema Europa e do Cinema Paris. Que bom que era o “Facho e a Flecha”, o “Pirata Negro”, ou outros do género ou de cóbóis, bater palmas e gritar “vem aí o rapaz!”. Ou aquele dos indianos no “Prestígio Real”, e mesmo um em que tive de usar uns óculos de cartão para ver melhor. As reguadas e castigos da escola, as reprimendas e ralhos em casa, não andava ali nada disso.
Às vezes, com a Maria João, a Maria Emília ou a Zélia, só por tê-las a meu lado, já afagava aí os amores infantis criados no Jardim da Parada ou no Jardim da Estrela.
Depois fui para o seminário e tudo mudou. Nunca mais vi desses filmes que adorava. Ainda nos puseram a ver "Os Dez Mandamentos", mas não era a mesma coisa, não podia gritar, porque o Moisés não se parecia nada com o "rapaz", além de que não tinha a meu lado os meus amigos e amigas dos jardins. Um dia deram o "Sansão e Dalila", mas acabaram-no a meio. Foi quando a Dalila se atirou para cima do Sansão, acenderam as luzes e disseram que não havia mais. Fiquei chateado porque até estava a gostar. 


E agora? O que eram estes cinemas para mim evacuado?
Eram para não ter nada. 
Os que estavam ao meu lado não falavam, e eu também não lhes ligava.
Vi montes de filmes de guerra, de cowboys e policiais, mas os meus ouvidos tapados diziam-me que os tiros eram muito longe.
Além disso, não ouvia G3, kalshnikovs, ppsh, nem rpg2 ou rpg7, nem morteiros nem minas. Não tinham nada a ver comigo.
O inimigo, os índios e os bandidos não eram pretos. Eu não tinha nada a ver com eles.
Por mais que fizessem não provocavam que me atirasse para o chão.
E saí sempre dos cinemas com vontade de encontrar, então, alguma coisa nos bares... ou em casa da Júlia.

2 de janeiro de 2011

32-Os meus tratamentos

Passei todas as segundas, quartas e sextas de manhã no HMP. Foi tira penso e mete penso nas feridas que tinha dos estilhaços, mas o pior era o esgravatar doloroso em que se empenhavam nos meus dois ouvidos, despejando depois para dentro deles umas porcarias que eu não via, mas que pareciam torrentes de água, umas vezes quente outras fria, a penetrar-me por toda a cabeça e pelo pescoço. Saía sempre atordoado e, quando na rua, o ruído dos carros que passavam, e até os meus próprios passos, ribombavam-me na cabeça como trovões. As gazes que enfiavam como estopa nos meus buracos laterais diminuíam os sons, mas incomodavam muito. Um dia, quando descia a Calçada da Estrela, decidi tirá-las. Fiz mal. O 28 da Carris veio por trás com o chiar arrepiante nos carris e as setas perfurantes do tilintar de campainha do guarda-freio, tive de me encostar a uma parede com as mãos nos ouvidos. Uns passantes ainda pararam a olhar, mas o 28 passou e eu pus as gazes, e fui também. Mas nunca mais as tirei.
Era viver fora do contexto. Só as lembranças e os ruídos da Guiné dominavam na minha mente, não penetravam agora nos meus ouvidos tapados, mantinham-se lá desde há muito, agora estavam sempre onde eu estava. Só os factos da minha vida presente é que me pareciam longínquos, com ténues sons que não davam para compreender o que me rodeava, nem quebravam o silêncio da bolanha em que eu estava ainda. Até as discussões lá em casa entre o meu pai e a minha mãe, ou entre a minha irmã e eles os dois, eram uma coisa que não me dizia nada. No hospital, solícitos, não duvido, que o tratamento era para recompor os tímpanos e tudo à volta, e para me proteger das agressões dos sons externos. Mas eu continuava a ouvir o matraquear da G3 que ceifara a professora Abess e a explosão da mina que matara o capitão e desfizera o Domingos Gomes. Aquele tratamento só não dava, senti necessidade de fazer planos para outro.
A Calçada da Patriarcal, a da casa dos meus pais, onde eu aboletava agora, era um sítio estratégico.
Descendo as Escadinhas da Mãe d’Água e a Rua da Alegria, havia logo ali à direita o Ritz Club, na Rua da Glória. Mais abaixo, numa esquina da Praça da Alegria, havia o Maxime, e, se quisesse, logo à esquerda, havia o Cantinho dos Artistas à entrada do Parque Mayer. Podia descer a Avenida até à Taverna Imperial, nos Restauradores, ou ir ao Comodoro, ao pé do D. Maria.
Se fosse por cima, pelo Príncipe Real, também tinha hipóteses. Depois de S. Pedro de Alcântara tinha o Lua Nova, na Travessa da Queimada, ao pé da Misericórdia. Podia também ir à Trindade, logo a seguir, mas não, esse não era sítio para este meu tratamento. O Bar D. Quixote, que ficava também por ali, perto do Largo do Carmo, esse é que sim, convinha-me, era agradável e tinha boa frequência. Idêntica à dos outros sítios, aliás.
Havia outros, mas estes eram os sítios que eu já conhecia, por eles tinha passado com os meus camaradas alferes e o capitão antes de embarcarmos na Ana Mafalda. As minhas vivências lá, os sons deles, os conhecimentos, o que gostei, tudo coabitava dentro de mim com as lembranças da Guiné. Era bom para o tratamento.
Mas um problema se levantava. Eram locais para altas horas da noite e madrugadas. Que fazer até lá? Também achei solução. Na Avenida havia logo à esquerda o cinema S. Jorge. Mais abaixo tinha o Condes, o Odeon e o Olímpia na Rua dos Condes, e o Politeama nas Portas de Santo Antão.
Estava gizado o plano de tratamento: cinemas à tarde e à noite, a seguir bares.
Cumpri-o durante meses. Segundas, quartas e sextas de manhã no hospital, tinha de ser. À tarde, sessão das 15H00 num cinema, sessão das 18H00 noutro e sessão das 21H00 noutro ainda. À noite e madrugada bares, uma vez num outra vez noutro. Foi assim quase todos os dias durante meses. O ordenado de alferes dava, nunca juntei dinheiro. Mas fez-me bem, gostei deste tratamento.

31 de dezembro de 2010

31-O primeiro amor de evacuado

http://www.youtube.com/watch?v=xF4hMVhN38A

Nessa noite fomos ao Timpanas. Deu-nos as saudades dos nossos fados. Eu sabia que o Norberto era grande amante, lembrava-me bem das vezes em que, em plena caserna 3, nos massacrava até altas horas da noite, só se calando quando os mais dorminhocos se chateavam e armavam zaragata.



Ainda opinei que fôssemos ao Bairro Alto, a mim dava-me mais jeito por ser perto da casa dos meus pais. Mas que não, disse ele, era muito mais caro e ali no Timpanas é que era melhor, era o fado mais legítimo. Tá bem, acedi, porque, embora gostasse de fado, não era nenhum perito nas legitimidades dele.
Lá fomos no seu 2 cavalos até à Rua Gilberto Rola, junto às Docas de Alcântara. Não me lembro bem como era, já lá vão  muitos anos e montes de coisas passaram, mas sei é que a entrada não era assim com todas essas luzes que vêem na fotografia. Entrámos para uma sala não muito ampla com várias mesas de madeira quadradas, estava tudo à média luz, menos dois guitarristas e um fadista que cantava em cima de um estrado que estava a um canto. Vimos uma mesa vazia à esquerda e sentámo-nos.
As mesas estavam quase todas ocupadas por casais ou por homens comuns, na mesa ao nosso lado, nem tínhamos reparado antes, estavam duas mulheres jovens, uma loira e outra morena. Reparámos agora, comiam uns jaquinzinhos fritos e bebiam de uma caneca de vinho tinto e riam-se. O empregado chegou-se e pedimos o mesmo. O homem em cima do estrado cantava a "Júlia Florista" no meio do silêncio geral. O Norberto estava intrigado com o riso das vizinhas.
- O homem até nem canta mal.
Percebi o que o Norberto disse ao pé de mim, mas pareceu-me ouvir a loura a responder lá longe.
- Não estamos a rir dele. É que a minha amiga chama-se Júlia e achámos piada.
- E não me diga que também é florista - fui eu agora a rir-me.
Várias caras nas mesas se viraram para mim com ar reprovador e o Norberto deu-me uma cotovelada.
- Não fales tão alto, pá.
Fiquei vermelho, com certeza, de envergonhado. Na mesa ao lado a Júlia ficou séria e a loira deixou de sorrir também. Olhei para as raparigas e ganhei coragem para dizer, procurando que fosse em voz baixa:
- Peço desculpa por ter falado alto. Nós viemos há poucos dias da Guiné, viemos feridos. Estas gazes que tenho enfiadas nos ouvidos é que me fazem falar alto. Houve uma mina que deu cabo deles.
Olharam-nos com espanto e interesse. Estava para continuar, mas o meu amigo aproveitou-se. Era mesmo dele.
- Se calhar, é melhor nós irmos para a vossa mesa, senão ele continua a falar alto e ainda nos expulsam daqui.
Acederam e abancámos na mesa delas. Eu em frente da Júlia e ele em frente da loira. Que se apresentou, era a Gisela.
Olhei para a Júlia e gostei dela. Lábios carnudos, olhos castanhos, cabelo preto liso, um sorriso que me encantou. Contei como foi a história da mina e outras coisas, sempre a olhar para ela, via-a fascinada. O Norberto ia contando as dele também, com olhos grandes e expressivos.
Depois de vários fados, umas tantas canecas de vinho e travessas de janquinzinhos, muitas perguntas e sorrisos e olhares, fez-se tarde.
- Amanhã logo de manhã tenho de estar no hospital. Tenho de me ir embora. Queres boleia?
- Eu não vou ainda, Norberto. Só tenho tratamento depois de amanhã. Vou ficar mais um bocado.
- Eu vou também, – disse a Gizela – não queres vir, Júlia?
- Não, ainda não. Amanhã falo-te.
Saíram os dois e nós ficámos. Houve olhos baixos, copos e cigarros a disfarçar, monossílabos, umas miradas forçadas para o artista que cantava. Estamos a encenar, pensei, não pode ser.
- Isto é muito diferente do que tem sido a nossa vida na Guiné. O ambiente, este convívio, foi-nos tirado. Regressar a isto é uma coisa maravilhosa. É o bom que faz esquecer o mau que lá passámos. Estar aqui consigo é como regressar ao céu depois de passar pelo inferno. Sobretudo porque não há ninguém que queira o inferno, não é?, quando fomos condenados não sei porquê.
- Eu sei. Tive alguns colegas em Letras que tiveram de ir para a guerra, sem mais nem menos. Sei o que eles sentiram.
Foi uma aberta para nova conversa. Ainda não nos tinham dito o que faziam. Foi novidade saber que ela estava na Faculdade de Letras. Mas foi óptimo, disse-lhe que também tinha sido de lá tirado há dois anos, estava em Românicas, ela disse-me que estava também em Românicas mas só há um ano. Falámos do Padre Manuel Antunes da Cultura Clássica, do Lindley Cintra… Sentimo-nos chegados. Já não quisemos nem mais carapauzinhos nem fado.
- Eu sou de Évora, mas vim estudar para Lisboa.
Maravilha! Mais chegados ainda ficámos, falámos do Alentejo, ela de Évora e eu do meu Penedo Gordo da minha meninice e de Beja. Os pais dela eram ricos, segundo percebi, os meus eram pobres, pensei. Mas não fez mal nenhum no final de tudo.
- Olhe, isto aqui já deu o que tinha a dar. Eu vou apanhar um táxi e, se quiser, levo-a a sua casa.
- Estou numa casa que os meus pais têm em Campolide, ao pé da Valenciana. Não é longe para si?
- Não é nada longe, sei bem onde é. Vamos lá que os seus pais já devem estar preocupados.
- Não. Eles só vão lá às vezes, quando o meu pai tem de vir a Lisboa. Vivo lá sozinha.
Tocaram-me uns sininhos, o coração saltou, e não só.
Levei-a a casa e fiquei lá essa noite. Houve explosões, mas não de minas, foram as granadas que eu tinha dentro de mim e que descavilhei. Não houve guerra, só paz. 


28 de dezembro de 2010

30-Uma noite, somente, no HMP

Encontrei lá o meu amigo Norberto. Fora meu colega no 2º pelotão do COM de Mafra. Magro, louro, olhos azuis grandes, era um aventureiro, uma máquina em todos os exercícios. Mas foi sempre um bom companheiro, diferente de outros que lá andavam a armar-se em bons e achavam, por isso, ser superiores. Eu sabia que ele, depois da especialidade de atirador, tinha sido mandado para os comandos, e nunca mais soubera dele. Foi um grande abraço. Perguntei-lhe:
- O que é que andas aqui a fazer?
- Ando em tratamento.
- A quê?
- Tenho hemofilia.
Fiquei banzado. Como era possível um tipo hemofílico ser enviado para os comandos!? Mesmo para a guerra. Mas para os comandos ainda por cima... Então não tinham visto isso antes?
- Parece que não te lembras como era aquilo em Mafra. Além da injecção cavalar, que diziam dar para todos os males, não se preocupavam em saber mais nada. Menos, é claro, em ver aqueles que tinham cunhas para ir para os serviços auxiliares.
- É verdade, eu sei bem. Deves lembrar-te que desde o início sabíamos que o nosso curso estava destinado para uma fornada de atiradores. Até pensei que ia gozar com os gajos dos psicotécnicos quando me puseram um papel à frente e me disseram par escolher a especialidade. Pus lá que queria ser atirador mas eles é que se riram de mim. Mas diz lá, então, como é que descobriram isso.
- Eu estava na 3ª Companhia de Comandos na Guiné e…
A conversa derivou, é claro. Disse-lhe que tinha chegado de lá na véspera, ferido por uma mina. Contei-lhe coisas, por onde andara, como tinha sido ferido, operações em que participara, o normal destas conversas. Ele também me contou das dele e acabou por me dizer que, numa operaçãozeca, segundo ele, na zona do Cantanhês, tinha levado um tiro numa perna e que, sorte, o enfermeiro tinha visto que o sangue não estancava, pelo que pediram logo um heli para o levar para Bissau. Tinha sido evacuado para Lisboa há uma semana.
- Vais ficar aqui?, perguntou-me.
- Tem que ser, não é?
- Pelo teu aspecto, pelo teu tipo de ferimentos, até te mexes bem, parece-me que não tem que ser. Tens cá família?
- Tenho os meus pais, moram em Lisboa.
- Então faz como eu. Quando cá cheguei disse-lhes que tinha família na Amadora e eles deixaram-me ir para casa deles. Só venho cá aos tratamentos. E já me disseram que não vão durar muito, porque isto não tem cura, que qualquer dia vou a uma junta médica e que me mandam embora. E até te agradecem, porque precisam de camas para casos mais graves e para gajos que são da província.
Fiquei encantado com a ideia e ele foi comigo aos serviços administrativos. Ficou assente que podia ir para casa dos meus pais e que devia estar no hospital todas as segundas, quartas e sextas, às nove horas, para tratamentos.
Foi o Norberto que me levou, a mim e a mais nada, que era o que eu tinha, no seu citroen 2 cavalos até à porta da casa dos meus pais, na Calçada da Patriarcal. Despediu-se e disse-me:
- Está aqui o meu telefone. Logo à noite, depois de jantar, dá-me um toque para combinarmos ir dar uma volta por aí.
- Claro, vamos lá. Estou com falta disso.

23 de dezembro de 2010

29-Como fui evacuado

A partir de 17 de Abril de 1967, data em que cheguei a Geba, participei nas seguintes operações: 

Imberbe, em 10MAI67, 
Janota, em 20 e 21MAI67, 
Jaguar, em 03JUN67, 
Inquietar I, em 9 a 13JUN67, 
Jigajoga, em 24JUN67,
Inquietar II, em 04 a 07JUL67, 
Jagudi, em 15 e 16JUL67, 
Jaguar, a 22JUL67, 
Ignora, a 25JUL67,
Ímpeto 2, a 07AGO67

Além disso, fiz vários patrulhamentos na zona com o meu Grupo de Combate e várias colunas de abastecimentos aos destacamentos da companhia, para Banjara,  Cantacunda e Camamudo. Eram as missões que me foram atribuídas, outros dois alferes estavam nos destacamentos e o outro era o segundo comandante da companhia. Em Camamudo era um furriel que comandava.

Mas, a 21AGO67, fui ferido por uma mina no caminho de SARE BANDA para BANJARA (A mina da minha vida). Estive uma semana no Hospital de Bissau (HM241) e daí saí para a Base Aérea para ser evacuado para a Metrópole.  Foi num dakota C47.
Não foi neste, é claro. Sem asas não voava...
Fui só com as calças e uma camisa, Foram também outros feridos que entraram no avião. Os bancos que vêem na gravura foram ocupados por uma senhoras, não sei quem eram, nós os feridos, uns cinco ou seis, fomos esticados numas macas no corredor. Ainda disse que não estava assim tão mal e que podia ir numa cadeira. Mas que não, que devia ir numa maca. Lá fui, e quando o avião já estava alto comecei a deitar sangue pelos ouvidos (era o meu ferimento principal), por causa da descompressão. Ninguém ligou mas eu tratei de mim.
Ao fim de cinco ou seis horas, não sei bem, chegámos ao aeroporto militar de Las Palmas, disseram-nos. Que quem quisesse podia sair para descontrair. Saí e estava cheio de fome, não nos tinham dado nada para comer, nem as "queridas" rações de combate. Vi vários militares e olhei para uma porta que me pareceu a entrada de um bar. Fui até lá e entrei.
Olharam para mim, mas ninguém pareceu espantado, já deviam estar habituados a estas visitas. Pedi uma cerveja e uma sandes. Devorei-as, era a fome. No fim fiquei atrapalhado porque vi que não tinha dinheiro. Nem escudos, nem pesos, muito menos pesetas. Baixei a cabeça e fui-me afastando do balcão até à porta. Ninguém olhou para mim, pareceram-me distraídos. Zarpei para o dakota e estiquei-me na minha maca. Passados tempos o avião arrancou até Lisboa. Ainda agora não sei se fui eu que fui esperto ou se foram eles que me deixaram ir sem me agarrarem para pagar.
Depois de quatro ou cinco, ou cinco ou seis horas, não sei, chegámos ao Figo Maduro. Estava lá os meus pais e a minha irmã, tinham-lhes dito que eu fora ferido e vinha. Choraram e ficaram contentes por me ver de pé. Foi pouco tempo, porque me meteram numa ambulância para ir para a Estrela, o HMP.