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23 de janeiro de 2011

43-Encontro no "Cova Funda"- "A case study"

No dia 21 pp à noite, juntaram-se os alferes sobreviventes da CART1690 no Restaurante "Cova Funda", lá para os lados da Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa. Foi mais um dos encontros que já fazemos há mais de 30 anos. Foram os que partiram para a Guiné integrados na companhia. Da esquerda para a direita, na foto abaixo: o Domingos Maçarico, ferido gravemente em combate e evacuado para o HMP, e que  nunca mais regressou à Guiné, sendo substituído pelo Lourenço; a seguir sou eu, também ferido em combate e evacuado para o HMP, mas que regressei à Guiné, embora para outra companhia, fui substituído pelo Fernandes, que morreu em combate, por sua vez substituído pelo Peixoto, também morto em combate; depois, em frente, o António Moreira, que nunca abandonou a companhia; e, ao lado dele, o Alfredo Reis, também ferido em combate, tendo estado algum tempo no HM241, em Bissau, e regressado depois à companhia.
O Lourenço, o substituto do Maçarico, nunca compareceu nestes nossos encontros, nem nos encontros da companhia. Até nestes somos só nós que comparecemos, como ex-alferes.
Já temos falado entre nós sobre esta situação, temo-nos interrogado sobre o factor que tem sido o aglutinador desta nossa longa ligação. Tanto mais que somos muito diferentes politicamente e, até, socialmente em certos aspectos. Somos "a case study", como já nos disseram.
Os meses que passámos em conjunto na preparação da companhia para a guerra, os intervalos para desopilanços por bares e outros antros vividos também em conjunto, foram um elemento cimentador de uma camaradagem sem desgostos.
Já na Guiné, e com a companhia dividida na mata do Oio
houve algumas dificuldades, concordamos, fruto da separação e porque a actuação individualizada teve de prevalecer. Houve alguns desencontros, é verdade, mas também o reconhecimento da dureza do papel que a que cada um era dado. Os desencontros não chegaram para quebrar a amizade que se tinha cimentado.
Mas, depois da guerra, com as opções de vida de cada um, e as vivências individuais de todos os fenómenos que nos cercam, tinha de haver alguém que mantivesse os liames que unem. E reconhecemos entre nós que o António Moreira tem tido esse papel desde o princípio. 
Falámos destas coisas. Mas também falámos das presidenciais. E, já agora, só um é que se mostrou pelo Cavaco (não digo quem foi, só digo que não fui eu).




20 de janeiro de 2011

42-Amílcar Cabral foi assassinado há 38 anos





Pessoalmente não tenho dúvidas que toda a trama que levou ao assassinato de Amílcar Cabral foi montada pela PIDE, como não duvido que o General Spinola esteve sempre a par dela. Ele era unha com carne com o Fragoso Allas, responsável da PIDE na Guiné na altura (até constando que foi esta amizade que fez com que os pides fossem libertados após o 25 de Abril…).
Foto : Arquivo Mário Pinto de Andrade/Fundação Mário Soares
Dalila Cabrita Mateus mais me convenceu desta minha ideia. Mostro algumas coisas mas é fundamentalmente o que ela diz no seu livro que aqui trago.


Dalila Cabrita Mateus diz em “A PIDE/DGS na Guerra Colonial, 1961-1974” que «O assassínio de dirigentes foi um tipo de operações levado a cabo pela PIDE/DGS. No entanto, constituía um assunto delicado». E refere que o elemento dessa polícia incumbido de dar andamento ao plano para a liquidação de Amílcar Cabral escreveu à margem do processo: «Comuniquei particularmente ao chefe da Delegação que este assunto não pode ser objecto de correspondência oficial. Ou não se dizem ou não se fazem». Refere, por isso, que não é possível encontrar relatórios da PIDE sobre a liquidação de Amílcar Cabral, até porque, citando José Pedro Castanheira, in “Quem mandou Matar Amílcar Cabral”, o inspector adjunto Alberto Matos Rodrigues recomendou que «Em trabalhos desses, não se deixam provas».
E houve vários planos, assevera esta investigadora dos Arquivos da PIDE existentes na Torre do Tombo.
O primeiro terá sido em 1967, o do inspector Miguel António Cardoso, então chefe da delegação da PIDE na Guiné, que mandou vir de Conacri um antigo combatente para que, conhecedor dos locais por onde Cabral costumava passar nessa cidade, o matasse a tiro ou com granadas apreendidas aos guerrilheiros. Só que, azar, esse homem foi preso pela tropa portuguesa e deixou de valer. Mandou vir de Conacri mais dois elementos para o mesmo objectivo, mas, entretanto, foi substituído. O novo chefe da delegação achou que um deles era bêbedo e que o outro não tinha estofo e a operação foi abandonada.
Em 1969 houve outra tentativa, esta planeada pela Aginter Press, uma encapotada agência de informações sedeada em Portugal mas que, efectivamente, se dedicava ao recrutamento de mercenários. Tinha ligações com a PIDE e com a Legião Portuguesa desde 1966. Teve a colaboração da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Casa de Portugal em Paris, e participavam um diplomata senegalês, oposicionistas a Sékou Touré e elementos da FLING. O orçamento era superior a quatro mil contos, e o prémio em caso de êxito mil contos. Foi a Operação Chèvre. Se não deu ou não foi avante, a investigadora não precisa.
Veio, depois, a Operação Mar Verde, em Novembro de 1970, planeada e comandada por Alpoim Calvão, com o apoio de Spínola e de Marcelo Caetano. No livro de António Luís Marinho, “Operação Mar Verde, Um Documento para a História”, vêm as missões atribuídas a cada um dos grupos participantes na operação. Por exemplo, uma das do comandante Benjamim Lopes de Abreu era “a eliminação física do Presidente da República da Guiné Ahmed Sékou Touré” (documento 11). A ninguém foi explicitamente atribuída a missão da “eliminação física de Amílcar Cabral”. No entanto, ao 1º Ten. FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva tinha como missão: “Ataque e destruição de elementos e instalações do PAIGC em Conacry II: …41-Secretariado e habitação de Amílcar Cabral; 42-Casa de Aristides Pereira e Propaganda”. E diz ele, no seu relatório, que “decidi atacar primeiro e rapidamente os objectivos considerados de primeira importância: 41 e 42…”. Não é, pois, credível que a eliminação de Amílcar Cabral não fosse também um dos objectivos. Dalila Mateus narra que foi lançada sobre a casa de Amílcar Cabral uma chuva de obuses, tendo um deles acertado em cheio no quarto ao lado daquele onde dormia a mulher de Cabral, que teve de sair com os filhos pelas traseiras da casa. Numa casa ao lado ficaram gravemente feridos um casal jugoslavo e uma filha, uma outra filha deles morreu com um estilhaço na cabeça. E refere que Alpoim Calvão disse ao Público de 21 de Maio de 1991 que se Cabral estivesse em Conacri teria sido seguramente eliminado.
Em 1971 foi a delegação da PIDE em Cabo Verde que mobilizou mil contos para contratar um cabo-verdiano residente em Monróvia, na Libéria, e com anteriores ligações a Cabral e Agostinho Neto. Era para, com mais seis indivíduos, assassinar Amílcar Cabral e destruir um depósito de material de guerra em Conacri. Não resultou.
Mas a PIDE andava também atenta às divisões dentro do PAIGC.
Em Junho de 1967 teriam armadilhado a casa de Cabral em Koundaré e teriam sido enviadas cartas para Catió, Cabedu, Farim, Mansoa e Bula com o intuito de não serem acatadas as ordens de Amílcar Cabral. Os conjurados foram presos e fuzilados. E a PIDE afirma ter ouvido, na altura, que Nino Vieira encarou com simpatia “o movimento conspirativo do Boé”. Também em Setembro desse ano parece ter havido um atentado contra o Secretário-geral do PAIGC. Foi também o ano, constou em Dezembro, do descontentamento dos mandingas pelas baixas sofridas em combate e pelo facto de os cabo-verdeanos serem poucos a combater.
Em Janeiro de 1968 foi assinalado novo movimento de revolta e, nesse ano, as notícias das divisões no PAIGC levaram a PIDE a tomar nota e, como consta numa das pastas dos Arquivos da PIDE, “Em face desta notícia foi considerado superiormente que se devia procurar, por todos os meios, se necessário mesmo financeiros, explorar estas divergências”.
Em Março de 1972 é o próprio Cabral que apresenta um plano, segundo ele de Spínola e dos colonialistas portugueses, com o objectivo de decapitar a direcção do PAIGC. Primeiramente com a infiltração de antigos e novos membros do Partido para gerarem a divisão na base do racismo, tribalismo, diferenças de religião e virando guineenses contra cabo-verdianos. Após isso seria a criação de uma direcção paralela para entrar em contacto com os dirigentes dos países vizinhos tentando obter o seu apoio contra a verdadeira direcção, particularmente contra o Secretário-geral. A fase seguinte seria: o assassinato do Secretário-geral e todos os dirigentes fiéis à linha do partido; mudança da designação do partido e paragem da luta; e, finalmente, entrar em contacto com o governo português para obterem a autonomia interna e a criação do “Estado da Guiné” fazendo parte da comunidade portuguesa. Spínola teria prometido postos importantes aos executantes deste plano. E não há dúvidas que eram os princípios defendidos por António de Spínola.
E foi no dia 20 de Janeiro de 1973, às 23 horas que um grupo chefiado por Inocêncio Cani prendeu Cabral e a mulher. Face à resistência deste Cani atingiu-o com um tiro no fígado, tendo depois ordenado a um seu acompanhante que lhe desse uma rajada, que o atingiu na cabeça e o matou. Um grupo chefiado por Mamadu N’Djai prendeu Aristides Pereira, meteu-o numa vedeta do PAIGC e rumou para Bissau. Um outro grupo, chefiado por João Tomás Cabral, assalta a prisão do PAIGC e liberta Mário Mamadou Touré e Aristides Barbosa, que eram os cabecilhas do golpe.
Foram cerca de uma centena os golpistas. Depois de tomarem conta das instalações do partido e terem prendido cabo-verdianos e mestiços guineenses, foram recebidos por Sékou Touré na madrugada seguinte, mas o presidente da Guiné não lhes deu cobertura mandou-os prender, deu ordens ao exército que submetesse o PAIGC e pediu a navios soviéticos que estavam nas suas águas que recuperassem a vedeta onde ia Aristides Pereira, o que aconteceu.
A maioria não tinha ligações à PIDE, nem o Inocêncio Cani, tendo sido arrastados pelo descontentamento contra a direcção do partido e contra os cabo-verdianos. Mas alguns dos principais conjurados tinham:
- Mário Mamadou Touré (conhecido por Momu) era um antigo preso do Tarrafal; o chefe da delegação da PIDE na Guiné Alberto Matos Rodrigues arranjou-lhe emprego e protegeu-o, afirmando mesmo que esta “Foi uma operação planeada e meteram-no lá” (diz José Pedro Castanheira, na obra atrás referida);
- Aristides Barbosa confessou que, após sair do Tarrafal, foi contactado por um agente da polícia de nome Gonçalves (na altura, havia na Guiné vários agentes de apelido Gonçalves) para trabalhar para a PIDE e que aceitou, pedindo “uma licença para táxi”; disse também que foi recebido por Spínola antes de sair de Bissau;
- João Tomás Cabral, que tinha sido comissário político, tinha correspondência com um informador de Pirada e com o elemento da PIDE em Buruntuma, o agente de 1ª classe Orlindo Martins Jorge Vicente; a sua acção era mentalizar os combatentes para que entregassem as armas porque o PAIGC não conseguiria ganhar a guerra;
- Valentino Cabral Mangana, comandante de Marinha (como Inocêncio Cani), propagandeava que Portugal daria a independência aos negros da Guiné desde que o PAIGC fosse extinto e os cabo-verdianos afastados, pois queria conservar Cabo Verde como uma base de grande importância estratégica para si e os seus aliados.
Claro que houve uma conspiração no interior do PAIGC para pôr termo à hegemonia dos cabo-verdianos. Mas é também evidente que a PIDE teve um papel importante na instigação do golpe. E não actuava à rédea solta. Não me parece que Alpoim Calvão tenha razão quando diz, no seu livro “De Conakry ao M.D.L.P.”, “…a verdade é que não havia a mínima lógica para que as autoridades portuguesas desejassem, em 1973, o assassinato de Amílcar Cabral”. E traz em defesa desta ideia as negociações segundo ele planeadas entre Spínola e Amílcar Cabral para a resolução política da situação na Guiné. Mas esquece-se de dizer que Marcelo Caetano já dissera a Spínola – é o próprio Marcelo que o refere nas suas Memórias – que negociar na Guiné nem pensar, antes a derrota militar. E conta Otelo Saraiva de Carvalho, em “Alvorada em Abril”, que o inspector Fragoso Allas lhe terá dito que “os tipos tinham ido longe demais, porque a missão era só raptar e conseguir trazer Amílcar Cabral para Bissau como refém”. 
É claro, então, que foi resultado de uma missão da PIDE. Não condiz o "era só raptar" com as declarações acima citadas do Ten. FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva, quando este diz que, na operação Mar Verde, decidiu a destruição do "Secretariado e habitação de Amílcar Cabral", bem como com Alpoim Calvão, que disse que Amílcar Cabral seria eliminado se estivesse em Conacri na altura da invasão.
Como se vê,  a eliminação dos líderes dos movimentos de libertação foi um objectivo desde sempre. Relativamente a Amílcar Cabral também o era em 1970. 
Já não era em Janeiro de 1973, como disse o Allas a Otelo? Tenho dúvidas.

19 de janeiro de 2011

41-A conspiração estava em marcha

Reuni-os, camaradas, para lhes dar conhecimento de um documento revelador, que o nosso serviço se segurança conseguiu apanhar. (...) Estas cinco páginas – continuou Cabral – contêm o programa, digamos mesmo, um programa detalhado de acções subsersivas contra o nosso Partido. Não se fala aqui em nomes de ninguém – Cabral sorriu – excepto no meu e nas datas concretas de realização das sabotagens. São expostos os princípios gerais e os objectivos deste trabalho sabotador. Vou ler-vos as passagens mais interessantes. Este plano – Cabral mostrou-o, agitando as folhas – tem o nome de “Instrução 42/71 – DGS”, e consta de três fases : (...).
Quando os participantes nesta reunião se separaram, na sala ficaram apenas Amílcar Cabral, Aristides Pereira e dois camaradas do serviço da segurança do PAIGC. Chamar-lhes-emos camarada M e camarada N.
“Camarada Amílcar – dirigiu-se o camarada M ao Secretário-Geral – o material que nós reunimos é suficiente para a prisão imediata, tanto do Momo como do Aristides Barbosa.” Cabral fez uma careta dolorosa como se tivesse uma dor de dentes. “Ouçam amigos, já há quase duas semanas que tentam convencer-me da necessidade de prendermos Momo e Barbosa. Lembrem-se que será uma medida extrema e se nos enganarmos isso pode reflectir-se desfavoravelmemte no nosso Partido. Um deles foi membro do Comité Central e ambos passaram mais de sete anos no campo de concentração (de Tarrafal, em Cabo-Verde - nota do autor). Antes de me pedirem para sancionar a prisão, verifiquem cem vezes, considerem mil vezes.” – “Camarada Amílcar! Nós, não somente considerámos e analisámos, como temos dados incontestáveis da ligação destes elementos com a PIDE, quer dizer com a DGS, como agora lhe chamam.” Não podemos considerar as resmunguices de Barbosa e as suas conversinhas com os alunos do internato ou a conduta de Mamadú Turé durante as suas deslocações aos países amigos, como provas incontestáveis da sua culpa. Que há além disso? Nada, e espero que não haja.” – O  camarada M olhou para o seu colega e este abanou a cabeça. – “Nós temos outras provas, camarada Amílcar, além das que várias vezes apresentámos. – Aqui estão elas.” – E tirou da algibeira um envelope pequeno. – “Que é isto?” – perguntou Amílcar. – “ O camarada pode, certamente, censurar-nos pelo abuso de poder, mas não tínhamos outra saída. Ontem fizemos uma busca secreta ao quarto onde vive Mamadu Turé e sua mulher. Encontrámos o envelope debaixo duma mala de viagem pertencente ao Momo. Se ler, convencer-se-á que estas notas não são mais do que o resumo da instrução 42/71 – DGS, feito pela mão de Momo. Nós conhecemos bem a sua letra.” – “Não pode ser!” – exclamou Cabral, segurando as pequenas folhas tiradas, certamente, de um bloco notas. – “Esperem, fomos nós próprios que lhe demos como tarefa de descrever o ambiente na PIDE, e a maneira como viviam os presos no campo de concentração do Tarrafal. Talvez isso sejam alguns dados para a preparação do trabalho?” – O camarada M suspirou desoladamente. – “Compreendo que o camarada Amílcar procure sempre no homem as melhores qualidades, mas nós não temos dúvidas, Momo e Aristides Barbosa são cem por cento agentes portugueses. As folhas são a última prova. Não são de um discurso, mas sim de um resumo. Veja bem estes sinais aqui em cima, estes números. Está escrito 42/72, por isso procuramos obter autorização para a prisão de Momo e de Aristides.” – “Bem, - pronunciou devagar – podem agir. Deixem de momento todas as outras tarefas, levem-nos para a “Montanha” e ocupem-se de esclarecer e investigar rapidamente o caso.”(...)
Ignatiev, Oleg , Três Tiros da Pide, Prelo Editora, Lisboa, 1975.

40-Reunião do Conselho Superior de Luta do PAIGC

Inocêncio Cani, na Academia da Marinha da ex-URSS
A reunião do Conselho Superior da Luta do PAIGC estava no auge. Na sua ordem de dia figurava uma única questão, mas bastante desagradável a abordar. Trarava-se de apreciar o não cumprimento de ordens e a indisciplina de alguns membros do Partido, três dos quais pertenciam ao Conselho Superior da Luta (CSL). Amílcar Cabral fazia uma intervenção em que dizia : “ Quero informá-los de factos lamentáveis que aconteceram no nosso trabalho. Alguns camaradas, enviados para cumprir  o seu serviço na marinha, ignoram na realidade as resoluções do Partido e não cumpriram a missão que lhes fora confiada. Um deles, Inácio Soares da Gama era membro do CSL, o outro, Inocêncio Cani, está aqui presente. (...).” Ao terminar, Amílcar Cabral sentou-se e debruçou-se sobre os papéis que tinha na sua frente, depois levantando a cabeça notou o olhar de José Pereira.
- “ O camarada Pereira quer dizer alguma coisa? Fala Zé!”
José Pereira levantou-se, arranjou o cinto e veio para o meio da sala. José Pereira gagueja sempre um bocadinho, mas neste momento, por estar excitado gaguejava mais que habitualmente.
- “O camarada Secretário-Geral (...) disse a verdade sobre as relações entre as pessoas, sobre a necessidade de criticar e auxiliar todos aqueles que cometem erros. Mas não estou de acordo de proceder desta maneira quando se trata de pessoas como Inácio Soares da Gama e Inocêncio Cani. Não é a primeira vez que ambos são criticados numa reunião da direcção do Partido. Lembrem-se que em 1968 a direcção retirou o  Inácio da região de Quitáfine por ele não querer ouvir os conselhos do Comissário Político. O Comissário era na altura o camarada Pascoal Alves aqui presnte. O que aconteceu então ao Inácio Soares da Gama? Enviaram-no para o estrangeiro tirar um curso de marinha. Achámos que era necessário e conveniente enviá-lo por dois anos. Tornou-se especialista. E qual foi o benefício que o Partido recebeu com isso, se como disse o camarada Secretário-Geral, praticamente ele desertou da nossa armada? E Inocêncio Cani? Recebeu um posto importante depois de terminar o curso. Comandou os nossos barcos de guerra, devia ensinar e educar os nossos marinheiros, mas não justificou a nossa confiança. Tivemos de lhe retirar o cargo o ano passado. Bem, talvez ele nessa altura se tivesse enganado. Mas agora, passado ano e meio, foi necessário mais uma vez debruçar-nos sobre a conduta de Inocêncio Cani. Que comandante é este, que se comporta grosseiramente com os seus subalternos? Como pode ele ser membro do Comité Executivo da Luta? Também não podemos esquecer o motivo pelo qual Cani foi afastado em 1968, do seu lugar de comandante duma das regiões do norte do país. O Presidente dos Comités partidários das tabancas dessa região queixou-se então da sua conduta grosseira. Inocêncio é uma nódoa no nosso Partido, no nosso Exército e a meu ver ele continua na mesma linha. Se não tomarmos medidas severas isto pode acabar muito mal. Eu sou pela expulsão do camarada Inocêncio Cani do CSL.” Zé terminou e sentou-se na cadeira agarrando-se aos joelhos. Sentado ao lado, Constantino dos Santos Teixeira bateu-lhe no ombro, dizendo : “Bravo Zé, é assim mesmo.”
Ignatiev, Oleg , Três Tiros da Pide, Prelo Editora, Lisboa, 1975.

17 de janeiro de 2011

39-Novamente no mato

Apresentei-me na Repartição de Pessoal do QG de Bissau. Disse-me o capitão que lá estava, não sei o nome, nem quis saber:
- Você vai ser colocado na CCAÇ3 que está em Barro, ao pé do Senegal. É uma companhia do recrutamento da Província.
Abri a boca de espanto.
- Mas, meu capitão, eu vim do hospital da Estrela. Não estou em condições de ir para uma companhia operacional.
- É pá, o chefe da Repartição decidiu assim. Há um alferes de lá que teve de ir para o hospital e tem de ser substituído urgentemente. Tem de ser.
- Mas eu estou à rasca dos ouvidos. Como é que vai ser?
- Paciência, nosso alferes. Amanhã, logo de manhã, sai uma DO para levar os frescos e o correio e você vai nela. O capitão de lá já sabe.
Estava feito. Que fazer? Nada, não pude fazer nada. Apenas ficar furioso e desforrar-me nuns whiskys no bar de oficiais.
Na manhã seguinte lá parti nesta do-27, que acabei por ver outras vezes, quando ela aparecia lá em Barro.


Vi, pela primeira vez, a paisagem aérea da Guiné. Quando o piloto me disse que sobrevoávamos o rio Cacheu perto de Barro tirei umas fotografias. 


Nunca tinha visto nada assim. O rio pequenino a serpentear com as bolanhas largas por companhia, a imagem longínqua das matas cerradas, eram uma sensação de maravilha e admiração pela natureza, incutiu-me um sentimento de sossego e paz, e também de domínio. Diferente das emoções que já sentira lá em baixo, ao virar apreensivo as curvas do rio Geba, ao atravessar receoso o rio Gambiel, ao calcorrear as matas à volta de Sinchã Jobel e do Oio. Ao ver e sentir a morte.
- Estamos a chegar.
O piloto avisou-me. Estava ali a pista.


Deu mais umas voltas para apontar a aterragem. Este é o quartel, disse-me ele.


Esta fotografia deu-me alguns problemas mais tarde. Quando o rolo veio da Foto Iris já revelado, o capitão Olavo quis confiscá-la, porque era perigosa se caísse nas mãos do IN. Deu-me para rir. Perguntei-lhe se ele achava que eu, que tinha sido ferido e quase morrido por acção do IN, estava feito com ele. Não sei se o convenci ou se lhe prevaleceu o bom senso. Garanti-lhe que era uma recordação minha que ia ficar guardada dentro da mala debaixo da minha cama.

14 de janeiro de 2011

38-Novamente para a Guiné

Passados oito meses, quando fui ao tratamento no hospital diz-me o otorrino:
- Então como está? Já não tem os tampões nos ouvidos há muito tempo. Como é que se tem sentido?
- Mais ou menos.
Dos estilhaços já só tinha as cicatrizes para me lembrar. Mas dos ouvidos era mesmo mais ou menos. Não tinha dores nem incómodos de maior, mas sentia que não era o mesmo, que tinha perdido parte da audição.
- Olhe, amanhã a esta hora, tem de vir cá para ir a uma junta médica. Vão decidir o seu futuro.
- E qual vai ser, doutor?
- Não sei. Isso é com eles.
- Mas acha que eu estou em condições?
- Não me compete a mim, nosso alferes. A junta é que vai dizer.
Mais nada.
No dia seguinte fui à junta médica. Era um coronel e um tenente-coronel. Mandaram-me sentar à frente deles. O coronel puxou duns papéis, devia ser o meu processo, Folheou-os e olharam os dois para eles.
- O ouvido esquerdo tem 10% de incapacidade, no direito tem 20%. Está apto para todo o serviço.
O tenente-coronel abanou a cabeça que sim. Levantaram-se.
- Vá apresentar-se no Depósito Geral de Adidos.
Mais nada.
Fui para o Depósito Geral de Ardidos, na Ajuda. Ao fim de dois ou três dias, não sei bem, meteram-me nas mãos uma Guia de Marcha para embarcar no Uíge, também não me lembro em que dia exacto, só sei que foi nos primeiros dias de Maio, era para me apresentar no Quartel-General do CTIG (Comando Territorial Independente da Guiné).
Fiquei mesmo a arder. Queriam que eu fosse acabar a comissão na Guiné, mas, sabendo o que já sabia, não me agradava nada. Da primeira vez ainda fui embalado na ignorância, mas agora não, já conhecia bem como que era. Ainda pensei dar o salto para França. Pensei, pensei muito. E lembrei-me do que me dissera o Norberto no Comodoro e fui falar com o seu substituto naquele grupo de conspiradores. Convenceu-me que era melhor não desertar, que havia trabalho a fazer na Guiné. Disse-me mais:
- Tens Guia de Marcha para o QG do CTIG, não é? Ali é que é porreiro, não vais para o mato e podes trabalhar muita gente no sítio ideal.
Convenceu-me. Mas concluí mais tarde que ele não percebia nada dos mecanismos de funcionamento da tropa.
E embarquei no Uíge para a Guiné. Pela segunda vez.

UÍGE

Não era nada como no Ana Mafalda. Como não ia integrado em nenhuma companhia, era só dormir, comer, jogar às cartas, apanhar sol. Ia um grupo de gajos em rendição individual. Foram bons parceiros.
Eu sou o de livro debaixo do braço. Não me lembro dos nomes dos outros. Só do Almodôvar, que me parece o do lado esquerdo do tenente-coronel.
Grandes comesainas! Sou o terceiro a contar da direita.

Foi uma viagem magnífica.

37-Mataram o Norberto

Telefonei para casa da tia do Norberto.
- Boa noite D. Olinda. Queria falar com o Norberto.
Houve um silêncio. Respondeu-me depois uma voz de mulher chorosa.
- O meu sobrinho morreu.
Devia ser brincadeira, ou então a tia tinha-o posto na rua por qualquer motivo. Só podia ser isso. Falei-lhe meigamente.
- Desculpe lá. Eu preciso mesmo de falar com ele. Não tem o contacto dele?
Agora foi uma voz de soluços.
- Ele morreu. Mataram-no.
Pareceu-me ver as lágrimas, o soluçar eram palavras da D. Olinda a dizer-me que era verdade. Fiquei mudo por momentos, a conjecturar perseguições, prisão, torturas, assassinato. Queria saber.
- Mas como é que foi isso? Diga-me lá, por favor.
- Ele ia na auto-estrada, depois do viaduto Duarte Pacheco…
Foi aqui que (X) morreu o Norberto

O choro continuava.
- Mas o que é que sucedeu aí, D. Olinda?
- Houve um carro que se avariou, era uma mulher…
Não parava de soluçar, tive de a animar.
- Mas não chore. Diga-me lá mais. O que é que aconteceu?
- Ele parou o carro dele para ir ajudar a mulher, mas veio outro carro e atropelou-o… Ai, ai, meu querido sobrinho.
E não parava de chorar.
- Mas, ó D.Olinda, não o ajudaram?
- Não, ninguém o ajudou. Quando chegaram os da ambulância já ele não tinha pinga de sangue. Estava morto.
Lamentei-me também, procurei consolar a mulher o melhor que pude, mas não adiantou muito, o mal estava feito. Desliguei. Os meus pais e a minha irmã aperceberam-se que qualquer coisa estava mal porque me viram consternado. Expliquei-lhes o sucedido e disse-lhes que não queria jantar, que ia dar uma volta. Tinha ficado em casa nessa noite para poder falar com o Norberto, muito longe de imaginar esta desgraça. Tinha de ir arejar.
Ainda pensei ir carpir as mágoas para casa da Júlia, mas achei que não, que não devia ir massacrar a rapariga com lamentações, com ela era só para coisas boas. Desci a Rua da Alegria e, quando na Praça, vi o Maxime. Mas ali não queria entrar mais. Da última vez que lá tínhamos estado, eu e o Norberto, chateámo-nos com um gajo que nos queria oferecer uma cautela da lotaria, como prenda por termos estado na guerra. Era outro filho da puta como o banqueiro do Comodoro. Decidi-me por ir antes ao Cantinho dos Artistas. Era mais abaixo, na entrada do Parque Mayer.
Aqui (X) era a entrada do Cantinho dos Artistas. Já não existe.

Era outro tipo de gente. Artistas, boémios noctívagos com o coração na boca, mulheres cativantes, coristas esbeltas com simpatia sem salamaleques.
Havia barulho e alegria como era hábito. Pedi um bitoque e uma imperial. E fui cortando e rilhando o bife, deglutindo pensamentos amargos sobre o destino do Norberto.
- Olá. Estás muito pensativo, rapaz.
Era a Fatinha que se chegara à minha mesa. Era bailarina, como me dizia, não corista. E é verdade que era uma artista na dança, já a vira actuar no Maria Vitória, ali ao lado. Sentou-se ao pé de mim.
- Estou triste.
- Porquê? O que é que aconteceu? A Júlia zangou-se contigo?
- Não, não é nada disso. Morreu um amigo meu.
Ficou séria.
- É a merda da guerra – a voz era pesarosa – que anda a matar a juventude.
Sabia que estava sentida. Já me tinha dito que tinha um primo em Moçambique.
- Não foi na guerra. Olha, se fosse até já nem me admirava, já é normal. Foi o Norberto, ele já esteve aqui comigo, se calhar lembras-te dele.
- O quê, aquele loiro de olhos azuis grandes?
- Sim, esse.
- Mas como é que foi isso?
- Ele tinha sido evacuado por ser hemofílico. Felizmente deram por isso lá na Guiné e mandaram-no embora. Mas, outro dia, foi socorrer uma mulher que tinha tido uma avaria no carro em plena auto-estrada e veio um gajo que o atropelou. Não teve ninguém que visse a situação dele, que se esvaía em sangue, e já estava morto quando chegou a ambulância para o levar.
- Que coisa, meu Deus!
- É lixado vir morrer aqui desta forma tão estúpida, depois de se ter visto livre da guerra. Primeiro, lá do hospital mandam-no à vida, já não fazes falta, desenrasca-te agora. Depois foi a incúria e a falta de cuidados. Lá na guerra sabíamos que era normal podermos morrer, mas aqui não me entra. Não dá para entender.
Fiquei calado e sem vontade de continuar a comer. A Fátima não disse nada, primeiro, mas, olhando para o meu rosto, pôs-me uma mão no braço.
- Estás mal, vê-se na tua cara. Se calhar é melhor ires ter com a tua amiga Júlia. É capaz de te fazer bem, ficas melhor.
- Não, não vou. Não estou com disposição. Além disso, ela não vai perceber, não entende destas coisas, não vai perceber nada.
Fiquei silencioso a beberricar a cerveja. Ela já conhecia a Júlia, eu tinha estado ali algumas vezes com ela e tínhamo-nos juntado os três a conversar. Sabia que a Júlia era assim, despreocupada e pouco sensível aos problemas dos outros.
Mas a Fatinha estava sensível às minhas preocupações.
- Ouve lá, não podes ficar assim. Eu hoje já não tenho que fazer nada aqui e vou-me embora para casa. Anda comigo, estás lá melhor sem estes barulhos. Bebemos um copo, falamos e ficas mais calmo.
Era uma moça maravilhosa, pensei. Aquelas conversas barulhentas que noutras alturas me davam gozo não calhavam agora com o meu estado de espírito. Normalmente até entrava nelas também, galhofava com aquela gente porreira. Mas agora não, não estava para aí virado. Pelo mesmo motivo não estava com disposição para ir deambular por outros bares, nem ir para a casa dos meus pais e deitar-me a magicar na tragédia do meu amigo. Fui com ela.
Morava perto do Chiado, na Rua Duques de Bragança, num andar alugado perto da Livraria Morais. Tinha à frente o Teatro S. Carlos e mais ao fundo as traseiras das instalações da PIDE da António Maria Cardoso. Mas não me perturbei, fiquei bem num sofá da sala dela a beber um whisky. Estávamos os dois mudos, eu olhava para ela apreciativamente. Tinha vestido um robe e traçara a perna, pele branca e suave, pensei, os seios espreitavam-me. Sorriu-se, pareceu-me divertida com o meu olhar. Puxou de um cigarro.
- Sabes quem foi o Saint-Éxupéry?
- Sim, não sou burro. É aquele do “Principezinho”.
- Podias não saber. Nem todos sabem, ignorar não quer dizer ser burro. Eu tenho lido algumas coisas dele. É um homem interessante, que reflecte sobre a guerra.
- Quando estava em Mafra deu-me para ler o Jean Lartéguy. Li os livros quase todos dele. Mas esse não conheço.
- Ele tem um livro que é o “Piloto de Guerra”. Ele pilotou aviões na primeira guerra mundial, deves saber. Quando morreu lá um amigo, diz ele, penso que é nesse livro, que lhe custava sentir que nunca mais o poderia ver nesta vida, que não o podia ver a seu lado, que nem sequer o podia aborrecer. Custava-lhe que ele já não tivesse necessidade dele. Não é como te estás a sentir?
Não era isso.
- É uma visão egoísta, acho eu. O que me custa é que desapareceu alguém que parecia gostar de mim, era meu amigo, não era como os outros que eu acho que não gostam.
- Então e isso não é egoísmo também?
- Não sei, talvez. Mas não é só isso. Olha, quando eu era miúdo e estava no Penedo Gordo, o meu avô Salustiano morreu e eu chorei, tive pena. Mas chorei e tive pena porque vi a minha mãe e a minha avó a chorar. Gostava dele, mas era velho e a morte em si não me disse grande coisa. Mas agora não, agora e naquelas mortes que vi e vivi na Guiné, agora eu tenho consciência da morte, das suas causas. Não são por velhice.
Fiquei pensativo e ela também. Esta conversa não me estava a ajudar nada.
- Fatinha, desculpa lá mas eu vou andando. Já é tarde.
Ficou séria primeiro, mas explodiu pouco depois.
- És maluco. Não estás em condições. Ficas aqui, anda para a cama. Amanhã estás melhor.
Senti que era o que eu queria, lá no fundo. Fui com ela. Agarrou-se a mim debaixo dos lençóis.
- Hoje não estou muito capaz, percebes?
- Mas eu estou aqui, garoto, vamos ver.
A sua pele era de facto muito suave, uma maravilha os seios, de sabor enlouquecedor. A sua boca húmida fez-me despertar. Fui capaz.

10 de janeiro de 2011

35-Percalços da clandestinidade

Já vínhamos no carro e disse-me ele:
- O que eu te queria dizer é que temos que nos encontrar amanhã com outra malta e era preciso uma casa para isso. Na da minha tia não dá porque há lá gente e estava a pensar na tua. Será que pode ser?
- E a que horas é?
- Às dez horas da manhã.
- A essa hora tenho estar no hospital. Só se forem vocês e depois falas comigo sobre o que decidiram. O meu pai e a minha irmã estão a trabalhar e a minha mãe vai a uma consulta ao hospital. Eu dou-te a chave de casa.
- Está bem. Falamos os dois depois.
Chegámos, entretanto, ao largo da Calçada da Patriarcal.

Este é o largo da Calçada da Patriarcal. Os meus pais moravam aqui (X), no nº 1, 2º Esqº. Já não moram porque já morreram. É verdade que também morou aqui, anos antes deles, o pide São José Lopes.
Parou o carro ao pé das árvores. E eu lembrei-me duma coisa.
- Mas espera aí, ó Norberto. Não sei se é o melhor ser em minha casa. É que, há uns dias, apareceu lá na caixa do correio uma carta para um tal Aníbal de São José Lopes. A minha mãe foi perguntar à vizinha se não seria para ela. E a vizinha disse-lhe que era um gajo da PIDE que tinha antes lá morado mas que, agora, estava em Angola.
Vi que ficou apreensivo, pensou um bocado.
- Mas há quanto tempo é que ele morou lá?
- Não sei, pá. Mas, como os meus pais já moram lá há mais de 20 anos, já foi há mais tempo.
- Então deixa estar. Dá cá a chave. Até tem piada.
Dei-lhe a minha chave.
- Mas, olha, já gora digo-te outra coisa: há quinze dias fui a uma junta médica e os gajos deram-me como inapto para a tropa. Isto da hemofilia não tem remédio.
- Porreiro! Então estás livre da guerra.
- Não é nada porreiro. Sabes muito bem que a orientação é não fugir à guerra. É lá com os outros que temos de estar, é lá que podemos influenciar, não é fugindo para França. Mas paciência, comigo já não há hipóteses. Para compensar pus-me a vendedor de materiais de construção civil, dá-me para andar por aí e desenvolver o trabalho clandestino.
- Mas deves concordar que é melhor do que estar na guerra.
- Claro. Mas lá também se pode trabalhar, e é muito importante.
Disse que estava bem e despedi-me. Fui de manhã ao hospital ao tratamento. Quando voltei a casa para almoçar vi que não tinha a chave, tinha-me esquecido, toquei à porta. Disse-me a minha mãe:
- Então e a chave?
- Devo-me ter esquecido dela num bolso qualquer.
- Olha, estiveram aqui uns amigos teus a perguntar por ti.
- Estiveram? Mas quando?
- Eram aí umas dez horas.
Merda, que bronca! Fiquei com tal cara que a minha mãe até se assustou.
- Mas houve algum problema?
- Não, não houve nada, mãe. Mas não tinha dito que hoje ia ao médico?
-Tinha, mas decidi não ir porque já vi que aquele homem não me resolve nada. Ando lá há uma data de tempo e não vejo solução, nada. É só gastar dinheiro. Tenho de arranjar outro médico.
Tinha osteoporose, andava bastante mal, coitada.
Quando acabava almoçar tocou o telefone e a minha mãe foi atender.
- É para ti.
Atendi. Era o Norberto.
- Era um dos meus amigos que estiveram aqui. Vou ter com eles ao Jardim da Estrela quando acabar de almoçar.
Fui e vi-o sentado na esplanada, estava sorumbático.


- Desculpa lá aquilo, mas não tive culpa nenhuma. A minha mãe à última da hora decidiu não ir ao médico.
- Pega lá a chave. Por acaso, por uma questão de segurança, toquei á porta primeiro. Imagina que tinha metido a chave na fechadura, a tua mãe chamava a polícia e íamos de cana por arrombamento.
- Oh, não chamava nada. Dizias que te tinha emprestado a chave para, não sei, inventavas qualquer merda.  
- É pá, mas não, isto não pode ser assim.
- Mas o que é que queres, caralho? Já te disse que não tenho culpa. Foi azar.
Também já estava a ficar chateado.
- Mas, ouve lá, reuniram ou não?
- Claro que não. Temos de marcar outro dia e outro sítio, mas um sítio seguro agora.
Gozei:
- Um bom sítio é o Comodoro.
- Vai-te foder.
Bebemos umas imperiais e perguntei-lhe mais coisas sobre a junta médica. Tinham-lhe recomendado uns medicamentos, que tivesse cuidados, que já não servia para a tropa.
Despedimo-nos e desde esse dia nunca mais o vi.