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1 de fevereiro de 2011

47-Os meus Jagudis

O capitão Alves chamou os alferes para uma reunião. Eu, o Rodolfo e o Salvado, que regressara de Binta.
- O nosso general mandou vir o pelotão de Binta e ainda bem. Foi bom porque, assim, estamos mais à vontade. Quando tínhamos só dois, podia apenas sair um, o outro tinha de ficar na segurança aqui. Agora ficamos mais à vontade para coordenar a nossa acção.
Tive de apoiar.
- Viva o nosso general!
- Tá bem, ó Aiveca. Mas temos também de ver a ordem que ele nos deu de organizar os pelotões por etnias. A maior parte são balantas e fulas. Depois há também uns manjacos, papéis, e outros. Vou dizer ao primeiro-sargento para formar um pelotão com os balantas, outro com os fulas e um terceiro com as restantes etnias. Qual é que cada um de vocês quer? Ficámos calados. Apercebi-me que para os outros estavam indesisos. Mas eu já tinha optado quando o capitão voltou a falar.
- Você, Aiveca, que é o mais antigo, diga lá primeiro qual é que quer.
- Fico com os balantas.
Os outros alferes olharam-me espantados, mas o Rodolfo aproveitou-se logo.
- Então eu fico com os fulas.
Eu não, gostava mais dos balantas. Eram pão pão, queijo queijo. Se gostavam gostavam, se não gostavam mostravam bem que não gostavam. Os fulas, está bem, estavam abertamente do nosso lado, mas as suas falinhas mansas e de submissão deixavam-me muitas interrogações sobre o que estaria no interior. Desconfianças minhas, talvez, mas era facto que gostava mais da natural frontalidade dos balantas. No pelotão anterior tinha uns e outros e ficara com essa sensação.
O Rodolfo ainda falava.
- O Bletche Intéte vai agora para o teu pelotão. Ele era o meu guarda-costas e pode também ser o teu.
- Não, não quero esse gajo como meu guarda-costas.
- Então, porquê? Ele até é muito porreiro…
- Porreiro o caraças. Outro dia à noite fui dar uma volta pelos postos das sentinelas e encontrei vazio o lugar onde ele devia estar.
O capitão olhou-me reprovadoramente.
- Então e você não disse nada, não participou?
- Não, meu capitão, mas resolvi o problema.
- Resolveu? Mas como? Tinha de haver uma participação dessa situação.
- Disseram-me onde ele devia estar e fui ter com ele. Estava na tabanca com uma gaja.
- Porra, pá. Não pode ser. Tinha de levar uma porrada.
- Já levou.
Olharam-me todos interrogativamente.
- Agarrei nele e perguntei-lhe se preferia um murro nos cornos ou uma participação. Ficou enrascado mas disse-me que preferia o murro. Dei-lhe um murro no focinho e ele foi logo a correr para o posto.
Os alferes partiram-se a rir. Mas o capitão não.
- Isso não pode ser assim, nosso alferes. Depois quero falar consigo sobre isso.
Era treta. Eu já o conhecia, e ele também a mim. Sabia que eu tinha as minhas regras próprias e resolvia os problemas à minha maneira, e resolvia mesmo. Aquilo era para inglês ouvir. Continuei calmamente.
- Já agora, meu capitão, o meu guarda-costas é o cabo Otcha e eu queria que ele viesse para o meu novo pelotão.
Vi que estava a ser demais para ele. Desbragou.
- Foda-se, Aiveca. Você quer-me arranjar um problema? O homem é fula e acha que quer ir para um pelotão de balantas? E acha que os balantas vão aceitar bem um fula entre eles?
Vi que os meus camaradas concordavam silenciosamente, também espantados com a minha proposta.
- Ele é um homem sério e muito certinho, um bom operacional. Além disso eu tenho plena confiança nele e sei que ele confia em mim. Tem-me sido muito útil.
Contraditório com o meu pensamento anterior sobre fulas e balantas. Mas aquilo tinha sido só para mim e eles, portanto, não me confrontaram com isso. De qualquer modo, nunca pensei em generalizar. Sabia que não era tudo e todos assim. O Otcha não entrava ali. De seu nome étnico Amadu Djaló, era conhecido desde pequenino por Otcha porque a mãe, ele contou-me, teve muito receio que ele não nascesse ou nascesse morto e, quando ele nasceu bem e sãozinho, deu-lhe o nome de “Otcha”, que quer dizer em fula “surgiu”, “vingou”. Era o nome por que era mais conhecido.
Depois da explicação da minha pretensão, o Alves, que até era um tipo cordato, e sobretudo porque, sempre enfiado no arame farpado, sabia que tinha de ter as boas graças dos alferes que andavam no duro a garantir  a missão operacional da companhia, não zurziu mais argumentos, mas pôs condições.
- Então, está visto, o Salvado fica com os outros. Vou dar ordens ao primeiro-sargento para elaborar rapidamente a lista dos pelotões com os novos nomes, mando-o formar a companhia assim que estiverem prontas e vocês e os vossos furriéis a seguir tomam logo conta deles. Quando estiverem todos formados, eu vou perguntar ao Otcha se quer ir para o pelotão dos balantas e você, Aiveca, pergunta aos balantas se querem lá o Otcha.
Dissemos ao capitão está bem, sim senhor, e fomos beber umas cervejas.
Bebemos algumas, até vir o cabo escriturário a dizer-nos que a companhia estava já em formatura.
Cada um de nós e seus furriéis à frente do respectivo pelotão, o capitão à frente de todos.
- Esta é a nova composição dos pelotões por ordem do nosso general…
“Então o Caco veio aqui só para fazer isto?” Era o furriel Sousa que rosnava. Virei a cara para ele. “Tá calado, pá”.
- …mas vocês já se conhecem, portanto não há problema nenhum.
Virou-se para o pelotão dos fulas.
- Há aqui um ajustamento que o alferes Aiveca pediu. Otcha, queres ir para o novo pelotão dele?
O Otcha hesitou uns segundos mas acabou por falar.
- Se o nosso alferes Aiveca quer eu vou.
- Então sai e vai.
Saiu e veio para o pé de mim. Virei-me para trás.
- O Otcha vem para o nosso pelotão. Tá bem?
Riram-se e alguns fizeram que sim com a cabeça. Empurrei-o para o pelotão. Os que o conheciam do anterior deram-lhe palmadas nas costas.
Os outros destroçaram, mas disse aos meus para ficarem. Já tinha magicado umas coisas. Havia um ou outro mais maduro mas a maioria era muito jovem, tinha que lhes incutir motivação.
- Eu quero que vocês sejam o melhor pelotão da companhia. Que todos vos admirem e respeitem. Vou mandar fazer uma boina camuflada e um lenço preto para cada um. Será o vosso distintivo.
Deu resultado, eu já sabia. Ficaram contentes e cochicharam entre eles manga de ronco (porreiro, bonito). Os furriéis olharam para mim. Sabiam que teria de explicar ao capitão Alves esta alteração ao fardamento da ordem. Mas não interessava, logo se veria.
Estavam satisfeitos e avancei com outra.
- Além disso o nosso grupo de combate tem de ter um nome para que todos nos conheçam bem, mesmo os turras no mato quando nós aparecermos. Quem dá uma ideia?
Fiquei a olhá-los por momentos.
- Jagudis (abutres).
Era o Falcão, um dos mais maduros, já era o apontador de metralhadora do meu pelotão anterior. Andava sempre de botas de borracha, mas nunca o chateei por isso. Era um tipo duro e implacável, não me admirei que avançasse com este nome. Pessoalmente até o achei interessante e adequado, sobretudo à caça que fazíamos aos carregadores do PAIGC que entravam vindos do Senegal. Falaram entre eles e vi sinais de assentimento.
- Ficamos com este nome, é?
Ficámos. Assim nasceram os Jagudis.


30 de janeiro de 2011

46-Os "corredores" na zona de Barro e Bigene






[Samine no Senegal, muito perto de Barro, tal como Sano, e, segundo Luís Cabral, em "Crónica da Libertação", o PAIGC tinha aí um armazém de material de guerra.
Era a Titina Silá quem dirigia a Norte o Comité da Milícia Popular e que tinha como missão organizar a passagem de pessoas e mercadorias nas cambanças do rio Cacheu, segundo diz o Luís Cabral no seu livro. Diz aí também que ele, Luís Cabral, mais o Chico Mendes eram os responsáveis da Frente Norte] 




[Disse-me o Lúcio Soares, quando estive com ele em 2006, que, em 1968, depois de passar o comando de Sinchã Jobel para o Gazela, e quando já era comandante da base do Morés, sofreu aí uma emboscada quando se dirigia ao Senegal - até lhe disse que, se calhar, tinha sido eu...; numa outra emboscada aí também, foi referenciado o Luís Cabral, que ia de jipe]

Todos os "corredores" a Norte

Dados colhidos do SUPINTREP (Supplementary Intelligence Report) Nº 32 da Repartição de Informações do QG do Comando Chefe da Guiné, elaborado em 11 de Junho de 1971

29 de janeiro de 2011

45-A visita

Os mosquitos não me largavam, só à chapada é que fugiam, ainda conseguia matar alguns. Não eram muitos porque eu tinha tido o cuidado de coser bem os buracos do mosquiteiro e prendê-lo por baixo do colchão, mas havia sempre uns sacanas que conseguiam encontrar maneira de me irem sugar o sangue. Já tinha tentado saber como é que eles faziam, tinha vasculhado todos os buraquinhos para os tapar. Mas não, não conseguia evitar que alguns entrassem. Lembrava-me bem da noite passada na bolanha de Sinchã Jobel, onde os havia aos milhares, e também das noites passadas no mato, mas nessas circunstâncias aceitava-os, que remédio, até me ajudavam a estar desperto Mas agora não, caraças. Depois de uma noite inteira no tarrafe do rio Cacheu, na zona de Canja, tinha chegado às seis da manhã e queria era dormir. Tinha despido o camuflado e a roupa e nem tomara banho, logo para a cama, todo borrado, que se lixe mas a vontade era muita. Mas os gajos só me deixavam fazê-lo a intervalos, quando matava um e antes que outro viesse render o morto. O meu colega da cama do lado também andava na luta, pois no meio da soneira ainda conseguia ouvir as rajadas de palmatoadas que ele lançava com o mata moscas. Mas ele não saiu esta noite, está melhor que eu, eu é que estou pior, ainda soletrei dormentemente, creio que a falar para Deus. Se foi ou não, já não sei, ninguém me deu troco.
O ruidoso girar característico das pás de helicópteros despertou-nos completamente. O Rodolfo deu um salto da cama.
- Que merda é esta?
Levantei a cabeça e apoiei os cotovelos na cama.
- Parece que são helicópteros, pá.
Vestimos calções e enfiámos os chinelos nos pés. Demos a volta por fora do edifício e fomos para a porta da Secretaria. Estavam lá o cabo escriturário e o primeiro-sargento, este todo aprumado e embevecido.
- Vem aí o nosso general.
Também olhámos com espanto o “Caco Baldé” (devido ao seu monóculo, o general Spínola era apelidado pela tropa por "Caco", Baldé era um apelido comum na Guiné, pelo que o seu completo apelido guineense era "Caco Baldé"), que vinha com passo decidido, olhar penetrante e pingalim da ordem. Acompanhava-o o comandante da companhia e, todo emproado, com camuflado limpo e brilhante pelo uso em cerimónias, de luvas impecáveis e boina vermelha berrante, vinha também o adjunto do general com a G3 em prontidão, coronha poisada no quadril.
Olhei para a pista e vi dois helicópteros com alguns comandos à volta. Se calhar estariam mais alguns dentro da mata a montar segurança. Seria o normal nestas visitas de surpresa, habituais do general. Mas espero, pensei para mim, que o capitão não se lembre de fazer uma demonstração como aquela que fez há dias a um piloto da DO. Foi um gozo do caraças e ele não ficou nada bem. Quis mostrar ao homem da dornier como funcionava o morteiro 80. Lançou uma granada que foi cair não muito longe do avião. Felizmente não houve estragos mas o pessoal que estava na mata na segurança veio a correr pensando que era um ataque. Rizo geral. É claro que, com o general, não dava para isso.
O Rodolfo interrompeu-me os pensamentos, todo preocupado.
- É pá, não podemos receber o general em tronco nu, de calções e chinelos.
- O que é que queres? Ele já está perto e já olhou para nós. Estar a fugir agora é que não dá. Quando aparece de repente já sabe o que pode encontrar.
Ele chegou ao pé de nós. O capitão apresentou-nos.
- São os comandantes dos pelotões que tenho aqui. Tenho um que está destacado em Binta e outro que está em Jumbembem.
Inicialmente, levantei a mão instintivamente para fazer a continência, mas, pensei rápido, e vi que não podia fazer isso por estar desfardado. Mas o meu colega alferes não pensou e fez mesmo a continência. Depois da explicação do capitão, vi-me na obrigação de dizer qualquer coisa.
- O meu general desculpe, estamos assim porque não estávamos à espera. Eu estive esta noite toda no mato e…
- Deixa-te disso, pá. Vamos lá que eu estou com pressa, tenho de estar com o COP3 em Bigene.
Entrámos na secretaria e o capitão falou-lhe das nossas missões, do trabalho contra as infiltrações, das operações com o COP3. O “Caco” quis saber das condições em que estavam os homens, da alimentação. Aqui o capitão engasgou-se um bocado. Que havia algumas dificuldades, porque os abastecimentos eram muito intervalados, quer pelo rio Cacheu, quer com as DO que vinham trazer o correio e os frescos. O general ia dizendo para o adjunto “Toma nota”.
Fui tentado a dizer que a carne que tínhamos era das vacas que, às vezes, íamos roubar às aldeias fronteiriças no Senegal, ou daquelas que caíam nas armadilhas que montávamos nos carreiros e que os elementos do PAIGC traziam para atravessar o Cacheu. Os gajos da tabanca não nos vendiam vacas. Mas fiquei muito caladinho, o capitão que desbroncasse.
O adjunto tomou notas, o “Caco” ajeitou o monóculo e mudou de conversa.
- Nosso capitão, quais são as etnias dos pelotões?
- Aqui em Barro são fulas e balantas, mas estão misturados.
- Então vai separá-los. Fulas num pelotão e balantas noutro. Dá mais unidade a cada um e pode criar emulação entre eles.
Ninguém disse nada. Não havia nada a dizer, aquilo foi dado em tom de ordem.
Continuou.
- Vocês já alguma vez foram ao Senegal?
Ri-me abertamente, mas depressa fiquei sério. O general e o adjunto olhavam para mim como que a perguntar-me qual era a piada. O capitão e o Rodolfo estavam aprensivos, a interrogar-me com o olhar se eu ia agora falar das vacas roubadas no Senegal. Tive de dizer alguma coisa.
- Desculpe, meu general. Mas é que nós nunca fomos ao Senegal.
- Não se ria, nosso alferes. Comecem a pensar em ir lá.
Levantou-se e afastou-se em direcção aos helis, acompanhado pelo capitão e o adjunto de G3 no quadril.

28 de janeiro de 2011

44-Novo ambiente, semelhanças e diferenças




A tabanca de Barro, em si, não era muito diferente da de Geba. A diferença estava no facto de ser mais pequena. Tinha também algumas casas que tinham servido a administração colonial e que eram agora utilizadas ara a secretaria da companhia, para a instalação dos oficiais e, uma delas para o comércio. À volta estavam as moranças da população da tabanca. Enquanto em Geba o quartel estava fora da tabanca e era uma construção feita de propósito para o efeito, isto é, para instalação da tropa, em Barro estava pegado à povoação e a tropa estava numa casa já existente.
Quanto à população, aqui em Barro havia sobretudo mandingas e balantas, enquanto na tabanca de Geba dominavam os cristãos e os fulas, havendo pegadas várias moranças de mandingas. Já as tabancas em auto-defesa eram predominantemente habitadas por fulas



Uma amiga
Geba tinha o rio Geba por perto, aqui havia o Cacheu.


 Geba tinha uma companhia em quadrícula, eram 1600 quilómetros quadrados na mata do Oio, no interior da Guiné. Em Barro a companhia não estava em quadrícula, estava a 3 quilómetros do Senegal, e a sua missão era combater as infiltrações de pessoal e material do PAIGC que vinham do Senegal para o Oio e participar em operações, sob o comando do COP3, sedeado em Bigene, sobretudo no corredor de Sambuiá, numa área de cerca de 1000 quilómetros quadrados.


Paliçada virada para norte, Senegal
Paliçada de protecção da tabanca
Posto da metralhadora pesada
Refeitório de todos, soldados, sargentos e oficiais
Secretaria da companhia. Nas traseiras eram as instalações dos oficiais.
Operacionalmente, a companhia de Geba tinha de garantir a ocupação, a defesa e o abastecimento de quatro destacamentos (Banjara, Cantacunda, Camamudo e Sare Banda) e de três tabancas em auto-defesa (Sare Madina, Sinchã Sutu e Sare Ganá). As operações de maior envergadura na sua área eram feitas por companhias de intervenção, dada a dispersão dos elementos da companhia de quadrícula, embora em todas elas participassem um ou outro pelotão desta companhia.
Montar emboscadas no corredor entre Ingoré e Barro, sobretudo na zona de Canja, entre Barro e Bigene, ou o corredor de Sambuiá, depois de Bigene, eram as tarefas da CCAÇ3 quando em Barro. Muito perto, em Sano, já dentro do Senegal, o PAIGC tinha uma base de apoio, concretamente um depósito de material de guerra. A Titinha Silá era a encarregada de organizar os abastecimentos dali para o Oio. Deu-nos muito trabalho.




A CCAÇ3 era uma companhia do "recrutamento da Província". Esteve em vários sítios. É bom ver o que diz a CECA (Comissão para o Estudo das Campanhas de África):

23 de janeiro de 2011

43-Encontro no "Cova Funda"- "A case study"

No dia 21 pp à noite, juntaram-se os alferes sobreviventes da CART1690 no Restaurante "Cova Funda", lá para os lados da Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa. Foi mais um dos encontros que já fazemos há mais de 30 anos. Foram os que partiram para a Guiné integrados na companhia. Da esquerda para a direita, na foto abaixo: o Domingos Maçarico, ferido gravemente em combate e evacuado para o HMP, e que  nunca mais regressou à Guiné, sendo substituído pelo Lourenço; a seguir sou eu, também ferido em combate e evacuado para o HMP, mas que regressei à Guiné, embora para outra companhia, fui substituído pelo Fernandes, que morreu em combate, por sua vez substituído pelo Peixoto, também morto em combate; depois, em frente, o António Moreira, que nunca abandonou a companhia; e, ao lado dele, o Alfredo Reis, também ferido em combate, tendo estado algum tempo no HM241, em Bissau, e regressado depois à companhia.
O Lourenço, o substituto do Maçarico, nunca compareceu nestes nossos encontros, nem nos encontros da companhia. Até nestes somos só nós que comparecemos, como ex-alferes.
Já temos falado entre nós sobre esta situação, temo-nos interrogado sobre o factor que tem sido o aglutinador desta nossa longa ligação. Tanto mais que somos muito diferentes politicamente e, até, socialmente em certos aspectos. Somos "a case study", como já nos disseram.
Os meses que passámos em conjunto na preparação da companhia para a guerra, os intervalos para desopilanços por bares e outros antros vividos também em conjunto, foram um elemento cimentador de uma camaradagem sem desgostos.
Já na Guiné, e com a companhia dividida na mata do Oio
houve algumas dificuldades, concordamos, fruto da separação e porque a actuação individualizada teve de prevalecer. Houve alguns desencontros, é verdade, mas também o reconhecimento da dureza do papel que a que cada um era dado. Os desencontros não chegaram para quebrar a amizade que se tinha cimentado.
Mas, depois da guerra, com as opções de vida de cada um, e as vivências individuais de todos os fenómenos que nos cercam, tinha de haver alguém que mantivesse os liames que unem. E reconhecemos entre nós que o António Moreira tem tido esse papel desde o princípio. 
Falámos destas coisas. Mas também falámos das presidenciais. E, já agora, só um é que se mostrou pelo Cavaco (não digo quem foi, só digo que não fui eu).




20 de janeiro de 2011

42-Amílcar Cabral foi assassinado há 38 anos





Pessoalmente não tenho dúvidas que toda a trama que levou ao assassinato de Amílcar Cabral foi montada pela PIDE, como não duvido que o General Spinola esteve sempre a par dela. Ele era unha com carne com o Fragoso Allas, responsável da PIDE na Guiné na altura (até constando que foi esta amizade que fez com que os pides fossem libertados após o 25 de Abril…).
Foto : Arquivo Mário Pinto de Andrade/Fundação Mário Soares
Dalila Cabrita Mateus mais me convenceu desta minha ideia. Mostro algumas coisas mas é fundamentalmente o que ela diz no seu livro que aqui trago.


Dalila Cabrita Mateus diz em “A PIDE/DGS na Guerra Colonial, 1961-1974” que «O assassínio de dirigentes foi um tipo de operações levado a cabo pela PIDE/DGS. No entanto, constituía um assunto delicado». E refere que o elemento dessa polícia incumbido de dar andamento ao plano para a liquidação de Amílcar Cabral escreveu à margem do processo: «Comuniquei particularmente ao chefe da Delegação que este assunto não pode ser objecto de correspondência oficial. Ou não se dizem ou não se fazem». Refere, por isso, que não é possível encontrar relatórios da PIDE sobre a liquidação de Amílcar Cabral, até porque, citando José Pedro Castanheira, in “Quem mandou Matar Amílcar Cabral”, o inspector adjunto Alberto Matos Rodrigues recomendou que «Em trabalhos desses, não se deixam provas».
E houve vários planos, assevera esta investigadora dos Arquivos da PIDE existentes na Torre do Tombo.
O primeiro terá sido em 1967, o do inspector Miguel António Cardoso, então chefe da delegação da PIDE na Guiné, que mandou vir de Conacri um antigo combatente para que, conhecedor dos locais por onde Cabral costumava passar nessa cidade, o matasse a tiro ou com granadas apreendidas aos guerrilheiros. Só que, azar, esse homem foi preso pela tropa portuguesa e deixou de valer. Mandou vir de Conacri mais dois elementos para o mesmo objectivo, mas, entretanto, foi substituído. O novo chefe da delegação achou que um deles era bêbedo e que o outro não tinha estofo e a operação foi abandonada.
Em 1969 houve outra tentativa, esta planeada pela Aginter Press, uma encapotada agência de informações sedeada em Portugal mas que, efectivamente, se dedicava ao recrutamento de mercenários. Tinha ligações com a PIDE e com a Legião Portuguesa desde 1966. Teve a colaboração da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Casa de Portugal em Paris, e participavam um diplomata senegalês, oposicionistas a Sékou Touré e elementos da FLING. O orçamento era superior a quatro mil contos, e o prémio em caso de êxito mil contos. Foi a Operação Chèvre. Se não deu ou não foi avante, a investigadora não precisa.
Veio, depois, a Operação Mar Verde, em Novembro de 1970, planeada e comandada por Alpoim Calvão, com o apoio de Spínola e de Marcelo Caetano. No livro de António Luís Marinho, “Operação Mar Verde, Um Documento para a História”, vêm as missões atribuídas a cada um dos grupos participantes na operação. Por exemplo, uma das do comandante Benjamim Lopes de Abreu era “a eliminação física do Presidente da República da Guiné Ahmed Sékou Touré” (documento 11). A ninguém foi explicitamente atribuída a missão da “eliminação física de Amílcar Cabral”. No entanto, ao 1º Ten. FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva tinha como missão: “Ataque e destruição de elementos e instalações do PAIGC em Conacry II: …41-Secretariado e habitação de Amílcar Cabral; 42-Casa de Aristides Pereira e Propaganda”. E diz ele, no seu relatório, que “decidi atacar primeiro e rapidamente os objectivos considerados de primeira importância: 41 e 42…”. Não é, pois, credível que a eliminação de Amílcar Cabral não fosse também um dos objectivos. Dalila Mateus narra que foi lançada sobre a casa de Amílcar Cabral uma chuva de obuses, tendo um deles acertado em cheio no quarto ao lado daquele onde dormia a mulher de Cabral, que teve de sair com os filhos pelas traseiras da casa. Numa casa ao lado ficaram gravemente feridos um casal jugoslavo e uma filha, uma outra filha deles morreu com um estilhaço na cabeça. E refere que Alpoim Calvão disse ao Público de 21 de Maio de 1991 que se Cabral estivesse em Conacri teria sido seguramente eliminado.
Em 1971 foi a delegação da PIDE em Cabo Verde que mobilizou mil contos para contratar um cabo-verdiano residente em Monróvia, na Libéria, e com anteriores ligações a Cabral e Agostinho Neto. Era para, com mais seis indivíduos, assassinar Amílcar Cabral e destruir um depósito de material de guerra em Conacri. Não resultou.
Mas a PIDE andava também atenta às divisões dentro do PAIGC.
Em Junho de 1967 teriam armadilhado a casa de Cabral em Koundaré e teriam sido enviadas cartas para Catió, Cabedu, Farim, Mansoa e Bula com o intuito de não serem acatadas as ordens de Amílcar Cabral. Os conjurados foram presos e fuzilados. E a PIDE afirma ter ouvido, na altura, que Nino Vieira encarou com simpatia “o movimento conspirativo do Boé”. Também em Setembro desse ano parece ter havido um atentado contra o Secretário-geral do PAIGC. Foi também o ano, constou em Dezembro, do descontentamento dos mandingas pelas baixas sofridas em combate e pelo facto de os cabo-verdeanos serem poucos a combater.
Em Janeiro de 1968 foi assinalado novo movimento de revolta e, nesse ano, as notícias das divisões no PAIGC levaram a PIDE a tomar nota e, como consta numa das pastas dos Arquivos da PIDE, “Em face desta notícia foi considerado superiormente que se devia procurar, por todos os meios, se necessário mesmo financeiros, explorar estas divergências”.
Em Março de 1972 é o próprio Cabral que apresenta um plano, segundo ele de Spínola e dos colonialistas portugueses, com o objectivo de decapitar a direcção do PAIGC. Primeiramente com a infiltração de antigos e novos membros do Partido para gerarem a divisão na base do racismo, tribalismo, diferenças de religião e virando guineenses contra cabo-verdianos. Após isso seria a criação de uma direcção paralela para entrar em contacto com os dirigentes dos países vizinhos tentando obter o seu apoio contra a verdadeira direcção, particularmente contra o Secretário-geral. A fase seguinte seria: o assassinato do Secretário-geral e todos os dirigentes fiéis à linha do partido; mudança da designação do partido e paragem da luta; e, finalmente, entrar em contacto com o governo português para obterem a autonomia interna e a criação do “Estado da Guiné” fazendo parte da comunidade portuguesa. Spínola teria prometido postos importantes aos executantes deste plano. E não há dúvidas que eram os princípios defendidos por António de Spínola.
E foi no dia 20 de Janeiro de 1973, às 23 horas que um grupo chefiado por Inocêncio Cani prendeu Cabral e a mulher. Face à resistência deste Cani atingiu-o com um tiro no fígado, tendo depois ordenado a um seu acompanhante que lhe desse uma rajada, que o atingiu na cabeça e o matou. Um grupo chefiado por Mamadu N’Djai prendeu Aristides Pereira, meteu-o numa vedeta do PAIGC e rumou para Bissau. Um outro grupo, chefiado por João Tomás Cabral, assalta a prisão do PAIGC e liberta Mário Mamadou Touré e Aristides Barbosa, que eram os cabecilhas do golpe.
Foram cerca de uma centena os golpistas. Depois de tomarem conta das instalações do partido e terem prendido cabo-verdianos e mestiços guineenses, foram recebidos por Sékou Touré na madrugada seguinte, mas o presidente da Guiné não lhes deu cobertura mandou-os prender, deu ordens ao exército que submetesse o PAIGC e pediu a navios soviéticos que estavam nas suas águas que recuperassem a vedeta onde ia Aristides Pereira, o que aconteceu.
A maioria não tinha ligações à PIDE, nem o Inocêncio Cani, tendo sido arrastados pelo descontentamento contra a direcção do partido e contra os cabo-verdianos. Mas alguns dos principais conjurados tinham:
- Mário Mamadou Touré (conhecido por Momu) era um antigo preso do Tarrafal; o chefe da delegação da PIDE na Guiné Alberto Matos Rodrigues arranjou-lhe emprego e protegeu-o, afirmando mesmo que esta “Foi uma operação planeada e meteram-no lá” (diz José Pedro Castanheira, na obra atrás referida);
- Aristides Barbosa confessou que, após sair do Tarrafal, foi contactado por um agente da polícia de nome Gonçalves (na altura, havia na Guiné vários agentes de apelido Gonçalves) para trabalhar para a PIDE e que aceitou, pedindo “uma licença para táxi”; disse também que foi recebido por Spínola antes de sair de Bissau;
- João Tomás Cabral, que tinha sido comissário político, tinha correspondência com um informador de Pirada e com o elemento da PIDE em Buruntuma, o agente de 1ª classe Orlindo Martins Jorge Vicente; a sua acção era mentalizar os combatentes para que entregassem as armas porque o PAIGC não conseguiria ganhar a guerra;
- Valentino Cabral Mangana, comandante de Marinha (como Inocêncio Cani), propagandeava que Portugal daria a independência aos negros da Guiné desde que o PAIGC fosse extinto e os cabo-verdianos afastados, pois queria conservar Cabo Verde como uma base de grande importância estratégica para si e os seus aliados.
Claro que houve uma conspiração no interior do PAIGC para pôr termo à hegemonia dos cabo-verdianos. Mas é também evidente que a PIDE teve um papel importante na instigação do golpe. E não actuava à rédea solta. Não me parece que Alpoim Calvão tenha razão quando diz, no seu livro “De Conakry ao M.D.L.P.”, “…a verdade é que não havia a mínima lógica para que as autoridades portuguesas desejassem, em 1973, o assassinato de Amílcar Cabral”. E traz em defesa desta ideia as negociações segundo ele planeadas entre Spínola e Amílcar Cabral para a resolução política da situação na Guiné. Mas esquece-se de dizer que Marcelo Caetano já dissera a Spínola – é o próprio Marcelo que o refere nas suas Memórias – que negociar na Guiné nem pensar, antes a derrota militar. E conta Otelo Saraiva de Carvalho, em “Alvorada em Abril”, que o inspector Fragoso Allas lhe terá dito que “os tipos tinham ido longe demais, porque a missão era só raptar e conseguir trazer Amílcar Cabral para Bissau como refém”. 
É claro, então, que foi resultado de uma missão da PIDE. Não condiz o "era só raptar" com as declarações acima citadas do Ten. FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva, quando este diz que, na operação Mar Verde, decidiu a destruição do "Secretariado e habitação de Amílcar Cabral", bem como com Alpoim Calvão, que disse que Amílcar Cabral seria eliminado se estivesse em Conacri na altura da invasão.
Como se vê,  a eliminação dos líderes dos movimentos de libertação foi um objectivo desde sempre. Relativamente a Amílcar Cabral também o era em 1970. 
Já não era em Janeiro de 1973, como disse o Allas a Otelo? Tenho dúvidas.

19 de janeiro de 2011

41-A conspiração estava em marcha

Reuni-os, camaradas, para lhes dar conhecimento de um documento revelador, que o nosso serviço se segurança conseguiu apanhar. (...) Estas cinco páginas – continuou Cabral – contêm o programa, digamos mesmo, um programa detalhado de acções subsersivas contra o nosso Partido. Não se fala aqui em nomes de ninguém – Cabral sorriu – excepto no meu e nas datas concretas de realização das sabotagens. São expostos os princípios gerais e os objectivos deste trabalho sabotador. Vou ler-vos as passagens mais interessantes. Este plano – Cabral mostrou-o, agitando as folhas – tem o nome de “Instrução 42/71 – DGS”, e consta de três fases : (...).
Quando os participantes nesta reunião se separaram, na sala ficaram apenas Amílcar Cabral, Aristides Pereira e dois camaradas do serviço da segurança do PAIGC. Chamar-lhes-emos camarada M e camarada N.
“Camarada Amílcar – dirigiu-se o camarada M ao Secretário-Geral – o material que nós reunimos é suficiente para a prisão imediata, tanto do Momo como do Aristides Barbosa.” Cabral fez uma careta dolorosa como se tivesse uma dor de dentes. “Ouçam amigos, já há quase duas semanas que tentam convencer-me da necessidade de prendermos Momo e Barbosa. Lembrem-se que será uma medida extrema e se nos enganarmos isso pode reflectir-se desfavoravelmemte no nosso Partido. Um deles foi membro do Comité Central e ambos passaram mais de sete anos no campo de concentração (de Tarrafal, em Cabo-Verde - nota do autor). Antes de me pedirem para sancionar a prisão, verifiquem cem vezes, considerem mil vezes.” – “Camarada Amílcar! Nós, não somente considerámos e analisámos, como temos dados incontestáveis da ligação destes elementos com a PIDE, quer dizer com a DGS, como agora lhe chamam.” Não podemos considerar as resmunguices de Barbosa e as suas conversinhas com os alunos do internato ou a conduta de Mamadú Turé durante as suas deslocações aos países amigos, como provas incontestáveis da sua culpa. Que há além disso? Nada, e espero que não haja.” – O  camarada M olhou para o seu colega e este abanou a cabeça. – “Nós temos outras provas, camarada Amílcar, além das que várias vezes apresentámos. – Aqui estão elas.” – E tirou da algibeira um envelope pequeno. – “Que é isto?” – perguntou Amílcar. – “ O camarada pode, certamente, censurar-nos pelo abuso de poder, mas não tínhamos outra saída. Ontem fizemos uma busca secreta ao quarto onde vive Mamadu Turé e sua mulher. Encontrámos o envelope debaixo duma mala de viagem pertencente ao Momo. Se ler, convencer-se-á que estas notas não são mais do que o resumo da instrução 42/71 – DGS, feito pela mão de Momo. Nós conhecemos bem a sua letra.” – “Não pode ser!” – exclamou Cabral, segurando as pequenas folhas tiradas, certamente, de um bloco notas. – “Esperem, fomos nós próprios que lhe demos como tarefa de descrever o ambiente na PIDE, e a maneira como viviam os presos no campo de concentração do Tarrafal. Talvez isso sejam alguns dados para a preparação do trabalho?” – O camarada M suspirou desoladamente. – “Compreendo que o camarada Amílcar procure sempre no homem as melhores qualidades, mas nós não temos dúvidas, Momo e Aristides Barbosa são cem por cento agentes portugueses. As folhas são a última prova. Não são de um discurso, mas sim de um resumo. Veja bem estes sinais aqui em cima, estes números. Está escrito 42/72, por isso procuramos obter autorização para a prisão de Momo e de Aristides.” – “Bem, - pronunciou devagar – podem agir. Deixem de momento todas as outras tarefas, levem-nos para a “Montanha” e ocupem-se de esclarecer e investigar rapidamente o caso.”(...)
Ignatiev, Oleg , Três Tiros da Pide, Prelo Editora, Lisboa, 1975.

40-Reunião do Conselho Superior de Luta do PAIGC

Inocêncio Cani, na Academia da Marinha da ex-URSS
A reunião do Conselho Superior da Luta do PAIGC estava no auge. Na sua ordem de dia figurava uma única questão, mas bastante desagradável a abordar. Trarava-se de apreciar o não cumprimento de ordens e a indisciplina de alguns membros do Partido, três dos quais pertenciam ao Conselho Superior da Luta (CSL). Amílcar Cabral fazia uma intervenção em que dizia : “ Quero informá-los de factos lamentáveis que aconteceram no nosso trabalho. Alguns camaradas, enviados para cumprir  o seu serviço na marinha, ignoram na realidade as resoluções do Partido e não cumpriram a missão que lhes fora confiada. Um deles, Inácio Soares da Gama era membro do CSL, o outro, Inocêncio Cani, está aqui presente. (...).” Ao terminar, Amílcar Cabral sentou-se e debruçou-se sobre os papéis que tinha na sua frente, depois levantando a cabeça notou o olhar de José Pereira.
- “ O camarada Pereira quer dizer alguma coisa? Fala Zé!”
José Pereira levantou-se, arranjou o cinto e veio para o meio da sala. José Pereira gagueja sempre um bocadinho, mas neste momento, por estar excitado gaguejava mais que habitualmente.
- “O camarada Secretário-Geral (...) disse a verdade sobre as relações entre as pessoas, sobre a necessidade de criticar e auxiliar todos aqueles que cometem erros. Mas não estou de acordo de proceder desta maneira quando se trata de pessoas como Inácio Soares da Gama e Inocêncio Cani. Não é a primeira vez que ambos são criticados numa reunião da direcção do Partido. Lembrem-se que em 1968 a direcção retirou o  Inácio da região de Quitáfine por ele não querer ouvir os conselhos do Comissário Político. O Comissário era na altura o camarada Pascoal Alves aqui presnte. O que aconteceu então ao Inácio Soares da Gama? Enviaram-no para o estrangeiro tirar um curso de marinha. Achámos que era necessário e conveniente enviá-lo por dois anos. Tornou-se especialista. E qual foi o benefício que o Partido recebeu com isso, se como disse o camarada Secretário-Geral, praticamente ele desertou da nossa armada? E Inocêncio Cani? Recebeu um posto importante depois de terminar o curso. Comandou os nossos barcos de guerra, devia ensinar e educar os nossos marinheiros, mas não justificou a nossa confiança. Tivemos de lhe retirar o cargo o ano passado. Bem, talvez ele nessa altura se tivesse enganado. Mas agora, passado ano e meio, foi necessário mais uma vez debruçar-nos sobre a conduta de Inocêncio Cani. Que comandante é este, que se comporta grosseiramente com os seus subalternos? Como pode ele ser membro do Comité Executivo da Luta? Também não podemos esquecer o motivo pelo qual Cani foi afastado em 1968, do seu lugar de comandante duma das regiões do norte do país. O Presidente dos Comités partidários das tabancas dessa região queixou-se então da sua conduta grosseira. Inocêncio é uma nódoa no nosso Partido, no nosso Exército e a meu ver ele continua na mesma linha. Se não tomarmos medidas severas isto pode acabar muito mal. Eu sou pela expulsão do camarada Inocêncio Cani do CSL.” Zé terminou e sentou-se na cadeira agarrando-se aos joelhos. Sentado ao lado, Constantino dos Santos Teixeira bateu-lhe no ombro, dizendo : “Bravo Zé, é assim mesmo.”
Ignatiev, Oleg , Três Tiros da Pide, Prelo Editora, Lisboa, 1975.