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6 de fevereiro de 2011

49-O ermonsinhu

Nessa noite não havia saídas para o mato. Eu e o Rodolfo já tínhamos andado todo o dia a bater a zona entre Barro e Bigene, sem nada de interessante que acontecesse, só canseira, calor e sede. Nem um tiro para animar. O Salvado tinha ficado para garantir a segurança ao quartel. Ficou chateado e tinha protestado quando lhe disseram que o jantar era dobrada com feijão. Paciência, pá, é o que há, disse-lhe o capitão. Não tinha caído nenhuma vaca nas armadilhas e as lanchas no Cacheu ou as DOs na pista há muito tempo que não largavam nada. Eu e o Salvado, todo o dia a rações de combate, aguentámos, até não era mau. Para mim, lisboeta, dobrada até era um prato muito aceitável, já estava habituado. Á noite podia ser um bocado indigesto, mas paciência. Até vou ver como é que o gajo faz isto, pensei. E fui para o pé do cozinheiro.
A dobrada era desidratada e vinha em latas grandes. O kusinheru[1] Assana abriu as latas e despejou-as para o panelão que já estava ao lume. Perguntei-lhe se não punha o arroz e o feijão. Riu-se para mim a dizer-me com o olhar que eu não percebia nada daquilo.
- Abo bu ispera dal ferba un bukadinhu, dipus miti aruz-pintadu.[2]
Tinha razão, eu não percebia mesmo nada de cozinhados. O espectáculo foi quando aquilo começou a ferver. Foi a minha vez de rir ao ver o Assana todo atrapalhado a evitar com uma colher de pau que as dobradas com o volume aumentado saíssem do panelão.
- Kaldu pintcha dobrada.[3]
Deixei-o com essa tarefa.
Contei esta cena ao jantar, foi galhofa geral que ajudou a mastigar a dobrada e a esquecer a trabalheira que tivéramos na pesca às formigas de asa que tinham caído às dúzias dentro dos pratos da sopa. Quando as chuvas começavam e elas saíam dos ninhos era fatal. E muito chato.
Fomos depois jogar à lerpa[4] na secretaria. O furriel Florindo, que estava de sargento de dia, entrou quando eu já tinha lerpado[5] três vezes.
- Alferes Aiveca, está aqui o Moba. Parece que há um problema qualquer com o irmão dele.
- Diz ao gajo para entrar.
A figura enorme do Moba assomou à porta. Tinha cara de poucos amigos, o que era normal nele. Não me admirei.
-O que é que bo misti[6]?
Saiu-se com um palavreado em balanta.
- Vai-te foder. Fala-me em português que eu não sou balanta.
- Nha ermonsinhu duensi[7].
Nunca consegui tirar uma fotografia dos dois em conjunto

Tá bem. Ainda percebia alguma coisa de crioulo e o ermonsinhu deu-me para sorrir. Era para que me dava sempre que os via ou me lembrava dos dois irmãos tão díspares. O Moba era um matulão com cerca de um metro e  noventa e o Etudja se calhar não tinha mais que um metro e sessenta e cinco. Além disso, este era mais novo, um rapazinho meigo e de boas falas, enquanto o Moba era um brutamontes sempre sério e pouco atreito a amizades. Achei
tanta piada a esta situação que tentei várias vezes tirar-lhes uma fotografia em
comjunto, mas o Moba nunca quis. Dizia-me que o Diancong[8]  não permitia
 porque ele era Ngahy[9]  e o Etudja era Fuur[10], podia fazer com que ele não
conseguisse arranjar mulher. Não entendi bem, como me custara antes a
entender muitas coisas e costumes daquela gente da Guiné. Ele também não
me explicou. Porque não tinha explicação, eu sabia, era só da crença. Ainda
me cheirou  a questões de homossexualidade mas não quis entrar por aí.
- Furiel infermeru djubi el[11]?
- Ca djubi[12].
- Então vamos lá.
Emppurrei-o para fora da porta e fomos ao quarto dos furriéis. Estava lá o
enfermeiro.
- Ó Cristiano, venha aqui comigo que há um soldado que está mal.
O Etudja estava na parte de baixo de um beliche ao fundo da caserna. Tinha a
farda ainda vestida e os lábios ensanguentados. O Cristiano meteu-lhe um
termómetro e tomou-lhe o pulso.
- O pulso está normal. Vamos ver o que dá o termómetro. Como é que isto
começou? 
Olhou para o grupo que se tinha juntado. Foi o Alcamussá que
respondeu.
- Sentou-se na cama, começou a tossir e a deitar sangue da boca. Está aqui o
pano.
Agachou-se e apanhou o lenço preto do Etudja. Estava manchado. Todos
examinaram e comentaram, o Cristiano também.
- São manchas de sangue. Vamos ver o termómetro.
Esperámos mais um bocado até o enfermeiro lhe tirar o termómetro.
- Tem 38. Não é muito.
- O que será isto?
- Não sei, meu alferes. Pode ser uma gastrite, mas também pode ser uma
hemorragia do estômago, sei lá. Era melhor ser visto por um médico. Se for
uma hemorragia no estômago é perigoso.
- Que merda! Só se formos ali a Sano[13], pode ser que os turras tenham lá um…
O Cristiano riu-se com a piada.
- Ó Cristiano, vamos mas é ali explicar a situação ao capitão.
Largámos, com o Moba atrás de nós. Ainda olhei para ele para o mandar
embora. Mas não. Vi-lhe a preocupação na cara dura, como já lhe vira antes os
trejeitos nervosos à volta da cama do ermonsinhu. Deixa ir.
Olharam quando empurrei a porta. Estavam ainda todos na lerpa.
- Meu capitão, o Etudja está com um problema grave e parece que precisa de
Um médico. O furriel Cristiano é que sabe.
- Parece-me que ele tem uma gastrite ou uma hemorragia do estômago. Não
sei. Mas era urgente ser visto por um médico se for uma hemorragia.
- É pá, mas só em Bigene é que há médico. Você não pode ir entretendo a
coisa até amanhã?
- Eu podia metê-lo com soro no caso de ser uma hemorragia. Mas não temos
já. Encomendei e estava à espera que a dornier o trouxesse hoje, mas ela não
apareceu. Parece que foi por não haver tecto[14], segundo me disseram.
Era verdade. Não tinha chovido, mas o dia tinha estado sempre muito
enevoado. Era a puta de situação em que estávamos. A comida escasseava e
agora até a merda dos medicamentos.
Engoli e saltou-me uma ideia.
- Meu capitão, proponho que agarremos nuns unimogs e levamos o homem ao
médico de Bigene.
Os olhos e a boca do Moba abriram-se num sorriso, coisa rara, e pareceu-me
que me queria dar um beijinho. Foda-se, isso não! Mas o capitão tirou-lhe
qualquer ideia do género, se é que a tinha.
- Você está maluco, Aiveca? Ainda outro dia rebentou uma mina e como é que
você quer que se vá picar o caminho no meio da escuridão que já está?
Vi que o Moba voltou à sua habitual cara de cepo. O capitão tinha razão. Fiquei
calado por momentos, todos a olhar para mim. De facto a minha ideia tinha sido
infeliz. Mas, espera aí, surgiu-me agora outra, vais-me chamar maluco outra
vez.
- Eu vou com o meu pelotão levar o Etudja.
- Porra, pá. Onde é que você tem a cabeça? Já lhe disse que não é possível
agora picar o caminho.
- Mas eu não vou de viatura. Vamos a pé.
Agora é que foi. Ficaram todos de olhos abertos a chamar-me maluco. Menos o
Moba, sorriu outra vez. O sacana, afinal, percebia bem português quando
queria.
- Você já viu a trabalheira em que se vai meter? Ainda por cima no meio desta
escuridão…
Deu-me para rir. Vi que ele não gostou.
- Desculpe, meu capitão, mas sabe bem que já estou habituado, já estamos
todos habituados, aliás. Noite sim, noite não, é o que fazemos. Esta não me
calhava, mas, paciência, vai ser mais uma. E estou pronto para sair outra vez
amanhã.
O Rodolfo apoiou-me, mas o Salvado não reagiu. Mas ele arranjou mais um
argumento.
- A questão é mesmo essa. Sair à noite em missão é uma coisa, mas o que
você quer agora não tem nada a ver.
O lambe botas do Salvado dizia que sim com a cabeça. Voltou-me a raiva que
senti quando ele me deixou sozinho em Ponta Nova. O Alves também já me
estava a chatear.
- É missão minha também, é de todos, garantir que os homens estejam em
condições de desempenhar o papel que lhes é atribuído, as tais missões
cometidas à companhia. Eu nunca abandonei ninguém em dificuldades, não
sou como alguns…
O Salvado puxou dum cigarro.
- …o meu capitão pode dar-me esta ida a Bigene como missão. Não será uma
iniciativa minha mas sim de toda a companhia. Se abandonarmos este homem
vai ter um efeito muito negativo. É bom que tenham consciência que nos
preocupamos com eles em todas as circunstâncias, quando estão doentes, por
exemplo. Além disso, eu sei que este homem aqui, o Moba, um bom soldado e
combatente, nunca mais será o mesmo. Se suceder alguma coisa de grave ao
irmão, não sei mesmo se não pensará em desertar. Vai ter efeito nos outros.
Pensem bem. Para mim, por mais que digam, até o general, estes balantas não
 andam aqui por  amor à camisola.
Acho que lhe toquei. Virou-se para os outros alferes.
- Calma aí, Aiveca. O que é que vocês acham?
O Salvado disse o que eu esperava dele.
- Ir para montar uma emboscada não é a mesma coisa que arrastar um ferido
na mata. Não há a mesma calma nem as mesmas condições de defesa.
Tive pena que me tivessem agarrado quando, já no quartel, após o regresso de
Ponta Nova, gritei com ele, de G3 em punho, por me ter abandonado lá.
O Rodolfo falou também.
- Meu capitão, eu acho que o Aiveca tem razão. Doentes ou não, temos
que nos preocupar com os nossos homens. Para mim há muita mais razão
quando estão doentes… ou feridos. É o que deve fazer um comandante.
O Alves ficou calado um momento, todos esperámos Pareceu-me que estava a
ficar convencido.
- Mas, então, ó Aiveca, como é que você pensa fazer isso? Daqui até Bigene
são treze quilómetros…
- Eu sei, meu capitão. É um pouco mais longe do que quando vou para os lados
de Canja, para Ponta Nova, ou para Suar, para os lados de Bigene. Não é
muito. Estou a pensar ir pela mata e não pela picada, pois, com as chuvadas
que tem havido, deve estar cheia de lama e covas, e complicava a coisa. Vou
evitar as bolanhas também, claro. Não vou passar pelos sítios que os turras
costumam usar, para não haver problemas. Mas, para isso, pedia ao meu
capitão para me deixar levar o guia Bailo, ele conhece bem toda esta zona.
- Tá bem. E como é que vai levar o homem?
- Aqui o Moba vai-se encarregar disso, não é?
Olhei para o matulão, ele abanou a cabeça que sim. Mas vi que tinha de
acrescentar mais para as dúvidas do capitão.
- Vai numa maca, o Moba mais o Blulé, o Iofna e o Watna, por exemplo, que
também são gajos fortes, vão-se revesando.
- Muito bem. Eu vou dizer ao cripto para mandar uma mensagem ao
comandante de Bigene.
Agradeci-lhe, formei o pelotão e arranquei para Bigene com o Etudja.
Correu tudo bem. É claro que foi impossível não passar por carreiros que eu
sabia serem utilizados pelos carregadores do PAIGC, mas, felizmente, porque
eu não estava interessado, não encontrámos ninguém. Mas houve um episódio.
Quando estávamos a meio do caminho, talvez, perto de Capal, ia eu à frente
com o Bailo, o furriel Sousa, que vinha perto da maca, veio ter comigo.
- O Etudja saiu da maca.
- O quê?!
- Ele quer ir a pé, diz que pode andar. Estiveram todos a discutir, o Moba
também, mas ele diz que quer ir a pé.
Fui ter com ele.
- Abo pudi anda[15]?
- Sim, alfero[16].
Perguntei também ao Moba.
- Ermonsinhu pudi anda[17]?
- Sim, alfero.
Estranhei, face à perspectiva que havia dos males do homem. Mas, aqueles
Gajos tinham grande capacidade física, tudo era possível. Se era assim, dei
ordem para andar.
Tinham passado mais de três horas quando chegámos a Bigene. O alferes
médico veio logo à enfermaria. Mandou-o deitar. Só eu e o Moba é que ficámos
 ao pé da cama. Contei o que se passara, do sangue vomitado. Pôs-lhe um
termómetro, apalpou-lhe o estômago e o peito, virou-o de costas, pressionou-
as, auscultou-o durante alguns momentos. Encolheu os ombros e franziu os
lábios, sério, abanou a cebeça..
- Não vejo nada.
Juntou os sobrolhos primeiro, arqueou as sobrancelhas depois. Pegou numa
lanterna e mandou-o abrir a boca. Debruçou-se, iluminou lá para dentro e
observou.
Apagou a lanterna e endireitou-se, com um sorriso e ar descansado.
- O que ele tem é as gengivas com algumas feridas e infecções. O sangue era
daí. Acontece às vezes quando eles limpam os dentes com um pau.
Dei meia volta com a cabeça baixa. Imaginei o gozo do Salvado, até o capitão
se riria dos meus princípios de bom comando. Ia-me chatear com o Etudja?
Não. O que fiz tornaria a fazer. Teria é de ter mais cuidados. Aprender sempre.
Fui ter com o “doente”.
- Abo ferga dinti cu marmulanu[18]?
- Sim, alfero.
Filho da puta. Mas não adiantava mais. Tinha pensado pedir ao comandante de
Bigene para ficarmos lá essa noite. Mas agora não. O meu desencanto fez-me
dar ordem para regressarmos de seguida para Barro. Que se lixasse se na
noite seguinte tivéssemos de ir para o mato.


[1] Cozinheiro (crioulo)
[2] Tens de esperar que ferva um bocado, pões depois o arroz e o feijão (crioulo).
[3] A água a ferver empurra a dobrada (crioulo).
[4] Jogo de cartas muito comum na tropa.
[5] Perdido
[6] …tu queres? (crioulo)
[7] O meu irmãozinho adoeceu, está doente, caiu doente. (crioulo)
[8] Divindade dos balantas
[9] Categoria social dos balantas com 25 anos
[10] Categoria social dos balantas entre os 18 e os 20 anos
[11]O furriel enfermeiro já viu (crioulo)
[12] Não viu (crioulo)
[13] Base de apoio que o PAIGC tinha na fronteira, já dentro do Senegal. Ficava a 3km de Barro.
[14] As avionetas Do27 só tinham condições meteorológicas para largar, aterrar e voar se tivessem 5 km de visibilidade e 1500 pés de tecto de nuvens, isto é, se as nuvens estivessem cerca de 4,5 km acima do solo. Sucedia muitas vezes, no tempo das chuvas na Guiné, que as nuvens baixas e o nevoeiro não o permitiam. Havia pilotos que arriscavam em certas situações, mas nem todos. 
[15] Podes andar? (crioulo)
[16] Alferes
[17] O teu irmãozinho pode andar? (crioulo)
[18] Friccionas os dentes com pau-ferro? (crioulo)

2 de fevereiro de 2011

48-Fotos para a posteridade e histórias à volta delas

André Gomes,"o professor"
Era natural de Bissau, de etnia balanta mas cristão, e estudara no Liceu Honório Barreto antes de ser recrutado. Encarreguei-o, por isso, de dar aulas de português aos que quizessem. Chamavam-lhe "o professor" por causa disso.
André Gomes, o professor
André Gomes, o professor

Não foram muitos os seus alunos, porque aquilo era voluntário (nunca obriguei ninguém) a maior parte esteve-se borrifando para o português. Com os que aceitaram conseguiu estabelecer boas amizades.


Bletche, o guarda-costas preterido
O Bletche
Otcha, o meu guarda-costas
O Otcha
Um grupo de amigos
O Otcha, de G3, e o André Gomes.

O Bletche, o professor e o Otcha
O Bletche, o Otcha e o André
O Bletche, se bem que já soubesse o que queria dizer "um murro nos cornos", também quis ir às aulas do André. Tornou-se também amigo do Otcha, mas é claro que nunca soube que tinha sido preterido por mim como guarda-costas.
Assisti algumas vezes às aulas e era interessante ver "o professor" explicar palavras em português ao Otcha, que era fula. Como o André era balanta e não sabia fula, a base da explicação tinha de ser o crioulo.
O Bletche mostrou-se também muito interessado. Talvez por, tendo sido antes guarda-costas do alferes Rodolfo, tivesse visto que era bom saber mais português.
Mas a amizade entre estes três tinha outra razão mais profunda. É que eu, informalmente mas na prática, tinha tornado os três meus adjuntos por várias razões. O Otcha, é claro, por ser meu guarda-costas, o André por ser ponderado e ter influência sobre os outros, e o Bletche porque, desde o episódio do murro os cornos, vi que se tinha tornado um fiel admirador meu, além de que sabia que era bom operacional. Mas houve também outro factor de peso nesta minha escolha.
Na primeira noite que saí com eles para uma emboscada, já meu novo pelotão, fiquei um bocado admirado por vê-los todos a sair munidos de cantil. Não vai ser precisa assim tanta água, mas tá bem. Passada meia hora fui dar uma vista de olhos pelos locais onde estavam distribuídos. Espanto meu. Grande parte deles estava a dormir, os que não dormiam estavam quase bêbedos. Vi que os gajos tinham levado aguardente de cana no cantil. Só o Otcha não, porque era fula, e estava comigo. O Bletche estava bem desperto, eu sabia que ele bebia, mas mostrou-me que não tinha levado aguardente de cana. O André também não, estava atento, eu sabia que ele bebia às vezes, mas pouco, não era por hábito. Mas os outros, filhos da puta, estavam todos apanhados mais ou menos pela cana. Dei um raspanete aos furriéis e ficou assente que, no futuro, ninguém saía de cantil à noite.


Bons rapazes... bebedores tanbém

1 de fevereiro de 2011

47-Os meus Jagudis

O capitão Alves chamou os alferes para uma reunião. Eu, o Rodolfo e o Salvado, que regressara de Binta.
- O nosso general mandou vir o pelotão de Binta e ainda bem. Foi bom porque, assim, estamos mais à vontade. Quando tínhamos só dois, podia apenas sair um, o outro tinha de ficar na segurança aqui. Agora ficamos mais à vontade para coordenar a nossa acção.
Tive de apoiar.
- Viva o nosso general!
- Tá bem, ó Aiveca. Mas temos também de ver a ordem que ele nos deu de organizar os pelotões por etnias. A maior parte são balantas e fulas. Depois há também uns manjacos, papéis, e outros. Vou dizer ao primeiro-sargento para formar um pelotão com os balantas, outro com os fulas e um terceiro com as restantes etnias. Qual é que cada um de vocês quer? Ficámos calados. Apercebi-me que para os outros estavam indesisos. Mas eu já tinha optado quando o capitão voltou a falar.
- Você, Aiveca, que é o mais antigo, diga lá primeiro qual é que quer.
- Fico com os balantas.
Os outros alferes olharam-me espantados, mas o Rodolfo aproveitou-se logo.
- Então eu fico com os fulas.
Eu não, gostava mais dos balantas. Eram pão pão, queijo queijo. Se gostavam gostavam, se não gostavam mostravam bem que não gostavam. Os fulas, está bem, estavam abertamente do nosso lado, mas as suas falinhas mansas e de submissão deixavam-me muitas interrogações sobre o que estaria no interior. Desconfianças minhas, talvez, mas era facto que gostava mais da natural frontalidade dos balantas. No pelotão anterior tinha uns e outros e ficara com essa sensação.
O Rodolfo ainda falava.
- O Bletche Intéte vai agora para o teu pelotão. Ele era o meu guarda-costas e pode também ser o teu.
- Não, não quero esse gajo como meu guarda-costas.
- Então, porquê? Ele até é muito porreiro…
- Porreiro o caraças. Outro dia à noite fui dar uma volta pelos postos das sentinelas e encontrei vazio o lugar onde ele devia estar.
O capitão olhou-me reprovadoramente.
- Então e você não disse nada, não participou?
- Não, meu capitão, mas resolvi o problema.
- Resolveu? Mas como? Tinha de haver uma participação dessa situação.
- Disseram-me onde ele devia estar e fui ter com ele. Estava na tabanca com uma gaja.
- Porra, pá. Não pode ser. Tinha de levar uma porrada.
- Já levou.
Olharam-me todos interrogativamente.
- Agarrei nele e perguntei-lhe se preferia um murro nos cornos ou uma participação. Ficou enrascado mas disse-me que preferia o murro. Dei-lhe um murro no focinho e ele foi logo a correr para o posto.
Os alferes partiram-se a rir. Mas o capitão não.
- Isso não pode ser assim, nosso alferes. Depois quero falar consigo sobre isso.
Era treta. Eu já o conhecia, e ele também a mim. Sabia que eu tinha as minhas regras próprias e resolvia os problemas à minha maneira, e resolvia mesmo. Aquilo era para inglês ouvir. Continuei calmamente.
- Já agora, meu capitão, o meu guarda-costas é o cabo Otcha e eu queria que ele viesse para o meu novo pelotão.
Vi que estava a ser demais para ele. Desbragou.
- Foda-se, Aiveca. Você quer-me arranjar um problema? O homem é fula e acha que quer ir para um pelotão de balantas? E acha que os balantas vão aceitar bem um fula entre eles?
Vi que os meus camaradas concordavam silenciosamente, também espantados com a minha proposta.
- Ele é um homem sério e muito certinho, um bom operacional. Além disso eu tenho plena confiança nele e sei que ele confia em mim. Tem-me sido muito útil.
Contraditório com o meu pensamento anterior sobre fulas e balantas. Mas aquilo tinha sido só para mim e eles, portanto, não me confrontaram com isso. De qualquer modo, nunca pensei em generalizar. Sabia que não era tudo e todos assim. O Otcha não entrava ali. De seu nome étnico Amadu Djaló, era conhecido desde pequenino por Otcha porque a mãe, ele contou-me, teve muito receio que ele não nascesse ou nascesse morto e, quando ele nasceu bem e sãozinho, deu-lhe o nome de “Otcha”, que quer dizer em fula “surgiu”, “vingou”. Era o nome por que era mais conhecido.
Depois da explicação da minha pretensão, o Alves, que até era um tipo cordato, e sobretudo porque, sempre enfiado no arame farpado, sabia que tinha de ter as boas graças dos alferes que andavam no duro a garantir  a missão operacional da companhia, não zurziu mais argumentos, mas pôs condições.
- Então, está visto, o Salvado fica com os outros. Vou dar ordens ao primeiro-sargento para elaborar rapidamente a lista dos pelotões com os novos nomes, mando-o formar a companhia assim que estiverem prontas e vocês e os vossos furriéis a seguir tomam logo conta deles. Quando estiverem todos formados, eu vou perguntar ao Otcha se quer ir para o pelotão dos balantas e você, Aiveca, pergunta aos balantas se querem lá o Otcha.
Dissemos ao capitão está bem, sim senhor, e fomos beber umas cervejas.
Bebemos algumas, até vir o cabo escriturário a dizer-nos que a companhia estava já em formatura.
Cada um de nós e seus furriéis à frente do respectivo pelotão, o capitão à frente de todos.
- Esta é a nova composição dos pelotões por ordem do nosso general…
“Então o Caco veio aqui só para fazer isto?” Era o furriel Sousa que rosnava. Virei a cara para ele. “Tá calado, pá”.
- …mas vocês já se conhecem, portanto não há problema nenhum.
Virou-se para o pelotão dos fulas.
- Há aqui um ajustamento que o alferes Aiveca pediu. Otcha, queres ir para o novo pelotão dele?
O Otcha hesitou uns segundos mas acabou por falar.
- Se o nosso alferes Aiveca quer eu vou.
- Então sai e vai.
Saiu e veio para o pé de mim. Virei-me para trás.
- O Otcha vem para o nosso pelotão. Tá bem?
Riram-se e alguns fizeram que sim com a cabeça. Empurrei-o para o pelotão. Os que o conheciam do anterior deram-lhe palmadas nas costas.
Os outros destroçaram, mas disse aos meus para ficarem. Já tinha magicado umas coisas. Havia um ou outro mais maduro mas a maioria era muito jovem, tinha que lhes incutir motivação.
- Eu quero que vocês sejam o melhor pelotão da companhia. Que todos vos admirem e respeitem. Vou mandar fazer uma boina camuflada e um lenço preto para cada um. Será o vosso distintivo.
Deu resultado, eu já sabia. Ficaram contentes e cochicharam entre eles manga de ronco (porreiro, bonito). Os furriéis olharam para mim. Sabiam que teria de explicar ao capitão Alves esta alteração ao fardamento da ordem. Mas não interessava, logo se veria.
Estavam satisfeitos e avancei com outra.
- Além disso o nosso grupo de combate tem de ter um nome para que todos nos conheçam bem, mesmo os turras no mato quando nós aparecermos. Quem dá uma ideia?
Fiquei a olhá-los por momentos.
- Jagudis (abutres).
Era o Falcão, um dos mais maduros, já era o apontador de metralhadora do meu pelotão anterior. Andava sempre de botas de borracha, mas nunca o chateei por isso. Era um tipo duro e implacável, não me admirei que avançasse com este nome. Pessoalmente até o achei interessante e adequado, sobretudo à caça que fazíamos aos carregadores do PAIGC que entravam vindos do Senegal. Falaram entre eles e vi sinais de assentimento.
- Ficamos com este nome, é?
Ficámos. Assim nasceram os Jagudis.


30 de janeiro de 2011

46-Os "corredores" na zona de Barro e Bigene






[Samine no Senegal, muito perto de Barro, tal como Sano, e, segundo Luís Cabral, em "Crónica da Libertação", o PAIGC tinha aí um armazém de material de guerra.
Era a Titina Silá quem dirigia a Norte o Comité da Milícia Popular e que tinha como missão organizar a passagem de pessoas e mercadorias nas cambanças do rio Cacheu, segundo diz o Luís Cabral no seu livro. Diz aí também que ele, Luís Cabral, mais o Chico Mendes eram os responsáveis da Frente Norte] 




[Disse-me o Lúcio Soares, quando estive com ele em 2006, que, em 1968, depois de passar o comando de Sinchã Jobel para o Gazela, e quando já era comandante da base do Morés, sofreu aí uma emboscada quando se dirigia ao Senegal - até lhe disse que, se calhar, tinha sido eu...; numa outra emboscada aí também, foi referenciado o Luís Cabral, que ia de jipe]

Todos os "corredores" a Norte

Dados colhidos do SUPINTREP (Supplementary Intelligence Report) Nº 32 da Repartição de Informações do QG do Comando Chefe da Guiné, elaborado em 11 de Junho de 1971

29 de janeiro de 2011

45-A visita

Os mosquitos não me largavam, só à chapada é que fugiam, ainda conseguia matar alguns. Não eram muitos porque eu tinha tido o cuidado de coser bem os buracos do mosquiteiro e prendê-lo por baixo do colchão, mas havia sempre uns sacanas que conseguiam encontrar maneira de me irem sugar o sangue. Já tinha tentado saber como é que eles faziam, tinha vasculhado todos os buraquinhos para os tapar. Mas não, não conseguia evitar que alguns entrassem. Lembrava-me bem da noite passada na bolanha de Sinchã Jobel, onde os havia aos milhares, e também das noites passadas no mato, mas nessas circunstâncias aceitava-os, que remédio, até me ajudavam a estar desperto Mas agora não, caraças. Depois de uma noite inteira no tarrafe do rio Cacheu, na zona de Canja, tinha chegado às seis da manhã e queria era dormir. Tinha despido o camuflado e a roupa e nem tomara banho, logo para a cama, todo borrado, que se lixe mas a vontade era muita. Mas os gajos só me deixavam fazê-lo a intervalos, quando matava um e antes que outro viesse render o morto. O meu colega da cama do lado também andava na luta, pois no meio da soneira ainda conseguia ouvir as rajadas de palmatoadas que ele lançava com o mata moscas. Mas ele não saiu esta noite, está melhor que eu, eu é que estou pior, ainda soletrei dormentemente, creio que a falar para Deus. Se foi ou não, já não sei, ninguém me deu troco.
O ruidoso girar característico das pás de helicópteros despertou-nos completamente. O Rodolfo deu um salto da cama.
- Que merda é esta?
Levantei a cabeça e apoiei os cotovelos na cama.
- Parece que são helicópteros, pá.
Vestimos calções e enfiámos os chinelos nos pés. Demos a volta por fora do edifício e fomos para a porta da Secretaria. Estavam lá o cabo escriturário e o primeiro-sargento, este todo aprumado e embevecido.
- Vem aí o nosso general.
Também olhámos com espanto o “Caco Baldé” (devido ao seu monóculo, o general Spínola era apelidado pela tropa por "Caco", Baldé era um apelido comum na Guiné, pelo que o seu completo apelido guineense era "Caco Baldé"), que vinha com passo decidido, olhar penetrante e pingalim da ordem. Acompanhava-o o comandante da companhia e, todo emproado, com camuflado limpo e brilhante pelo uso em cerimónias, de luvas impecáveis e boina vermelha berrante, vinha também o adjunto do general com a G3 em prontidão, coronha poisada no quadril.
Olhei para a pista e vi dois helicópteros com alguns comandos à volta. Se calhar estariam mais alguns dentro da mata a montar segurança. Seria o normal nestas visitas de surpresa, habituais do general. Mas espero, pensei para mim, que o capitão não se lembre de fazer uma demonstração como aquela que fez há dias a um piloto da DO. Foi um gozo do caraças e ele não ficou nada bem. Quis mostrar ao homem da dornier como funcionava o morteiro 80. Lançou uma granada que foi cair não muito longe do avião. Felizmente não houve estragos mas o pessoal que estava na mata na segurança veio a correr pensando que era um ataque. Rizo geral. É claro que, com o general, não dava para isso.
O Rodolfo interrompeu-me os pensamentos, todo preocupado.
- É pá, não podemos receber o general em tronco nu, de calções e chinelos.
- O que é que queres? Ele já está perto e já olhou para nós. Estar a fugir agora é que não dá. Quando aparece de repente já sabe o que pode encontrar.
Ele chegou ao pé de nós. O capitão apresentou-nos.
- São os comandantes dos pelotões que tenho aqui. Tenho um que está destacado em Binta e outro que está em Jumbembem.
Inicialmente, levantei a mão instintivamente para fazer a continência, mas, pensei rápido, e vi que não podia fazer isso por estar desfardado. Mas o meu colega alferes não pensou e fez mesmo a continência. Depois da explicação do capitão, vi-me na obrigação de dizer qualquer coisa.
- O meu general desculpe, estamos assim porque não estávamos à espera. Eu estive esta noite toda no mato e…
- Deixa-te disso, pá. Vamos lá que eu estou com pressa, tenho de estar com o COP3 em Bigene.
Entrámos na secretaria e o capitão falou-lhe das nossas missões, do trabalho contra as infiltrações, das operações com o COP3. O “Caco” quis saber das condições em que estavam os homens, da alimentação. Aqui o capitão engasgou-se um bocado. Que havia algumas dificuldades, porque os abastecimentos eram muito intervalados, quer pelo rio Cacheu, quer com as DO que vinham trazer o correio e os frescos. O general ia dizendo para o adjunto “Toma nota”.
Fui tentado a dizer que a carne que tínhamos era das vacas que, às vezes, íamos roubar às aldeias fronteiriças no Senegal, ou daquelas que caíam nas armadilhas que montávamos nos carreiros e que os elementos do PAIGC traziam para atravessar o Cacheu. Os gajos da tabanca não nos vendiam vacas. Mas fiquei muito caladinho, o capitão que desbroncasse.
O adjunto tomou notas, o “Caco” ajeitou o monóculo e mudou de conversa.
- Nosso capitão, quais são as etnias dos pelotões?
- Aqui em Barro são fulas e balantas, mas estão misturados.
- Então vai separá-los. Fulas num pelotão e balantas noutro. Dá mais unidade a cada um e pode criar emulação entre eles.
Ninguém disse nada. Não havia nada a dizer, aquilo foi dado em tom de ordem.
Continuou.
- Vocês já alguma vez foram ao Senegal?
Ri-me abertamente, mas depressa fiquei sério. O general e o adjunto olhavam para mim como que a perguntar-me qual era a piada. O capitão e o Rodolfo estavam aprensivos, a interrogar-me com o olhar se eu ia agora falar das vacas roubadas no Senegal. Tive de dizer alguma coisa.
- Desculpe, meu general. Mas é que nós nunca fomos ao Senegal.
- Não se ria, nosso alferes. Comecem a pensar em ir lá.
Levantou-se e afastou-se em direcção aos helis, acompanhado pelo capitão e o adjunto de G3 no quadril.