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8 de fevereiro de 2011

50-Exercício de defesa

 Quando não havia mato tinha muitas vezes de pôr o meu pessoal a mexer. Por um lado, tentava evitar que o ocupassem com cana ou com cerveja demasiadas vezes. Não se tratava de proibição, nem pensar, não era bom, era mais um pretexto para que intervalassem. De qualquer modo, este era um meio que eu achava fundamental para os manter operacionais. Era uma preocupação minha, não já dos outros alferes cujos homens eram de outras etnias, abstémias ou mais comedidas.
Várias vezes me vali da organização de exercícios de defesa do aquartelamento e de tiro.
Um dia, quando já estavam formados e sabiam para que era, houve um, o Clode, que decidiu refilar.
- Nha kurpu nesesita diskansu[1].
É verdade que tínhamos passado a noite no mato, mas tinha de ser assim.
- Deixa-te de merdas. Bo ka nesesita diskansu pa suta iagu[2].
- Aan!
Não gostou.
- Bo ka kiri izersisiu, mbes bo misti diskansu ke ka ta kaba[3]?
Calou-se e os outros não disseram nada.
- Vamos lá. Nossos furriéis distribuam os homens pelos postos.



Houve uma cena interessante, salvo seja, quando foi o tiro de G3.
Necessitavam de treino porque era gente sem regras, de difícil controlo
quando debaixo de fogo. Sucedeu que o Etudja, o ermonsinhu[4] do Moba,
quando disparava de rajada sobre um alvo, virou-se para
o lado a gritar sempre com o dedo no gatilho.
- Alfero, não pára!
Cagaço geral, lançaram-se todos para o chão, eu também. Foi o próprio irmão que lhe saltou para cima e lhe arrancou a G3. Se não fosse, ainda, o seu físico e a sua má cara, o ermonzinhu tinha levado uma carga de porrada de todos.


[1] Preciso de descansar (crioulo)
[2] Não precisas de descanso para as bebidas alcoólicas (crioulo)
[3] Nao queres exercício, em vez disso desejas o descanso que pode acabar contigo, a morte (crioulo)
[4] Irmãozinho (crioulo)

6 de fevereiro de 2011

49-O ermonsinhu

Nessa noite não havia saídas para o mato. Eu e o Rodolfo já tínhamos andado todo o dia a bater a zona entre Barro e Bigene, sem nada de interessante que acontecesse, só canseira, calor e sede. Nem um tiro para animar. O Salvado tinha ficado para garantir a segurança ao quartel. Ficou chateado e tinha protestado quando lhe disseram que o jantar era dobrada com feijão. Paciência, pá, é o que há, disse-lhe o capitão. Não tinha caído nenhuma vaca nas armadilhas e as lanchas no Cacheu ou as DOs na pista há muito tempo que não largavam nada. Eu e o Salvado, todo o dia a rações de combate, aguentámos, até não era mau. Para mim, lisboeta, dobrada até era um prato muito aceitável, já estava habituado. Á noite podia ser um bocado indigesto, mas paciência. Até vou ver como é que o gajo faz isto, pensei. E fui para o pé do cozinheiro.
A dobrada era desidratada e vinha em latas grandes. O kusinheru[1] Assana abriu as latas e despejou-as para o panelão que já estava ao lume. Perguntei-lhe se não punha o arroz e o feijão. Riu-se para mim a dizer-me com o olhar que eu não percebia nada daquilo.
- Abo bu ispera dal ferba un bukadinhu, dipus miti aruz-pintadu.[2]
Tinha razão, eu não percebia mesmo nada de cozinhados. O espectáculo foi quando aquilo começou a ferver. Foi a minha vez de rir ao ver o Assana todo atrapalhado a evitar com uma colher de pau que as dobradas com o volume aumentado saíssem do panelão.
- Kaldu pintcha dobrada.[3]
Deixei-o com essa tarefa.
Contei esta cena ao jantar, foi galhofa geral que ajudou a mastigar a dobrada e a esquecer a trabalheira que tivéramos na pesca às formigas de asa que tinham caído às dúzias dentro dos pratos da sopa. Quando as chuvas começavam e elas saíam dos ninhos era fatal. E muito chato.
Fomos depois jogar à lerpa[4] na secretaria. O furriel Florindo, que estava de sargento de dia, entrou quando eu já tinha lerpado[5] três vezes.
- Alferes Aiveca, está aqui o Moba. Parece que há um problema qualquer com o irmão dele.
- Diz ao gajo para entrar.
A figura enorme do Moba assomou à porta. Tinha cara de poucos amigos, o que era normal nele. Não me admirei.
-O que é que bo misti[6]?
Saiu-se com um palavreado em balanta.
- Vai-te foder. Fala-me em português que eu não sou balanta.
- Nha ermonsinhu duensi[7].
Nunca consegui tirar uma fotografia dos dois em conjunto

Tá bem. Ainda percebia alguma coisa de crioulo e o ermonsinhu deu-me para sorrir. Era para que me dava sempre que os via ou me lembrava dos dois irmãos tão díspares. O Moba era um matulão com cerca de um metro e  noventa e o Etudja se calhar não tinha mais que um metro e sessenta e cinco. Além disso, este era mais novo, um rapazinho meigo e de boas falas, enquanto o Moba era um brutamontes sempre sério e pouco atreito a amizades. Achei
tanta piada a esta situação que tentei várias vezes tirar-lhes uma fotografia em
comjunto, mas o Moba nunca quis. Dizia-me que o Diancong[8]  não permitia
 porque ele era Ngahy[9]  e o Etudja era Fuur[10], podia fazer com que ele não
conseguisse arranjar mulher. Não entendi bem, como me custara antes a
entender muitas coisas e costumes daquela gente da Guiné. Ele também não
me explicou. Porque não tinha explicação, eu sabia, era só da crença. Ainda
me cheirou  a questões de homossexualidade mas não quis entrar por aí.
- Furiel infermeru djubi el[11]?
- Ca djubi[12].
- Então vamos lá.
Emppurrei-o para fora da porta e fomos ao quarto dos furriéis. Estava lá o
enfermeiro.
- Ó Cristiano, venha aqui comigo que há um soldado que está mal.
O Etudja estava na parte de baixo de um beliche ao fundo da caserna. Tinha a
farda ainda vestida e os lábios ensanguentados. O Cristiano meteu-lhe um
termómetro e tomou-lhe o pulso.
- O pulso está normal. Vamos ver o que dá o termómetro. Como é que isto
começou? 
Olhou para o grupo que se tinha juntado. Foi o Alcamussá que
respondeu.
- Sentou-se na cama, começou a tossir e a deitar sangue da boca. Está aqui o
pano.
Agachou-se e apanhou o lenço preto do Etudja. Estava manchado. Todos
examinaram e comentaram, o Cristiano também.
- São manchas de sangue. Vamos ver o termómetro.
Esperámos mais um bocado até o enfermeiro lhe tirar o termómetro.
- Tem 38. Não é muito.
- O que será isto?
- Não sei, meu alferes. Pode ser uma gastrite, mas também pode ser uma
hemorragia do estômago, sei lá. Era melhor ser visto por um médico. Se for
uma hemorragia no estômago é perigoso.
- Que merda! Só se formos ali a Sano[13], pode ser que os turras tenham lá um…
O Cristiano riu-se com a piada.
- Ó Cristiano, vamos mas é ali explicar a situação ao capitão.
Largámos, com o Moba atrás de nós. Ainda olhei para ele para o mandar
embora. Mas não. Vi-lhe a preocupação na cara dura, como já lhe vira antes os
trejeitos nervosos à volta da cama do ermonsinhu. Deixa ir.
Olharam quando empurrei a porta. Estavam ainda todos na lerpa.
- Meu capitão, o Etudja está com um problema grave e parece que precisa de
Um médico. O furriel Cristiano é que sabe.
- Parece-me que ele tem uma gastrite ou uma hemorragia do estômago. Não
sei. Mas era urgente ser visto por um médico se for uma hemorragia.
- É pá, mas só em Bigene é que há médico. Você não pode ir entretendo a
coisa até amanhã?
- Eu podia metê-lo com soro no caso de ser uma hemorragia. Mas não temos
já. Encomendei e estava à espera que a dornier o trouxesse hoje, mas ela não
apareceu. Parece que foi por não haver tecto[14], segundo me disseram.
Era verdade. Não tinha chovido, mas o dia tinha estado sempre muito
enevoado. Era a puta de situação em que estávamos. A comida escasseava e
agora até a merda dos medicamentos.
Engoli e saltou-me uma ideia.
- Meu capitão, proponho que agarremos nuns unimogs e levamos o homem ao
médico de Bigene.
Os olhos e a boca do Moba abriram-se num sorriso, coisa rara, e pareceu-me
que me queria dar um beijinho. Foda-se, isso não! Mas o capitão tirou-lhe
qualquer ideia do género, se é que a tinha.
- Você está maluco, Aiveca? Ainda outro dia rebentou uma mina e como é que
você quer que se vá picar o caminho no meio da escuridão que já está?
Vi que o Moba voltou à sua habitual cara de cepo. O capitão tinha razão. Fiquei
calado por momentos, todos a olhar para mim. De facto a minha ideia tinha sido
infeliz. Mas, espera aí, surgiu-me agora outra, vais-me chamar maluco outra
vez.
- Eu vou com o meu pelotão levar o Etudja.
- Porra, pá. Onde é que você tem a cabeça? Já lhe disse que não é possível
agora picar o caminho.
- Mas eu não vou de viatura. Vamos a pé.
Agora é que foi. Ficaram todos de olhos abertos a chamar-me maluco. Menos o
Moba, sorriu outra vez. O sacana, afinal, percebia bem português quando
queria.
- Você já viu a trabalheira em que se vai meter? Ainda por cima no meio desta
escuridão…
Deu-me para rir. Vi que ele não gostou.
- Desculpe, meu capitão, mas sabe bem que já estou habituado, já estamos
todos habituados, aliás. Noite sim, noite não, é o que fazemos. Esta não me
calhava, mas, paciência, vai ser mais uma. E estou pronto para sair outra vez
amanhã.
O Rodolfo apoiou-me, mas o Salvado não reagiu. Mas ele arranjou mais um
argumento.
- A questão é mesmo essa. Sair à noite em missão é uma coisa, mas o que
você quer agora não tem nada a ver.
O lambe botas do Salvado dizia que sim com a cabeça. Voltou-me a raiva que
senti quando ele me deixou sozinho em Ponta Nova. O Alves também já me
estava a chatear.
- É missão minha também, é de todos, garantir que os homens estejam em
condições de desempenhar o papel que lhes é atribuído, as tais missões
cometidas à companhia. Eu nunca abandonei ninguém em dificuldades, não
sou como alguns…
O Salvado puxou dum cigarro.
- …o meu capitão pode dar-me esta ida a Bigene como missão. Não será uma
iniciativa minha mas sim de toda a companhia. Se abandonarmos este homem
vai ter um efeito muito negativo. É bom que tenham consciência que nos
preocupamos com eles em todas as circunstâncias, quando estão doentes, por
exemplo. Além disso, eu sei que este homem aqui, o Moba, um bom soldado e
combatente, nunca mais será o mesmo. Se suceder alguma coisa de grave ao
irmão, não sei mesmo se não pensará em desertar. Vai ter efeito nos outros.
Pensem bem. Para mim, por mais que digam, até o general, estes balantas não
 andam aqui por  amor à camisola.
Acho que lhe toquei. Virou-se para os outros alferes.
- Calma aí, Aiveca. O que é que vocês acham?
O Salvado disse o que eu esperava dele.
- Ir para montar uma emboscada não é a mesma coisa que arrastar um ferido
na mata. Não há a mesma calma nem as mesmas condições de defesa.
Tive pena que me tivessem agarrado quando, já no quartel, após o regresso de
Ponta Nova, gritei com ele, de G3 em punho, por me ter abandonado lá.
O Rodolfo falou também.
- Meu capitão, eu acho que o Aiveca tem razão. Doentes ou não, temos
que nos preocupar com os nossos homens. Para mim há muita mais razão
quando estão doentes… ou feridos. É o que deve fazer um comandante.
O Alves ficou calado um momento, todos esperámos Pareceu-me que estava a
ficar convencido.
- Mas, então, ó Aiveca, como é que você pensa fazer isso? Daqui até Bigene
são treze quilómetros…
- Eu sei, meu capitão. É um pouco mais longe do que quando vou para os lados
de Canja, para Ponta Nova, ou para Suar, para os lados de Bigene. Não é
muito. Estou a pensar ir pela mata e não pela picada, pois, com as chuvadas
que tem havido, deve estar cheia de lama e covas, e complicava a coisa. Vou
evitar as bolanhas também, claro. Não vou passar pelos sítios que os turras
costumam usar, para não haver problemas. Mas, para isso, pedia ao meu
capitão para me deixar levar o guia Bailo, ele conhece bem toda esta zona.
- Tá bem. E como é que vai levar o homem?
- Aqui o Moba vai-se encarregar disso, não é?
Olhei para o matulão, ele abanou a cabeça que sim. Mas vi que tinha de
acrescentar mais para as dúvidas do capitão.
- Vai numa maca, o Moba mais o Blulé, o Iofna e o Watna, por exemplo, que
também são gajos fortes, vão-se revesando.
- Muito bem. Eu vou dizer ao cripto para mandar uma mensagem ao
comandante de Bigene.
Agradeci-lhe, formei o pelotão e arranquei para Bigene com o Etudja.
Correu tudo bem. É claro que foi impossível não passar por carreiros que eu
sabia serem utilizados pelos carregadores do PAIGC, mas, felizmente, porque
eu não estava interessado, não encontrámos ninguém. Mas houve um episódio.
Quando estávamos a meio do caminho, talvez, perto de Capal, ia eu à frente
com o Bailo, o furriel Sousa, que vinha perto da maca, veio ter comigo.
- O Etudja saiu da maca.
- O quê?!
- Ele quer ir a pé, diz que pode andar. Estiveram todos a discutir, o Moba
também, mas ele diz que quer ir a pé.
Fui ter com ele.
- Abo pudi anda[15]?
- Sim, alfero[16].
Perguntei também ao Moba.
- Ermonsinhu pudi anda[17]?
- Sim, alfero.
Estranhei, face à perspectiva que havia dos males do homem. Mas, aqueles
Gajos tinham grande capacidade física, tudo era possível. Se era assim, dei
ordem para andar.
Tinham passado mais de três horas quando chegámos a Bigene. O alferes
médico veio logo à enfermaria. Mandou-o deitar. Só eu e o Moba é que ficámos
 ao pé da cama. Contei o que se passara, do sangue vomitado. Pôs-lhe um
termómetro, apalpou-lhe o estômago e o peito, virou-o de costas, pressionou-
as, auscultou-o durante alguns momentos. Encolheu os ombros e franziu os
lábios, sério, abanou a cebeça..
- Não vejo nada.
Juntou os sobrolhos primeiro, arqueou as sobrancelhas depois. Pegou numa
lanterna e mandou-o abrir a boca. Debruçou-se, iluminou lá para dentro e
observou.
Apagou a lanterna e endireitou-se, com um sorriso e ar descansado.
- O que ele tem é as gengivas com algumas feridas e infecções. O sangue era
daí. Acontece às vezes quando eles limpam os dentes com um pau.
Dei meia volta com a cabeça baixa. Imaginei o gozo do Salvado, até o capitão
se riria dos meus princípios de bom comando. Ia-me chatear com o Etudja?
Não. O que fiz tornaria a fazer. Teria é de ter mais cuidados. Aprender sempre.
Fui ter com o “doente”.
- Abo ferga dinti cu marmulanu[18]?
- Sim, alfero.
Filho da puta. Mas não adiantava mais. Tinha pensado pedir ao comandante de
Bigene para ficarmos lá essa noite. Mas agora não. O meu desencanto fez-me
dar ordem para regressarmos de seguida para Barro. Que se lixasse se na
noite seguinte tivéssemos de ir para o mato.


[1] Cozinheiro (crioulo)
[2] Tens de esperar que ferva um bocado, pões depois o arroz e o feijão (crioulo).
[3] A água a ferver empurra a dobrada (crioulo).
[4] Jogo de cartas muito comum na tropa.
[5] Perdido
[6] …tu queres? (crioulo)
[7] O meu irmãozinho adoeceu, está doente, caiu doente. (crioulo)
[8] Divindade dos balantas
[9] Categoria social dos balantas com 25 anos
[10] Categoria social dos balantas entre os 18 e os 20 anos
[11]O furriel enfermeiro já viu (crioulo)
[12] Não viu (crioulo)
[13] Base de apoio que o PAIGC tinha na fronteira, já dentro do Senegal. Ficava a 3km de Barro.
[14] As avionetas Do27 só tinham condições meteorológicas para largar, aterrar e voar se tivessem 5 km de visibilidade e 1500 pés de tecto de nuvens, isto é, se as nuvens estivessem cerca de 4,5 km acima do solo. Sucedia muitas vezes, no tempo das chuvas na Guiné, que as nuvens baixas e o nevoeiro não o permitiam. Havia pilotos que arriscavam em certas situações, mas nem todos. 
[15] Podes andar? (crioulo)
[16] Alferes
[17] O teu irmãozinho pode andar? (crioulo)
[18] Friccionas os dentes com pau-ferro? (crioulo)

2 de fevereiro de 2011

48-Fotos para a posteridade e histórias à volta delas

André Gomes,"o professor"
Era natural de Bissau, de etnia balanta mas cristão, e estudara no Liceu Honório Barreto antes de ser recrutado. Encarreguei-o, por isso, de dar aulas de português aos que quizessem. Chamavam-lhe "o professor" por causa disso.
André Gomes, o professor
André Gomes, o professor

Não foram muitos os seus alunos, porque aquilo era voluntário (nunca obriguei ninguém) a maior parte esteve-se borrifando para o português. Com os que aceitaram conseguiu estabelecer boas amizades.


Bletche, o guarda-costas preterido
O Bletche
Otcha, o meu guarda-costas
O Otcha
Um grupo de amigos
O Otcha, de G3, e o André Gomes.

O Bletche, o professor e o Otcha
O Bletche, o Otcha e o André
O Bletche, se bem que já soubesse o que queria dizer "um murro nos cornos", também quis ir às aulas do André. Tornou-se também amigo do Otcha, mas é claro que nunca soube que tinha sido preterido por mim como guarda-costas.
Assisti algumas vezes às aulas e era interessante ver "o professor" explicar palavras em português ao Otcha, que era fula. Como o André era balanta e não sabia fula, a base da explicação tinha de ser o crioulo.
O Bletche mostrou-se também muito interessado. Talvez por, tendo sido antes guarda-costas do alferes Rodolfo, tivesse visto que era bom saber mais português.
Mas a amizade entre estes três tinha outra razão mais profunda. É que eu, informalmente mas na prática, tinha tornado os três meus adjuntos por várias razões. O Otcha, é claro, por ser meu guarda-costas, o André por ser ponderado e ter influência sobre os outros, e o Bletche porque, desde o episódio do murro os cornos, vi que se tinha tornado um fiel admirador meu, além de que sabia que era bom operacional. Mas houve também outro factor de peso nesta minha escolha.
Na primeira noite que saí com eles para uma emboscada, já meu novo pelotão, fiquei um bocado admirado por vê-los todos a sair munidos de cantil. Não vai ser precisa assim tanta água, mas tá bem. Passada meia hora fui dar uma vista de olhos pelos locais onde estavam distribuídos. Espanto meu. Grande parte deles estava a dormir, os que não dormiam estavam quase bêbedos. Vi que os gajos tinham levado aguardente de cana no cantil. Só o Otcha não, porque era fula, e estava comigo. O Bletche estava bem desperto, eu sabia que ele bebia, mas mostrou-me que não tinha levado aguardente de cana. O André também não, estava atento, eu sabia que ele bebia às vezes, mas pouco, não era por hábito. Mas os outros, filhos da puta, estavam todos apanhados mais ou menos pela cana. Dei um raspanete aos furriéis e ficou assente que, no futuro, ninguém saía de cantil à noite.


Bons rapazes... bebedores tanbém