Já era noite tarde e o capitão Alves dizia-nos:
- “Esta madrugada é preciso ir montar uma emboscada no corredor que vem de Sano por Bucaur. Vai o Aiveca e o Rodolfo. O Salvado fica cá”.
- “Esta madrugada é preciso ir montar uma emboscada no corredor que vem de Sano por Bucaur. Vai o Aiveca e o Rodolfo. O Salvado fica cá”.
Fiquei lixado e ele notou-o.
- “Há algum problema, Aiveca? Não quer ir?”
- “Não é não querer ir. Mas eu acho que o meu capitão podia ter-nos avisado com mais antecedência. Os meus homens não estão a contar, e sei lá se vão estar em condições quando os for acordar de madrugada”.
O Rodolfo meteu o bedelho.
- “É pá, um gajo vai à caserna e obriga os gajos a levantar, lavam a cara e toca a andar”.
- “Falas bem pelos teus fulas porque dormem com a barriga cheia de
água. Mas os meus dormem agarrados à cana[1], sabes bem, e não vai ser
fácil acordá-los”.
- “Eu sei disso”, voltou o capitão. “Mas não podemos andar por aí a anunciar as nossas acções com antecedência. Se eles sabem falam por aí, há informadores e lá se vai o segredo. Além disso, em vez de montarmos a emboscada podemos é ser emboscados. Houve um informador nosso que me disse que hoje, durante o dia, estava em Sano um grupo que se preparava para atravessar o Cacheu na zona de Limane e Suar. E vocês sabem que eles também hão-de ter informadores aqui”.
Era a mesma merda. Este gajo também tinha a mania dos segredos e de guardar as informações para si. Os alferes que cumprissem ordens, mesmo de olhos tapados. Eu já estava farto disso, já me tinha chegado a experiência de Sinchã Jobel. Falta de confiança em mim também não dava, lembrei-me da história da fotografia do quartel.
- “Mas acha que nós íamos dizer aos homens onde era o local da emboscada? Só lhes diríamos que tínhamos de sair de madrugada, para estarem preparados para isso.”
Não teve mais argumentos ou quis cortar a conversa.
- “Pronto, pá. Vocês vão até à zona de Bucaur, que é por onde eles vão passar”.
O Rodolfo ficou preocupado.
- “Mas Bucaur fica muito longe, capitão, e é capaz de não ser o melhor local”.
- “Tem de ser porque que me garantiram que eles passariam lá.”
Passou-me pela cabeça uma interrogação sobre a anormalidade deste diálogo, que eu sabia não ser comum nas unidades em campanha, onde prevaleciam o comando e o cumprimento de ordens, sem reticências, pelo menos com a forma como aqui as estávamos a expressar. Talvez porque este gajo fosse especial. E daí, não sei. Havia muitos como ele. Era do quadro permanente, sem experiência, chegara há pouco tempo, que remédio senão ceder ao que os alferes já mais batidos que ele opinavam. Eu sabia que tinha uma certa aura, por ter estado já noutra companhia, por ter sido ferido e por ter voltado para a guerra. Além disso, ele sabia da história de Sinchã Jobel e que o meu anterior capitão morrera por não ter seguido o meu conselho. Se calhar não sabia é aquela do imbroglio da operação Inquietar I, onde também tive papel na solução. Quer o Roberto quer o Salvado já eram gajos batidos nisto, já estavam ali há meses. E também me pareceu que ele ficou um bocado enrascado com a barraca que tinha dado ao piloto da dornier.
- “Desculpe lá, meu capitão”, senti-me autorizado a dizer. “Bucaur é um local muito complicado. Está muito perto da base que eles têm em Sano, na fronteira do Senegal, onde têm grande apoio, às vezes com bigrupos[2]. Lá, só com dois pelotões e longe de Barro, podemos ter problemas se houver uma forte reacção deles. Aliás, já os tivemos quando eu e o Salvado lá fomos uma vez. Ele que conte”. Mas como o Salvado não disse nada continuei. “De qualquer modo, as acções na zona fronteiriça eram a nível de operação, om mais meios e, normalmente, com PCV (Posto de Controlo Volante). Neste caso trata-se de um mero reconhecimento com emboscada associada. Penso que será melhor irmos para Limane e Suar.”
Os outros alferes apoiaram-me. Houve mais uma troca e ideias e o Alves acedeu.
Saímos eu e o Rodolfo com os grupos de combate era ainda madrugada. Tínhamos combinado colocarmo-nos na ponta da margem esquerda da bolanha entre Limane e Suar, por indicação do nosso guia Bailo. Segundo ele havia ali vários carreiros e era por um deles que chegavam ao rio de Indafo, um pequeno afluente do Cacheu. Aí tinham, às vezes, pirogas escondidas no tarrafe para chegarem ao rio maior. Era um caçador experiente com grande conhecimento da zona e de todos os meandros da mata e das margens dos rios.
Emboscámo-nos, eu mais perto do afluente e o Rodolfo mais à frente, com a preocupação de nos virarmos para o
carreiro indicado para não haver fogo cruzado entre nós.
- “Ó Rodolfo, parece-me que é melhor deixá-los chegar mesmo até ao rio de Injafo. Assim eu apanho os da frente e tu os de trás”. Concordou.
Ali ficámos mais de uma hora sem ver nada e em silêncio. Precavera-me para que ninguém levasse cantil e estava confiante que estariam todos despertos. Só o ruído da bicharada e o zumbir dos mosquitos, situação a que eu já me habituara e que para o resto do pessoal não era problema.
Chegaram as cinco da manhã e já começara a clarear. Dei ao Bailo uma indicação que eu sabia ser do seu agrado.
- “Sibi palmera pa jubi”[3].
- “Io, nossalfero”[4].
- “Ku kuidadu i atenson kakuba verdi”[5].
O Quecuta Seidi tinha sido mordido por uma cobra de palmeira numa perna e tiveram que lha cortar. Pareceu-me zangado com esta minha observação.
- “Bailo djiru, sabi fasi. A mim ka Quecuta”[6].
- “Tá bem, anda lá”.
Subiu à palmeira mais próxima e lá ficou. De vez em quando eu olhava para ele para ver da sua reacção. A certa altura fez-me um sinal e apontou para o carreiro.
- “Turras”[7].
Fiz sinal aos meus para estarem quietos. Espreitei pelo capim e vi a cerca de cem metros dois indivíduos desarmados que vinham pelo carreiro estreito. O Rodolfo tinha-os deixado passar como combináramos. Atrás deles não vinha mais nenhum.
De repente, oiço dois tiros perto de mim. Eram de mauser! Olhei para a palmeira e vi o Bailo de arma ainda apontada. Parte do meu pessoal levantou-se agitado de arma em riste. Gritei-lhes “firma la![8]” e saiu-me toda a fúria em português.
- “Ó seu filho da puta, quem é que te mandou disparar? Salta já cá para baixo!”
O Roberto e o seu furriel Aguinaldo chegaram a correr vindos das suas posições.
- “O que é que foi, Aiveca?”
- “Foi este cabrão de merda que disparou sem ninguém lhe dar ordens para isso”. O Bailo já estava ao pé, todo encolhido.
- “Makaku pretu, bu buru suma![9]”, gritei-lhe. Estava furioso e apeteceu-me bater-lhe, mas contive-me. Era uma ofensa maior do que chamar-lhe nomes. Ele já tinha feito uma idêntica, não comigo mas com o Salvado. Duma vez só despejara do cimo de uma palmeira os cinco tiros da mauser, e todos certeiros. Era caçador por paixão e atirador viciado. Havia um outro aspecto especial para mim, fez-me pensar em eventual prejuízo próprio. É que ele tinha quatro mulheres e algumas vezes lhe assumei à porta a perguntar pretensioso se dormia com as quatro. Não queria pôr em risco essas hipóteses preciosas. Enfim, dera-me cabo de tudo. Ajudei-me com a recriminação de mim próprio por não ter previsto que o gajo podia fazer isto.
- “Dá cá a merda da mauser! Nunca mais te quero ver à minha frente! Desanda”. Entreguei a espingarda a um soldado.
- “Estão ali à vossa frente um gajo morto e um ferido, tem um tiro de raspão na coxa”, dizia-me o Roberto. “Estão lá uns gajos meus ao pé deles.”
- “O Bailo teve fraca pontaria hoje. Não vinham mais nenhuns a seguir a estes?”
- “É pá, não. Mas, quando ouvi os tiros, mandei fazer uma batida à frente na mata para ver se estavam lá mais alguns. Mas não me parece. De qualquer modo, se houver deve ser só população civil dos gajos, se não tinham reagido logo com fogachal. O Aguinaldo vai lá ver…”. Virou-se para o Aguinaldo, mas este já não estava ali. “Onde é que este caralho se meteu?”
- “Deixa lá. Vou chegar os meus homens para o pé dos teus”. Dei ordem de avançar pelo carreiro.
Encontrámos os dois corpos. Um estava morto no chão e o outro sentado e agarrado a uma perna. Estavam lá três soldados e o Aguinaldo, que estava de joelhos ao pé do morto. Espanto meu. Rezava de cabeça baixa.
- “Que estás aí a fazer, pá?”, mandou-lhe o Roberto.
- “Tás nisso agora?”.
- “Deixa-o estar. Vou mandar os meus para ajudarem os teus na batida.”
Disse ao Sousa para avançarem para a mata e se juntarem aos outros.
Percebi o Aguinaldo, de seu nome completo Aguinaldo Kindi Baldé[11]. Era mullah, um clérigo muçulmano. Estava, portanto, no seu ministério para a ocasião, como um padre católico também estaria. Spínola já lhe tinha pago o Hajj[12], como o fez a outros na intenção de captar a boa vontade dos islâmicos para a guerra que travava. Estava orgulhoso de ser el hadj[13], desejo de todo o muçulmano devoto, e cumpria bem os dois papéis, clérigo muçulmano e furriel do exército português.
Percebi o Aguinaldo, de seu nome completo Aguinaldo Kindi Baldé[11]. Era mullah, um clérigo muçulmano. Estava, portanto, no seu ministério para a ocasião, como um padre católico também estaria. Spínola já lhe tinha pago o Hajj[12], como o fez a outros na intenção de captar a boa vontade dos islâmicos para a guerra que travava. Estava orgulhoso de ser el hadj[13], desejo de todo o muçulmano devoto, e cumpria bem os dois papéis, clérigo muçulmano e furriel do exército português.
Entretanto chegaram todos do lado da mata.
- “Como é que foi, Sousa?”
- “Oh, não havia nada. Os gajos devem ter-se pirado todos. Veja lá que nem deixaram nada para trás. Acho que não eram carregadores, senão deixavam o material durante a fuga. Devia ser só civis que se deslocavam do Senegal para o Oio.”
- “O informador do capitão é mesmo um grande artista”, chasqueou o Roberto
- “Porque é que aqueles dois viriam à frente?”, uma interrogação que já fizera a mim próprio.
- “Se calhar eram batedores que vinham ver onde estavam as pirogas escondidas no tarrafe.”
Talvez fosse isso, era uma explicação. Não me apetecia muito meter-me às cegas no meio do tarrafe, enorme e complicado, para ver onde estariam as tais pirogas. Mandei a secção do Fernandes dar uma vista de olhos.
- "Dêem só um salto ali à margem do rio Injafo. Não se metam para mais longe."
Olhei para o Roberto.
- "Dêem só um salto ali à margem do rio Injafo. Não se metam para mais longe."
Olhei para o Roberto.
- “É pá, eu acho que é melhor irmo-nos embora daqui. Já não estamos cá a fazer nada. Além disso, não é bom continuarmos numa posição estática. Vê lá se consegues que o Aguinaldo acabe de rezar. Fala-lhe com calma, tá bem?”
Vi que conseguiu que ele se levantasse. Todos se preparavam para ir embora, tinham levantado o ferido, que coxeava agarrado de um lado e do outro. Olhei para o morto no chão. Ninguém lhe ligava.
- “Como é que é? O homem não pode ficar aqui desta maneira. Vamos enterrar o gajo”.
Os balantas do meu pelotão olharam-me de soslaio. Filhos da puta, preparavam-se para me fazer o mesmo que em Sambuiá, quando apanhámos um ferido do PAIGC e se recusaram a transportá-lo, dizendo-me que os jagudis haviam de comê-lo. Com essa lembrança não havia crioulo que me chegasse.
- “É já, caralho! Ocha, Besna, Iofna, Bletche, venham cá.”
Vieram, trombudos.
Chegou o Fernandes a dizer que tinham encontrado uma canoa. Fomos ver. E lá estava ela e era preciso destruí-la.
- "Bazucada para cima dela. Todos para longe."
Partiu-se e afundou-se.
Regressámos depois a Barro com o prisioneiro.
- "Bazucada para cima dela. Todos para longe."
Partiu-se e afundou-se.
Regressámos depois a Barro com o prisioneiro.
[1] Aguardente de cana, querida dos balantas.
[2] De acordo com o livro Guerra Colonial: Angola, Guiné, Moçambique (Lisboa: Diário de Notícias, s/d), da autoria de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, um bigrupo tinha 38/44 unidades e um bigrupo reforçado 70 unidades. Na Inter-Região Norte, Frente S. Domingos/Sambuiá (onde se situava Barro, teriam 630 unidades.
[3] Sobe á palmeira para observar (crioulo).
[4] Sim, nosso alferes (crioulo)
[5] Cuidado e atenção à cobra de palmeira (crioulo)
[6] O Bailo é inteligente, é fácil. Não sou o Quecuta (crioulo)
[7] Terroristas
[8] Quietos! (crioulo)
[9] Macaco preto, pareces mas é burro! (crioulo)
[10] A oração muçulmana dos mortos para pedir a Alá que perdoe o falecido.
[11] Em 1974, após o 25 de Abril, fugiu para o Senegal. Foram lá buscá-lo e foi um dos fuzilados pelo PAIGC.
[12] Peregrinação a Meca.
[13] Expressão que pode ser colocada na frente do nome das pessoas que já fizeram a peregrinação a Meca










