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16 de fevereiro de 2011

60-Emboscada... fracassada, e rezas.


Já era noite tarde e o capitão Alves dizia-nos:
- “Esta madrugada é preciso ir montar uma emboscada no corredor que vem de Sano por Bucaur. Vai o Aiveca e o Rodolfo. O Salvado fica cá”.
Fiquei lixado e ele notou-o.
- “Há algum problema, Aiveca? Não quer ir?”
- “Não é não querer ir. Mas eu acho que o meu capitão podia ter-nos avisado com mais antecedência. Os meus homens não estão a contar, e sei lá se vão estar em condições quando os for acordar de madrugada”.
O Rodolfo meteu o bedelho.
- “É pá, um gajo vai à caserna e obriga os gajos a levantar, lavam a cara e toca a andar”.
- “Falas bem pelos teus fulas porque dormem com a barriga cheia de
água. Mas os meus dormem agarrados à cana[1], sabes bem, e não vai ser
fácil acordá-los”.
- “Eu sei disso”, voltou o capitão. “Mas não podemos andar por aí a anunciar as nossas acções com antecedência. Se eles sabem falam por aí, há informadores e lá se vai o segredo. Além disso, em vez de montarmos a emboscada podemos é ser emboscados. Houve um informador nosso que me disse que hoje, durante o dia, estava em Sano um grupo que se preparava para atravessar o Cacheu na zona de Limane e Suar. E vocês sabem que eles também hão-de ter informadores aqui”.
Era a mesma merda. Este gajo também tinha a mania dos segredos e de guardar as informações para si. Os alferes que cumprissem ordens, mesmo de olhos tapados. Eu já estava farto disso, já me tinha chegado a experiência de Sinchã Jobel. Falta de confiança em mim também não dava, lembrei-me da história da fotografia do quartel.
- “Mas acha que nós íamos dizer aos homens onde era o local da emboscada? Só lhes diríamos que tínhamos de sair de madrugada, para estarem preparados para isso.”
Não teve mais argumentos ou quis cortar a conversa.
- “Pronto, pá. Vocês vão até à zona de Bucaur, que é por onde eles vão passar”.
O Rodolfo ficou preocupado.
- “Mas Bucaur fica muito longe, capitão, e é capaz de não ser o melhor local”.
- “Tem de ser porque que me garantiram que eles passariam lá.”
Passou-me pela cabeça uma interrogação sobre a anormalidade deste diálogo, que eu sabia não ser comum nas unidades em campanha, onde prevaleciam o comando e o cumprimento de ordens, sem reticências, pelo menos com a forma como aqui as estávamos a expressar. Talvez porque este gajo fosse especial. E daí, não sei. Havia muitos como ele. Era do quadro permanente, sem experiência, chegara há pouco tempo, que remédio senão ceder ao que os alferes já mais batidos que ele opinavam. Eu sabia que tinha uma certa aura, por ter estado já noutra companhia, por ter sido ferido e por ter voltado para a guerra. Além disso, ele sabia da história de Sinchã Jobel e que o meu anterior capitão morrera por não ter seguido o meu conselho. Se calhar não sabia é aquela do imbroglio da operação Inquietar I, onde também tive papel na solução. Quer o Roberto quer o Salvado já eram gajos batidos nisto, já estavam ali há meses. E também me pareceu que ele ficou um bocado enrascado com a barraca que tinha dado ao piloto da dornier.
- “Desculpe lá, meu capitão”, senti-me autorizado a dizer. “Bucaur é um local muito complicado. Está muito perto da base que eles têm em Sano, na fronteira do Senegal, onde têm grande apoio, às vezes com bigrupos[2]. Lá, só com dois pelotões e longe de Barro, podemos ter problemas se houver uma forte reacção deles. Aliás, já os tivemos quando eu e o Salvado lá fomos uma vez. Ele que conte”. Mas como o Salvado não disse nada continuei. “De qualquer modo, as acções na zona fronteiriça eram a nível de operação, om mais meios e, normalmente, com PCV (Posto de Controlo Volante). Neste caso trata-se de um mero reconhecimento com emboscada associada. Penso que será melhor irmos para Limane e Suar.”

Os outros alferes apoiaram-me. Houve mais uma troca e ideias e o Alves acedeu.
Saímos eu e o Rodolfo com os grupos de combate era ainda madrugada. Tínhamos combinado colocarmo-nos na ponta da margem esquerda da bolanha entre Limane e Suar, por indicação do nosso guia Bailo. Segundo ele havia ali vários carreiros e era por um deles que chegavam ao rio de Indafo, um pequeno afluente do Cacheu. Aí tinham, às vezes, pirogas escondidas no tarrafe para chegarem ao rio maior. Era um caçador experiente com grande conhecimento da zona e de todos os meandros da mata e das margens dos rios.
Emboscámo-nos, eu mais perto do afluente e o Rodolfo mais à frente, com a preocupação de nos virarmos para o 
carreiro indicado para não haver fogo cruzado entre nós.
- “Ó Rodolfo, parece-me que é melhor deixá-los chegar mesmo até ao rio de Injafo. Assim eu apanho os da frente e tu os de trás”. Concordou.
Ali ficámos mais de uma hora sem ver nada e em silêncio. Precavera-me para que ninguém levasse cantil e estava confiante que estariam todos despertos. Só o ruído da bicharada e o zumbir dos mosquitos, situação a que eu já me habituara e que para o resto do pessoal não era problema.
Chegaram as cinco da manhã e já começara a clarear. Dei ao Bailo uma indicação que eu sabia ser do seu agrado.
- “Sibi palmera pa jubi”[3].
- “Io, nossalfero”[4].
- “Ku kuidadu i atenson kakuba verdi”[5].
O Quecuta Seidi tinha sido mordido por uma cobra de palmeira numa perna e tiveram que lha cortar. Pareceu-me zangado com esta minha observação.
- “Bailo djiru, sabi fasi. A mim ka Quecuta”[6].
- “Tá bem, anda lá”.
Subiu à palmeira mais próxima e lá ficou. De vez em quando eu olhava para ele para ver da sua reacção. A certa altura fez-me um sinal e apontou para o carreiro.
- “Turras”[7].
Fiz sinal aos meus para estarem quietos. Espreitei pelo capim e vi a cerca de cem metros dois indivíduos desarmados que vinham pelo carreiro estreito. O Rodolfo tinha-os deixado passar como combináramos. Atrás deles não vinha mais nenhum.
De repente, oiço dois tiros perto de mim. Eram de mauser! Olhei para a palmeira e vi o Bailo de arma ainda apontada. Parte do meu pessoal levantou-se agitado de arma em riste. Gritei-lhes “firma la![8]” e saiu-me toda a fúria em português.
- “Ó seu filho da puta, quem é que te mandou disparar? Salta já cá para baixo!”
O Roberto e o seu furriel Aguinaldo chegaram a correr vindos das suas posições.
- “O que é que foi, Aiveca?”
- “Foi este cabrão de merda que disparou sem ninguém lhe dar ordens para isso”. O Bailo já estava ao pé, todo encolhido.
- “Makaku pretu, bu buru suma![9]”, gritei-lhe. Estava furioso e apeteceu-me bater-lhe, mas contive-me. Era uma ofensa maior do que chamar-lhe nomes. Ele já tinha feito uma idêntica, não comigo mas com o Salvado. Duma vez só despejara do cimo de uma palmeira os cinco tiros da mauser, e todos certeiros. Era caçador por paixão e atirador viciado. Havia um outro aspecto especial para mim, fez-me pensar em eventual prejuízo próprio. É que ele tinha quatro mulheres e algumas vezes lhe assumei à porta a perguntar pretensioso se dormia com as quatro. Não queria pôr em risco essas hipóteses preciosas. Enfim, dera-me cabo de tudo. Ajudei-me com a recriminação de mim próprio por não ter previsto que o gajo podia fazer isto. 
- “Dá cá a merda da mauser! Nunca mais te quero ver à minha frente! Desanda”. Entreguei a espingarda a um soldado.
- “Estão ali à vossa frente um gajo morto e um ferido, tem um tiro de raspão na coxa”, dizia-me o Roberto. “Estão lá uns gajos meus ao pé deles.”
- “O Bailo teve fraca pontaria hoje. Não vinham mais nenhuns a seguir a estes?”
- “É pá, não. Mas, quando ouvi os tiros, mandei fazer uma batida à frente na mata para ver se estavam lá mais alguns. Mas não me parece. De qualquer modo, se houver deve ser só população civil dos gajos, se não tinham reagido logo com fogachal. O Aguinaldo vai lá ver…”. Virou-se para o Aguinaldo, mas este já não estava ali. “Onde é que este caralho se meteu?”
- “Deixa lá. Vou chegar os meus homens para o pé dos teus”. Dei ordem de avançar pelo carreiro.
Encontrámos os dois corpos. Um estava morto no chão e o outro sentado e agarrado a uma perna. Estavam lá três soldados e o Aguinaldo, que estava de joelhos ao pé do morto. Espanto meu. Rezava de cabeça baixa.
- “Que estás aí a fazer, pá?”, mandou-lhe o Roberto.
Ergueu a cabeça, rosto compenetrado e sereno.
- Namaaz-e meyyef.[10]
- “Tás nisso agora?”.
- “Deixa-o estar. Vou mandar os meus para ajudarem os teus na batida.”
Disse ao Sousa para avançarem para a mata e se juntarem aos outros. 
Percebi o Aguinaldo, de seu nome completo Aguinaldo Kindi Baldé[11]. Era mullah, um clérigo muçulmano. Estava, portanto, no seu ministério para a ocasião, como um padre católico também estaria. Spínola já lhe tinha pago o Hajj[12], como o fez a outros na intenção de captar a boa vontade dos islâmicos para a guerra que travava. Estava orgulhoso de ser el hadj[13], desejo de todo o muçulmano devoto, e cumpria bem os dois papéis, clérigo muçulmano e furriel do exército português.
Entretanto chegaram todos do lado da mata.
- “Como é que foi, Sousa?”
- “Oh, não havia nada. Os gajos devem ter-se pirado todos. Veja lá que nem deixaram nada para trás. Acho que não eram carregadores, senão deixavam o material durante a fuga. Devia ser só civis que se deslocavam do Senegal para o Oio.”
- “O informador do capitão é mesmo um grande artista”, chasqueou o Roberto
- “Porque é que aqueles dois viriam à frente?”, uma interrogação que já fizera a mim próprio.
- “Se calhar eram batedores que vinham ver onde estavam as pirogas escondidas no tarrafe.”
Talvez fosse isso, era uma explicação. Não me apetecia muito meter-me às cegas no meio do tarrafe, enorme e complicado, para ver onde estariam as tais pirogas. Mandei a secção do Fernandes dar uma vista de olhos.
- "Dêem só um salto ali à margem do rio Injafo. Não se metam para mais longe."
Olhei para o Roberto.
- “É pá, eu acho que é melhor irmo-nos embora daqui. Já não estamos cá a fazer nada. Além disso, não é bom continuarmos numa posição estática. Vê lá se consegues que o Aguinaldo acabe de rezar. Fala-lhe com calma, tá bem?”
Vi que conseguiu que ele se levantasse. Todos se preparavam para ir embora, tinham levantado o ferido, que coxeava agarrado de um lado e do outro. Olhei para o morto no chão. Ninguém lhe ligava.
- “Como é que é? O homem não pode ficar aqui desta maneira. Vamos enterrar o gajo”.
Os balantas do meu pelotão olharam-me de soslaio. Filhos da puta, preparavam-se para me fazer o mesmo que em Sambuiá, quando apanhámos um ferido do PAIGC e se recusaram a transportá-lo, dizendo-me que os jagudis haviam de comê-lo. Com essa lembrança não havia crioulo que me chegasse.
- “É já, caralho! Ocha, Besna, Iofna, Bletche, venham cá.”
Vieram, trombudos.
- “Fazer uma cova aqui com as facas de mato. Vá lá.”


Fizemos uma cova e enterrámos o homem. 
Chegou o Fernandes a dizer que tinham encontrado uma canoa. Fomos ver. E lá estava ela e era preciso destruí-la.
- "Bazucada para cima dela. Todos para longe."
Partiu-se e afundou-se.


Regressámos depois a Barro com o prisioneiro.

[1] Aguardente de cana, querida dos balantas.
[2] De acordo com o livro Guerra Colonial: Angola, Guiné, Moçambique (Lisboa: Diário de Notícias, s/d), da autoria de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, um bigrupo tinha 38/44 unidades e um bigrupo reforçado 70 unidades. Na Inter-Região Norte, Frente S. Domingos/Sambuiá (onde se situava Barro, teriam 630 unidades.
[3] Sobe á palmeira para observar (crioulo).
[4] Sim, nosso alferes (crioulo)
[5] Cuidado e atenção à cobra de palmeira (crioulo)
[6] O Bailo é inteligente, é fácil. Não sou o Quecuta (crioulo)
[7] Terroristas
[8] Quietos! (crioulo)
[9] Macaco preto, pareces mas é burro! (crioulo)
[10] A oração muçulmana dos mortos para pedir a Alá que perdoe o falecido.
[11] Em 1974, após o 25 de Abril, fugiu para o Senegal. Foram lá buscá-lo e  foi um dos fuzilados pelo PAIGC.
[12] Peregrinação a Meca.
[13] Expressão que pode ser colocada na frente do nome das pessoas que já fizeram a peregrinação a Meca

13 de fevereiro de 2011

59-Hino de Gandembel

Hino de Gandembel

58-Babel Negra

Diz o guineense Doutor Leopoldo Amado:
«Em 1935, Landerset Simões publica «A Babel Negra» que é uma espécie de antologia etnográfica das diferentes tribos guineenses. Trata-se, em nossa opinião, de um dos estudos etnoantropológicos mais cientificamente elaborados sobre a Guiné.
Além de Landerset Simões procurar as origens remotas das tribos guineenses, que em alguns casos remontam da Oceânia, pela primeira vez um autor colonial se debruçou sobre a arte guineense, com especial destaque para a Bijagó e Nalú.» Obra existente na Biblioteca Nacional Digitalizada.

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57-A Guiné através da História

O Coronel António Leite de Magalhães foi um quadro da administração colonial, tendo sido Governador da Guiné Portuguesa de 1927 a 1931. Esta pequena obra é muito elucidativa para se saber como foram dominados os povos da Guiné ao longo dos séculos. Foram muitas guerras e muitas lutas. Como eram gentios (designação então dada à generalidade dos povos das colónias não cristãos, e aqui particularmente aos guineenses) foi muito usada a espada e não a cruz… Vão fotografias contidas no livrinho.(Carregar em "menu" e depois em "Vieew Fullscreen" para ver em ponto grande. Bater com o rato no lado direito para avançar na litura, ou no lado esquerdo para voltar atrás)

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56-Caverna de Nhampasseré- A Guiné também teve Pre-história



Texto de Amílcar Mateus, que foi chefe da Missão Antropológica e Etnológica da Guiné na década de 50 do século XX In “Acerca da Pré-história da Guiné”, publicado no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume IX, Nº 35, Julho 1954, pg. 463: 

A caverna de Nhampasseré fica situada a cerca de 12 quilómetros de Nova Lamego, internada no mato a Sul da estrada que liga esta sede de circunscrição com Bafatá.
Para lá se chegar é necessário seguir aquela estrada e, a cerca de 4 quilómetros de Nova Lamego, virar para Sul e meter por um caminho que dela parte em direcção às povoações de Embalocunda e de Fula-mansa. Daqui segue uma picada através da floresta, que pára 2 quilómetros antes da caverna, havendo por isso a necessidade de caminhar durante esses dois quilómetros por uma vereda.
A caverna abre-se num morro de grés e tem a entrada maior, com cerca de 2,15 m de altura, voltada para Norte. Esta entrada dá para um átrio bastante amplo, donde partem 6 corredores em várias direcções, alguns dos quais abrem para o exterior. Alguns deles são altos e as suas paredes estão polidas pelo roçar das feras que aí se acoitam, outros são muito baixos e para se andar neles é preciso fazê-lo de rastos.
Isolada desta caverna, mas aberta também no mesmo morro, há uma outra, bem mais pequena que a anterior e que não oferece interesse de maior.
Explorada a superfície do pavimento da caverna grande, tratámos de abrir uma vala de exploração na direcção N-S. Foi preciso aprofundá-la até cerca de 80 cm para encontrarmos as primeiras peças de interesse: alguns fragmentos de cerâmica. Acharam-se depois outros, bem como instrumentos líticos de três naturezas petrográficas: dolerito, quartzo e grés.
Os fragmentos de cerâmica são todos pequenos, não podendo por isso avaliar-se nem a forma nem as dimensões dos vasos a que pertenceram. Foram confeccionados com barro vermelho grosseiro e apresentam gravura incisa variada.”
Outros objectos tinham já sido encontrados em Bolama e numa colina da região do Boé por outras expedições.

55-Amílcar Cabral engenheiro agrónomo


AMÍLCAR LOPES CABRAL
Nasceu em Bafatá a 12 de Setembro de 1924. Em 1932 vai para Cabo Verde, completando no Mindelo o curso liceal em 1943. Emprega-se na Imprensa Nacional, na Praia, em 1944, mas ingressa no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, em 1945, terminando o curso em 1950 e indo trabalhar para a Estação Agronómica de Santarém como estagiário na Brigada de Solos. Contratado pelo Ministério do Ultramar como adjunto dosServiços Agrícolas e Florestais da Guiné, regressou a Bissau em1952. Iniciou seu trabalho na granja experimental de Pessubé percorrendo grande parte do país, de porta em porta, durante o Recenseamento Agrícola de 1953, e adquirindo um conhecimento profundo da realidade social vigente na Guiné. Suas actividades políticas, iniciadas já em Portugal, reservam-lhe a antipatia doGovernador da colónia, Melo e Alvim, que o obriga a emigrar paraAngola em 1955, embora lhe permita voltar uma vez por ano, por razões familiares.
Em pormenor, sinais da craveira intelectual do criador e líder do PAIGC:
Conferências e Congressos: Conferência Arachide-Mils (Bambey, Senegal, SET.1954)XXIII Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências (Coimbra, Portugal, JUN.1956)XXIV Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências (Madrid, Espanha,1958)
Funções públicas: Membro (estagiário) da Brigada dos Solos de Santarém, da Estação Agronómica Nacional, 1950/1951; Engenheiro agrónomo contratado pela Repartição Provincial dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné Portuguesa, 1953/1954; Ajunto do Chefe da Repartição Provincial dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné Portuguesa, 1953/1954; Director do Posto Agrícola Experimental de Pessubé (Bissau, Guiné Portuguesa), 1953/1955; Chefe interino da Repartição Provincial dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné Portuguesa, 1954 e 1955; Inspector do Comércio Geral da Guiné (por substituição), 1954 e 1955; Responsável pela planificação e execução do Recenseamento Agrícola da Guiné Portuguesa, 1953, percorrendo grande parte do país, de porta em porta, adquirindo um conhecimento profundo da realidade social ali vigente; Delegado do Governo português à Conferência Arachide-Mils (Bambey, Senegal), 1954Membro do Comité Executivo do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, 1954/1955; Colaborador extraordinário (Investigador) da Junta de Investigação do Ultramar, Lisboa, 1956/1960;Colaborador extraordinário (Investigador) da Direcção Geral dos Serviços Agrícolas, Lisboa, 1958/1960;Chefe de Secção da Brigada de Estudos de Defesa Fitossanitária (Junta de Investigação do Ultramar), 1957/1960; Chefe de Secção do Laboratório da Defesa Fitossanitária dos Produtos Armazenados (Direcção geral dos Serviços Agrícolas), 1958/1960; Responsável pela elaboração de um Plano da Defesa Fitossanitária da Semente do Arroz na Guiné Portuguesa, 1959; Responsável pela elaboração de um Plano de Estudo da Defesa Fitossanitária do Amendoim na Guiné Portuguesa, 1959
Outras funções: Colaborador do Professor J.V. Botelho da Costa, da cadeira de Pedologia e Conservação do Solo, do Instituto Superior de Agronomia, Lisboa, para os estudos referentes aos solos de Angola, 1955/1960; Colaborador permanente do Professor Ario L. Azevedo, da cadeira de Agricultura Tropical, do Instituto Superior de Agronomia, Lisboa, para os estudos referentes à tecnologia do solo nalgumas regiões de Angola, 1955/1960; Assistente permanente do Professor C.M. Baeta Neves, da cadeira de Entomologia Agrícola, do Instituto Superior de Agronomia, Lisboa, para os estudos referentes à defesa fitossanitária dos produtos agrícolas em Portugal e no Ultramar, 1956/1960 
Organizador e Director da Brigada de Estudos Agrológicos da Sociedade Agrícola de Cassequel, Angola, 1955/1956; Organizador e Director da Brigada de Estudos Agrológicos da Companhia de Açúcar de Angola, 1956/1957; Responsável do Estudo Agrológico das Plantações de Caféeiros da Companhia Angolana de Agricultura, Amboim, Angola, 1958 
Responsável do Estudo Preliminar dos Solos da Fazenda Longa-Nhia, Companhia Angolana de Agricultura, 1958; Organizador e Director da Brigada de Estudos Agrológicos da Companhia Angolana de Agricultura, 1959Director do Gabinete de Estudos Agronómicos, Lisboa (organismo criado pelos Engenheiros Agrónomos e Silvicultores, ao serviço da Agricultura e Silvicultura em Portugal e nos territórios do Ultramar), 1958/1960; Encarregue do Estudo de Viabilidade da cultura industrial da beterraba açucareira em Portugal, pelo Entreposto Mercantil Lda., Lisboa, 1959; Responsável pela Missão de Estudo referente à cultura e industrialização da beterraba açucareira na Europa, 1959; Membro efectivo da Sociedade de Ciências Agronómicas, Lisboa, 1955/1960.
Investigação e experimentação: Solo – Características físicas, utilização e conservação; Agricultura tropical – Prática de cultivo, fertilização e adaptação de culturas 
Defesa fitossanitária – Micro-climas, condições de armazenamento, características físicas dos produtos e desenvolvimento das pragas
Trabalhos publicados: O problema da Erosão do Solo. Contribuição para o seu estudo na região de Cuba (Alentejo), Instituto Superior de Agronomia, Lisboa, 1951; O conceito de Erosão, Instituto Superior de Agronomia, Lisboa, 1951; Boletins Informativos do Posto Agrícola de Pessubé (Bissau), nºs. 1 a 5, Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné, 1953/1954; Sobre a roseta, Ecos da Guiné, 1953; Sobre a mecanização na Agricultura, Ecos da Guiné, 1953; As jutas e seus sucedâneos na Guiné, Ecos da Guiné, 1953Para o conhecimento do problema da Erosão do Solo na Guiné, Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, nº. 33, 1954; A utilização do solo na África negra, Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, nº. 34, 1954; Sobre a mecanização da Agricultura na Guiné, Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, nº. 34, 1954; Razões, objectivos e processo de execução do Recenseamento Agrícola da Guiné (colaboração), Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, nº. 33, 1954; Queimadas e pousio na área de Fulacunda, Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, nº. 35. 1954; A contribuição dos povos da Guiné para a Produção agrícola, I. Superfície cultivada, Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, nº. 36, 1954; Sobre o ciclo da cultura do amendoim na França ultramarina. Relatório da Conferência Arachide-Mils, 1954; Feux de Brousse et Jachères dans le Cycle Cultural Arachide-Mils, Bulletin Agronomique, nº. 12, Ministère France Outre-Mer, Comptes rendus de la Conférence Arachides-Mils, Bambey, 1954; A participação portuguesa na Conferência Arachide-Mils, Bambey, Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, 1954; Os aluviões do Catumbela (Cassequel, Angola), características e utilização, Sociedade Agrícola do Cassequel, 1955; Carta de Solos da Propriedade do Cassequel (3.600 hectares), escala 1:5.000, Sociedade Agrícola do Cassequel, Luanda, 1956 (colaboração); Microclima e microclimas na Defesa Fitossanitária dos Produtos Armazenados, Anais (Estudos de Defesa Fitossanitária), vol.XI, tomo II, Instituto de Investigações do Ultramar, Lisboa, 1956; Micro-clima num entreposto de Malange (Angola), Anais (Estudos de Defesa Fitossanitária), vol. XI, tomo II, Junta de Investigação do Ultramar, Lisboa, 1956; Os solos aluvianais do Dande (Angola), características e utilização, Companhia de Açúcar de Angola, 1957; Carta de Solos da Fazenda Tentativa (Dande), (4.000 hectares), escala 1:5.000, Companhia do Açúcar de Angola, 1957 (colaboração)Os Solos do Dembe (Angola) (3.000 hectares), escala 1:5.000, Companhia do Açúcar de Angola, 1957; Carta de Solos do Dembe (Angola) (3.000 hectares), escala 1:5.000, Companhia do Açúcar de Angola, 1957; Recenseamento Agrícola da Guiné – 1953, Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, nº. 43, 1957; Para uma Classificação Fitossanitária do Armazenamento, colecção Estudos, Ensaios e Documentos, nº. 51, Junta de Investigação do Ultramar, 1958; Resultados da Inspecção Fitossanitária dos Armazéns de Produtos Agrícolas no distrito de Lisboa, colecção Estudos, Ensaios e Documentos, Junta de Investigação do Ultramar e Direcção geral dos Serviços Agrícolas, 1958 (no prelo)Da Infestação dos Produtos Agrícolas armazenados em Portugal, colecção Estudos, Ensaios e Documentos, Junta de Investigação do Ultramar e Direcção Geral dos Serviços Agrícolas, 1958 (no prelo); Deterioração e Contaminação dos Produtos Armazenados, colecção Estudos, Ensaios e Documentos, Junta de Investigação do Ultramar, 1958 (no prelo); Efeitos do Ataque das Pragas sobre os Produtos Armazenados, colecção Estudos, Ensaios e Documentos, Junta de Investigação do Ultramar, 1958 (no prelo) e Garcia de Orta, vol.8 (nº. 1), 1-426, 1960; Reconhecimento Agrológico da Fazenda Longa-Nhia, Companhia Angolana de Agricultura, Luanda, 1958 (colaboração); Carta de Solos da Fazenda S. Francisco, Companhia do Açúcar de Angola, Luanda, 1958 (colaboração) 
Os Solos e a Cultura do Café nas Roças do Amboim e do Seles, Companhia Angolana de Agricultura, Luanda, 1959 (colaboração)Estudo Preliminar dos Solos da Longa-Nhia (Angola), Companhia Angolana de Agricultura, Luanda, 1959; Da viabilidade da Cultura Industrial da beterraba açucareira em Portugal, Entreposto Mercantil Lda., Lisboa, 1959 
A Agricultura na Guiné Portuguesa. Problemas e características fundamentais, Agros, vol. XLII, nº. 4, Instituto Superior de Agronomia, Lisboa, 1959; Da cultura e industrialização da beterraba açucareira. Contribuição para o seu estabelecimento em Portugal. Entreposto Mercantil Lda., Lisboa, 1959Das Condições Fitossanitárias dos porões dos navios mercantes no porto de Lisboa. Garcia da Orta, Junta de Investigação do Ultramar, 1959 (no prelo) 
Das Condições Fitossanitárias dos Entrepostos do porto de Lisboa, colecção estudos, Ensaios e Documentos, Junta de Investigação do Ultramar, 1959 (no prelo); Carta de Solos da Fazenda Longa-Nhia (Angola), (4.000 hectares), escala 1:5.000, Companhia Angolana de Agricultura, 1960
Relatórios e outros trabalhos inéditos: Um Projecto para o estudos dos Solos de Cabo Verde, Estação Agronómica Nacional, Lisboa, 1951; Possibilidades da cultura industrial das Jutas na Guiné, Repartição dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné Portuguesa, Bissau, 1954; O Problema do Arroz na Guiné, repartição dos Serviços Agrícolas e Florestais e Inspecção do Comércio Geral, Bissau, Guiné, 1954; Projecto de Recuperação dos Solos para a Agricultura na Guiné. Repartição dos Serviços Agrícolas e Florestais, Bissau, 1955 
Relatório do Recenseamento Agrícola da Guiné (original), Serviços Agrícolas e Florestais, Bissau, 1954; Possibilidades da Cultura Industrial da Cana-de-açúcar na Guiné, Entreposto Mercantil lda., Lisboa, 1955; Os Solos da Guiné Portuguesa, curso realizado no âmbito da cadeira de Pedologia e Conservação do Solo, Instituto Superior de Agronomia, Lisboa, 1956 
Possibilidades da Cultura da Bananeira na Guiné Portuguesa, Sociedade Comercial para o Fomento da Agricultura e da Indústria na Guiné (SCOFAI), Lisboa, 1957; Possibilidades da Exploração racional das Pastagens nas Ilhas dos Bijagós, Guiné Portuguesa, Sociedade Comercial para o Fomento da Agricultura e da Indústria na Guiné (SCOFAI), Lisboa, 1957
Obras em preparação: Os aluviões salgados em Angola; Os aluviões de Angola e a Agricultura; A cultura do cafeeiro em Amboim e Selles (Angola)O solo e a morte súbita do cafeeiro em Angola; O custo da produção do amendoim na Guiné Portuguesa; O custo da produção do arroz na Guiné Portuguesa.
(Dados da Fundação Mário Soares sobre a actividade de Amílcar Cabral como engenheiro agrónomo, e colhidos, com a devida vénia, emhttp://senegambia.blogspot.com/.)

Um exemplo de
um dos seus estudos, publicado no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa Nº 36, Volume IX, de Outubro de 1954:
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54-O Nosso Primeiro Livro de Leitura

Este é um dos livros que o PAIGC tinha nas “escolas do mato” para ensinar o Português
(agradecimentos ao camarada António Pimentel que é quem tem este exemplar).
«Estas escolas [do mato] situavam-se no interior da Guiné ou em instalações que possuía junto à fronteira e destinavam-se quer a crianças quer a adultos. A instrução aí ministrada ia até à 3ª classe. Os alunos seleccionados nessas escolas iam tirar a 4ª classe nas “escolas ao nível Inter-Região” em regime de internato, donde, também por escolha, podiam passar para a “Escola Piloto” para uma 5ª classe [foi criada uma em Retoma, nos arredores de Conakry, em 23 de Janeiro de 1965 por Luís Cabral; no entanto, já existia naquela cidade, desde 1960, uma escola de quadros políticos onde era dada também a instrução primária; dizem também Lourenço Ocuni Cá e Messias Ferreira, da Universidade de Mato Grosso, que existiu uma outra na zona de Bolama] . E, daí, os melhores podiam ser escolhidos para escolas no estrangeiro» - dados do SUPINTREP 31, da Repartição de Informações do CTIG.
Em Fevereiro de 1965 foi criado o Instituto Amizade, apoiado pela Suécia e pela Holanda, para apoio e educação das crianças, tendo a seu cargo, espalhados por toda a Guiné, 10 internatos, com cerca de 2.000 alunos, e 12 semi-internatos (para os que viviam em tabancas dispersas e não tinham vaga nos internatos) com 750 alunos. O objectivo era ensinar a ler, escrever e contar, mas também, é claro, mobilizar para as razões da luta em curso.
Segundo Anabela Maria Barradinhas Roque, Mestre em Estudos Africanos pelo ISCTE, «164 escolas foram criadas pelo PAIGC, no período de 1964 e 1973. Estas chegaram a atingir o número de 14.531 alunos inscritos. E o seu currículo visava o treino político, o treino técnico e a transformação dos comportamentos individuais e de grupo».
"O Nosso Primeiro Livro de Leitura" das escolas do PAIGC(carregar em Menu e, depois, em View Fullscreen para ver em ponto grande)
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53-O caçador eo crocodilo



É um conto guineense que se encontra no livro "O crioulo da Guiné-Bissau, Filosofia e Sabedoria", de Benjamim Pinto Bull. Esta imagem é de um desenho de Cathie Peyredieu Pinto Bull e está no livro ilustrando o conto. Vai em crioulo e e português, como está lá, para relembrar aqueles falares. Parece-me esta "storia" uma dúvida da filosofia africana sobre o conceito moral do "fazer bem sem olhar a quem", além de um alerta para o cuidado a ter com as "feras" que, apesar das falinhas mansas, sempre devoram tudo, pois é o que lhes está na natureza e na sua tradição. Além de uma recomendação para a atenção a ter com aqueles que connosco conviveram e nos foram úteis na vida, para não provocar a vingança dos defraudados e abandonados. E que as soluções podem vir dos mais simples, mais indefesos e mais pequenos no meio da “floresta”.
O caçador e o crocodilo (Montiadur ku lagartu)
Um caçador foi à caça; deparou-se com um crocodilo, que também estava à espera de uma vítima. Quis o caçador matá-lo, porém o crocodilo suplicou-lhe para lhe não tirar a vida, dizendo (Montiadur sai pa ba montia, i ba oca lagartu tambe sai montia; i misti fugial, kil pidil):
- Vim cá simplesmente à procura de qualquer coisa para matar a fome. Não encontro o caminho do regresso. Leva-me, por favor, até à margem do rio (Ten pasensa, ka bu matan; n bi nã sõ buska kumida. N bin iara ku kamiñu di riba; ten pasensa, leban roda di riu).
Respondeu-lhe o caçador(Montiadur falal):
- Eu bem queria levar-te, porém receio que me comas (N misti lebau, ma n ka osa, bu ta Bin kumen).
- Juro que não te como (Kil juramenta kuma i ka ta kumel).
Propôs-lhe então o caçador (Montiadur falal):
- A não ser que te amarre a boca (Sõ si n marau boka).
Atalhou o outro (Kil falal):
- Amarra-me a boca (Maran boka).
O caçador amarrou-lhe a boca com uma corda, em seguida, ligou-lhe todo o corpo a um pau, e levou-o às costas até à margem do rio. Chegados ao destino, o caçador quis pô-lo no chão; o crocodilo pediu-lhe (Montiadur maral boka ku korda, i maral kurpu na po, i kargal pa lebal riu. Oca ke ciga na roda di riu, montiadur misti disil. Lagartu pidil):
- Leva-me para mais longe (Leban ma lunju).
O caçador entrou na água até aos joelhos. Suplicou-lhe o crocodilo de novo (Kil lebal tena kau k’ iagu ta cigal na juju. I misti disil, kil falal):
- Leva-me ainda um pouco mais longe (Leban ma lunju, tem pasensa).
O caçador aceitou. Disse-lhe então o crocodilo (I lebal ma linju, i disil. Lagartu rabida i falal):
- Desamarra-me a boca, caso contrário não poderei comer (Dismaran boka si ka sin n ka ta pudi kume).
Assim que o caçador lhe desamarrou a boca, o crocodilo disse-lhe (Montiadur ka dismaral boka, lagartu falal):
- Prestaste-me, é certo, um serviço, mas agora tenho que te comer, única e exclusivamente para respeitar a nossa tradição; os meus pais comiam todos os homens quantos encontravam pelo caminho (Bu judan me, ma gosi n na kumeu suma k’ ña pape, ku ña donas ta fasi ba pekadurus ke ta paña ba).
Foi a vez do caçador de pedir com insistência para não ser comido. O crocodilo rejeitou categoricamente tal pedido. O caçador fez-lhe então a seguinte proposta (Montiadur falal):
- Estou inteiramente de acordo que me comas, mas proponho que previamente peçamos parecer de três transeuntes (N seta pa bu kumen, ma purmeru no tem k’ punta tris limarias k’ na bin pasa li: ken ke tem rasõ?).
Um cavalo velho foi o primeiro a passar por lá. Cada um lhe contou a aventura a seu modo. Escutou com muita atenção as duas versões, depois dirigiu-se para o crocodilo (Purmeru limaria k’ pasa i un cabalu beju. Kada ki kontal storis di si manera. Lebri Kabalu obi tudu i kaba i fala lagartu):
- Come-o como é vosso hábito. O homem é muito ingrato; quando eu era novo, com todo o vigor, cuidava bem de mim. Agora faz de conta que não me conhece (Kumel, suma k’ bo kustuma ta fasi.. Pekadur ngratu di mas; ocan nobu ku forsa, i ta jubin ba diritu, gosi i ta fasi suma i ka kunsin).
Apareceu depois uma velha; ela ouviu as duas versões da mesma aventura, e disse logo ao crocodilo (Beja Bin na pasa; i obi storia tudu, i fala lagartu):
- Come-o; os homens são todos ingratos. Quando jovem e bela, o meu marido jurou-me que só haveria de me amar a mim. Agora casou com raparigas novas, e nem sequer olha para mim. Come-o, segundo as vossas tradições (Kumel; pekadurus tudu e ngratu; ocan nobu, n bunitu ba; ña omi jurmenta ba kuma ami sõ ki na kiri. Gosi i toma minjeris nobu; i ka ta jubin mas. Kumel suma k’ bo kustuma ta fasi).
O caçador estava desesperado, não vislumbrando nenhuma solução favorável à sua situação. Chegou a lebre; cada um lhe expôs a aventura a seu modo. A lebre disse (Montiadur foronta, i ka sibi ke ki na fasi. Lebri bin na pasa, kada ki kontal si storia. Lebri fala elis):
- Estais muito longe, disse-lhes a lebre; já estou velha e oiço muito mal. Vinde, pois, aqui à margem, para que eu vos oiça melhor (Bo sta lunju di mas; n beju gosi, ña oreja ka stan diritu; bo Bin li na roda di riu pa n obi bo storia).
Ambos saíram da água e chegaram perto da lebre a quem contaram de novo tudo. Disse-lhes a lebre (E sai, e ciga na roda di riu, e kontal tudu. Lebri fala elis):
- Custa-me acreditar. Como é que este homenzinho pôde carregar com um gigante como tu? Para dar o meu parecer é preciso eu ver com os meus olhos quanto estais a contar-me. Portanto, regressai à floresta; que o caçador te amarre de novo e traga até aqui (N ka fia e bo storia, n ka fia kuma es omi pikininu sin, pudi kargau, suma bu garandi sin. Sõ si n oja ku ña uju kuma kusasedu; sõ si bo riba na matu, montiadur marau mas, i kargau, i tisi).
O crocodilo e o caçador aceitaram. Quando chegaram à floresta, a lebre disse ao caçador para amarrar melhor o crocodilo e perguntou-lhe (Lagartu ku montiadur seta. Oca ke ciga na matu, lebri fala montiadur pa Mara lagartu mas inda; i puntal):
- A vossa casta não come crocodilo (Abos, na bo rasa o ka ta kuma lagartu)?
O caçador respondeu (Montiadur falal):
- Claro que comemos (No ta kumel)..
A lebre disse-lhe (Kil falal):
- Salvaste-lhe a vida, e ele quis comer-te; agora, leva-o para casa e comei-o em família; tu a tua mulher e os teus filhos (Bu salbal, i misti kumeu; gosi lebal kasa, bo kumel ku bu minjer, ku bu fijus)