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28 de fevereiro de 2011

72-Choro, ataque, a mulher do capitão e o Quecuta zangado


   Aquela barulheira estava a dar cabo de mim. Bombolons, danças e gritos associados eram demais para os meus tímpanos frágeis. Manga[1] de grogu[2] e bit-bit[3] possuíam aquelas gajas e os panelões de bianda[4] e carne davam-lhes força para aquelas danças loucas, para o flutuar dos braços e o agitar frenético das pernas, para o balanço ritmado das mamas. Disso estava a gostar, e era o que me mantinha ali no meio daquela chinfrineira de altos decibéis. Conventuário forçado pelo deus das armas, aquelas pernas e coxas e aqueles seios fugidios eram o meu horizonte do desejo de mulheres belas. Era um choro[5] dos balantas da tabanca[6].
Eles e mandingas eram os seus habitantes, sendo o chefe da tabanca um mandinga, o Quecuta Seidi. Não havia grandes problemas entre eles como houvera antes da guerra, quando havia régulo que era um balanta mané[7], mas os mandingas maioritários não gostavam. Agora só havia chefe de tabanca.
A mulher do capitão tinha chegado numa DO para estar uns dias com ele.
- “Tínhamo-nos casado há pouco tempo quando eu fui destacado. Quis vir da Metrópole porque estava com saudades…e eu também, é claro”, confidenciou-me a sorrir.
Entendi-o. A D. Eugénia, era assim que começámos a tratá-la, respeitosamente, embora nos perturbasse os olhares, ela era morena e tinha uns olhos parecidos com a minha florista, e eu também sentia saudades da Júlia. Procurava às vezes a ajuda do Bailo, e do Quecuta também, para matá-las, mas não era a mesma coisa evidentemente. Ia suprindo.
- “É um bocado perigoso. Isto não é um local para ela”, observei-lhe.
- “É pá, mas há quanto tempo é que não há um ataque?”.
- “Sim, é verdade. Mas não sei, não somos nós que decidimos quando há...”
Nesse dia não houver saídas para o mato. O Alves falou à mulher que havia um choro. Intrigou-se com o nome mas ele explicou-lhe o que era e ela mostrou-se interessada em ver. E fomos desafiados para os acompanhar.
- “Mas é só para ver, não é? É que eu não me meto no meto no meio dessa confusão”, avisei logo.
Quando já lá estávamos, a certa altura houve um palerma qualquer de gorro
vermelho[8] que me veio desafiar para entrar. O gajo sabia que eu era o alferes dos
balantas, claro…


Tive de lhe dar uma desculpa.
-  “Yantey, bi tuli ma agulu[9].
- “Bii ta  oom[10], e riu-se.
- “Vai à merda, pá”. Olhei atrapalhado para a D. Eugénia.
- “Desculpe, D. Eugénia.”
- “Não dei por nada. Sou casada com um militar, era bonito se eu fosse ligar a tudo o
que vocês dizem… mas ouvi-o falar com aquele homem. O senhor alferes Aiveca… é
Aiveca que se chama, não é? Nome estranho”.
Fazia um esforço para a ouvir. Detestava diálogos no meio de barulhos, parte do que
me diziam muitas vezes não conseguia entender e para responder tinha de falar alto,
era o raio dos ouvidos. Além do mais estava mais interessado no alvo dos olhares
gulosos do Salvado, eram as  mamas e aos cus das bailarinas, e isso não era preciso

ouvir, além de não estar a ver porque é que me vinha com esta coisa no meio daquilo.
Mas dei conversa.
- “Conhece o Alentejo?”, gritei-lhe.
- “Não, nunca lá estive.”
- “Devia ir lá, terra bonita e boa gente. Aiveca é o nome dado a um arado especial
atrelado aos tractores. Não me pergunte coisas técnicas sobre ele que eu não sei. Por
isso, lá na terra, no Penedo Gordo, o meu pai Eduardo, que era tractorista, era o
Eduardo Aiveca. E a mim, ao filho António, todos me chamavam o António Aiveca.”
Os bombolons[11] aceleravam e os gritos delas subiam.
- “Ah…”, e disse mais qualquer coisa.
- “O quê!?”.
Aproximou-se mais de mim.
- “Mas este é o seu nome verdadeiro?”.
- “O verdadeiro é Lopes, é o que consta nos papéis. Mas é muito corriqueiro, e eu
gosto mais de Aiveca…”.
Vi que ia dizer mais qualquer coisa e pus-me atento.
- “Vejo que você fala a língua deles”.
- “Não, não falo, minha senhora. Gostava mas não, é muito complicado. O  que sucede
é que procura apanhar-lhes algumas coisas dá para os entender melhor. Nem
sempre…”.
O Roberto deu-me um encontrão.
- “É pá, há gajos teus ali no meio!”.
Estavam.
- “Admirava-me é se não estivessem.”
O Bletche, o Benhanté e o Nfanda bamboleavam-se da garrafa na mão. Era cana de
certeza. Não lhes dava muito tempo para ficarem esticados no chão.
- “Vai ser bonito, vou ficar feito num oito. É o meu pelotão que vai estar de guarda esta
noite.”
O capitão olhou-me alarmado.
- “Ó Aiveca, então é preciso ter muito cuidado. Você tem de estar em cima deles.”
- “Pois é isso que eu sei. Não vou para o mato mas não vou dormir na mesma. Só vi
aqueles ali, mas é mais que certo que devem andar por lá outros. Vou ter que andar a
ver se os gajos não dormem nos postos.” Não os devia ter deixado ir ao choro. Mas
não me lembrara quando  sou informado do choro que eles que estavam de serviço.
Além disso, pensei melhor, não terá sido bom impedi-los, fazer  isso era pior do que
lhes cortar uma orelha.
Ficámos mais algum tempo a ver o espectáculo, a D. Eugénia fazia comentários
maravilhados. Até que notámos que o sol se começava a pôr.
- “É melhor irmos embora”, disse o capitão. “Daqui a bocado vamos jantar”.
E fomos, passado tempo jantámos, depois fomos ao king na secretaria. A mulher do
Alves divertiu-se também com este prazer de homens limitados de acção. Mas o
capitão não estava, levantou-se depois de alguns jogos.
- “Eugénia, é melhor irmo-nos deitar porque amanhã tenho que me levantar cedo para
ir a Bigene a uma reunião no COP3. O seu pessoal está nos postos, Aiveca?”
- “Vou-me levantar também e dar uma volta para ver. Vou ver se está tudo  nos
conformes”.



A tabanca estava pegada ao quartel, não estava em autodefesa, portanto, não havia
milícias. Tínhamos um pelotão destacado em Camjambari, pelo que tínhamos três
pelotões para as guardas e segurança durante a noite. Com o que tínhamos
montáramos um esquema para isso: à volta da tabanca, dois postos de sentinela no
lado oeste, mais dois do lado sul virado para o Cacheu e outros dois do lado norte em
frente da mata que vinha do Senegal; à volta do quartel, eram três na paliçada note
virada para a pista, três virados para a picada a oeste que ia até ao Cacheu, e dois a sul
virados para o rio. Os postos à volta da tabanca eram uma sobrecarga, mas
achávamos melhor. Pela experiência que tínhamos, eles nunca atacavam a tabanca,
era só o quartel, no entanto havia a precaução de ter ali gente, era onde havia pontos
de infiltração.
Fui ter com o meu furrriel Fernandes, que era o sargento de dia.
- “Então, Fernandes, os homens estão nos postos?”
- “Estão, são os da minha secção mais uns da do Sousa”.
- “Vamos dar uma volta por aí, pra ver.”
Na tabanca estava tudo bem. Até me admirei que estivessem todos despertos. E não
tinham cantis com cana. 
Ai deles, sabiam já que eu não tolerava isso, tinha-os avisado.


Fomos depois ver os do quartel. 
Tínhamos entrado quando vi o Benhanté e o Nfanda a manusear a bazuca.
- “O que é que aqueles cabrões estão a fazer?”.
- "Oh, estão bonitos, estão. Estive quase para os mandar embora pois vi que estavam
pedrados, mas não o fiz porque ia baralhar a escala…"
Apressámos o passo em direcção a eles. Quando vi o Nfanda enfiar uma granada no
cu da bazuca desatei a correr. Mas já não fui a tempo.
De repente um bô! e um  clarão. Pouco depois uma explosão na mata do outro lado da
pista.
Corri para eles a gritar.
- “Seus filhos da puta! Vou-vos partir os…”.
Parei e não acabei de dizer o que lhes ia partir porque ouvi um silvo  agudo e um
rebentamento. 
Olhei e vi que tinha sido no lado direito das traseiras da secretaria, onde ficava a porta
do quarto dos alferes. Havia lá fumo e luz de fogo. Começou a seguir um fogachal 
intenso, do quartel para a mata e desta para o quartel. Mais silvos a granadas de 
morteiro a estoirar. Corri para o edifício, alarmado.
Mas o Rolando e o Salvado saíam apressados da porta da frente quando lá cheguei.
Atrás vinha o capitão só de calças e a mulher… em cuecas. Mas não liguei.
- “Olha se a gente não ficava a beber umas cervejas em vez de ir para a cama…”, disse
o Rodolfo apressado.
- “Vou foder os gajos!”, gritou o Salvado.
Enfiaram-se na valeta. Fui atrás deles. O pessoal da caserna corria por lá também para
os postos de combate. O capitão metera a mulher no abrigo da secretaria e também ia.
Foram cerca de quinze minutos, o normal em situações idênticas. Morteiros, G3,
kalashs, PPSH, degtyarevs, RPGs, bazucas… tudo à mistura. 
Toma lá, dá cá. Ora agora atiro eu, ora agora amandas tu. E, no meio disto tudo, a 
grande explosão do fornilho que o Salvado montara do outro lado da pista. Só uma 
vez nos tinham presenteado com uma coisa que não tínhamos:um canhão sem recuo 
que nem se deram ao trabalho de o tirar do Senegal. As bujardas chegavam vindas de 
lá, do lado de Sano.
A certa altura começámos a sentir que éramos só nós a disparar. O capitão saiu da
vala.
- “Cessar fogo!”, gritou. “Os gajos já se foram embora”.
Eu e o Salvado fomos para o pé dele.
- “Deixem ficar a malta ainda um bocado nos postos. Mas um de vocês vá fazer uma
batida na mata ao pé da pista”.
- “Vou eu. Quero ver o que é que deu o fornilho”, ofereceu-se o Salvado.
- “Temos alguma baixa?”, perguntou o Alves.
- “Morreu um soldado meu”, disse o Rodolfo, que entretanto se
 aproximara também. “Foi o Bacar Baldé. Levou com um estilhaço de
morteiro na cabeça. O furriel enfermeiro está lá com ele.”
Não disse nada, mas vi que ficou desolado.
-“Mal”, cara fechada. “Vou ali ao abrigo buscar a minha mulher”.
Afastou-se, vimo-lo depois chamar a D. Eugénia à boca do buraco. Ela saiu, na pose
em que entrara, em cuecas. Atrás dela saíram o 1ºsargento Mota e o escriturário
Armindo.
- “Oh! Aqueles é que estiveram ao ataque”, chasqueou o Salvado.
Não achei piada.
- “Não sejas parvo, pá. Vai mas é fazer a batida.”
Fiquei com o Rodolfo a falar da morte do Bacar. Às tantas vi que se aproximava uma
bicicleta. Era o Quecuta.
- “Corpo di bo?”[12]
- “Tá bom, nossalfero[13].”
- “O que é que há, Quecuta?”
- “Da quesa di tropa”[14].
- “O quê?!”
- “Tropa kiri mal, kiri asasina”[15].
- “Parbisa, a bo bu parbu dimas”[16].
- “Ka parbu. Tropa lansa granada bomborda morança[17] Quecuta”[18].
- “O quê?!” O Rodolfo estava de boca aberta. “É dos turras, pá, só pode ser”.
Tinha de acabar com aquilo.
- “Anos va jubi la”[19].
Fomos ver o caso da morança do Quecuta, acompanhados pelo seu pedalar de
perneta. Lá chegados mostrou-nos. Estava de facto uma granada por deflagrar
enterrada à porta de casa, só com um pouco à mostra. E era das nossas,´era verdade,
do morteiro 80. Tinha de arranjar desculpa.
- “Kil bomborda as bes disvia”[20].
- “ Mau família falsi. Balantas disgosta Quecuta. Alfero disiplina.”[21]
Só me faltava era este gajo estar a dar-me lições.
- “Deixa-te de tretas. Kin ki odja a bo meresi kastigu[22]. O turra de Limane fugiu. Kin
fusinti el? Bo mandinga, el mandinga…[23]”. Tramei-o.
- “Ka  sibi.”[24] Ficou de monco caído.
- “Vamos embora. Há-de vir o furriel sapador para tirar a granada. Ka kiskisi.[25]
Fomos.
O Salvado tinha regressado da batida, apenas vira sangue ao pé do buraco do
fornilho. Um ou mais tinham sido feridos aí, mas tinham-nos levado. 
Se calhar por isso é que o ataque só durara quinze minutos.
O capitão ainda nessa noite pediu uma DO para a mulher, obviamente com
fundamentos, e ela partiu para Bissau no dia seguinte. Com pena minha por não lhe
poder ouvir as sensações vividas, sobretudo durante o ataque.

                                                        ###########

O Quecuta Seidi, mandinga, era o chefe da tabanca de Barro quando eu lá estive.
Subira uma vez a uma palmeira e fora mordido por uma kakuba verdi[26] e tiveram de
amputar uma perna. Por isso, ele a andar de bicicleta só com uma perna, o seu meio de
deslocação, era um espectáculo. Havia suspeitas de que estava feito com o PAIGC, 
razão por que muitas vezes me sentei a falar com ele à porta da morança, para tentar
tirar-lhe alguma informação. Mas ele “tinha esperto no cabeça”[27] e nunca se
descoseu. Mas ia lá também por outra razão. É que ele tinha quatro mulheres. Três 
delas mais jovens.
- “Es noti bo durmi suma djoto. Alfero ka durmi…”.[28]
 Ria-se e, nesta matéria, era sempre condescendente.
- “Yo, otrizado. Fika. Signi.”[29]
Gostava muito desta, era mais mulher. Às vezes era a Uace, mas era mais catraia e
franzina. Mas não desgostava, claro.


Em 1998 fui à Guiné e passei por Barro. Perguntei pelo chefa da tabanca, de propósito,
para ver como estava aquilo agora. Indicaram-me a morança  do Quecuta. Assim que
me viu ficou admirado e nem me deixou falar.
- “Alfero Aiveca!”
Trinta anos depois! Não me admirei. Foram muitas conversas.
Houve as mantenhas[30] da ordem.
- “O Bailo?”, perguntei-lhe, porque também estava interessado em encontrá-lo. O Bailo
tinha sido o guia principal da CCAÇ3.
Ficou atrapalhado e baixou a cabeça.
- “Gubernu di no tera ilimina el”[31].
- “Ah! Alfero Aiveca tin roson. Gubernu ka ilimina bo. A bo kontinua chefi di
tabanca”[32].Sorriu.
Estive também na Guiné em 2006 e fui novamente a Barro. Perguntei por ele e
indicaram-me o filho. Era o Bala Sani.
- O teu pai onde está?
- O meu pai morreu o ano passado.


Fiquei com pena. Tinha ido lá de propósito para ver o homem. No fundo, eu até
gostava dele, e não era só por aquelas benesses salvadoras da solidão da carne. É
que, guerra à parte, parecia-me um homem bom e honesto. Por isso terá tomado o
partido que era o seu. Além do mais era uma das ligações da minha juventude que se
perdera
_______________
[1] Grande quantidade (crioulo)
[2] Aguardente de cana (crioulo)
[3] Vinho e palma e de caju (crioulo)
[4] Prato á base de arroz (crioulo)
[5] Cerimonia fúnebre, com batucadas, danças e comida desregrada, sempre que alguém importante morre.  
[6] Aldeia (crioulo)
[7] Balanta islamizado.
[8] Símbolo de passagem à idade madura na etnia balanta
[9] Deixa lá, não me sinto bem. (língua balanta)
[10] Não tens coragem. (língua balanta)
[11] Bombolon ou bumbulum é um instrumento de percussão, feito de um tronco grande e escavado, tocado ou batido em cerimónias fúnebres ou para transmitir alguma mensagem.
[12] Cono é que estás? (crioulo)
[13] Nosso alferes
[14] Venho-me queixar da tropa (crioulo)
[15] A tropa não gosta de mim, quer-me matar (crioulo)
[16] Parvoíce, e tu és muito parvo (crioulo)
[17] Casa ou casas de uma família (crioulo)
[18] Não sou parvo. A tropa atirou uma granada de morteiro grande para a casa do Quecuta (crioulo)
[19] Vamos lá ver (crioulo)
[20] Aquele morteiro grande às vezes muda de direcção (crioulo)
[21] É mau a minha família morrer. Os balantas não gostam do Quecuta. Alferes, castiga-os.
[22] Se calhar tu é que mereces castigo (crioulo)
[23] Quem o ajuou a fugir? Tu és mandinga e ele é mandinga… (crioulo)
[24] Não sei (crioulo)
[25] Não mexas na terra, não esgravates (crioulo)
[26] Cobra de palmeira (crioulo)
[27] Era inteligente (expressão comum na Guiné)
[28] Esta noite vais dormir a sono solto. Aqui o alferes não dome… (crioulo)
[29] Sim, estás autorizado. Fica cá. Com a Signi (crioulo)
[30] Cumprimentos (crioulo)
[31] O governo da nossa terra andou matá-lo (crioulo)
[32] O alferes Aiveca tiha razão. O governo não te mandou matar. Continuas chefe de tabanca (crioulo)
[33] Cobra de palmeira (crioulo)
[34] Era inteligente (expressão comum na Guiné)
[35] Esta noite vais dormir a sono solto. Aqui o alferes não dome… (crioulo)
[36] Sim, estás autorizado. Fica cá. Com a Nhegne (crioulo)
[37] Cumprimentos (crioulo)
[38] O governo da nossa terra andou matá-lo (crioulo)
[39] O alferes Aiveca tinha razão. O governo não te mandou matar. Continuas chefe de tabanca.

24 de fevereiro de 2011

71-Mortos em combate da CART1690

Mas há também os que foram dados como "desaparecidos em campanha" mas que morreram de facto.

Croqui. Quando passei por Geba em 1998 já este monumento estava completamente destruído.
Fonte: História da Unidade CART1690

70-Mortos em combate da CCAÇ3 (antes 1ª CCAÇ)

A 1ªCCAÇ era uma unidade de guarnição normal, anterior a 1 de Janeiro de 1961. Em 27 de Outubro de 1966 foi colocada em Barro. Em 1 de Abril de 1967 passou a designar-se CCAÇ3.

a

Fonte: CECA - Comissão para o Estudo  das Campamhas de África

22 de fevereiro de 2011

69-Os "indígenas" da Guiné perante a lei portuguesa


Estatuto do indigenato

Estava expresso em leis, que definiam fundamentalmente os deveres e alguns direitos dos "indígenas" das colónias portuguesas. Passou algumas fases:
- Estatuto Político, Social e Criminal dos Indígenas de Angola e Moçambique, em 1926;
- Acto Colonial, 1930;
- Carta Orgânica do Império Colonial Português e Reforma Administrativa Ultramarina, 1933;
- Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique, 1954, visando a “assimilação” dos indígenas;
- Foi abolido em 1961, ano do começo da guerra, quando Adriano Moreira era Ministro do Ultramar.
           
Retiro alguns aspectos das leis aplicadas aos "indígenas" da colónia da Guiné em 1947, constantes dum artigo de Honório Barbosa publicado no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa - Nº 006 - Vol. II, 1947, aqueles que me parecem mais especialmente caracterizar o "estatuto" dos habitantes da Guiné durante a época colonial.


❶ Depreendo que são "indígenas", não cidadãos portugueses, todos os indivíduos de raça negra ou dela descendentes que não falem, leiam ou escrevam a língua portuguesa. Mas não têm esta limitação, isto é, são cidadãos portugueses, os indivíduos que, embora sendo de raça negra ou dela descendentes, estejam casados ou sejam viúvos ou filhos de "cidadãos originários", isto é, de brancos nascidos em Portugal ou, então, nascidos na Guiné de "originários". Estes são "assimilados", quer dizer que têm apropriado ideias, sentimentos e comportamentos dos europeus, uma vez que convivem muito interligadamente com eles. Mesmo que não saibam falar,ler ou escrever em português, por hipótese. 
Mais de 90% dos guineenses nessa altura eram analfabetos, e estes, por isso, não eram cidadãos portugueses.
Curioso verificar como era o analfabetismo em Portugal:
Fonte: António Candeias et al. (2007): Alfabetização e Escola em Portugal nos Séculos XIX e XX. Os Censos e as Estatísticas, Fund. C. Gulbenkian, p.40; e Recenseamento da População e Habitação (Portugal) - Censos 2001 (quadro 1.03, População residente segundo o nível de ensino atingido e taxa de analfabetismo), Instituto Nacional de Estatística.

Isto é, na década de quarenta do século passado, período em que foi alaborado o documento reproduzido, havia 52% de portugueses que não sabiam ler nem escrever, sabiam falar, mas muitos deles certamente mal. No entanto, claro que eram cidadãos portugueses porque tinham nascido em Portugal e porque tinham ideias, sentimentos e comportamentos dos europeus.

❷ Tinham de ter bens ou profissão para seu sustento e da família se queriam ser cidadãos portugueses. Os nascidos cá eram-no mesmo que não tivessem bens, mesmo que não tivessem profissão ou passassem dificuldades para se sustentarem a si e à família, e sabemos como foi durante e após os anos da Segunda Guerra Mundial. Podemos até pensar que os guineenses, utilizadores naturais dos  recursos da terra, das árvores de frutos e dos animais de casa e da mata estariam em melhores condições.

❸ Para ser cidadão português era preciso ser bem comportado e não praticar os usos e costumes da sua raça. Os minhotos, transmontanos, beirões ou alentejanos eram-no, apesar do vira, dos pauliteiros, dos ranchos, dos grupos corais,  dos arraiais, ou das missas e das procissões. Mesmo que fossem mal comportados. E dá a ideia que, se praticassem os usos e costumes de outra raça, a dos europeus,por exemplo, por assimilação, poderiam chegar lá.

Todas estas limitações juntas visavam na prática a não atribuição da cidadania portuguesa a um povo com as características do guineense. Um evidente menosprezo pelo povos da Guiné, pela sua identidade própria, uma manifestação de superioridade rácica. A evidência de que não eram considerados portugueses. Isso só deu jeito depois do começo  da guerra colonial para efeitos de propaganda e justificação da guerra. 


Está aqui um exemplo muito evidente disso




Era o que se ensinava às crianças nas páginas 63 e 64 deste Livro de Leitura da 3ª.Classe:



No final: "Somos, pois, os Portugueses um só povo, mas com caracteres que distinguem os habitantes de cada região". Mas era só do Minho ao Algarve.
Esta é a 4ª edição de Domingos Barreira, em 1958, de um livro usado durante décadas. Mas três anos depois os Portugueses já eram um povo que ia do Minho a Macau...

Mas estavam excluídos destas limitações quem exercesse ou tivesse exercido cargos públicos, quem estivesse em funções administrativas. Mesmo que praticasse os usos e costumes da sua raça. Porque serem eles cidadãos portugueses era um factor acrescido para a sua autoridade e poder sobre os "indígenas".

❺ E também estavam excluídos os comerciantes e os proprietários de estabelecimentos industriais. Porque também esses eram factor de autoridade sobre  o "indígena", além de elementos para a exploração das gentes e dos recursos da colónia.

❻ Igualmente os que tivessem o 1º ciclo liceal ou equivalente. 
Cabe aqui referir o que diz Honório Barbosa neste documento. Que a instrução era dada:
- em escolas rurais de ensino primário rudimentar e em escolas primárias de ensino elementar e missionárias;
- para torneiros, fundidores, serralheiros e carpinteiros de machado na Escola de Artes e Ofícios de Bolama, visando especialmente fornecer a Imprensa Nacional da Colónia e as Oficinas Navais da Colónia;
- para enfermeiros "indígenas"na Escola de Enfermagem anexa ao Hospital de Bissau.
É claro que nem as escolas rurais e nem as escolas primárias correspondiam ao 1º ciclo dos liceus. Também não a Escola de Enfermagem, onde os frequentadores já eram "indígenas". Não iam por aí a cidadãos portugueses.
De referir que o Liceu Honório Barreto só foi fundado em 1957.

❼ Também não tinham limitações os naturais de onde não houvesse regime de indigenato. Os de Macau, Timor, Índia, Cabo Verde e S. Tomé (e não sei se não se referirá também à Madeira e aos Açores, uma vez que aponta também os naturais "de outro território português"...). Sou levado a crer que esta excepção teve alguma razão de ser. Talvez esta: Angola, Moçambique e Guiné eram colónias com várias etnias, visando o estatuto uma regra para uniformização no tratamento de todas. Não havendo necessidade disso para as outras colónias.

Há que captar o interesse e a vontade dos que têm papel na administração da colónia e na sua rede económica, para os utilizar também como factor de autoridade e de exploração.



Carta Política do Indígena




Agarrando neste enunciado e sem ir mais longe:
- não têm direitos políticos como os têm os portugueses
- mas aplica-se-lhes o direito privado, civil e criminal dos portugueses

Impostos

❶ Pagam impostos porque estão em território português, mas não são cidadãos portugueses, como vem de trás;

❷ Realce para estas isenções de impostos:
- de imposto de "palhota": os régulos e os chefes como recompensa justificada; os prestadores de serviços domésticos há mais de um ano;
- do imposto de extracção de vinho de palma: os chefes das tabancas com mais de trinta extractores; os que se portem bem, como recompensa;
- da contribuição braçal, em substituição de cinco dias de trabalho anual obrigatório em trabalhos públicos: os régulos e chefes das tabancas e os seus auxiliares; os "indígenas" prestimosos e bem comportados;
- do imposto de inspecção de carnes: não há isentos;
- do imposto de justiça: estão todos isentos

Está claro que as isenções serviam para estimular os régulos e chefes de tabanca, os mais ricos, sabemos, no exercício do seu poder de controle e fiscalização dos "indígenas". E para incentivar estes à submissão.

Indígenas

"As comunidades, os povos e as nações indígenas são aqueles que, contando com uma continuidade histórica das sociedades anteriores à invasão e à colonização que foi desenvolvida em seus territórios, consideram-se a si mesmos distintos de outros sectores da sociedade, e estão decididos a conservar, a desenvolver e a transmitir às gerações futuras os seus territórios ancestrais e sua identidade étnica, como base de sua existência continuada como povos, em conformidade com seus próprios padrões culturais, as instituições sociais e os sistemas jurídicos".
Organização das Nações Unidas

Não era para isto o "Estatuto do Indigenato".

20 de fevereiro de 2011

68-As mulheres de Geba nos tempos antigos

 A circuncisão e a família em Geba, por Marcelino Costa Ribeiro (1885)

Há um péssimo costume gentílico inveterado no povo do presídio de Geba, o qual consiste em determinado tempo aplicar a circuncisão a ambos os sexos, operação a que em Geba dão o nome de fanado.

Esta operação, apesar de ser simples, carece de algum cuidado, e não é só empregada pelos selvagens, mas também por muitos da praça de Geba, que infelizmente têm o nome de cristãos e civilizados.

Na actualidade aquele costume está mais em uso entre as supostas donzelas, vulgo bajudas, de 12 a 26 anos, do que entre os mancebos, devido talvez à luz da civilização, que vai pouco a pouco penetrando nas camadas sociais, e que se prega na boa escola confiada ao digno missionário e pároco distinto, o sr. Luiz Baptista do Rosário e Sousa.

Infelizmente as bajudas não têm quem lhes ensine as boas doutrinas, adoptadas na lei de 1809, porque as suas amas, vulgo mestral, passaram pelo mesmo caminho, e deixam que as suas educandas sigam à risca as leis gentílicas, adoptadas pela nobre universidade de Sonaco (1) , aonde vão instruir-se.

Quem conhece Geba a fundo, e está em dia com os péssimos costumes ali adoptados, sente logo a diferença no número da população que reside no presídio, sem que ninguém lhe diga nada; esta diferença é sempre notável nos princípios de Dezembro, época em que as supostas donzelas vão para diferentes povoados perto do presídio, sujeitarem-se à circuncisão.

Algumas a quem os pais impedem a ida, lamentam a sua sorte, metem empenhos, e quando não conseguem a licença de se irem circuncidar, fogem aos pais, e vão para o sítio aonde está constituída a liga, sujeitar-se à operação ; evitando por este modo que amanhã sejam consideradas na alta sociedade de Geba como olmo (não circuncidadas). Eis aí a maneira como são educadas em Geba muitas, a maior parte, das raparigas oriundas daquele presídio, e filhas de pais da classe de grumetes (2).

Agora direi alguma cousa acerca dos mesmos grumetes, explicando a maneira como eles adquirem numerosos filhos e constituem família, sem serem muitos deles verdadeiros pais. É costume e uso inveterado entre os grumetes no presídio de Geba, terem 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 mulheres. A mais antiga em casa é sempre tida como dona da mesma, e poucas vezes se ausenta ; as outras quase nunca param em casa, vão para Fulacunda (3) (pequena povoação dos gentios fulas) fazer negócio, e aí se conservam.

Estas mulheres, chegando a Fulacunda ao mesmo tempo que se ocupam da venda de sal, tabaco e outros artigos que levam para os gentios, vendem-se também a si mesmas. No fim de alguns anos, algumas voltam à praça com 2 filhos, outras com 3, outras com 4, outras com 5, os quais, longe de serem mal recebidos em casa dos supostos pais, são tratados por estes como verdadeiros filhos!

Aqueles pequenos crescendo, começam a apelidar-se com o mesmo apelido; se os supostos pais se chamam Sambú, todos se apelidam Sambú, e se forem tio-Chico, todos seguem o mesmo, etc. No recenseamento que se fez em Geba no ano de 1882, notei na relação dos recenseados alguns grumetes com 15 filhos, outros com 19, outros com 21, etc. Explica-se pela circunstância que acima mencionei.
 Marcelino da Costa Ribeiro (Geba—Guiné), in Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. 1885, pp. 277-278.

Costa Pessoa (Geba — Guiné), in Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. 1882, pp. 27/28
Notas:
(1) Será Sonaco na zona de Gabu? É que também há Sonaco, no Senegal, perto de Barro.
(2) Os grumetes eram africanos que, vivendo nas povoações luso-africanas e adoptando com grande liberdade os hábitos cristãos e os modos lusitanizados de ser, operavam como remadores, construtores e pilotos de barcos, carregadores e auxiliares no comércio. Como categoria sociológica, eles desempenhavam um papel chave no frágil compromisso em que a sociedade crioula se fundava, sendo os intermediários que faziam a delicada mediação nos relacionamentos entre a minoria de comerciantes europeus e luso-africanos e os régulos das sociedades tradicionais africanas que produziam bens para exportação (Wilson Trajano Filho, da Universidade de Brasília, in Outros Rumores de Identidade na Guiné-Bissau).
(3) Há uma tabanca Fulacunda, na zona de Geba; há outra Fulacunda na zona de Buba; e há também uma Fulacunda na Casamanse, Senegal.

Beldades de Geba, por Costa Pessoa (1882)

Quando saí de Lisboa em Outubro de 1879 com direcção á Guiné portuguesa, julgava, senão impossível, pelo menos difícil encontrar indivíduos da raça preta que me parecessem bonitos; mas logo que cheguei a Bolama e Bissau desenganei-me e muito mais depois que, navegando no rio Geba, vim parar à povoação deste nome.

É realmente interessante ver chegar a este presídio todos os dias grandes ranchos de fulas, fulas-forras e mandigas (mouras) dentre as quais aparecem tipos tão bonitos e regulares, que muitas damas da nossa terra invejariam (salvo a cor).

Principalmente dentre as fulas-forras, tribo de cor bronzeada, aparecem raparigas de rosto comprido, nariz aquilino, pequeno, lábios delgados, olhos vivos, apresentando um conjunto agradável e simpático.

O seu vestuário é o mais simples possível, consiste unicamente em um pano de algodão de 0,5m de largura, algumas vezes enfeitado com contas, que passam à volta da cintura. No pescoço e tornozelos trazem também muitos fios de contas e nos pulsos quantidade de manilhas. Do cabelo fazem um penteado em forma de barco com a quilha para cima, que vai desde o alto da cabeça até à nuca, deixando áà volta na testa e nas fontes pequenas tranças a que prendem fios de comas com moedas de prata nas extremidades.

Deu-se um dia comigo um caso engraçado : Estando eu sentado à porta de um negociante deste presídio, vi chegar um rancho de fulas que vinham fazer o seu negócio. E entre elas havia uma que sobressaía mais do que qualquer outra por ser mais bela e vir mais enfeitada. Chamei-a : ela aproximou-se e comecei então a examiná-la sem que ela a isso se opusesse; porém uma rapariga cristã, que se achava entre elas, diz-lhe :
— Repara que isto não é homem, é um boneco de molas movido por aquele (designando o negociante).
A fula retorquiu-lhe :
— Não, ele fala, tem olhos e cabelo.
— Tudo é postiço, e não diz coisa que se entenda, respondeu a cristã. Tu percebes alguma cousa do que ele diz ? Já viste homem tão branco ? (Eu era o único europeu que então me adiava em Geba, mas em Portugal não passava por ser dos mais brancos).
A esta última quartada fugiu a rapariga. Não se aproximou mais de mim, e hoje seguem todas aquele exemplo.