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4 de abril de 2011

99-Sobre a guerra colonial na Guiné

Programa "Artigo 37" na RTP2
(em 2001,mas não sei em que dia)
O Mário Pádua, aqui interveniente, foi o médico que cuidou do soldado do meu pelotão Manuel Fragata Francisco, que foi ferido em Sinchã Jobel e apanhado pelo PAIGC, durante a operação Invisível, que o levou para o hospital de Ziguinchor.

1 de abril de 2011

98-Retirada de Madina do Boé

«O então brigadeiro António de Spínola, chegado à Guiné em 1968 como novo governador e comandante-chefe, decidiu avançar na estratégia de retirar as tropas do Leste do país, pouco povoado e, no seu entender, com pouco para defender. Para a retirada do quartel de Madina do Boé, uma tabanca, ou aldeia, com pouco mais de meia dúzia de cubatas, perto da fronteira com a Guiné-Conacri e constantemente sob ataque do PAIGC de Amílcar Cabral, foi desencadeada a operação "Mabecos Bravios" (cães selvagens).
Era a companhia de Caçadores 1790 que estava em retirada de Madina do Boé, e homens de outras companhias tinham vindo em apoio desta grande operação. Tropas, viaturas e todo o material de guerra percorreram os 22 quilómetros da picada entre Madina do Boé e Cheche, já na margem do rio. 
Chegados ali, começaram a transpor os 200 metros de uma margem à outra em duas jangadas, na tarde de 5 de Fevereiro de 1969. Fizeram-no vezes sem conta, passando 28 viaturas pesadas, mais 100 toneladas de munições e equipamentos, três auto-metralhadoras Daimler e cerca de 500 homens. Ao início da manhã de 6 de Fevereiro, só restava na margem sul um grupo de homens: dois pelotões da companhia de apoio 2405, outros dois da que estava em retirada. Seriam 100 a 120 homens. 
Entraram todos na mesma jangada, que passou a levar o dobro da sua capacidade de segurança. A meio do rio, a jangada adornou para um lado e atirou vários homens à água, balançou para o outro e cuspiu outros tantos. Carregados com a espingarda, a cartucheira à cintura, as botas, muitos afundaram-se como pregos no rio, pacífico na estação seca, de Novembro a Maio. Sem gritos, sem esbracejares. Naquele momento, a dimensão do acidente passou despercebida. 
Só quando a jangada chegou à outra margem se percebeu a tragédia. Faltavam cerca de 50 homens (quase todos da metrópole). Este acontecimento ficou conhecido como o desastre de Cheche. 
Quando a coluna em retirada tinha alcançado Cheche, antes da travessia do rio, os homens da companhia 1790 devem ter sentido alívio. Tinham aguentado 13 meses debaixo de fogo dos independentistas do PAIGC, que se escondia nas colinas em redor de Madina do Boé, e todos tinham escapado com vida. No fim dos 22 quilómetros de estrada de terra, que nos dias actuais, pedregosa, aos solavancos, consome hora e meia de viagem, Cheche significava o adeus a um pesadelo. Na época das chuvas, a estrada ficava intransitável, pelo que só de avião podia abastecer-se o quartel, agora pouco mais do que umas paredes em ruína. 
Ainda hoje na aldeia de Cheche as casas são quase todas tradicionais e habitadas por famílias alargadas e não falta um campo de futebol, que se resume às balizas de paus num descampado. Entre os 300 habitantes, da etnia fula, encontram-se alguns que se viram no meio dos acontecimentos de 6 de Fevereiro de 1969. Alfa Umaro Djaló, muçulmano com três mulheres, nove filhos, seis netos, era soldado do Exército português em Madina do Boé. Na retirada, ia à frente a picar o terreno, não fosse haver minas, e na travessia do Corubal seguia na última jangada. Caiu à água. "Isso não vai apagar-se da memória. Morreram cinco africanos." Quando se senta com os filhos e os netos à noite, às vezes falam daquele momento: "Os netos reclamam por que não fui a Lisboa buscar os meus direitos. Não temos meios para ir." Os direitos ambicionados são uma pensão por ter combatido por Portugal. 
Também Mamadu Bari, outro habitante de Cheche, conta como enfrentou o Corubal naquele dia. Tal como Alfa Umaro Djaló, foi atirado ao rio. "Faltou pouco para morrer. Despi a roupa e nadei." Ironia da vida: tornou-se depois jangadeiro de profissão na travessia do Corubal, mas há cerca de uma década, como atestam os calos, que vive do cultivo de arroz e milho. 
Cerca de duas semanas depois do acidente, fuzileiros e mergulhadores da Marinha organizaram uma operação de recolha dos corpos, já em estado avançado de decomposição. Muitos tinham desaparecido. Na série de documentários A Guerra - Colonial, do Ultramar, de Libertação, de Joaquim Furtado, podem ver-se imagens aéreas de alguns corpos a boiar, recolhidas pelo então tenente (agora general) José Nico, piloto da Força Aérea. Joaquim Furtado relata que os corpos recuperados foram sepultados nas margens do rio, com as honras militares próprias. Antes, o jornalista mostrou imagens dos sobreviventes na jangada, também recolhidas por José Nico, e alguns dos companheiros nas margens a tentar ajudá-los. 
Aquela jangada, um estrado de madeira assente em canoas e bidões de gasóleo vazios, era puxada por um pequeno barco com motor fora de borda. E agora, como se fará a travessia? 
No dia em que Mussa Djaló caçava, a sede conduziu-o até ao Corubal e foi então que se deparou com a operação de recolha dos corpos. "Eu vi e não disse nada." O que diz ter visto foi um buraco perto da margem norte e um helicóptero a transportar os corpos até um descampado.»

- Publicado no jornal "Público" (não tenho a data)

97-Os helicópteros

Este vídeo é da autoria do meu amigo Jorge Félix, que foi piloto de helis na Guiné. Um abraço para ele.


96-Os mortos da CART1690 em "Guiné-As Duas Faces da Guerra"

Diana Andringa vê os restos do monumento em Geba aos mortos da CART1690




Sobre isto escreveu este texto:

Mortos. Estes nomes não podem ser senão de mortos. Guimarães, ... ndo Fernandes. Carlos A. Peixoto .... ul C. Ferreira, ... ostinho Câmara, ... o Alves Aguiar, .. .ime M.N. Estevão, ... sé A. V. Sousa, ... tónio D. Gomes.
Tudo em redor, aliás, fala de morte. As paredes em derrocada do que terá sido um quartel português. As viaturas a apodrecer sob o intenso sol africano. Os cacos de garrafas de cerveja. (Bebidas para enganar o medo? Suspensas por arame para, tinindo umas contra as outra, despertar os que dormissem ainda?).
E esta pedra caída, tumular.
Vivos, apenas os meninos que se cutucam, sorrindo, a olhar para nós, estranhos fotógrafos deste cemitério de metal e pedra.
A outra pedra, de pé, tem nomes de cidades, vilas, aldeias: Lisbaa. S. Tirso. Moçâmedes. Alcobaça. Madeira. (Nas ilhas não haverá também povoações?) Ponte de Lima. Vila Nova de Ourém. Vila Pouca de Aguiar. Bissau. O tempo, ou a guerra, quebrou-­lhe a parte de cima, e agora é uma pirâmide truncada, rasgada do lado direito, onde se inscrevem as primeiras letras dos postos, ou dos nomes, dos naturais dessas terras, que presumimos mortos.
De novo a primeira pedra, a que jaz por terra. A frente dos nomes dos que se presumem ter morrido, inscrevem-se o que supomos serem as datas dessas mortes: 1967, 1968. A última, na pedra, não em tempo, sobressalta-me: 21 de Agosto de 1967. Fiz vinte anos nesse dia. Nesse mesmo dia morreu António D. Gomes. Teria feito, sequer, os vinte anos? Lembro-me de ter feito vinte anos. Das prendas dos meus pais. E pergunto-me como terão os pais do soldado António D. Gomes suportado a morte do seu filho. Se terão chegado um dia a conhecer este local onde uma pedra caída por terra assinala a data em que o perderam.
"Nós enterramos os nossos mortos nas nossas aldeias, ao lado das nossas casas ... Os portugueses deveriam ter, também, um lugar para honrar os seus mortos, os que morreram aqui, durante a guerra", dissera-me, algumas horas antes, um antigo adversário. Aqui. Tão longe de casa, tão longe dos seus. Longe de mais para que possam trazer-lhes flores, arranjar-lhes as campas, preservar-lhes a memória.
Olho de novo as pedras, tentando compreender como se juntavam. Será a que jaz por terra a continuação da outra? Releio as terras e os nomes. Câmara pode ser da Madeira ... Será mesmo? Sim. Lá estão em frente de Madeira o posto, sold., e as primeiras letras do seu nome: Ag ... -
Agora cada morto tem o posto e a terra onde nasceu, excepto o primeiro, que parece ser de Lisboa, mas cujo posto e nome próprio se perderam, e João Alves Aguiar, de Ponte de Lima, a que o tempo corroeu o posto. Dois alferes, um furriel, sete soldados. Em cima, fragmentado, aquilo que parece a indicação do regimento a que pertenciam: ... RAL-1 .
... Combate.
Postas assim as duas pedras em conjunto, apercebo-me de que o soldado que morreu no dia dos meus vinte anos era de Bissau, e de certa forma isso tranquiliza-me, porque não está, afinal, tão longe de casa- como se isso tivesse alguma importância depois de se estar morto, como se me tivesse contagiado essa lista de terras inscrita sobre a pedra, ou outras, sobre outras pedras encontradas ao longo da viagem, onde outros soldados, cabos, furriéis, escreveram como se a naturalidade fosse a sua primeira identificação e a mais forte, o nome da terra natal, primeiro, e só depois o posto, o nome, a data em que escreviam, por vezes uma frase de desesperança, algo como "até quando Deus quiser" - como que temendo que esse "até" fosse curtíssimo, coisa de poucas horas, minutos, talvez, e houvesse que inscrever urgentemente, sobre esses caminhos, placas, pontes, esse sinal de vida e de memória.
Parece estranho que alguém possa ter tido medo aqui, neste local tão calmo, com o tempo suspenso e o silêncio apenas cortado pelo ruído persistente das cigarras. É difícil imaginar, enquanto os meninos se agrupam à nossa volta, curiosos do que fazemos e olhamos, que em tempos houve aqui tiros e gemidos - e homens cumprindo a triste tarefa de escrever sobre estas pedras os nomes dos companheiros mortos.
Um pouco mais adiante, numa das paredes que ainda se mantêm de pé, alguém desenhou um rinoceronte e um leão. Tê-Ios-á visto realmente? Tê-Ios-á imaginado? Em frente, sobre uma paisagem aparentemente urbana de prédios e chaminés, voa uma ave. Uma gaivota? Uma pomba? Um símbolo de paz? Um piscar de olho a esse adversário que, a todo o momento, lembrava que a sua luta era "contra o colonialismo português e não contra o povo de Portugal'? E que, muito antes de disparar o primeiro tiro, advertira: ':4 via pela qual vai ser feita a liquidação total do colonialismo português na Guiné-Bissau e em Cabo Verde depende exclusivamente do colonialismo português. ( ... ) Ainda não é tarde para proceder à liquidação pacífica da dominação colonial portuguesa nas nossas terras. A menos que o Governo português queira arrastar o povo de Portugal para o desastre de uma guerra colonial."
"O desastre de uma guerra colonial". Legenda para fotografia de pedras com listas de mortos, veículos destruídos, quartéis em derrocada - e, contrastando, os sorrisos dos meninos a dar-nos as boas-vindas.
Todos os anos, pelo 10 de Junho - esse dia que o regime colonial-fascista celebrava como Dia da Raça, e em que condecorava, no Terreiro do Paço, os pais, as viúvas e os órfãos dos militares caídos em combate -, ressuscitam algumas vozes saudosas do Império, a criticar a descolonizaçáo e a independência das ex-colónias portuguesas. Fazem-no, muitas vezes, usando a memória dos soldados mortos na guerra colonial. Escamoteando sempre que essas mortes se deveram, exclusivamente, à intransigência de um regime incapaz de compreender a inevitabilidade das independências, e à teimosia de um homem que, nunca tendo posto um pé em África, cuidava saber, bem melhor do que eles, o que melhor convinha aos africanos.
Releio a lista de mortos sobre a pedra e pergunto-me se, vinte anos depois, não será tempo de aceitar, claramente, que foram esses os únicos responsáveis dessas mortes ...
...
Diana Andringa. Público. 10 e Junho de 1995.

31 de março de 2011

95-Crimes de guerra


Artigo de Pedro Pezarat Correia* no Jornal de Notícias de 6 de Setembro de 1997

SABE QUEM COMBATEU QUE HOUVE CRIMES DE GUERRA

A. 
Recusando-me, por uma questão de princípio e de honestidade intelectual, a analisar a problemática dos "crimes de guerra" numa perspectiva jurídica - porque não sou jurista - limitar-me-ei a situá-la nos campos militar e político, que, afinal, como a história recente nos tem demonstrado, se tem em geral sobreposto ao campo político.

1. O julgamento dos "crimes de guerra", muito mais do que a apreciação de comportamentos de indivíduos enquanto combatentes, tem-se traduzido num exercício de poder de vencedores sobre vencidos. Em todas as guerras se têm verificado actos tipificáveis como "crimes de guerra", de ambos os lados das barricadas mas, salvo raras excepções, apenas aos vencedores tem cabido o "direito" de julgarem os "crimes de guerra" praticados do lado dos vencidos. Não há memória da constituição de tribunais independentes e supranacionais que, terminado um conflito, julgassem, de forma descomprometida, os "crimes de guerra" praticados em ambos os lados.
O recente caso da Bósnia, cujos julgamentos foram cometidos ao Tribunal Penal Internacional das Nações Unidas, com sede em Haia, aquele que mais poderia aproximar-se deste posicionamento de isenção e neutralidade, não foge totalmente aos vícios atrás apontados. Porque aqui, se entre os contendores bósnios não houve claramente vencedores e vencidos, acabou por haver um vencedor militar exterior: a OTAN e a sua potência hegemónica, os EUA, e um derrotado militar preferencial: os sérvios bósnios. E os dedos acusadores dos "crimes de guerra" não deixaram de reflectir esta lógica.

2. Uma segunda questão prévia se impõe. É que as acusações de "crimes de guerra" tendem a incidir sobre os agentes imediatos de actos como tal classificáveis, isentando ou ignorando os responsáveis pela criação das condições que tornaram esses actos possíveis, por vezes mesmo inevitáveis, ou seja, a própria guerra. E não são os militares quem desencadeia as guerras. Como salienta Samuel Huntington, "é o povo e os políticos, a opinião pública e os governos, quem desencadeia as guerras. São os militares que têm de combater" (1).
E certo que nem todas as guerras podem ser classificadas de criminosas. Isto nos remete à velha questão das "guerras justas" e "guerras injustas". Erasmo considerava como justa uma guerra de "( ... ) defesa contra a agressão ( )" (2). E no mesmo sentido se pronunciou Bertrand Russell, ao considerar que "( ) justa é toda a resistência a uma agressão ou invasão ( ... )" (3).

3. Seja justa ou injusta a guerra, o combatente pode envolver-se em atitudes condenáveis, isto é, em "crimes de guerra". Mas não pode alienar-se o ambiente desumanizado em que o combatente actua. Segundo Hegel "( ... ) o estado de guerra é um estado em que reina a contingência e em que as relações não são reguladas pelo direito mas sim pela força" (4). E, judiciosamente, François de Fontette escreveu que "os massacres de populações civis pela tropa em campanha são, sem dúvida, horríveis e injustificáveis. Mas acontecem em momentos paroxísticos das guerras, que surgem, então, com o seu inevitável cortejo de abjecções, e não como consequência de actos friamente premeditados e longamente amadurecidos" (5). E, regressando a Erasmo, também este humanista reconhecia que qualquer guerra "( ... ) arrasta atrás de si um infinito cortejo de crimes e infelicidades ( ... ) que vitimam sobretudo os inocentes" (6).
Assim, admitindo que num conflito haverá uma parte que enfrenta uma "guerra justa", e outra que trava uma "guerra injusta" - se bem que não sejam poucos aqueles em que ambos estão envolvidos em guerras injustas - só terá sentido o julgamento de "crimes de guerra" dos combatentes se, prioritariamente, for julgada, como "crime de guerra", ou talvez até como "crime contra a humanidade", a responsabilidade pelo desencadeamento da "guerra injusta".

4. Por fim, nestes considerandos de ordem geral, há ainda que ter em conta que o acto último do "crime de guerra" a sua execução, envolve sempre um problema de comando e o(s) comandante(s) não pode(m) ser isentado(s) da sua responsabilidade. Um excesso desumano de um combatente, quando não é impedido ou imediatamente reprimido, tem, quase sempre, na sua origem, ou o exemplo negativo do seu comandante, ou o seu incentivo, ou a sua indiferença, ou a sua incapacidade. De qualquer forma, sempre, uma demissão ou distorção da sua acção de comando.

B. 
A experiência portuguesa na guerra colonial de 1961 a 1974 inscreve-se perfeitamente no quadro acima traçado.

1. Na guerra colonial verificaram-se "crimes de guerra" dos vários lados das barricadas. Deles acabou por não haver julgamentos porque, no campo militar, o 25 de Abril ainda veio a tempo de evitar que se definissem vencedores e vencidos. Mesmo assim, casuisticamente, nos países recém-chegados à independência, não deixaram de se verificar casos de represálias de vencedores políticos sobre os seus vencidos, compatriotas comprometidos com o antigo país colonizador, o que corresponde à lógica do julgamento dos "crimes de guerra".

2. Do lado português, sabe quem combateu que se verificaram "crimes de guerra". Mas é um dos casos paradigmáticos em que o crime nasce na própria guerra. A guerra colonial é uma "guerra injusta" por natureza. É axiomático que a guerra é um instrumento da política. E a guerra colonial era um instrumento de uma política injusta, que visava perpetuar o domínio nas colónias e a ditadura na metrópole. Injusta porque desnecessária (no pensamento de Maquiavel) face aos interesses nacionais e aos valores universais. Injusta ainda porque decidida por um poder ilegítimo (não democrático) e sem justa causa (pensamento de humanistas como S. Tomás de Aquino, Vitória ou Suárez).
Se não houve um derrotado militar, houve claramente um derrotado político. O sistema ditatorial e colonial português foi derrotado em 25 de Abril de 1974. Mas faltou aos vencedores vontade política para julgar pelos seus crimes, quer o sistema, quer os seus principais agentes, os responsáveis políticos e militares, a polícia política, a censura.

3. Perante a incapacidade de julgar a montante, o "crime da guerra", caía-se numa nova injustiça se se julgassem, a jusante, os "crimes na guerra". Houve "crimes de guerra" no seu sentido comum em acções contra o "inimigo", no tratamento de prisioneiros, nas represálias sobre populações. Mas não foi uma acção sistemática. Também houve, apesar do ambiente hostil, actos de heroísmo genuíno, de humanismo, de revolta. Como julgar comportamentos individuais, por vezes nos tais momentos paroxísticos de que fala Fontette, em situações de "stress" incontrolável, perante o dilema da vida ou da morte, em que o instinto de sobrevivência anula os valores humanos se não se julgam as hierarquias e os responsáveis pelo ambiente criado? Aqueles que, a frio, no conforto dos gabinetes, não só geraram as condições em que os crimes germinariam, como tantas vezes os fomentaram, os incentivaram, os enalteceram, chegando a transformar "crimes de guerra" em actos heróicos, para deles se aproveitarem politicamente.
O general francês Massu, lendário comandante na Indochina e na Argélia, acerca do massacre de May Lay, perpetrado por tropas norte-americanas no Vietname, afirmou em entrevista na época: "(…) os responsáveis pelas May Lais são os governantes e não os soldados ( ... ). Os chefes de governo que lançam os seus exércitos na guerra assumem, automaticamente, os riscos de provocarem May Lais (…) Os governos devem ter plena consciência destes fenómenos e assumir a sua inteira responsabilidade, não descarregando sobre o pequeno soldado (...). O que deve ser condenado é a própria guerra".

C. 
Penso pelo que expus, que não há espaço nem tempo para julgamentos individuais, quer de "crimes da guerra", quer de "crimes na guerra".
Mas é sempre tempo e lugar para se reconhecer o "crime da guerra", como outros estados têm feito em relação a "guerras injustas" ainda mais remotas, como foi a II Guerra Mundial. E se o Estado português quiser, nobremente, sem complexos, assumir essa atitude, bom será que, em vez de cerimónias serôdias, em que ao abrigo de equívocas homenagens aos combatentes se busca, afinal, a glorificação da guerra colonial e do próprio império colonial, patrocine e tome a iniciativa de uma justa homenagem às vítimas do fascismo e da guerra colonial, com o corajoso pedido de perdão pelos crimes que, no passado recente, foram cometidos contra o povo português e contra os povos das suas antigas colónias.

(l) "The soldier and the state", Harvard University Press, Cambridge, 1957, pág. 70
(2) Jeanin, Pierre - "História das Ideias Políticas" Voi. 3. PEA Mem Martins, 1970, pág. 29
(3) "A minha concepção do Mundo", Brasília Editora, Porto, 1970, pág. 38
(4) Romão Rui Bertrand - "A concepção dialéctica da guerra em Hegel", Logos, n.O 3, Filosofia Aberta - Centro de Estudos e Divulgação, Lisboa, Jun. 1985, Nota 122, pág. 31.
(5) "O racismo", Bertrand, Amadora, 1976, pág. 102 e 103. (6) JEANIN Pierre - obra citada, pág. 29

(*) Major-general, foi membro do Conselho da Revolução, é dirigente da Associação 25 de Abril

94-Solidão

Vou-te escrever uma carta, é mais longa e não dá para aerograma. Já não ponho à cabeça "querida", ou "amor", nem outra coisa qualquer, porque já não sei como te chamar. O teu silêncio fez que me fartasse de ti, porque me fazes sentir as frustrações que já senti, porque me faz sentir o mesmo cansaço que já tive. O quão longe estou de ti, no espaço, no tempo, na vida.
Nas últimas semanas a minha tem sido uma vida com tudo o que há de pior: fome de amor, melancolia, azedume, solidão, vontade de morrer. Tive tantas vezes vontade de te pedir auxílio, mas vi que tu não estás em condições de ame ajudar. Cheguei à conclusão que de ti não posso esperar apoio. Prefiro não o pedir. Se o peço e tu não mo dás - e não dás, com certeza - é pior. É lançar-me com confiança e desembocar no desespero.
Vivi situações em que seria confortante ter alguém com quem desabafasse, alguém que me ouvisse. Não é que me resolvesse os problemas que só eu posso resolver, mas que fosse um apoio mos momentos difíceis com a sua ternura,  a esperança do amor. Nunca esperei isso de ti, o que é mau. É porque penso que és incapaz disso. Posso amar-te mas tu não me amas.
Não me serves. Até nem será por culpa tua, talvez. Eu é que fui um louco em me virar para aí. Tens demasiados factores envolventes que te distraem, ou, se calhar, nem te chegas a distrair porque nunca estiveste nessa de me amar. Comigo não. A guerra, as horas e dias no mato, até as mulheres daqui, tudo me leva a desejar-te.
Mas não dá.
Eu amo~te. Mas é preciso que tu me ames. Tens de provar que me amas. Eu não sei nada de ti. Começo a suspeitar que iludi a mim mesmo. Tens que me provar alguma coisa. É que me sinto humilhado com o teu silêncio. Estúpido, com tantas hipóteses de morrer já tenho pensado no suicídio para acabar com a humilhação. Sinto-me como cão a mexer o rabinho e olhando para o dono e nem uma festinha levar. É triste morrer sem amor.

30 de março de 2011

93-Horas de sorte e carregadores emboscados.

Tínhamos saído de Gendo após tragarmos as rações de combate. Era o primeiro dia da operação Inquietar I. As duas companhias de intervenção seguiam à frente pelo meio da mata, o meu grupo de combate ia no fim de tudo, com a recomendação do capitão Maia sobre as cautelas a ter na rectaguarda. Calor escaldante, mata difícil de transpor, a enorme bicha de pirilau às tantas parou. Nós também, estávamos a atravessar uma pequena clareira.
- "Pessoal, aproveitem para descansar um pouco", e, juntamente com o Lamine Turé, meu guarda-costas, dei o exemplo. Sentámo-nos os dois encostados a uma árvore. Desapertar da farda, alívio, duas goladas do cantil com água choca, era o que havia mas dava.
Não sei quantos minutos passaram, se dois, se três, se mais ainda, não estava nada preocupado em contar o tempo. Em relax mas alerta, ouvi os sons já familiares: o baque duma saída do outro lado da clareira e um silvo que se aproximava.
- "Chão!", gritei, deslizando com o Lamine para cima das ervas. E vi, com estes olhos que a guerra não comeu, a granada a ricochetear nas ervas e a parar, calma e serena, poucos metros à minha frente. Ao mesmo tempo rebentava grande tiroteio mais longe, na zona da cabeça da coluna.
- "Fogo para o outro lado!", disse aos meus, que já estavam no chão.
- "Tivemos sorte, meu alferes", segredava-me o Lamine entre rajadas, "o gajo viu-nos sentados e deitou-se no chão com o RPG para nos apanhar em cheio, e falhou".
Foram dez minutos de combates. Lá mais à frente havia de tudo: RPGs, morteiros metralhadoras pesadas. Mas aqui os gajos só tinham armas ligeiras e o RPG. Passados esses dez minutos verifiquei que eles não respondiam e mandei parar o fogo. Pareceu-me que já não estavam lá.
- "Marcelo, Bicho, Ribeiro (este ainda estava entre nós)", disse aos furriéis, "vamos entrar na mata, vamos apanhar de lado os gajos que estão a atacar a coluna lá à frente".
Fui à cabeça com o Lamine Turé. O tiroteio lá à frente continuava. Passados quinhentos metros diz-me o Lamine:
- " Alferes, estão ali turras", e apontou-me uma árvore perto da qual estavam três indivíduos ajoelhados.
Fiz sinal ao grupo para parar. Apontei a G3 à perna de um e disparei. Corri para eles seguido por todos. Quando chegámos ao pé deles vi que o ferido na perna gemia e os outros gritavam "ka turra, ka turra!". Verifiquei espantado que não tinham arma nenhuma.
- "Lamine, quem são estes gajos, afinal?"
Conversou com eles e disse-me depois:
- "São carregadores do capitão Raiano, fugiram para aqui quando começou a emboscada."
- "Tiveram sorte que não lhes mandei uma rajada".
Bonito, estava feito. Ia ouvir o capitão Raiano.
Mas ele não se chateou.
- "Foram burros. Quem os mandou meter-se na mata?"
Fiquei satisfeito. Era o que eu pensava também
O homem foi evacuado de heli no dia seguinte. Os outros dois passaram a olhar-me com desconfiança cada vez que nos cruzávamos.

26 de março de 2011

91-O choro

O CHORO

Ainda o sol não tinha despontado, quando Tia Maninha, com uns sessenta e tantos anos bem contados na pontada, subia, com a ligeireza dos seus tempos de badjudessa, a avenida que ela teimosamente continuava a chamar Avenida da República. É que essa história da troca dos nomes das ruas depois da Independência só servia para lhe baralhar a cabeça. Coisa muito complicada mesmo, que não dava para entender! Então, se a vila de Teixeira Pinto se passou a chamar Cantchungo, porque razão o chofer do táxi se riu dela, no outro dia, quando lhe pediu que a levasse até à estátua de Cantchungo, ali na Mãe d'Água?
Como de costume, Tia Maninha tinha combinado com as suas mandjuas encontrarem-se em casa de Nha Arminda, para juntas seguirem para o choro de Nhu Djon, falecido na véspera. "Coitado de Nhu Djon! Chegou mesmo a sua hora. De nada lhe valeram as idas à baloba nem os mècinhos do mouro. Paz à sua alma. Amém! " dizia para consigo tia Maninha enquanto acelerava o passo e avançava no sereno da manhã. Mais um bocadinho e chegaria à casa de Nba Arminda, que ficava mesmo ali atrás dos Bombeiros.
Todas as manhãs era esse o seu primeiro trajecto, quando da sua Mansoa natal vinha passar umas semanas a Bissau. Depois seguia com a manjuandade toda animar os choros e polir as calçadas da capital, não fossem as circunstâncias, dir-se-ia até alegremente ... Por vezes iam a três num mesmo dia, porque acompanhar os mortos é coisa sagrada e, um dia, quando ela morresse, também gostaria que lhe fizessem companhia ...
Naquela manhã, a nobre missão de velar o morto tomava ares de cerimónia oficial, porque Nhu Djon, antigo varredor da Câmara antes da Independência, era pai de dois combatentes da liberdade da Pátria, sendo um deles um Membro actualmente. Certamente que a nomenclatura viria falar mantenhas de choro e as coisas teriam que ser feitas a preceito. Haveria que ajudar as parentes do falecido a preparar o cuscus, que seria servido com o café, logo cedinho. Depois viria a cena à volta do morto, durante a qual cada uma, entre gritos e lamúrias, despejava um rosário de elogios ao defunto que, só pelo facto de ter morrido, passara a ser a melhor pessoa do mundo. Havia também as mensagens a dar, que o defunto deveria levar aos falecidos, quase sempre as mesmas transmitidas a cada morto que velassem.
- Nhu Djon, diga à minha vizinha Maria Té que não se preocupe com o marido. Na vizinhança, olhamos todos por ele. Que ela peça só a Deus que lhe dê forças e saúde­recomendou Tia Maninha, enquanto enxugava os olhos com as costas da mão.
Tudo isso ela fez com a devida solenidade, não por ser um caso especial, mas por ser esse o seu carácter: o dever deve ser cumprido e bem cumprido. Tinha ganho o seu dia e mais uma graça de Deus de que Ele não se esqueceria quando chegasse a sua hora de entregar a alma ao Redentor.
Com a sensação do dever cumprido, despediu-se e pôs-se a caminho da casa do sobrinho, onde habitualmente ficava alojada quando vinha a Bissau. Naquele dia, como saíra ainda de madrugada, não vira ninguém e nem pôde avisar que não esperassem por ela para o almoço.
O sol começava a declinar e dentro de alguns minutos cairia a noite. Tia Maninha ia atravessar a rua diante da Segunda Esquadra, quando viu no passeio do outro lado uma multidão de gente à porta de uma casa.
"O que terá acontecido?", perguntou-lhe a sua curiosidade.
Para lá se dirigiu e entrou no quintal da casa. Foi até à varanda e viu umas quantas pessoas vestidas de preto e sentadas nas cadeiras colocadas ao longo das paredes. "Um choro!", concluiu rapidamente Tia Maninha e logo tomou os ares próprios à circunstância: rosto fechado, patenteando uma pena visível.
- Não posso deixar de ir falar mantenha àquela gente - disse para com os seus botões - só mesmo entrar e sair ...
Avançou-se para o grupo de mulheres grandes que estava na sala ao lado da varanda. Muito dignamente, apresentou-lhes os seus mais sentidos pêsames e desejos que Deus recolhesse aquela santa alma na Sua Graça Divina. "Amém!", responderam as mulheres em uníssono, num lamuriante sussurro. Depois, ao mesmo tempo que se benzia aproximou-se do caixão colocado no meio da sala. Parou junto aos pés do defunto e ergueu as mãos para começar a sua conversa com o falecido. Nisto, engasgou-se com a emoção e foi assaltada por um ataque de tosse que lhe arrancou a dentadura postiça da boca, atirando-a para dentro do caixão. Tia Maninha, confusa com o que lhe acontecia, apanhou precipitadamente a sua dentadura e, metendo-a no bolso do vestido, saiu apressadamente do velório, em direcção a casa, sem sequer se despedir. "Credo! Cruzes! Quem é que me quer impedir de falar? Passa de largo!", disse para consigo enquanto se persignava repetidas vezes.
Chegou à casa do sobrinho ainda muito agitada com a cena que acabara de viver. Deixou­-se cair numa cadeira e, enquanto enxugava com o lenço o calor que lhe escorria pelo rosto, contou à família a mofineza por que passara. Ninguém se atreveu a rir ao imaginar Tia Maninha naquela cena, pois a consternação dela era realmente profunda. O sobrinho, querendo mostrar que compartilhava a sua pena, perguntou-lhe curioso:
- Mas tia, quem é que morreu?
Tia Maninha arregalou os olhos e com o ar mais contrariado deste mundo respondeu: - Como é que eu sei, meu filho?! Nem sequer tive tempo de saber!

Filomena Embaló
Paris, 18 de Outubro de 2002
 ln Mealibra, nº 11, Dezembro 2002
Revista de Cultura, Centro Cultural do Alto Minho, Portugal

Glossário

Badjudessa: juventude (no caso da mulher); termo crioulo proveniente de badjuda (menina, moça).a
Baloba: local sagrado dos animistas, templo.
Choro: velório, cerimónias à volta do enterro.
Cuscus: espécie de bolo feito em geral, no caso da Guiné-Bissau, com farinha de arroz. É cozido a vapor dentro de um binde; binde: utensílio culinário feito de barro, de forma cónica, com o vértice arredondado e com três buracos, por onde passa o vapor de água.
Falar mantenha: cumprimentar (tradução literal da expressão crioula).
Falar mantenha de choro: apresentar os pêsames.
Mandjuas: pessoas da mesma geração, muitas vezes que cresceram juntas.
Mandjuandade: grupo de mandjuas.
Mantenhas: cumprimentos, saudações.
Mècinho: mezinhas (termo crioulo);
Membro: forma como se designava, nos primeiros anos da Independência, os membros dirigentes do PAIGC, partido único na época.
Mofineza: desventura, azar.
Mouro: curandeiro muçulmano.
Mulher grande: mulher idosa
Nha: senhora.
Nhu: senhor
Pontada: costas, na zona dos rins
Sereno: bruma.


Guineense de coração e por opção, Filomena Embaló nasceu em Angola, em 1956, filha de pais cabo-verdianos. Em 1975, os acasos da vida levaram-na para a Guiné-Bissau, país que adoptou e em cuja labuta dos primeiros anos de independência se forjou a faceta guineense da sua identidade.
Formou-se em Ciências Económicas em França e ocupou cargos na Função Pública bissau- guineense no país e no exterior. Actualmente trabalha em Paris, numa organização intergovernamental.
Tem publicações em revistas e jornais de artigos sobre a economia guineense e literários. As encruzilhadas do seu percurso multicultural inspiraram o seu primeiro romance, "Tiara", editado em 1999.

23 de março de 2011

90-A "ferida invisível"

 A "ferida invisível". Consequências psicológicas da guerra colonial


«Calcula-se que em Portugal haja 140 000 pessoas com distúrbios psicológicos crónicos como consequência das guerras coloniais. (Afonso de Albuquerque e outros, in Revista de Psicologia Militar, 1992)
Isso significa que cerca de 1,4% da população portuguesa poderá estar afectada, o que é um índice superior ao número de esquizofrénicos.
(...)
No DSM-Ill[1] considera-se como critério de diagnós­tico da PPTS[2] a pessoa ter experimentado um aconteci­mento fora da experiência humana normal, que provo­caria stress a qualquer indivíduo. Portanto pode contra­ir a PPTS um indivíduo que tenha estado na guerra, ou que tenha sido vítima de uma catástrofe natural, ou que tenha tido a sua vida ou integridade pessoal ameaçadas por qualquer outra forma, para dar apenas alguns exem­plos.
Mas as características da PPTS adquirem contornos especiais para as vítimas de traumas sofridos na guerra e sobretudo nas guerras não convencionais.
Pensamos que os indivíduos que sofrem deste distúr­bio por terem participado nas guerras coloniais que o Governo Português provocou em Angola, Guiné e Moçambique, de 1961 a 1974, são afectados pelas cir­cunstância especiais dessas guerras.
Em primeiro lugar, tratava-se de guerras injustas, anti-patrióticas, de agressão e domínio colonial. Por isso, a natureza da missão dos soldados portugueses era, à partida, extremamente ingrata, não mobilizadora moral e psicologicamente estranha aos interesses do indivíduo.
Este é, logo à partida, um factor de stress. O indi­víduo sofria o conflito entre a necessidade de cumprir o seu dever militar e a estranheza e alheamento dessa missão.
É certo que o salazarismo conseguiu, inicialmente, convencer muitos portugueses que estavam a defender os interesses de Portugal nessas guerras. Sabe-se que a con­denação inequívoca da guerra colonial, a oposição à guerra e a sua rejeição nos primeiros tempos foi feita apenas por um número muito reduzido de portugueses.
Só a pouco e pouco, devido principalmente à eficá­cia da luta dos povo das colónias e da acção das for­ças políticas mais consequentes em Portugal, foi fican­do claro para um número cada vez maior de pessoas que a guerra era impossível de ganhar e que a única solu­ção era a independência das colónias.
As reacções dos ex-combatentes aos resultados da guerra sofrem o impacto desta evolução. Há alguns que absorveram a ideologia racista e colonialista que lhes foi instilada no exército colonial, não se conformando com a derrota da causa em que acreditaram, havendo outros que foram adquirindo a consciência de que os seus in­teresses eram alheios àquelas guerras.
Seja como for, o soldado português que foi arranca­do ao seu lar, à sua terra, ao seu trabalho, para ir com­bater em locais longínquos, em condições geográficas e climáticas completamente inabituais • rodeado do perigo permanente de morrer pelo rebentamento de uma mina ou numa emboscada, enfrentando uma população hostil em que era difícil distinguir o amigo do inimigo mas que, à cautela, era mais realista encarar como inimiga, sente que os sacrifícios que a guerra lhe exigiu foram absolutamente vãos devido ao resultado das guerras ter sido o inverso do perseguido pela política que elas ser­viam.
Este também é um factor que condiciona a sintomatologia da PPTS de ex-combatentes das guerras de África. A completa inutilidade do sacrifício feito.
Este sentimento ainda era mais agravado pelo facto de o ex-combatente, ao chegar a Portugal, não ver re­conhecido o seu sacrifício mas, ante pelo contrário, ser visto com desconfiança pelo resto da população que ia adquirindo consciência que aquela guerra era uma guerra injusta e sem saída.
Aqui pode colocar-se uma questão. Porque é que os indivíduos que passaram pela guerra não foram todos afectados psicologicamente por ela com o mesmo grau de intensidade?
À volta deste problema muito e tem discutido ao longo dos anos. A ideia inicialmente prevalecente, en­tre as duas guerras mundiais, era que a personalidade prévia do sujeito, antes do sofrimento do trauma, predeterminava o impacto deste sobre o seu ego.
Isto é, um sujeito com um ego forte e bem estruturado suportaria melhor o impacto do stress de guerra e ficaria imune às suas consequências. Pelo con­trário, indivíduos com uma personalidade pré-mórbida, teriam mais probabilidade de contrair a doença.
Os estudos feitos durante a 2." Guerra Mundial e posteriormente, levaram a pôr em causa esta teoria e a dar mais ênfase à natureza do trauma - qualidade e in­tensidade - que explicaria as diferentes consequências nos sujeitos.
Em nossa opinião há que encarar o problema de forma complexa, considerando existir uma constelação de causas que levam a um impacto diferente do stress de guerra sobre o sujeito: a preparação psicológica para a guerra, a motivação para o combate, a natureza e inten­sidade do trauma, a existência ou não de um grupo contentor, coeso e com normas e valores que o sujeito compartilhe e, sobretudo, a fase de desenvolvimento da identidade em que o sujeito se encontrava quando foi para a guerra.
Existem fortes indícios de que a prevalência da neu­rose de guerra é muito menor em militares de carreira do que em militares do contingente. E isso, quanto a nós, porque os primeiros tem uma preparação militar e, sobretudo, psicológica para a guerra muito mais eficaz.
Com efeito, sabe-se que ao militar do quadro per­manente é incutida a ideia de que é um técnico, que não lhe compete discutir as ordens nem pôr em causa a decisões respeitantes à guerra que são tomadas pelos políticos. A ele compete-lhe fazer a guerra e ser eficaz na sua execução.
Assim, o militar profissional habitua-se a isolar os sentimentos ligados aos actos vividos ou praticados du­rante a guerra.
Quando surgem sentimentos de culpa (e veremos mais adiante que eles aparecem muito entre os veteranos de guerra ex-soldados do contingente geral), o mi­litar profissional consegue facilmente «pôr a culpa fora de si», dizendo e pensando que ele foi um mero execu­tor e se alguma coisa de errado houve a culpa é dos superiores ou dos políticos.
Ao passo que o jovem português que foi mobiliza­do para fazer o serviço militar nos anos da guerra foi arrancado muito jovem, no fim da adolescência-começo da idade adulta, do seu ambiente de paz, com as sua normas e valores de que a máxima principal é «não matar», para um ambiente de guerra em que o valores são completamente subvertido e invertidos, tornando-se a norma de «matar para não morrer» o princípio orientador básico da guerra.
Assim, há uma passagem brusca de uma identidade ainda pouco madura e estruturada, formada nas normas da sociedade civil, para um ambiente de guerra em que se adopta um papel completamente contraditório com o anterior. Há pois uma primeira inversão brusca e bru­tal de valores.
Depois, durante a guerra, o jovem era mergulhado num mundo em que, muitas vezes, era levado a pratic­ar acto absolutamente estranho e aberrantes em rela­ção àquilo a que estava habituado.
Muitos destes ex-combatentes assistiram ou partici­param em actos que contrariavam todas as normas mais elementares da convivência humana e até as normas internacionalmente aceites de condução da guerra.
Casos de barbaridades gravíssimas contra a popula­ção civil, torturas de prisioneiros, tratamento desumano da população africana, eram o dia-a-dia para muitos destes soldados.
O jovem, com uma identidade em formação, mal sabendo ainda bem quem era, via-se com espanto a pra­ticar actos que não imaginava ser capaz de fazer. Ele tomava contacto com o «lado sombrio» da natureza humana que o deixava espantado pela sua barbaridade.
E ao voltar à pátria, ao regressar à sociedade civil, tinha novamente que se adaptar a um papel a que já não estava habituado, a seguir normas de vida absolutamen­te contrárias às da guerra. Tinha, pois, que fazer uma nova inversão radical de valores.
Será, pois, de estranhar, a enorme dificuldade de adaptação destes sujeitos, a distorção da sua identidade, a dificuldade visível de integração entre a identidade anterior à guerra, a vivência de guerra e a sua vida posterior a ela?
Será de estranhar que estes indivíduos tenham recalcado a sua experiência de guerra de tal maneira que as emoções negativas associadas a esses acontecimentos se mantenham vivamente no inconsciente, provocando um enorme sofrimento?
Com efeito, pensamos que em muitos ex-soldados da guerra colonial com PPTS existe um forte sentimento de culpa pelas enormes barbaridades e crimes que foram levados a cometer.
De um pequeno número de doentes (comparado com os 800 000 homens que se calcula que tenham passado pelas colónias durante a guerra) ouvimos experiências de guerra horrorosas, que dão um retrato bastante mais realista desta guerra do que as narrações que estamos ha­bituados a ouvir ou a ler.
Assim, era comum soldados portugueses vingarem-­se na população africana mais próxima, quando sofriam baixas de companheiros a que estavam ligados por la­ços de amizade. Isto é dito como um facto trivial por ex-soldados em qualquer dos três teatros de guerra.
Dizer que a população civil era tratada com desu­manidade é uma afirmação muito pálida em relação à realidade. Um ex-soldado comando conta: «Quando che­guei a Moçambique, uma das primeiras cenas a que assisti foi ver um soldado armado mandar um preto sair da cubata e violar a mulher. Não gostei de ver aquilo e achei que era mal feito. Mas era o que todos faziam.»
Se este homem era católico, o que é provável numa população portuguesa maioritariamente crente, como se pode coadunar esta acção com a máxima «não cobiça­rás a mulher do próximo», quando se vê os companhei­ros «apoderar-se da mulher do próximo?» É difícil de calcular todos os prejuízos morais que tais práticas po­dem ter tido sobre jovens, muitas vezes idealistas e chei­os de nobres intenções.
Outro ex-soldado conta que certa vez uma negra foi presa, interrogada, e como não confessasse o que queri­am foi amarrada e levada para uma avioneta donde foi lançada em voo.
Este mesmo soldado conta que, no seu aquartelamen­to no Leste de Angola, os prisioneiros da UNITA e do MPLA eram mantidos no quartel para fazer pequenos trabalhos de faxina. Diziam que os tinham «na engorda». Depois fingiam que lhes davam fuga para os abater.
Outro ex-soldado, muito perturbado psiquicamente, relata que no começo da guerra, no Norte de Angola, queimaram muitas cubatas porque diziam que as mulhe­res que viviam nelas protegiam os guerrilheiros. «Fica­vam lá queimadinhas, coitadinhas», comenta.
Depois de participar nestes massacres a sua compa­nhia foi enviada para Malange para fazer campanha «psicossocial».
Como é possível que um jovem soldado que parti­cipou em massacres da população civil e depois foi en­viado para outro lado abrir estradas, construir escolas para essa mesma população civil, não se sinta profun­damente perturbado com a ambiguidade desta situação, não sinta o carácter absurdo e irracional desta guerra em que se dá com uma mão para se tirar com a outra?
Esta é uma situação típica de mensagem ambígua profundamente perturbadora para qualquer cidadão que não esteja dentro dos desígnios dos chefes militares, que costumam justificar este tipo de práticas com argumen­tos de guerra psicológica altamente discutíveis.
Finalmente, queremos contar o caso de um ex-com­batente que fazia parte de um grupo de reconhecimento que actuava na fronteira do Leste de Angola, com fardamento diferente da do exército português, sem do­cumentação para não ser identificado e com toda a pro­babilidade controlado pela PIDE.
As ordens que tinha eram peremptórias: «Abater tudo o que fosse vivo.))
Certa vez, este homem participou na chacina de mais de 200 habitantes civis de uma aldeia, em que aba­teu friamente a tiro um civil que lhe implorava de joe­lhos que não o matasse porque não tinha nada a ver com aquilo (cena que lhe aparece constantemente em sonhos), em que se lembra de ver uma velha a correr em chamas e depois morrer carbonizada (imagem que igualmente recorda frequentemente) e que depois rece­beu um louvor «pela forma valorosa como actuou na operação», «demonstrando possuir ao longo da referida operação e sobretudo na fase do assalto a um acampa­mento inimigo, grande determinação, coragem indestemida e vontade inquebrantável de vencer» ( ... ) «pela natureza arriscada da missão e principalmente pelos excelentes resultados obtidos sobre o inimigo» ...
Não é difícil de constatar que muitos dos «feitos militares» das tropas portuguesas nas colónias não pas­saram de simples chacinas da população civil.
Aqui levanta-se o problema das responsabilidades das autoridades militares fascistas na realização destas atrocidades. Será que não sabiam? Fechavam os olhos? Encorajavam?
Este é um problema bastante delicado e sabemos que há muitos oficiais que não caucionaram tais acções e não podem ser acusados de responsabilidade directa nestes crimes. Mas será assim para a instituição militar de en­tão no seu todo? Será possível que se dessem acções da envergadura das que citamos (ainda por cima com lou­vores oficiais) sem que se dessem conta do que se es­tava a passar?
O princípio que ouvimos enunciar a pessoas que estiveram na guerra em locais e circunstância muito diferentes de que, «quando viam um rapaz de 10 anos, negro, calculando que daí a mais 10 anos poderia ser um guerrilheiro, na dúvida o melhor era abatê-lo logo», não seria a doutrina de parte considerável das Forças Arma­das da altura?
Quando um doente conta que o hino da sua unida­de era: «Os pretos rastejam na mata como víboras, mas nós vamos esmagá-los até ao último», não implica isto a responsabilidade da própria instituição militar na men­talidade racista de que ficaram imbuídos muitos milita­res que passaram pelas fileiras durante a guerra coloni­al?
Será de estranhar, que jovens portugueses com uma identidade pessoal ainda mal consolidada depois de te­rem passado por duas mudanças de papel extremamen­te rápidas e brutais, tenham perdido o fio natural da evolução da sua personalidade?
Será de admirar a difusão da identidade, a perda de coesão do ego, a confusão de valores, as dificuldades de intimidade, o embotamento afectivo, as dificuldades de relacionamento de toda a ordem que estes ex-combaten­te experimentaram ao chegar da guerra?
Uma hipótese para o carácter diferido da manifesta­ção da PPTS é que o ex-soldado, a seguir à guerra, conseguia mais ou menos «organizar-se» psicologicamen­te por ter de planear a sua vida, criando expectativas de sucesso, o que o isolaria do trauma.
Mas a sua memória ficava lá. Existia qualquer coi­sa de não integrado na personalidade do sujeito, de «não digerido» psicologicamente, que ao ser reprimido cria uma tensão interior pela grande energia psíquica que tinha que ser mobilizada para reprimir os afectos dolorosos. E mais tarde, quando qualquer acontecimento sua vida lhe provocava um stress acrescido, as memórias de guerra podiam ser reactivadas e os mecanismos de defesa psicológicos cederem e instalar-se a PPT.
Finalmente, apenas algumas palavras sobre o processo de tratamento destes doentes.
Já vimos que o grande problema aqui existente é que o doente não consegue conciliar a sua identidade antes da guerra, a experiência traumática e a sua vivência do mundo depois da guerra.
Existe uma carga muito grande de experiência dolorosa ligada com a guerra que o ego do sujeito não consegue assimilar, integrar na sua consciência, porque essa experiência é contraditória com o conceito que sujeito tinha de si mesmo e a sua admissão consciente torna-se insuportável.
Mas a resolução deste conflito só é possível pela verbalização dessas experiências e a ab-reacção dos afectos a elas ligados, de forma a permitir transformar a atitude mental consciente e acomodar a experiência. dissonante com o ego.
A resolução completa do conflito exige a transfor­mação das estruturas cognitivas e afectivas existentes.
É claro que isto é um processo penoso, que  faz. emergir sentimentos dolorosos de culpa, de vergonha, de remorso, aquela carga insuportável de responsabilidade que o sujeito sente pelos actos que praticou. Mas a emergência desses sentimentos permite um maior acesso ao self e um aumento do autoconhecimento e cria maior espaço de liberdade para efectuar mudanças.
O sujeito tem que compreender que aqueles lhe pertencem, tanto os bons como os maus e ter a coragem de admitir o «lado negro da natureza humana».
Não se trata tanto de esperar que os outros o desculpem do que fez, mas tem que ser ele próprio  a aprender a viver com a sua culpa, a aceitar-se e desculpar-se a si próprio.
(...).»


Fernando Myre Dores, in revista "Vértice", Janeiro/Fevereiro 1994


[1] DSM: Diagnostic and Statistical Mannual of Mental Disorders
[2] PPTS: Perturbação post-traumática de stress.