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5 de abril de 2011

100-O corredor da morte Guileje-Gadamael



in "Os Anos da Guerra Colonial", suplemento As Grandes Operações da Guerra Colonial XV, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes


Guileje - a outra ponta da tenaz 


O ataque a Guileje, no Sul da Guiné, de que iria resultar a retirada das forças portuguesas, iniciou-se em 18 de Maio de 1973, coordenado com o de Guidaje, Comandado pelo próprio Nino Vieira, comandante militar do sul, foi-lhe dado o nome de código de Operação Amílcar Cabral e executada com intenção de o PAIGC apresentar os seus resultados à OUA, cujo 10.º aniversário se comemorava em 25 de Maio. 

Para o início da operação, o PAIGC concentrou em redor de Guileje, a bateria de artilharia de Kandiafara, com morteiros de 82 e 120 mm, canhões sem recuo, canhões de 85 mm e de 130 mm, um grupo de reconhecimento e observação e cinco bigrupos de infantaria do sector de fronteira. Deslocou ainda o 3.º Corpo de Exército do Unal para a mata do Mejo e transferiu três bigrupos da região do Boé e dois bigrupos do 2.º Corpo de Exército, no Tombali, para reforço do sector de fronteira. 

No total, o PAIGC concentrou na zona de Guileje, um corpo de exército (3.ºCE), no Mejo, dez bigrupos em reforço ao sector de fronteira e uma bateria de artilharia, com um grupo de reconhecimento. Ao todo, considerando a base numérica de cada unidade do PAIGC utilizada pelos serviços militares portugueses, seriam cerca de seiscentos e cinquenta homens, efectivo idêntico ao que foi concentrado em Cumbamori para o ataque a Guidaje. 

As forças portuguesas da guarnição de Guileje (COP 5), comandadas pelo major Coutinho de Lima, eram constituídas por:

Companhia de Cavalaria 8350 

Pelotão de Artilharia 

Secção de auto-metralhadoras Fox 

Um pelotão de milícias.

Em 18 de Maio de 1973, o PAIGC realizou uma emboscada, às sete da manhã, a cerca de dois quilómetros de Guileje, às forças que iam abastecer-se de água ao poço situado no exterior, da qual resultaram um morto e sete feridos do pelotão de milícias e ainda o ferimento grave de um soldado metropolitano, que veio a morrer quatro horas depois, por falta de evacuação aérea, facto que afectou o moral das tropas e contribuiu para o agravamento da situação no interior de Guileje. 

Nessa noite, de 18 para 19, o quartel foi atacado e o comandante do COP5 pediu para se deslocar a Bissau, a fim de expor a situação, o que não lhe foi autorizado. 

Em 20, a partir de Cacine, o mesmo oficial pediu de novo autorização para ir a Bissau, onde se deslocou e expôs a situação ao comandante-chefe, regressando a Cacine. 

Em 21, o PAIGC realizou outra emboscada, com utilização de RPG-7 junto à bolanha onde militares recolhiam água. Ainda neste dia, Guileje sofreu três flagelações com um total de 45 granadas, uma às 7, outra às 9 e outra às 13 horas. Às 14 e 15h, o posto de rádio emitiu a sua última mensagem: «Estamos cercados... », que foi captada em Gadamael. 

O comandante do COP5 regressou a Guileje ao fim da tarde, vindo a pé de Gadamel com dois grupos de combate, um da CCaç 4743, da guarnição de Gadamael, e outro da CCaç 3520, da guarnição de Cacine. Às 18 e 30h, o comandante do COP5 decidiu evacuar as tropas e os civis de Guileje. 

Em 22, pelas 5 e 30h da manhã, iniciou-se a saída do quartel, com a destruição do material abandonado. Por falta de comunicações, esta acção apenas foi conhecida quando a coluna chegou a Gadamael, pelas 10 e 30h do mesmo dia. 

Entre 18 e 22 de Maio, Guileje sofreu 36 flagelações, que causaram grandes danos, embora não tenham provocado baixas dado o sistema de abrigos que ao longo dos anos ali havia sido construído.





in "Os Anos da Guerra Colonial", suplemento As Grandes Operações da Guerra Colonial XV, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes


Gadamael - o verdadeiro inferno!


in "Os Anos da Guerra Colonial", suplemento As Grandes Operações da Guerra Colonial XV, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes

Em Maio de 1973, a guarnição de Gadamael, constituída pela Companhia de Caçadores 4743, que dependia operacionalmente do COP 5, com sede em Guileje, constituía a retaguarda deste posto e era o seu único ponto de apoio para o reabastecimento depois de a acção do PAIGC ter tornado intransitáveis as ligações por terra para Bedanda e Aldeia Formosa. 

O interesse militar de Gadamael resumia-se a servir de ponto de reabastecimento a Guileje, pois situava-se no último braço de mar do rio Cacine que permitia a navegação a embarcações de transporte. 

O interesse militar de Guileje tornara-se, por sua vez, muito discutível, pois a guarnição fora ali instalada ainda no tempo do dispositivo territorial montado pelo general Schulz, para anular as infiltrações de guerrilheiros vindos da grande base de Kandiafara, na Guiné-Conacri, pelo célebre «Corredor de Guileje». Mas os guerrilheiros tinham conseguido ultrapassar esse obstáculo, fixando-se em toda a zona da península do Cantanhez, o que reduziu Guileje a um ponto forte onde as forças portuguesas resistiam e marcavam presença territorial. Em 1973, não servia já como base de apoio a operações lançadas na margem sul do rio Cacine, limitando-se a assegurar a presença das tropas portuguesas entre este rio e a fronteira com a Guiné-Conacri, em conjunto com as guarnições de Cacine e Gadamael. Mantinha-se naquele local aguardando situação mais favorável que permitisse a sua transferência, sem ser como resultado directo da pressão do adversário, dispondo, como ponto forte, de instalações defensivas, que lhe permitiram resistir sem baixas significativas a fortes ataques de artilharia. 

Tinha contudo, a grave limitação do abastecimento de água, que era transportada em depósitos a partir de uma fonte situada no exterior do quartel, e este movimento diário constituía a grande vulnerabilidade das tropas ali entrincheiradas. 

Após a retirada de Guileje, a guarnição de Gadamael ficou constituída por duas companhias (a CCav 8350, vinda de Guileje, e a CCaç 4743, que ali se encontrava do antecedente), um pelotão de canhões S/R, com cinco armas, e um pelotão de artilharia de 14 cm, com três bocas de fogo. Este conjunto de forças passou a constituir o COP5, tendo sido nomeado para o seu comando o capitão Ferreira da Silva, em substituição do major Coutinho de Lima.


Ao contrário de Guileje, Gadamael dispunha de más condições de defesa, por se situar em zona pantanosa onde era difícil construir abrigos. Se as condições já eram más para os militares da guarnição, a situação piorou significativamente com a chegada da coluna vinda de Guileje, que não dispunha de abrigos, nem de condições de alojamento para ali permanecer. Pior ainda, a duplicação de efectivos aumentou a concentração de pessoal dentro do espaço exíguo do quartel e tornou-o alvo altamente remunerador para ataques de artilharia do PAIGC. 

De facto, as forças do PAIGC, moralizadas pela vitória obtida em Guileje, transferiram para Gadamael os seus esforços e entre as 14 horas, de 31 de Maio e as 18 horas, de 2 de Junho bombardearam o quartel com setecentas granadas, uma média de treze por hora, provocando cinco mortos e catorze feridos, além de avultados prejuízos materiais. 

A violência destes bombardeamentos fez com que a guarnição de Cacine, a cerca de dez quilómetros para jusante do rio, difundisse uma mensagem a comunicar que Gadamael fora destruída, no entanto, a posição manteve-se, embora com o aquartelamento parcialmente destruído e a defesa imediata com brechas. 

Em 1 de Junho foram lá colocados os capitães Monge e Caetano, para enquadrar os militares ali reunidos. 

Em 2 de Junho foram recolhidos pela lancha Orion cerca de trezentos militares que se haviam refugiado nas bolanhas em redor de Gadamael, para escapar aos ataques. 

Ainda neste dia desembarcou uma companhia de pára-quedistas e um pelotão de artilharia, passando o comando do COP5 para o comandante dos pára-quedistas.

Desembarque de forças do BCP 12 em Gadamael
Gravura inserta no livro "Guiné - 1968 e 1973 - Soldados uma vez, soldados para sempre", de Nuno Mira Vaz

O BCP12 instala-se em Gadamael à espera do inimigo
Gravura inserta no livro "Guiné - 1968 e 1973 - Soldados uma vez, soldados para sempre", de Nuno Mira Vaz
 Entre 3 e 4 de Junho caíram em Gadamael duzentas granadas, que provocaram mais dois mortos e quatro feridos. Em 4 de Junho, o PAIGC realizou uma emboscada a menos de um quilómetro do aquartelamento, causando quatro mortos e quatro feridos e capturando três espingardas G-3 e um emissor de rádio. O comandante do COP5 pediu autorização para retirar de Gadamael, o que não lhe foi concedido, recebendo ordem para defender a posição a todo o custo. 

Em 5 de Junho, uma lancha da Marinha, botes dos fuzileiros e embarcações sintex do Exército evacuaram de Gadamael os mortos e os feridos, além de militares que não se encontravam em condições de combater, passando o COP5 a ser comandado pelo tenente-coronel Araújo e Sá. No mesmo dia ocorreu novo ataque com setenta granadas, que provocaram cinco feridos graves e cinco ligeiros. 

As forças portuguesas sofreram nesta acção vinte e quatro mortos e cento e quarenta e sete feridos. 
O PAIGC conseguira ocupar uma posição militar portuguesa e apresentar esse feito na conferência da OUA, lograra esgotar as reservas de forças de intervenção portuguesas (o Batalhão de Comandos mantinha-se inoperacional depois das baixas sofridas no ataque a Cumbamori de 19 de Maio) e limitara seriamente a acção aérea. Estavam, pois, reunidas as condições para se realizar uma grande acção política no interior do território, o que aconteceu em Madina do Boé, em Setembro, com a declaração unilateral da independência, na presença de numerosos convidados estrangeiros.
(Andelmo Aníbal e Carlos Matos Gomes, in http://guerracolonial.org, site da A25A/RTP)


in "Os Anos da Guerra Colonial", suplemento As Grandes Operações da Guerra Colonial XV, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes



A partir de 12 de Junho, foi colocada uma terceira companhia de pára-quedistas na região, ficando todo o Batalhão de Pára-Quedistas 12, empenhado no Sul, para «segurar» Gadamael. 

4 de abril de 2011

99-Sobre a guerra colonial na Guiné

Programa "Artigo 37" na RTP2
(em 2001,mas não sei em que dia)
O Mário Pádua, aqui interveniente, foi o médico que cuidou do soldado do meu pelotão Manuel Fragata Francisco, que foi ferido em Sinchã Jobel e apanhado pelo PAIGC, durante a operação Invisível, que o levou para o hospital de Ziguinchor.

1 de abril de 2011

98-Retirada de Madina do Boé

«O então brigadeiro António de Spínola, chegado à Guiné em 1968 como novo governador e comandante-chefe, decidiu avançar na estratégia de retirar as tropas do Leste do país, pouco povoado e, no seu entender, com pouco para defender. Para a retirada do quartel de Madina do Boé, uma tabanca, ou aldeia, com pouco mais de meia dúzia de cubatas, perto da fronteira com a Guiné-Conacri e constantemente sob ataque do PAIGC de Amílcar Cabral, foi desencadeada a operação "Mabecos Bravios" (cães selvagens).
Era a companhia de Caçadores 1790 que estava em retirada de Madina do Boé, e homens de outras companhias tinham vindo em apoio desta grande operação. Tropas, viaturas e todo o material de guerra percorreram os 22 quilómetros da picada entre Madina do Boé e Cheche, já na margem do rio. 
Chegados ali, começaram a transpor os 200 metros de uma margem à outra em duas jangadas, na tarde de 5 de Fevereiro de 1969. Fizeram-no vezes sem conta, passando 28 viaturas pesadas, mais 100 toneladas de munições e equipamentos, três auto-metralhadoras Daimler e cerca de 500 homens. Ao início da manhã de 6 de Fevereiro, só restava na margem sul um grupo de homens: dois pelotões da companhia de apoio 2405, outros dois da que estava em retirada. Seriam 100 a 120 homens. 
Entraram todos na mesma jangada, que passou a levar o dobro da sua capacidade de segurança. A meio do rio, a jangada adornou para um lado e atirou vários homens à água, balançou para o outro e cuspiu outros tantos. Carregados com a espingarda, a cartucheira à cintura, as botas, muitos afundaram-se como pregos no rio, pacífico na estação seca, de Novembro a Maio. Sem gritos, sem esbracejares. Naquele momento, a dimensão do acidente passou despercebida. 
Só quando a jangada chegou à outra margem se percebeu a tragédia. Faltavam cerca de 50 homens (quase todos da metrópole). Este acontecimento ficou conhecido como o desastre de Cheche. 
Quando a coluna em retirada tinha alcançado Cheche, antes da travessia do rio, os homens da companhia 1790 devem ter sentido alívio. Tinham aguentado 13 meses debaixo de fogo dos independentistas do PAIGC, que se escondia nas colinas em redor de Madina do Boé, e todos tinham escapado com vida. No fim dos 22 quilómetros de estrada de terra, que nos dias actuais, pedregosa, aos solavancos, consome hora e meia de viagem, Cheche significava o adeus a um pesadelo. Na época das chuvas, a estrada ficava intransitável, pelo que só de avião podia abastecer-se o quartel, agora pouco mais do que umas paredes em ruína. 
Ainda hoje na aldeia de Cheche as casas são quase todas tradicionais e habitadas por famílias alargadas e não falta um campo de futebol, que se resume às balizas de paus num descampado. Entre os 300 habitantes, da etnia fula, encontram-se alguns que se viram no meio dos acontecimentos de 6 de Fevereiro de 1969. Alfa Umaro Djaló, muçulmano com três mulheres, nove filhos, seis netos, era soldado do Exército português em Madina do Boé. Na retirada, ia à frente a picar o terreno, não fosse haver minas, e na travessia do Corubal seguia na última jangada. Caiu à água. "Isso não vai apagar-se da memória. Morreram cinco africanos." Quando se senta com os filhos e os netos à noite, às vezes falam daquele momento: "Os netos reclamam por que não fui a Lisboa buscar os meus direitos. Não temos meios para ir." Os direitos ambicionados são uma pensão por ter combatido por Portugal. 
Também Mamadu Bari, outro habitante de Cheche, conta como enfrentou o Corubal naquele dia. Tal como Alfa Umaro Djaló, foi atirado ao rio. "Faltou pouco para morrer. Despi a roupa e nadei." Ironia da vida: tornou-se depois jangadeiro de profissão na travessia do Corubal, mas há cerca de uma década, como atestam os calos, que vive do cultivo de arroz e milho. 
Cerca de duas semanas depois do acidente, fuzileiros e mergulhadores da Marinha organizaram uma operação de recolha dos corpos, já em estado avançado de decomposição. Muitos tinham desaparecido. Na série de documentários A Guerra - Colonial, do Ultramar, de Libertação, de Joaquim Furtado, podem ver-se imagens aéreas de alguns corpos a boiar, recolhidas pelo então tenente (agora general) José Nico, piloto da Força Aérea. Joaquim Furtado relata que os corpos recuperados foram sepultados nas margens do rio, com as honras militares próprias. Antes, o jornalista mostrou imagens dos sobreviventes na jangada, também recolhidas por José Nico, e alguns dos companheiros nas margens a tentar ajudá-los. 
Aquela jangada, um estrado de madeira assente em canoas e bidões de gasóleo vazios, era puxada por um pequeno barco com motor fora de borda. E agora, como se fará a travessia? 
No dia em que Mussa Djaló caçava, a sede conduziu-o até ao Corubal e foi então que se deparou com a operação de recolha dos corpos. "Eu vi e não disse nada." O que diz ter visto foi um buraco perto da margem norte e um helicóptero a transportar os corpos até um descampado.»

- Publicado no jornal "Público" (não tenho a data)

97-Os helicópteros

Este vídeo é da autoria do meu amigo Jorge Félix, que foi piloto de helis na Guiné. Um abraço para ele.


96-Os mortos da CART1690 em "Guiné-As Duas Faces da Guerra"

Diana Andringa vê os restos do monumento em Geba aos mortos da CART1690




Sobre isto escreveu este texto:

Mortos. Estes nomes não podem ser senão de mortos. Guimarães, ... ndo Fernandes. Carlos A. Peixoto .... ul C. Ferreira, ... ostinho Câmara, ... o Alves Aguiar, .. .ime M.N. Estevão, ... sé A. V. Sousa, ... tónio D. Gomes.
Tudo em redor, aliás, fala de morte. As paredes em derrocada do que terá sido um quartel português. As viaturas a apodrecer sob o intenso sol africano. Os cacos de garrafas de cerveja. (Bebidas para enganar o medo? Suspensas por arame para, tinindo umas contra as outra, despertar os que dormissem ainda?).
E esta pedra caída, tumular.
Vivos, apenas os meninos que se cutucam, sorrindo, a olhar para nós, estranhos fotógrafos deste cemitério de metal e pedra.
A outra pedra, de pé, tem nomes de cidades, vilas, aldeias: Lisbaa. S. Tirso. Moçâmedes. Alcobaça. Madeira. (Nas ilhas não haverá também povoações?) Ponte de Lima. Vila Nova de Ourém. Vila Pouca de Aguiar. Bissau. O tempo, ou a guerra, quebrou-­lhe a parte de cima, e agora é uma pirâmide truncada, rasgada do lado direito, onde se inscrevem as primeiras letras dos postos, ou dos nomes, dos naturais dessas terras, que presumimos mortos.
De novo a primeira pedra, a que jaz por terra. A frente dos nomes dos que se presumem ter morrido, inscrevem-se o que supomos serem as datas dessas mortes: 1967, 1968. A última, na pedra, não em tempo, sobressalta-me: 21 de Agosto de 1967. Fiz vinte anos nesse dia. Nesse mesmo dia morreu António D. Gomes. Teria feito, sequer, os vinte anos? Lembro-me de ter feito vinte anos. Das prendas dos meus pais. E pergunto-me como terão os pais do soldado António D. Gomes suportado a morte do seu filho. Se terão chegado um dia a conhecer este local onde uma pedra caída por terra assinala a data em que o perderam.
"Nós enterramos os nossos mortos nas nossas aldeias, ao lado das nossas casas ... Os portugueses deveriam ter, também, um lugar para honrar os seus mortos, os que morreram aqui, durante a guerra", dissera-me, algumas horas antes, um antigo adversário. Aqui. Tão longe de casa, tão longe dos seus. Longe de mais para que possam trazer-lhes flores, arranjar-lhes as campas, preservar-lhes a memória.
Olho de novo as pedras, tentando compreender como se juntavam. Será a que jaz por terra a continuação da outra? Releio as terras e os nomes. Câmara pode ser da Madeira ... Será mesmo? Sim. Lá estão em frente de Madeira o posto, sold., e as primeiras letras do seu nome: Ag ... -
Agora cada morto tem o posto e a terra onde nasceu, excepto o primeiro, que parece ser de Lisboa, mas cujo posto e nome próprio se perderam, e João Alves Aguiar, de Ponte de Lima, a que o tempo corroeu o posto. Dois alferes, um furriel, sete soldados. Em cima, fragmentado, aquilo que parece a indicação do regimento a que pertenciam: ... RAL-1 .
... Combate.
Postas assim as duas pedras em conjunto, apercebo-me de que o soldado que morreu no dia dos meus vinte anos era de Bissau, e de certa forma isso tranquiliza-me, porque não está, afinal, tão longe de casa- como se isso tivesse alguma importância depois de se estar morto, como se me tivesse contagiado essa lista de terras inscrita sobre a pedra, ou outras, sobre outras pedras encontradas ao longo da viagem, onde outros soldados, cabos, furriéis, escreveram como se a naturalidade fosse a sua primeira identificação e a mais forte, o nome da terra natal, primeiro, e só depois o posto, o nome, a data em que escreviam, por vezes uma frase de desesperança, algo como "até quando Deus quiser" - como que temendo que esse "até" fosse curtíssimo, coisa de poucas horas, minutos, talvez, e houvesse que inscrever urgentemente, sobre esses caminhos, placas, pontes, esse sinal de vida e de memória.
Parece estranho que alguém possa ter tido medo aqui, neste local tão calmo, com o tempo suspenso e o silêncio apenas cortado pelo ruído persistente das cigarras. É difícil imaginar, enquanto os meninos se agrupam à nossa volta, curiosos do que fazemos e olhamos, que em tempos houve aqui tiros e gemidos - e homens cumprindo a triste tarefa de escrever sobre estas pedras os nomes dos companheiros mortos.
Um pouco mais adiante, numa das paredes que ainda se mantêm de pé, alguém desenhou um rinoceronte e um leão. Tê-Ios-á visto realmente? Tê-Ios-á imaginado? Em frente, sobre uma paisagem aparentemente urbana de prédios e chaminés, voa uma ave. Uma gaivota? Uma pomba? Um símbolo de paz? Um piscar de olho a esse adversário que, a todo o momento, lembrava que a sua luta era "contra o colonialismo português e não contra o povo de Portugal'? E que, muito antes de disparar o primeiro tiro, advertira: ':4 via pela qual vai ser feita a liquidação total do colonialismo português na Guiné-Bissau e em Cabo Verde depende exclusivamente do colonialismo português. ( ... ) Ainda não é tarde para proceder à liquidação pacífica da dominação colonial portuguesa nas nossas terras. A menos que o Governo português queira arrastar o povo de Portugal para o desastre de uma guerra colonial."
"O desastre de uma guerra colonial". Legenda para fotografia de pedras com listas de mortos, veículos destruídos, quartéis em derrocada - e, contrastando, os sorrisos dos meninos a dar-nos as boas-vindas.
Todos os anos, pelo 10 de Junho - esse dia que o regime colonial-fascista celebrava como Dia da Raça, e em que condecorava, no Terreiro do Paço, os pais, as viúvas e os órfãos dos militares caídos em combate -, ressuscitam algumas vozes saudosas do Império, a criticar a descolonizaçáo e a independência das ex-colónias portuguesas. Fazem-no, muitas vezes, usando a memória dos soldados mortos na guerra colonial. Escamoteando sempre que essas mortes se deveram, exclusivamente, à intransigência de um regime incapaz de compreender a inevitabilidade das independências, e à teimosia de um homem que, nunca tendo posto um pé em África, cuidava saber, bem melhor do que eles, o que melhor convinha aos africanos.
Releio a lista de mortos sobre a pedra e pergunto-me se, vinte anos depois, não será tempo de aceitar, claramente, que foram esses os únicos responsáveis dessas mortes ...
...
Diana Andringa. Público. 10 e Junho de 1995.

31 de março de 2011

95-Crimes de guerra


Artigo de Pedro Pezarat Correia* no Jornal de Notícias de 6 de Setembro de 1997

SABE QUEM COMBATEU QUE HOUVE CRIMES DE GUERRA

A. 
Recusando-me, por uma questão de princípio e de honestidade intelectual, a analisar a problemática dos "crimes de guerra" numa perspectiva jurídica - porque não sou jurista - limitar-me-ei a situá-la nos campos militar e político, que, afinal, como a história recente nos tem demonstrado, se tem em geral sobreposto ao campo político.

1. O julgamento dos "crimes de guerra", muito mais do que a apreciação de comportamentos de indivíduos enquanto combatentes, tem-se traduzido num exercício de poder de vencedores sobre vencidos. Em todas as guerras se têm verificado actos tipificáveis como "crimes de guerra", de ambos os lados das barricadas mas, salvo raras excepções, apenas aos vencedores tem cabido o "direito" de julgarem os "crimes de guerra" praticados do lado dos vencidos. Não há memória da constituição de tribunais independentes e supranacionais que, terminado um conflito, julgassem, de forma descomprometida, os "crimes de guerra" praticados em ambos os lados.
O recente caso da Bósnia, cujos julgamentos foram cometidos ao Tribunal Penal Internacional das Nações Unidas, com sede em Haia, aquele que mais poderia aproximar-se deste posicionamento de isenção e neutralidade, não foge totalmente aos vícios atrás apontados. Porque aqui, se entre os contendores bósnios não houve claramente vencedores e vencidos, acabou por haver um vencedor militar exterior: a OTAN e a sua potência hegemónica, os EUA, e um derrotado militar preferencial: os sérvios bósnios. E os dedos acusadores dos "crimes de guerra" não deixaram de reflectir esta lógica.

2. Uma segunda questão prévia se impõe. É que as acusações de "crimes de guerra" tendem a incidir sobre os agentes imediatos de actos como tal classificáveis, isentando ou ignorando os responsáveis pela criação das condições que tornaram esses actos possíveis, por vezes mesmo inevitáveis, ou seja, a própria guerra. E não são os militares quem desencadeia as guerras. Como salienta Samuel Huntington, "é o povo e os políticos, a opinião pública e os governos, quem desencadeia as guerras. São os militares que têm de combater" (1).
E certo que nem todas as guerras podem ser classificadas de criminosas. Isto nos remete à velha questão das "guerras justas" e "guerras injustas". Erasmo considerava como justa uma guerra de "( ... ) defesa contra a agressão ( )" (2). E no mesmo sentido se pronunciou Bertrand Russell, ao considerar que "( ) justa é toda a resistência a uma agressão ou invasão ( ... )" (3).

3. Seja justa ou injusta a guerra, o combatente pode envolver-se em atitudes condenáveis, isto é, em "crimes de guerra". Mas não pode alienar-se o ambiente desumanizado em que o combatente actua. Segundo Hegel "( ... ) o estado de guerra é um estado em que reina a contingência e em que as relações não são reguladas pelo direito mas sim pela força" (4). E, judiciosamente, François de Fontette escreveu que "os massacres de populações civis pela tropa em campanha são, sem dúvida, horríveis e injustificáveis. Mas acontecem em momentos paroxísticos das guerras, que surgem, então, com o seu inevitável cortejo de abjecções, e não como consequência de actos friamente premeditados e longamente amadurecidos" (5). E, regressando a Erasmo, também este humanista reconhecia que qualquer guerra "( ... ) arrasta atrás de si um infinito cortejo de crimes e infelicidades ( ... ) que vitimam sobretudo os inocentes" (6).
Assim, admitindo que num conflito haverá uma parte que enfrenta uma "guerra justa", e outra que trava uma "guerra injusta" - se bem que não sejam poucos aqueles em que ambos estão envolvidos em guerras injustas - só terá sentido o julgamento de "crimes de guerra" dos combatentes se, prioritariamente, for julgada, como "crime de guerra", ou talvez até como "crime contra a humanidade", a responsabilidade pelo desencadeamento da "guerra injusta".

4. Por fim, nestes considerandos de ordem geral, há ainda que ter em conta que o acto último do "crime de guerra" a sua execução, envolve sempre um problema de comando e o(s) comandante(s) não pode(m) ser isentado(s) da sua responsabilidade. Um excesso desumano de um combatente, quando não é impedido ou imediatamente reprimido, tem, quase sempre, na sua origem, ou o exemplo negativo do seu comandante, ou o seu incentivo, ou a sua indiferença, ou a sua incapacidade. De qualquer forma, sempre, uma demissão ou distorção da sua acção de comando.

B. 
A experiência portuguesa na guerra colonial de 1961 a 1974 inscreve-se perfeitamente no quadro acima traçado.

1. Na guerra colonial verificaram-se "crimes de guerra" dos vários lados das barricadas. Deles acabou por não haver julgamentos porque, no campo militar, o 25 de Abril ainda veio a tempo de evitar que se definissem vencedores e vencidos. Mesmo assim, casuisticamente, nos países recém-chegados à independência, não deixaram de se verificar casos de represálias de vencedores políticos sobre os seus vencidos, compatriotas comprometidos com o antigo país colonizador, o que corresponde à lógica do julgamento dos "crimes de guerra".

2. Do lado português, sabe quem combateu que se verificaram "crimes de guerra". Mas é um dos casos paradigmáticos em que o crime nasce na própria guerra. A guerra colonial é uma "guerra injusta" por natureza. É axiomático que a guerra é um instrumento da política. E a guerra colonial era um instrumento de uma política injusta, que visava perpetuar o domínio nas colónias e a ditadura na metrópole. Injusta porque desnecessária (no pensamento de Maquiavel) face aos interesses nacionais e aos valores universais. Injusta ainda porque decidida por um poder ilegítimo (não democrático) e sem justa causa (pensamento de humanistas como S. Tomás de Aquino, Vitória ou Suárez).
Se não houve um derrotado militar, houve claramente um derrotado político. O sistema ditatorial e colonial português foi derrotado em 25 de Abril de 1974. Mas faltou aos vencedores vontade política para julgar pelos seus crimes, quer o sistema, quer os seus principais agentes, os responsáveis políticos e militares, a polícia política, a censura.

3. Perante a incapacidade de julgar a montante, o "crime da guerra", caía-se numa nova injustiça se se julgassem, a jusante, os "crimes na guerra". Houve "crimes de guerra" no seu sentido comum em acções contra o "inimigo", no tratamento de prisioneiros, nas represálias sobre populações. Mas não foi uma acção sistemática. Também houve, apesar do ambiente hostil, actos de heroísmo genuíno, de humanismo, de revolta. Como julgar comportamentos individuais, por vezes nos tais momentos paroxísticos de que fala Fontette, em situações de "stress" incontrolável, perante o dilema da vida ou da morte, em que o instinto de sobrevivência anula os valores humanos se não se julgam as hierarquias e os responsáveis pelo ambiente criado? Aqueles que, a frio, no conforto dos gabinetes, não só geraram as condições em que os crimes germinariam, como tantas vezes os fomentaram, os incentivaram, os enalteceram, chegando a transformar "crimes de guerra" em actos heróicos, para deles se aproveitarem politicamente.
O general francês Massu, lendário comandante na Indochina e na Argélia, acerca do massacre de May Lay, perpetrado por tropas norte-americanas no Vietname, afirmou em entrevista na época: "(…) os responsáveis pelas May Lais são os governantes e não os soldados ( ... ). Os chefes de governo que lançam os seus exércitos na guerra assumem, automaticamente, os riscos de provocarem May Lais (…) Os governos devem ter plena consciência destes fenómenos e assumir a sua inteira responsabilidade, não descarregando sobre o pequeno soldado (...). O que deve ser condenado é a própria guerra".

C. 
Penso pelo que expus, que não há espaço nem tempo para julgamentos individuais, quer de "crimes da guerra", quer de "crimes na guerra".
Mas é sempre tempo e lugar para se reconhecer o "crime da guerra", como outros estados têm feito em relação a "guerras injustas" ainda mais remotas, como foi a II Guerra Mundial. E se o Estado português quiser, nobremente, sem complexos, assumir essa atitude, bom será que, em vez de cerimónias serôdias, em que ao abrigo de equívocas homenagens aos combatentes se busca, afinal, a glorificação da guerra colonial e do próprio império colonial, patrocine e tome a iniciativa de uma justa homenagem às vítimas do fascismo e da guerra colonial, com o corajoso pedido de perdão pelos crimes que, no passado recente, foram cometidos contra o povo português e contra os povos das suas antigas colónias.

(l) "The soldier and the state", Harvard University Press, Cambridge, 1957, pág. 70
(2) Jeanin, Pierre - "História das Ideias Políticas" Voi. 3. PEA Mem Martins, 1970, pág. 29
(3) "A minha concepção do Mundo", Brasília Editora, Porto, 1970, pág. 38
(4) Romão Rui Bertrand - "A concepção dialéctica da guerra em Hegel", Logos, n.O 3, Filosofia Aberta - Centro de Estudos e Divulgação, Lisboa, Jun. 1985, Nota 122, pág. 31.
(5) "O racismo", Bertrand, Amadora, 1976, pág. 102 e 103. (6) JEANIN Pierre - obra citada, pág. 29

(*) Major-general, foi membro do Conselho da Revolução, é dirigente da Associação 25 de Abril

94-Solidão

Vou-te escrever uma carta, é mais longa e não dá para aerograma. Já não ponho à cabeça "querida", ou "amor", nem outra coisa qualquer, porque já não sei como te chamar. O teu silêncio fez que me fartasse de ti, porque me fazes sentir as frustrações que já senti, porque me faz sentir o mesmo cansaço que já tive. O quão longe estou de ti, no espaço, no tempo, na vida.
Nas últimas semanas a minha tem sido uma vida com tudo o que há de pior: fome de amor, melancolia, azedume, solidão, vontade de morrer. Tive tantas vezes vontade de te pedir auxílio, mas vi que tu não estás em condições de ame ajudar. Cheguei à conclusão que de ti não posso esperar apoio. Prefiro não o pedir. Se o peço e tu não mo dás - e não dás, com certeza - é pior. É lançar-me com confiança e desembocar no desespero.
Vivi situações em que seria confortante ter alguém com quem desabafasse, alguém que me ouvisse. Não é que me resolvesse os problemas que só eu posso resolver, mas que fosse um apoio mos momentos difíceis com a sua ternura,  a esperança do amor. Nunca esperei isso de ti, o que é mau. É porque penso que és incapaz disso. Posso amar-te mas tu não me amas.
Não me serves. Até nem será por culpa tua, talvez. Eu é que fui um louco em me virar para aí. Tens demasiados factores envolventes que te distraem, ou, se calhar, nem te chegas a distrair porque nunca estiveste nessa de me amar. Comigo não. A guerra, as horas e dias no mato, até as mulheres daqui, tudo me leva a desejar-te.
Mas não dá.
Eu amo~te. Mas é preciso que tu me ames. Tens de provar que me amas. Eu não sei nada de ti. Começo a suspeitar que iludi a mim mesmo. Tens que me provar alguma coisa. É que me sinto humilhado com o teu silêncio. Estúpido, com tantas hipóteses de morrer já tenho pensado no suicídio para acabar com a humilhação. Sinto-me como cão a mexer o rabinho e olhando para o dono e nem uma festinha levar. É triste morrer sem amor.

30 de março de 2011

93-Horas de sorte e carregadores emboscados.

Tínhamos saído de Gendo após tragarmos as rações de combate. Era o primeiro dia da operação Inquietar I. As duas companhias de intervenção seguiam à frente pelo meio da mata, o meu grupo de combate ia no fim de tudo, com a recomendação do capitão Maia sobre as cautelas a ter na rectaguarda. Calor escaldante, mata difícil de transpor, a enorme bicha de pirilau às tantas parou. Nós também, estávamos a atravessar uma pequena clareira.
- "Pessoal, aproveitem para descansar um pouco", e, juntamente com o Lamine Turé, meu guarda-costas, dei o exemplo. Sentámo-nos os dois encostados a uma árvore. Desapertar da farda, alívio, duas goladas do cantil com água choca, era o que havia mas dava.
Não sei quantos minutos passaram, se dois, se três, se mais ainda, não estava nada preocupado em contar o tempo. Em relax mas alerta, ouvi os sons já familiares: o baque duma saída do outro lado da clareira e um silvo que se aproximava.
- "Chão!", gritei, deslizando com o Lamine para cima das ervas. E vi, com estes olhos que a guerra não comeu, a granada a ricochetear nas ervas e a parar, calma e serena, poucos metros à minha frente. Ao mesmo tempo rebentava grande tiroteio mais longe, na zona da cabeça da coluna.
- "Fogo para o outro lado!", disse aos meus, que já estavam no chão.
- "Tivemos sorte, meu alferes", segredava-me o Lamine entre rajadas, "o gajo viu-nos sentados e deitou-se no chão com o RPG para nos apanhar em cheio, e falhou".
Foram dez minutos de combates. Lá mais à frente havia de tudo: RPGs, morteiros metralhadoras pesadas. Mas aqui os gajos só tinham armas ligeiras e o RPG. Passados esses dez minutos verifiquei que eles não respondiam e mandei parar o fogo. Pareceu-me que já não estavam lá.
- "Marcelo, Bicho, Ribeiro (este ainda estava entre nós)", disse aos furriéis, "vamos entrar na mata, vamos apanhar de lado os gajos que estão a atacar a coluna lá à frente".
Fui à cabeça com o Lamine Turé. O tiroteio lá à frente continuava. Passados quinhentos metros diz-me o Lamine:
- " Alferes, estão ali turras", e apontou-me uma árvore perto da qual estavam três indivíduos ajoelhados.
Fiz sinal ao grupo para parar. Apontei a G3 à perna de um e disparei. Corri para eles seguido por todos. Quando chegámos ao pé deles vi que o ferido na perna gemia e os outros gritavam "ka turra, ka turra!". Verifiquei espantado que não tinham arma nenhuma.
- "Lamine, quem são estes gajos, afinal?"
Conversou com eles e disse-me depois:
- "São carregadores do capitão Raiano, fugiram para aqui quando começou a emboscada."
- "Tiveram sorte que não lhes mandei uma rajada".
Bonito, estava feito. Ia ouvir o capitão Raiano.
Mas ele não se chateou.
- "Foram burros. Quem os mandou meter-se na mata?"
Fiquei satisfeito. Era o que eu pensava também
O homem foi evacuado de heli no dia seguinte. Os outros dois passaram a olhar-me com desconfiança cada vez que nos cruzávamos.

26 de março de 2011

91-O choro

O CHORO

Ainda o sol não tinha despontado, quando Tia Maninha, com uns sessenta e tantos anos bem contados na pontada, subia, com a ligeireza dos seus tempos de badjudessa, a avenida que ela teimosamente continuava a chamar Avenida da República. É que essa história da troca dos nomes das ruas depois da Independência só servia para lhe baralhar a cabeça. Coisa muito complicada mesmo, que não dava para entender! Então, se a vila de Teixeira Pinto se passou a chamar Cantchungo, porque razão o chofer do táxi se riu dela, no outro dia, quando lhe pediu que a levasse até à estátua de Cantchungo, ali na Mãe d'Água?
Como de costume, Tia Maninha tinha combinado com as suas mandjuas encontrarem-se em casa de Nha Arminda, para juntas seguirem para o choro de Nhu Djon, falecido na véspera. "Coitado de Nhu Djon! Chegou mesmo a sua hora. De nada lhe valeram as idas à baloba nem os mècinhos do mouro. Paz à sua alma. Amém! " dizia para consigo tia Maninha enquanto acelerava o passo e avançava no sereno da manhã. Mais um bocadinho e chegaria à casa de Nba Arminda, que ficava mesmo ali atrás dos Bombeiros.
Todas as manhãs era esse o seu primeiro trajecto, quando da sua Mansoa natal vinha passar umas semanas a Bissau. Depois seguia com a manjuandade toda animar os choros e polir as calçadas da capital, não fossem as circunstâncias, dir-se-ia até alegremente ... Por vezes iam a três num mesmo dia, porque acompanhar os mortos é coisa sagrada e, um dia, quando ela morresse, também gostaria que lhe fizessem companhia ...
Naquela manhã, a nobre missão de velar o morto tomava ares de cerimónia oficial, porque Nhu Djon, antigo varredor da Câmara antes da Independência, era pai de dois combatentes da liberdade da Pátria, sendo um deles um Membro actualmente. Certamente que a nomenclatura viria falar mantenhas de choro e as coisas teriam que ser feitas a preceito. Haveria que ajudar as parentes do falecido a preparar o cuscus, que seria servido com o café, logo cedinho. Depois viria a cena à volta do morto, durante a qual cada uma, entre gritos e lamúrias, despejava um rosário de elogios ao defunto que, só pelo facto de ter morrido, passara a ser a melhor pessoa do mundo. Havia também as mensagens a dar, que o defunto deveria levar aos falecidos, quase sempre as mesmas transmitidas a cada morto que velassem.
- Nhu Djon, diga à minha vizinha Maria Té que não se preocupe com o marido. Na vizinhança, olhamos todos por ele. Que ela peça só a Deus que lhe dê forças e saúde­recomendou Tia Maninha, enquanto enxugava os olhos com as costas da mão.
Tudo isso ela fez com a devida solenidade, não por ser um caso especial, mas por ser esse o seu carácter: o dever deve ser cumprido e bem cumprido. Tinha ganho o seu dia e mais uma graça de Deus de que Ele não se esqueceria quando chegasse a sua hora de entregar a alma ao Redentor.
Com a sensação do dever cumprido, despediu-se e pôs-se a caminho da casa do sobrinho, onde habitualmente ficava alojada quando vinha a Bissau. Naquele dia, como saíra ainda de madrugada, não vira ninguém e nem pôde avisar que não esperassem por ela para o almoço.
O sol começava a declinar e dentro de alguns minutos cairia a noite. Tia Maninha ia atravessar a rua diante da Segunda Esquadra, quando viu no passeio do outro lado uma multidão de gente à porta de uma casa.
"O que terá acontecido?", perguntou-lhe a sua curiosidade.
Para lá se dirigiu e entrou no quintal da casa. Foi até à varanda e viu umas quantas pessoas vestidas de preto e sentadas nas cadeiras colocadas ao longo das paredes. "Um choro!", concluiu rapidamente Tia Maninha e logo tomou os ares próprios à circunstância: rosto fechado, patenteando uma pena visível.
- Não posso deixar de ir falar mantenha àquela gente - disse para com os seus botões - só mesmo entrar e sair ...
Avançou-se para o grupo de mulheres grandes que estava na sala ao lado da varanda. Muito dignamente, apresentou-lhes os seus mais sentidos pêsames e desejos que Deus recolhesse aquela santa alma na Sua Graça Divina. "Amém!", responderam as mulheres em uníssono, num lamuriante sussurro. Depois, ao mesmo tempo que se benzia aproximou-se do caixão colocado no meio da sala. Parou junto aos pés do defunto e ergueu as mãos para começar a sua conversa com o falecido. Nisto, engasgou-se com a emoção e foi assaltada por um ataque de tosse que lhe arrancou a dentadura postiça da boca, atirando-a para dentro do caixão. Tia Maninha, confusa com o que lhe acontecia, apanhou precipitadamente a sua dentadura e, metendo-a no bolso do vestido, saiu apressadamente do velório, em direcção a casa, sem sequer se despedir. "Credo! Cruzes! Quem é que me quer impedir de falar? Passa de largo!", disse para consigo enquanto se persignava repetidas vezes.
Chegou à casa do sobrinho ainda muito agitada com a cena que acabara de viver. Deixou­-se cair numa cadeira e, enquanto enxugava com o lenço o calor que lhe escorria pelo rosto, contou à família a mofineza por que passara. Ninguém se atreveu a rir ao imaginar Tia Maninha naquela cena, pois a consternação dela era realmente profunda. O sobrinho, querendo mostrar que compartilhava a sua pena, perguntou-lhe curioso:
- Mas tia, quem é que morreu?
Tia Maninha arregalou os olhos e com o ar mais contrariado deste mundo respondeu: - Como é que eu sei, meu filho?! Nem sequer tive tempo de saber!

Filomena Embaló
Paris, 18 de Outubro de 2002
 ln Mealibra, nº 11, Dezembro 2002
Revista de Cultura, Centro Cultural do Alto Minho, Portugal

Glossário

Badjudessa: juventude (no caso da mulher); termo crioulo proveniente de badjuda (menina, moça).a
Baloba: local sagrado dos animistas, templo.
Choro: velório, cerimónias à volta do enterro.
Cuscus: espécie de bolo feito em geral, no caso da Guiné-Bissau, com farinha de arroz. É cozido a vapor dentro de um binde; binde: utensílio culinário feito de barro, de forma cónica, com o vértice arredondado e com três buracos, por onde passa o vapor de água.
Falar mantenha: cumprimentar (tradução literal da expressão crioula).
Falar mantenha de choro: apresentar os pêsames.
Mandjuas: pessoas da mesma geração, muitas vezes que cresceram juntas.
Mandjuandade: grupo de mandjuas.
Mantenhas: cumprimentos, saudações.
Mècinho: mezinhas (termo crioulo);
Membro: forma como se designava, nos primeiros anos da Independência, os membros dirigentes do PAIGC, partido único na época.
Mofineza: desventura, azar.
Mouro: curandeiro muçulmano.
Mulher grande: mulher idosa
Nha: senhora.
Nhu: senhor
Pontada: costas, na zona dos rins
Sereno: bruma.


Guineense de coração e por opção, Filomena Embaló nasceu em Angola, em 1956, filha de pais cabo-verdianos. Em 1975, os acasos da vida levaram-na para a Guiné-Bissau, país que adoptou e em cuja labuta dos primeiros anos de independência se forjou a faceta guineense da sua identidade.
Formou-se em Ciências Económicas em França e ocupou cargos na Função Pública bissau- guineense no país e no exterior. Actualmente trabalha em Paris, numa organização intergovernamental.
Tem publicações em revistas e jornais de artigos sobre a economia guineense e literários. As encruzilhadas do seu percurso multicultural inspiraram o seu primeiro romance, "Tiara", editado em 1999.