CONSULTAS

Para consultas, além da "Caixa de pesquisa" em cima à esquerda podem procurar em "Etiquetas", em baixo do lado direito, ou ver em PÁGINAS, mais abaixo ainda do lado direito, o "Mapa do Blogue"

Este blogue pode ser visto também em

14 de abril de 2011

108-A Guiné e o 25 de Abril




Intervenção do tenente-coronel J. Sales Golias na Mesa Redonda levada a efeito pelo Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra/Fórum dos Estudantes da CPLP
Coimbra, 30 de Abril de 2005

1.     GOLPE EM BISSAU 

Em 26 de Abril de 1974 o MFA na Guiné-Bissau, que estava preparado para efectuar um golpe em Bissau caso falhasse o golpe em Lisboa, resolveu mesmo assim tomar o poder, sobretudo para condicionar o processo de descolonização. 
Outras razões havia, porém, e uma delas devia-se ao facto de o Governador e Comandante-Chefe, General Bettencourt Rodrigues, não ter declarado apoio ao MFA e ter permitido que a PIDE seguisse todos os movimentos dos Capitães em Bissau no dia 25 de Abril. 
Acresce ainda referir que era importante para alguns Capitães dar um sinal aos camaradas das outras colónias. 
Era fundamental, logo de início, contrariar a estratégia do General Spínola de efectuar uma consulta popular na Guiné com vista à sua integração numa comunidade lusíada. 
Assim, no dia 26 de Abril, onze oficiais (1) dirigiram-se ao Gabinete do General Comandante e exigiram a sua demissão e o regresso a Lisboa. Foi um acto pacífico, civilizado, mas dramático. Com o General vieram também alguns oficiais que se lhe solidarizaram, nomeadamente o Brigadeiro Leitão Marques que o MFA julgava poder contar para o substituir. 
Por isso tivemos que solicitar ao Comodoro Almeida Brandão, o Comandante Marítimo, que assumisse as funções de Comandante-Chefe interino das Forças Armadas na Guiné-Bissau. Regista-se o facto de este oficial já ter reconhecido a Junta de Salvação Nacional (JSN). 
Para as funções de Encarregado do Governo interino, o MFA indigitou um dos seus membros, o Tenente-Coronel Mateus da Silva que era Comandante do Agrupamento de Transmissões, o Quartel-General da conspiração, e um dos poucos oficiais superiores que integrava o Movimento dos Capitães (MOCAP). 
Ao tomar estas decisões, o MFA antecipou-se algumas horas à decisão da JSN que mandava substituir os Governadores pelos Secretários Gerais, como Encarregados do Governo interinos. 
E assim se estabeleceu o primeiro confronto entre a JSN e o MFA na Guiné. 
As primeiras medidas tomadas foram a detenção dos agentes da PIDE e a libertação dos prisioneiros políticos. 
Estas medidas estavam a ser exigidas nas primeiras manifestações de populares em Bissau à semelhança do que se passava em Lisboa. 
Concentrámos os elementos da PIDE no Campo de Instrução Militar do Cumeré, até ao seu embarque para Lisboa, contrariando a sua petição de irem para Angola. 
A detenção da PIDE contrariou outra determinação da JSN, que era a de os seus agentes serem integrados no Serviço de Informações Militares (SIM), tendo em vista a obtenção de informações úteis à condução das operações militares.
Foi o segundo confronto com a JSN. 
Estas tomadas de posição só foram possíveis porque, na Guiné, o MFA era uma realidade já muito forte e coesa. Foi aqui que tudo começou e se desenvolveu. 

2. ORIGENS DO MFA 

E tudo começou com a corajosa declaração do General Spínola, após encontros com o Presidente Senghor do Senegal, de que a solução da guerra da Guiné era política e não militar. 
Marcello Caetano pôs termo a estes contactos e respondeu com a conhecida frase “Prefiro um desastre militar na Guiné a negociar seja com quem for”. 
Estavam lançadas as sementes da contestação à guerra colonial na Guiné-Bissau. 
E, quando o General Spínola deixa a Guiné, em 6 de Agosto de 1973, já havia Capitães a conspirar e, a 18 desse mês, deram início às primeiras reuniões organizadas do Movimento dos Capitães (MOCAP).
Foi numa dessas reuniões que eu afirmei que a guerra colonial e o regime ditatorial em Portugal só se resolviam com uma revolução armada. E este momento foi determinante, pois estavam presentes alguns dos principais actores do 25 de Abril. O próprio Otelo considera este momento como o mais emocionante na preparação do 25 de Abril. 
E, ainda em Setembro de 1973, constitui-se uma primeira Comissão Coordenadora, que integrava o Major Almeida Coimbra, Capitão Duran Clemente, Capitão Matos Gomes e Capitão Caetano. 
Otelo acabou a sua comissão e regressou a Lisboa em 16 de Setembro, uma semana depois da primeira reunião do MOCAP em Portugal (Évora-9 de Setembro 73). Entretanto o mesmo acontecia com alguns oficiais afectos a Spínola como Manuel Monge, Almeida Bruno e Casanova Ferreira. 
Tínhamos então acabado de contestar o Congresso dos Combatentes a que se seguiu o DL Sá Viana Rebêlo, conhecido como decreto das ultrapassagens. 
Tínhamos acabado de assinar uma carta de demissão, a que eu chamei de carta de amor, porque receava que estivéssemos a enveredar por um vício de contestação fácil. 
Nos meses seguintes iniciámos um processo de esclarecimento e politização para o qual muito contribuíram os “Textos Políticos” de Amilcar Cabral. 
Ninguém ficava indiferente a afirmações como: 
“Os nossos povos fazem a distinção entre o governo colonial fascista e o povo de Portugal: não lutamos contra o povo português...nós lutamos contra o colonialismo português.” 
Ou esta extraordinária afirmação: 
“E que ninguém se espante se ousamos afirmar que não nos sentimos orgulhosos pelo facto de em cada dia...sucumbir ingloriosamente grande número de jovens portugueses sob o fogo dos nossos combatentes.” 
Entretanto, em 21 de Setembro de 1973, chega o novo Governador, General Bettencourt Rodrigues, trazendo na sua carta de comando outra frase célebre de Marcello Caetano:”resistir até à exaustão dos meios”. Ou seja, o poder em Portugal não queria ceder na Guiné para não abrir um precedente para as outras colónias, sobretudo Angola, a jóia da coroa, aceitando um desastre militar à semelhança do da Índia, mas aqui, provavelmente, com muito mais baixas. 
Em 24 de Setembro de 1973, ou seja, uma semana depois da chegada do Governador, o PAIGC declarava a independência unilateral da Guiné-Bissau em Madina do Boé, que foi de imediato reconhecida por 72 países, mais do que aqueles com os quais Portugal mantinha relações diplomáticas. 
Uma semana depois, a ONU aprovava uma resolução na qual considerava Portugal potencia ocupante e convidava a retirar.

3.     O PRINCÍPIO DO FIM

 Dramaticamente, enquanto estes factos se desenrolavam, os nossos aviões iam sendo abatidos retirando-nos a decisiva vantagem da supremacia aérea. 
As Nossas Tropas(NT), iam somando insucessos, alguns dos quais muito graves como o abandono de Gadamael Porto, a dramática retirada do inferno de Guileje, em cuja consequência foi preso o Major Coutinho e Lima, por ter decidido salvar as vidas dos seus homens e o cerco de Guidage. No rompimento deste cerco foi decisiva a acção do meu camarada Salgueiro Maia, cuja Companhia de Cavalaria já tinha acabado a sua comissão e aguardava embarque para Lisboa, mas à qual estava guardado o pior bocado.
 Estavam empenhadas neste cerco as três Companhias de Comandos Africanos, uma delas comandada pelo Capitão Carlos Matos Gomes, um dos principais oficiais do MFA na Guiné. 
Só um Comandante natural como o Salgueiro Maia conseguiria mobilizar novamente os seus homens para uma das mais violentas campanhas de guerra e da qual saíu com muitos mortos e feridos. 
Salgueiro Maia regressou a Lisboa já no mês de Outubro de 1973. 
Em Fevereiro de 1974, o Tenente Coronel Luís Ataíde Banazol, recém chegado à Guiné à frente de um Batalhão que se recusara a embarcar, e que foi obrigado a fazê-lo de forma fraccionada, convida-nos para uma reunião em Nhacra. Comparecemos três capitães, o Carlos Matos Gomes, o José Manuel Barroso e eu próprio. Foi anfitrião o Capitão miliciano Franco. Sem rodeios comunicou-nos que oferecia o seu Batalhão para uma revolta   aquando da passagem por Bissau a caminho de Bambadinca. Cercaríamos o Comando-Chefe à hora do “brieffing” no Forte da Amura e tomaríamos o poder. 
Era tudo quanto mais nos agradaria ouvir pois era mais um sinal de que o regime estava no fim. Pedimos quarenta e oito horas para responder e regressámos a Bissau sonhando alto. A nossa resposta foi, porém, negativa e tive de refrear os ânimos dos meus companheiros. Eu acreditava firmemente no que em breve se iria desenrolar em Lisboa e uma antecipação destas poderia ser o fracasso daquela. Mas agora sabíamos mais claramente que uma intervenção em Bissau estava ao nosso alcance. 
O Ten Coronel Banazol não gostou da nossa resposta e, de imediato, nos comunicou que, doravante, iria agir por conta própria e assim fez. Em Março de 74 fez distribuir por todo o território uma circular em nome do “Movimento de Resistência das Forças Armadas” apelando à rebelião e progamando uma operação de retracção do dispositivo militar para o mês de Maio de 1974. A nossa História regista vários actos corajosos destes que, estando antecipadamente votados ao fracasso, têm o mérito de nos incitar a agir no tempo próprio. 

4.     A DESCOLONIZAÇÃO 

Voltando aos primeiros dias de Maio de 1974 em Bissau, após o nosso golpe e depois de dois confrontos com a JSN, tivémos a primeira resposta de Spínola ao nomear o Tenente-Coronel Carlos Fabião, Encarregado do Governo e Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné. 
Carlos Fabião chegou no dia 7 de Maio, graduado em Brigadeiro, acompanhado do Tenente-Coronel Almeida Bruno. 
No seu discurso de posse fez o elogio, esperado, do General Spínola e terminou dizendo a frase, inesperada, ...”por uma Guiné melhor num Portugal continuamente renovado”. 
Após uma longa sessão de esclarecimento e discussão, o Brigadeiro Fabião aderiu às teses do MFA na Guiné, dizendo que devia ter terminado o seu discurso com esta outra frase ...”por uma Guiné melhor e um Portugal continuamente renovado”. 
Consequentemente aceitou que o MFA continuasse no Gabinete de Governo. Os primeiros representantes no Gabinete foram O Primeiro-Tenente Brandão pela Marinha, O Capitão Faria Paulino pela Força Aérea e eu pelo Exército. 
Entretanto davam-se os primeiros encontros entre as nossas tropas e guerrilheiros do PAIGC. 
E, assim, recebi em Bissau uma reportagem fotográfica dos mesmos, enviada pelo Capitão de Infª Rui Silva Ramalho, que me explicou da inevitabilidade destes encontros que, aliás, decorreram com a maior cordialidade. 
Em 16 de Maio de 1974 dá-se o encontro de DAKAR entre representantes da JSN e do PAIGC no qual participou o anterior Encarregado do Governo, nomeado pelo MFA, Tenente-Coronel Mateus da Silva, já regressado a Portugal. Foi o único encontro que teve um Oficial que tinha integrado o MFA na Guiné. Em DAKAR assinou-se o cessar-fogo “de jure”, uma vez que já existia de facto. 
Mas à semelhança do que se passava em Portugal, também na Guiné tivémos problemas de autoridade e disciplina. Nas Unidades havia comandos que não aderiram ao MFA. 
Em Bissau constitui-se o “Movimento Alargado de Praças, Oficiais e Sargentos, também conhecido por Movimento para a Paz. Era seu líder o Alferes miliciano Celso Cruzeiro. 
Pessoalmente, tinha a visão muito clara de que, sem unidade não levaríamos a bom porto o nosso barco, ou seja, não conseguiríamos descolonizar correctamente e, como não iria haver meio termo, poderíamos caminhar para um completo desastre. 
Atalhando, foi relativamente fácil negociar e encontrar, não uma plataforma de unidade, mas a integração total do MPP no MFA, ambos, afinal, movimentos das Forças Armadas para a Paz. 
Em 6/7 de Junho vieram a Bissau três elementos da Comissão Coordenadora de Lisboa, Melo Antunes, Pereira Pinto e Almada Contreiras, tal era a curiosidade de perceber o que estávamos fazendo em Bissau, porque já nessa altura os boatos que circulavam em Lisboa não abonavam em nosso favor. A reunião havida contou já com a presença de Oficiais milicianos, o Alferes Barros Moura e o Alferes Celso Cruzeiro. 
Os nossos camaradas de Lisboa entenderam as razões que nos assistiam, perceberam que o ambiente socio-político-militar da Guiné não era, afinal, o modelo do General Spínola e, naturalmente, deram-nos o seu aval. 
Ultrapassada a crise da unidade, subsistia a crise da autoridade, disciplina e hierarquia. 
Assim, avançámos para uma solução radical, mas que nos pareceu a única possível, a Estruturação Democrática do MFA, pela eleição de delegados de Oficiais, Sargentos e Praças nas Unidades Militares.
 E, assim, chegámos ao terceiro confronto com Lisboa, com o CEMGFA, General Costa Gomes, que tinha emitido uma Circular onde se preconizava a dissolução do MFA nas Forças Armadas. As razões eram precisamente as mesmas que aqui nos levaram à Estruturação Democrática! Pedimos a escusa de cumprimento desta Circular ao caso específico da Guiné. Não me lembro de termos recebido uma resposta clara e mantivemos a nossa orientação. 
Como consequência o Brigadeiro Fabião recebeu uma mensagem  do CEMGFA onde se ordenava a apresentação urgente em Lisboa de cinco oficiais (2). Fomos ouvidos durante uma semana e, no final, o General Costa Gomes disse-nos que acreditava no que lhe contámos e que devíamos regressar e acabar o nosso trabalho. Mais do que uma vitória do MFA na Guiné, esta decisão foi o reconhecimento de que estávamos no caminho certo para a Descolonização  da Guiné e que, agora, era tudo uma questão de liderança e de tempo. Tínhamos liderança, com o Brigadeiro Carlos Fabião já bem junto de nós, não tínhamos era muito tempo. As nossas tropas queriam regressar e o PAIGC queria entrar em Bissau já com a independência reconhecida. 
Ultrapassámos a crise de autoridade, disciplina e hierarquia. Não resolvemos, mas ultrapassámos na exacta medida em que já tínhamos condições para controlar as situações que iam surgindo. 
Assim, sentimo-nos fortes para para lidar com os movimentos que iam surgindo, FLING, MDG, LPG (3) que, à luz das novas regras democráticas e invocando relações de amizade com o Gen Spínola, exigiam a constituição de partidos concorrentes ao poder político. 
Sentimo-nos fortes para lidar com o PAIGC que, contraditoriamente,  se mostrava dialogante e ao mesmo tempo lançava comunicados de guerra, mesmo depois do cessar-fogo. Tão depressa confraternizava com as NT como lançava Ultimatos a Unidades portuguesas. O primeiro foi a Cuntima, dando 48 horas à Unidade de Cavalaria local  para retirar e o segundo foi a Buruntuma. Acompanhei o Major Ornelas Monteiro  a estes dois locais, ele representando o Governo e eu o MFA. Em Cuntima acabámos por ir ao encontro do Comandante da Guerrilha, Baio Camará, já em território do Senegal. Fomos recebidos com aspereza e com alguma arrogância e foi o próprio Fabião que, inesperada e perigosamente, apareceu para se entender com Baio Camará, que tinha sido seu instruendo na Milícia. Falaram em crioulo, com o Fabião a repreendê-lo dizendo-lhe que ele era bom militar mas mau na “apsic” (acção psicológica). Terminou o ultimato e terminaram abraçados. 
Em Buruntuma foi diferente. A renitência do Comandante local levou-nos a negociar a retirada, que foi feita pouco depois mas com uma digna cerimónia de transferência de poderes. 
Em 1 de Julho de !974 fizémos a 1ª Assembleia Geral do MFA, onde 1000 militares em representação de todas as FFAA aprovaram uma Moção histórica, que tive a honra de ler e que foi escrita, no fundamental, pelo Alferes de Cavalaria, José de Barros Moura, a quem presto homenagem pelo seu importante papel na Descolonização das Guiné. Nesta Moção exigíamos o reconhecimento imediato da República da Guiné-Bissau e a preparação da transferência de poderes. 
Continuamo-nos, sentindo fortes para lidar com os Fulas que, antes do 25 de Abril, eram os maiores apioantes do poder político português, e depois, eram os maiores apoiantes do PAIGC, criando sitiuações de contestação aos brancos e desacatos mais ou menos violentos. E com isto quero dizer que nunca deixámos criar situações de violência incontrolável, para o que muito contribuiram as missões do MFA ao interior, que integravam militares, ex-prisioneiros políticos e os jovens que lideraram as manifestações em Bissau, Aristides Pereira (homónimo do lider do PAIGC) e  Francisco Fadul, que foi Primeiro Ministro e é concorrente à Presidência da República. 
Após a nossa exigência a Lisboa de reconhecimento da independência, o General Spínola deixou de falar em vir a Bissau para preparar o referendo. 
As duas reuniões de Londres com o PAIGC, sem resultados práticos, já tinham passado à história. 
Continuámos com a força suficiente para coordenar com o PAIGC, através de um contacto clandestino em Bissau, Juvêncio Gomes e iniciámos contactos no Cantanhês preparando, assim, a transferência de poderes. 
Não assisti na Guiné ao sabor do Acordo de Argel, em 26 de Agosto de 1974, pelo qual se prometeu reconhecer a Independência em 10 de Setembro e a Transferência de Poderes até 31 de Outubro de 1974, pois regressei a Portugal em 1 de Agosto. 
O papel de Carlos Fabião no exemplar processo de Descolonização da Guiné, merece sempre ser destacado pelos altos serviços prestados a Portugal, mas só muito recentemente foi reconhecido pelo Presidente da República, ao atribuir-lhe a Ordem da Liberdade. 
A Guerra Colonial foi, assim, na Guiné, o berço do MFA e também o berço das lutas comuns de libertação. 
Apendemos a libertamo-nos do inimigo comum, num acto cultural único na História das relações da Europa com África. 
Pelo caminho ficou a mágoa das tropas africanas que estavam connosco, do lado errado. Acreditámos que os princípios humanistas de Amílcar Cabral se sobreporiam a lutas tribais e eventuais intuitos punitivos. Mas assim não foi! 
Na Guiné, tal como em Angola e em Moçambique, a seguir às páginas mais brilhantes das suas Histórias, as lutas pelo poder levaram à escrita das suas páginas mais negras.
Lisboa em 20 de Maio de 2005 
Jorge Sales Golias

(1)Lista dos Oficiais revoltosos: 
    TCor Mateus da Silva          Engº Tm 
    TCor Maia e Costa               Engº 
    Maj Folques                           Cmd 
    Maj Mensurado                     Pára 
    Cap Simões da Silva           Art 
    Cap Sales Golias                  Eng Tm 
    Cap Matos Gomes               Cmd 
    Cap Batista da Silva            Cmd 
    Cap Saiegh                            Cmd (Africano) 
    CapTen Pessoa Brandão   Armada  
    Cap mil José Manuel Barroso 
(2)Lista de Oficiais chamados a Lisboa 
    Cap Sales Golias          Exército 
    Cap Jorge Alves           FAérea 
    1ºTen Bouza Serrano  Marinha 
    Alf Barros Moura        Exército 
    Alf João Teixeira         Exército   
(3)FLING – Frente de Libertação e Independência da Guiné 
                     Benjamim Pinto Bull 
     MDG -    Movimento Democrático da Guiné 
                     Dr Baticã Ferreira 
     LPG -     Liga Popular dos Guinéus 
                     Nicolau Nunes


CALENDÁRIO DO 25 DE ABRIL NA GUINÉ

1959 - Greve dos Estivadores-Repressão no Cais Pidjiguiti- 50 mortos
1963 - Início da Guerrilha- 13 anos após nascim do PAIGC em 1956
1968 - SPÍNOLA chega à Guiné e rende Schulz                 
1970 - Papa Paulo VI recebe Movim/ Guerrilha, Golpe de Konakry-Operação Mar Verde         (Cmdt Alpoim Calvão),  Morre Salazar
01-Jan-72 - Publ Prospectiva Desenv Econ/Social da Guiné-Junta Investig Ultramar
01-Jul-72  - Cheguei a Bissau                         
1972 - Encontros Spínola-Senghor                     
20-Jan-73 - Morre Amílcar Cabral - foi subst por Aristides Pereira             
25-Mar-73 -  Abate 1º FIAT s/ Guileje-Ten Pessoa ejectou-se e foi recuperado         
28-Mar-73 -  Abate 2º FIAT s/ Madina-morre T Cor Almeida Brito             
Mai -73 - Contestação na Guiné ao Congresso dos Combatentes previsto para Jun73     
                   Abandono de Guileje                     
Mai-73 - Inferno de Guidage(Maia e M Gomes)- Abate de 2 DO e 1 T-6 
Mai/Jun73 - SPÍNOLA deixa a Guiné- 5 anos                     
18-Ag-73 - 1ªReunião no CMO- 20 Capitães                 
21-Ag-73 - 2ªRn no AGR/Tm (20Cap)                     
25-Ag-73     
3ªRn AGR/Tm(50Cap)-Carta de Amor- minha interv  para Revolução armada     
Ag-73 - Publ Congr Povo Guiné-Manuel Belchior                 
07-Sep-73 - 7ªRn MOCAP-1ªComiss:Cap Coimbra,Cap Clemente,Cap Matos Gomes e        Cap Caetano
09-Set-73 -  Rn Évora-1ªRn MOCAP-136 Ofic /Subalt- Nascim MOCAP         
13-Set-73   - 8ª Reunião do Mocap/Guiné-Última OTELO - 1ª Reunião Moçambique     
16-Set-73 - Regresso OTELO ao fim de 3 anos                 
21-Set-73 - Posse GEN BETTENCOURT RODRIGUES                 
                      1ª Reunião de Cap em ANGOLA                     
24-Set-73 - Dec Indep Guiné em Madina do Boé                 
02-Out-73 - Resolução da ONU- Reprovação da Ocupação Ilegal             
21-Out-73 -   Regresso do Salgueiro Maia com mais 6 meses de comissão         
01-Dez-73  - Reunião de Óbidos-180 Of- Nomeação de Comissão Coordenadora     
22-Dez-73 - Chega Tcor Luís Ataíde Banazol à Guiné                 
22-Fev-74   - Publ Portugal e o Futuro de Spínola                 
Fev-74   - Ida Nhacra- Tcor Banazol c/Matos Gomes e José Manuel Barroso         
05-Mar-74   - Reunião de Cascais 197 Oficiais em representação de mais de 600         
14-Mar-74 - Brigada do Reumático.Circular do Movim de Resist das FFAA - T Cor Luís Banazol
16-Mar-74   - Golpe das CALDAS                         
Mar-74  - Publ Breves Apont s a Guiné Portuguesa- 5ª Rep/CCFAG         
25 de Abril - Golpe em Lisboa
26 de Abril -   Golpe em Bissau (11 oficiais)                     
07-Mai-74   - Chega Brig Carlos Fabião a Bissau                 
16-Mai-74  Reunião de DAKAR c Aristides Pereira-Cessar Fogo de Facto (já havia o tácito)     
25-Mai-74  - 1ª Reunião de Londres                     
05-Jun-74  - Circular MPP- Extinção do Mov Alarg de Praças, Ofic e Sarg e Adesão ao MFA
06-Jun-74 -  2ª Reunião de Londres                     
6/7Jun -  Reunião c Melo Antunes, Almada Contreiras e Pereira Pinto em Bissau     
13-Jun-74 - Chamada Lisboa-Jorge Golias,Jorge Alves,Bouza Serrano,Barros Moura, João Teixeira 
01-Jul-74 - 1ª Assembl Geral MFA/GUINÉ- Aprvoação da Moção de Reconheiemnto do PAIGC e da Ind Guiné
2/3 Jul  -  Ultimatos a BURUNTUMA e a PIRADA                
07-Jul-74 - Delegado do PAIGC em Bissau- Juvêncio Gomes           
Jul-74 - Encontros no Cantanhês                   
29-Jul-74   - 2ª Assembleia Geral do MFA/GUINÉ- Reconhecimento do MFA ao Brigadeiro Fabião   
31-Jul-74 -  Meu Regresso a Lisboa- rendido p Maj Hugo dos Santos       
26-Aug-74  - Rn Argel-Reconheciemto da Independência Guiné a partir de 10 Set, Retirada e Transferência de  Poder a 31OUT

J. Sales Golias

13 de abril de 2011

107-Celebrações populares do 25 de Abril em LISBOA

CELEBRAÇÕES POPULARES DO 37º ANIVERSÁRIO DO 25 DE ABRIL 


COMISSÃO PROMOTORA: Associação 25 de Abril  Associação Intervenção Democrática (ID )  Associação Juízes pela Cidadania  Associação Não Apaguem a Memória (NAM) • Associação Os Pioneiros de Portugal  • Associação Portuguesa de Deficientes   • Associação Projecto Ruído • Bloco de Esquerda (BE) • Comissão Coordenadora das Comissões de Trabalhadores da Região de Lisboa (CIL) • Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses - Intersindical Nacional (CGTP-IN) • Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto (CPCCRD) • Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) • Ecolojovem "Os Verdes" • Frente Anti-racista (FAC) • Interjovem CGTP • Jovens do Bloco • Juventude Comunista Portuguesa (JCP) • Juventude Socialista (JS) • MayDay • Movimento Democrático de Mulheres (MDM) • Movimento de Renovação Comunista (MRC) • Movimento Unitário de Reformados, Pensionistas e Idosos (MURPI) • Partido Comunista Português (PCP) • Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV) • Partido Operário de Unidade Socialista (POUS) • Partido Socialista (PS) - União Geral de Trabalhadores (UGT) • UGT Jovem • União dos Resistente Antifascistas Portugueses (URAP) • Diversos Independentes

Apelo à participação


A liberdade e a democracia implantadas em Portugal depois da revolução dos cravos estão indissociavelmente ligadas ao dia 25 de Abril que, uma vez mais, este ano, todos os democratas estão empenhados em celebrar. Perante a situação do País, importa que o princípio do respeito pelos direitos consagrados na Constituição prevaleça e constitua matriz insuperável para a resolução dos problemas que afectam o mesmo. Os signatários deste apelo convocam todos os democratas a participarem no desfile/manifestação que decorrerá, a partir das 15 horas, no próximo dia 25 de Abril, na Avenida da Liberdade, entre as praças do Marquês de Pombal e do Rossio.

VIVA PORTUGAL! VIVA A LIBERDADE!
VIVA A DEMOCRACIA!
VIVA O 25 DE ABRIL


(assinam mais de 600 personalidades de esquerda)

106-Aspectos e tipos da Guiné - II

Estas saíram no Nº 49 do Volume XIII, em Janeiro de 1958
(legendas como vêm na revista)
Pescadora papel
Régulo Sane Sadé com a família
Grupo de saracolés com amostras de panos
Batendo o amendoim no bentém (meda suspensa)
Trecho do rio Cacheu
Mulher fula com filho

12 de abril de 2011

10 de abril de 2011

104-Papéis do baú da memória

Vi isto nuns papéis que encontrei:

Feitas as apresentações, a instrução começou pelas coisas mais simples, naturalmente, pela indicação de noções e regras de funcionamento. Toda a gente levou exemplares do RDM e do Manual do Oficial Miliciano. Eram os evangelhos, segundo foi explicado, o dever de obedecer e de fazer a guerra. Receberam manuais disto e daquilo, de armamento, de táctica militar, de uso do equipamento, sinais de combate, etc.

(a seguir há frases que não percebo, os papéis estão gastos e amarelados...)

O toque de corneta, a despertar, soou com tal brutalidade que mais parecia o chamamento para o juízo final. Mesmo já com esse som tornado habitual, todos se soergueram nas camas com o coração aos saltos. 
Se é assim que vai suceder aos mortos nesse dia definitivo, vai ser com certeza um dia terrível. Para os justos e predestinados ao gozo eterno é um castigo imerecido, não dá gozo nenhum, pelo contrário. Para os condenados ao inferno é demais antes do julgamento. Nem é justo antes de serem julgados. Não, com certeza que não será assim o despertar dos mortos no dia do juízo. Aliás, nem percebo. Para quê este dia se já há uns no céu e outros no inferno? Porquê esta encenação? Por certo só se explica por alguma manifestação de sadismo por parte da divindade. A não ser que algum bom comportamento dos já habitantes do inferno possa pesar nesse final juízo divino para a eternidade. Mas como sustentar, assim, que o  castigo é eterno logo após a morte? Mas, se for isso, porque não aproveitar e viver sempre e bem no pecado, redimindo-se depois com o bom comportamento no inferno? 
Deixa-te de tretas e levanta-te mas é.
Havia sempre o choque diário da corneta. Com o tempo, passou a ser de curta duração. O automatismo, a reacção padrão, fruto da repetição, instalara-se já como um comportamento feito de reflexos condicionados. O Aiveca foi dos primeiros a saltar da cama. O Pais, na cama ao lado, refilou como habitualmente: 
- "Cabrões de merda. Estava a dormir tão bem.  Acordaram-me mesmo na altura em que me ia pôr na miúda...". 
- "Este gajo só pensa na mulher. Não tens vergonha, pá?", disseram todos.
- "Vão-se foder. Vergonha é ser casado e não ter onde se ponha."
O Félix, que dormia perto, no vão duma janela, já arrumava metodicamente as coisas e fazia a cama. Era um tipo giro, dormia com uma espécie de pantufas de lã. 
- "Aqui ao pé da janela gelam-se-me os pés. Tive que mandar fazer isto. Não há quem mos aqueça".
Invariavelmente, vestiu o roupão, pegou na bolsa dos artigos de higiene, no rolo de papel higiénico e marchou calmamente.
- "Às cagadeiras, em frente marche. Desculpem se me descuidei. É que sofro dos intestinos."
Mas já todos à volta dele tinham debandado, tal era o pivete. Todos não. O Realinho deu meia volta na cama e virou-se de papo para o ar. Não havia nada que o demovesse. Nem o cabo corneteiro, o "juízo final", nem o Félix, "gás tóxico". 
Era assim todos os dias. Já todos estavam a escovar desalmadamente as botas, até fazer desaparecer a água que as ensopara na véspera, quando o Realinho, estremunhado, se sentava na cama e o Félix, todo lavado e bem cheiroso, aparecia calmamente do lado das cagadeiras.
- "É para compensar. Eu sei que me descuido muitas vezes, embora a mim não me cheire a nada."

(há mais umas coisas que não percebo)

Escadaria abaixo para chegar a tempo ao pequeno-almoço e à formatura da manhã. Quem chegar atrasado faz dez flexões!

103-Aspectos e tipos da Guiné-I

Todos os números do "Boletim Cultural da Guiné Portuguesa" tinham nas páginas finais várias fotografias em papel couché a que chamavam "Aspectos e tipos da Guiné Portuguesa". Tem interesse lembrá-las pelo seu aspecto histórico e étnico.
Estas saíram no Nº 51 do Volume XIII, em Julho de 1958
(legendas como vêm na revista)
Mandinga
Dança de "banda" dos nalús
Mancebo felupe
Tabanca balanta
Campo de algodão de Calicunda
Tocadores pajadincas de tambor

9 de abril de 2011

102-O "herói"...

- “Raio da carne. Mais parece que estou a comer os cornos da vaca”. Era o que me parecia porque era mesmo dura como cornos.
- “Não se queixe, ó Aiveca”, virou-se-me o capitão,.a mastigar, “se não fosse esta vaquita, estávamos agora agarrados à bianda[1] ou àquela dobrada saltitante.”
- “Ainda bem que os gajos trazem umas vacas por aqueles carreiros que armadilhámos. Não ganhávamos nada se fossem só os gajos sem as vacas”. Uma piada à Rodolfo.
Tinha razão. As armadilhas que púnhamos em alguns carreiros da mata, que sabíamos ser utilizados pelos carregadores do PAIGC, a maior parte das vezes rebentavam com as patas das vacas que eles colocavam à frente como arrebenta minas. Quando ouvíamos um estoiro, calculávamos em que carreiro seria, corríamos para lá e encontrávamos normalmente uma vaca sem pata e agonizante. Havia rancho melhorado no dia seguinte.
Era o caso deste nosso almoço. Estávamos no refeitório oficiais, sargentos e praças. Era sempre assim, comíamos em conjunto. Só não estava lá o Salvado, porque tinha saído de manhãzinha para uma emboscada em Ponta Nova.
- “Como  bo  otcha baka?[2]”, perguntei para as mesas dos soldados.
- “É baka-brutu”[3], soltou o Incanha.
Gerou-se uma confusão. Na mesa ao lado da dele o Akadite protestava..
- “Mas o que é que aconteceu?”, admirou-se o capitão.
- “Estou a ver que o Incanha fez asneira”,  levantei-me e fui até às mesas deles.
- “O que é que há?”
 O Ocha estava calmo e foi ele que me respondeu.
 - “Alfero, Baka-brutu é uma dança[4] que os bijagós mais novos fazem com uma máscara de vaca selvagem, O Akadite é bijagó e não gostou, porque para eles é sinal de coragem. Não tem nada a ver com esta carne dura…”.
- “Ah, é isso…”. Não deu para continuar, porque chegou o Salvado e o seu pelotão. Todos se viraram para os recém-chegados.
Sentaram-se nas mesas. O Salvado foi para a nossa.
- “Então como é que correu isso?”, perguntou-lhe o capitão.
- “Muito bem. Manga de Ronco!”, todo ele se ria
- “Conte lá, homem”.
O Salvado estava radiante.
- “Matámos dez gajos”.
- “O quê!?”, abrimos todos a boca de espanto.
- “Estávamos emboscados ao pé das palmeiras da bolanha da Ponta Nova, perto do sítio referenciado como ponto de passagem. Vimo-los sair da mata, deixámo-los entrar na bolanha, e a seguir foi só disparar”. Estava sorridente.
- “E trouxeram o armamento deles, claro”, preocupou-se o capitão.
- “Trouxemos três catanas[5]”.
- “Só!?”.
E eu e o Rodolfo também nos admirámos.
- “Não nos digas que os gajos vinham desarmados…”
- “É. Os gajos não tinham armas.”
- “Então, porque é que tiveste de matá-los, pá?”, perguntei-lhe com voz séria.
Ficou um bocado embaraçado e desculpou-se.
- “Houve um que começou a disparar, os outros juntaram-se-lhe, sabes como é, e só pararam quando eles já estavam todos esticados na bolanha”.
- “porque é que não os impediste?”
- “Não penses que isso é fácil”.
- “Não é fácil uma merda. Quando se quer é fácil. Outro dia em Sano foi fácil pirares-te e deixar-me sozinho no meio do tiroteio. Porque quiseste, achaste que era o melhor para ti, tiveste cagaço. E agora não, o que quiseste foi armar-te em herói contra gajos desarmados.”
Tinha levantado a voz. Já havia silêncio nas outras mesas, estavam de ouvido à escuta, e o capitão interrompeu-me.
- “Calma aí, pá. Disse-me que eram dez, mas eram só homens?”
- “Não. Eram sete homens e três mulheres”.
Estava a beber e pousei com ruído o copo na mesa.
- “Foda-se! Ainda por cima matas mulheres. Herói, sim senhor”.
- “Acabou, Aiveca”. O capitão Alves olhou-me severamente. “E os corpos deles?”
- “Mandámo-los para aquele riacho que vai desaguar no Cacheu”:
Abanei a cabeça em desacordo, mas já não disse nada.
- “A que horas é que foi isso? Não traziam nada? Tenho de mandar um relin[6] para o COP3.[7]
- “Eram oito e meia. Só traziam um garrafão com água.”
- “Era população civil que se deslocava, certamente”.
- “Claro”, disse eu.
O Rodolfo, que tinha estado sério e calado, abriu a boca.
- “Mas, ó meu capitão, se o Spínola sabe que o Salvado matou dez civis é capaz de lhe dar uma porrada.”
- “Porquê?”, perguntei-lhe com um encolher de ombros de incredulidade.
- “É pá, ele acha que a tropa deve proteger a população civil, deve apoiá-la, e não foi o caso, pelo contrário”.
Ri-me.
- “Isso é treta, é psico. Se fosse com o pessoal aqui da tabanca… Agora com o pessoal do mato, se o Salvado dissesse que foi atacado com uma catana ainda lhe dava uma cruz de guerra. Fizeste mal em não dizer, esqueceste-te, assim é que serias mesmo um grande herói, medalhado, até podias ir ao Terreiro do Paço….”
- “Chega!”, cortou o capitão Alves. “Já comeram todos?... Vamos embora”.
Saímos. O capitão foi para a secretaria, o Salvado olhou para mim de trombas e foi em direcção ao quarto dos alferes. Eu e o Rodolfo assentámo-nos ao pé do poilão[8] da secretaria a fumar um cigarro. Ouvia-se o katchu-kaleron[9] a voejar por entre os ramos.
- “Tu não gramas mesmo o Salvado”.
- “E achas que não tenho razão, Rodolfo? Aquele filho da puta deixou-me outro dia sozinho em Sano. Se os gajos tivessem lá um bigrupo, como o major do COP3 pensava, eu estava bem fodido. E agora isto… tão cobarde foi em Sano como agora na Ponta Nova…”
- “Mas ele, no fundo, não é mau gajo. Até foi seminarista.”
Soltei uma gargalhada e curvei-me para baixo a rir. O Rolando olhou-me interrogativamente.
- “Não gostas de seminaristas, é?.”, acabou  por dizer.
- “Não é nada disso, não. O que sucede é que eu também fui seminarista, pá.”
Olhou-me espantado.
- “Nunca pensei. Não tens ar disso”.
- “E qual é o ar de um ex-seminarista? O Salvado tem ar de não ser mau gajo e eu tenho? Por isso não me topaste, é isso?. Fica a saber que os ex-seminaristas são como os outros. Uns são filhos da puta e outros não.”
- “Oh, vai à merda. Sabes o que eu quero dizer. Normalmente os ex-seminaristas têm um ar encolhido, pouco aberto. Será, não sei, porque não perderam o ar do seminário, a forma como foram educados. O Salvado tem e tu não tens.”
- “E achas que o ar encolhido e pouco aberto é que o caracteriza como bom gajo? Não te fies muito nos que são assim, podes ter más surpresas às vezes.”
Tinha acabado de fumar o cigarro.
- “Olha vou ali à caserna para ver como estão os do meu pelotão”. E afastei-me do poilão.

[1] Prato guineense de arroz com molho; o arroz cozinhado no geral como arroz branco; comida  (crioulo)
[2] O que acham da vaca’? (crioulo)
[3] Vaca selvagem (crioulo)
[4] Baili di baka-brutu.
[5] Terçado, espécie de espada de folha curta e larga, usada para cortar ramos, mas também como arma.
[6] Relatório militar, “relatório de incidente”
[7] Comando Operacional nº 3, situado em Bigene.
[8] Árvore de grande porte da Guiné.
[9] Espécie de pardal de cor amarela

8 de abril de 2011

101-O cerco de Guidage

O cerco de Guidaje 

No início de Maio de 1973, a guarnição militar de Guidaje era constituída por uma companhia de caçadores do recrutamento local, a Companhia de Caçadores 19 e pelo Pelotão de Artilharia 24, equipado com obuses de 10,5 cm. 

Guidaje estava sob o comando operacional do COP3, que tinha sede em Bigene. Com o agravamento da situação, o comandante, tenente-coronel Correia de Campos, deslocou-se para Guidaje em 10 de Maio, com o seu posto de comando avançado, onde se manteve até 12 de Junho. 

O PAIGC dispunha, concentradas, as seguintes forças na região de Cumbamori: 

- Corpo de Exército (CE) 199/B/70, com quatro bigrupos de infantaria e uma bateria de artilharia; 

- Corpo de Exército (CE) 199/C/70, com cinco bigrupos de infantaria e uma bateria de artilharia; 

- Grupo de Foguetes da Frente Norte, com quatro rampas; 

- Três bigrupos de infantaria, um grupo de reconhecimento e uma bateria de artilharia do CE 199/A/70, deslocadas de Sare Lali (Zona Leste). 

Gravura inserta no livro "Guiné - 1968 e 1973 - Soldados uma vez, soldados para sempre", de Nuno Mira Vaz
 Foram ainda referenciados em Cumbamori um pelotão de morteiros de 120 mm, um grupo especial de sapadores e diversos elementos recém-chegados do estrangeiro. 
Do lado do PAIGC estimavam-se em cerca de seiscentos e cinquenta a setecentos os efectivos que empenhou nesta operação, comandados por Francisco Mendes (Chico Te) e pelo comissário político Manuel dos Santos, que era o responsável pelos mísseis em todo o território. 
O primeiro objectivo do PAIGC foi isolar Guidaje, cuja localização era excelente, situada em cima da fronteira, o que diminuía a frente de um possível contra-ataque ou de um reforço. Dada a inibição das forças portuguesas em manobrar pelo território do Senegal, elas só poderiam vir de sul, ou seja de Binta e de Cufeu. Nesta zona, sensivelmente a meio caminho entre as duas localidades, o PAIGC havia instalado forças significativas e lançado vasto campo de minas. O ataque a Guidaje por norte garantia contínuo fluxo de reabastecimento de munições e efectivos, dado que podiam efectuar-se por viatura a partir de Zinguichor, Cumbamori, Yeran ou Kolda, o que permitia manter o cerco durante largo período de tempo. 
Para cercar Guidaje, o PAIGC começou por cortar o itinerário de Binta e instalar sistemas antiaéreos com mísseis Strella. 
O isolamento aéreo de Guidaje iniciou-se com o abate de um avião T-6 e de dois DO-27 e o terrestre acentuou-se em 8 de Maio, quando uma coluna que partira de Farim, escoltada por forças do Batalhão de Caçadores 4512, accionou uma mina anti-carro e foi emboscada, sofrendo doze feridos. Em 9 de Maio, a mesma força foi de novo emboscada, mantendo-se o contacto durante quatro horas. 
A coluna portuguesa sofreu mais quatro mortos, oito feridos graves, dez feridos ligeiros e quatro viaturas destruídas, deslocando-se então para Binta, em vez de subir para Guidaje. 
Em 10 de Maio, no deslocamento de Binta para Guidaje, o conjunto de unidades envolvidas, sob o comando do comandante do batalhão de Farim, sofreu mais um morto e dois feridos e encontrou a picada cortada por abatises. Entretanto, as forças da CCaç 19, saídas de Guidaje para proteger o itinerário na sua zona de acção, tiveram cinco contactos, sofrendo oito mortos e nove feridos. 
No relatório desta acção, o seu comandante descreve assim a violência do contacto de fogo: « (...) em relação às NT, o IN estava de frente, dos dois lados da picada, e foi impossível fazer uma reacção conveniente pelo fogo. A primeira sessão pelo fogo causou-nos imediatamente três mortos ( ... ) o IN voltou à carga com maior ímpeto, mas as NT já estavam preparadas para o receber e aqui teve as primeiras baixas. Estando um cabo gravemente ferido com um estilhaço no pescoço, o soldado auxiliar de enfermeiro correu para junto dele a fim de o socorrer. Estando ajoelhado a seu lado foi atingido por uma rajada que lhe provocou a morte. 

Gravura inserta no livro "Guiné - 1968 e 1973 - Soldados uma vez, soldados para sempre", de Nuno Mira Vaz

Gravura inserta no livro "Guiné - 1968 e 1973 - Soldados uma vez, soldados para sempre", de Nuno Mira Vaz
Começavam a escassear as munições e foi dada ordem para fazer fogo de precisão, tanto quanto possível. Quando o fogo parou por escassos segundos um dos furriéis tentou chegar junto dos mortos para recuperar os corpos. Quando se levantava para realizar esta acção, pela terceira vez o IN atacou as nossas posições. Notando a impossibilidade de recuperar os corpos dos mortos e porque a falta de munições era quase total, o comandante viu-se coagido a ordenar a retirada... ». 
Em 12 de Maio, chegou a Guidaje uma coluna de reabastecimentos constituída pelos destacamentos de fuzileiros especiais 3 e 4. Em 15, no regresso a Farim, accionaram duas minas e sofreram dois feridos graves e numa emboscada entre Guidaje e Binta, cinco feridos. 
Uma coluna que entretanto saiu de Binta alcançou Guidaje no mesmo dia. Contudo, em 19, no regresso, accionou várias minas e sofreu emboscada violenta. Teve um morto e sete feridos, esgotou as munições e regressou a Guidaje. 
Em 23 de Maio, saiu uma coluna de Binta para Guidaje protegida por uma companhia de pára-quedistas. A coluna regressou ao ponto de partida, porque a picada estava minada em profundidade, e a companhia de pára-quedistas, apesar de ter sofrido violenta emboscada feita por um grupo de cerca de setenta elementos, que lhe causou quatro mortos, chegou a Guidaje. 
Em 29 de Maio, foi organizada uma grande operação para reabastecer Guidaje. Constituíram-se quatro agrupamentos com efectivos de companhia em Binta e dois agrupamentos em Guidaje, estes para apoiar a progressão na parte final do itinerário. A coluna alcançou Guidaje nesse dia, tendo sofrido dois mortos e vários feridos. 
Em 30 de Maio, em virtude da informação de agravamento da situação no Sul (Guileje), estas forças regressam às suas bases para serem de novo empregues. 
Em 12 de Junho, considerou-se terminada a operação de cerco a Guidaje. Uma coluna partiu desta guarnição para Binta, trazendo o tenente-coronel Correia de Campos, que comandara o COP3 durante este difícil período.
Baixas das colunas de e para Guidaje, entre 8 de Maio e 8 de Junho de 1973: 
Mortos 22 
Feridos 70 
Viaturas destruídas 6 
Em suma, o primeiro objectivo do PAIGC foi isolar Guidaje, o segundo foi flagelar a posição e destruir o espírito de resistência das forças portuguesas e o último seria conquistar a povoação. Guidaje sofreu, entre o dia 8 e o dia 29 de Junho, 43 flagelações com artilharia, foguetões e morteiros. Logo no dia 8, esteve debaixo de fogo por cinco vezes, num total de duas horas, em 9, sofreu quatro ataques, em 10, três e até ao final todos os dias foi atacada. No total dos 43 ataques, a guarnição de Guidaje sofreu sete mortos, trinta feridos militares e quinze entre a população civil. Foram causados estragos em todos os edifícios do quartel.

Operação Ametista Real - a resposta 

O nítido agravamento da situação em Guidaje, que era particularmente nítido a partir de 8 de Maio, as notícias de grandes movimentações de tropas do PAIGC junto à fronteira com o Senegal, a dificuldade de reforçar e apoiar por terra aquela guarnição, dada a resistência encontrada pelas colunas que ali se dirigiam, e a existência de vários feridos que não podiam ser evacuados para os hospitais pelas limitações de emprego de meios aéreos, levaram o comandante-chefe a lançar uma operação de grande envergadura para envolver as forças do PAIGC que atacavam Guidaje e aliviar a pressão sobre aquela guarnição militar que permitisse reabastecê-Ia, retirar os feridos e substituir pessoal. 

Gravura inserta no livro
 "Guiné - 1968 e 1973 - 
Soldados uma vez, soldados para sempre", 
de Nuno Mira Vaz
Esta tarefa foi atribuída ao Batalhão de Comandos da Guiné, que recebeu a missão de «aniquilar ou, no mínimo, desarticular a organização do lN na região de Guidaje-Bigene». 

As forças executantes, num total de cerca de quatrocentos e cinquenta homens, foram assim organizadas: 

Comandante da operação - major Almeida Bruno. 

Agrupamento Romeu 

- 1.ª Companhia de Comandos - capitão António Ramos. 

Agrupamento Bombox 
Agrupamento Centauro 
- 3.ª Companhia de Comandos - capitão Raul Folques. 
As forças do Batalhão de Comandos saíram em 18 de Maio de Bissau numa LDG, apoiadas por duas LFG, e desembarcaram em Ganturé nessa tarde. Depois de um briefingem Bigene, saíram pelas 23 e 50h para Norte, pela seguinte ordem:
- Agrupamentos Bombox, Centauro e Romeu. 

Gravura inserta no livro "Guiné - 1968 e 1973 - Soldados uma vez, soldados para sempre", de Nuno Mira Vaz
 Pelas 5 e 30h, de 19 de Maio, a testa da coluna alcançou o itinerário que apoiava a base de Cumbamori, objectivo principal da operação. O Agrupamento Bombox passou para norte da estrada, o Agrupamento Centauro ocupou posições a sul e o Agrupamento Romeu instalou-se à retaguarda, numa pequena povoação. 
Ás 8 e 20h iniciou-se o ataque aéreo com aviões Fiat G-91, que destruíram os paióis da base, tendo as munições explodido durante algum tempo. 
Às 9 e 05h o Agrupamento Bombox executou o assalto inicial, provocando o primeiro contacto com as forças do PAIGC. Estes combates desenrolaram-se até às 14 e 10h, quando o comandante da operação deu ordem para o Agrupamento Centauro apoiar uma ruptura de contacto entre as suas forças e as do PAIGC. Foi uma operação de grande dificuldade, porque os combatentes de um e outro lado se encontravam muito próximos. O comandante do Agrupamento Centauro foi ferido, mas conseguiu realizar essa separação. 
Às 14 e 30h, o Batalhão de Comandos iniciou o movimento para a base de recolha e às 18 e 20h, os seus primeiros elementos chegaram a Guidaje. Em 20 de Maio, o mesmo batalhão saiu de Guidaje para Sinta, a pé, deixando ali os seus feridos e os militares que não se encontravam em condições de prosseguir a marcha. Em Sinta, embarcou numa LDG de regresso a Bissau. 
Nesta operação, o Batalhão de Comandos sofreu dez mortos, vinte e dois feridos graves e três desaparecidos, estimando ter causado sessenta e sete mortos, entre os quais, segundo informação mais tarde obtida no Senegal, uma médica e um cirurgião cubanos e quatro elementos mauritanos. 
Durante a acção, as forças do Batalhão de Comandos consumiram as seguintes munições: 
7,62mm(G-3)    26 700 
7,62mm(Kalash)    4 600 
Granadas de lança-granadas-foguete de 6 e 8,9 mm 292 
GranadasRPG-2eRPG- 71 
Granadas morteiros 195 
Granadas mão ofensivas e defensivas 268
A situação melhorou durante algum tempo, até porque o esforço do PAIGC se passou a concentrar na frente sul, sobre Guileje e Gadamael. 
Nestes 20 dias do mês de Maio e nesta região em torno de Guidaje, as forças portuguesas sofreram trinta e nove mortos e cento e vinte e dois feridos.

(Andelmo Aníbal e Carlos Matos Gomes, in http://guerracolonial.org, site da A25A/RTP)

- 2.ª Companhia de Comandos - capitão Matos Gomes. 

Em termos de efectivos, a guarnição portuguesa teria cerca de duzentos homens, na maioria do recrutamento da província, com as suas famílias, existindo em redor do quartel uma pequena aldeia com cada vez menos habitantes.