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19 de abril de 2011

112-Operação Mar Verde


in "Os Anos da Guerra Colonial", suplemento As Grandes Operações da Guerra Colonial XI, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes
in "Os Anos da Guerra Colonial", suplemento As Grandes Operações da Guerra Colonial XI, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes
in "Os Anos da Guerra Colonial", suplemento As Grandes Operações da Guerra Colonial XI, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes
Há livros sobre esta operação:


Este é do comandante da operação
Do jornalista António Luís Marinho
...e de prisioneiros libertados:


Do ex-alferes António Júlio Rosa
Do ex-sargento piloto António Lobato
Sobre a Operação Mar Verde lê-se no site "Guerra Colonial - A25A/RTP"
Um mar de mistérios 

A Operação Mar Verde é uma acção singular entre todas as realizadas, durante a guerra, nos três teatros de operações. Na clássica divisão dos manuais militares, que consideram três grandes grupos de operações - convencionais, especiais e irregulares -, ela pertence ao grupo das irregulares, e foi neste âmbito a de maior envergadura, complexidade e impacte internacional. 

Foi realizada para obter efeitos políticos directos através da execução de um golpe de Estado em país estrangeiro, a Guiné-Conacri, por militares portugueses a actuarem com uniformes e equipamentos das forças desse país e em conjunto com elementos estrangeiros oposicionistas ao Governo, prevendo a eliminação de um chefe de Estado, Sekou Touré.

Como escreve o comandante da operação, o capitão-tenente da Marinha Portuguesa Alpoim Calvão, no seu livro "De Conacri ao MDLP", que constitui a base de informações que sobre ela se conhece, a proposta que fez ao comandante-chefe das Forças Armadas Portuguesas na Guiné tinha por objectivo principal a execução de um golpe de Estado na Guiné-Conacri, sendo os objectivos secundários a captura do líder do PAIGC, Amílcar Cabral, e a libertação dos militares portugueses prisioneiros que se encontravam em Conacri. 

A operação, que nunca foi assumida por Portugal, aproveitou a existência de oposicionistas ao regime de Sekou Touré, disponíveis para participarem numa acção deste género, e visou a instalação, em Conacri, de um regime mais favorável às posições portuguesas. Para atingir este fim, foram equacionadas duas alternativas, uma prevendo a instalação no território da Guiné-Bissau de bases a partir das quais esses oposicionistas pudessem realizar acções de guerrilha no seu país, e a outra considerando o lançamento de uma operação rápida e decisiva. A análise de vantagens e inconvenientes levou os autores da proposta a optar pela segunda alternativa. 

Seguiu-se um período de preparação essencialmente de âmbito político e das informações estratégicas, que envolveu o Governo de Lisboa, o Governo da Guiné e os serviços de informações de vários países, com a participação decisiva da DGS. 

Por fim, realizou-se a operação militar propriamente dita, com o planeamento, a reunião dos meios, o gizar da manobra e a execução.
………………………….
Mas, além do segredo, outro aspecto fundamental de uma operação irregular é a existência de boas informações e também neste campo existiram graves deficiências assumidas pelo inspector Matos Rodrigues, da DGS, que apoiou a acção. Os mapas para a operação foram obtidos a partir de folhetos turísticos desactualizados, o porto de Conacri observado através de uma acção de reconhecimento efectuada à distância por um navio português, numa operação também ela dirigida pelo comandante Calvão. Em Conacri não existia qualquer informador da DGS que actualizasse elementos e permitisse cruzar informações. Apesar destas graves deficiências e de não haver uma situação militar tão crítica no terreno que justificasse correr os riscos dela decorrentes, a
Por estas ou outras razões, as forças invasoras não encontraram o presidente operação foi desencadeada.  Sekou Touré no local que previam, Amílcar Cabral estava no estrangeiro, os aviões Mig noutra base e a emissora não foi tomada, impedindo os oposicionistas de ler a sua proclamação. 
Estes factos permitem admitir que, além do êxito que constituiu a libertação dos prisioneiros portugueses e a retirada sem comprometimento das forças da Mar Verde, os fracassos nos outros objectivos foram, contudo, os que melhor serviram os interesses das autoridades portuguesas. Os fracassos, ao limitarem os resultados a uma operação de resgate de prisioneiros, evitaram as imprevisíveis consequências no plano externo que adviriam para Portugal da responsabilidade por uma invasão do território de uma nação soberana e pela morte de um chefe de Estado no seu próprio país. Evitaram ainda o problema de ficar com Amílcar Cabral, um dos mais prestigiados líderes de movimentos de libertação africanos, prisioneiro em Bissau ou em Lisboa. 
Hoje persistem as interrogações sobre o futuro do general Spínola e sobre o destino do próprio Marcelo Caetano, caso os objectivos da operação tivessem sido alcançados. O primeiro seria inevitavelmente apresentado como o principal responsável por uma aventura deste tipo, que lhe retiraria credibilidade como dirigente político em qualquer solução alternativa para o regime português. O segundo não deixaria de ter de suportar os custos políticos, internos e externos, em especial quanto à credibilidade da sua anunciada política de abertura, que ainda mantinha alguns apoios. 
As razões que levaram estes dois homens a patrocinar uma operação que envolvia tais riscos continuam, hoje, difíceis de entender.


Prisioneiros que foram libertados:
Esta foi uma lista que entreguei ao jornalista José Manuel Saraiva para o ajudar no encontro que promoveu de ex-combatentes (daí as observações nela constantes)
O soldado Francisco Gomes da Silva "não compareceu entre os libertados" porque tinha ido para Argel; o João da Costa Sousa não se sabe das razões.
Quanto ao Armindo Correia Paulino houve um erro: ele tinha sido dado como "retido pelo IN" mas não foi assim. O que sucedeu é que ele foi morto em Sinchã Jobel na operação "Imparável" em 16 de Outubro de 1967, tendo o seu corpo ficado no terreno.
O 1º cabo José Manuel Moreira Duarte, que foi, depois de libertado, para o Brasil, mas onde passou muito mal e de onde teve de voltar. Está agora com uma pensão de ex-prisioneiro.  É este aqui assinalado  no barco "de regresso", o navio patrulha Hidra:
e aqui nesta foto em que estou com alguns dos que foram do meu pelotão na CART1690:

17 de abril de 2011

111-Hino de Gandembel


GuerraA guerra é a saída cobarde para os problemas da paz.
Thomas Mann     


GuerraAs mães dos soldados mortos são juízes da guerra.
Bertolt Brecht

16 de abril de 2011

110-Comemorações populares do 25 de Abril no Porto




Comissão Promotora

Associação 25 de Abril (A25A)
Associação das Colectividades do Concelho do Porto (ACCP)
Associação José Afonso do Norte (AJAN)
Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC)
Movimento Democrático de Mulheres (MDM)
União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP)
União dos Sindicatos do Porto (USP)
Universidade Popular do Porto (UPP).

109-Ao fim de 200 anos...

Saiu hoje no "Correio da Bahia":

"O capítulo da história do Brasil conhecido como Inconfidência Mineira aconteceu há mais de 200 anos. Mas só agora, com a ajuda da tecnologia, foram identificadas as ossadas de três heróis desse daquele movimento pela independência do Brasil.
O trabalho de identificação levou quase 20 anos. O professor da Unicamp recebeu uma urna com centenas de pedaços de ossos misturados. Teve que usar técnicas de medicina legal e exames modernos para determinar que eram de três pessoas com idades diferentes.
O crânio era do mais velho. Com a ajuda de uma universidade em Londres, foi feita a reconstituição do rosto de José de Resende Costa, o primeiro inconfidente a ser revelado com a ajuda da ciência.
“Estudando pecinha por pecinha, depois através da densitometria óssea e toda aquela verificação, eu posso dizer que de 98% a 100% são eles”, explica Eduardo Daruge.
Depois que Tiradentes foi executado, em 1792, os três inconfidentes foram banidos do país. Saíram do Brasil para Portugal e de lá, foram levados para a África, para a Vila de Cachéu, Guiné Bissau, então Guiné Portuguesa.
Domingos Vidal Barbosa e João Dias da Mota morreram no ano seguinte. José de Resende Costa, em 1798.
Uma indígena, moradora da Vila Cachéu, confirmou que na cova ao lado da igreja estavam brasileiros que tinham sido exilados. Era o que ela tinha ouvido dos pais e avós na década de 30. A informação chegou aos ouvidos de um diplomata brasileiro. Ele, então, trouxe a urna com as ossadas para o país.
A urna estava em uma igreja em Ouro Preto e foi enviada para estudos na Unicamp. Agora, mais de dois séculos depois, os três mineiros vão ser sepultados como personagens da nossa história. As informações são da TV Globo".

Explicação:
"Vistas como as duas mais expressivas revoltas do tempo colonial, a Inconfidência Mineira de 1789 e a Conjuração Baiana de 1798 ficaram conhecidas como as duas revoltas que defendiam a extinção do pacto colonial. De fato, as imposições lusitanas e a falta de interesse pelo desenvolvimento da economia interna motivaram mineiros e baianos a conspirarem contra o domínio de Portugal. Além disso, essas duas revoltas foram ideologicamente sustentadas pelas noções dos escritos iluministas.
Apesar de terem sido frustradas pelas autoridades, a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana foram marcadas por profundas diferenças. Os participantes da revolta em Minas Gerais eram todos ligados às elites locais e pretendiam melhorar sua situação com a formação de um governo livre dos impostos e representantes do poderio metropolitano. Até mesmo o alferes Tiradentes, segundo alguns pesquisadores, tinha uma condição financeira relativamente confortável.
Na Bahia, a conjuração, inicialmente, teria características muito semelhantes à da revolta que aconteceu em Minas Gerais. A elite local pretendia conduzir a tomada do poder conclamando os populares a lutarem contra seus opressores. Contudo, as condições miseráveis e as propostas de transformação disseminadas anonimamente por panfletos e pasquins instigaram os populares a tomarem conta do movimento. Mulatos, escravos, brancos pobres e negros libertos se transformaram em cabeças do levante."
 in http://www.mundoeducacao.com.br/historiadobrasil

14 de abril de 2011

108-A Guiné e o 25 de Abril




Intervenção do tenente-coronel J. Sales Golias na Mesa Redonda levada a efeito pelo Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra/Fórum dos Estudantes da CPLP
Coimbra, 30 de Abril de 2005

1.     GOLPE EM BISSAU 

Em 26 de Abril de 1974 o MFA na Guiné-Bissau, que estava preparado para efectuar um golpe em Bissau caso falhasse o golpe em Lisboa, resolveu mesmo assim tomar o poder, sobretudo para condicionar o processo de descolonização. 
Outras razões havia, porém, e uma delas devia-se ao facto de o Governador e Comandante-Chefe, General Bettencourt Rodrigues, não ter declarado apoio ao MFA e ter permitido que a PIDE seguisse todos os movimentos dos Capitães em Bissau no dia 25 de Abril. 
Acresce ainda referir que era importante para alguns Capitães dar um sinal aos camaradas das outras colónias. 
Era fundamental, logo de início, contrariar a estratégia do General Spínola de efectuar uma consulta popular na Guiné com vista à sua integração numa comunidade lusíada. 
Assim, no dia 26 de Abril, onze oficiais (1) dirigiram-se ao Gabinete do General Comandante e exigiram a sua demissão e o regresso a Lisboa. Foi um acto pacífico, civilizado, mas dramático. Com o General vieram também alguns oficiais que se lhe solidarizaram, nomeadamente o Brigadeiro Leitão Marques que o MFA julgava poder contar para o substituir. 
Por isso tivemos que solicitar ao Comodoro Almeida Brandão, o Comandante Marítimo, que assumisse as funções de Comandante-Chefe interino das Forças Armadas na Guiné-Bissau. Regista-se o facto de este oficial já ter reconhecido a Junta de Salvação Nacional (JSN). 
Para as funções de Encarregado do Governo interino, o MFA indigitou um dos seus membros, o Tenente-Coronel Mateus da Silva que era Comandante do Agrupamento de Transmissões, o Quartel-General da conspiração, e um dos poucos oficiais superiores que integrava o Movimento dos Capitães (MOCAP). 
Ao tomar estas decisões, o MFA antecipou-se algumas horas à decisão da JSN que mandava substituir os Governadores pelos Secretários Gerais, como Encarregados do Governo interinos. 
E assim se estabeleceu o primeiro confronto entre a JSN e o MFA na Guiné. 
As primeiras medidas tomadas foram a detenção dos agentes da PIDE e a libertação dos prisioneiros políticos. 
Estas medidas estavam a ser exigidas nas primeiras manifestações de populares em Bissau à semelhança do que se passava em Lisboa. 
Concentrámos os elementos da PIDE no Campo de Instrução Militar do Cumeré, até ao seu embarque para Lisboa, contrariando a sua petição de irem para Angola. 
A detenção da PIDE contrariou outra determinação da JSN, que era a de os seus agentes serem integrados no Serviço de Informações Militares (SIM), tendo em vista a obtenção de informações úteis à condução das operações militares.
Foi o segundo confronto com a JSN. 
Estas tomadas de posição só foram possíveis porque, na Guiné, o MFA era uma realidade já muito forte e coesa. Foi aqui que tudo começou e se desenvolveu. 

2. ORIGENS DO MFA 

E tudo começou com a corajosa declaração do General Spínola, após encontros com o Presidente Senghor do Senegal, de que a solução da guerra da Guiné era política e não militar. 
Marcello Caetano pôs termo a estes contactos e respondeu com a conhecida frase “Prefiro um desastre militar na Guiné a negociar seja com quem for”. 
Estavam lançadas as sementes da contestação à guerra colonial na Guiné-Bissau. 
E, quando o General Spínola deixa a Guiné, em 6 de Agosto de 1973, já havia Capitães a conspirar e, a 18 desse mês, deram início às primeiras reuniões organizadas do Movimento dos Capitães (MOCAP).
Foi numa dessas reuniões que eu afirmei que a guerra colonial e o regime ditatorial em Portugal só se resolviam com uma revolução armada. E este momento foi determinante, pois estavam presentes alguns dos principais actores do 25 de Abril. O próprio Otelo considera este momento como o mais emocionante na preparação do 25 de Abril. 
E, ainda em Setembro de 1973, constitui-se uma primeira Comissão Coordenadora, que integrava o Major Almeida Coimbra, Capitão Duran Clemente, Capitão Matos Gomes e Capitão Caetano. 
Otelo acabou a sua comissão e regressou a Lisboa em 16 de Setembro, uma semana depois da primeira reunião do MOCAP em Portugal (Évora-9 de Setembro 73). Entretanto o mesmo acontecia com alguns oficiais afectos a Spínola como Manuel Monge, Almeida Bruno e Casanova Ferreira. 
Tínhamos então acabado de contestar o Congresso dos Combatentes a que se seguiu o DL Sá Viana Rebêlo, conhecido como decreto das ultrapassagens. 
Tínhamos acabado de assinar uma carta de demissão, a que eu chamei de carta de amor, porque receava que estivéssemos a enveredar por um vício de contestação fácil. 
Nos meses seguintes iniciámos um processo de esclarecimento e politização para o qual muito contribuíram os “Textos Políticos” de Amilcar Cabral. 
Ninguém ficava indiferente a afirmações como: 
“Os nossos povos fazem a distinção entre o governo colonial fascista e o povo de Portugal: não lutamos contra o povo português...nós lutamos contra o colonialismo português.” 
Ou esta extraordinária afirmação: 
“E que ninguém se espante se ousamos afirmar que não nos sentimos orgulhosos pelo facto de em cada dia...sucumbir ingloriosamente grande número de jovens portugueses sob o fogo dos nossos combatentes.” 
Entretanto, em 21 de Setembro de 1973, chega o novo Governador, General Bettencourt Rodrigues, trazendo na sua carta de comando outra frase célebre de Marcello Caetano:”resistir até à exaustão dos meios”. Ou seja, o poder em Portugal não queria ceder na Guiné para não abrir um precedente para as outras colónias, sobretudo Angola, a jóia da coroa, aceitando um desastre militar à semelhança do da Índia, mas aqui, provavelmente, com muito mais baixas. 
Em 24 de Setembro de 1973, ou seja, uma semana depois da chegada do Governador, o PAIGC declarava a independência unilateral da Guiné-Bissau em Madina do Boé, que foi de imediato reconhecida por 72 países, mais do que aqueles com os quais Portugal mantinha relações diplomáticas. 
Uma semana depois, a ONU aprovava uma resolução na qual considerava Portugal potencia ocupante e convidava a retirar.

3.     O PRINCÍPIO DO FIM

 Dramaticamente, enquanto estes factos se desenrolavam, os nossos aviões iam sendo abatidos retirando-nos a decisiva vantagem da supremacia aérea. 
As Nossas Tropas(NT), iam somando insucessos, alguns dos quais muito graves como o abandono de Gadamael Porto, a dramática retirada do inferno de Guileje, em cuja consequência foi preso o Major Coutinho e Lima, por ter decidido salvar as vidas dos seus homens e o cerco de Guidage. No rompimento deste cerco foi decisiva a acção do meu camarada Salgueiro Maia, cuja Companhia de Cavalaria já tinha acabado a sua comissão e aguardava embarque para Lisboa, mas à qual estava guardado o pior bocado.
 Estavam empenhadas neste cerco as três Companhias de Comandos Africanos, uma delas comandada pelo Capitão Carlos Matos Gomes, um dos principais oficiais do MFA na Guiné. 
Só um Comandante natural como o Salgueiro Maia conseguiria mobilizar novamente os seus homens para uma das mais violentas campanhas de guerra e da qual saíu com muitos mortos e feridos. 
Salgueiro Maia regressou a Lisboa já no mês de Outubro de 1973. 
Em Fevereiro de 1974, o Tenente Coronel Luís Ataíde Banazol, recém chegado à Guiné à frente de um Batalhão que se recusara a embarcar, e que foi obrigado a fazê-lo de forma fraccionada, convida-nos para uma reunião em Nhacra. Comparecemos três capitães, o Carlos Matos Gomes, o José Manuel Barroso e eu próprio. Foi anfitrião o Capitão miliciano Franco. Sem rodeios comunicou-nos que oferecia o seu Batalhão para uma revolta   aquando da passagem por Bissau a caminho de Bambadinca. Cercaríamos o Comando-Chefe à hora do “brieffing” no Forte da Amura e tomaríamos o poder. 
Era tudo quanto mais nos agradaria ouvir pois era mais um sinal de que o regime estava no fim. Pedimos quarenta e oito horas para responder e regressámos a Bissau sonhando alto. A nossa resposta foi, porém, negativa e tive de refrear os ânimos dos meus companheiros. Eu acreditava firmemente no que em breve se iria desenrolar em Lisboa e uma antecipação destas poderia ser o fracasso daquela. Mas agora sabíamos mais claramente que uma intervenção em Bissau estava ao nosso alcance. 
O Ten Coronel Banazol não gostou da nossa resposta e, de imediato, nos comunicou que, doravante, iria agir por conta própria e assim fez. Em Março de 74 fez distribuir por todo o território uma circular em nome do “Movimento de Resistência das Forças Armadas” apelando à rebelião e progamando uma operação de retracção do dispositivo militar para o mês de Maio de 1974. A nossa História regista vários actos corajosos destes que, estando antecipadamente votados ao fracasso, têm o mérito de nos incitar a agir no tempo próprio. 

4.     A DESCOLONIZAÇÃO 

Voltando aos primeiros dias de Maio de 1974 em Bissau, após o nosso golpe e depois de dois confrontos com a JSN, tivémos a primeira resposta de Spínola ao nomear o Tenente-Coronel Carlos Fabião, Encarregado do Governo e Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné. 
Carlos Fabião chegou no dia 7 de Maio, graduado em Brigadeiro, acompanhado do Tenente-Coronel Almeida Bruno. 
No seu discurso de posse fez o elogio, esperado, do General Spínola e terminou dizendo a frase, inesperada, ...”por uma Guiné melhor num Portugal continuamente renovado”. 
Após uma longa sessão de esclarecimento e discussão, o Brigadeiro Fabião aderiu às teses do MFA na Guiné, dizendo que devia ter terminado o seu discurso com esta outra frase ...”por uma Guiné melhor e um Portugal continuamente renovado”. 
Consequentemente aceitou que o MFA continuasse no Gabinete de Governo. Os primeiros representantes no Gabinete foram O Primeiro-Tenente Brandão pela Marinha, O Capitão Faria Paulino pela Força Aérea e eu pelo Exército. 
Entretanto davam-se os primeiros encontros entre as nossas tropas e guerrilheiros do PAIGC. 
E, assim, recebi em Bissau uma reportagem fotográfica dos mesmos, enviada pelo Capitão de Infª Rui Silva Ramalho, que me explicou da inevitabilidade destes encontros que, aliás, decorreram com a maior cordialidade. 
Em 16 de Maio de 1974 dá-se o encontro de DAKAR entre representantes da JSN e do PAIGC no qual participou o anterior Encarregado do Governo, nomeado pelo MFA, Tenente-Coronel Mateus da Silva, já regressado a Portugal. Foi o único encontro que teve um Oficial que tinha integrado o MFA na Guiné. Em DAKAR assinou-se o cessar-fogo “de jure”, uma vez que já existia de facto. 
Mas à semelhança do que se passava em Portugal, também na Guiné tivémos problemas de autoridade e disciplina. Nas Unidades havia comandos que não aderiram ao MFA. 
Em Bissau constitui-se o “Movimento Alargado de Praças, Oficiais e Sargentos, também conhecido por Movimento para a Paz. Era seu líder o Alferes miliciano Celso Cruzeiro. 
Pessoalmente, tinha a visão muito clara de que, sem unidade não levaríamos a bom porto o nosso barco, ou seja, não conseguiríamos descolonizar correctamente e, como não iria haver meio termo, poderíamos caminhar para um completo desastre. 
Atalhando, foi relativamente fácil negociar e encontrar, não uma plataforma de unidade, mas a integração total do MPP no MFA, ambos, afinal, movimentos das Forças Armadas para a Paz. 
Em 6/7 de Junho vieram a Bissau três elementos da Comissão Coordenadora de Lisboa, Melo Antunes, Pereira Pinto e Almada Contreiras, tal era a curiosidade de perceber o que estávamos fazendo em Bissau, porque já nessa altura os boatos que circulavam em Lisboa não abonavam em nosso favor. A reunião havida contou já com a presença de Oficiais milicianos, o Alferes Barros Moura e o Alferes Celso Cruzeiro. 
Os nossos camaradas de Lisboa entenderam as razões que nos assistiam, perceberam que o ambiente socio-político-militar da Guiné não era, afinal, o modelo do General Spínola e, naturalmente, deram-nos o seu aval. 
Ultrapassada a crise da unidade, subsistia a crise da autoridade, disciplina e hierarquia. 
Assim, avançámos para uma solução radical, mas que nos pareceu a única possível, a Estruturação Democrática do MFA, pela eleição de delegados de Oficiais, Sargentos e Praças nas Unidades Militares.
 E, assim, chegámos ao terceiro confronto com Lisboa, com o CEMGFA, General Costa Gomes, que tinha emitido uma Circular onde se preconizava a dissolução do MFA nas Forças Armadas. As razões eram precisamente as mesmas que aqui nos levaram à Estruturação Democrática! Pedimos a escusa de cumprimento desta Circular ao caso específico da Guiné. Não me lembro de termos recebido uma resposta clara e mantivemos a nossa orientação. 
Como consequência o Brigadeiro Fabião recebeu uma mensagem  do CEMGFA onde se ordenava a apresentação urgente em Lisboa de cinco oficiais (2). Fomos ouvidos durante uma semana e, no final, o General Costa Gomes disse-nos que acreditava no que lhe contámos e que devíamos regressar e acabar o nosso trabalho. Mais do que uma vitória do MFA na Guiné, esta decisão foi o reconhecimento de que estávamos no caminho certo para a Descolonização  da Guiné e que, agora, era tudo uma questão de liderança e de tempo. Tínhamos liderança, com o Brigadeiro Carlos Fabião já bem junto de nós, não tínhamos era muito tempo. As nossas tropas queriam regressar e o PAIGC queria entrar em Bissau já com a independência reconhecida. 
Ultrapassámos a crise de autoridade, disciplina e hierarquia. Não resolvemos, mas ultrapassámos na exacta medida em que já tínhamos condições para controlar as situações que iam surgindo. 
Assim, sentimo-nos fortes para para lidar com os movimentos que iam surgindo, FLING, MDG, LPG (3) que, à luz das novas regras democráticas e invocando relações de amizade com o Gen Spínola, exigiam a constituição de partidos concorrentes ao poder político. 
Sentimo-nos fortes para lidar com o PAIGC que, contraditoriamente,  se mostrava dialogante e ao mesmo tempo lançava comunicados de guerra, mesmo depois do cessar-fogo. Tão depressa confraternizava com as NT como lançava Ultimatos a Unidades portuguesas. O primeiro foi a Cuntima, dando 48 horas à Unidade de Cavalaria local  para retirar e o segundo foi a Buruntuma. Acompanhei o Major Ornelas Monteiro  a estes dois locais, ele representando o Governo e eu o MFA. Em Cuntima acabámos por ir ao encontro do Comandante da Guerrilha, Baio Camará, já em território do Senegal. Fomos recebidos com aspereza e com alguma arrogância e foi o próprio Fabião que, inesperada e perigosamente, apareceu para se entender com Baio Camará, que tinha sido seu instruendo na Milícia. Falaram em crioulo, com o Fabião a repreendê-lo dizendo-lhe que ele era bom militar mas mau na “apsic” (acção psicológica). Terminou o ultimato e terminaram abraçados. 
Em Buruntuma foi diferente. A renitência do Comandante local levou-nos a negociar a retirada, que foi feita pouco depois mas com uma digna cerimónia de transferência de poderes. 
Em 1 de Julho de !974 fizémos a 1ª Assembleia Geral do MFA, onde 1000 militares em representação de todas as FFAA aprovaram uma Moção histórica, que tive a honra de ler e que foi escrita, no fundamental, pelo Alferes de Cavalaria, José de Barros Moura, a quem presto homenagem pelo seu importante papel na Descolonização das Guiné. Nesta Moção exigíamos o reconhecimento imediato da República da Guiné-Bissau e a preparação da transferência de poderes. 
Continuamo-nos, sentindo fortes para lidar com os Fulas que, antes do 25 de Abril, eram os maiores apioantes do poder político português, e depois, eram os maiores apoiantes do PAIGC, criando sitiuações de contestação aos brancos e desacatos mais ou menos violentos. E com isto quero dizer que nunca deixámos criar situações de violência incontrolável, para o que muito contribuiram as missões do MFA ao interior, que integravam militares, ex-prisioneiros políticos e os jovens que lideraram as manifestações em Bissau, Aristides Pereira (homónimo do lider do PAIGC) e  Francisco Fadul, que foi Primeiro Ministro e é concorrente à Presidência da República. 
Após a nossa exigência a Lisboa de reconhecimento da independência, o General Spínola deixou de falar em vir a Bissau para preparar o referendo. 
As duas reuniões de Londres com o PAIGC, sem resultados práticos, já tinham passado à história. 
Continuámos com a força suficiente para coordenar com o PAIGC, através de um contacto clandestino em Bissau, Juvêncio Gomes e iniciámos contactos no Cantanhês preparando, assim, a transferência de poderes. 
Não assisti na Guiné ao sabor do Acordo de Argel, em 26 de Agosto de 1974, pelo qual se prometeu reconhecer a Independência em 10 de Setembro e a Transferência de Poderes até 31 de Outubro de 1974, pois regressei a Portugal em 1 de Agosto. 
O papel de Carlos Fabião no exemplar processo de Descolonização da Guiné, merece sempre ser destacado pelos altos serviços prestados a Portugal, mas só muito recentemente foi reconhecido pelo Presidente da República, ao atribuir-lhe a Ordem da Liberdade. 
A Guerra Colonial foi, assim, na Guiné, o berço do MFA e também o berço das lutas comuns de libertação. 
Apendemos a libertamo-nos do inimigo comum, num acto cultural único na História das relações da Europa com África. 
Pelo caminho ficou a mágoa das tropas africanas que estavam connosco, do lado errado. Acreditámos que os princípios humanistas de Amílcar Cabral se sobreporiam a lutas tribais e eventuais intuitos punitivos. Mas assim não foi! 
Na Guiné, tal como em Angola e em Moçambique, a seguir às páginas mais brilhantes das suas Histórias, as lutas pelo poder levaram à escrita das suas páginas mais negras.
Lisboa em 20 de Maio de 2005 
Jorge Sales Golias

(1)Lista dos Oficiais revoltosos: 
    TCor Mateus da Silva          Engº Tm 
    TCor Maia e Costa               Engº 
    Maj Folques                           Cmd 
    Maj Mensurado                     Pára 
    Cap Simões da Silva           Art 
    Cap Sales Golias                  Eng Tm 
    Cap Matos Gomes               Cmd 
    Cap Batista da Silva            Cmd 
    Cap Saiegh                            Cmd (Africano) 
    CapTen Pessoa Brandão   Armada  
    Cap mil José Manuel Barroso 
(2)Lista de Oficiais chamados a Lisboa 
    Cap Sales Golias          Exército 
    Cap Jorge Alves           FAérea 
    1ºTen Bouza Serrano  Marinha 
    Alf Barros Moura        Exército 
    Alf João Teixeira         Exército   
(3)FLING – Frente de Libertação e Independência da Guiné 
                     Benjamim Pinto Bull 
     MDG -    Movimento Democrático da Guiné 
                     Dr Baticã Ferreira 
     LPG -     Liga Popular dos Guinéus 
                     Nicolau Nunes


CALENDÁRIO DO 25 DE ABRIL NA GUINÉ

1959 - Greve dos Estivadores-Repressão no Cais Pidjiguiti- 50 mortos
1963 - Início da Guerrilha- 13 anos após nascim do PAIGC em 1956
1968 - SPÍNOLA chega à Guiné e rende Schulz                 
1970 - Papa Paulo VI recebe Movim/ Guerrilha, Golpe de Konakry-Operação Mar Verde         (Cmdt Alpoim Calvão),  Morre Salazar
01-Jan-72 - Publ Prospectiva Desenv Econ/Social da Guiné-Junta Investig Ultramar
01-Jul-72  - Cheguei a Bissau                         
1972 - Encontros Spínola-Senghor                     
20-Jan-73 - Morre Amílcar Cabral - foi subst por Aristides Pereira             
25-Mar-73 -  Abate 1º FIAT s/ Guileje-Ten Pessoa ejectou-se e foi recuperado         
28-Mar-73 -  Abate 2º FIAT s/ Madina-morre T Cor Almeida Brito             
Mai -73 - Contestação na Guiné ao Congresso dos Combatentes previsto para Jun73     
                   Abandono de Guileje                     
Mai-73 - Inferno de Guidage(Maia e M Gomes)- Abate de 2 DO e 1 T-6 
Mai/Jun73 - SPÍNOLA deixa a Guiné- 5 anos                     
18-Ag-73 - 1ªReunião no CMO- 20 Capitães                 
21-Ag-73 - 2ªRn no AGR/Tm (20Cap)                     
25-Ag-73     
3ªRn AGR/Tm(50Cap)-Carta de Amor- minha interv  para Revolução armada     
Ag-73 - Publ Congr Povo Guiné-Manuel Belchior                 
07-Sep-73 - 7ªRn MOCAP-1ªComiss:Cap Coimbra,Cap Clemente,Cap Matos Gomes e        Cap Caetano
09-Set-73 -  Rn Évora-1ªRn MOCAP-136 Ofic /Subalt- Nascim MOCAP         
13-Set-73   - 8ª Reunião do Mocap/Guiné-Última OTELO - 1ª Reunião Moçambique     
16-Set-73 - Regresso OTELO ao fim de 3 anos                 
21-Set-73 - Posse GEN BETTENCOURT RODRIGUES                 
                      1ª Reunião de Cap em ANGOLA                     
24-Set-73 - Dec Indep Guiné em Madina do Boé                 
02-Out-73 - Resolução da ONU- Reprovação da Ocupação Ilegal             
21-Out-73 -   Regresso do Salgueiro Maia com mais 6 meses de comissão         
01-Dez-73  - Reunião de Óbidos-180 Of- Nomeação de Comissão Coordenadora     
22-Dez-73 - Chega Tcor Luís Ataíde Banazol à Guiné                 
22-Fev-74   - Publ Portugal e o Futuro de Spínola                 
Fev-74   - Ida Nhacra- Tcor Banazol c/Matos Gomes e José Manuel Barroso         
05-Mar-74   - Reunião de Cascais 197 Oficiais em representação de mais de 600         
14-Mar-74 - Brigada do Reumático.Circular do Movim de Resist das FFAA - T Cor Luís Banazol
16-Mar-74   - Golpe das CALDAS                         
Mar-74  - Publ Breves Apont s a Guiné Portuguesa- 5ª Rep/CCFAG         
25 de Abril - Golpe em Lisboa
26 de Abril -   Golpe em Bissau (11 oficiais)                     
07-Mai-74   - Chega Brig Carlos Fabião a Bissau                 
16-Mai-74  Reunião de DAKAR c Aristides Pereira-Cessar Fogo de Facto (já havia o tácito)     
25-Mai-74  - 1ª Reunião de Londres                     
05-Jun-74  - Circular MPP- Extinção do Mov Alarg de Praças, Ofic e Sarg e Adesão ao MFA
06-Jun-74 -  2ª Reunião de Londres                     
6/7Jun -  Reunião c Melo Antunes, Almada Contreiras e Pereira Pinto em Bissau     
13-Jun-74 - Chamada Lisboa-Jorge Golias,Jorge Alves,Bouza Serrano,Barros Moura, João Teixeira 
01-Jul-74 - 1ª Assembl Geral MFA/GUINÉ- Aprvoação da Moção de Reconheiemnto do PAIGC e da Ind Guiné
2/3 Jul  -  Ultimatos a BURUNTUMA e a PIRADA                
07-Jul-74 - Delegado do PAIGC em Bissau- Juvêncio Gomes           
Jul-74 - Encontros no Cantanhês                   
29-Jul-74   - 2ª Assembleia Geral do MFA/GUINÉ- Reconhecimento do MFA ao Brigadeiro Fabião   
31-Jul-74 -  Meu Regresso a Lisboa- rendido p Maj Hugo dos Santos       
26-Aug-74  - Rn Argel-Reconheciemto da Independência Guiné a partir de 10 Set, Retirada e Transferência de  Poder a 31OUT

J. Sales Golias