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22 de abril de 2011

119-O homem que não disparou conta como foi


Contributos para o Estudo do
Golpe Militar de 25 de Abril de 1974
Fernando Sottomayor*


Faculdade de Letras da Universidade do Porto
História Política na Época Contemporânea
Fernando Carlos Cerqueira Gomes Sottomayor  
Ano: 2007 / 2008

O Plano
A seguir à Intentona das Caldas o Governo pretende reforçar a segurança de Lisboa, pelo que ordena o envio de cinco Carros de Combate M-47 de Santa Margarida comandados pelo Alferes Fernando Sottomayor para Lisboa, onde ficam sedeados no Regimento de Cavalaria 7, paredes meias com o Palácio de Belém. Esta força é visitada, logo após a sua chegada pelo Brigadeiro Junqueira dos Reis, Segundo Comandante da Região Militar de Lisboa, que fica notoriamente agradado.

A Acção
Com unidades militares por todo o país, o plano estava gizado de maneira a que cada um acorresse às estações de rádio e aeroportos, depois de neutralizadas as chefias superiores de cada unidade.
Desde Santarém até ao Terreiro do Paço.
Os únicos, com um longo caminho a percorrer são os de Santarém que têm como missão ocupar o centro nevrálgico do Terreiro do Paço, à altura sede dos principais ministérios e onde se poderia efectivamente neutralizar o Governo.
Das poucas Unidades não aderentes, a mais bem equipada e armada era Cavalaria 7. Regimento de confiança do antigo regime, comandado pelo Cor Romeiras Júnior, antigo ajudante de campo do General Costa Gomes e cunhado do, então, Sub-Secretário de Estado do Exército, Tenente-coronel Viana de Lemos. Esta Unidade, por ironia do destino e por coincidência, chegou ao Terreiro do Paço ao mesmo tempo, minuto e segundo, que a Escola Prática de Cavalaria (Santarém).
Por tudo o que foi dito até agora, poucos dados eram segredo. Os poucos merecedores dessa classificação podiam facilmente deduzir-se pelas movimentações, comunicados, decretos, notícias.
No seio das F.A. a efervescência pronunciava o tão falado golpe.

Relato
Como Alferes Miliciano de Cavalaria competia-me cumprir as ordens superiores.
No pronunciamento de Tancos, abortado à partida, recebi ordens para comandar uma força que fizesse guarda à ponte da Chamusca. O esquema de segurança foi montado mas não se passou nada. As interrogações quanto à operação ficaram sempre sem resposta.
O 16 de Março coincide com um dia em que eu estava de Oficial de Dia ao Regimento da Cavalaria 4, no Campo Militar de Santa Margarida. Por volta das sete da tarde, sou informado que vão entrar uns camiões com pessoal implicado no golpe das Caldas. Tento contactar o Comandante da Unidade mas sem êxito. Um coronel que os acompanhava, com modos irascíveis, mandou-me proceder ao alojamento e servir jantar, enfatizando que deveriam ser mantidos incomunicáveis.
Uma das casernas estava, nesse momento, desocupada e alojei-os aí. Seriam uns sessenta.
Tinham acabado de começar a sua preparação militar.>Teriam menos de um mês de serviço, não passavam de crianças assustadas. Tinham-nos metido num camião e enviado para Lisboa e eles… foram. Vêem-se agora numa situação que nem sequer entendem. Quando, pelas nove e meia da noite, regressa o dito coronel e inspecciona as instalações começa de imediato aos gritos comigo, porque a televisão estava ligada e eles deveriam estar, conforme as suas instruções, incomunicáveis. Argumento que ”os miúdos”, coitados, foram apanhados que estão assustados, que nem sabem o que lhes aconteceu. Relutante, mando desligar a televisão e sou informado que o Coronel pretende uma sala para efectuar interrogatórios.
Na ausência do Comandante, depois do toque de Ordem às cinco da tarde, o responsável é o Oficial de Dia e a situação não me estava a agradar.
Como o edifício era térreo, apercebo-me, do exterior, da violência verbal do interrogatório.
Já não deixo entrar o segundo e informo o coronel que sem a presença e o consentimento Comandante terá que interromper de imediato os interrogatórios. Esbracejando, praguejando, vociferando lá acabou por sair acompanhado do seu ajudante.
No dia seguinte os rapazes regressaram à sua base e o Comandante nunca falou comigo sobre o assunto. De salientar que o Comandante era o Coronel Craveiro Lopes, filho do antigo Presidente da República e conhecido pela sua dureza.
Poucos dias passados, também já depois do toque de Ordem, estando eu na Messe de Oficiais, vi chegar um carro com capitães da arma. Entram na messe e sentam-se com o Comandante numa mesa afastada.
“Seus garotos!!!” – grita o Comandante, pouco depois.”Ponham-se daqui para fora antes que os corra à bofetada”. E eles saíram. Fácil é adivinhar a conversa, quando se queria saber de que lado estava quem. Mas a história ficou por aí. Ninguém foi preso, só tratados como meninos que fizeram uma asneira.
Cada vez me interrogava mais: ninguém faz nada. Nem o papão da PIDE/DGS desde o tempo da Faculdade, nem os intocáveis do regime agiam.
No dia 22 de Março comenta-se no Regimento que um pelotão de carros (5) vai para Lisboa reforçar a Região Militar.
Haveria que preparar um comboio especial, seguir todas as regras e manuais.
Pressinto que não há ainda uma definição de quem comandará essa força o que me deixa perplexo: sou o oficial mais antigo, comandante do esquadrão operacional e farto de fazer exercícios para o SHAPE/NATO ver.
Não se tratava de uma decisão militar, teria a ver com Segurança do Estado.
Mas nessa mesma manhã sou encarregado da missão.
Naquele comboio enorme, por razões de distribuição de peso, cinco carruagens vazias uma com carro, mais uma de passageiros onde ia eu, as tripulações e um senhor de fato castanho que se apresentou como funcionário da CP e que de comboios sabia menos que eu.
Lentamente prosseguimos até entrar em Lisboa por linhas de mercadorias incluindo um túnel entre o cemitério dos Prazeres e a Avenida de Ceuta desembocando perto da Avenida das Índias (marginal) onde descarregamos os carros e esperamos pela madrugada para circular em Lisboa até Cavaria 7 sem que a população se apercebesse. Um dos carros é requisitado pelo Depósito Geral de Material de Guerra (Capitão Salazar Morais) e vai para Beirolas, mas sem pessoal.
A 14 de Abril foi a Páscoa nesse ano. Consegui licença para vir a casa e lembro-me de ter dito a um grupo de amigos que discutia a situação: “Em Agosto faço anos e vou tirar férias e a revolução já vai estar feita”. Ninguém acreditou: “Este país é de brandos costumes não é de revoluções”, diziam. Tranquilamente, não consegui fazer-lhes entender as razões da minha afirmação. Alegavam que a cerimónia de afirmação de apoio pelos oficiais generais tinha sossegado tudo e todos. Mas se foi exactamente a chamada “Brigada do Reumático” que clarificou a eminente situação de ruptura.
No dia 24, à tarde, entrou à porta de armas do RC7 um capitão, trajando fato de treino azul, comunicou-me, levantando o polegar da mão direita,“ é hoje “, saindo de seguida de forma bastante discreta
Vencido pelo sono, deixei-me dormir sendo acordado pelo ruído dos motores das AML Panhard e das Chaimite, viaturas ligeiras de reconhecimento do 1º Esquadrão.” Estes já vão”, disse eu para comigo. Lá ia o meu amigo Alferes David e Silva. Levanto-me e pouco tempo depois saem as EBR e ETT Panhard, viaturas médias de reconhecimento do 2º Esquadrão, estas comandadas pelo Tenente-coronel Ferrand de Almeida.
Em termos militares, aceita-se a saída de viaturas até médio porte, o que não é considerado alarmante.
Quando o próprio Comandante do Quartel, Coronel Romeiras, me chama e me dá ordem de pôr os Carros de Combate (CC) em ordem de marcha, e vejo que chega esbaforido o 2º Comandante da Região Militar de Lisboa, Brigadeiro Junqueira dos Reis, caio em mim e penso que no Terreiro do Paço o panorama deve estar de confronto aberto. Não era suposto eu sair com os Carros de Combate.
Venho a saber mais tarde que entra pelo Terreiro do Paço, julgando ter encontrado as nossas tropas e é–lhe dada voz de prisão por Salgueiro Maia. Terá de ser o Alferes David e Silva a fazê-lo com total relutância.” O TCor Ferrand d’Almeida entra no Terreiro do Paço, pela Ribeira das Naus, e é confrontado com os blindados com o logótipo RC7. Julgando que eu tinha a situação sob controlo, pede-me que lhe transmita qual o ponto da situação, ao que lhe digo que estava com a EPC, sem adiantar os motivos porquê. Assim pergunta-me se era alguma coisa dos “comunistas”, (quão enganado estava) ao que retruquei ser sob a égide do General Spínola e que, infelizmente, tinha de lhe dar voz de detenção, pelo que iria trazer à sua presença um Oficial mais graduado, o Coronel Abrantes da Silva, recém chegado ao local. Entregou-me a pistola e afirmou que só se renderia a um Oficial da sua Unidade, eu. À sua passagem pelos militares do RC7, todos, sem excepção, sem qualquer ordem minha, como Cmdt. De Esquadrão, apresentaram armas”, relata David e Silva
Já não iria ser possível evitar um banho de sangue. Para isso caminhávamos. Quando o Comandante tem de sair da Unidade a situação está complicada, e o sucesso da missão é imprevisível, já hipotecou a reserva, o material pesado, os Carros de Combate.
Saímos com os quatro carros. No CC Comando o Coronel Romeiras, eu e a guarnição. No 2º CC o Brigadeiro J. Reis, e os outros dois com as respectivas guarnições.
Que se passará com as Panhards? ”Não sei bem”, diz-me o Coronel Romeiras.
Com várias paragens para que o Brigadeiro se inteirasse junto das comunicações instaladas no seu jeep, da situação geral, lá fomos chegando ao objectivo.
A situação era muito complicada. As duas forças que tinham saído estavam viradas contra mim. Com os meus binóculos vejo-os bem. Eram 200 metros que me separavam dos que fizeram o curso de oficiais comigo e tinham ficado em Santarém mais aqueles com quem convivia diariamente em Cavalaria 7.
Seguem-se várias tentativas de negociação com o MFA, com os conhecidos ataques de fúria do Brigadeiro Junqueira dos Reis.
Na Rua do Arsenal, o Brigadeiro Junqueira dos Reis dá ordem de fogo sobre o Tenente Alfredo Assunção, que fora enviado por Salgueiro Maia para negociar com as forças de Junqueira dos Reis. Tendo sido desobedecido pelos seus militares, acaba por dar três murros no Tenente Assunção, que sem perder a compostura lhe faz a saudação militar e recua para o lado das suas forças.
Do alto do meu Carro de Combate pergunto ao Coronel Romeiras se tem alguma saída para acabar com a situação de confronto eminente. De lágrimas nos olhos diz-me: “Mas se somos todos amigos.”
Entretanto a população civil, não fazia ideia do que se passava. Saia dos cacilheiros e a passos rápidos, como todas as manhãs, dirigiam-se para os seus locais de trabalho, serpenteando entre o cenário de confronto, em plena Rua do Arsenal.
Advirto o Coronel Romeiras para o perigo eminente de termos baixas entre os civis e sugiro avisar o “inimigo” de que faria fogo para o ar só para assustar os civis. Obtida a autorização e depois de ter avisado uns e outros, dou duas rajadas com a metralhadora da torre e, dado o ruído ensurdecedor que essa metralhadora faz, o resultado não se fez esperar: desapareceu toda a gente tão rapidamente que me deixou surpreendido.
O furriel Clemente comandava a secção que estava na Rua Ribeira das Naus e, via rádio, informa-me que um Oficial lhe dá ordem para avançar. Avançar para atacar ou para se juntar? Eu não os via dada a posição em que nos encontrávamos. Peço que me esclareça quem lhe dá a ordem e quais as intenções, sendo a resposta negativa. Informo o Coronel Romeiras, que está mesmo ao meu lado mas não tem acesso a apoio rádio pois é de auscultadores. Olho-o nos olhos e só o vejo a abanar a cabeça. Como vi que o Brigadeiro estava ali, pensei que não tinha problema e pelos auscultadores ouço o meu amigo Alferes David e Silva: “Eh pá, cuidado que eu estou aqui”. ”Está tranquilo”, respondo eu. E penso: o Brigadeiro esta não vai aguentar. De imediato as forças do Terreiro do Paço posicionaram um dos carros na Ribeira das Naus e outro na Rua do Arsenal. Quando ele viu surgir um dos carros à sua frente foi o desespero.
O MFA tinha agora meios. Até ai o seu poder de fogo era fraco e limitado.
De imediato vou com um dos dois carros que ficaram para a Ribeira das Naus, por ordem do Brigadeiro.
Alterado dirige-se ao jeep de comunicações e comunica o sucedido. Era evidente que tinha confiado nos carros para ganhar o confronto e estava sem os meios que julgava suficientes.
A conversa que teve não sei quem foi nem o que foi dito. Sei que se dirige para o meu carro e entrando dá-me ordem de arrasar o Terreiro do Paço. E eu tão bem quanto ele sabia que isso era possível. Olhando pelos complicados meios ópticos e, tentando uma manobra de diversão, girando a torre, vejo milhares de pessoas no cais dos barcos para Cacilhas que estavam na mesma linha de mira que os oponentes do Terreiro do Paço. Giro a torre para o estuário do Tejo na esperança de o contentar mas não acertar em ninguém. Embora tivesse visto um navio da Armada e um petroleiro enorme que me barravam espaço livre para fazer
fogo, recebi do Brigadeiro a ordem: “Não se ponha com brincadeiras, aponte ao inimigo”.
“Não, não faço isso”, respondi tranquilamente. Colérico ordena que lhe entregue a minha pistola Walter que trazia à cintura. É essa mesma pistola que me aponta e repete a ordem.
Não lhe respondi.
Manda-me sair do carro e entrar para um jeep Entrega-me a um senhor de fato castanho a quem dá a minha arma e diz: “Você já estragou a sua vida”. Ainda ouço o Brigadeiro a ordenar ao meu Cabo Apontador que faça fogo ao que ele responde: “Sem o nosso Alferes a gente não faz nada”. E o jeep arrancou em direcção ao Quartel da Polícia Militar. Eu levava no íntimo a satisfação da fidelidade dos meus soldados.

Conseguir progredir desde o Terreiro do Paço como factor determinante
Simultaneamente o Capitão Salgueiro Maia sentiu que já não podia ser detido na sua acção e avança para o Quartel da GNR no Carmo onde se encontrava Marcelo Caetano.

Bibliografia
COSTA, Eduardo Fernando Alves(TCor Cav), Regimento de Cavalaria 4 – 240 Anos ao
Serviço do Exercito e da Nação, Regimento de Cavalaria 4 , Campo Militar de Santa
Margarida, 2002
ROSAS, Fernando, O “25 de Abril” e a História a fazer, Associação dos Professores de
História, exclusivo Internet, www.aph.pt/opiniao/opiniao_0399.html
ROSAS, Fernando [1994], O Estado Novo (1926-1974), vol. VII de MATTOSO, José (dir.),
História de Portugal. S.l.: Círculo de Leitores.
PAIS, Alexandre, Ribeiro da Silva, Capitães de Abril, vol. I, Amigos do Livro,
Editores.Lda, Lisboa, 1974
PINTO, Jaime Nogueira, O fim do Estado Novo e as origens do 25 de Abril, Difel, 1999,
ISBN: 972-29-0301-2

118-Guiné Maio de 1973 – O Inferno

Desde o início do ano de 1973, que a situação militar portuguesa na Guiné vinha a sofrer acelerada degradação.
Esta possibilidade estava, aliás, prevista pelo Estado-Maior do Comando-chefe daquele teatro, que, na análise de situação feita em Dezembro de 1972, enunciava a elevada probabilidade do seu agravamento para o ano seguinte, face ao clima cada vez mais favorável à internacionalização da luta conduzida pelo PAIGC. Esta análise da situação levava mesmo os militares portugueses no território a admitir intervenção de forças das organizações internacionais ou de outros pares, em reforço ou apoio daquele movimento.

Em termos políticos, previa-se para 1973 a exploração da existência de vastas áreas libertadas, nas quais o PAIGC exercia, de facto, a administração e onde as forças portuguesas só actuavam com unidades de intervenção, por curtos espaços de tempo. Havia a ideia de que o PAIGC pretendia realizar, nesse ano, um golpe decisivo de âmbito internacional, o que já se tinha iniciado com a visita da delegação da ONU e que viria a ter continuidade com a declaração unilateral de independência. 
No campo militar, previa-se a intensificação das acções violentas a partir do Senegal e da Guiné-Conacri, de modo a conseguir ligar o Norte com o Sul através do eixo Guidaje, Bissorã, Bula, e, de Sul para Norte, através do eixo Guileje, Buba, Fulacunda. Esta ameaça concretizou-se com uma fortíssima pressão a Norte e a Sul, em Guidaje e em Guileje, fortemente apoiada pela artilharia de longo alcance, da qual os seus artilheiros tiravam cada vez maior rendimento, aproveitando as grandes limitações das forças portuguesas no apoio aéreo que a introdução dos mísseis Strella causara.
A apreciação feita pelo comando militar português no final de 1972 era de grande pessimismo em todos os campos. Quanto a material, considerava-se que era verdadeiramente alarmante a situação das unidades do Exército quer no aspecto qualitativo, quer no quantitativo. Para obviar a esta fraqueza, as forças portuguesas recorriam ao material capturado, com a consequente incerteza de reabastecimento. Relativamente às forças navais, era referida a carência de meios para o cumprimento de algumas missões, o reduzido número de unidades equipadas com radar, a sua baixa velocidade e a falta de uniformização de equipamentos de comunicações, propondo a substituição das Lanchas de Fiscalização Pequenas por outras mais modernas. Pelo seu lado, a Força Aérea dispunha apenas de metade dos pilotos necessários, e algumas aeronaves operavam nos limites das suas possibilidades, sendo algumas delas desajustadas às missões, nomeadamente as DO-27 e os T-6.
Se a situação do material não era boa, a do pessoal não era melhor. Quanto à instrução, as unidades apresentavam-se graves lacunas e insuficiências na preparação básica e de especialidade ministrada na metrópole, não estavam completas nos seus efectivos e muitos quadros mostravam-se deficientemente habilitados para exercer qualquer função de comando.

No início de 1973, o ano decisivo da guerra na Guiné, o Comando-Chefe contava assim com forças de modo geral mal preparadas, mal equipadas e mal comandadas, que se procuravam defender nos seus aquartelamentos e, como unidades de manobra e de reserva, dispunha apenas das tropas especiais: umbatalhão de pára-quedistas com três companhias, um batalhão de comandos com cinco companhias, sendo três delas africanas, e cinco destacamentos de fuzileiros especiais, dois deles também africanos.

E neste pano de fundo que os mísseis Strella começam a abater aviões a hélice e a reacção, provocando serias limitações ao emprego dos meios aéreos e ao seu apoio as forças de superfície. Este apoio dizia respeito a três áreas fundamentais: a evacuação sanitária de feridos retirados por helicóptero dos campos de batalhao apoio aéreo próximo, que permitia as tropas portuguesas realizarem rupturas de contacto em situação vantajosa, e que era efectuado por aviões Fiat G-91 e T-6e o transporte logístico de artigos críticos, como medicamentos, soro, pilhas para equipamen­tos de comunicação. Os helicópteros, em Maio, deixaram de realizar evacuações, pois seriam facilmente abatidos (voltariam a voar, mas com outros perfis de voo, a muito baixa altitude), os Fiat G-91 tiveram de adaptar os seus procedimentos de voo à nova ameaça, o que demorou algum tempo, e os T-6, a hélice, foram retirados das missões, reduzindo a disponibilidade de meios aéreos para apoio as tropas. Por fim, os transportes aéreos só voltaram a realizar-se, e com grandes limitações, após um período de estudo, voando os aviões acima dos 6000 pés e operando em número muito reduzido de pistas.
São casos de ansiedade e desespero por ausência de evacuação de feridos que precipitam as situações das tropas quer em Guidaje, quer em Guileje.

Maio de 1973 constituiu a prova mais dura a que as forças portuguesas foram sujeitas nos três teatros de operações.
Com efeito, o PAIGC, revelando notável capacidade de manobra e tirando partido do extraordinário acréscimo de potencial de combate, alterou profundamente o seu conceito de manobra, passando da actuação dispersa, em superfície, para a concentração maciça sobre objectivos definidos.

Neste contexto, desencadeou poderosas e prolongadas acções de fogo ajustado sobre as guarnições fronteiriças de Guidaje, Guileje e Gadamael, as quais conjugou com acções terrestres de isolamento, que efectivamente conseguiu, durante alguns dias, em Guidaje. Nestas acções, intensificou o emprego de mísseis Strella e fez uso sem restrições de armas pesadas de longo alcance e elevado poder de fogo, com a colaboração de observadores avançados na regulação do tiro, que atingiram notável grau de eficácia. Esta actividade do PAIGC alcançou valores que são os mais altos de sempre desde o início da guerra – 220 acções durante o mês –, o mesmo sucedendo em relação as baixas causadas as tropas portuguesas – 63 mortos e 269 feridos.
Na Zona Oeste/Norte, o PAIGC exerceu o seu esforço na área de Bigene/Guidaje, concentrando três corpos de exercito, dois grupos de foguetões, um grupo de morteiros 120 mm e um grupo especial de sapadores, num total de cerca de 650 elementos, na região do Cumbamori, no Senegal, flagelando Guidaje 43 vezes e Bigene 21.

Na Zona Sul, desencadeou uma acção de moldes clássicos sobre Guileje, conjugando acções terrestres de isolamento com maciços de fogos de artilharia, com pleno êxito, obrigando a retirada da guarnição portuguesa, e transferindo depois esforço para Gadamael.



Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes

117-25 de Abril - Acção na EPC (Escola Prática de Cavalaria), Santarém

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116-Guerra colonial e 25 de Abril



Vale mais ainda para este ano...

21 de abril de 2011

115-25 de Abril - História de um "retrato"

Vi, em tempos, uma exposição de fotografias do grande Eduardo Gageiro intitulada "Retratos com História". Esta que vou mostrar não estava lá, claro, não só porque não se enquadra naquela categoria de "retratos", mas também porque, segundo me disseram, o seu autor decidiu, por uma questão de respeito pela individualidade do "retratado", retirá-la de circulação. Mas o facto é que esta fotografia correu mundo, como "retrato" do fim da repressão em Portugal. E tem uma história que eu vou contar.


Foi na noite do dia 25 de Abril de 1974, talvez já meia-noite (não havia tempo nem preocupação de olhar para as horas...). Eu e mais um grupo estávamos na Rua Duques de Bragança, perto da Livraria Morais, era a rua das traseiras da sede da PIDE na António Maria Cardoso. Estava também um grupo de soldados. Às tantas, vindo do lado da Rua Victor Cordon, vimos um carro que se aproximava, era um Austin Mini.
Os soldados mandaram-no parar e um deles pediu a identificação ao único ocupante da viatura. Ele abriu a janela e mostrou-lhe um inofensivo BI do Arquivo de Identificação de Lisboa.
- "Tá bem, pode seguir".
Facilidade demais, pensei para mim. Vindo donde veio, das traseiras da pide, cheirou-me a mais que aquilo.
- "É pá, isso não pode ser assim", disse ao soldado. "É melhor revistar-lhe o carro e a carteira toda".
Acertara. Tinha uma pistola metralhadora debaixo do banco e uma pistola no banco entre as pernas. Tinha na carteira a identificação da DGS.
Sacaram-no da viatura e mandaram-no baixar as calças e pôr as mãos na nuca.
Não sei se é sorte ou se é faro apurado. O Gageiro estava lá e gravou a cena.

114-25 de Abril - Acção na EPI (Escola Prática de Infantaria), Mafra

RELATÓRIO DA OPERAÇÃO DESENVOLVIDA A PARTIR DE 24/25 DE ABRIL DE  1974

1. SITUAÇÃO
As F.A., descontentes com o governo, pretendem fazê-lo substituir.

2. MISSÃO

a) Ocupar, e defender das Forças Governamentais, o Aeroporto da Portela;
b) Ocupar e garantir o controlo da Vila de Mafra;
c) Ocupar e garantir o controlo do Aquartelamento.

3. FORÇA EXECUTANTE

a. Comandante
     Major de Infantaria AURÉLIO MANUEL TRINDADE.

b. Comandantes das Sub-Unidades
    - Companhia de Intervenção:
      Comandante – Capitão de Infantaria RUI RODRIGUES
      Adjuntos – Capitão de Infantaria ALBUQUERQUE
      Capitão de Infantaria AGUDA
    - Forças destinadas ao controlo da Vila de Mafra:
      Comandante – Capitão de Infantaria VICENTE FERNANDES
      Adjunto – Capitão de Infantaria BABO DE CASTRO
    - Forças destinadas ao controlo de acessos:
      Comandante – Tenente de Infantaria S: FERNANDES
    - Forças destinadas à ocupação do Aquartelamento:
      Comandante – Capitão de Infantaria SILVÉRIO

c. Meios
    - Uma Companhia de Atiradores em 3 bigrupos de 50 homens cada.
    - Dois grupos de combate a 40 homens cada.
    - Um grupo de combate a 50 homens.
    - Uma Companhia de Atiradores para a defesa do Aqurtelamento.
    - Reserva.
      Uma Companhia de Atiradores.
      Duas Companhias do C.O.M./2º Ciclo

d. Articulação das Forças
     - A indicada em c.

4. PLANOS ESTABELECIDOS PARA A ACÇÃO

a.    Ao Toque de Ordem, saída do Aquartelamento dos Oficiais do Movimento para as suas casas de acordo com horários anteriores.
b.    Em 242100ABR74 recolheram à E.P.I. os Oficiais do Movimento, que ficaram nos quartos até ser dado aos Emissores Associados o sinal do desencadear da Acção.
c.    Em 242300ABR74 recolha à E.P.I. dos Oficiais, Praças e viaturas que estavam no campo em exercícios finais C.C.C./C.O.M.
d.    Em 242400ABR74 os Oficiais do Movimento saíram dos seus quartos para formarem as Sub-Unidades de intervenção e contactarem com os Oficiais presentes na Unidade, que não estavam dentro do Movimento.
e.    Em 250200ABR74 saída da Companhia para ocupação do Aeroporto.
f.      Em 250215ABR74 saída das Forças para ocupação dos pontos chaves de Mafra, controlo  da Vila de Mafra e controlo dos acessos a esta Vila.
g.    Em 250400ABR74 ocupação do Aeroporto pelas Forças de intervenção
  
5. DESENROLAR DA ACÇÃO

Em 242400ABR74 processaram-se as seguintes acções:
- Telefonema do Oficial de Dia pra o Coronel FREITAS, informando-o de          que havia uma chamada do QG/RML, pretexto este com vista à sua saída da residência.
- Os Comandantes das Forças de intervenção começam a formar e a preparar as suas Sub-Unidades.
- O Comandante da defesa do Aquartelamento começa a assegurar a sua defesa como se tivéssemos entrado de Prevenção Rigorosa.
- Em 250015ABR74 sai da sua residência o Coronel FREITAS, que foi abordado pelo Capitão SILVÉRIO e levado a um compartimento, onde se encontravam os Majores TRINDADE e CERQUEIRA DA ROCHA.
- Às 250016ABR74 o Coronel FREITAS é posto ao corrente da situação e começa a ser preparado para aderir ao Movimento.
- Em 250100ABR74, e a pedido do Coronel FREITAS, sai uma Equipe do Aquartelamento que se desloca a casa do Tenente Coronel ROCHA GOMES, para o trazer ao Aquartelamento.
- Em 250130ABR74 chega ao Aquartelamento o Tenente Coronel ROCHA GOMES e é-lhe exposta a situação.
- Em 250200ABR74  sai do Aquartelamento a Companhia auto-transportada destinada à ocupação do Aeroporto. Forças
- Em 250230ABR74 saem do Aquartelamento as Forças destinadas à ocupação dos “pontos chaves” da Vila de Mafra, ao controlo do acesso à Vila e ao controlo de toda a Vila.
- Em 250245ABR74 tinham sido ocupados os seguintes pontos chaves da Vila:
  - Serviços Municipalizados
  - Instalações da Companhia das Àguas
  - Correios Telégrafos e Telefones
  - GNR
  - PSP
  - Delegação da Manutenção Militar
Em 250400ABR74 a Companhia, depois de se ter deslocado de Mafra até à Portela, seguindo o itinerário MAFRA-MALVEIRA-LOURES-FRIELAS-CAMARATE-AEROPORTO, ocupou as seguintes dependências:
  - Edifício principal, instalações da DGS, da Guarda Fiscal e Gabinete de Som.
  - Depósito de Combustíveis e Esquadra da PSP.
  - Torre de controlo de tráfego aéreo.
- A partir de 25400ABR74 em Mafra terminaram as operações militares, sendo os deslocamentos existentes apenas os necessários para a rendição do pessoal de vigilância e patrulhamento dos pontos ocupados.
- Em 251600ABR74 a Companhia instalada no Aeroporto recebeu ordem para com parte dos seus efectivos se deslocar para o Largo do Carmo a fim de combater as forças do RC7 fiéis ao Governo.
- Em 251700ABR74 a Companhia do Aeroporto recebeu ordem para ir ao RAL1 libertar os presos das Caldas, sendo anulada a ordem de ir para o Carmo. Deslocaram-se ao RAL1 o Capitão RODRIGUES e o Capitão ALBUQUERQUE que conversando com o Comandante da Unidade souberam que este tinha aderido ao Movimento há cerca de 30 minutos. Os presos foram libertos e os dois Oficiais regressaram ao Aeroporto.
- Finda esta missão, a Companhia recebeu nova missão de ir buscar a Monsanto o Ministro do Exército que ali se tinha refugiado. Deslocou-se aí o Capitão RODRIGUES com um efectivo de 33 homens; entabuladas conversações entre este Oficial e o General TAVARES MONTEIRO chegou-se à conclusão de que estavam em Monsanto as seguintes entidades:
  - Ministro da Defesa
  - Ministro do Exército
  - Ministro da Marinha
  - 4 Oficiais Generais
  Todas estas entidades foram detidas e levadas sob escolta para o RE1.
- Na madrugada do dia 26 a Companhia recebeu a missão de ir ao Largo do Carmo a fim de evitar distúrbios.
- Em 260800ABR74 a Companhia foi substituída por Paraquedistas e foi-se apresentar ao RE1 ao Comando do Movimento.
- Em 260900ABR74 a Companhia da EPI começou a ser comandada pelo Major de Cavalaria BIVAR, o que bastante estranhou aos Oficiais da Companhia, já que todas as missões de importância tinham sido cumpridas cabalmente sem ser necessário um Major para comandar a Companhia, estavam dois destes Oficiais na EPI que para além de serem da máxima confiança dos Oficiais do Movimento conheciam todos os Oficiais s Praças da Unidade. Tudo isso deu como consequência haver na Companhia dosi Comandos distintos: um aceite e outro imposto, que vei trazer sérios problemas disciplinares pois as ordens eram cumpridas e não aceites, pelas Praças e Oficiais Subaltenos.
- Em 261000ABR74 a companhia da EPI juntamente com uma Unidade da Marinha tomou posse das instalações da DGS na rua António Maria Cardoso. Depois da ocupação do edifício, o resto da Companhia regressou ao RE1 deixando ficar nas instalações um grupo comandado pelo Capitão AGUDA.


- Assim que a Companhia chegou ao RE1 foi-lhe dada nova missão: controlar uma manifestação popular no Rossio. A missão foi cumprida tendo um indivíduo sido entregue no Comando Geral da PSP por se suspeitar ser da DGS. A missão acabou cerca das 2200.
- Em 262330ABR74 nova missão levou parte da Companhia até às instalações do Jornal Época. Esta missão teve como consequência serem detidos 3 elementos de pertencerem à DGS tendo a Companhia regressado à A.M. cerca das 0330.


- Em 270800ABR74 parte da Companhia, juntamente com elementos da Marinha, apossou-se das instalações da Escola Prática da DGS em Sete Rios, tendo regressado à A.M. às 1200.
- Em 271000ABR74 a outra parte da Companhia sob o comando do Capitão ALBUQUERQUE foi utilizada na escolta sob prisão, para a Trafaria, de um Comandante da LP.
- Em 271100ABR74 o resto da Companhia que se encontrava na rua António Maria Cardoso, sob o comando do Capitão AGUDA, foi utilizada na escolta, para Caxias, de elementos da DGS.
- Em 271300ABR74 parte do efectivo da Companhia foi utilizado na ocupação das instalações da LP, no Castelo de S. Jorge. Tendo sido ouvidos tiros na zona do Rossio, a força deslocou-se até a esta zona, onde foi detiso um indivíduo que se tinha refugiado na Esquadra da PSP, como elemento suspeito da DGS que foi entregue em Lanceiros 2.
- Em 271600ABR74 marcharam da EPI para Lisboa 3 Companhias de Atiradores, comandadas pelo Major CERQUEIRA DA ROCHA, que se apresentaram no QG/RML
- Em 281000ABR74 a Companhia iniciou o movimento para a EPI onde chegou perto das 1200.
- Em tempo oportuno foram recolhidas pelas Forças de Mafra, as armas e munições da LP de Torres Vedras, Lourinhã, Cadaval e Mafra.
Também em tempo oportuno foram ocupadas as instalações da LP em Torres Vedras, Lourinhã e Cadaval.

6. SERVIÇOS

a.    Tansportes
Estes serviços funcionaram normalmente, e, dado que havia viaturas cedidas por empréstimo, para os exercícios finais do CCC/COM, foi possível motorizar 4 Companhias que chegaram a estar  juntas em Lisboa e ficar com as viaturas mínimas para os serviços da Unidade.

b.    Logistica
c.    Os serviços de alimentação funcionaram bem. Pelos estudos feitos antes do início da acção, havia em Mafra alimentação para 5 dias.

d.    Munições
Foi assegurada a existência na Unidade das munições necessárias para o desenrolar dos acontecimentos.
7. APOIOS
    A GNR, a PSP e a população deram às Forças da EPI todo o apoio necessário para que a missão atribuída fosse muito facilitada. Cabe aqui uma citação especial a todo o pessoal que Trabalhava no Aeroporto, com relevo para o Sr. CHAVES DE ALMEIDA e o Director do Aeroporto que muito contribuíram para o bom sucesso da missão. Também ao Capitão Piloto Aviador MARTINS cabe uma citação muito especial pois foi graças a este Oficial que se garantiu a segurança do tráfego aéreo no território Nacional.
8. CONCLUSÕES E ENSINAMENTOS
    Com determinação tudo se consegue.
9. DIVERSOS
    Todo o pessoal que sob o comando do Capitão RODRIGUES cumpriu todas as missões que lhe foram atribuídas merece, pelo seu espírito de sacrifício e pelo seu querer de bem servir as causas do Movimento das Forças Armadas,é aqui louvado, pois todo o esforço que lhe foi exigido transcende o que até aqui era humanamente possível conseguir.

O COMANDO DO MFA/EPI
·        Aurélio Manuel Trindade
Major de Inf.ª
·        Jorge Manuel Silvério
Capitão de Inf.ª
·        Rui Martins Rodrigues
Capitão de Inf.ª
·        Carlos Alberto Frias Barata
Tenente de Inf.ª
·        António da Silva Fernandes
Tenente de Inf.ª

    in "O Refrencial, N.º 21" (boletim da Associação 25 de Abril)

19 de abril de 2011

112-Operação Mar Verde


in "Os Anos da Guerra Colonial", suplemento As Grandes Operações da Guerra Colonial XI, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes
in "Os Anos da Guerra Colonial", suplemento As Grandes Operações da Guerra Colonial XI, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes
in "Os Anos da Guerra Colonial", suplemento As Grandes Operações da Guerra Colonial XI, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes
Há livros sobre esta operação:


Este é do comandante da operação
Do jornalista António Luís Marinho
...e de prisioneiros libertados:


Do ex-alferes António Júlio Rosa
Do ex-sargento piloto António Lobato
Sobre a Operação Mar Verde lê-se no site "Guerra Colonial - A25A/RTP"
Um mar de mistérios 

A Operação Mar Verde é uma acção singular entre todas as realizadas, durante a guerra, nos três teatros de operações. Na clássica divisão dos manuais militares, que consideram três grandes grupos de operações - convencionais, especiais e irregulares -, ela pertence ao grupo das irregulares, e foi neste âmbito a de maior envergadura, complexidade e impacte internacional. 

Foi realizada para obter efeitos políticos directos através da execução de um golpe de Estado em país estrangeiro, a Guiné-Conacri, por militares portugueses a actuarem com uniformes e equipamentos das forças desse país e em conjunto com elementos estrangeiros oposicionistas ao Governo, prevendo a eliminação de um chefe de Estado, Sekou Touré.

Como escreve o comandante da operação, o capitão-tenente da Marinha Portuguesa Alpoim Calvão, no seu livro "De Conacri ao MDLP", que constitui a base de informações que sobre ela se conhece, a proposta que fez ao comandante-chefe das Forças Armadas Portuguesas na Guiné tinha por objectivo principal a execução de um golpe de Estado na Guiné-Conacri, sendo os objectivos secundários a captura do líder do PAIGC, Amílcar Cabral, e a libertação dos militares portugueses prisioneiros que se encontravam em Conacri. 

A operação, que nunca foi assumida por Portugal, aproveitou a existência de oposicionistas ao regime de Sekou Touré, disponíveis para participarem numa acção deste género, e visou a instalação, em Conacri, de um regime mais favorável às posições portuguesas. Para atingir este fim, foram equacionadas duas alternativas, uma prevendo a instalação no território da Guiné-Bissau de bases a partir das quais esses oposicionistas pudessem realizar acções de guerrilha no seu país, e a outra considerando o lançamento de uma operação rápida e decisiva. A análise de vantagens e inconvenientes levou os autores da proposta a optar pela segunda alternativa. 

Seguiu-se um período de preparação essencialmente de âmbito político e das informações estratégicas, que envolveu o Governo de Lisboa, o Governo da Guiné e os serviços de informações de vários países, com a participação decisiva da DGS. 

Por fim, realizou-se a operação militar propriamente dita, com o planeamento, a reunião dos meios, o gizar da manobra e a execução.
………………………….
Mas, além do segredo, outro aspecto fundamental de uma operação irregular é a existência de boas informações e também neste campo existiram graves deficiências assumidas pelo inspector Matos Rodrigues, da DGS, que apoiou a acção. Os mapas para a operação foram obtidos a partir de folhetos turísticos desactualizados, o porto de Conacri observado através de uma acção de reconhecimento efectuada à distância por um navio português, numa operação também ela dirigida pelo comandante Calvão. Em Conacri não existia qualquer informador da DGS que actualizasse elementos e permitisse cruzar informações. Apesar destas graves deficiências e de não haver uma situação militar tão crítica no terreno que justificasse correr os riscos dela decorrentes, a
Por estas ou outras razões, as forças invasoras não encontraram o presidente operação foi desencadeada.  Sekou Touré no local que previam, Amílcar Cabral estava no estrangeiro, os aviões Mig noutra base e a emissora não foi tomada, impedindo os oposicionistas de ler a sua proclamação. 
Estes factos permitem admitir que, além do êxito que constituiu a libertação dos prisioneiros portugueses e a retirada sem comprometimento das forças da Mar Verde, os fracassos nos outros objectivos foram, contudo, os que melhor serviram os interesses das autoridades portuguesas. Os fracassos, ao limitarem os resultados a uma operação de resgate de prisioneiros, evitaram as imprevisíveis consequências no plano externo que adviriam para Portugal da responsabilidade por uma invasão do território de uma nação soberana e pela morte de um chefe de Estado no seu próprio país. Evitaram ainda o problema de ficar com Amílcar Cabral, um dos mais prestigiados líderes de movimentos de libertação africanos, prisioneiro em Bissau ou em Lisboa. 
Hoje persistem as interrogações sobre o futuro do general Spínola e sobre o destino do próprio Marcelo Caetano, caso os objectivos da operação tivessem sido alcançados. O primeiro seria inevitavelmente apresentado como o principal responsável por uma aventura deste tipo, que lhe retiraria credibilidade como dirigente político em qualquer solução alternativa para o regime português. O segundo não deixaria de ter de suportar os custos políticos, internos e externos, em especial quanto à credibilidade da sua anunciada política de abertura, que ainda mantinha alguns apoios. 
As razões que levaram estes dois homens a patrocinar uma operação que envolvia tais riscos continuam, hoje, difíceis de entender.


Prisioneiros que foram libertados:
Esta foi uma lista que entreguei ao jornalista José Manuel Saraiva para o ajudar no encontro que promoveu de ex-combatentes (daí as observações nela constantes)
O soldado Francisco Gomes da Silva "não compareceu entre os libertados" porque tinha ido para Argel; o João da Costa Sousa não se sabe das razões.
Quanto ao Armindo Correia Paulino houve um erro: ele tinha sido dado como "retido pelo IN" mas não foi assim. O que sucedeu é que ele foi morto em Sinchã Jobel na operação "Imparável" em 16 de Outubro de 1967, tendo o seu corpo ficado no terreno.
O 1º cabo José Manuel Moreira Duarte, que foi, depois de libertado, para o Brasil, mas onde passou muito mal e de onde teve de voltar. Está agora com uma pensão de ex-prisioneiro.  É este aqui assinalado  no barco "de regresso", o navio patrulha Hidra:
e aqui nesta foto em que estou com alguns dos que foram do meu pelotão na CART1690:

17 de abril de 2011

111-Hino de Gandembel


GuerraA guerra é a saída cobarde para os problemas da paz.
Thomas Mann     


GuerraAs mães dos soldados mortos são juízes da guerra.
Bertolt Brecht

16 de abril de 2011

110-Comemorações populares do 25 de Abril no Porto




Comissão Promotora

Associação 25 de Abril (A25A)
Associação das Colectividades do Concelho do Porto (ACCP)
Associação José Afonso do Norte (AJAN)
Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC)
Movimento Democrático de Mulheres (MDM)
União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP)
União dos Sindicatos do Porto (USP)
Universidade Popular do Porto (UPP).