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1 de maio de 2011

131-Encontrei na Guiné o meu professor da primária

Foi em Maio de 1968, quando cheguei à Guiné pela segunda vez e estava em Bissau à espera de ir para o mato novamente. O padre Serafim Gama foi meu professor da instrução primária nas Oficinas de S. José, em Campo de Ourique, Lisboa. Encontrei-o na Guiné como capelão militar.
Como tal não sei como era. Como professor deixou-me saudades, mesmo com as palmatoadas que me deu.
Sei que deixou, mais tarde, a sua "profissão" de padre nos salesianos. Sei que estava num lar na Guarda. Descobri isto, há pouco, no semanário católico regionalista "A Guarda" na sua edição de 27.11.2008:

Faleceu o Padre Serafim Gama 
Faleceu, no dia 22 de Novembro, no Centro de Acolhimento S. João de Deus, na Guarda, o Padre Serafim Gama. Contava 86 anos de idade e 64 de Padre.
Frequentou o Seminário da Congregação Religiosa dos Salesianos, onde exerceu o ministério Sacerdotal, durante 27 anos. Trabalhou no Brasil, incardinado na Diocese de Porto Alegre – Rio Grande do Sul.
Passou os últimos anos na sua Diocese de origem, a Guarda. O funeral realizou-se na Igreja Paroquial de Lameiras, concelho de Pinhel, e foi presidido pelo Bispo Diocesano da Guarda, D. Manuel Felício e com participação de duas dezenas de sacerdotes e muito povo.F
icou sepultado no cemitério da anexa, Barregão, sua terra natal.
Fiquei triste. Mais uma ligação do meu passado que desapareceu. O meu pai, a minha mãe, o meu irmão já foram. Ver que já não temos nenhuma referência viva atrás de nós é a certeza que somos nós agora a referência dos que estão à nossa frente. Deixa-me a pensar. Já comecei a ser passado.

Em Saliquinhedim, K3, na CCaç 1422
© Foto Ex-Alf Mil José das Dores
extraída de "Guerra na Guiné" do Carlos Silva
À minha frente no Bento

30 de abril de 2011

130- Correia de Campos, um homem do 25 de Abril

O Correia de Campos que eu conheci em Sambuiá esteve em Guidage.
No Público Magazine, de 5 de Novembro de 1995, escreveu o jornalista Francisco de Vasconcelos:
“Sobre a acção de Correia de Campos no cerco (que é também destacada por Ayala Boto), um dos oficiais das forças especiais ali enviadas foi peremptório: Guidage, no fundo, não há dúvida, aguentou-se devido a ele. Foi um esforço brutal pedido a um homem de 50 anos. Uma vez terminado o cerco, Correia de Campos — hoje reformado em coronel — esteve alguns dias preso em Bissau, devido a uma infracção cometida em época anterior por um oficial sob o seu comando...
“No meio do inferno de Guidage, o governador Spínola foi ali de helicóptero para visitar a guarnição, dirigir um apelo à coragem e patriotismo dos oficiais e anunciar-lhes que iria enviar para a região o Batalhão de Comandos Africanos. Recorda Ayala Boto, que acompanhava Spínola como ajudante de campo: À chegada, a primeira imagem que surgiu foi a de uma povoação abandonada e com um único habitante que se dirigia para o heli como se estivesse a passear na Baixa de Lisboa. Era Correia de Campos.
"Após a partida do governador, gerou-se um movimento de abandono do quartel por parte de muitos militares, que queriam ir-se embora, tendo sido impedidos de o fazer por Correia de Campos, que, lembra o próprio, se postou de sentinela, à saída do aquartelamento" (...).
O cerco a Guidage, que já começara, acentuou o isolamento desta localidade a partir do dia 8 de Maio de 1973. O comandante do COP3, Correia de Campos, decidiu ir para lá no dia 10 de Maio e lá esteve até ao fim do cerco, 30 de Maio. Podia não ir e acompanhar de longe a situação. Mas foi, ele ara assim.
Foi o tenente-coronel Correia de Campos que, enviado pelo Comando da Pontinha, entrou no Ministério do Exército, às 10 horas do dia 25 de Abril de 1974, para prender diversos oficiais superiores, incluindo o coronel Álvaro Fontoura, chefe de gabinete do Ministro do Exército (este já tinha fugido). É ele que, por indicação do Comando,  manda dividir as Forças: uma coluna deve dirigir-se para o Largo do Carmo e obter a rendição do Presidente do Conselho; uma outra coluna deve dirigir-se para o Quartel da Legião Portuguesa na Penha de França, tentando obter a sua rendição. Devem manter-se em posição os efectivos no Banco de Portugal e Rádio Marconi. 
Foi também ele que às 15h25 desse dia entrou no quartel do Carmo para negociar a rendição dos seus ocupantes. Saiu cerca das 15h45, após várias ameaças de Salgueiro Maia, "se suceder alguma coisa ao nosso enviado".
Depois do 25 de Abril foi comandante de Lanceiros 2, cargo de que foi afastado após o 25 de Novembro.
Foi um bravo e nobre militar, já falecido.

129-Identidade cultural do povo balanta

Edições Colibri, Lisboa, 2010
preço 8€

Sinopse:

Regressado à Guiné em 1975 após a independência do país, Cammilleri decidiu dedicar mais tempo a conhecer melhor o povo com o qual voltava a conviver e trabalhar. Fixou-se então na vila de Tite, no sul do país, em contacto directo com o povo Balanta com o qual desenvolveu actividades na área da saúde, inclusive a construção de um hospital. No entanto a sua preocupação principal foi a pesquisa e o estudo mais aprofundado da identidade cultural deste grupo étnico. A recolha dessa pesquisa é apresentada na sua tese de licenciatura na Università di Genova em 1995 com o título “Ser Alante, ser Anin” (Ser Homem, ser Mulher). Seguindo as diferentes etapas da Iniciação de ambos os sexos, o autor pretende evidenciar os valores do Homem e da Mulher específicos da cultura balanta actualmente em transformação e muitos deles em perigo de desaparecimento perante uma economia de mercado globalizada.

Índice:

Apresentação
Mapa da Guiné ´-Bissau
Nota linguística
Introdução
Iª PARTE - O CONTEXTO HISTÓRICO
O desembarque dos portugueses
A ocupação
A revolta dos Balantas
O período colonial
A independência
IIª PARTE - A SITUAÇÃO ECONÓMICA E SOCIAL
A economia nacional
O território balanta
O sistema produtivo dos balantas
A sociedade e a sua organização
IIIª PARTE - A INTEGRAÇÃO SOCIAL FEMININA
A mulher, sua evolução e formação
A Cerimónia da parturiente
A atribuição do nome
1.Nbi fula uso-ñ (1)
2. Fula ndan (2)
3. Iegle (3)
4. Thata (4)
5. Sade (5)
6. Anin ndolo (6)
IVª PARTE - A INTEGRAÇÃO SOCIAL MASCULINA
1. Bidokn ni ñare (7)
2. Nthok fos (8)
3. Ngwac (9)
4. Nkuuman (10)
5. N'Hae - Nñess (11)
6. Blufu ndan (12)
7.Fo-Alante ndan (13)
I. A preparação
II. A segregação
III. FO, o ritual central
IV. O grande regresso

Coclusão - o quadro cultural
1. Nbi ni N'hala (14)
2. Nbi ni Biñan (15)

Nota dos tradutores
Bibliografia

____________________________________



[1] Filha pequena
[2] Nome dado às raparigas entre os 10 e os 13 anos
[3] Nome dado às raparigas entre os 13 e os 16 anos
[4] Nome dado às iegle após o nascimento do segundo filho
[5] Mulher no início da menopausa com actividade de comando
[6] Mulher no fim da menopausa, ancião, sem condições de exercer a direcção da família
[7] Rapazes dos 6 aos 12 anos
[8] Adolescentes dos 13 aos 15 anos
[9] Jovens blufus com idade entre os 15 e os 18 anos
[10] Jovens dos 18 aos 21 anos
[11] Jovens dos 21 aos 24 anos
[12] “Jovem grande”, literalmente, jovens entre os 24 e os 30 anos
[13] O que já fez o fanado, passou para  a idade  adulta
[14] Ser humano, filho de N’hala
[15] Filho de geração ou família extensa

29 de abril de 2011

128-Estava tudo louco

Foi na passagem de ano de 1968/1969. Eu estava em Bissau e disseram-me que tinha de ir montar uma emboscada perto do aeroporto, pois suspeitavam de um ataque lá. Deram-me um pelotão de uma companhia que tinha acabado de chegar.
Antes de ir, decidi ir ao Bar de Oficiais do QG beber uma cerveja. Fui ao balcão, pedi uma e fui sentar-me com ela num dos sofás que lá havia. Tentava acalmar-me, pois não me agradara nada ter de ir para o aeroporto armar uma emboscada. Estava em Bissau para curtir, não para isso, já me chegava no mato. No meio destas reflexões chega-se à minha frente um tenente-coronel. Já me tinham dito que ele era o gerente da Messe de Oficiais, chamavam-lhe “O Lavrador”, porque gostava muito de tratar de uma horta que havia na zona da Messe.
- “Não pode estar aí, nosso alferes”, lança-me ele.
Fiquei mesmo espantado. Não estava a ver porquê.
- “Não posso porquê, meu tenente-coronel?”, perguntei-lhe, sem me levantar.
-  “Porque o seu camuflado está a sujar o sofá”.
De facto, era tudo gente fina que estava ali naquele bar. Camisas de manga curta e calças nº 2 limpinhas e passadinhas a ferro, impecáveis, sapatos pretos brilhantes. E eu, com o meu querido camuflado, pele da minha carne em muitos dias e noites de mato, com as minhas botas calcurreadoras de zonas de capim e de bolanhas. Ele estava já muito amarelado e debotado pelo uso, tinha até um buraco ou outro, destoava um bocado, é verdade, mas estava limpo, tinha sido lavado, as botas estavam limpas da lama do tarrafe. Levantei-me e vi que o grupo que estava ao balcão nos observava.
- “Não vejo nada sujo”, olhei para as pernas, levantei os braços e olhei para cada um, dei meia volta à esquerda e à direita e observei-me os flancos.
- “Não interessa, assim fardado não pode estar aí”.
Tinham-me mandado para uma emboscada e vinha agora este gajo com estas merdas. Fiquei com vontade de lhe ir ao focinho. Todo eu estava para isso. Um major que estava ao balcão topou isso e chegou-se a nós.
- “Tenha calma, nosso alferes. Meu tenente-coronel, deixe o homem beber a cerveja. Ele vai-se já embora, não é?”.
Não disse nada, bebi o resto da cerveja, pus a garrafa em cima da mesa com força e saí. Disseram-me depois que o major se chamava Carlos Fabião.
Atrás de mim veio um alferes que eu já conhecia, trabalhava no Gabinete de Justiça do QG. Tenho pena de me ter esquecido do nome dele, só sei que era magro, moreno, e tinha uma barbicha à passa-piolho.
- “É pá, se quiseres fazer queixa do gajo o Spinola dá-lhe uma porrada com certeza”.
- “Não faço nada. Quero que o tipo se foda e o Spínola também”, e fui-me embora.
Já com o pelotão em viaturas, a caminho do aeroporto, chegámos ao pé do palácio do Governador. Ao lado estava o edifício da Associação Comercial. Havia lá grande festa, janelas iluminadas, ouvia-se música de dança. Mandei parar.
- “Porque é que paramos, meu alferes?”, pergunta-me o furriel ao pé de mim.
- “Estou com vontade de ir ali e dar cabo daquela merda toda. A gente aqui e os gajos a gozar.”
O furriel abriu os olhos.
- “Mas isso não pode ser. Levávamos um porrada das grandes. Sobretudo para o meu alferes que está prestes a ir embora…”.
- “Está bem, tens razão. Mas daqui a uns meses vais perceber este sentimento. Vamos embora.”
E fomos para o aeroporto. Não houve nada e lá para as cinco da madrugada regressámos.
Fui para os anexos à Messe de Oficiais onde eu dormia e onde dormiam também vários alferes que estavam de passagem ou à espera de embarque de regresso. Apeteceu-me fazer qualquer coisa para acalmar a fúria. Olhei e vi um bidão que estava ali com garrafas de cerveja. É isto.
Agarrei em várias garrafas e comecei a atirá-las para cima dos telhados do anexo. Que gozo! Bum, bum! Em cima dos telhados de zinco, bum, bum! Ri-me á brava a vê-los sair das portas todos alarmados e em cuecas. Que merda é esta?, gritavam.
Viram que era eu e ficaram mais descansados, chamaram-me todos os nomes e voltaram para as camas. Fui também. Estava mais satisfeito, tinha desopilado.
De manhã, o Almeida Campos convidou-me para ir com ele à 5ª REP, ao Bento. Era onde se sabia de tudo, porque por lá passavam quase todos os que vinham ou ainda estavam no mato e contavam coisas, tudo, operações, ataques, mortos. Era o sítio das informações, por isso a 5ª REP, que era a Repartição de Informações do QG. Todos ficavam a saber coisas, todos e também os miúdos e miúdas que entre nós andavam a vender camarão, caju e mancarra ou a engraxar as botas dos mais aprumados. Muita coisa o PAIGC deve ter sabido através deles.
Comemos uns camarões e bebemos umas canecas. O Almeida Campos tinha sido apontador de obus lá para o sul, já não me lembro onde, e estava à espera de embarque para ir embora.
- “É pá, e se a gente fosse dar uma volta?”, pergunta-me ele.
- “Uma volta aonde?”
- “Para fora de Bissau.”
Não me desagradava. Mas como?
- “Mas precisamos de um jipe para isso”.
- “Eu requisito um jipe ao QG.”
- “E os gajos vão dar-to?”, duvidei.
- “Está descansado que eu conheço lá um sargento”.
E conseguiu-o. Largámos de Bissau, não sem antes metermos uns whiskys no bar da Messe de Oficiais. Chegámos a Nhacra eram horas de almoçar. Parámos numa tasca á beira da estrada para comer. Foi frango de chabéu regado a muito vinho fresquinho.
- “A gente podia ir mais longe”, estávamos bem aviados e eu já estava por tudo.
- “Claro”, disse-me ele, “metemos pela estrada sempre em frente e logo se vê”.
Grande homem, era dos meus!
Fomos pela estrada uma hora, duas horas, não sei, não deu para contar. Nada, não vimos nada pelo caminho, só mato dum lado e doutro, até que chegámos a uma povoação. Muita gente nos olhou admirada quando entrámos.
- “Eu acho que isto é Mansoa”, pareceu-me.
Era. Um grupo de militares veio ter connosco. Cumprimentos, interrogações. Que vieram cá fazer? Nada. Só passear.
Havia um jogo de futebol e fomos até lá para ver. No fim do jogo houve festa com muita cerveja e nós entrámos. Estivemos muito tempo, pensei.
- “Ó Almeida Santos, é melhor irmos embora que se está a fazer tarde.”
- “Tá bem. Mas antes vamos pedir aqui umas cervejas para o caminho.”
Eles deram-nos uma cervejas, e um fuzileiro, ainda agora não sei porque é que ele lá estava, pediu-nos boleia. Foi connosco.
Foi uma viagem de regresso muito alegre. O Almeida Campos foi a conduzir e eu ao pé dele, de pé, sempre a cantar. O fuzileiro ia no banco de trás. Íamos bebendo as cervejas ofertadas.
Já tinha começado a escurecer quando vimos ao longe as luzes do aeroporto. Eu de pé, agarrado ao para brisas e sempre a cantar. Às tantas o Almeida Campos sai da estrada. O jipe andou uns metros e espeta-se contra uma árvore.
Foi uma sensação já vivida, quando fui projectado pelo rebentamento da mina. Foram uns segundos, ou minutos? Não dá para saber, porque é um tempo de nada. Há o choque, ou o rebentamento, e a seguir é o vazio completo, sem pensamento, sem ah! nem oh!, só nos sentimos quando estamos no chão. Foi o que sucedeu. Dei por mim no chão, no meio do capim. Levantei a cabeça e vi o jipe a arder, ao meu lado o fuzileiro gemia, olhei melhor e vi o Almeida Campos sem dizer nada, estendido. Cheguei-me ao pé dele e peguei-lhe na cabeça. Fiquei alarmado pois a mão ficou-me cheia de sangue. O fuzileiro ainda mexe mas este não. Vi umas casas não muito longe. Levantei-me, bati às portas mas ninguém me respondeu. Estava preocupado com o Almeida Santos. Vi umas luzes que se aproximavam vindo do lado do aeroporto.
Era uma patrulha que viu as luzes feitas pelo jipe a arder e vinha ver. Foram eles que nos levaram para o hospital.
O Almeida Campos e o fuzileiro ficaram lá. Este tinha uma costela partida, vinha atrás e batera no banco da frente. O alferes tinha um lanho na cabeça e uma ferida profunda na perna direita. Eu não tinha nada, só a farda chamuscada, e regressei ao anexo da Messe de Oficiais.
No dia seguinte fui ao hospital. O fuzileiro tinha sido transferido para a enfermaria da Marinha. O Almeida Campos estava na cama com uma perna engessada, a cabeça ligada e… uma cerveja na boca. Riu-se para mim.
- “Estás bom, pá?”, perguntou-me.
- “Eu estou, mas tu não pareces.”
- “Estou, sim senhor. Cervejas não faltam”.
Um major, encarregado da peritagem, chamou-me para ir com ele reconstituir o acidente.
- “Ó meu major, nós íamos devagar. Houve qualquer problema com a direcção do jipe.”
Riu-se e mostrou-me o sulco dos pneus fora da estrada, eram uns vinte metros na berma capinada, antes da árvore em que batêramos.
Eu fui apenas testemunha. O meu amigo, que requisitou o jipe e ia a conduzir, que era mais antigo do que eu, levou uma porrada de prisão disciplinar, teve de pagar o jipe e ficou mais uns tempos na Guiné.




27 de abril de 2011

127-Jagudi kum' el



Ida para Bigene
Íamos por uma mata serrada depois de Sindima, tinha chovido. Da CCAÇ3 só o meu pelotão estava nesta operação até ao corredor de Sambuiá.
- "Vamos ver se apanhamos alguma coisa. Eles costumam vir de Samoge, no Senegal, e passam por aqui", disse-me o major Correia de Campos. "Você vai à frente, atrás de si vai a 412. ". Tá bem, sabia que aquela era uma companhia de maçaricos, a CART2412. Como me tinham indicado, invertemos um pouco para sudeste e fomos em direcção a Talicó.
Antes de lá chegarmos fomos emboscados  ao pé dum pequeno descampado. Estão ali à esquerda, pensei, e fiquei de pé virado para lá a disparar. De repente levo um encontrão e vou parar ao chão.
- "Eles estão do lado direito!", gritou-me o Ocha, meu  guarda-costas.
- "Obrigado, pá. É a merda dos ouvidos que me enganaram." E fiquei no chão a disparar para o lado certo. Estava fodido, não era a primeira vez que os tímpanos me baralhavam.
Foi um quarto de hora de tiroteio, morteiradas da companhia de trás e roquetadas e morteiradas também deles. Às tantas, homem espantoso, aparece o Correia de Campos, de pistola à cowboy na cintura e pingalim na mão.
- "É pá, está um gajo com RPG ali naquela árvore e o morteiro está ali no lado direito".
Disse-me isto sempre de pé, e eu esticado no chão a ouvi-lo.
- "Já não adianta, os gajos piraram-se", disse-me ele, passados alguns minutos,  quando nos apercebemos que eles tinham parado de disparar . "A companhia vai retirar e vocês vão atrás".
Levantámo-nos e diz-me o Ocha:
- "Está ali um corpo do outro lado".
Disse ao furriel Lindolfo para ir com a secção dele buscá-lo.Voltaram. O Falcão e o Iofna, um de cada lado, traziam o homem, que estava ferido e andava com dificuldade. Era do PAIGC, tinha o fardardamento deles .
- "Então e a arma?", perguntei-lhes.
- "Não havia arma nenhuma", respondeu o Lindolfo
- "Está visto que os gajos levaram a arma e deixaram o ferido", conclui. 
Disse para fazerem uma maca com ramos de árvores para colocar em cima o homem ferido. Fomos andando no encalço da 412., devagar porque o Falcão e o Iofna levavam a maca com o ferido. Os últimos da companhia estavam ao pé do rio de Cunalá, estava visto que o major optara regressar por ali e não por onde viéramos, para evitar emboscadas. Vi que estava um homem estendido ao pé deles. Aproximei-me e vi que tinha o pescoço aberto, um grande rasgo horizontal,  a cabeça parecia querer separar-se do corpo. Estava morto.
- "Como é que foi isto?", perguntei. Respondeu-me um soldado que fora um estilhaço de rocket, rebentara na árvore atrás da qual ele estava.
Dois deles pegaram no morto, nos braços e pernas, e começaram a atravessar o rio. Vi que foram à vontade, sinal que já tinham visto que era atravessável. A companhia, aliás, já estava praticamente toda do outro lado.
O Falcão e o Iofna tinham pousado a maca no chão.
- "Vá lá, alguém que pegue na maca para atravessar  o rio".
Ficaram todos calados e quietos.
- "Então?... Vá lá!"
Continuaram mudos e quedos. Os furriéis olhavam para mim um bocado enrascados.
- "Meu alferes", decidiu-se o Sousa, "eles não querem atravessar o rio com a maca."
- "O quê!?", fiquei genuinamente espantado.
O matulão Clode, no meio deles:
- "Alfero, vem jagudi e kum’el".[1]
Estava feito. Mas isto não era situação nova para mim, esta recusa em ter pena ou piedade de tudo o que fosse inimigo. Tinha de resolver aquilo, não podia ficar ali a discutir com eles nem queria deixar ali o ferido. Virei-me para o furriel Sousa.
- "Ó Sousa, pegue aí à frente que eu pego atrás". Assim fizemos, pusemos a maca aos ombros . "Vamos embora".
Metemo-nos no rio. Os outros vieram atrás.
A água dava pelo peito. Não era fácil, deviam ser uns quarenta metros de largura, mas fomos andando, embora devagar e com dificuldade, sobretudo para "ver" onde púnhamos os pés.
Estávamos a meio e chegam-se o Ocha e o Falcão.
- "Alfero, nós levamos".
- "Ah!", só lhes disse isto. E eles levaram a maca até ao outro lado.
Da margem vimos que havia uma clareira larga onde estava, a cerca de cem metros um helicóptero. Chegámos até lá e vimos ao pé dele o major Correia de Campos e uma enfermeira pára-quedista.
- "Meu major, tenho aqui um homem do PAIGC ferido".
- "Entregue-o à enfermeira".
Dei indicação ao Ocha para tal. Depois disse ao furriel Sousa:
- "Mande formar o pelotão."
O major olhava para mim com curiosidade, mas não disse nada.
Olhei para o pelotão com cara de zangado, tanto que não deu para dizer nada em crioulo:
- "Estou lixado com vocês. Porque acho que vocês são uns grandes filhos da puta, pior para os da vossa raça, muito pior do que são os brancos. E podem ter a certeza que fodo o primeiro que tentar fazer mais alguma igual a esta". 
E não disse mais nada, mandei destroçar. O major estava sério.
- "Mas que é que aconteceu, nosso alferes?"
- "O que sucedeu, meu major, é que estes gajos recusaram-se a atravessar o rio com o ferido. Tive de ser eu e um furriel a carregar com ele."
- "Oh,e você não sabe que eles são assim, homem? Não se chateie. Quando chegar ao quartel pague-lhes umas cervejas e vai ver como ficam todos bem".
A enfermeira chegou-se a nós.
- "Meu major, o homem do PAIGC acaba de morrer. Não aguentou".
- "Que merda! Tanto trabalho...", pensei que disse para mim, mas ela ouviu. Não se manifestou.
- "Bem, vamos embora", disse o major.
O heli partiu e ele foi nele. Durante o regresso a Bigene e, depois, a Barro as coisas foram amainando e já estava tudo normalizado quando lá chegámos.
Mas sei e senti que o que lhes dissera não caíu em vão.



[1] Alferes, os abutre vêm e comem-no. (crioulo)



Regresso de Bigene
Eu e o Ocha, que foi meu guarda-costas. Ele vive agora em Corroios.

26 de abril de 2011

126-Nomes dados pelos guerrilheiros do PAIGC ao seu armamento


In SUPINTREP 31 (Supplementary Intelligence Report) da Repartição de Informações do QG do Comando-Chefe do CTIG, 11JUN71

25 de abril de 2011

125-Mensagem da Associação 25 de Abril



Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen


ASSOCIAÇÃO 25 DE ABRIL


MENSAGEM

Foi há 37 anos
A ditadura foi lançada borda fora, a liberdade despontou e a democracia iniciou-se.
A guerra começou a viver os seus últimos dias, a paz acabou com o colonialismo e deu origem a novos países independentes.
O regime despótico e repressivo e o atraso atávico que trazia no seu ventre viam os seus dias contados. Abriam-se as portas ao desenvolvimento e à alfabetização para uma caminhada imparável e vitoriosa.
O isolamento internacional desaparecia, o relacionamento com todos os povos do Mundo provocou a nossa transformação em estrela maior da comunidade internacional, a consequente aceitação nos seus organismos foi um facto.
De repente, as portuguesas e os portugueses acordaram livres, incrédulos com tanta felicidade, mas de imediato fizeram sua a festa, influenciando e determinando-lhe o caminho.
Hoje, passados 37 anos, quando muito do conseguido foi abandonado, quando a crise em que mergulhámos nos faz ter saudades dos dias da libertação, é tempo de reafirmar os valores que nos fizeram avançar há 37 anos e de proclamar bem alto: Claro que valeu a pena! Claro que não estamos arrependidos!
Isto porque, apesar das enormes dificuldades que atravessamos, apesar de Portugal se afastar cada vez mais do que sonhámos com o 25 de Abril, o país que hoje temos é incomparavelmente melhor do que o que tínhamos há 37 anos.
Não nos venham dizer que os males de hoje são da responsabilidade do 25 de Abril!
Há 37 anos abriram-se as portas aos portugueses, para a construção de um país melhor.
Durante estes anos, não fomos capazes de garantir a unidade de todas e de todos na consolidação de um caminho conjunto, para fazermos mais e melhor. Desbaratámos as nossas potencialidades. Deixámo-nos arrastar para uma crise que, tendo uma enorme componente internacional, é também fruto dos erros cometidos pelos responsáveis políticos, por nós escolhidos.
Hoje poderíamos dizer – é tempo de o afirmar – que há 37 anos estávamos à rasca!
A geração de então conseguiu resolver os problemas e, ao fazer o 25 de Abril, encarou- os numa perspectiva global e não geracional.
É nisso que acreditamos: as novas gerações serão capazes de resolver os problemas
que enfrentam, sem que para isso tenham de pôr de parte a experiência dos menos jovens em idade,
É isso que nos ensina a nossa História, de quase mil anos: em tempos de crise, fomos
sempre capazes de encontrar soluções. Por isso, vamos consegui-lo novamente.
Desde logo, renovando e aprofundando o sistema democrático, onde o papel dos partidos políticos, sendo indispensável, não é exclusivo.
É necessário que todos aqueles que não se revêem no actual quadro partidário tenham mais do que o voto em branco como forma de expressão da sua vontade política, nomeadamente através da apresentação de candidaturas à Assembleia da República.
É tempo de dizer que os eleitos, ao contrário do que hoje acontece, na generalidade, têm de voltar a representar o povo que os elegeu!
Os males da democracia curam-se com mais democracia, por isso, nas eleições que se
aproximam temos de proclamar que não abdicamos do nosso direito de voto!
A abstenção tem de diminuir! Temos de ser capazes de, mesmo com votos de protesto, cumprir o nosso dever de cidadãos em democracia: votar!
Mesmo que, não aceitando votar em nenhuma das propostas apresentadas, se vote em branco! Isto, porque se a abstenção mostra desinteresse pela democracia, o voto em branco mostra uma crítica violenta aos que deturpam a prática democrática.
Como não se conhece, nós não conhecemos, sistema menos mau que a democracia, temos de ser capazes de afirmar que, não aceitando esta prática democrática, não prescindimos da democracia, nem abdicamos da sua manutenção, custe o que custar.

Por outro lado, temos de reclamar e impor aos nossos representantes todo o esforço 
para o renascimento e a reconstrução da Europa solidária, que nos levou a nela 

entrarmos, e não aquela que com a prática que vem adoptando, transforma, dia a dia, o
projecto europeu num agrupamento de países, onde cada um olha cada vez mais para
o seu próprio umbigo.
Aí cabe, perfeitamente, a não-aceitação de que os financeiros que nos lançaram na crise, possam sair-se dela a rir, sem sofrer as consequências e com ela ganhando.
É tempo de impormos aos que escolhemos para exercerem o poder político que não se deixem comprar e manietar pelo poder económico e financeiro.
É tempo de impormos aos eleitos a responsabilidade de responderem perante os eleitores e não perante o mercado!
É tempo de chamarmos à responsabilidade quem, tendo-a, não cumpre os deveres que essa mesma responsabilidade lhe impõe.
Se tudo continuar na mesma, quer na Europa quer em Portugal, a “revolta dos escravos” que eclodiu no Norte de África, rapidamente chegará ao velho continente e ao 
nosso país!
Por nós, queremos acreditar que se nos agarrarmos aos valores de Abril, conseguiremos restituir a ética, a dignidade, a solidariedade, a justiça social, a 
verdadeira democracia à nossa sociedade.
Não vai ser fácil! Os interesses instalados, as práticas daqueles em que ciclicamente se aposta e nos desiludem, ao virar da esquina, não podem esmorecer-nos e fazer-nos
baixar os braços!
É tempo de sermos capazes, todos e cada um de nós, de promover uma intensa actividade cívica, não esperando que outros nos resolvam os problemas!
Por tudo isto, é tempo de combater o individualismo e o novo corporativismo. 
Queremos acreditar que seremos capazes de vencer esta crise. 
Tendo permanentemente presente que sem uma efectiva coesão nacional, não haverá 

solução possível!
A esperança não nos falta, assim não nos falte a convicção e a força!

Viva o 25 de Abril.
Viva Portugal.

A Direcção

Lisboa, Abril de 2011