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5 de maio de 2011

140-Festas religiosas do islamismo fula

Artigo do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XI, nº 41, de Janeiro de 1956

(para ver em ponto grande pressionar à direita, em baixo)

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4 de maio de 2011

139-Na escuridão, debaixo do mosquiteiro

Meu amor (que nunca foste), chega sempre a altura em que as palavras se tornam desnecessárias para explicarmos aquilo que para ambos se tornou claro, tão evidente. Para quê explicares-me que não me amas, e porquê? Os porquês não interessam. É o facto em si que conta. O que não tem remédio não tem porquês.
Porque há-de o frio ter palavras de gelo para explicar que é frio?
Durante meses teci dúvidas e elaborei respostas. Fiz delas cartas que retive e guardei, com medo de errar ou de ferir. Terá sido? No fundo, foi sempre a suspeita do que agora sucedeu.
Mas estou certo que te amarei sempre.Como, aliás, continuo a amar as outras que conheci. Como amo aquelas que quero conhecer.

138-Não saí nem houve ataque do IN - Mas "A Peste" atacou

Deparei-me com duas frases de Albert Camus que me dão muito que pensar. Todo o romance está cheio de simbolismo, mas essas frases, só essas, têm muito a ver com a minha vida presente, com os meus problemas actuais. Mas não só. Elas têm a ver com toda esta fase que atravessam os meus "concidadãos".
Procuro sempre, com as minhas leituras nocturnas, quando posso e tenho condições para me apetecer, sem pretensões de aprofundar mas apenas criar condições, relax, para um bom sono. Mas não, esta noite não me é possível.
"A Peste" apossou-se de mim, como reagente contra outra peste que de algum modo simboliza o nosso estado, e que creio se vem apossando de todos nós de uma forma já perceptível porque demasiado continuada.
Tarrou, o cronista, deixa-me perplexo e confuso: "O que é natural é o micróbio. O resto - a saúde, a integridade, a pureza, se quiser -  é o efeito da vontade, de uma vontade que não deve jamais vergar". Tomei-o, inicialmente, como um existencialista fatalista. Confundi-o com um vulgar existencialista, pessimista  idealista.
Depois, porém, penso ter descoberto nele, através desta mesma frase, um profundo defensor do papel fundamental que o indivíduo tem na evolução da sua própria história. Não já um idealista, mas um materialista; não já um fatalista, mas um defensor da dialéctica.
O micróbio do desânimo propaga-se entre nós. Sinto em mim próprio sintomas  dessa peste, sinto que os meus camaradas são igualmente atacados por ele e que alguns não conseguem reagir. Criam uma habituação à peste, conformam-se com a sua condição  e aguardam melhores dias.
Outros há que, mais gravemente, optam pela via do oportunismo. Não estou a ser exacto quando afirmo que "optam agora", pois a sua opção oportunista fizera-se necessariamente desde o início. Em termos correntes, pode dizer-se que o oportunismo se encontra na massa do sangue dos oportunistas e só em situções de crise vem ao de cima, à luz do dia.
O oportunista "distrai-se" com muita facilidade.
Manter a vigilância e a firmeza, não deixar "vergar a vontade" custa muito, é deveras penoso. Aqui, nesta altura, a segunda frase de Tarrou a Rieux: "...é bem fatigante ser um pestiferado. Mas é ainda mais fatigante não querer sê-lo".
Pensei, inicialmente, que Tarrou não tinha razão em afirmar que o micróbio era um fenómeno natural. Mas o facto é que não podemos fugir a ele, em determinadas circunstâncias. Ele nasce do cruzamento entre as nossas ilusões e os factos adversos que as desvanecem, são fruto da interacção de um facto subjectivo com um dado objectivo, contraditórios entre si. Por este motivo é que eu duvido de Tarrou: será, então, natural o micróbio? Será possível afirmá-lo, quando ele nasce das nossas próprias ilusões contrariadas pelos factos?
Tenho necessidade de aprofundar a natureza das ilusões e o seu desabar. Tenho de ver se as ilusões, dos sentidos ou da inteligência, fazem parte da natureza humana, se são naturais.
Agora vou dormir e espero que o gajos não ataquem.

137-Preparação para a guerra- I

Naquela tarde fria de Janeiro entraram no grande casarão cerca de 800 "soldados cadetes" para frequentarem o COM (Curso de Oficiais Milicianos). A ala sul do Convento de Mafra recebeu essa gente toda tal como outrora recebia os candidatos à vida contemplativa e de oração, embora não em tão grande número. Só que estes "noviços" iam ser iniciados não para a contemplação mas para a acção, não para rezar pela sua salvação e pela dos outros homens mas para estarem preparados para matar outros homens e também para serem mortos. A religião ali praticada agora era a guerra, as orações foram substituídas por palavras de ordem militares, os livros sagrados chamavam-se agora RDM, Manual de Instrução, Manual do Oficial Miliciano, Manual de Educação Cívica e Militar para uso nos COM e CSM. Enfim, numa mão a cruz noutra a espada, para a defesa da civilização cristã e ocidental. Trata-se apenas de acenar e actuar umas vezes mais com uma mão, outras vezes mais com a outra. Não há, como se vê, nada de estranho ou anormal, nada que deva espantar ou chocar.

Toda aquela gente passou pela inspecção, todos nus, foi visto se eram quebrados ou se tinham o pé chato. Conforme a ordem de entrada foi-lhes dado um número e, conforme este, foram agrupados por cinco companhias que, no seu conjunto, formaram o Batalhão de Instrução. De acordo com as companhias em que ficaram integrados foram distribuídos por várias casernas, situadas nos vários pisos do convento.

- "Isto é uma tropa fandanga. Olha-me para esta cambada de nabos, a começar por ti. Vocês metidos nessa merda dessas vestimentas e a desfilarem ali no meio dos saloios de Mafra deviam pô-los a mijar de rir".
O Aiveca mirou-se e remirou-se e acabou por dar razão ao Pais. Era raro aquele cuja farda número um lhe estava mais ou menos a quadrar com o físico. Quase todas largonas , desproporcionadas. Ou nadavam dentro das acalças ou pareciam miúdos a provar o casaco do pai.
O Pais falava assim porque se recusara a vestir a farda.
- "Eu sei que vou ter de andar com esta merda vestida, mas, ao menos, só a visto depois de a mandar arranjar, quando for a casa. Não quero fazer triste figura e, ainda por cima, com uma coisa que tenho de aceitar contrariado."
- "Também me parece, pá. Vamos, agora, andar aqui feitos palhaços?", e o Norberto, dentro das calças, esticava uma cintura onde cabia outro igual a ele. "Eu também não vou aceitar vestir isto assim".
À roda, toda a gente concordou, de uma maneira ou doutra. Cada um deu mostras da sua figura ridícula com fardas distribuídas pelo cabo quarteleiro aos soldados cadetes, após fazer uma apreciação rápida das medidas do físico de cada um. 
- "Isto é a olhómetro, senhor cabo?".
O Realinho levantara logo esta observação, aquando da altura da distribuição do fardamento.
-"O nosso cadete desculpe, mas eu não posso estar aqui a fazer provas a cada um dos nossos cadetes. O melhor que têm a fazer é arranjar alguém lá em casa que faça uns ajustamentos no fardamento". 
É claro que o "senhor cabo" tinha razão, toda a gente achava que sim. Mas também todos aqueles que se sentiam ridículos dentro daqueles fardamentos achavam que não deviam passear-se com tais adornos.
Não havia granes problemas quanto à farda de trabalho, a número dois: era d caqui vaerde, calça e camisa, com um barrete com um formato bastante esquisito. O pior, de facto, era a farda número um, a farda de passeio: calças e blusão cinzentos, camisa e gravata e boné com pala dura. esta, sim, é que os fazia ridículos, parecer polícias mal geitosos, balofos. 
- "Os nossos cadetes têm azar. O próximo curso, daqui a três meses,vai ter já dos novos fardamentos, verdes, calça e blusão e boina castanha".
- "Obrigadinho, ó senhor cabo, mas isso não me serve de consolo. Os gajos não me deixam ir para casa se eu lhes disser que não gosto desta farda e que me deixem vir para o próximo":
Ninguém achou piada a esta saída de alguém do meio do grupo.




3 de maio de 2011

136-A jangada de Barro

Antes da guerra havia uma jangada que, tal como a de S.Vicente, fazia a travessia do Cacheu, ligando a "estrada" que vinha de Bissorã à que ia de Barro para S. Domingos.
Por ela, conta Luís Cabral, na "Crónica da Libertação", fugiu para o Senegal o Carlos Correia em Agosto de 1959, perseguido pela PIDE, após a matança de Pidjiguiti. Foi até Barro de jangada e de Barro seguiu na sua motorizada.




Foto do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume X, nº 38, de Abril de 1955
Durante a guerra, quando a CCAÇ3 estava em Barro, apenas lá atracava, às vezes, uma barcaça para nos trazer abastecimentos.

Este rapaz que está ao meu lado de G3 tem uma história que hei-de contar um dia destes...

2 de maio de 2011

135-Onomástica fula e graus de parentesco

Artigo no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume X, nº 40, Outubro de 1955
(para ver em ponto grande carregar em X, em baixo à direita)
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134-Divulgação da fé na Guiné...

Extractos de um artigo de Jorge Faro no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XII, nº 45, de Janeiro de 1957:

133-Aspectos e tipos da Guiné - IV

Estas saíram no Nº 45 do Volume XII do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, em Janeiro de 1957

132-Antropologia visual

A minha amiga Maria Carolina, em 1998/2000, fez o Mestrado em Relações Interculturais na Universidade Aberta. Mostrei-lhe umas fotografias minhas da Guiné (estas abaixo) e ela inspirou-se nelas para um dos seus trabalhos, a que chamou "Antropologia visual":




"Não se pode possuir a realidade, mas pode possuir-se (e ser-se possuído por) imagens". Susan Sontag

Fotografar é o acto pelo qual o fotógrafo capta um momento. Neste caso, o fotógrafo que faz a fotografia (porque não a tira, não é roubada, ela é antes um acto de colaboração) foi-o a pedido dos fotografados. O seu objectivo era obter um registo duma vivência única e ao mesmo tempo diversa para cada um dos elementos do grupo. A vivência de uma presença na guerra, numa terra distante, na Guiné, com aquele grupo unido por secretos laços de camaradagem.
E porque se trata de uma relação única, aquela fotografia é um marco e também uma marca. Ela está ali a consubstanciar todos os pormenores do momento: o número de pessoas, aqueles mesmos, não outros quaisquer, aquele lugar, as sensações, os sentimentos, as emoções, o silêncio. Ela está ali há 30 anos, testemunho vivo, porque todos os testemunhos são vivos apesar daquelas imagens petrificadas pelo tempo, mas reveladoras, prenhes de uma vivência, uma voz que se agiganta quando se folheia o álbum.

"Este era um grupo muito especial. Éramos um alferes, dois furriéis, um cabo e seis soldados. Costumávamos fazer incursões no Senegal, para, nas aldeias, roubar vacas para comer. "

Havia essa necessidade, vital como a de comer, de, no futuro, disso fazer prova à memória, por vezes traiçoeira. Mas também de possuir, em substância, aqueles momentos fugazes, de secretos laços de camaradagem. É como olhar-se no espelho e observar-se ali com os outros. "Ali estou eu". Ali, naquele lugar concreto, aquela figura. Eu que não me posso ver, que só me construo por e na relação com os outros, que só me observo de dentro para fora. A fotografia é o espelho, dá-me a minha imagem com os outros, reflecte-me, constrói-me uma figura. E ao vê-la, por alastramento, eu acrescento-lhe o conteúdo, impregno-a dos sentimentos, e emoções que são o lastro da minha memória. Esta relação dialéctica entre a fotografia e o fotografado, mais tarde observador também, que dá significado à fotografia, que a faz pulsar, mesmo que aparentemente morta, num vai-vem entre um passado que foi presente e um presente que foi futuro, numa atmosfera irreal.
E ali estão todos, na pose que idealizaram para ficarem "fixados" naquele presente e serem "transportados" ao futuro. De acordo com a hierarquia, o alferes no eixo vertical central, em posição de destaque, em pé. Em volta, descendo na hierarquia, os furriéis e, alargando-se para o eixo horizontal, mais igualitário, os soldados, formando uma pirâmide de base alargada. O grupo ocupa toda a fotografia. É um grande plano. O que importa para a memória do futuro, lá longe, no continente, é o grupo, a sua ligação, as suas recordações. A fotografia é assim a reificação duma relação "estatificada", com aquelas pessoas, num determinado tempo (1968/69) num determinado local, em Barro, quase esquecida no mato, na guerra colonial, na Guiné. Ao fixar aquele momento, o fotografado, por acção do fotógrafo, quis "construir um monumento" que vencesse o esquecimento. Na sociedade de consumo, as fotografias consubstanciam a "massificação" dos heróis: do herói individual, de cada momento, de cada vivência única, das vivências únicas que se multiplicam e que, por serem únicas, necessitam de registo. A sua multiplicação permanente toma-as fugidias e por isso urgentes de memória. Todo o acto na vida do indivíduo se "inflaccionou" em rito de passagem. É o nascimento, a saída da maternidade, a 1ª mamada, o 1°banho, a 1ª papa, o 1° mês o 2°mês, do 1°dente, o 1°passeio, o 1°brinquedo, o brinquedo preferido. São tantos os momentos a registar, são tantos os marcos a assinalar! Tudo se esvai a uma velocidade impossível de estancar. A falta de tempo para agarrar o momento erige um único em monumento. Agarra-se pela fotografia. Pretende arrumar-se a memória. Quando dele necessitarmos, está à nossa disposição, arquivado no álbum para nos aclarar a memória.
A linha de montagem da produção não o é só para a mercadoria, é também para a memória. Por todo o lado, em qualquer ocasião, por mais banal que nos pareça, a câmara lá está, pronta a produzir memória. É só carregar no botão.
Também aquele foi único. Único para cada um dos protagonistas. A câmara imortalizou-o. O futuro seria de ausência. É a nostalgia dessa ausência o que reune aquele grupo de homens, com ar sério, solene, numa postura de alguma descontracção fisica, mas de preocupação interior. Nas suas mentes perpassam imagens de separação. Os olhares estão distantes, evitam o confronto com a câmara, como que a recusar um certo mergulhar no seu interior, o desvendar do que lhes vai na alma. Ou evitam o confronto com o futuro, consigo próprios, quando observadores da fotografia. A recusa é esquiva, fugidia. No entanto, ali ficou, consubstanciada. Só dois olhares enfrentam, com frontalidade, essa incógnita.
No limite esquerdo, uma cabeça, quase invisível, espreita. O seu corpo, bem visível, parece nem lhe pertencer, tal é a preocupação de evitar o confronto com a câmara. Aliás, toda aquela área quase parece tentar escapar-se da fotografia. Os tronco que constituem a paliçada como que se sobrepõem aos soldados, tornando-os ainda mais reduzidos. No limite direito, pelo contrário, o alferes em pé, isolado, quase que constitui uma outra unidade significante. Há uma distância física que o separa dos restantes. Não é muita. Possivelmente a câmara não lhe deu tempo de ajustar a pose. Por outro lado sente-se um certo desprendimento, algum desinteresse. Este espaço visível poderá ser o reflexo duma demarcação territorial psíquica, de um menor envolvimento.
Um outro elemento que nos salta à vista é o facto de os únicos três brancos do grupo, o alferes e os dois furriéis, se encontrarem todos em posição de destaque, o que corresponde à realidade hierárquica.
A incorporação no exército traduzia-se num rendimento muito acima da média. Os autóctones, dada a situação de guerra, tinham poucas oportunidades de trabalho, ainda por cima bem remunerado, ali tão longe da capital, nas aldeias praticamente perdidas na mata. Barro fica junto da Mata do Oio, mata praticamente impenetrável, salpicada de pântanos com capim de muito mais de 1 metro de altura, onde os guerrilheiros eram "reis". Terreno de muito difícil acesso em termos físicos e também de difícil penetração em termos militares, necessitava o exército de autóctones, quer como guias, quer como militares que se sentissem à vontade no terreno. As operações no mato necessitavam, para serem bem sucedidas, destes elementos, que, com alguma frequência, estavam do lado dos guerrilheiros. A guerrilha, bem armada, e também com o apoio da população e até de alguns militares incorporados, conseguia um equilíbrio de forças, muitas vezes instável, que levou ao reconhecimento, por parte das chefias portuguesas, de que aquela guerra era um beco sem saída.
Quando, em Janeiro de 1998, "o nosso fotógrafo" volta à Guiné para agarrar um pouco dessa vida perdida no mato, aos 20 anos, e também para arrumar as ideias sobre o livro que iniciou sobre a sua experiência na guerra, lá estava o mesmo chefe de Tabanca (fotografia C), agora com 90 anos, forte como um baluarte na sua coerência, outrora apoiante da guerrilha e do PAIGC, gerindo diplomaticamente a amizade com o militar para mais facilmente "jogar" o xadrez da revolução, agora o ancião, o conselheiro, o sábio, de alguma forma amargurado com os trilhos perdidos após a independência.
E este encontro foi o reviver duma relação de amizade urdida em muitos meses de comunhão de um espaço, sedimentada por uma identidade de valores que, afinal, estavam dos dois lados naquela guerra, sem sentido também para muitos daqueles que a faziam.
Guerra que está presente em ambas as fotografias (A e B). Pressentimo-la pelas fardas, a paliçada, as armas (fotografia B). Mas neste caso a exibição da metralhadora e do morteiro é como que uma espécie de encenação, Ela não me puxa pelo fio das minhas lembranças. O ar despreocupado dos fotografados dá-nos a ideia de que tudo é uma brincadeira e possivelmente em muitos dos momentos assim teve que ser encarada aquela situação de pressão psicológica extrema. A brincadeira com a função de descomprimir, fazer esquecer, para se aguentar a tensão dos momentos de violentação que eram os ataques, e as mortes daí decorrentes. Como observadora, foi a fotografia A que me espoletou a recordação de guerra, a real, não a da História ou das histórias, a guerra dos homens concretos, aquela que nós sentimos, que conhecemos, quando para isso estamos maduros. Até lá, há todo um caminho a percorrer, de muita surdez, ou falta de vista, incompreensão. Porque compreender é ligar, envolver, tomar para nós. E só quando somos capazes de pegar nessa realidade do outro, "amassá-la" com a nossa, deixar levedar como o pão, é que então estamos capazes de entendimento, de compreensão. Processo difícil, longo, que necessita de um grande esforço de deslocação, de descentração, sem no entanto se perder o Norte, "a nossa bússola, a nossa identidade", os princípios, os valores, corporizados fundamentalmente no respeito pelo Outro.
A conjugação do olhar directo com a fuga do olhar, as fisionomias sérias, o olhar carregado, os traços bem marcados do soldado negro, sentado, são sinais de dúvida, de incerteza. As imagens da minha infância agigantam-se. Aos meus ouvidos, o ressoar de "Angola é nossa" ao som abafado de botas a marchar em sintonia. Guerra era aquele som, misturado com mensagens de Natal na rádio e na televisão, e os navios apinhados de homens a largar o cais, e muitas mãos no ar a acenar, e o filho daquela vizinha da minha avó que veio fechado num caixão, tinha eu 10 anos. Ele que nunca tinha saído da aldeia, aos 20 anos atravessou o mar, cruzou os continentes, em busca da morte, lá tão longe. Veio fechado num caixão e nunca mais ninguém o pôde ver. Essa, a ideia que me ficou da morte. Um caixão fechado, misterioso, e a repetição até ao infinito daquele marchar de botas, acompanhado de "Angola é nossa". Na minha cabeça as ideias misturavam-se e assentavam todas naquele bocadinho de mapa, com palmeiras, umas bolas maiores e outras mais pequenas a assinalar as cidades, com mulheres negras com os filhos às costas. E o meu receio era que a guerra saltasse daquele mapa para este outro mapa onde eu estava.
Guerra era ainda aquela voz que mais tarde aprendi que era do Salazar. E era só a voz a encher a rádio, que as palavras não tinham para mim sentido.
A guerra preencheu o imaginário da minha infância.
Mas a guerra só a vi, alguns anos mais tarde. Já não era a guerra da minha infância, quase invisível, de palavras sem sentido. Era a guerra de corpos calcinados, ou feitos em pedaços, de olhos secos raiados de revolta, de silêncios perfurantes como lanças. Era mais uma guerra, absurda, devastadora, única, pelos meios cada vez mais refinados, sempre igual, repetida, pelos efeitos de aniquilação. A geografia desta guerra era outra, as razões sempre as mesmas: impedir que o Outro fosse Outro, cada um conjugando as suas razões.
E a nossa guerra, aquela onde os mortos eram invisíveis, mostrou o seu rosto, pelas mãos da Liberdade. Nessa altura, as fotografias dos horrores deste povo de brandos costumes. invadiram-me a retina: corpos despedaçados, cabeças penduradas em paus. Aquela guerra­ queria dar testemunho de que a morte se pode fazer com as próprias mãos, com prazer ou com raiva, ou com tudo à mistura. Porque a guerra é uma fábrica de morte. A sua essência é o paradoxo. EU-VIDA, OUTRO-MORTE.
Foi esse paradoxo que acompanhou "o nosso herói" nesta guerra. As recordações escorrem-lhe destas fotografias e à mente vêm as visões malditas, enterradas, bem fundo:
O silêncio pesou.
A morte concreta, uma vontade que conjuga a morte porque quer conjugar a vida, a própria.
No teatro de guerra, as cenas sucediam-se. A morte, sempre presente como ideia pairando, era uma realidade, mas aquela morte era um produto do seu disparo.
E muitos mortos aconteceram, fruto de conjugações absurdas.
Perdidos no mato, estão os espíritos dos que não queriam morrer, aos 20 anos, ou até mais novos, se pensarmos nos guerrilheiros, ou mais velhos, que importa. Fundo, nas consciências de cada um, continuam a fazer a guerra, a guerra mais difícil de vencer.
É preciso não calar os espíritos, dar-lhes voz, ouvir as suas razões. É urgente pôr tudo no seu lugar. Fazer regressar os mortos à sua terra, num caixão selado, não dá aos mortos o seu lugar. O seu lugar é nas palavras. Escritas, sulcando o papel. É a catarse. Reproduzidas. Lidas. Regressando à consciência. É a renúncia. Derramada num livro que está em construção para que os mortos ocupem o seu devido lugar.

1 de maio de 2011

131-Encontrei na Guiné o meu professor da primária

Foi em Maio de 1968, quando cheguei à Guiné pela segunda vez e estava em Bissau à espera de ir para o mato novamente. O padre Serafim Gama foi meu professor da instrução primária nas Oficinas de S. José, em Campo de Ourique, Lisboa. Encontrei-o na Guiné como capelão militar.
Como tal não sei como era. Como professor deixou-me saudades, mesmo com as palmatoadas que me deu.
Sei que deixou, mais tarde, a sua "profissão" de padre nos salesianos. Sei que estava num lar na Guarda. Descobri isto, há pouco, no semanário católico regionalista "A Guarda" na sua edição de 27.11.2008:

Faleceu o Padre Serafim Gama 
Faleceu, no dia 22 de Novembro, no Centro de Acolhimento S. João de Deus, na Guarda, o Padre Serafim Gama. Contava 86 anos de idade e 64 de Padre.
Frequentou o Seminário da Congregação Religiosa dos Salesianos, onde exerceu o ministério Sacerdotal, durante 27 anos. Trabalhou no Brasil, incardinado na Diocese de Porto Alegre – Rio Grande do Sul.
Passou os últimos anos na sua Diocese de origem, a Guarda. O funeral realizou-se na Igreja Paroquial de Lameiras, concelho de Pinhel, e foi presidido pelo Bispo Diocesano da Guarda, D. Manuel Felício e com participação de duas dezenas de sacerdotes e muito povo.F
icou sepultado no cemitério da anexa, Barregão, sua terra natal.
Fiquei triste. Mais uma ligação do meu passado que desapareceu. O meu pai, a minha mãe, o meu irmão já foram. Ver que já não temos nenhuma referência viva atrás de nós é a certeza que somos nós agora a referência dos que estão à nossa frente. Deixa-me a pensar. Já comecei a ser passado.

Em Saliquinhedim, K3, na CCaç 1422
© Foto Ex-Alf Mil José das Dores
extraída de "Guerra na Guiné" do Carlos Silva
À minha frente no Bento