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13 de maio de 2011

156-Quem foram e por onde andaram "Os marados de Gadamael"



(Texto de Daniel de Matos)
Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011

“Os Marados de Gadamael” foi a divisa – não muito abonatória, é certo, – escolhida para e pelo pessoal da Companhia de Caçadores Independente nº 3518, formada no Funchal (no Batalhão Independente de Infantaria nº 19/BII19) durante o segundo semestre de 1971 (formalmente, am 15 de Novembro, “destinada a combater no Ultramar nos termos da alínea c) do nº 1 do artigo 20º do Decreto-Lei º 49107, de 7 de Julho de 1969”).
Como companhia “madeirense” (de onde são naturais os soldados atiradores e o capitão miliciano Manuel Nunes de Sousa, – que as praças especialistas e os graduados vieram do Continente), receberia o guião das mãos do presidente da Câmara Municipal de Santana, a 16 de Novembro de 1971[1].
Com destino à Guiné Portuguesa, a companhia embarcou na cidade do Funchal no dia 20 de Dezembro desse ano, às 3 da madrugada (!), tendo chegado a Bissau no dia 24 seguinte (embora já estivéssemos ao largo do rio Geba desde as 23 horas do dia 23, quem poderá esquecer-se de tão bela consoada?). No mesmo paquete, – o Angra do Heroísmo, – e com igual proveniência, viajaram a CCaç 3519 (que iria parar a Barro) e a CCaç 3520 (cujo destino foi Cacine), mais o BCaç 3872, que já embarcara em Lisboa e que viria a instalar-se em Galomaro. Pisámos terras da Guiné a partir das 15 horas.

Passámos o dia de Natal a desfazer malas e no dia 26 registou-se a cerimónia de boas-vindas, presidida pelo comandante-chefe, – General António de Spínola, figura grada entre os soldados, ou não fosse também ele um madeirense (filho de madeirenses, se bem que nascido em Estremoz) e, ainda por cima, um líder – perante quem desfilámos e que em seguida nos passou revista. A 22 de Janeiro de 1972 terminámos o IAO (Instrução e Aproveitamento Operacional) no CMI (Centro Militar de Instrução), situado no Cumeré. No dia seguinte, a bordo de uma LDG, às 19 horas, abalámos do porto de Bissau – ao lado do histórico cais de Pindjiguiti, – para Gadamael Porto.
Após o transbordo em Cacine para uma LDM, (aí se despedindo dos camaradas da irmã gémea CCaç 3520 – “Estrelas do Sul”), e em duas levas de dois pelotões cada, a primeira alcançou o pequeno desembarcadouro de Gadamael, no rio Sapo (afluente do Cacine), pelas 15 horas do dia 24 de Janeiro, onde a companhia ficou uma temporada em sobreposição com a unidade que foi render (a CCaç 2796, que depois marcharia para Quinhamel), integrada no dispositivo de manobra do BCaç 2930, depois do BCaç 4510/72 e, depois ainda, do COP 5 (Guileje).
Juntamente com Os Marados, estiveram em Gadamael os homens do Pelotão de Reconhecimento Fox nº 2260 “Unidos Venceremos” (comandado pelo alferes miliciano de cavalaria Alexandre Costa Gomes e pelos furriéis milicianos Manuel Vitoriano, José Soares, Joaquim Manso, José António Barreiros e António Rio). A 28 de Abril de 1972, após cerimónia de despedida, presidida in loco pelo governador e comandante-chefe Spínola, o pelotão marcha para Bissau, a fim de aguardar aí transporte de regresso à metrópole.
O Pel. Rec. Fox 2260 foi substituído oito dias antes (21 de Abril) pelo Pelotão de Reconhecimento Fox 3115/Rec.8 (comandado pelo alferes miliciano de cavalaria José Manuel da Costa Mouzinho e pelos furriéis Sérgio Luís Moinhos da Costa, Alfredo João Matias da Silva, José de Jesus Garcia e Fernando Manuel Ramos Custódio).
Também em Gadamael, estiveram adidos à companhia o 23º Pelotão de Artilharia, (comandado pelo alferes miliciano de artilharia José Augusto de Oliveira Trindade e pelos furriéis milicianos Armando Figueiredo Carvalheda, António Luís Lopes de Oliveira (este, logo substituído pelo furriel miliciano João Manuel Duarte Costa), e ainda os Pelotões de Milícias 235 e 236. O comandante de pelotão 235 era Mamadú Embaló e os comandantes de secção, Camisa Conté, Abdulai Baldé e Mamadú Biai; o comandante de pelotão 236 era Jam Samba Camará e os comandantes de secção, Satalá Colubali, Amadú Bari e Mussa Colubali. O Camisa Conté, – quanto a mim a mais bem preparada de todas as milícias, de grande inteligência, disponibilidade constante e invulgar simpatia, – morrerá na célebre “batalha” de Guileje, diz-se que num “acidente com arma de fogo”, (ouvimos em Bissau alguém contar que foi a tentar desmontar uma mina AC armadilhada) a 12 de Maio de 1973. Posteriormente, dizem-nos que na mesma tentativa pereceu também o seu camarada Satalá Colubali. Por outro lado, o Jam Samba viria a morrer em combate, dias mais tarde, também em Guileje, a 18 de Maio de 1973.
Nas acções de guerrilha que em Maio e Junho de 1973 viriam a culminar no abandono de Guileje e na tentativa de cerco de Gadamael Porto, morreriam igualmente em combate os soldados milícias do pelotão 235, Corca Djaló, Abdulai Silá e Malan Sambú e, do pelotão 236, o Braima Cassamá. Enquanto estivemos no sul, todos eles acompanharam os pelotões da CCaç 3518 nas patrulhas e demais operações efectuadas. Desses, recordo com maior saudade o Braima Cassamá, que foi meu aluno nas aulas do Posto Escolar Militar nº 23 que funcionou em Gadamael. Eu e o soldado africano Ricardo Lima da Costa  e, mais tarde, com os também monitores escolares, primeiro-cabo Manuel Nuno de Sousa e o soldado António Henrique Paiva Valente, fomos os professores diurnos de perto de quarenta crianças da população. À noite, nas noites em que não estávamos de prevenção ou naquelas em que não teríamos de sair para o mato na madrugada seguinte, demos aulas a uma dúzia de voluntários adultos, praticamente todos da milícia. E como era difícil explicar matérias a quem mal entendia o português! Isto, sem falar noutros assuntos que constavam no programa de ensino, – mas que obviamente não respeitávamos, como o fazer os Africanos empinarem as linhas ferroviárias, (ninguém sabia sequer o que era um comboio), ou as cordilheiras da metrópole (aquelas crianças nem um monte viram ao longo das suas curtas vidas na Guiné)! Na prática, o que todos queriam era aprender a ler e escrever em português (alguns já o faziam em árabe, quanto mais não fosse para lerem a “Tábua de Moisés”). O Braima, excelente rapaz, era dos mais interessados e não me lembro que alguma vez tenha faltado a uma aula. Em separado, devido à compreensão da língua, dei aulas aos soldados. Tínhamos mais de trinta praças da companhia que não possuíam a 4ª classe quando foram incorporados, algumas eram mesmo analfabetas. No final da comissão quase todas fariam o exame e seriam aprovadas (já na escola primária de Bafatá), o que se revelou vital para os seus futuros (muitos soldados pretendiam emigrar para a Venezuela e África do Sul mal se vissem livres da tropa) ou, quanto mais não fosse, para poderem tirar a carta de condução.
Enquanto em Gadamael, o território operacional e os locais de minagem, patrulhamento e montagem de emboscadas foram essencialmente os seguintes: antigas tabancas de Viana, Ganturé, Bendugo, Gadamael Fronteira, Missirá, Madina, Bricama Nova, Bricama Velha, Tambambofa, Jabicunda, Campreno Nalú, Campreno Beafada, Mejo, Tarcuré, Sangonhá, Caúr e Cacoca. A zona fronteiriça com a Guiné-Conacry e a picada para Guileje (estrada que outrora ligava a Aldeia Formosa e ao Saltinho) foram os locais com mais frequente número de operações. Todo o abastecimento por via terrestre às unidades e população instaladas em Guileje se efectuava, durante a estação seca, através de colunas efectuadas a partir de Gadamael Porto, sendo o nosso pessoal responsável não só pelas viaturas que transportavam para Guileje os géneros que os batelões descarregavam em Gadamael, mas também pela segurança de metade do percurso. Por diversas vezes, pelotões da companhia, o pelotão Fox e os pelotões da milícia passaram temporadas em reforço das unidades locais (como, por exemplo, da CCaç 3477, “Os Gringos de Guileje”, até Dezembro de 1972, e a CCav 8530, na parte final da nossa estada no sul).
Ao recordar aqui quem connosco palmilhou longas distâncias em patrulhamentos, montou emboscadas e alinhou em segurança a colunas no sul da “província ultramarina”, seria injusto não mencionar os guias (suponho que havia dois), mas muito especialmente o Queba Mané, expoente máximo em simpatia e disponibilidade fosse para o que fosse, e de grande resistência física, pois num africano os cabelos brancos denunciam muitas vezes a avançada idade e nunca dei por que se sentisse fatigado. Uma ou outra vez o capitão enviou-o sozinho ao outro lado da fronteira, com a missão de recolher informes sobre a presença, guarnição e movimentações IN. Contornava sem dificuldade as armadilhas que eu e o Ângelo Silva tínhamos sempre montadas no caminho (algumas dezenas em toda a zona operacional).
Outros homens importantes foram os caçadores nativos, à conta dos quais nos deliciámos inúmeras vezes com peças de caça, especialmente os bifes de gazela de tão boa memória. Um deles era o experiente nº 4/65, Aliú Jaló; o outro, Ussumane (Baldé?), que viria a distrair-se e a pisar uma mina antipessoal já perto do cruzamento de Ganturé (debaixo de um velho e já meio ressequido limoeiro bravo). Certa altura, ao cair da noite, ouvimos um rebentamento que logo identificámos como proveniente de um desses engenhos.
Aconteceu muitas vezes sentirmos rebentamentos originados pela passagem de animais (os de maior porte) que pisavam minas ou accionavam armadilhas e morriam. Por exemplo, uma hiena – em vão, ainda tentámos alimentar durante uns dias, com leite em pó, um dos filhotes que sobreviveu ao rebentamento; um leopardo, – infelizmente para o Lopes Silva, que bem tentou “baratinar” o Camisa Conté a retirar-lhe a pele para mandar curtir e enviar à namorada, mas já tinham passado três ou quatro dias quando lá fomos e naquele estado de decomposição o persuadido negou-se; houve pintadas (galinhas-do-mato) que arrastaram fios-de-tropeçar, e, num belo dia, ao fundo da pista velha, um lindíssimo e corpulento gorila sucumbiria aos ferimentos duma mina AUPS.
Na manhã seguinte, bem cedinho, a família de Ussumane (tinha várias mulheres) entrou pelo aquartelamento dentro a reclamar que o fôssemos buscar a Ganturé, pois de certeza teria sido ele, saído na caça, quem accionara a mina. Lá me levantei da cama, mobilizei uma secção do 2º pelotão e fui a esfregar os olhos picada adiante, com as mulheres a algaraviar atrás de nós (infrutíferas as tentativas para que se calassem ou nos ficassem a aguardar pelo caminho). No local não encontrei corpo algum, só um monte cintilante de formigas negras e luzidias. Depois de as vergastarmos com arbustos e ramos de árvore é que começou a aparecer o corpo do caçador. Tinha um pé amputado e devia ter perdido muito sangue durante a noite. Porém, a expressão com que se finou sugeria que a causa da morte devia ter sido a asfixia, devido aos milhões de formigas que se apoderaram do corpo ainda vivo mas imobilizado no chão, cobrindo-o literalmente.
Há muito esperados, chegaram em três lanchas os homens da rendição, era o dia 8 de Fevereiro do ano da graça de 1973! Os periquitos ficaram connosco durante um período de sobreposição. Assim, fomos rendidos no subsector de Gadamael pela CCaç 4743/72, de origem açoriana, comandada pelo capitão miliciano de infantaria, Manuel Bernardino Maia Rodrigues, Seguimos para Bissau no dia 4 de Março, a partir das 7 horas (a bordo de uma LDG), onde efectuámos também um período de sobreposição e rendemos a CCaç 3373. Os Marados de Gadamael passaram a efectuar a protecção e segurança das instalações e populações da área e a colaborar em escoltas a colunas de reabastecimento a Farim. Uma dessas colunas, envolvendo dois pelotões nossos, “estendeu-se” a Binta e a Guidaje, aí permanecendo sitiada durante quinze dias.
É a memória testemunhal, e também opinativa, desses longos dias, que vou tentar transcrever nas páginas seguintes. Tentarei integrá-la no contexto histórico que se vivia na Guiné no já longínquo mês de Maio de 1973, embora a generalidade das explicações se destine, como é óbvio, sobretudo àqueles que por lá não passaram e nunca tiveram qualquer familiaridade com a Guiné nem as causas e efeitos da tão dura quanto injusta e desnecessária guerra que ali se travou. Algumas das unidades (ou partes delas) com quem os dois pelotões da CCaç 3518 estiveram, ou com quem se cruzaram durante tão malfadado período: Companhia de Caçadores 19 (africana, sediada em Guidaje, criada em Dezembro de 1971), Companhias de Caçadores nº 3, nº 14 (também africanas), Companhia de Comandos nº 38, Pelotão de Artilharia nº 24, Companhia de Caçadores Pára-quedistas nº 121, Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 4, Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 7, Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 1, Pelotão de Morteiros nº 4247, Batalhão de Caçadores 4512, Companhia de Cavalaria 3420, Companhia de Caçadores sediada em Cuntima, Batalhão de Comandos Africanos e Grupo Especial do Centro de Operações Especiais do alferes Marcelino da Mata (entretanto, coronel na reserva).
A companhia viria a ser substituída a 5 de Julho de 1973 no subsector de Brá (COMBIS) pela CCaç 3414, tendo sido transferida para Bafatá na semana seguinte (dia 11) a fim de substituir a CCav 3463. A 13 de Julho de 1973 (dia do meu 23º aniversário em que exagerei nos festejos, estando de sargento de dia, e em que ia sendo preso, mas isso é outra história!) a companhia assumiu a responsabilidade do subsector de Bafatá e, cumulativamente, a função de intervenção e reserva do BCaç 3884, tendo ainda actuado em reforço de outros sectores da Zona Leste, por períodos curtos. Os quatro pelotões da companhia estiveram frequentemente deslocados e reforçaram temporariamente unidades das regiões vizinhas (missões de serviço com as companhias do BCaç 3884, CCaç 3549, BArt 6523/73, CCaç 3548, CAOP 2, etc., mantendo actividade operacional nomeadamente em locais como Contuboel, Geba, Sonaco, Sare Banda, Xime, Xitole, Alimo, Canquelifá, Sare Bacar, Ponta Guerra, Porto Gole, Bambadinca Tabanca, Cheque, Cantauda, Bigine/Colufe, Maum de Meta, Cheual, Bajocunda, Sincha Bakar, Ponta Luís Dias, Enxalé…
Entre 15 e 22 de Dezembro de 1973 os quatro pelotões participaram nas grandes operações “Dragão Feroz” e “Tudo Verde”. Na primeira, estivemos com o BArt 3873, CArt 3493 (então, em Fá Mandinga), CCaç 12, CCaç 21 (de Bambadinca, na altura comandada pelo tenente Jamanca), 20º e 27º pelotões de artilharia (10,5 e 14) e os Gemil’s 309 e 310; na segunda, todas com quatro grupos de combate, participaram ao nosso lado a CArt 3494, mais uma vez as CArt 3493 e CCaç 21, bem como o 27º pelotão de artilharia (14 mm), instalado em Ganjuará. Nestes dias de emboscadas, golpes-de-mão e combates causaram-se baixas ao IN (um morto e vários feridos confirmados e, a julgar pelos rastos de sangue abundantes, mais mortes não confirmadas) e capturou-se algum material (por exemplo, uma espingarda semi-automática Simonov). Houve dois feridos graves das NT, evacuados de helicóptero, que não pertenciam à nossa companhia. No percurso Mansambo/Jombocari/Mina, vários soldados foram vítimas de intoxicação alimentar, e vários deles desmaiaram, devido à má qualidade da ração de combate (nº 20) que lhes tinha sido distribuída. O principal objectivo da segunda operação seria destruir um suposto hospital IN que, diziam as informações, estaria a funcionar em Fiofioli (de facto, antiga base guerrilheira, ainda nos anos sessenta). Todavia, quando após várias peripécias chegámos ao destino, nada se confirmou, nem sequer havia quaisquer vestígios IN no local.
Estas informações, geralmente não se obtinham através dos serviços especializados do exército, era a PIDE/DGS que dizia obtê-las através de informadores próprios. A polícia política praticamente determinava as operações que as forças armadas deveriam efectuar. À excepção do chefe Allas, – que há quem diga ter sido tecnicamente competente nesse domínio (por se comportar mais como militar do que como polícia), – pelo menos na região de Bafatá, enquanto lá estivemos, as informações vindas daquelas bandas revelaram-se na esmagadora maioria das vezes uma grande treta, falsas ou ineficazes, criadas provavelmente só para mostrar serviço. O certo é que bastava qualquer agente “botar faladura” no comando operacional que esta, em vez de mandar confirmar as tais fontes, fazia a vontade à corporação e lá íamos nós feitos otários à pesca de cubanos e gajos loiros no mato, à cata de “armazéns do povo” e hospitais, como quem vai aos “gambuzinos”… Também dizem os especialistas que a polícia política teve, durante determinados períodos, alguns informadores e agentes infiltrados nas fileiras do PAIGC, inclusive em contacto ou com acesso aos mais altos responsáveis do partido, (e isso viria a confirmar-se a propósito do assassinato de Amílcar Cabral, a 20 de Janeiro de 1973, em Conacry), mas nós ficámos sempre com a ideia de que os informadores a um nível mais baixo deveriam ser muito fraquinhos. Na Guiné, a PIDE tinha uma delegação em Bissau, sub-delegações em Bafatá, Mansoa, Bissorã, Bula, Teixeira Pinto, Cacheu, Farim, Cuntima, Cambaju, Sare Bacar, Pirada e Nova Lamego, e ainda postos em São Domingos, Ilha Caravela e Cacine. Os quadros nem eram muitos (entre 75 e 85 no ano de 1973): cinco inspectores e inspector adjunto, dois subinspectores, sete chefes de brigada, dezoito agentes de primeira classe, vinte e oito de segunda e estagiários, quatro motoristas e três guardas prisionais. Possuía ainda meia dúzia de funcionários técnicos (rádio-montadores e rádio-telegrafistas), outros tantos contínuos e serventes, além de quatro escriturários para as folhas de caixa e processamento de salários, subsídios extraordinários e ajudas de custo. Depois, é claro, havia uma rede de informadores e, para sua vergonha, os comandos militares tinham instruções rigorosas de como proceder com eles (na Guiné, instruções dimanadas da Directiva 63/68.SECRETO.AM). Em suma, “autóctone que se apresente para prestar informações exclusivamente à PIDE/DGS deve ser considerado informador secreto, canalizado para o agente local ou, não existindo, deve-se providenciar o transporte para Bissau e entregá-lo na delegação desta polícia”. É expressamente proibido fazer interrogatórios a estes informadores! Ao arrepio dos interesses e da estratégia militar, a PIDE chegou a ser considerada responsável por provocações sangrentas com o objectivo de criar ondas de terror e responsabilizar o PAIGC. Em Novembro de 1965, em Farim, teria mandado lançar uma bomba para o meio de uma festa popular, provocando a morte de uma centena de pessoas, para colocar a culpa nos “terroristas” e revoltar os cidadãos locais. A propaganda, ou notícia de choque sobre a “explosão terrorista”, chegou à opinião pública internacional, mormente através das páginas do New York Times… Os serviços de “Informações e Operações de Infantaria” revelaram-se muito mais eficientes na observação dos movimentos IN, enviando às “zonas libertadas” ou aos outros lados das fronteiras, milícias, caçadores nativos, guias, etc., até a pretexto de irem visitar familiares e, no regresso, ficávamos a conhecer, por exemplo, o número de efectivos, as deslocações havidas, o armamento recebido. Aliás, o PAIGC fazia rigorosamente o mesmo, no sentido contrário. 
Nos dias seguintes (23 a 31 de Dezembro de 1973) a companhia executou o plano “Bafatá Impenetrável”, do BCaç 3884, que contou com diversas operações, e, já em 1974, na mesma zona de acção, as operações “Garota Nua”, “Madeirense Teimoso”, “Zorro Galante”, “Indomáveis Patifes” e “Leme Seguro” (cito apenas as operações em que participámos lado a lado com outras unidades e não todas as que efectuámos ao longo da prolongada comissão de mais de 27 meses).
Embora terminando a comissão em Outubro de 1973, após diversas datas prováveis para o regresso ao Funchal, (sempre com a frustração do desmentido posterior), a 15 de Fevereiro de 1974 fomos rendidos pela CArt 6252/72, recolhendo ao Cumeré para aguardar o regresso. Juntamente com as unidades que em finais de 1971 a tinham acompanhado na viagem para a Guiné (CCaç 3519, CCaç 3520 e BCaç 3872), a CCaç 3518 embarcaria no paquete Niassa a 28 de Março, com destino à Madeira, onde desembarcou a maior parte das praças e o capitão, tendo o pessoal do Continente alcançado a Rocha do Conde d’Óbidos (Lisboa) ao romper do dia 4 de Abril de 1974.



[1] Houve também entre os “Marados” dois açorianos e dois guineenses: o furriel miliciano Nuno Álvares Brasil Pessoa, – que faleceu depois do regresso à ilha natal de S. Jorge; vindo em rendição individual, em 27 de Julho de 1972, o soldado atirador António Henrique Paiva Valente, de Santa Maria, então como hoje, distinto locutor do Clube Asas do Atlântico, em Vila do Porto; o guineense, de ascendência cabo-verdiana, Florentino José Lopes de Almeida, (para os amigos, o Fontino), furriel miliciano de operações especiais; e ainda o soldado Malan Seidi, – veio transferido da CCaç 3.

155-Quem esteve cercado em Guidage conta como foi

O meu amigo Daniel de Matos (faleceu, infelizmente, no dia 13 de Novembro de 2011) esteve integrado na CCAÇ3518, que esteve primeiro em Gadamael, nada pêra doce, pelo que, passados tempos, foram transferidos para Bissau ficando às ordens do Comando Chefe. Nessa situação calhou-lhe integrar uma coluna de reabastecimentos a Guidage. Azar, chegaram lá e aquele aquartelamento foi cercado. Ele conta aqui o que ele e os seus camaradas passaram durante o cerco.
(Clicar em "full", em baixo a direita, para ver em ponto grande)
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É um texto extenso, 95 páginas, por isso o publico desta forma. Mas irei, aos poucos, destacando algumas partes que me parecem mais importantes.
Este texto já foi, na sua maioria, publicado no blogue "Luís Graça e camaradas da Guiné. Mas o Daniel achou por bem publicá-lo nesta forma, que ele pensa poderá ser um livro para eventual publicação.

10 de maio de 2011

152-A tal "Conferência de Berlim"

In "Diário da História de Portugal", de José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra



Por causa das decisões tomadas nesta Conferência pelas outras potências coloniais, Portugal teve de incentivar a luta contra os "gentios" da Guiné, a fim de garantir a efectiva ocupação do território.

151-Campanhas para dominar o "gentio" da Guiné - II

Retirado da "História do Exército Português", do General Ferreira Martins, publicada pela Editorial Inquérito, em 1945.

A despeito de todos os esforços e sacrifícios feitos, nos últimos anos do século XIX e primeiros do século XX, para a ocupação definitiva da Guiné, muito longe se estava ainda cm 1910 de conseguir a submissão de todos os guinéus, por sua natureza rebeldes, e de se cumprir, portanto, o encargo imposto pelo Congresso de Berlim[1]. Foi precisamente depois de implantada a República que maior incremento tomou a actividade militar dos portugueses na Guiné.
O primeiro governador da colónia, no novo regime, foi o oficial de Marinha Carlos Pereira[2], que começou por mandar demolir as muralhas de Bissau, como se as considerasse inúteis para continuarem a defender a praça, acto este que surpreendeu o gentio ma não modificou as suas normais atitude de rebelião.
Logo em Fevereiro de 1912 teve esse governador de organizar uma coluna de operações para castigar o gentio revoltado. E a coluna, em que tomaram parte, além de forças regulares da colónia, numerosos voluntários civis, sob o comando do capitão de infantaria Botelho Moniz[3], bateu primeiramente o gentio na região de Binar, passando em seguida para Cacheu, destruindo as povoações de baiotes, que no caminho para Jobel lhe ofereceram resistência, e em 4 de Abril chegava a Elia onde os rebeldes foram severamente castigados. Dirigiu-se depois à povoação do régulo, impondo-lhe a restituição de artigos roubados pelo gentio, o que conseguiu sem o emprego da força, recolhendo a coluna a Bissau com a sua missão cumprida. Passados seis anos, nova rebelião dos baiotes levava a Cacheu, em Outubro de 1918 ,uma pequena coluna, sob o comando do capitão António Douwens, que, travando combate com os rebeldes de Varela e Catão, lhes infligiu numerosas baixas, dirigindo-se em seguida ao posto de Cassolol, onde recebeu durante alguns dias a apresentação dos grandes das povoações castigadas.

A VALOROSA ACTIVIDADE DE TEIXEIRA PINTO[4]

Foi no Oio que mais rudes foram as operações militares con­duzidas pelo capitão Teixeira Pinto desde 1913, e que trouxeram a este bravo oficial o enorme prestígio de que gozou entre o gentio da Guiné. A índole guerreira e o espírito agressivo do gentio de Mansoa e do Oio, manifestando-se persistentemente em ostensiva insub­missão à autoridade portuguesa, levaram o governo da colónia a organizar em Março de 1913 uma coluna de operações para os castigar, confiando o seu comando ao capitão Teixeira Pinto que, chegado da Metrópole em Setembro do ano anterior, tinha, nos cinco meses de­corridos, percorrido o Oio em disfarce de comerciante, e reconhecido assim essa região até então quase total­mente desconhecida dos portugueses.
Composta somente por 400 irregulares indígenas, do régulo, então amigo, Abdul-Injai[5], com uma peça de artilharia, e com a colaboração das lancha Flecha e Zagaia e do administrador de Geba com 80 homens armado, a coluna bateu-se galhardamente com o gen­tio de Mansoa, de 29 de Março a 22 de Abril, e depois com os do Oio, de 14 de Maio a 16 de Junho, instalando os postos militares de Porto Mansoa e de Mansabá, este na região do Oio. Foram sobretudo renhidos os combates de Mansoa e na tabanca de Mansoadi, mas o inimigo (oincas e balantas) acabou por desmoralizar-se, e submeteu-se com­pletamente vencido.
No ano seguinte, é o mesmo valente oficial que, quase só com irregulares de Abdul­-Injai[6] e de Mamadú-Sissé[7], também amigo, vai a Ca­cheu bater o gentio do Xuro, que revoltado tinha chacinado o administrador, alferes Nunes, e parte da tripulação do Cacine.
Depois de marchar oito horas debaixo de fogo a caminho do Xuro, acampou à noite, e no dia seguinte atingiu o local da chacina, donde o gentio tinha já fugido para Bagulho. Aí foi encontrá-lo a coluna, batendo-o completamente e destruindo-lhe a povoação, rigoroso castigo imposto aos rebeldes manjacos e brames.
Passava-se isto em Janeiro de 1914, e logo em Fevereiro os balantas de Braia trucidavam traiçoei­ramente o alferes Manuel Pedro e o seu pelotão de cavalaria (nem os cavalos escaparam aos machetes in­dígenas!), quando, à boa paz, esse oficial se dirigia ao rio Banubi a escolher local para o lançamento de uma ponte. Do comando militar de Mansoa, onde se ouviu o tiroteio, saiu o 2.° sargento Romualdo Lopes com uma força que, no trajecto para o local donde vinha o rumor, encontrou duas praças do pelotão, escapadas à chacina, que o informaram do que se passava. O sargento continuou a marcha no intuito de recolher os cadáveres dos camaradas, mas ainda ali encontrou os rebeldes que o atacaram, conseguindo pô-los em fuga depois de vivo tiroteio.
Foi ainda o capitão Teixeira Pinto o encarregado de vingar os desditosos camaradas trucidados. E mais uma vez, ele cumpriu briosamente a sua missão, numa demorada campanha de seis meses , em que lutou implacavelmente com o inimigo infligindo-lhe uma série de derrotas  sucessivas com enormes perdas, arrasando povoações, destruindo-lhe as tabancas em que punha as maiores esperanças de resistência, enfim, terminando essas operações com a pacificação definitiva de toda a re­gião balanta entre Mansoa e Geba.
Crescia o prestígio de Teixeira Pinto, que o governo da colónia aproveitou para em 1915 submeter definitivamente os papeis e gru­metes da ilha de Bissau que, sempre rebeldes em acatar a autoridade portuguesa, nem consentiam o arro­lamento das suas palhotas, nem se sujeitavam ao pagamento do im­posto.
Umn numerosa coluna, em que ainda os irregulares tinham a maioria (1.500, dos quais 200 cavaleiros), sob o comando daquele valo­roso oficial, travou com o gentio rebelde os renhidos combates de Intim e Bandim, cujas posi­ções foram tomadas, depois de um bombardeamento de artilharia lançado da praça. E logo, na sua vertiginosa marcha, Teixeira Pinto ataca Antula, Jaal e Safin, lutando sempre com a inaudita resistência do gentio, que frequentemente contra-ataca.
No combate de Safin o bravo capitão é ferido e recolhe à praça de Bissau. Mas a coluna aproveita do seu vigoroso impulso, e, sob o comando do tenente Sousa Guerra, continua o avanço e toma de assalto outras posições do gentio.
Regressa Teixeira Pinto ainda convalescente, retoma o comando, e prossegue tomando novas povoações. Combate na tabanca do Biombo onde "se livra providencialmente de um ataque traiçoeiro que lhe fora armado." E finalmente, depois de dois meses de operações, em que as forças de Teixeira Pinto tinham sofrido 47 mortos e 202 feridos, podia o glorioso capitão juntar mais uma vitória à já notável lista dos seus feitos: a ilha de Bissau estava submetida de vez à soberania portuguesa.
As operações de Teixeira Pinto, na Guiné, são um exemplo flagrante do muito que se pode conseguir do serviço dos irregulares das colónias, quando bem comandados, e melhor ainda, naturalmente, das tropas regulares indígenas, sem recorrer às dispendiosas expedições militares da metrópole.
Em 1919 Abdul-Injai, elevado a régulo do Oio em recompensa do relevante serviços que tinha prestado aos portugueses com a sua gente de guerra, nas campanhas de Teixeira Pinto, abusa da sua autoridade, exigindo trabalho e multas aos chefes indígenas das povoações limítrofes do seu regulado, e acaba por se apoderar violentamente das armas que a administração tinha distribuído aos indígenas de Cuhor. Sucedem-se os abusos do autoritário e prestigioso régulo, até que o Governo da colónia, deixando de tomar em conta os seus serviços passados, o trata como inimigo, como agora merecia, e resolve atacá-lo.
Uma coluna de polícia sob o comando do capitão Augusto de Lima Junior, depois de vivo combate em 3 de Agosto, conseguia apoderar-se de Abdul-lnjai e dos seus grandes, que no desterro, em Cabo Verde, sofreram a punição da sua deslealdade.
Custara-nos, no entanto, a sua prisão a vida do alferes Afonso Figueira e de 9 praças caídas em combate. Eram mais dez vítimas - desta vez, brancos portugueses - a acrescentar às muitas que o famoso Abdul-Injai sacrificou à sua ferocidade, quando, ainda como amigo, punha a sua bravura e o seu prestígio ao serviço de Teixeira Pinto, de quem fora, na verdade, o mais prestimoso auxiliar.
Depois das gloriosas campanhas do intrépido Teixeira Pinto, apenas restava por dominar na Guiné a ilha de Canhabaque[8].
As operações de 1917, comandadas pelo major Ivo Ferreira, contra o gentio revoltado dessa ilha, duraram oito meses em permanente luta[9], sendo tomadas ao inimigo as tabancas principais[10], e consagrando-se a vitória com a instalação de dois postos em Bine e ln-Orei, e com a assinatura de um auto de submissão, assinatura platónica, submissão apenas aparente, porque os actos de rebeldia e de banditismo continuaram. A tal ponto que em 1925 o novo governador, Velez Caroço[11], se viu forçado a realizar novas operações na ilha, onde travou combates, des­truiu povoações, apreendeu armas e munições, parecendo que o castigo tinha sido desta vez mais duro e porventura mais duradouro nos seus efeitos. Pura ilusão! A derrota dos canha­baques fora ainda desta vez efémera, e em 1933 um relatório do director dos serviços e negó­cios indígenas da Guiné acentuava que o novo governador, Carvalho Viegas[12], se veria "nova­mente a braços com o célebre problema, que é uma mancha de desprestígio para o nosso domínio militar e coloniaL"
Foi este governador que, comandando pessoalmente as operações realizadas em 1935-36 (operações cuja descrição não tem aqui cabimento porque a sua época excede o limite imposto a esta obra) conseguiu dominar definitivamente os canhabaques, domínio garantido por factos até então não verificados na ilha, e que demonstram o “perfeito reconhecimento da soberania nacional e respeito por ela."
Justo é registar esta valorosa acção do governador Carvalho Viegas, porque, não só a sua campanha de Canhabaque acabou de pacificar toda a Guiné, como "escreveu honrosamente a palavra Fim em matéria de ocupação das colónias portuguesas," na frase justa e feliz do Dr. Fernando Emídio da Silva, numa sua notável conferência na Sociedade de Geografia de Lisboa.




[1] A Conferência de Berlim de 1885 exigiu que só havia soberania nas colónias desde que estas fossem ocupadas militarmente. Em Dezembro de 1911 os alemães manifestaram novamente interesse nas colónias portugesas chegando mesmo, em Agosto de 1913, a um acordo com os ingleses para a divisão das colónias portuguesas. Esse acordo só não foi assinado e implementado porque surgiu a  I guerra mundial (nota minha)
[2] 1º tenente da Marinha Carlos de Almeida Pereira, governador da Guiné de 23 de Outubro de 1910 a Agosto de 1913 (nota minha)
[3] José Carlos Botelho Moniz, pai do general Júlio Botelho Moniz, que tentou um golpe contra Salazar. (nota minha)
[4] José Teixeira Pinto, capitão de Infantaria, nasceu em Angola em 1876. Combateu com Alves Roçadas em 1905 e 1907. Esteve na Guiné de 1912 a 1915. Depois de regressar a Portugal foi para Moçambique em 1917, tendo morrido, como major, em Novembro desse ano em luta contra os alemães em Negomano. (nota minha)
[5] Abdul-Injai era balanta, os 400 irregulares eram balantas (nota minha)
[6] Eram 500 balantas (nota minha)
[7] Mamadú-Sissé era oficial de 2ª linha, comandava  200 balantas nesta acção (nota minha)
[8] Nos Bijagós (nota minha)
[9] Foram, além disso, atacados por uma epidemia de beribéri  (nota minha)
[10] Inorei e Meneque (nota minha)
[11] José Frederico Velez Caroço, governador da Guiné de 1921 a 1926 (nota minha)
[12] Luís António de Carvalho Viegas, governador da Guiné de  1032 a 1940 (nota minha)

9 de maio de 2011

150-Campanhas para dominar o "gentio" da Guiné - I

Retirado da "História do Exército Português", do General Ferreira Martins, publicada pela Editorial Inquérito, em 1945.
Luís Augusto Ferreira Martins, Nasceu em Lisboa, a 7 de Abril de 1875 e morreu em Algés em 26 de Junho de 1967.
 Frequentou o Colégio Militar, ingressando na Escola Politécnica de Lisboa, onde preparou a admissão à Escola do Exército, tendo concluído o curso de Artilharia e o de Estado-Maior. Em 1897 participou na campanha de Moçambique, regressando a Portugal em 1898. Em 1906 passou para o Estado-Maior do Exército. Foi nomeado Sub - comandante do estado-maior do Corpo Expedicionário Português enviado para a Flandres, no Norte de França, em 1917 durante a Primeira Grande Guerra. Terminado o conflito foi nomeado chefe do estado-maior do Campo Entrincheirado de Lisboa. Comandou o regimento de infantaria n.º 5, e a (1929-1933), a Escola Central de Oficiais. Foi a partir de 1938 vogal do Conselho Superior do Exército. Entre a sua vasta obra, além da "História do Exército Português", destacam-se os livros: Jogo de Guerra simplificado, em 1911; Portugal na Grande Guerra, em 1935, obra colectiva que dirigiu; O poder militar da Grã-Bretanha e a aliança anglo - lusa, em 1939. Foi um defensor da causa de Olivença..
"Gentio" era aquele que não professava a religião cristã, ou era pagão.



GUINÉ




São naturalmente insubmissos todos os povos negros que ocupam a Guiné Portuguesa, por muito diferentes que sejam, como de facto são, as suas origens, os seus caracteres, e os seus costumes mais ou menos belicosos. Daí resultam as inú­meras campanhas que os portugueses se viram forçados a realizar nessa possessão africana, para manterem nela a sua soberania; e o período de que estamos tratando foi relativamente fértil em lutas dessa natureza, que sucintamente apontaremos.



Sucessivamente, em 1844 e 1853, foram os grumetes e os papeis que se sublevaram ata­cando a antiga e mal guarnecida fortaleza de Bissau, tendo de intervir em auxílio das reduzi­das forças da defesa, de uma e outra vez, as guarnições de navios franceses, que muito contri­buíram para evitar o desastre das armas portuguesas.
Em 1871, numa rebelião de grumetes de Cacheu, perde a vida o governador Álvaro Caldeira, mas logo uma força portuguesa, num severo recontro em Cacanda, castiga o rebeldes assassinos.
Os anos de 1874 a 1879 são infelizes para os portu­gueses. Avultam neles o massacre de Bolor, em que indígenas da raça felupe chacinam uma força de 50 soldados e dois oficiais, e o desastre de Nhaera, em que ficaram impu­nes os balantas revoltados, por insuficiência das forças portuguesas, muito inferiores em número às dos revoltosos. Em compensação foram coroadas de êxito as acções em­preendidas nos anos seguintes: contra os fulas no seu ataque à praça de Buba em 1880, contra os fulas e futa-fulas de Forreá em 1882, contra os biafadas em 1883, e contra o gentio de Cacanda em 1884, sob o comando, respectiva­mente, dos oficiais Manuel Pedro dos Santos, Francisco José da Rosa, Eusébio Castela do Vale e Geraldo Victor.
Em 1886[1] foi renhida a campanha contra o régulo Mus­sá-Molo que atacou as populações de Geba, sendo dominado pelas forças do tenente Marques Geraldes, do quadro colonial, desfazendo-se a lenda que reputava invencível aquele régulo rebelde, sendo por esse facto promovido aquele ofi­cial a capitão por distinção. Novas operações se desenrola­ram em Geba nos anos de 1889 a 1891, sendo particular­mente importantes as que tiveram por comandante o capitão Zacarias de Sousa Lage, cujas forças, depois de ali terem dominado os rebeldes do régulo Mali-Boiá em recontros sangrentos, tiveram ainda energia bastante para socorrerem a praça de Bissau que na mesma ocasião se defendia, mais uma vez, contra os papeis. Esta defesa de Bissau em 1891 custou a vida, numa surtida infeliz, a dois capitães portugueses Joaquim Carmo de Azevedo e Nozolino de Azevedo, ao tenente Jorge de Lucena e ao alferes Honorato Moreira.
Mais uma vez, em 1892, o capitão Sousa Lage, "oficial destemido, temido e temível", como dele disse um seu camarada que o conheceu in loco, teve de comandar novas operações contra o Mali-Boiá que, tendo conseguido fugir em 1890 para território francês, regressava à Guiné e sublevava o gentio que lhe era afeiçoado, hostilizando povos que eram fieis aos portugueses. A campanha foi difícil, mas acabou por um violento castigo aos povos revoltados pelo régulo insubmisso.
Na madrugada de 8 de Dezembro de 1893, a praça de Bissau, que tinha então por guarnição uma das três companhias de polícia que constituíam a força armada do distrito autónomo da Guiné portuguesa (as outras duas guarneciam Bolama e Geba), foi atacada pelos papeis, cujo fogo incidiu sobre o baluarte da Balança. Apoiada pelo canhão-revolver da canhoneira Flecha, a praça res­pondeu vigorosamente, sustando o assalto. Repetido o ataque à tarde, foram de novo repelidos os papeis pelo fogo certeiro de uma metra­lhadora manejada pelo capitão Pessoa, e das peças da cortina e do baluarte da Onça, apoiado pela ca­nhoneira liberal, que neles fez apreciável ceifa.
Bissau continuava, porém, a ser constantemente inquietada pelos papeis, tornando. Se quase impossível aos portugueses "afas­tarem-se das muralhas sem correrem o perigo de um vexame", como escreveu Constantino Lima, ao tempo comandante da Flecha. Só os grumetes (papeis cristãos) podiam sair impu­nemente da praça.
Em 1894, para tentar mais uma vez domi­nar os rebeldes papeis, foi enviada de Lisboa uma companhia de guerra de Marinha, a pedido do governador, coronel de artilharia Vascon­celos e Sá, que pessoalmente comandou as opera­ções e as suspendeu ao fim de oito dias "julgando suficiente o castigo infligido", quando, de facto, só tinha conseguido a tomada de lntim pela companhia de Marinha, e o bombardeamento de Bandim e Antule pela artilharia dos navios.
Menos felizes foram, também, as operações que, sob o comando do tenente Graça Falcão, se efectuaram em Oio e Farim em 1897. Este oficial por duas vezes foi atraiçoado pelos auxiliares indígenas, que lhe fugiram com armas e munições, criando-lhe a difícil situação de se defrontar em notável inferioridade de forças com os rebeldes daquelas regiões, conseguindo da primeira vez retirar sem grandes perdas, mas não podendo evitar, da segunda, que o inimigo lhe trucidasse uma parte da sua pequena coluna, morrendo o tenente António Caetano e o a!feres Luiz António, e escapando da morte, quase por milagre, o próprio comandante.
Com a ocupação da ilha de Canhabaque, dirigida pelo 1.º tenente da Armada Bernardo Diniz Ayala, e levada a efeito, já em 1900, por uma força de irregulares transportada pela canhoneira Massabi, que previamente, auxiliada pela Flecha, bombardeou a ilha, terminaram na Guiné a lutas com as várias tribos rebeldes, que no século xx viriam a repetir-se, como adiante se verá.



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AS PRIMEIRAS OPERAÇÕES NO SÉCULO XX

Logo no começo do século xx, sendo governador da Guiné o 1º tenente de Marinha Judice Biker, teve ele de reprimir as revoltas dos gentios de Jafunco[2] (1901) e do Oio (1902), utilizando as poucas tropas de que dispunha e a valiosa cooperação das canhoneiras que prestavam serviço nas suas águas, e fazendo ainda colaborar auxiliares indígenas das regiões submissas. De idênticos elementos se serviu o novo governador Soveral Martins[3], também ilustre oficial de Marinha, antigo colaborador de Mouzinho em Moçambique, quando em 1904 se sublevou o gentio do Xuro (Cacheu), investindo regiões já submetidas à autoridade portuguesa e procurando contagiá-las da sua rebelião.
Todas essas operações foram conduzidas com o desejado êxito mas, como dantes, não completadas por uma ocupação efectiva suficientemente sólida, não conseguiam garantir o domínio das regiões castigadas. Bem disse o marechal Bugeaud: "Em Africa uma expedição não seguida de ocupação, não deixa mais vestígios do que o sulco de um navio no oceano”.
Os indicios de próxima rebelião eram manifestos, em diversas regiões da Guiné, nos últimos meses de 1907, quando já governava a Província outro oficial de Marinha, que tanto se distinguiu: o então 1º tenente Oliveira Muzanty, a quem se deve a ocupação da ilha Formosa, do arquipélago dos Bijagós. Compreendendo que nada poderia fazer, com carácter definitivo,  apenas com as escassas forças da Guiné, tratou o novo governador de requisitar tropas da metrópole para empreender com elas as operações necessárias para dominar a rebelião em perspectiva.
Enquanto o governador aguardava a chegada da expedição metropolitana, manifestou-se ostensivamente a revolta de alguns povos na margem esquerda do Geba, desacatando a autori­dade portuguesa, e atacando outros povos que a esta autoridade eram fiéis. Muzanty receoso de que a demora no castigo fosse incentivo para o alastramento da rebelião, resolveu não esperar pelas forças da metrópole para dar começo às operações mais urgentes. E assim, com os elementos de que dispunha e com a colaboração da marinhagem dos navios ali surtos, organizou uma coluna de operações. de que ele próprio assumiu o comando, e marchou sobre a região revoltada de Cohor.
a régulo desta região, o célebre Infali-Sancó, tinha desrespeitado o residente de Geba, quando este. em cumprimento de ordens do governador. pretendeu que os biafadas de Cohor entregassem as armas que desde 1901 tinham em seu poder. E o mesmo régulo, servindo-se dessas armas e conseguindo aliciar o gentio de Badorá e Chime, foi atacar o régulo Abdulai, que sempre fora (mais tarde deixou de ser…) dos mais fiéis ao governo português. Foi pois em socorro de Abdulai a coluna de Muzanty, sendo a mais notável das acções realizadas o combate de Campampe, onde se distinguiram os bravos marinheiros da canhoneira D. Luiz, no assalto à tabanca que era solidamente fortificada. Esta e outras tabancas foram destruídas, e assim conseguiu a improvisada coluna evitar uma revolta iminente de quase toda a região do Geba, cuja margem esquerda, entre Chime e Bafatá ficou então pacificada.

CAMPANHA DE 1908

Em princípio de 1908, um outro destacamento também constituído por praças de Marinha e outras europeias, com uma peça de arti­lharia e alguns auxiliares indígenas, foi encarregado de, sob o comando do capitão de estado maior Ilídio Nazaré, efectuar a reparação de linhas telegráficas danificadas pelos rebeldes na Quinara, reparação que não se efectuou sem que fosse preciso dominar pela força o gentio, que foi então duramente castigado.
Pouco depois, em Março, o capitão Botelho Moniz, comandando um outro pequeno destacamento em que também tomavam parte marinheiros juntamente com as poucas forças disponíveis do depósito de adidos e da companhia indígena de atiradores, foi encarregado de bater os felupes de Varela, que se negavam ao pagamento do imposto, e impediam a passagem de brancos pelas suas terras. O castigo foi rigoroso, sofrendo os rebeldes numerosas baixas.
Em 19 do mesmo mês de Março, chegava enfim a desejada expedição da metrópole, que levava apenas uma companhia de infantaria 13 (em vez de duas requisitadas). artilharia igualmente deficiente e mal armada (uma divisão do Grupo de artilharia montada), e uma força de engenharia, e ia desprovida de cavalaria porque alguém fizera crer, no Terreiro do Paço, que esta arma não podia operar na Guiné, e tanta falta veio a fazer, como algures faz notar uma testemunha presencial.
Viu-se assim obrigado o governador Mu­zanty a reforçá·la com uma companhia de Ma­rinha e uma companhia mista de infantaria (deportados europeus e atiradores indígenas), para poder constituir a coluna de operações que, sob o seu próprio comando (tendo por chefe do estado maior o capitão Nazaré e por adjunto o tenente D. José de Serpa Pimentel), iria bater o gentio da margem direita do Geba, que na campanha de 1907 tinha ficado impune.
Atravessado o rio em Bambadinca, travava a coluna, em 6 de Abril, o seu primeiro combate -combate de Ganturé - com o gentio biafa­da que se bateu bravamente, o que não impediu que fosse assaltada e incendiada a povoação, debandando o inimigo acossado pelos auxiliares grumetes[4]. Seguidamente dispersou-se a tiro o inimigo, que atacou a coluna em marcha sobre Sambel-Nhantá, e foi aí que, segundo o testemunho do então tenente Nunes da Ponte, comandante da artilharia, não foi possível efectuar a perseguição por falta de cavalaria, pois “os negros mais leves do que nós, e conhecedores dos caminhos, corriam um pouco mais; nem um só foi possível apanhar... ".
Por fim chegou a coluna à tabanca Madina, último reduto fortificado do insubmisso régulo, a qual, ao fim de meia hora de combate, era tomada e incendiada, fugindo os seus defensor . Nesse dia, 9 de Abril, hasteava-se a bandeira portuguesa no Cohor, e sabia·se que o Infali-Sancó se encontrava quase abandonado e sem prestígio.
Dias depois chegava de Moçambique uma companhia de infantaria macua… desarmada! Forneceram-se-lhe umas velhas Sniders, e com elas ficaram os macuas guarnecendo o forte de Caranqué Cunda, cuja construção estava quase concluida em 18 de Abril, quando o governador decidiu que a coluna seguisse para Bissau.
Ia agora defrontar-se com os papeis, que em 1894 o governador Vasconcelos e Sá não tinha dominado definitivamente.
Depois de bombardeadas pela artilharia da fortaleza de Bissau as povoações de Intim, Bandim e Antula, marchou a coluna, já bastante desfalcada, sobre Intim, onde foi violentamente atacada, acabando no entanto por ocupar a povoação que, como Bandim, atingida no mesmo dia, foi destruída. No dia seguinte, destacou da coluna uma força comandada por VeIosa Cama­cho (que já encontrámos em 1902 na campanha do Báruè) para Contume, celeiro natural da ilha, onde se supunha que os papeis tivessem guardado os seus recursos. À custa de um rijíssimo combate, que custou a vida ao jovem alferes Jaime Duque, conseguiu o destacamento destruir Contume e regressar à coluna.
Mas o inimigo não desarmara, e cerca da meia noite de 10 para 11 de Maio, de súbito a coluna, tranquilamente bivacada em quadrado, se viu cercada pelos papeis, que ao mesmo tempo atacavam todas as faces do quadrado. Acordados em sobressalto, todos tomaram os seus postos de combate e responderam ao ataque, que durou intenso até perto das 3 horas, quando os papeis e balantas, não menos de 4.000, e Iançaram furiosamente contra o quadrado, cuja admirável resistência evitou a rotura. E ao romper da manhã acabava o tiroteio, e o inimigo, fugido para o mato, fazia ouvir “cada vez mais distante o seu ulular selvagem” .
Com este violento combate de Intim (11 de Maio) terminava na Guiné a campanha de 1908.

OPERAÇÕES DE 1909

"Foi o balanta talvez o indígena que maior resistência opôs à expansão do propósito colonizador - escreve Carvalho Viegas na sua bela obra Guiné Portuguesa - enfrentando com decisão e valentia as colunas enviadas a submetê-lo. Muito destro no manejo da arma branca, foi sempre um inimigo de temer, nos recontros em que as armas de fogo não puderam contê-lo a distância".
Este foi o inimigo com que se defrontaram os portugueses em 1909 quando, na região de Goli, o gentio atacou na manhã de 21 de Fevereiro o posto militar fortificado, cuja guarnição conseguiu repelir o atacante.
Havendo indícios de que em breve voltariam os balantas a atacar o fortim, com mais numerosos elementos, manJou o governador Muzanty reforçar-lhe a guarnição com tropas de infantaria e artilharia, cujo comando assumiu o capitão Ilídio Nazaré. Parte desta guarnição saiu em reconhecimento, com um destacamento da 9ª companhia de guerra de Moçambique e auxiliares do régulo Abdul·Injai, tudo sob o comando do 2.° tenente de Marinha CasaI Ribeiro, sem que fosse atacada.
Mas em 4 de Março, em nova surtida de forças , sob o mesmo comando, foram estas forte­mente atacadas pelo inimigo, que conseguiram repelir até Barram: e os auxiliares, avançando sobre Dati, destruíram as povoações como castigo ao rebelde.
O general Carvalho Viegas[5], que durante oito anos governou a colónia , comenta no seu livro, quando se refere à qualidade guerreira do balanta: “isto revela mais uma boa qualidade que, transformada pela paz, foi enriquecer-lhe as faculdades de trabalho que ele dedica, hoje em dia (1936), inteiramente ao aumento da sua riqueza, e que, adrede cultivada, pode fazer dele um brilhante componente da tropa negra, para a qual e volvem actualmente a atenções de todos quantos têm por missão cuidar da Defesa Nacional”.
Não pararam em 1909 – muito longe disso – as campanhas na Guiné; mas as que se seguiram pertencem já à nova época histórica que noutro capítulo será tratada.


Em baixo, imagens existentes na "Nova História Militar Portuguesa", dirigida por Manuel Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira.




[1[Realizou-se em 1885 a chamada Conferência de Berlim que só reconhecia a soberania sobre as colónias desde que estivessem militarmente ocupadas. Daí a necessidade da dominação completa dos povos da Guiné, e das outras colónias. (nota minha)
[2] Tabanca dos Felupes a norte do rio Cacheu (nota minha)
[3] Alfredo Cardoso Soveral Martins, governador de 1903 a 1904 (nota minha)
[4] Os grumetes eram naturais da Guiné considerados civilizados, isto é, cristianizados que viviam com ou serviam os brancos. (nota minha)
[5] Luís António de Carvalho Viegas, foi governador de 1932 a 1940 (nota minha)