CONSULTAS

Para consultas, além da "Caixa de pesquisa" em cima à esquerda podem procurar em "Etiquetas", em baixo do lado direito, ou ver em PÁGINAS, mais abaixo ainda do lado direito, o "Mapa do Blogue"

Este blogue pode ser visto também em

13 de maio de 2011

158-Como estava Guidage antes de "Os marados de Gadamael" lá chegarem

(Texto de Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
Antecedentes à nossa chegada

Realmente, o cenário não é dado a optimismos. Sabemos que a 8 de Maio o PAICG começou o cerco. Logo nesse dia Guidaje esteve cinco vezes debaixo de fogo (num total de duas horas de fogacho). Uma coluna escoltada por dois pelotões do exército (um grupo de combate da 1ª CCaç do BCaç 4512, de Nema, e outro da CCaç 14, de Farim) e por fuzileiros da DFE-7, que também partira de Farim, viu uma das suas Berliet accionar uma mina anticarro. Seguiu-se uma emboscada que os encurralou e obrigou a recuar, acabando por terem de pernoitar no mato. A emboscada causou alguns ferimentos e, pelo menos um “fuzo” que estava a socorrer um camarada, viria a perder uma perna. Contam-nos em Farim que o PAIGC dispõe de um forte e bem treinado efectivo a muito poucos quilómetros dali, dentro de Senegal, estimado em seis a sete centenas de guerrilheiros com grande formação e treino militares. Conhecendo a estratégia do IN para isolar/envolver a região, o tenente-coronel António Valadares Correia de Campos, transfere-se neste dia, conjuntamente com o comando do COP3, de Bigene para Guidaje.

Os mesmos homens voltaram no dia seguinte (9 de Maio) a ser sobressaltados com nova emboscada, ainda de maior envergadura! Os camaradas milicianos que em Farim me alojaram no seu quarto (e, creio, que também aos furriéis Machado e Ângelo Silva), contaram durante a noite que o pessoal só tinha aguentado as quatro a cinco horas que esteve debaixo de fogo por ser portador de um abastecimento extraordinário de granadas para morteiretes. Assim, enquanto os pequenos prato-base não se enterraram no solo e os canos dos morteiros não se derreteram nem lhes derreteram as mãos, conseguiram aguentar-se e responder ao fogo. Entretanto, tinham sido reforçados com pessoal a 1ª CCaç do BCaç 4512, de Binta, e mais duas esquadras do DFE-4, vindas de Ganturé. Mas todos estes efectivos não conseguiram evitar pesadas baixas, entre as quais, quatro mortes, cujos corpos haviam de ficar tombados no caminho, uma vintena de feridos, oito deles com gravidade, deixando também na picada quatro viaturas destruídas e não conseguindo, mais uma vez, chegar ao destino. De notar que, no mesmo dia e quase em simultâneo, Guidaje “lerpou” mais quatro vezes, o que demonstra a grande concentração de guerrilheiros que o IN tem na região…

Mais três flagelações se abateram sobre o casario de Guidaje a 10 de Maio. No mesmo dia tenta-se romper o cerco. Uma avultada força, dirigida pelo tenente-coronel António Vaz Antunes (comandante do batalhão de Farim/4512) inicia nova operação que envolve distintas unidades: dois grupos de combate da CCaç 14, de Farim, dois grupos de combate da 38ª de Comandos, uma secção do pelotão de Morteiros 4247, um grupo da Companhia Africana Eventual, de Cuntima, três grupos do BCaç 4512, sendo dois deles de Nema (1ª CCaç) e o terceiro de Jumbembém (2ª CCaç). Mas a coluna também consente um morto (o soldado Manuel Geraldes, precisamente de Jumbembém, cujo corpo foi dilacerado por efeito do rebentamento da mina em que caiu), e dois feridos, que seguiam atrás dele. Logrando ultrapassar todos os impedimentos, nomeadamente as dezenas de abatises, (árvores de grande porte serradas, os troncos tombados atravessando a picada, escassos quilómetros depois de Binta), a coluna consegue chegar ao objectivo, atingindo Guidaje.

(Muitos anos depois, em conversa com o primeiro-cabo guineense Fati, atirador do lança-granadas foguete Instalaza de 8,9 cm, (mais conhecido por bazuca), e que ficou ferido neste combate, tive a oportunidade de aquilatar o volume do fogo inimigo e a incapacidade de reacção ofensiva do pessoal da sua unidade para sair por cima neste combate).

Ao mesmo tempo, e depois do tiroteio trocado por dois pelotões da CCaç 3, que de véspera patrulhava a região de Samoge, vindos no sentido inverso com a intenção de proteger o itinerário a norte, um efectivo da CCaç19 saiu de Guidaje e a curta distância  do mesmo local experimentou cinco contactos com o IN, de que resultaram mais oito mortos e nove feridos para as NT. A situação aqui não foi menos grave porque, rareando as munições para ripostar ao fogo, tiveram de bater em retirada e deixar no mato os corpos de três mortos, não os conseguindo recuperar.

No relatório desta acção, o seu comandante descreve assim a violência do contacto de fogo: "...em relação às NT, o IN estava de frente, dos dois lados da picada, e foi impossível fazer uma reacção conveniente pelo fogo. A primeira sessão pelo fogo causou-nos imediatamente três mortos ( ... ) o IN voltou à carga com maior ímpeto, mas as NT já estavam preparadas para o receber e aqui teve as primeiras baixas. Estando um cabo gravemente ferido com um estilhaço no pescoço, o soldado auxiliar de enfermeiro correu para junto dele a fim de o socorrer. Estando ajoelhado a seu lado foi atingido por uma rajada que lhe provocou a morte. Começavam a escassear as munições e foi dada ordem para fazer fogo de precisão, tanto quanto possível. Quando o fogo parou por escassos segundos um dos furriéis tentou chegar junto dos mortos para recuperar os corpos. Quando se levantava para realizar esta acção, pela terceira vez o IN atacou as nossas posições. Notando a impossibilidade de recuperar os corpos dos mortos e porque a falta de munições era quase total, o comandante viu-se coagido a ordenar a retirada... " (in sítio do BCaç 4512).

A 11 de Maio, os 2º e 4º grupos da 38ª Companhia de Comandos, que no dia 9 se tinha deslocado de Mansoa para Farim integrando uma coluna de abastecimento, avança com a mesma coluna e um pelotão da guarnição de Binta em direcção a Guidaje, levando na frente sapadores que vão analisar as crateras abertas pelas minas rebentadas anteriormente e orientar a picagem a efectuar durante o percurso. A marcha é, por isso, extremamente lenta (cada dois quilómetros demoram cerca de uma hora a percorrer), esperando-se que as minas que vão sendo detectadas na frente da coluna sejam feitas explodir. Deparam-se com um grupo de viaturas desventradas e há também diversos cadáveres pelo chão, muitos já “bicados” por djugudés (abutres, também “jagudis”). Há novas abatises espalhadas a dificultar a progressão. A CCaç 19 sai de Guidaje e vem ao encontro destes homens, mas ao passar por uma ponte é atacada. Não tem grandes condições de reagir e pede apoio aéreo. Passados quarenta minutos chegam dois Fiat G-91 que, no entanto, e apesar dos apelos constantes via rádio, se recusam a abrir fogo porque as forças em presença estarão demasiado próximas. Contam-se muitas baixas neste confronto. Também entre os comandos as coisas não correm bem: ao ouvirem os rebentamentos e o tiroteio da emboscada os homens saltam das viaturas. Um deles, – o primeiro-cabo Filipe, – acciona uma mina A/P e perde um pé. Mais adiante apanham do chão o cadáver dum soldado que também caíra numa mina e ficou irreconhecível, embrulham-no num poncho e levam-no sobre o estrado de um Unimog. No local da emboscada da CCaç 19 o cenário é dantesco, com inúmeros cadáveres espalhados pela picada fora e nas imediações. Ao cabo de mais de 10 horas de marcha, esgotados, atingem Guidaje já no lusco-fusco, refugiam-se nas valas, agachados, e pouco depois o quartel é flagelado, o que aconteceu mais algumas vezes durante essa noite. Já nos primeiros raios solares de 12 de Maio, durante uma flagelação de foguetes 122 e morteiros 82, o soldado comando José Luís Inácio Raimundo é atingido nas valas e morre nesse instante. Finalmente, a coluna de reabastecimento constituída pelos Destacamentos de Fuzileiros Especiais nº (1?) 3 e nº 4 e um grupo de combate da CCaç 3, de Bigene, chega a Guidaje, aonde permanecerá vários dias.

Efectivos que chegaram na coluna do dia 10, regressaram a Farim a 13? No dia 13, comandados pelo capitão Alves Jesus, os fuzileiros do DFE-4 tentam caminhar para Farim, e daí regressar a Ganturé. Levam consigo viaturas carregadas de populares. Morre o soldado condutor Ludgero Rodrigues da Silva, da CCS do BCaç 4512. Sofrem uma emboscada, permanecem uma hora debaixo de fogo e são obrigados a regressar. No sentido contrário também uma coluna de reabastecimento tinha saído de Farim, mas não logrou avançar além do Cufeu. Passa mais uma noite e, a 14 de Maio, um forte rebentamento atinge com um estilhaço fatal um grumete do DFE-7. Esta manhã poisa no canto mais recuado da parada um “héli”. Transporta um caixão para levar o corpo do infeliz fuzileiro.

Estiveram na Guiné, nos anos da guerra, vinte e seis destacamentos de fuzileiros especiais (dois dos quais, africanos) e onze companhias de fuzileiros navais. No total, estas unidades sofreram oitenta e seis mortos, cinquenta e cinco deles, em combate.

A alvorada seguinte, de terça-feira, começa a clarear. Em abono da verdade, neste tempo, pouco ou nada nos importa saber em que dia da semana estamos! Para quê, se os dias correm todos enjoativa e implacavelmente iguais?

Talvez só os domingos de futebol se safassem, caso pudéssemos ouvir os relatos que a Emissora Oficial da Guiné transmitia em directo: “atenção amigo ouvinte, constituição da equipa do Benfica: José Henrique; Artur, Humberto, Messias e Adolfo; Jaime Graça e Toni; e na linha avançada temos Nené, Jordão, Eusébio e Simões”. E quando o locutor se esganiçava e gritava «golo!» as casernas também explodiam, mas de alegria! De certa vez o escritor António Lobo Antunes (autor que começou a sua carreira literária publicando grandes livros sobre a  guerra colonial) contou mais ou menos isto: um golo do Benfica fazia parar a guerra, interrompia os combates, pois de um lado e de outro das trincheiras, à mesma hora, estava toda a gente a vibrar. Com efeito, muitas pessoas que admirávamos eram oposicionistas do regime e mesmo, encapotada ou clandestinamente, simpatizantes e militantes dos movimentos de libertação nacional. Já se falava de Hilário, um dos melhores defesas de sempre do futebol do Sporting como provável simpatizante da FRELIMO, e, como ele, os benfiquistas Coluna, e até de Eusébio, (figura, no entanto, cujo prestígio foi aproveitado pela propaganda do salazarismo e do marcelismo) e havia outros, por exemplo, no atletismo do SLB, como Barceló de Carvalho (que é o cantor angolano Bonga) velocista e recordista nacional durante vários anos, ou o também recordista nacional e cantor angolano Rui Mingas, cujas cantigas (dois LP’s e vários “singles” gravados desde 1969) não enganavam ninguém nem escondiam a óbvia simpatia pelo MPLA e pelas suas causas. Antes da incorporação no serviço militar obrigatório assisti, com o meu amigo de infância Cipriano Simões, ao lançamento de um dos seus discos, no estúdio da Rádio Renascença, em directo. Suponho que era o “long-play” que incluía o extraordinário tema Monangamba, da autoria do poeta e intelectual António Jacinto, um branco angolano que não regateava as origens do musseque luandense, e que por se meter em “aventuras” apanhou muito mais do que uma dúzia de anos de Tarrafal. Nessa noite (programa “Tempo ZIP”?) eu estava muito longe de imaginar que um par de anos mais tarde teria o privilégio de contar com o António Jacinto como um grande amigo e cuja morte viria a deixar-me profundamente triste e a empobrecer as literaturas de expressão portuguesa. Quanto a Mingas, é nos anos 60/70 uma espécie de cantor oficial da Casa de Estudantes do Império, – ao Arco Cego, em Lisboa, – conhecido “coio” de africanos do chamado reviralho, pejado de amigos dos “terroristas”, mas onde, malgrado a contínua perseguição da PIDE, se divulgam e publicam peças literárias do melhor que existe em língua portuguesa, sobretudo na poesia. O desporto e a cultura criam laços que unem muitos combatentes de ambos os lados da guerra. O comandante N’Dalu (António dos Santos França, que já como ministro e Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Populares de Angola vim também a conhecer pessoalmente), estudou em Coimbra e, antes de fugir do país para ir ter formação militar, suponho que na Argélia e mais tarde em países do leste europeu), granjeou amigos e adeptos a jogar na Académica, onde era conhecido por “França”. Alguém pensou que viria a tornar-se um elemento determinante, mesmo decisivo para a independência de Angola, por comandar e vencer a célebre batalha de Kinfangondo, contra o exército zairense de Mobutu Sese Seko que acompanhava a FNLA e um batalhão de mercenários, quarenta quilómetros a norte de Luanda, nas vésperas do 11 de Novembro de 1975? Por estas e por outras Amílcar Cabral, que considerava ser a luta armada também um acto de cultura, não se cansava de afirmar que a luta de libertação do povo da Guiné e Cabo Verde (e dos povos das outras colónias) não era uma luta contra o povo português, mas contra o regime que oprimia ambos os povos (referindo-se ao fascismo em Lisboa e ao colonialismo em África). E, também por estas e por outras, ao vermos amigos em barricadas opostas, muitos de nós começamos em plena campanha a meditar por que raio andaremos aqui aos tiros uns aos outros?

157-Como é que "Os marados de Gadamael" foram parar a Guidage

(Texto de Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011

Levar a lenha e sair queimado!

Após cerca de 13 meses claustrofóbicos em Gadamael, estar sediado em Brá (COMBIS), a poucos quilómetros do centro de Bissau, era estar no paraíso! Mantendo a operacionalidade, passámos a prestar serviços diversos, entre os quais, fazendo escala para a segurança ao anel de Bissau, turnos de sentinela, por exemplo, no Quartel-General e no edifício do estúdio radiofónico do PFA (lê-se “PêFêÀ”, Programa das Forças Armadas), no Hospital Militar de Bissau, na residência do comandante-adjunto operacional (brigadeiro Leitão Marques), protecção às portas da rede da cidade, missões de patrulhamento e vigilância suburbana, nomeadamente aos bairros de Bandim (e mercado), Chão de Papel, Alto do Crim, Mindara, tabancas da Pedreira e Fábrica da Telha, do Reino e Gambefada, zona entre as bombas da SACOR e a segunda Avenida de Cintura, estrada do Aeroporto, Belém e estrada de Bor, Bairro da Ajuda, incluindo Madina e Missirá e, com uma periodicidade incerta, escoltando as tais colunas para Farim. Faziam-se sempre num só dia, ida e volta.

Nesse tempo, com bom piso e unidades militares ao longo da estrada, nomeadamente em Nhacra, Jugudul, Mansoa, Mansabá e no destacamento K3, – locais onde passa a estrada para Farim, – o percurso não se revelava demasiado perigoso. No essencial, é a proximidade da zona sul da mata do Oio, no enfiamento do Olossato e, cá mais para baixo, da base do Mores, que obriga a redobrado respeitinho, pois é sítio que fez História pelas muitas emboscadas aí efectuadas pelos guerrilheiros do PAIGC, retraçando corpos ao longo dos anos.

Ora, a 14 de Maio de 1973, o pessoal dos primeiro e segundo pelotões parte de manhãzinha (cinco horas e trinta minutos) para mais uma rotineira coluna a Farim, levando simplesmente nos bolsos alguns trocos para comprar cigarros e beber uns copos no local de destino. E é sabido que nem todos terão a possibilidade de o fazer, já que a uma parte dos homens nem é permitido atravessar o rio Cacheu, não só porque a preguiçosa, rangente e fumegante jangada é peça única e, no seu vagar, efectua o vaivém entre margens atulhada de camionetas civis e de passageiros, mas também porque alguém tem de ficar a montar segurança às viaturas militares que permanecem na margem sul a aguardar a viagem de regresso.

As colunas que chegam de Bissau visam abastecer a região com os mais variados géneros. Embora o Cacheu seja navegável até Binta, mesmo por barcos de razoável envergadura (alguns podem mesmo atingir Farim, apesar das grandes curvas do rio e do cotovelo mais apertado, poucos quilómetros antes da cidade), considera-se muito mais lógico e seguro o transporte por terra, e não é por acaso que, tal como outras, aquela estrada estratégica só foi alcatroada em plenos anos da guerra, tantas vidas e sacrifícios tendo custado aos militares que nessa fase por lá andaram. O último troço, entre Bironque e o destacamento K3, concluiu-se em 1970/71. De facto, antes da guerra colonial ter eclodido na Guiné, o território possuía míseros sessenta quilómetros de estradas asfaltadas (e existiam em 1969 mais de mil quilómetros de vias rodoviárias)!

O mesmo princípio se aplica ao reduzidíssimo número de escolas: até há poucos anos, em todo o território, apenas se podia estudar até ao 2º ano do primeiro ciclo; nos anos setenta, mais de 75% dos professores pertencem à tropa; filhos da terra (não europeus) licenciados na metrópole, serão apenas 6 (o engenheiro agrónomo Amílcar Cabral é um deles)… Ora, em escassos anos de guerra, o PAIGC já conseguira formar em diversos países (de diferentes regimes) dezenas e dezenas de quadros guineenses e cabo-verdianos, com licenciaturas em distintas áreas. A penúria e o subdesenvolvimento são generalizados, o abandono por parte das autoridades é total. Pensemos em hospitais e postos de assistência médica e sanitária? Pois um mês antes do 25 de Abril, o próprio comandante-chefe, general Bettencourt Rodrigues, constata que dos 82 médicos existentes no território, 76 são militares e dois são família de militares! A generalidade do que existe, e não é muito, foi construído só depois do massacre do Pindjiguiti (greve de estivadores barbaramente reprimida pela polícia, a 3 de Agosto de 1959) e do consequente início da “luta armada de libertação nacional” do PAIGC, mais acentuadamente em 1961 e 1963, entre a margem direita do Cacheu e a fronteira senegalesa. Aliás, e como é óbvio, por alguma razão se desencadearia uma guerra pela independência da Guiné!...

Neste dia, portanto, as viaturas civis e também algumas GMC a pedir reforma seguem carregadinhas de sibe – madeira para reordenamentos. Reordenamentos, são construções alinhadas em aldeias estratégicas, que a dado momento começaram a construir-se concentrando populações num mesmo espaço, sempre coladas aos aquartelamentos das forças armadas e cercadas por redes duplas de arame farpado. Entre estas, montavam-se fornilhos (explosivos de segurança accionados electricamente, – geralmente ligados a uma bateria de automóvel – e compostos por granadas de mão, cuja fragmentação seria reforçada com materiais “fora de prazo”, tais como granadas de avião, de artilharia e de morteiro que por qualquer razão não haviam explodido quando utilizadas e que rebentariam “por simpatia” se conectadas a outra subtileza explosiva). Com os reordenamentos, dizem os responsáveis, impedem-se fugas e contactos com o exterior, “protege-se” a população e faz-se dela um escudo, pois se o IN bombardear o quartel, poderá é estar a matar os seus próprios familiares.

A construção de reordenamentos do território (aldeias estratégicas) não é de agora. Foi o general Arnaldo Schultz (governador da Guiné antes de Spínola, tido como um duro do regime e nomeado directamente por Salazar) que iniciou a política dos aldeamentos estratégicos, com grande propaganda, como se isso fosse uma maravilha para as populações guineenses. Pretendia suster o avanço da guerrilha e controlar os movimentos das populações rurais. Segundo Cabral, os reordenamentos “não têm dado os resultados positivos esperados pelos portugueses, por serem criados sobretudo nas zonas sujeitas à influência dos chefes tradicionais” (de súbito, forte aposta das autoridades coloniais), “especialmente na região de savanas do centro, maioritariamente fulas”. “Mais realista que esses chefes, o Povo foge quando pode e prefere o refúgio das agruras da guerra nos países vizinhos”. A agravante foi o impor determinadas chefias ao povo, que não as respeitava, ou por pertencerem eventualmente a etnias rivais, ou por estarem em desuso, ou por serem inclusivamente contra-natura. Por exemplo, a etnia balanta (a mais numerosa, que representa 30% da população, seguida, por esta ordem, pelos fulas, manjacos e mandingas) dispensava bem ter chefes a mandar, estava habituada desde sempre a resolver os seus problemas e a decidir em comunidade, exercendo um tipo de democracia com que a “civilização ocidental” tinha, e tem, muito a aprender! Além disso, a colagem dos chefes tribais nomeados pela governação da “província” contribuiu ainda mais para aumentar a desconfiança popular. Esse servilismo nota-se aos mais diversos níveis. A política incrementada já por Spínola, que incide na acção psicológica da “Guiné de Hoje, Guiné Melhor”, organizou os chamados Congressos do Povo em que, para representar esse mesmo Povo, são convocados essencialmente esses chefes tribais, – régulos, sipaios, etc.. Tipificando o comportamento desses dignos representantes, lembro uma cena passada em Bafatá, num desses congressos. Usa da palavra o Al Hagi Zacarias Baú, chefe religioso que viveu sete anos em Meca (Al Hagi, também Alaio, significa O Peregrino, e todos os fiéis que fazem a peregrinação a Meca passam a usar essa designação colada ao nome). A dado passo, – qual Dr. Luís Filipe Menezes a bramar contra os sulistas num congresso do PPD/PSD, – foge-lhe “a boca para a verdade” e exclama: “a guerra só acabará quando os brancos forem para casa”! Os cerca de dois mil delegados convidados a participar neste IV Congresso tossem, ficam estupefactos, geram burburinho. O régulo de Ganadu (a regedoria a que Zacarias Jau pertence) exige que o homem lhe seja entregue, pois “sabe muito bem o que lhe há-de fazer”. Passado algum tempo, já em Bissau, o régulo de Badora, Mamadú Bonco Sanhá (condecorado com a Cruz de Guerra de 1ª classe), disse: “Nós costumamos pescar à gamboa. Às vezes, o peixe pescado à gamboa apodrece e temos que o deitar fora. Al Hagi Zacarias Jau é o peixe podre. É bom que nos desembaracemos dele!”

Às 6 horas, a coluna passa pelo Quartel-General, aí incorporando as viaturas que transportam o tal material de construção civil. Em progressão lenta, a longuíssima coluna/auto pára dez minutos em Mansoa quando são oito horas, passa por Mansabá quando faltam vinte minutos para as nove e chega a Farim (à margem esquerda do Cacheu) às nove e meia.

Tudo decorre dentro da normalidade quando, à chegada, “por decisão superior”, os alferes Igreja e Cruz são informados que, desta vez, também os Unimog e Berliet devem atravessar o rio, a bordo da jangada. Regressarão a Bissau as viaturas Daimler, de cavalaria, em protecção de alguns camiões civis, mal estes descarreguem as mercadorias. Os Marados de Gadamael recebem a notícia de que tão depressa não voltam a Bissau e que nessa noite pernoitarão em Farim e ficarão em reforço ao BCaç 4512/72 (“Firmes, Constantes”). Os homens são apanhados desprevenidos: não tinham levado, sequer, as rações de combate que lhes haviam distribuído, já que esperavam voltar ao COMBIS ainda a tempo de almoçar de faca e garfo. Mas essa dificuldade é superada quando os informam que podem almoçar e jantar na cantina e nas messes de Farim. Quanto a despesas (bebidas, mancarra, tabaco) podem efectuá-las por “requisição” (vales), que as contas irão parar à respectiva companhia, com quem as acertarão mais tarde (e assim viria a suceder, dois meses depois, até ao último centavo!).

Entretanto, tomamos conhecimento de que no dia seguinte participaremos em nova coluna, tendo por missão transportar até Guidaje parte do sibe que trouxemos de Bissau. E vamos ouvindo extraordinários relatos da situação operacional naquelas paragens e nos últimos dias: sabemos dos muitos mortos em ciladas recentes e das muitas horas debaixo de fogo que uma companhia teve de aguentar no acesso à aldeia de Guidaje, já sitiada! Nestas histórias, é sabido, quem as relata em geral nem foi participante activo e fala só do que ouviu falar, costumando cometer excessos e exagerar na dramatização dos acontecimentos. Todavia, nos dias que correm, e nos casos em apreço, nem têm necessidade de o fazer, tamanhos são os temores e a carnificina.

Importa aqui referir que em mais de um ano de estada em Gadamael a companhia contou com múltiplos ataques de artilharia, sofreu 4 mortes e alguns feridos, quer devido a flagelações quer por causa do accionamento de minas, sobretudo na picada para Guileje. Em Bissau, por múltiplas razões, a actividade operacional passou a ser diferente, e muitos dos homens que dantes não saíam “ao mato” passaram a alinhar por escala nos diferentes serviços e colunas. Isto para referir que entre os efectivos que se preparam para amanhã levar a “lenha” ao destino e ter muito prováveis contactos com o IN (asseguram-nos que uma emboscada num local chamado Cufeu será inevitável), há quem nunca tenha, tão-pouco, feito uma patrulha ou saído da porta de armas.

Também por isso, custa a passar esta noite de insónias. Embora reforçados com alguns fuzileiros de Ganturé, soldados africanos e um grupo de milícias – e enquadrados por um capitão do batalhão local, que conhece a zona, – como será possível que dois pelotões possam chegar a bom porto (Guidaje) se, à excepção da coluna de 12 de Maio, outras tropas, até especiais e muito mais bem equipadas, não conseguiram fazê-lo? 

156-Quem foram e por onde andaram "Os marados de Gadamael"



(Texto de Daniel de Matos)
Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011

“Os Marados de Gadamael” foi a divisa – não muito abonatória, é certo, – escolhida para e pelo pessoal da Companhia de Caçadores Independente nº 3518, formada no Funchal (no Batalhão Independente de Infantaria nº 19/BII19) durante o segundo semestre de 1971 (formalmente, am 15 de Novembro, “destinada a combater no Ultramar nos termos da alínea c) do nº 1 do artigo 20º do Decreto-Lei º 49107, de 7 de Julho de 1969”).
Como companhia “madeirense” (de onde são naturais os soldados atiradores e o capitão miliciano Manuel Nunes de Sousa, – que as praças especialistas e os graduados vieram do Continente), receberia o guião das mãos do presidente da Câmara Municipal de Santana, a 16 de Novembro de 1971[1].
Com destino à Guiné Portuguesa, a companhia embarcou na cidade do Funchal no dia 20 de Dezembro desse ano, às 3 da madrugada (!), tendo chegado a Bissau no dia 24 seguinte (embora já estivéssemos ao largo do rio Geba desde as 23 horas do dia 23, quem poderá esquecer-se de tão bela consoada?). No mesmo paquete, – o Angra do Heroísmo, – e com igual proveniência, viajaram a CCaç 3519 (que iria parar a Barro) e a CCaç 3520 (cujo destino foi Cacine), mais o BCaç 3872, que já embarcara em Lisboa e que viria a instalar-se em Galomaro. Pisámos terras da Guiné a partir das 15 horas.

Passámos o dia de Natal a desfazer malas e no dia 26 registou-se a cerimónia de boas-vindas, presidida pelo comandante-chefe, – General António de Spínola, figura grada entre os soldados, ou não fosse também ele um madeirense (filho de madeirenses, se bem que nascido em Estremoz) e, ainda por cima, um líder – perante quem desfilámos e que em seguida nos passou revista. A 22 de Janeiro de 1972 terminámos o IAO (Instrução e Aproveitamento Operacional) no CMI (Centro Militar de Instrução), situado no Cumeré. No dia seguinte, a bordo de uma LDG, às 19 horas, abalámos do porto de Bissau – ao lado do histórico cais de Pindjiguiti, – para Gadamael Porto.
Após o transbordo em Cacine para uma LDM, (aí se despedindo dos camaradas da irmã gémea CCaç 3520 – “Estrelas do Sul”), e em duas levas de dois pelotões cada, a primeira alcançou o pequeno desembarcadouro de Gadamael, no rio Sapo (afluente do Cacine), pelas 15 horas do dia 24 de Janeiro, onde a companhia ficou uma temporada em sobreposição com a unidade que foi render (a CCaç 2796, que depois marcharia para Quinhamel), integrada no dispositivo de manobra do BCaç 2930, depois do BCaç 4510/72 e, depois ainda, do COP 5 (Guileje).
Juntamente com Os Marados, estiveram em Gadamael os homens do Pelotão de Reconhecimento Fox nº 2260 “Unidos Venceremos” (comandado pelo alferes miliciano de cavalaria Alexandre Costa Gomes e pelos furriéis milicianos Manuel Vitoriano, José Soares, Joaquim Manso, José António Barreiros e António Rio). A 28 de Abril de 1972, após cerimónia de despedida, presidida in loco pelo governador e comandante-chefe Spínola, o pelotão marcha para Bissau, a fim de aguardar aí transporte de regresso à metrópole.
O Pel. Rec. Fox 2260 foi substituído oito dias antes (21 de Abril) pelo Pelotão de Reconhecimento Fox 3115/Rec.8 (comandado pelo alferes miliciano de cavalaria José Manuel da Costa Mouzinho e pelos furriéis Sérgio Luís Moinhos da Costa, Alfredo João Matias da Silva, José de Jesus Garcia e Fernando Manuel Ramos Custódio).
Também em Gadamael, estiveram adidos à companhia o 23º Pelotão de Artilharia, (comandado pelo alferes miliciano de artilharia José Augusto de Oliveira Trindade e pelos furriéis milicianos Armando Figueiredo Carvalheda, António Luís Lopes de Oliveira (este, logo substituído pelo furriel miliciano João Manuel Duarte Costa), e ainda os Pelotões de Milícias 235 e 236. O comandante de pelotão 235 era Mamadú Embaló e os comandantes de secção, Camisa Conté, Abdulai Baldé e Mamadú Biai; o comandante de pelotão 236 era Jam Samba Camará e os comandantes de secção, Satalá Colubali, Amadú Bari e Mussa Colubali. O Camisa Conté, – quanto a mim a mais bem preparada de todas as milícias, de grande inteligência, disponibilidade constante e invulgar simpatia, – morrerá na célebre “batalha” de Guileje, diz-se que num “acidente com arma de fogo”, (ouvimos em Bissau alguém contar que foi a tentar desmontar uma mina AC armadilhada) a 12 de Maio de 1973. Posteriormente, dizem-nos que na mesma tentativa pereceu também o seu camarada Satalá Colubali. Por outro lado, o Jam Samba viria a morrer em combate, dias mais tarde, também em Guileje, a 18 de Maio de 1973.
Nas acções de guerrilha que em Maio e Junho de 1973 viriam a culminar no abandono de Guileje e na tentativa de cerco de Gadamael Porto, morreriam igualmente em combate os soldados milícias do pelotão 235, Corca Djaló, Abdulai Silá e Malan Sambú e, do pelotão 236, o Braima Cassamá. Enquanto estivemos no sul, todos eles acompanharam os pelotões da CCaç 3518 nas patrulhas e demais operações efectuadas. Desses, recordo com maior saudade o Braima Cassamá, que foi meu aluno nas aulas do Posto Escolar Militar nº 23 que funcionou em Gadamael. Eu e o soldado africano Ricardo Lima da Costa  e, mais tarde, com os também monitores escolares, primeiro-cabo Manuel Nuno de Sousa e o soldado António Henrique Paiva Valente, fomos os professores diurnos de perto de quarenta crianças da população. À noite, nas noites em que não estávamos de prevenção ou naquelas em que não teríamos de sair para o mato na madrugada seguinte, demos aulas a uma dúzia de voluntários adultos, praticamente todos da milícia. E como era difícil explicar matérias a quem mal entendia o português! Isto, sem falar noutros assuntos que constavam no programa de ensino, – mas que obviamente não respeitávamos, como o fazer os Africanos empinarem as linhas ferroviárias, (ninguém sabia sequer o que era um comboio), ou as cordilheiras da metrópole (aquelas crianças nem um monte viram ao longo das suas curtas vidas na Guiné)! Na prática, o que todos queriam era aprender a ler e escrever em português (alguns já o faziam em árabe, quanto mais não fosse para lerem a “Tábua de Moisés”). O Braima, excelente rapaz, era dos mais interessados e não me lembro que alguma vez tenha faltado a uma aula. Em separado, devido à compreensão da língua, dei aulas aos soldados. Tínhamos mais de trinta praças da companhia que não possuíam a 4ª classe quando foram incorporados, algumas eram mesmo analfabetas. No final da comissão quase todas fariam o exame e seriam aprovadas (já na escola primária de Bafatá), o que se revelou vital para os seus futuros (muitos soldados pretendiam emigrar para a Venezuela e África do Sul mal se vissem livres da tropa) ou, quanto mais não fosse, para poderem tirar a carta de condução.
Enquanto em Gadamael, o território operacional e os locais de minagem, patrulhamento e montagem de emboscadas foram essencialmente os seguintes: antigas tabancas de Viana, Ganturé, Bendugo, Gadamael Fronteira, Missirá, Madina, Bricama Nova, Bricama Velha, Tambambofa, Jabicunda, Campreno Nalú, Campreno Beafada, Mejo, Tarcuré, Sangonhá, Caúr e Cacoca. A zona fronteiriça com a Guiné-Conacry e a picada para Guileje (estrada que outrora ligava a Aldeia Formosa e ao Saltinho) foram os locais com mais frequente número de operações. Todo o abastecimento por via terrestre às unidades e população instaladas em Guileje se efectuava, durante a estação seca, através de colunas efectuadas a partir de Gadamael Porto, sendo o nosso pessoal responsável não só pelas viaturas que transportavam para Guileje os géneros que os batelões descarregavam em Gadamael, mas também pela segurança de metade do percurso. Por diversas vezes, pelotões da companhia, o pelotão Fox e os pelotões da milícia passaram temporadas em reforço das unidades locais (como, por exemplo, da CCaç 3477, “Os Gringos de Guileje”, até Dezembro de 1972, e a CCav 8530, na parte final da nossa estada no sul).
Ao recordar aqui quem connosco palmilhou longas distâncias em patrulhamentos, montou emboscadas e alinhou em segurança a colunas no sul da “província ultramarina”, seria injusto não mencionar os guias (suponho que havia dois), mas muito especialmente o Queba Mané, expoente máximo em simpatia e disponibilidade fosse para o que fosse, e de grande resistência física, pois num africano os cabelos brancos denunciam muitas vezes a avançada idade e nunca dei por que se sentisse fatigado. Uma ou outra vez o capitão enviou-o sozinho ao outro lado da fronteira, com a missão de recolher informes sobre a presença, guarnição e movimentações IN. Contornava sem dificuldade as armadilhas que eu e o Ângelo Silva tínhamos sempre montadas no caminho (algumas dezenas em toda a zona operacional).
Outros homens importantes foram os caçadores nativos, à conta dos quais nos deliciámos inúmeras vezes com peças de caça, especialmente os bifes de gazela de tão boa memória. Um deles era o experiente nº 4/65, Aliú Jaló; o outro, Ussumane (Baldé?), que viria a distrair-se e a pisar uma mina antipessoal já perto do cruzamento de Ganturé (debaixo de um velho e já meio ressequido limoeiro bravo). Certa altura, ao cair da noite, ouvimos um rebentamento que logo identificámos como proveniente de um desses engenhos.
Aconteceu muitas vezes sentirmos rebentamentos originados pela passagem de animais (os de maior porte) que pisavam minas ou accionavam armadilhas e morriam. Por exemplo, uma hiena – em vão, ainda tentámos alimentar durante uns dias, com leite em pó, um dos filhotes que sobreviveu ao rebentamento; um leopardo, – infelizmente para o Lopes Silva, que bem tentou “baratinar” o Camisa Conté a retirar-lhe a pele para mandar curtir e enviar à namorada, mas já tinham passado três ou quatro dias quando lá fomos e naquele estado de decomposição o persuadido negou-se; houve pintadas (galinhas-do-mato) que arrastaram fios-de-tropeçar, e, num belo dia, ao fundo da pista velha, um lindíssimo e corpulento gorila sucumbiria aos ferimentos duma mina AUPS.
Na manhã seguinte, bem cedinho, a família de Ussumane (tinha várias mulheres) entrou pelo aquartelamento dentro a reclamar que o fôssemos buscar a Ganturé, pois de certeza teria sido ele, saído na caça, quem accionara a mina. Lá me levantei da cama, mobilizei uma secção do 2º pelotão e fui a esfregar os olhos picada adiante, com as mulheres a algaraviar atrás de nós (infrutíferas as tentativas para que se calassem ou nos ficassem a aguardar pelo caminho). No local não encontrei corpo algum, só um monte cintilante de formigas negras e luzidias. Depois de as vergastarmos com arbustos e ramos de árvore é que começou a aparecer o corpo do caçador. Tinha um pé amputado e devia ter perdido muito sangue durante a noite. Porém, a expressão com que se finou sugeria que a causa da morte devia ter sido a asfixia, devido aos milhões de formigas que se apoderaram do corpo ainda vivo mas imobilizado no chão, cobrindo-o literalmente.
Há muito esperados, chegaram em três lanchas os homens da rendição, era o dia 8 de Fevereiro do ano da graça de 1973! Os periquitos ficaram connosco durante um período de sobreposição. Assim, fomos rendidos no subsector de Gadamael pela CCaç 4743/72, de origem açoriana, comandada pelo capitão miliciano de infantaria, Manuel Bernardino Maia Rodrigues, Seguimos para Bissau no dia 4 de Março, a partir das 7 horas (a bordo de uma LDG), onde efectuámos também um período de sobreposição e rendemos a CCaç 3373. Os Marados de Gadamael passaram a efectuar a protecção e segurança das instalações e populações da área e a colaborar em escoltas a colunas de reabastecimento a Farim. Uma dessas colunas, envolvendo dois pelotões nossos, “estendeu-se” a Binta e a Guidaje, aí permanecendo sitiada durante quinze dias.
É a memória testemunhal, e também opinativa, desses longos dias, que vou tentar transcrever nas páginas seguintes. Tentarei integrá-la no contexto histórico que se vivia na Guiné no já longínquo mês de Maio de 1973, embora a generalidade das explicações se destine, como é óbvio, sobretudo àqueles que por lá não passaram e nunca tiveram qualquer familiaridade com a Guiné nem as causas e efeitos da tão dura quanto injusta e desnecessária guerra que ali se travou. Algumas das unidades (ou partes delas) com quem os dois pelotões da CCaç 3518 estiveram, ou com quem se cruzaram durante tão malfadado período: Companhia de Caçadores 19 (africana, sediada em Guidaje, criada em Dezembro de 1971), Companhias de Caçadores nº 3, nº 14 (também africanas), Companhia de Comandos nº 38, Pelotão de Artilharia nº 24, Companhia de Caçadores Pára-quedistas nº 121, Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 4, Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 7, Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 1, Pelotão de Morteiros nº 4247, Batalhão de Caçadores 4512, Companhia de Cavalaria 3420, Companhia de Caçadores sediada em Cuntima, Batalhão de Comandos Africanos e Grupo Especial do Centro de Operações Especiais do alferes Marcelino da Mata (entretanto, coronel na reserva).
A companhia viria a ser substituída a 5 de Julho de 1973 no subsector de Brá (COMBIS) pela CCaç 3414, tendo sido transferida para Bafatá na semana seguinte (dia 11) a fim de substituir a CCav 3463. A 13 de Julho de 1973 (dia do meu 23º aniversário em que exagerei nos festejos, estando de sargento de dia, e em que ia sendo preso, mas isso é outra história!) a companhia assumiu a responsabilidade do subsector de Bafatá e, cumulativamente, a função de intervenção e reserva do BCaç 3884, tendo ainda actuado em reforço de outros sectores da Zona Leste, por períodos curtos. Os quatro pelotões da companhia estiveram frequentemente deslocados e reforçaram temporariamente unidades das regiões vizinhas (missões de serviço com as companhias do BCaç 3884, CCaç 3549, BArt 6523/73, CCaç 3548, CAOP 2, etc., mantendo actividade operacional nomeadamente em locais como Contuboel, Geba, Sonaco, Sare Banda, Xime, Xitole, Alimo, Canquelifá, Sare Bacar, Ponta Guerra, Porto Gole, Bambadinca Tabanca, Cheque, Cantauda, Bigine/Colufe, Maum de Meta, Cheual, Bajocunda, Sincha Bakar, Ponta Luís Dias, Enxalé…
Entre 15 e 22 de Dezembro de 1973 os quatro pelotões participaram nas grandes operações “Dragão Feroz” e “Tudo Verde”. Na primeira, estivemos com o BArt 3873, CArt 3493 (então, em Fá Mandinga), CCaç 12, CCaç 21 (de Bambadinca, na altura comandada pelo tenente Jamanca), 20º e 27º pelotões de artilharia (10,5 e 14) e os Gemil’s 309 e 310; na segunda, todas com quatro grupos de combate, participaram ao nosso lado a CArt 3494, mais uma vez as CArt 3493 e CCaç 21, bem como o 27º pelotão de artilharia (14 mm), instalado em Ganjuará. Nestes dias de emboscadas, golpes-de-mão e combates causaram-se baixas ao IN (um morto e vários feridos confirmados e, a julgar pelos rastos de sangue abundantes, mais mortes não confirmadas) e capturou-se algum material (por exemplo, uma espingarda semi-automática Simonov). Houve dois feridos graves das NT, evacuados de helicóptero, que não pertenciam à nossa companhia. No percurso Mansambo/Jombocari/Mina, vários soldados foram vítimas de intoxicação alimentar, e vários deles desmaiaram, devido à má qualidade da ração de combate (nº 20) que lhes tinha sido distribuída. O principal objectivo da segunda operação seria destruir um suposto hospital IN que, diziam as informações, estaria a funcionar em Fiofioli (de facto, antiga base guerrilheira, ainda nos anos sessenta). Todavia, quando após várias peripécias chegámos ao destino, nada se confirmou, nem sequer havia quaisquer vestígios IN no local.
Estas informações, geralmente não se obtinham através dos serviços especializados do exército, era a PIDE/DGS que dizia obtê-las através de informadores próprios. A polícia política praticamente determinava as operações que as forças armadas deveriam efectuar. À excepção do chefe Allas, – que há quem diga ter sido tecnicamente competente nesse domínio (por se comportar mais como militar do que como polícia), – pelo menos na região de Bafatá, enquanto lá estivemos, as informações vindas daquelas bandas revelaram-se na esmagadora maioria das vezes uma grande treta, falsas ou ineficazes, criadas provavelmente só para mostrar serviço. O certo é que bastava qualquer agente “botar faladura” no comando operacional que esta, em vez de mandar confirmar as tais fontes, fazia a vontade à corporação e lá íamos nós feitos otários à pesca de cubanos e gajos loiros no mato, à cata de “armazéns do povo” e hospitais, como quem vai aos “gambuzinos”… Também dizem os especialistas que a polícia política teve, durante determinados períodos, alguns informadores e agentes infiltrados nas fileiras do PAIGC, inclusive em contacto ou com acesso aos mais altos responsáveis do partido, (e isso viria a confirmar-se a propósito do assassinato de Amílcar Cabral, a 20 de Janeiro de 1973, em Conacry), mas nós ficámos sempre com a ideia de que os informadores a um nível mais baixo deveriam ser muito fraquinhos. Na Guiné, a PIDE tinha uma delegação em Bissau, sub-delegações em Bafatá, Mansoa, Bissorã, Bula, Teixeira Pinto, Cacheu, Farim, Cuntima, Cambaju, Sare Bacar, Pirada e Nova Lamego, e ainda postos em São Domingos, Ilha Caravela e Cacine. Os quadros nem eram muitos (entre 75 e 85 no ano de 1973): cinco inspectores e inspector adjunto, dois subinspectores, sete chefes de brigada, dezoito agentes de primeira classe, vinte e oito de segunda e estagiários, quatro motoristas e três guardas prisionais. Possuía ainda meia dúzia de funcionários técnicos (rádio-montadores e rádio-telegrafistas), outros tantos contínuos e serventes, além de quatro escriturários para as folhas de caixa e processamento de salários, subsídios extraordinários e ajudas de custo. Depois, é claro, havia uma rede de informadores e, para sua vergonha, os comandos militares tinham instruções rigorosas de como proceder com eles (na Guiné, instruções dimanadas da Directiva 63/68.SECRETO.AM). Em suma, “autóctone que se apresente para prestar informações exclusivamente à PIDE/DGS deve ser considerado informador secreto, canalizado para o agente local ou, não existindo, deve-se providenciar o transporte para Bissau e entregá-lo na delegação desta polícia”. É expressamente proibido fazer interrogatórios a estes informadores! Ao arrepio dos interesses e da estratégia militar, a PIDE chegou a ser considerada responsável por provocações sangrentas com o objectivo de criar ondas de terror e responsabilizar o PAIGC. Em Novembro de 1965, em Farim, teria mandado lançar uma bomba para o meio de uma festa popular, provocando a morte de uma centena de pessoas, para colocar a culpa nos “terroristas” e revoltar os cidadãos locais. A propaganda, ou notícia de choque sobre a “explosão terrorista”, chegou à opinião pública internacional, mormente através das páginas do New York Times… Os serviços de “Informações e Operações de Infantaria” revelaram-se muito mais eficientes na observação dos movimentos IN, enviando às “zonas libertadas” ou aos outros lados das fronteiras, milícias, caçadores nativos, guias, etc., até a pretexto de irem visitar familiares e, no regresso, ficávamos a conhecer, por exemplo, o número de efectivos, as deslocações havidas, o armamento recebido. Aliás, o PAIGC fazia rigorosamente o mesmo, no sentido contrário. 
Nos dias seguintes (23 a 31 de Dezembro de 1973) a companhia executou o plano “Bafatá Impenetrável”, do BCaç 3884, que contou com diversas operações, e, já em 1974, na mesma zona de acção, as operações “Garota Nua”, “Madeirense Teimoso”, “Zorro Galante”, “Indomáveis Patifes” e “Leme Seguro” (cito apenas as operações em que participámos lado a lado com outras unidades e não todas as que efectuámos ao longo da prolongada comissão de mais de 27 meses).
Embora terminando a comissão em Outubro de 1973, após diversas datas prováveis para o regresso ao Funchal, (sempre com a frustração do desmentido posterior), a 15 de Fevereiro de 1974 fomos rendidos pela CArt 6252/72, recolhendo ao Cumeré para aguardar o regresso. Juntamente com as unidades que em finais de 1971 a tinham acompanhado na viagem para a Guiné (CCaç 3519, CCaç 3520 e BCaç 3872), a CCaç 3518 embarcaria no paquete Niassa a 28 de Março, com destino à Madeira, onde desembarcou a maior parte das praças e o capitão, tendo o pessoal do Continente alcançado a Rocha do Conde d’Óbidos (Lisboa) ao romper do dia 4 de Abril de 1974.



[1] Houve também entre os “Marados” dois açorianos e dois guineenses: o furriel miliciano Nuno Álvares Brasil Pessoa, – que faleceu depois do regresso à ilha natal de S. Jorge; vindo em rendição individual, em 27 de Julho de 1972, o soldado atirador António Henrique Paiva Valente, de Santa Maria, então como hoje, distinto locutor do Clube Asas do Atlântico, em Vila do Porto; o guineense, de ascendência cabo-verdiana, Florentino José Lopes de Almeida, (para os amigos, o Fontino), furriel miliciano de operações especiais; e ainda o soldado Malan Seidi, – veio transferido da CCaç 3.

155-Quem esteve cercado em Guidage conta como foi

O meu amigo Daniel de Matos (faleceu, infelizmente, no dia 13 de Novembro de 2011) esteve integrado na CCAÇ3518, que esteve primeiro em Gadamael, nada pêra doce, pelo que, passados tempos, foram transferidos para Bissau ficando às ordens do Comando Chefe. Nessa situação calhou-lhe integrar uma coluna de reabastecimentos a Guidage. Azar, chegaram lá e aquele aquartelamento foi cercado. Ele conta aqui o que ele e os seus camaradas passaram durante o cerco.
(Clicar em "full", em baixo a direita, para ver em ponto grande)
View more documents from Cantacunda


É um texto extenso, 95 páginas, por isso o publico desta forma. Mas irei, aos poucos, destacando algumas partes que me parecem mais importantes.
Este texto já foi, na sua maioria, publicado no blogue "Luís Graça e camaradas da Guiné. Mas o Daniel achou por bem publicá-lo nesta forma, que ele pensa poderá ser um livro para eventual publicação.

10 de maio de 2011

152-A tal "Conferência de Berlim"

In "Diário da História de Portugal", de José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra



Por causa das decisões tomadas nesta Conferência pelas outras potências coloniais, Portugal teve de incentivar a luta contra os "gentios" da Guiné, a fim de garantir a efectiva ocupação do território.

151-Campanhas para dominar o "gentio" da Guiné - II

Retirado da "História do Exército Português", do General Ferreira Martins, publicada pela Editorial Inquérito, em 1945.

A despeito de todos os esforços e sacrifícios feitos, nos últimos anos do século XIX e primeiros do século XX, para a ocupação definitiva da Guiné, muito longe se estava ainda cm 1910 de conseguir a submissão de todos os guinéus, por sua natureza rebeldes, e de se cumprir, portanto, o encargo imposto pelo Congresso de Berlim[1]. Foi precisamente depois de implantada a República que maior incremento tomou a actividade militar dos portugueses na Guiné.
O primeiro governador da colónia, no novo regime, foi o oficial de Marinha Carlos Pereira[2], que começou por mandar demolir as muralhas de Bissau, como se as considerasse inúteis para continuarem a defender a praça, acto este que surpreendeu o gentio ma não modificou as suas normais atitude de rebelião.
Logo em Fevereiro de 1912 teve esse governador de organizar uma coluna de operações para castigar o gentio revoltado. E a coluna, em que tomaram parte, além de forças regulares da colónia, numerosos voluntários civis, sob o comando do capitão de infantaria Botelho Moniz[3], bateu primeiramente o gentio na região de Binar, passando em seguida para Cacheu, destruindo as povoações de baiotes, que no caminho para Jobel lhe ofereceram resistência, e em 4 de Abril chegava a Elia onde os rebeldes foram severamente castigados. Dirigiu-se depois à povoação do régulo, impondo-lhe a restituição de artigos roubados pelo gentio, o que conseguiu sem o emprego da força, recolhendo a coluna a Bissau com a sua missão cumprida. Passados seis anos, nova rebelião dos baiotes levava a Cacheu, em Outubro de 1918 ,uma pequena coluna, sob o comando do capitão António Douwens, que, travando combate com os rebeldes de Varela e Catão, lhes infligiu numerosas baixas, dirigindo-se em seguida ao posto de Cassolol, onde recebeu durante alguns dias a apresentação dos grandes das povoações castigadas.

A VALOROSA ACTIVIDADE DE TEIXEIRA PINTO[4]

Foi no Oio que mais rudes foram as operações militares con­duzidas pelo capitão Teixeira Pinto desde 1913, e que trouxeram a este bravo oficial o enorme prestígio de que gozou entre o gentio da Guiné. A índole guerreira e o espírito agressivo do gentio de Mansoa e do Oio, manifestando-se persistentemente em ostensiva insub­missão à autoridade portuguesa, levaram o governo da colónia a organizar em Março de 1913 uma coluna de operações para os castigar, confiando o seu comando ao capitão Teixeira Pinto que, chegado da Metrópole em Setembro do ano anterior, tinha, nos cinco meses de­corridos, percorrido o Oio em disfarce de comerciante, e reconhecido assim essa região até então quase total­mente desconhecida dos portugueses.
Composta somente por 400 irregulares indígenas, do régulo, então amigo, Abdul-Injai[5], com uma peça de artilharia, e com a colaboração das lancha Flecha e Zagaia e do administrador de Geba com 80 homens armado, a coluna bateu-se galhardamente com o gen­tio de Mansoa, de 29 de Março a 22 de Abril, e depois com os do Oio, de 14 de Maio a 16 de Junho, instalando os postos militares de Porto Mansoa e de Mansabá, este na região do Oio. Foram sobretudo renhidos os combates de Mansoa e na tabanca de Mansoadi, mas o inimigo (oincas e balantas) acabou por desmoralizar-se, e submeteu-se com­pletamente vencido.
No ano seguinte, é o mesmo valente oficial que, quase só com irregulares de Abdul­-Injai[6] e de Mamadú-Sissé[7], também amigo, vai a Ca­cheu bater o gentio do Xuro, que revoltado tinha chacinado o administrador, alferes Nunes, e parte da tripulação do Cacine.
Depois de marchar oito horas debaixo de fogo a caminho do Xuro, acampou à noite, e no dia seguinte atingiu o local da chacina, donde o gentio tinha já fugido para Bagulho. Aí foi encontrá-lo a coluna, batendo-o completamente e destruindo-lhe a povoação, rigoroso castigo imposto aos rebeldes manjacos e brames.
Passava-se isto em Janeiro de 1914, e logo em Fevereiro os balantas de Braia trucidavam traiçoei­ramente o alferes Manuel Pedro e o seu pelotão de cavalaria (nem os cavalos escaparam aos machetes in­dígenas!), quando, à boa paz, esse oficial se dirigia ao rio Banubi a escolher local para o lançamento de uma ponte. Do comando militar de Mansoa, onde se ouviu o tiroteio, saiu o 2.° sargento Romualdo Lopes com uma força que, no trajecto para o local donde vinha o rumor, encontrou duas praças do pelotão, escapadas à chacina, que o informaram do que se passava. O sargento continuou a marcha no intuito de recolher os cadáveres dos camaradas, mas ainda ali encontrou os rebeldes que o atacaram, conseguindo pô-los em fuga depois de vivo tiroteio.
Foi ainda o capitão Teixeira Pinto o encarregado de vingar os desditosos camaradas trucidados. E mais uma vez, ele cumpriu briosamente a sua missão, numa demorada campanha de seis meses , em que lutou implacavelmente com o inimigo infligindo-lhe uma série de derrotas  sucessivas com enormes perdas, arrasando povoações, destruindo-lhe as tabancas em que punha as maiores esperanças de resistência, enfim, terminando essas operações com a pacificação definitiva de toda a re­gião balanta entre Mansoa e Geba.
Crescia o prestígio de Teixeira Pinto, que o governo da colónia aproveitou para em 1915 submeter definitivamente os papeis e gru­metes da ilha de Bissau que, sempre rebeldes em acatar a autoridade portuguesa, nem consentiam o arro­lamento das suas palhotas, nem se sujeitavam ao pagamento do im­posto.
Umn numerosa coluna, em que ainda os irregulares tinham a maioria (1.500, dos quais 200 cavaleiros), sob o comando daquele valo­roso oficial, travou com o gentio rebelde os renhidos combates de Intim e Bandim, cujas posi­ções foram tomadas, depois de um bombardeamento de artilharia lançado da praça. E logo, na sua vertiginosa marcha, Teixeira Pinto ataca Antula, Jaal e Safin, lutando sempre com a inaudita resistência do gentio, que frequentemente contra-ataca.
No combate de Safin o bravo capitão é ferido e recolhe à praça de Bissau. Mas a coluna aproveita do seu vigoroso impulso, e, sob o comando do tenente Sousa Guerra, continua o avanço e toma de assalto outras posições do gentio.
Regressa Teixeira Pinto ainda convalescente, retoma o comando, e prossegue tomando novas povoações. Combate na tabanca do Biombo onde "se livra providencialmente de um ataque traiçoeiro que lhe fora armado." E finalmente, depois de dois meses de operações, em que as forças de Teixeira Pinto tinham sofrido 47 mortos e 202 feridos, podia o glorioso capitão juntar mais uma vitória à já notável lista dos seus feitos: a ilha de Bissau estava submetida de vez à soberania portuguesa.
As operações de Teixeira Pinto, na Guiné, são um exemplo flagrante do muito que se pode conseguir do serviço dos irregulares das colónias, quando bem comandados, e melhor ainda, naturalmente, das tropas regulares indígenas, sem recorrer às dispendiosas expedições militares da metrópole.
Em 1919 Abdul-Injai, elevado a régulo do Oio em recompensa do relevante serviços que tinha prestado aos portugueses com a sua gente de guerra, nas campanhas de Teixeira Pinto, abusa da sua autoridade, exigindo trabalho e multas aos chefes indígenas das povoações limítrofes do seu regulado, e acaba por se apoderar violentamente das armas que a administração tinha distribuído aos indígenas de Cuhor. Sucedem-se os abusos do autoritário e prestigioso régulo, até que o Governo da colónia, deixando de tomar em conta os seus serviços passados, o trata como inimigo, como agora merecia, e resolve atacá-lo.
Uma coluna de polícia sob o comando do capitão Augusto de Lima Junior, depois de vivo combate em 3 de Agosto, conseguia apoderar-se de Abdul-lnjai e dos seus grandes, que no desterro, em Cabo Verde, sofreram a punição da sua deslealdade.
Custara-nos, no entanto, a sua prisão a vida do alferes Afonso Figueira e de 9 praças caídas em combate. Eram mais dez vítimas - desta vez, brancos portugueses - a acrescentar às muitas que o famoso Abdul-Injai sacrificou à sua ferocidade, quando, ainda como amigo, punha a sua bravura e o seu prestígio ao serviço de Teixeira Pinto, de quem fora, na verdade, o mais prestimoso auxiliar.
Depois das gloriosas campanhas do intrépido Teixeira Pinto, apenas restava por dominar na Guiné a ilha de Canhabaque[8].
As operações de 1917, comandadas pelo major Ivo Ferreira, contra o gentio revoltado dessa ilha, duraram oito meses em permanente luta[9], sendo tomadas ao inimigo as tabancas principais[10], e consagrando-se a vitória com a instalação de dois postos em Bine e ln-Orei, e com a assinatura de um auto de submissão, assinatura platónica, submissão apenas aparente, porque os actos de rebeldia e de banditismo continuaram. A tal ponto que em 1925 o novo governador, Velez Caroço[11], se viu forçado a realizar novas operações na ilha, onde travou combates, des­truiu povoações, apreendeu armas e munições, parecendo que o castigo tinha sido desta vez mais duro e porventura mais duradouro nos seus efeitos. Pura ilusão! A derrota dos canha­baques fora ainda desta vez efémera, e em 1933 um relatório do director dos serviços e negó­cios indígenas da Guiné acentuava que o novo governador, Carvalho Viegas[12], se veria "nova­mente a braços com o célebre problema, que é uma mancha de desprestígio para o nosso domínio militar e coloniaL"
Foi este governador que, comandando pessoalmente as operações realizadas em 1935-36 (operações cuja descrição não tem aqui cabimento porque a sua época excede o limite imposto a esta obra) conseguiu dominar definitivamente os canhabaques, domínio garantido por factos até então não verificados na ilha, e que demonstram o “perfeito reconhecimento da soberania nacional e respeito por ela."
Justo é registar esta valorosa acção do governador Carvalho Viegas, porque, não só a sua campanha de Canhabaque acabou de pacificar toda a Guiné, como "escreveu honrosamente a palavra Fim em matéria de ocupação das colónias portuguesas," na frase justa e feliz do Dr. Fernando Emídio da Silva, numa sua notável conferência na Sociedade de Geografia de Lisboa.




[1] A Conferência de Berlim de 1885 exigiu que só havia soberania nas colónias desde que estas fossem ocupadas militarmente. Em Dezembro de 1911 os alemães manifestaram novamente interesse nas colónias portugesas chegando mesmo, em Agosto de 1913, a um acordo com os ingleses para a divisão das colónias portuguesas. Esse acordo só não foi assinado e implementado porque surgiu a  I guerra mundial (nota minha)
[2] 1º tenente da Marinha Carlos de Almeida Pereira, governador da Guiné de 23 de Outubro de 1910 a Agosto de 1913 (nota minha)
[3] José Carlos Botelho Moniz, pai do general Júlio Botelho Moniz, que tentou um golpe contra Salazar. (nota minha)
[4] José Teixeira Pinto, capitão de Infantaria, nasceu em Angola em 1876. Combateu com Alves Roçadas em 1905 e 1907. Esteve na Guiné de 1912 a 1915. Depois de regressar a Portugal foi para Moçambique em 1917, tendo morrido, como major, em Novembro desse ano em luta contra os alemães em Negomano. (nota minha)
[5] Abdul-Injai era balanta, os 400 irregulares eram balantas (nota minha)
[6] Eram 500 balantas (nota minha)
[7] Mamadú-Sissé era oficial de 2ª linha, comandava  200 balantas nesta acção (nota minha)
[8] Nos Bijagós (nota minha)
[9] Foram, além disso, atacados por uma epidemia de beribéri  (nota minha)
[10] Inorei e Meneque (nota minha)
[11] José Frederico Velez Caroço, governador da Guiné de 1921 a 1926 (nota minha)
[12] Luís António de Carvalho Viegas, governador da Guiné de  1032 a 1940 (nota minha)