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13 de maio de 2011

165-Os para-quedistas, a custo mas chegam a Guidage

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
23 de Maio

Sai de Binta em direcção a norte uma coluna/auto comandada a partir de uma DO-27 pelo major pára-quedista José Alberto de Moura Calheiros. É protegida por uma unidade de fuzileiros especiais e por grupos pertencentes a unidades do exército, nomeadamente da CCaç 3 e, como sempre, por uma equipa de picadores que rasga caminho lá bem na cabeça da coluna. Ao chegar perto de Genicó liga-se aos cerca de 90 homens da CCP 121 que, sob o comando do capitão pára-quedista Armando de Almeida Martins, emboscada desde bem cedo, ali aguardam a sua passagem, para lhe fazer protecção. Os pára-quedistas faziam parte de uma força de intervenção, que incluía ainda uma companhia de comandos e uma companhia de fuzileiros, enviada para Guidaje para tentar romper o cerco e aliviar a pressão do PAIGC sobre o quartel.

Por volta das 8,30 horas, com a ligação à vista praticamente a ser efectuada, uma mina antipessoal é deflagrada e provoca a morte do soldado Bailó Baldé, da CCaç 3. Escassos minutos a seguir, quando a coluna recolhe o corpo e retoma o andamento, uma viatura acciona outra mina e causa mais uma morte imediata (soldado Fonseca Nancassa, também da CCaç3) e dois feridos com gravidade. Uma terceira mina vem a ocasionar mais um ferido grave. Perante as adversidades da progressão, parecendo impossível ultrapassar o enorme campo de minas e armadilhas que encontrou em cada metro de caminho, é recebida ordem para que a coluna retroceda e regresse a Binta. Aos pára-quedistas, no entanto, é dito que devem avançar até ao destino, em missão de patrulha (operação Mamute Doido). Assim procedem, vindo a efectuar uma pausa para descanso, já na área do Cufeu. Conforme estas fatídicas jornadas demonstram à saciedade, seja ao longo da bolanha seja em torno da casa amarela que avistamos a cada passagem – ou do esqueleto que dela resta, – o Cufeu é uma zona propícia para as emboscadas, desde logo pelo número inusitado de morros de baga-baga atrás dos quais dezenas de corpos se podem ocultar e proteger-se das nossas balas.

Retemperadas as forças, o pessoal da companhia de caçadores pára-quedistas reinicia a marcha e é de pronto surpreendido por constringente emboscada. Dois dos pára-quedistas que seguem na frente (António das Neves Vitoriano e José de Jesus Lourenço, este com apenas 19 anos) têm morte imediata; o primeiro-cabo Manuel da Silva Peixoto, apontador de HK-21, é colhido por uma rajada e fica gravemente ferido. O fogo inimigo é muito intenso, a frente prolonga-se por algumas centenas de metros e dura três quartos de hora praticamente consecutivos. Há quem garanta ter avistado gente branca do outro lado.

“Os militares José Lourenço, António Vitoriano e Manuel Peixoto iam na primeira linha e foram os primeiros a cair”, relata muitos anos mais tarde Hugo Borges, na altura da emboscada tenente, comandante de pelotão (hoje general).

À mistura com tiros de Kalashnikov ouvem-se estrondos de canhões-sem-recuo e roquetadas das RPG-7, que causam pelo menos mais duas baixas graves: a do soldado Palma, que se encontrava a tentar desencravar a metralhadora MG-42 do soldado António Melo, que foi também ferido e ficou imediatamente em coma (viria a falecer após evacuação, já na metrópole). Apesar da resistência das NT, a ofensiva só é contida graças ao apoio aéreo que desta vez corresponde ao chamamento. Os Fiat lançam bombas de cinquenta quilos ao longo de meia hora bem medida sobre a zona de acção IN (cuja força é estimada em cerca de setenta guerrilheiros). Algumas viaturas saíram de Guidaje e foram ao encontro dos pára-quedistas. Fizeram inversão de marcha para se carregarem os corpos das vítimas e regressarem à origem. Abrindo um novo trilho, conseguem chegar à aldeia de Guidaje, não sem que os guerrilheiros retirados do Cufeu após o bombardeamento da aviação os tenham atacado de novo, mas de longe e sem consequências. O cabo Peixoto não resiste aos ferimentos e morre também neste dia 23 de Maio, – imagine-se! – considerado o “Dia dos Pára-quedistas” por ser há precisamente 17 anos (desde 1956) a data da fundação, em Tancos, da Escola de Tropas Pára-quedistas!...

O batalhão de caçadores pára-quedistas (nº 21) teve durante as campanhas na “Guiné Portuguesa” cinquenta e seis baixas, (três oficiais, seis sargentos e quarenta e sete praças).

*

Os corpos dos militares da CCaç 3 que protegiam a coluna inicial e que pela manhã foram vitimados pelo rebentamento de minas (mormente os de Bailó Baldé e Fonseca Nancassa), ainda devem ter sido transportados pelas mesmas viaturas que os camaradas pára-quedistas trouxeram para Guidaje, pois viriam a ser ali sepultados, dias depois, conjuntamente. Se assim não fosse, teriam sido levados pelos fuzileiros e elementos do exército que regressaram a Binta e o tratamento aos seus esquifes teria sido diferente.

164-O cerco a Guidage abranda

(Texto de Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
21 de Maio

Parece haver um abrandamento no ritmo dos ataques de artilharia de que somos alvos. Será provavelmente a primeira consequência da operação dos comandos em Koumbamory, base que ainda há poucos meses recebeu seis dezenas de combatentes recém-formados na Argélia e em Cuba e é (era?) o principal ponto de abastecimento aonde os guerrilheiros se vão municiar. Mas já se fala em reposição de stocks! Diz-se que têm chegado ali camiões carregados com material vindo de Zinguinchor.

Num passado mais longínquo, Zinguinchor foi também relacionada com os colonos portugueses pelas piores razões, ao ser palco de tráfico de escravos com a cumplicidade “tuga”. Em 1836, o decreto de 10 de Dezembro aboliu as exportações de escravos em todos os territórios portugueses, mas isso não afectou os dois maiores traficantes dessa época: o antigo governador da Guiné e coronel de milícias, Joaquim António de Matos, e o governador de Bissau, Caetano José Nozolini, comerciante mestiço, cabo-verdiano, marido e sócio de Nhara Aurélia Correia. Segundo a escritora Joana Ruas, que foi cooperante na Guiné-Bissau depois da independência e jornalista cultural do jornal Nô Pintcha (Avante, em português), creio que ao mesmo tempo que o jornalista português Daniel Reis (de A Bola) que também esteve no jornal, “Ziguinchor estava povoada por mestiços luso-africanos, grumetes e escravos, o chefe da feitoria vem de uma família mestiça, os Carvalho Alvarenga, ramo donde virá Honório Pereira Barreto, filho de um cabo-verdiano e de Rosa de Carvalho Alvarenga, a poderosa Rosa de Cacheu. Honório Pereira Barreto, sendo governador da Guiné de 1835 a 1839, o número de escravos libertados nos 55 navios provenientes dali e apresados pelos cruzadores, fixou-se em cerca de 3.929”. Pois Honório Pereira Barreto (nascido no Cacheu a 24/4/1813, morre em Bissau a 26/4/1859), é o único negro (falso negro, por sinal) a figurar nas parangonas do sistema colonial: a sua pretensa fotografia aparece nas notas antigas do escudo guineense, nos selos emitidos pelos CTT, e tem inclusive um monumento majestoso, construído em sua memória. O regime aponta-o como o supremo exemplo do “portuguesismo” que pode haver num assimilado. Acontece é que o seu lado verdadeiramente negro, – digamos que, obscuro, – é o de, numa época em que o comércio de escravos está em extinção, consolidar no Cacheu um lucrativo comércio esclavagista! Que credibilidade pode ter entre os guineenses o poder exercido em Bissau ao longo do século e nos dias da guerra, cujo único monumento a um negro é erigido em memória do tal Honório?

Outra vez do lado senegalense da fronteira, um pouco mais distante do enfiamento do abrigo do Obus, nota-se uma invulgar movimentação de viaturas amareladas, bem ao alcance dos nossos olhos. Sabíamos da sua circulação, protegidas por blindados, numa estrada paralela à fronteira mas a cerca de dois quilómetros de distância. Mas assim tão perto… Pertenceriam às tropas do país vizinho ou à guerrilha? Tamanha concentração fez crescer o nervoso miudinho e, com maior ou menor fundamento, o receio de vir a concretizar-se o temido ataque ao arame. O nosso cabo artilheiro, pelo sim, pelo não, apontou o Obus o mais paralelamente ao solo possível, a ponta do cano quase apoiada sobre a circunferência de bidões, “just in case”, gastaria o resto das munições fazendo tiro directo!

Corre o informe de que no enfiamento do quartel de Nema (Farim), estaria instalada uma porção descomunal de “turras”, provavelmente para reforçar a instalação de minas no itinerário para Guidaje. Mais lenha para queimar a nossa débil moral…


22 de Maio

Houve uma flagelação, curta, mas suficientemente certeira: caíram nas valas granadas de Morteiro 82, causando feridos, um deles muito grave. O pessoal já não sabe onde dormir. Faz oito dias que chegámos. Estamos fartos de viver como toupeiras, queremos ir embora a qualquer custo. Mesmo sendo conhecedores dos riscos que teremos de enfrentar pelo caminho. Se os comandos africanos passaram sem levar viaturas, nós também o poderemos fazer. Antes feridos ou mortos a romper o cerco do que enfiados nas tocas, como ratos. É dia de tentarmos uma vez mais ultrapassar os obstáculos, prepararmo-nos para novos confrontos, vamos romper as linhas do IN e atingir Farim, em direcção ao paraíso.

Pouco passa das sete horas e aí vamos nós, uma bicha de pirilau de cada lado das viaturas, protegendo-as de ambos os lados da picada. Somos pouco mais ou menos os mesmos da desafortunada coluna de dia 19, descontando as baixas sofridas desde então, que não são unicamente os feridos, há que acrescentar o pessoal vítima de “amoques” diversos, como ataques de paludismo e quejandos, que atiram para os bancos das viaturas de trás um bom punhado de novos inoperacionais.

Desta vez, o nosso posicionamento na coluna é mais avançado, digamos que do meio para a frente. Nota-se uma grande concentração nos olhos e no caminhar dos homens, um cuidado suplementar com a disciplina, a cada passo. O silêncio só não é total devido ao ralenti das Berliet da frente (enquanto se vai fazendo a picagem as restantes viaturas ficam para trás e mantêm os motores desligados, quando há condições de segurança aproximam-se quinhentos metros e voltam a parar). A passarada e demais habitantes da mata também se calam à nossa passagem, ou em sinal de respeito ou então como num filme de suspense, aguardando o desfecho.

Atingimos a bolanha seca do Cufeu, enorme, vamos ter que atravessar um grande descampado e, do nosso lado, não se vislumbra um único refúgio em que possamos abrigar-nos, caso isto dê para o torto. Fazemos um compasso de espera, sempre de olhos no chão que pisamos e na linha do horizonte, e os homens da frente progridem umas dezenas de metros com todas as cautelas, como que a apalpar o terreno. Nada acontece e são mandadas avançar as duas Berliet, que como é costume na função de rebenta-minas, apenas levam os condutores e sacos e mais sacos de areia, no chassis, sobre os pára-choques, em toda a parte.

Olhamos uns para os outros, parece até que sorrimos, como que a dizer “é desta!”, desta vez é que o pessoal zarpa daqui, vamos embora! Os sorrisos duram pouco tempo: uma infinidade de canhoadas começa a troar ao fundo da bolanha e atiramo-nos para o chão, liso, que nem bermas há onde esconder o cabedal. Passam breves momentos e começa a cair a chuveirada de granadas de canhão-sem-recuo e de morteiro, e mesmo os mais convictamente ateus rezam para que nenhuma pouse nas suas imediações. A parte imensa da coluna que se estende pela bolanha está desprotegida, em plena zona de morte. Como o ataque é desferido de longe, a única reacção ao fogo provém dos nossos morteiros.

A situação dura minutos incontáveis, durante os quais os fuzos da frente avançam, tentam surpreender o IN mas eles é que acabam por ser surpreendidos, deparando-se com uma linha perpendicular pela frente, de onde despontam rajadas de metralhadoras e de onde vem a cruzar o ar uma chusma de granadas de RPG. Parece, mais uma vez, estarmos sem saída possível. Galgar a barricada dos guerrilheiros será autêntico suicídio, pois correr desalmadamente por uma bolanha seca fará de nós alvos demasiado fáceis. Não temos a possibilidade de ver ninguém, reagimos por instinto, disparando às cegas. O soldado José António da Silva Pires (Jaca) lá vai serpenteando entre balas e rebentamentos e consegue chegar-se à frente. Tanta agilidade, carregando ao ombro um morteirete, e não só: ele e o seu camarada Manuel de Sousa transportam algumas munições, atadas duas a duas pelas bases, e escolhem o sítio ideal para as poderem disparar. Da orla da mata as costureirinhas  começam a matraquear na direcção de ambos o seu som característico, tal como o demonstram os impactes das balas no capim, curto, atrás do sítio onde se encontram. Uma rajada causa-nos alguns danos, embora na maioria dos casos não passe de arranhões ou ferimentos ligeiros, nomeadamente no primeiro-cabo Gomes dos Santos, do COMBIS. Sem ter consigo a G3 para responder, o Jaca cola-se o mais possível ao chão e o Manuel de Sousa rasteja e esconde-se por trás duns arbustos ralos. Abre fogo de tal maneira que cala os disparos inimigos, levanta-se e desata a correr em perseguição, ao mesmo tempo que vai visando o inimigo com pequenas rajadas. Por sua acção, os guerrilheiros que desse lado nos tentam envolver desistem da ideia e batem mesmo em retirada. Já não seremos cercados e o Jaca gasta as munições de 60 mm fazendo-as explodir logo após os limites da nossa zona de acção, ou seja, em cheio sobre quem nos ataca, provocando o ponto final na emboscada. É pedido apoio aéreo, mas desta vez a resposta é negativa, não sabemos se devido ao receio dos mísseis Strela se a outras razões.

Desde Setembro de 1968 que os serviços de “Defesa do Estado” tinham sido avisados de que os mísseis SAM-3 estariam a ser disponibilizados pelo Instituto Internacional de Moscovo para a FRELIMO, o MPLA e o PAIGC. Só que, já neste ano de 1973, o modelo de míssil anti-aéreo que viria a derrubar os primeiros aviões no norte da “Província”, acabaria por ser o “SA-7 Grail-Strela”, (designação russa e também da OTAN, ou NATO, mas nunca adoptada em Portugal) operado apenas por dois homens e facilmente transportável para qualquer ponto da guerrilha. Na realidade, o aparelho, cuja utilização já era conhecida da guerra do Vietname, não passa de um tubo com 1,40 metros e dez centímetros de diâmetro, pesando escassos 10 quilos (quase metade de um rádio Racal)… Tem acoplado um pequeno sistema de disparo. É accionado por um apontador e um homem para abastecer a carga sobressalente (municiador). E os mesmos serviços sabiam que à base IN de Kondiafara haviam chegado no ano transacto trinta apontadores acabadinhos de formar na URSS. O “SA-7 Grail-Strela”, ou SAM-7, ou simplesmente Strela, está equipado com uma cabeça auto-direccional, sensível aos infravermelhos, tendo um alcance transversal de 3,7 quilómetros e, de altitude máxima, 10.000 pés (3 quilómetros, porque acima disso, rebenta), a uma velocidade de 1,5 “Mach” (é a unidade que mede a relação entre a velocidade do objecto e a velocidade do som). Emite um sinal acústico quando tem o alvo referenciado, mas bloqueia se o avião voar baixinho (é ineficaz abaixo dos 150 metros). Não pode ser disparado com o tubo a fazer um ângulo superior a sessenta graus, sob pena de os gases de escape queimarem o apontador. Assim, disparado numa posição entre os 20 e os 60 graus, o míssil poderia perseguir um avião “até à pista”, atraído pelas fontes de calor (os reactores, no caso dos Fiat).

A anulação da operacionalidade da Força Aérea começa precisamente nesta região, onde os sistemas antiaéreos do IN começam a alvejar e derrubar aviões T-6, DO-27 e Fiat G-91. Também os helicópteros estão sem voar em grande parte do território e durante tempo indeterminado.

De facto, no dia 20 de Março de 1973, os mísseis terra/ar começam a dar sinal de vida (primeiro disparo é referenciado na fronteira norte, em Campada, S. Domingos). Mesmo que alguns tenham passado ao lado das aeronaves, as ondas de choque provocadas assustam pilotos, e não só! De início nem se suspeita do tipo de arma que o IN estava a utilizar. A primeira vítima ocorre a 25 Março. É abatido o caça do tenente piloto-aviador Miguel Pessoa (Bissalanca, BA12). Voava a mil pés de altitude e o impacte do míssil na parte traseira do Fiat fez com que este perdesse o motor e os comandos. O piloto, que voava sobre o corredor de Guileje, consegue ejectar-se, mas devido à baixa altitude, o pára-quedas não chega a abrir-se totalmente e ele tem a “sorte” de cair sobre árvores frondosas que lhe amparam o corpo. Ainda assim, perde a consciência e parte uma perna (fractura do peróneo), o que o impossibilita de caminhar em direcção a Guileje. No dia seguinte, oculto sob a copa do arvoredo, onde os pilotos que procedem às buscas não têm a possibilidade de o ver, lança ao céu um “very-light” que é avistado pelo tenente-coronel Brito (que irá morrer em combate três dias mais tarde). Conhecido o sítio exacto onde se encontra, o grupo de operações especiais de Marcelino da Mata é incumbido de o procurar e resgata-o por volta das 11 horas, levando-o até ao héli da evacuação, onde é assistido pela segunda-sargento enfermeira pára-quedista Giselda Antunes. No céu, os aviões que estão a proteger a operação, – entre eles, um T-6 pilotado pelo furriel Carvalho, – são também alvejados, mas esses mísseis não causam danos. A 28 de Março, o Fiat G91-RA nº 5419, (fabricado para a NATO em meados dos anos 60, na República Federal da Alemanha), pilotado pelo tenente-coronel aviador José Fernando de Almeida Brito (comandava o Grupo Operacional 1201, – Base Aérea nº 12, em Bissalanca, – e tinha comemorado o seu 40º aniversário na véspera) é abatido por um míssil e explode no ar, nas imediações de Madina do Boé. O corpo do tenente-coronel, por muitos considerado o mais audaz e experiente piloto português da aviação de caça, nunca será encontrado.

*

Como estava colocado em Bissau (Brá), faltando poucos meses para regressar à metrópole (esperava fazê-lo em Outubro/Novembro, resolvera casar-me em Lisboa, o que aconteceu a 31 de Março, dia da notícia do abate do Fiat de tenente-coronel Almeida Brito no DN. Embora desde muito novo tivesse o hábito de ler jornais diariamente, foi para mim um dia pouco propício para ler jornais… Mas na capital toda a gente andava alarmada com as notícias e me perguntava pelos aviões, sem que eu soubesse o que responder. As núpcias e as férias terminaram e regressei a Bissau a 1 de Maio (o Boeing 707 da TAP saiu da Portela perto da meia-noite e, pouco antes, tive notícia de uma explosão na Praça de Londres, creio que no primeiro-andar do então Ministério das Corporações (atentado à ARA). Também nessa noite, a RTP transmitia o concurso da Miss Portugal, directamente do Casino Estoril. Claro que só tinha câmaras de filmagem no interior do casino, pois cá fora havia a pouca-vergonhice de um grupo de cidadãos protestar contra a exploração da mulher e, contraditoriamente, contra o preço dos ingressos, exibindo cartazes que diziam “2.000 escudos = a 4.000 pães”!

*

Porém, o dia mais dramático para a nossa aviação seria 6 de Abril. O DO-27 pilotado pelo furriel Baltazar da Silva transporta um médico e um sargento de Bigene para Guidaje e não chega ao destino, havendo que proceder à sua busca. Parte de Bissalanca outro DO-27, conduzido pelo furriel António Carvalho Ferreira. Em Bigene, o comandante do batalhão local (major Mariz) embarca no avião e vai aterrar em Guidaje. Aí juntam-se o ferido a evacuar e um enfermeiro. Com essas quatro pessoas a bordo, a aeronave levanta voo na direcção do Senegal (a pista, como já vimos, é sobre a fronteira) e pura e simplesmente desaparece. É mais tarde localizado no mato entre Bigene e Guidaje. Um pelotão de pára-quedistas héli-transportado desloca-se ao local e confirma as quatro mortes, conseguindo recuperar os corpos (haveria ainda de reaver mais duas vítimas mortais dos mísseis Strela). Entretanto, voando na área em protecção dos pára-quedistas, é abatido por outro míssil um avião T-6, pilotado pelo major Mantovani, que morreria em consequência da queda. Ainda a 6 de Abril, mais um DO-27, pilotado por outro furriel aviador, também Carvalho (não sei se o meu amigo de infância José Manuel Henriques de Campos Carvalho, que era piloto desses aviões e estava na Guiné nessa altura, encontrámo-nos um dia em que foi a Gadamael, mas depois perdemos o contacto), acorre a um pedido de evacuação de Guidaje e leva a bordo a sargento pára-quedista Giselda Antunes (por curiosidade, casar-se-ia com o tenente piloto-aviador Miguel Pessoa, do Fiat abatido a 25 de Março, hoje coronel reformado, registando-se a coincidência de constituir seguramente o único casal do mundo a ser atingido por mísseis Strela em ocasiões e aviões diferentes)… É igualmente alvejado por outro Strela que, embora o não tenha atingido, o danificou com a onda de choque e o obrigou a regressar à base.

*

Após o derrube das aeronaves o inspector adjunto António Luís Fragoso Allas, responsável-mor da polícia política em Bissau e homem muito próximo do general comandante-chefe e do seu gabinete, enviou para a Rua António Maria Cardoso (sede da PIDE, em Lisboa) uma mensagem que continha, entre outras, as seguintes observações: “A utilização desta nova arma (mísseis terra/ar) constitui um sério agravamento da situação, porque nos tira o domínio do espaço aéreo”. Antes, “só o apoio aéreo foi decisivo para evitar desaires”. “Temos de encarar como possível que o PAIGC venha, em curto prazo de tempo, a aniquilar algumas guarnições e a estabelecer novas áreas libertadas”. Allas era agente da PIDE desde 1961, trabalhou no gabinete de Spínola e, após o 25 de Abril, viria mesmo para Lisboa, onde permaneceu protegido pelos chamados spinolistas até ao “28 de Setembro”, nunca chegando a ser preso e fixando residência mais tarde, como empresário, na África do Sul.

Na ausência de aviões Fiat desatou o pessoal a bombardear com morteiros, bazucadas e, os da frente, até com dilagramas. Mas o mais que conseguimos foi provocar novo e reforçado fogachal do PAIGC e termos de nos colar novamente ao chão para evitar a chuva de estilhaços. Se tem sido o IN a avançar em nossa direcção, estávamos feitos: ou recuávamos ou não tínhamos qualquer hipótese de protecção. Mas o objectivo dos guerrilheiros era, notoriamente, impedir-nos a passagem e não dizimar-nos ou infligir-nos outro tipo de derrota. E esse objectivo eles conseguiram-no, mais uma vez, obrigando-nos a regressar a Guidaje. Voltámos ao inferno, às valas, ao cheiro pestilento, às refeições de “estilhaços com atacadores” (esparguete com pedacinhos de salsicha) e, com sorte, aos copinhos de groselha. Por quanto tempo mais?

Do quartel de Binta, sensivelmente à mesma hora (sete e trinta) em que saíramos de Guidaje, avançara também nova coluna logística, com a missão de evacuar o pessoal, sobretudo os feridos. A CCP 121 faria protecção a oeste da estrada, cabendo a um destacamento misto de fuzileiros (42 homens dos DFE nº 1 e nº 4, comandados pelo primeiro-tenente Albano Alves de Jesus) a protecção a leste. Os picadores seriam de um grupo de combate da CCaç 14 (guarnição de Farim), participando também um grupo reduzido de elementos da CCaç 3. Um dos elementos, – o furriel miliciano Arnaldo Marques Bento, – deste grupo comandado pelo alferes Gomes Rebelo, acciona uma mina antipessoal, reforçada com outra, anticarro, e tem morte imediata. Também um picador – o soldado Lassana Calisa, – morre alguns metros adiante e a mesma mina provoca dois feridos graves. Ainda um outro engenho viria a ferir gravemente outro homem. Cerca do meio dia, um grupo de combate saiu de Genicó e veio reforçar a coluna. O tenente-coronel Correia de Campos manda abortar a coluna de reabastecimento e o pessoal regressa a Binta, onde chega apenas por volta das 18 horas.

163-Guidage cercada - V

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
20 de Maio

As flagelações sucedem-se dia após dia e praticamente todos os edifícios já sofreram danos. O nosso abrigo, qual cabeça de cogumelo pousada no chão, e muito poucos outros telhados são o que resta de construções por esburacar. Sem conseguir dormir, fumo mais um Português Suave e caminho ao longo das valas repletas de homens deitados no fundo. O dia rompe, preguiçoso. Avisto Marcelino da Mata, palma da mão direita para cima, quatro dedos a dobrarem-se e esticarem-se com intermitência, “toca a levantar”, assim acorda os homens que pernoitaram na mesma vala ziguezagueante que nós, só que lá no extremo oposto.

Ele e este seu grupo já tinham estado connosco em Gadamael, (na altura, um grupo reduzido de dezasseis ou dezoito elementos), de lá saíram para uma operação de que não tivemos informações. Só sei que lhes abri as armadilhas à saída da pista de aviação e, mais adiante, em Viana, para poderem passar. Seguiram acompanhados do guia Queba Mané, (que regressou sozinho quarenta minutos depois) em direcção a Gadamael Fronteira (daí em diante era chão da Guiné-Conacry). Não os vi carregados de mochilas e mantas, nem de bornais e rações de combate, acartavam apenas dois cantis de água cada um e cinturões pejados de armamento. Só voltaram à base passados três dias, onde um batelão os aguardava para os transportar, julgo que para Cacine. Era um grupo mítico de que se contavam estórias, inclusive as mais idiotas e macabras, tais como a de coleccionarem orelhas de inimigos abatidos ou apanhados, serem antropófagos, levarem apitos e desatarem a correr atrás do IN disparando e apitando ao mesmo tempo, etc.. Mas estas estórias (verdadeiras ou não, tão condenáveis como os actos, porém, que ficaram na História!) apenas se contavam para ilustrar a destreza destes homens, alguns deles evidenciando bastante juventude ainda, durante as operações mais secretas e bicudas para onde eram mandados.

Ouviram-se rebentamentos breves vindos de leste, alvitram-se bombas lançadas pela aviação nos arredores de Fajonquito. Quanto a nós, a partir de hoje veremos que consequências teve a operação levada a cabo pelos comandos africanos e a destruição da base de Koumbamory, fosse ela total ou parcial. Será que vão reduzir-se os ataques?

Antes da investida dos comandos e do bombardeamento da força aérea, o PAIGC dispunha no local das seguintes unidades: corpo de exército 199/B/70, com quatro bigrupos de infantaria e uma bateria de artilharia; corpo de exército 199/C/70, com cinco bigrupos de infantaria e uma bateria de artilharia; grupo de foguetes da frente norte, com quatro rampas; três bigrupos de infantaria, um grupo de reconhecimento e uma bateria de artilharia do CE/A/70, deslocadas de Sare Lali (zona leste); e um pelotão de morteiros de 120 milímetros.

O pessoal do batalhão de comandos arranca em direcção ao sul. Desloca-se a pé (em bicha de pirilau e sem viaturas), não podendo assim transportar nem os dez mortos resultantes dos confrontos de Koumbamory nem os vinte e dois feridos graves resultantes da operação Ametista Real. Há outros homens que, com mazelas e ferimentos mais ligeiros não estão em condições de aguentar a marcha, ou de a consumar com segurança e ficam também em Guidaje.

Os dez corpos, cuja identificação mencionarei mais adiante, virão mais tarde a ser aqui sepultados. Não há notícia dos três desaparecidos em combate, cujos corpos ficaram tombados em território senegalês. Em toda a acção, os comandos africanos dispararam 26.700 munições de G3 e 4.600 de Kalashnikov (todas de 7,62mm), 292 granadas de lança-granadas foguete (6 e 8,9 cm), 71 granadas de RPG-2 e RPG-7, 195 munições de morteiro e 268 granadas de mão (ofensivas e defensivas).

Num terreno descampado do lado de lá da fronteira, três crianças de varapaus controlam de longe a numerosa manada que levam a pastar, o que há muito tempo não é habitual ver-se por ali, até porque existem áreas com mais e melhor verdura para o efeito.

Alguém sugeriu mais tarde que o PAIGC desconfiara que o exército português havia minado aquele corredor fronteiriço, para vedar a passagem. Dificilmente as NT conseguiriam colocar minas nesse terreno sem despertar a atenção dos vigias, que controlariam permanentemente os nossos movimentos. Na impossibilidade de enviar picadores para se certificar (ficariam ao alcance das nossas armas ligeiras), as vacas a calcorrear o terreno seriam a forma de o testar. Porém, nenhum animal foi pelos ares…

Não consigo recordar-me de quantas vezes terei ido à messe sentar-me e comer uma refeição. Primeiro, porque as horas do tacho são trocadas constantemente e tenho pouca sorte na escolha dos momentos de investida; segundo, porque enquanto duram alguns restos de rações de combate que o pessoal “anfitrião” sacou do armazém, aproveito-me da sua generosidade; terceiro, porque já começo a enjoar-me das salsichas de lata, só o cheiro me dá náuseas. Neste dia começa a faltar o pão, parece que já estão a racionar a farinha, vem uma pequena fatia na borda do prato de cada um e é o que há! E uma bernarda certeira no cocuruto do depósito de géneros arrasou as já de si insignificantes esperanças de um dia nos brindarem com rancho melhorado…

Bem, mas de sentir fome lembro-me perfeitamente (ou talvez não seja fome e apenas pensar que devo mastigar alguma coisa), e dirijo-me à messe, que desta vez está a servir refeições e cheia que nem um ovo. Olho para o fundo e calculo que deve ser naquele balcão que nos devemos servir, tipo self-service, do tal esparguete salsicheiro, prato do dia, não ao almoço e ao jantar, mas à hora de abertura que parece tirada às sortes.

É sabido que os graduados não usam divisas nem galões nos ombros quando partem em operação, em virtude da ideia de que o inimigo pretende sempre aniquilar quem comanda, em primeiro lugar. Portanto, todos nós, quando saímos do COMBIS de manhãzinha deixámos nos cacifos essas identificações hierárquicas. Entro na messe e oiço um berro estridente, vindo de uma das mesas. Pelos cabelos brancos só pode ser de pessoal do quadro. Deduzo tratar-se do comandante, e é de facto o tenente-coronel Correia de Campos que vejo apontar na minha direcção, de indicador em riste:
– “Adonde” é que você pensa que vai? Ponha-se lá fora imediatamente! Apresente-se primeiro e peça autorização para entrar!
Por decoro, não vou agora descrever o que balbuciei na altura, enquanto rangia os dentes, nem o que me apeteceu e estive mesmo para fazer… Recuei até à entrada da messe, ou refeitório, ou espelunca o lá o que era aquilo. Como não trazia quico não podia fazer continência, pus-me em sentido:
– Apresenta-se o furriel miliciano nº 197.116/71, Daniel Rosa de Matos. V. Exa, meu comandante, dá-me licença que entre?
– Entre! – respondeu sem me olhar, a boca cheia a mastigar o esparguete.
De pronto, virei as costas e saí. Confesso que o que queria mesmo era arremessar-lhe qualquer coisa às ventas, não sei bem o quê, o que apanhasse à mão de semear para lhe dar o troco do enxovalho. Só não o fiz porque alguém me puxou pelo braço e me disse “tem juízo pá, caga mas é no gajo, que é um xico de merda, e vem comer” e acabei por atacar mas foi a dose reduzida de salsicha, apesar do fastio. Sentei-me numa mesa corrida, – não muito distante da do tenente-coronel, – onde já estavam de prato vazio milicianos de outras unidades. O que me sussurrou os insultos ao comandante e me arrastou para ir buscar o prato ao balcão, contou então certas histórias de atitudes que o homem teria tomado em Pirada, – e que não têm cabimento aqui, – e garantiu-me que se não havia whisky na messe era porque ele tinha açambarcado para o seu quarto as cerca de quarenta garrafas que há poucos dias constavam no inventário do depósito de géneros. É claro, os outros camaradas que estavam à mesa confirmaram tudo, puseram até os adjectivos no superlativo, mas nunca me convenci que não fosse mais um daqueles boatos que circulam sem se saber como nasceram. Nunca estivera cara a cara com Correia de Campos, aliás, ficara com boa impressão do homem desde que vi, ao longe, no meio da parada e durante uma flagelação, indiferente às granadas que caiam por perto, de pingalim (à Spínola) numa mão e de AVP-1 na outra, a dar ordens à artilharia e às armas pesadas de como responder ao fogo. Agora, a atitude mentecapta que teve para comigo obrigou-me a mudar de opinião. Num quartel que, sob o seu comendo, mais parecia já uma “Casa de Orates”, era assim que queria impor “respeito”? “Autoridade”? “Disciplina”? O que pode levar um indivíduo corajoso a revelar atitudes como estas, a coberto dos galões – de que outra coisa poderia ser?

No 25 de Abril de 1974, imagino que devido ao relacionamento que mantinha com Spínola, o tenente-coronel apareceu em Lisboa, à porta do quartel do Carmo. Adelino Gomes (jornalista que estava a fazer a reportagem dos acontecimentos que viria a ser gravada em vinil e em cd), pergunta-lhe como estão as coisas e Correia de Campos retorquiu-lhe mais ou menos isto: se uma mulher grávida estiver a parir você pergunta-lhe se está com dores? A delicadeza da resposta caracteriza a sua personalidade. Passados estes anos, o episódio da messe pouco (me) importa, todos temos momentos de menor inspiração. Sem lhe querer mal algum, relatar agora o que se passou é já uma vingançazinha, como que a reivindicar para mim igual costela cabotina…

162-Guidage cercada - IV

(Texto d Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
19 de Maio

De madrugada, depois de breve paragem em Bigene, de onde saíram por volta da meia-noite, os comandos africanos alcançam os caminhos de Koumbamory e aguardam pelo ataque aéreo e em força dos Fiat G-91, cujo bombardeamento à base, por volta das oito horas e vinte minutos, consegue destruir paióis do PAIGC. A operação nem começa mal, pois sabe-se que a base IN se situa algures naquela região, mas a sua o localização exacta é desconhecida. Nós, na aldeia de Guidaje, os que conhecemos mal os azimutes do terreno, ouvimos rebentamentos sobre rebentamentos e de início pensámos ser Bigene a “embrulhar”. A antiga sede do COP3 fica longe, a dezanove quilómetros e na margem do Cacheu, e as bernardas que ali rebentam só se ouvem muito longinquamente desde que o vento sopre de feição. Afinal, quem desta vez “embrulha” mesmo são as forças IN!

Tropas portuguesas a entrar em território estrangeiro não estaria muito de acordo com as normas do Direito Internacional, nem mesmo invocando o muito controverso “direito de perseguição”. Militarmente, se os acessos a Guidaje estavam vedados por todos os lados menos pela linha de fronteira (norte), tinha toda a lógica esta incursão à retaguarda do IN. Dir-se-á que também o PAIGC tinha as bases do outro lado, mas aos olhos do Mundo (entenda-se, das Nações Unidas) trata-se de um movimento de guerrilha e não de um Estado soberano (pelo menos até 24 de Setembro de 1973, em que a proclamação de independência em Madina do Boé viria a ser reconhecida internacionalmente, de imediato, por 86 países, não apenas os aliados mais tradicionais do PAIGC, como os países socialistas, africanos, a China e até europeus, – casos da Suécia e da vizinha Noruega, cujo governo aprovou um subsídio solidário à guerrilha em 27 de Março de 1973, – mas em especial os países “não alinhados”. E ter bases em território estrangeiro, não é a mesma coisa do que desferir ataques a partir das mesmas, embora por vezes déssemos conta disso mesmo. O isolamento de Portugal era tão grande no Mundo que os líderes da guerrilha na Guiné, Angola e Moçambique haviam sido recebidos no Vaticano, em Junho de 1970, pelo Papa Paulo VI, o mesmo que três anos antes viera a Fátima e se recusara a aterrar em Lisboa para não participar em cerimónias oficiais ao lado de governantes da ditadura, preferindo aterrar em Monte Real. Em Roma, realizava-se nesses dias (27 a 29 de Junho) a Conferência Internacional de Solidariedade com os Povos das Colónias Portuguesas. A delegação que Paulo VI recebeu era composta pelo angolano Agostinho Neto, o moçambicano Marcelino dos Santos e o guineense/cabo-verdiano Amílcar Cabral. Este foi o porta-voz que, entre outras coisas, disse: “pedimos a Sua Santidade que interceda junto do Governo de Portugal para que respeite as leis internacionais e a posição da Igreja definida na Encíclica ‘Populorum Progressio’ para que os colonialistas portugueses, que se afirmam católicos, cessem os massacres das nossas populações, principalmente dos velhos, mulheres e crianças”. O Papa respondeu, “estamos do lado daqueles que sofrem”, “somos pela Paz, a liberdade e a independência de todos os povos, em especial, dos africanos”. Tudo isto à revelia da hierarquia da igreja católica portuguesa, que muito maioritariamente (não foi só o cardeal Cerejeira, longe disso), sempre se evidenciou servil ao poder, raras vezes se demarcou da ideologia e das atrocidades da ditadura, quer em Portugal quer nas colónias. Talvez seja essa a principal razão porque muitos da minha geração saíram agnósticos, – termo adocicado para não dizer ateu… E pensarmos, muitos de nós, que o “argumento” da defesa do colonialismo é o de espalhar a fé e a “civilização cristã”!? Para o ilustrar, recordemos um excerto de uma mensagem do Presidente da República, general Óscar Carmona, no V Centenário do Descobrimento da Guiné: “quinhentos anos de presença nessa região representam uma sobre-humana soma de esforços despendidos, primeiro, no reconhecimento da costa, depois na penetração no Continente, no comércio e na evangelização; por fim, na ocupação e pacificação, abrindo ao trânsito seguro de todos os homens os caminhos do mato e levando à população indígena as luzes da cultura europeia e cristã” (sublinhados meus). Palavras para quê!?

Numa curta flagelação morre num abrigo subterrâneo, vítima de granada perfurante, um soldado da CCaç 19 que ali tinha sido posto já muito desalentado, crivado com estilhaços de uma morteirada que o atingiu dias antes, quando ia a atravessar a parada.

Passa das nove quando os comandos (o agrupamento Bombox na frente) efectuam o assalto, – como se fosse um golpe-de-mão, – provocando o primeiro contacto com o PAIGC, logrando destruir grande quantidade de material e provocar baixas importantes. Os combates duram a manhã inteira, numa verdadeira batalha com explosões incessantes de granadas-de-mão, tiros e rajadas de todo o calibre. A certa altura têm de se retirar, também em consequência da reacção do IN que, de surpresa, investe com blindados que nem disparos de bazuca conseguem destruir. A retirada é penosa, têm de transportar dez corpos de camaradas abatidos e progredir no terreno com mais de uma vintena de feridos graves. Perdem três camaradas pelo caminho. No termo do dia o batalhão de comandos chega ordenadamente a território português e recolhe-se em Guidaje, tal como estava programado.

As baixas causadas ao IN foram em número bem superior, estimando-se em 67 mortos (entre os quais se contariam uma médica e um cirurgião cubanos e quatro mauritanos), e um incontável número de feridos. Quanto ao material destruído: vinte e dois depósitos de material de guerra, duas metralhadoras anti-aéreas, cinquenta mil munições de armas ligeiras, cento e doze costureirinhas (pistolas PPSH), quinhentas e sessenta granadas-de-mão, quatrocentas minas antipessoal, trezentas espingardas Kalashnikov, vinte e uma rampas de Foguetes 122, onze Morteiros 82 e mil e cem granadas para os mesmos, cem Morteiros 60, cento e trinta e oito RPG-7 e quatrocentos e cinquenta RPG-2.

A base de Koumbamory ainda recentemente recebera seis dezenas de combatentes recém-formados na Argélia e em Cuba e era confirmadamente o ponto principal de abastecimento aonde os guerrilheiros se iam municiar. Veremos, doravante, até que ponto este rombo causado pela investida dos comandos fará diminuir a sua importância.

O PAIGC possui outras bases de reabastecimento no país do paladino da teoria da negritude Léopold Senghor (em parceria com o também poeta martiniquense Aimé Césaire), como a localizada em Zinguinchor, a dez quilómetros da fronteira, mas mais para o litoral, e onde ainda se fala fundamentalmente o crioulo “português” e são frequentes apelidos como Barbosa, Silva, Fonseca… A cidade é a capital de Casamance, território que outrora foi pertença da Guiné Portuguesa e que se estende até ao mar e a todo o comprido da língua da Gâmbia. Na sequência da Conferência de Berlim, em que as potências coloniais ditaram entre si a partilha de África, – com as sangrentas consequências que não se sabe se encontrarão solução nem ao longo do século XXI, – essa região guineense foi trocada com a França por uma parcela do sul (zona de Cacine), a 13 de Maio de 1886. Casamance, graças às margens do rio com o mesmo nome, produz grandes quantidades de arroz, e não só, sendo considerada o celeiro do Senegal, zona agrícola e de potencial turístico, cujo território para norte se vai tornando cada vez mais árido devido à progressão do deserto do Sahel. Graças à troca, a França reconheceria a Portugal o “direito” de exercer a sua influência nos territórios do chamado Mapa Cor-de-Rosa, (a ambição dos colonialistas portugueses de então, de unir Angola a Moçambique, de costa a costa do continente negro; Capelo e Ivens fizeram a viagem entre Luanda e Tete cerca de dois anos antes, mas tal sonho seria desfeito pelo Ultimato de tubarões mais poderosos: os ingleses, que com tal mapa veriam contrariado o plano de domínio britânico “do Cabo ao Cairo”). Bastou aos dois estados uma simples reunião a nível de embaixadores para efectuar o negócio! Falar português à volta de Zinguinchor é um acto de resistência. Ainda hoje, à beira de trinta e sete anos sobre a proclamação da independência da Guiné-Bissau, o povo de Casamanse (“Casa di Mansa”, em crioulo), étnica, social e culturalmente mais próxima de guineenses do que de senegaleses, luta pela autonomia, havendo também quem sustente a ideia da reintegração no território da Guiné-Bissau; e ainda hoje a Guiné-Bissau e o Senegal se dirimem em fóruns e tribunais internacionais pela posse do território, se bem que por razões bem mais interesseiras: veio a descobrir-se no respectivo solo a existência de bauxites e de outras riquezas capazes de reduzir a pobreza e a falta de recursos de ambos os países, e até nas águas territoriais, – que se alteraram em resultado da troca, mas cuja delimitação as antigas potências nunca chegaram a definir com clareza, – há “garantias” da existência de reservas de petróleo. E é aí que entram em jogo interesses como os dos franceses, que no Senegal se opõem ao direito do povo de Casamanse à autodeterminação e à independência, mas que fazem precisamente o oposto em Angola, através de “lobbies”, manobras e financiamentos, – atribuídos, nomeadamente, à ELF Aquitaine, – no que concerne ao incentivo aos separatistas no enclave de Cabinda (aonde, por mera coincidência, há petróleo a jorros)… Ora, esta “consanguinidade” entre as populações do norte da Guiné e do sul do Senegal cimenta laços fortes e mesmo familiares entre povos de idênticas etnias, hábitos e costumes (balantas, mancanhas, felupes (diolas), manjacos e mesmo fulas e mandingas). Nestes anos de guerra imensos refugiados instalaram-se em Casamanse com o apoio dos residentes locais. Ao contrário, o presidente Senghor, teme o que possa acontecer, pois falhado o projecto “Senegâmbia” (anexação da Gâmbia pelo Senegal) quer manter o país com as fronteiras actuais. Com efeito, Casamanse nunca foi integrada legalmente e nem desde a independência senegalesa em 1960 reconhece a soberania de Dakar. Estamos em 1973 e neste momento vigora um acordo de coabitação por um período de 20 anos, só que em conflito permanente. Não espanta que o PAIGC se movimente tão bem na região… Porém, nem sempre foi assim. A linha política de Senghor simboliza uma aposta de alguma social-democracia europeia para África (da própria “Internacional Socialista”, já que o seu modelo é único no continente, permite eleições periódicas, embora a democracia seja limitada, pois partidos que cheirem a marxismo são excluídos de nelas participar, como o PAI do actual presidente Abdulai Wade)! A grande questão é que ao longo dos anos o Senegal nunca evoluiu nem resolveu melhor os problemas da fome e do subdesenvolvimento do que qualquer outro regime em África que não estivesse em guerra interna ou externamente. Ora, além de Zinguinhor o PAIGC tem as bases de Yeran e Kolda que, por via rodoviária, rapidamente dão apoio às forças que no terreno fazem a vida negra a Bigene e Guidaje, pelo menos... Mas nem sempre foi assim. Durante muito tempo os apoios de Senghor ao PAIGC foram tímidos. Outrora, o presidente do Senegal via com mais simpatia a chamada FLING, movimento impulsionado por ele próprio com o beneplácito do sistema colonial português, cuja fundação visou dividir os “independentistas”, aproveitando ter à frente um par de ambiciosos intelectuais que se manifestavam claramente contra Amílcar Cabral. Senghor temia que um novo país liderado por Cabral se aliasse militarmente ao de Sekou Touré (Conakry) e juntos consumassem uma ideia antiga do lado francófono, de criar uma grande Guiné, potência regional. Mas o correr do tempo desmentiu tal propósito. Também lhe fazia confusão a diversidade de apoios que o PAIGC tinha no Globo inteiro, da China aos países socialistas e africanos, passando por muitas forças progressistas europeias e sul-americanas. Apesar de tudo há muito que o PAIGC tinha sede em Dakar (Rue Félix Faure) e neste período havia adquirido novos edifícios no centro da cidade para ampliar a sua representação. As mais recentes tentativas de diálogo entre Senghor e Spínola, para eventualmente patrocinarem uma solução política do tipo neo-colonial, fracassaram devido à liminar recusa de Marcelo Caetano, que preferia uma derrota militar a um entendimento com os “terroristas”. O radicalismo do ditador contribui para que Senghor abra, noutros moldes, as portas à actividade dos guerrilheiros no território senegalês. As pressões internacionais (ONU, OUA, Organização dos Países Não-Alinhados, etc.), e também a clarificação das dúvidas que Senghor tinha em relação à sua política futura quanto a uma eventual tentativa de anexação de Casamance, ou um entendimento sobre esta matéria, o terão feito mudar de ideias. Foi elaborado um protocolo de acordo quanto ao estacionamento e transporte de armamentos no território. No entanto, o que está demonstrado é que houve quase sempre colaboração entre militares do Senegal e a tropa portuguesa. Alguns exemplos: o comandante do destacamento do exército senegalês em Nianao contribuía para a normalidade da situação militar em Pirada; o comandante de Setikénie jurava a pés juntos que pelo seu território os guerrilheiros nunca passariam para atacar a Guiné (Cambaju); e o comandante da CCaç 4147 (Sare Bacar) escrevia à PIDE a enaltecer o papel do agente Raul Alfredo Silva “nas relações estabelecidas com as autoridades do Senegal” (bla bla bla).

Nesse mesmo dia os dois pelotões da CCaç 3518, mais os militares que connosco chegaram no dia 15 (o grupo de combate da Companhia Africana Eventual de Cuntima e o Grupo Especial de Milícias 322, de Jumbembém), organizamos uma tentativa de regresso “a casa”. Na frente, na cola dos picadores, segue também pessoal dos DFE-3 e DFE-4. À partida, a escolha da data não poderia ser melhor, julgamos que as forças da guerrilha estão prioritariamente envolvidas na defesa de Koumbamory. Puro engano: arcámos com uma emboscada violentíssima ao alcançarmos a fatídica casa amarela no Cufeu, onde diversos combates se tinham travado desde a primeira semana do mês. O campo de minas alargou-se e diversas foram accionadas, até por membros da população que, querendo fugir ao inferno que se vivia também na tabanca de Guidaje, se tinham agarrado às viaturas, forçando a boleia, para irem procurar refúgio em Binta, Farim, ou o mais longe possível.

Quando a emboscada rebentou, uma “roquetada” lateral cortou ramos da árvore sob a qual me abrigava e que me caíram nos ombros. Assustei-me, olhei para o lado de onde veio o disparo e precipitei-me a disparar às cegas, desperdiçando mais de meio carregador de munições. Outras ogivas de lança-granadas foguete RPG vieram da frente da coluna, gemidos sibilantes que pareciam passar à tangente das nossas cabeças e troar pela estrada fora, não dava para ver aonde. A essas não podia responder, sob pena de pôr em risco o físico de outros camaradas, na linha de fogo. De súbito, dou com uma jovem mulher a saltar da MG estacionada à força trinta metros à minha frente, desatar a correr e pisar de seguida uma mina, dando um pinote tremendo e vindo estatelar-se não muito afastada do local onde me encontro. Ali ficou, imóvel, olhos em pânico, mas sem visíveis ferimentos além do sangramento do pé e alguns rasgões no pano-de-saia. Já não me lembro quem foi o soldado que com a faca de mato lhe rasgou um pedaço desse pano e lhe atou o pé a ver se o sangue estancava, enquanto outro gritava pelo enfermeiro, que já andava a acudir noutras paragens. As balas inimigas não param de silvar sobre nós e cada qual rastejou e abrigou-se o melhor que pôde, buscando com a mira da G3 um alvo que mexesse no horizonte próximo, mas daquele local não havia inimigos à vista. Um pedaço de capim que pareceu mexer-se logo foi imobilizado por uma M-62 (granada ofensiva) que um dos nossos soldados arremessou com notáveis impulso de braço e pontaria. Mas não se confirmou que tivesse causado ferimentos a quem quer que fosse.

O sopro da mina pareceu-me de “efeito dirigido”, ou seja, amputou-lhe metade dum pé e deixou um corte tão perfeito como se desferido por uma catana afiada (um “terçado”, na Guiné). Apesar da minha especialidade ser “minas e armadilhas”, não pude certificar-me pessoalmente se o modelo dos novos engenhos utilizados pelo PAIGC na região era o que se dizia: minas anti-picagem, – quer as antipessoal quer as anticarro. Teriam uma pequena bateria, ou pilha, no interior, e a detonação era provocada por duas folhas de estanho paralelas, uma usada como pólo positivo e outra negativo, disfarçavam-nas com uma finíssima camada de terra por cima e a mais leve pressão da “pica” provocaria o rebentamento imediato. À testa da coluna, um picador, curvado para a frente no desempenho da sua tarefa, accionara instantes antes uma “coisa” idêntica e o “corte” que ficou no corpo apresentou-se nos mesmos moldes. Só que, – isso sim, fui confirmar quando terminou a troca de fogachal, – o suposto efeito de sopro fez-lhe desaparecer o queixo e o rosto; o que restou da cabeça ficou espantosamente guilhotinado, na vertical. Tal como na “badjuda” nenhum outro ferimento se via no corpo, nem uma beliscadura, já que a mina provocou um cilindro vertical de deslocação de ar, mas não produziu estilhaços… Ainda assim, o soldado Vieira saltou para cima da MG onde sabia estar um Morteiro M2 60 mm e caixas de granadas, acartou o que pôde para a berma da picada (regos abertos pelos rodados das viaturas), afastou-se da ramaria das árvores e lançou uma série de projécteis na direcção de onde lhe parecia que o ataque tinha mais força.

Quando a situação parecia mais calma, – pois já não sentíamos tiros na nossa direcção, – através do rádio-banana que o nosso cabo das transmissões lhe cedeu, o alferes Igreja recebeu ordens para que os dois pelotões d’Os Marados de Gadamael mudassem de posição, formando um “L” em relação à posição da coluna, isto para evitar tentativas de envolvimento por parte do IN. Quem mostrou má cara por ter que se erguer e arrastar para outro lado foi o alferes Cruz. Estava branco (provavelmente tão branco como eu estaria, mas faltou-me ali o espelho para comparar), enjoado com o cheiro intenso dos explosivos. Tinha chegado recentemente à companhia, vindo da metrópole em rendição do Dino Álvaro Mendes Duarte, também alferes miliciano “Marado” mas, quem sabe se em boa ou má hora?, transferido para a companhia africana sediada em Bedanda (CCaç 6), – onde também passou as “passas do Algarve”, o mesmo sucedendo ao furriel miliciano Manuel Fernando Urbano Neves e, mais tarde, ao furriel Manuel Baptista Fidalgo, – pelo que, na sua condição de, relativamente, periquito (o Cruz chegou a Os Marados a 12 de Outubro de 1972 e no início de 1973 foi temporariamente deslocado para Bambadinca como instrutor do 1º turno de milícias), estava a “tirar os três” no mato, e logo daquela maneira…

Na frente da coluna, o combate foi violento, o ataque frontal em linha do PAIGC causou muitos danos logo de início, ferindo alguns camaradas. Não foi fácil ao pessoal recompor-se e reagrupar-se. Passados vinte e tantos minutos, deixámos de ouvir o matraquear das Costureirinhas e das G3, pois assomam-se dois Fiat que cortam o ar em voo rasante sobre as árvores, bombardeiam duas vezes, – e de que maneira!, – a cento e cinquenta metros de nós, ou talvez um pouco mais. Depois passam novamente em sentido contrário e o chão volta a estremecer por duas vezes, a cada embate das “ameixas” que deviam ser das de 200 quilos! Logo a seguir, – a dois, três quilómetros? –  ouvem-se disparos secos e estranhos assobios. No céu, os mísseis Strela (Flecha, em russo) perseguem os aviões e deixam um estreito rasto de fumo branco a marcar o itinerário. Para se defenderem, os Fiat sobem a pique, o mais rápida e verticalmente que podem, até que os mísseis perseguidores rebentam lá nas alturas. É certo que acima dos dez mil pés deixam de correr perigo, mas a verdade é que, a essa altitude, também deixam de o causar ao IN, pois a tamanha distância dificilmente têm êxito a escolher um alvo e a bombardeá-lo... Os aviões desta vez não são atingidos, mas escusado será dizer que o nosso apoio aéreo termina neste momento. E respondendo ao ímpeto inicial da emboscada e à tentativa de envolvimento que efectivamente se seguiu, muitos de nós ficamos sem munições de G3. Também o pessoal das metralhadoras e de armas pesadas precisava de se reabastecer com granadas. Embora sem se temer nova investida do IN, pelo menos de imediato (as bojardas da aviação provocaram estragos em quem nos atacou) o pronto retorno a Guidaje foi inevitável.

Houve o registo do morto (picador) e de sete feridos, mas suponho que sem contar com os elementos da população, principalmente a jovem guineense que perdeu o pé. Entre Os Marados de Gadamael nenhuma baixa há a lamentar. Mas todo o pessoal envolvido na coluna, que tinha por objectivo atingir Farim e zarpar dali para fora, mas que agora é obrigado a recuar, fica ainda mais desmoralizado por não conseguir abandonar a tormentosa guarnição de Guidaje e por não ter perspectivas de como e quando conseguirá romper o cerco movido pelo PAIGC. Com o apoio limitado da aviação e com os acessos cortados, os feridos sem evacuação possível e corpos a agonizar, a situação é já de algum desespero. Psicologicamente abatidos, com munições a escassear, começamos a temer um ataque ao arame.

161-Guidage cercada - III

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
17 de Maio

Acordo estremunhado sob o efeito de novos ataques de artilharia, com granadas a cair bem no interior do quartel. Os Obus 10,5 reagem prontamente sob as ordens do comandante (tenente-coronel Correia de Campos) e fazem um longo batimento de zona, conseguindo calar os disparos inimigos. Os canos são também apontados para o interior senegalês, dizem-me que visam certamente atingir a base de Koumbamory. São disparados mais de 40 tiros de Obus. O nosso cabo artilheiro que coabita o quarto subterrâneo que “ocupámos” confidenciou-me que em todo o quartel restam unicamente 39 granadas de calibre 10,5 e que as deve poupar para qualquer eventualidade futura. O certo é que nos dias seguintes a artilharia deixará mesmo de reagir aos repetidos ataques inimigos, essa tarefa ficará a cargo dos Morteiros 81, talvez somente para marcar presença, para demonstrar que estamos vivos!

Entretanto, está em andamento a grande operação Ametista Real. Com efeito, prepara-se uma acção de gigantescas proporções para o envolvimento da principal base inimiga. O Objectivo é aniquilar ou reduzir a capacidade bélica de um IN que contará com cerca de 650 efectivos concentrados ali à volta, uma acção que ponha fim ao actual isolamento da guarnição de Guidaje, que nos permita evacuar os feridos e tratar do reabastecimento de géneros, de medicamentos, até mesmo de urnas!...


18 de Maio

No cerne da operação, que será comandada pelo major João de Almeida Bruno (antigo comandante do Centro de Operações Especiais) e pelos capitães António Ramos (agrupamento Romeu, do tenente Quiseco), Matos Gomes (agrupamento Bombox, do tenente Zacarias Saiegh) e Raul Folques (agrupamento Centauro, do tenente Jamanca), está o Batalhão de Comandos Africanos. A par do agrupamento Romeu desloca-se o Grupo Especial (do Centro de Operações Especiais), hábil em demolições, comandado pelo alferes Marcelino da Mata.

O capitão António Ramos já faleceu; os capitães Raul Folques e Matos Gomes são hoje coronéis. Este último tem sido porventura o militar mais empenhado em estudar e contar a História das guerras coloniais (nas três frentes Guiné, Angola e Moçambique); e também tem obra relevante publicada no domínio da ficção/literatura de guerra, sob o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz (destaco Nó Cego, obra inspirada na operação Nó Górdio, em Moçambique ordenada pelo general Kaúlza de Arriaga e condenada por toda a comunidade internacional), entre os seus romances de ficção ASP De Passo Trocado, Soldado, Os Lobos Não Usam Coleira, este adaptado ao cinema por António Pedro de Vasconcelos com o título”Os Imortais”, O Livro das Maravilhas e Flamingos Dourados).

Os cerca de 450 homens envolvidos na Operação Ametista Real saem este sábado de Bissau e chegam a Ganturé, transportados a bordo de uma LDG (lancha de desembarque grande) e duas LFG (lanchas de fiscalização grandes).

A base fluvial de Ganturé, a 5 quilómetros de Bigene e na margem do Cacheu, quase não tinha estruturas. Contou-nos um marinheiro, de rosto bem queimado pelo abrasador sol africano e que chefiava uma esquadra, que foi o Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 4 que recebeu a incumbência de as (re)construir, desde o mês passado. Assim, receberam em Abril, por via fluvial, uma montanha de bidões de combustível vazios, a que haviam que cortar as tampas e encher de terra, com o que montaram a estrutura lateral do “quartel”, colocando por cima as chapas de zinco, como era de uso na engenharia tradicional dos tempos de guerra. Em simultâneo, cavaram abrigos subterrâneos e as imprescindíveis valas, não esquecendo o insubstituível bar para as horas de ócio…

Diz-se que o batalhão de comandos africanos é especializado em acções fora do território, talhado para intervir nos países vizinhos. Daí os comandos vestirem muitas vezes fardas turras e usarem, também com frequência, o mesmo armamento (à medida que se vão capturando as Kalashnikov, os lança-granadas foguete RPG-2 e RPG-7, as espingardas automáticas Simonov, as metralhadoras ligeiras Degtyarev e pesada Goryounov, utilizadas pelo PAIGC)…

As Kalashnikov usam balas de calibre idêntico (7,62 mm) às das G3 que nós utilizamos. Manejam-se, contudo, com muito mais facilidade: desde logo, por serem mais leves (menos 225 gramas) e quinze centímetros mais curtas; e porque os seus carregadores comportam trinta cartuchos, mais dez que os vinte da nossa G3. Ora, salvo em situações/operações excepcionais, cada soldado das NT leva para o mato um carregador na arma (permite-lhe dar vinte tiros) e quatro cartucheiras no cinturão (cada uma com um carregador de vinte, o que permite dar oitenta tiros, – cem no total); enquanto que um guerrilheiro do PAIGC, com menos peso e melhor operacionalidade, pode disparar por cento e cinquenta vezes…

160-Guidage cercada - II

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
16 de Maio

Para aqui estamos, os 200 que já cá “moravam” (essencialmente a companhia africana nº 19 e o pelotão de artilharia de 10,5 mm), mais os acabados de chegar. Se o IN nos poupou às boas-vindas, o certo é que não foi preciso esperarmos vinte e quatro horas para levarmos com a primeira chuva de granadas. Regista-se um morto, – o soldado Martinho Cá, apontador de metralhadora da CCaç 3. Também um dos nossos homens (CCaç 3518) é ferido ligeiramente com o ricochete de um estilhaço, mas nada de grave.

Se no sul nos diziam que quem comandava directamente os guerrilheiros era o temível Nino Vieira, aqui também não fazem a coisa por menos: os renhidos combates que se estão a travar em redor de Guidaje mobilizam largas centenas de homens do PAIGC, que cada vez mais nos apertam o cerco, comandados pelos já conhecidos (de nome, pelo menos) Francisco Mendes e Manuel dos Santos.

Francisco Mendes (também Chico Mendes, ou Chico Té) esteve com Amílcar Cabral e outros dirigentes históricos nos primeiros cursos de formação, em Praga (antiga Checoslováquia). Foi assassinado em 7 de Julho de 1988, após uma independência pela qual lutou a vida inteira. Mas diz a sabedoria popular, em crioulo, que “dinti mora ku lingu, ma i ta daju i murdil” (os dentes moram com a língua, mas às vezes mordem-na – provérbio guineense)! Chegaria a primeiro-ministro da Guiné-Bissau. Quanto a Manuel dos Santos (Manecas), que além de dirigir guerrilheiros é um dos comissários políticos que coordena quem vive nas “áreas libertadas” e, nesta altura, comanda a Frente Norte, é responsável pelas operações dos mísseis terra/ar em todo o território. Estivera na União Soviética a receber formação específica para operar e ensinar a manejar os Strela. Será ministro da informação logo no primeiro governo da Guiné-Bissau, após a retirada das autoridades portuguesas. Nasceu em Santo Antão, Cabo Verde, em 1943 e será dos raros dirigentes cabo-verdianos do PAIGC que permanecem nos governos de Bissau depois do “14 de Novembro” (golpe de estado de Nino Vieira). Logicamente que na investida contra Guidaje estiveram envolvidos mais quadros do PAIGC, entre eles, Manuel saturnino da Costa, que chegaria a ser secretário-geral do partido e primeiro-ministro da Guiné-Bissau independente, e alguns intermédios, como Lúcio Soares, Joaquim Biagué e Bobo Queita.

Logo a seguir ao primeiro ataque, o furriel Bernardo Monteiro e os alferes Igreja e Cruz foram não sei onde desencantar mais duas camas e colchões, trouxeram-nas para o abrigo e, sobrepondo-as às existentes, montaram-nas em camarata. O quarto do furriel artilheiro ausente, onde há duas ou três semanas só ele residia, transformou-se num dormitório apertado, onde passamos a pernoitar sete almas. Virá também a juntar-se ao grupo o furriel Fernandes, da CCaç 19 (o tal outro transmontano que alguém de Farim indicou ao Machado).