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14 de maio de 2011

168-Lembrando as baixas

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
26 de Maio

Se já era difícil dormirmos alguma coisa no abrigo, mais difícil foi fechar os olhos nas valas. Passámos mais uma noite em claro, percebemos melhor as queixas dos que já habitavam no “metro” há mais dias, não conseguimos dormitar nem um cagagésimo de tempo. Quando rompeu o sol vimos que na palmeira pendia não só o cacho de dendém, mas um volume escuro e grosso, cheio de abelhas a entrar e a sair. Não é nada agradável conviver com favos àquela distância. Para já, ninguém se queixa de ter sido picado, talvez o dia se torne mais propício a uma soneca, estendidos no fundo da vala.

No fundo? Logo eu, que ainda em Gadamael ganhei complexos de me atirar para dentro de valas, sobretudo, à noite. Tinha acabado de sair do banho (que se tomava em balneários construídos com bidões, já perto do rio), de chegar ao meu quarto e me enxugar, a única roupa que tinha no corpo era um par de peúgas e nesse instante uma sentinela dispara uma rajada (teria dado por “saídas” de fogo IN e deu assim o alarme de flagelação), e mal tive tempo de agarrar na G3 e correr naquele estado para a vala mais próxima. Agachado, mas positivamente com o rabo de fora, passados instantes pressinto algo no pé. Apesar do lusco-fusco, vislumbro uma senhora cobra a roçar-se nos meus tornozelos, levando-me a esquecer os perigos das bernardas que caíam em redor e a pular para fora, naquela triste figura… Foram os soldados que ali se encontravam que, calçados com botas de lona, a mataram e atiraram para fora da vala. Como os rebentamentos continuaram, tornei ao interior da vala. Foi uma incursão breve, pois duas lombrigonas, filhotes da falecida, andavam no fundo aos pinotes…

Cedo nos confirmam o que já se esperava: a morte do furriel Fernandes. Um pouco mais tarde, sucumbe também devido aos ferimentos o soldado da CCaç 19, António Talibó Baio.


27 de Maio

Sou mandado chamar à secretaria. Sou, isto é, ninguém reclama o meu nome, querem é a presença do “mais-velho” graduado dos pelotões da CCaç 3518. Lá fui, não por ser “mais-velho” de nada, mas por ser o único dos seis graduados que vieram do COMBIS que ainda podia andar com relativa ligeireza. Um alferes (não me lembro de o ter visto antes, deve ser da CCaç 19) pede-me que mobilize quatro soldados que devem apresentar-se ali uma hora depois, para ajudarem a sulcar novas covas, pois o comandante decidiu mandar enterrar os defuntos que restavam na enfermaria. E repete-me as explicações que é possível dar: a situação é insustentável, não se prevêem evacuações, o cheiro já não se aguenta… Sim, é evidente que serão também sepultados os homens da minha companhia. E devo preparar uma secção que, tão ataviada quanto possível (os mais limpinhos e com camuflados menos rasgados?), irá prestar as honras militares durante o funeral, porém, sem salvas de tiros para o ar, para se evitar o charivari da cerimónia anterior com os camaradas pára-quedistas, e também para que o IN não contabilize de ouvido o número das nossas baixas.

Dói-me participar nos enterros do Machado, do Telo e do Ferreira, particularmente nestas condições. E não se sabe quanto tempo irá durar a débil respiração do Gonçalves. Meu caro, – advertiu o alferes, – é o que tem de ser feito e não há que hesitar. Apesar de compreendida, às primeiras impressões a solução não é bem aceite. Dizem-me os soldados em tom de revolta que fazem e acontecem e que levam os corpos às costas até Bissau, e por aí fora! Deixar os corpos em Guidaje é que está fora de causa. Mais tarde, conformam-se, alguns de lágrimas nos olhos.

À hora marcada, transportam-se os corpos para o local que, embora já conhecido por cemitério “provisório” de Guidaje, tem um número reduzido de sepulturas. De facto, não alberga a maioria das vítimas da batalha que travamos, nomeadamente os comandos tombados durante o assalto a Koumbamory, enterrados algures.

Os dez voluntários de Os Marados de Gadamael a quem dei refrescamento prévio de “ordem unida” já se encontram perfilados junto aos jazigos cavados durante a manhã, comigo à frente. Apesar da profunda tristeza, foi caricato ter passado o resto da manhã a treinar manobras com as G3 com estes homens, até que atinassem, e mal, com a posição de funeral-arma, difícil de efectuar devido ao maior número de movimentos de braços que é preciso efectuar. Haviam-na treinado uma única vez, na recruta. Quase dois anos depois e numa ocasião destas, a motivação para treinos de ordem unida também não é muita…

Outros homens, em especial os membros da companhia, concentram-se nas imediações para um último olhar, uma despedida dos camaradas que viram a vida ceifada pela morteirada filha da puta. Experimentem enterrar um irmão no quintal para perceberem o que isto é! Jazem neste quintal de casa alheia, logo adiante, os restantes corpos que já referi. Todas as campas têm espetadas em cima cruzes de pau, e já existem outras cruzes prontas para serem espetadas na vertical sobre os novos defuntos que, por agora, estão deitados no chão, embrulhados em panos de tenda, lençóis, penso que também em rolos de gaze e adesivos, cada qual frente à cova que não sabemos se será a sua derradeira morada. Chega o tenente-coronel Correia de Campos, pela posição em que me encontro, à frente dos soldados já perfilados, percebe que serei eu a gritar as palavras de comando e faz-me sinal com o pingalim para que inicie a cerimónia.

Grito “firme”, “sentido”, etc., até ao “funeral arma”! Faço continência ao comandante sem saber o que procedimento deveria seguir-se (já sabia que não daríamos tiro algum em honra dos tombados). O comandante murmurou algumas palavras de circunstância a rimar com pátria e nação, que estamos aqui para render homenagem a estes nossos heróis, mas as condições ditam que temos de ser breves, e manda avançar os dois africanos da CCaç 19 e os dois madeirenses da minha companhia (tenho ideia de que um deles era o Abreu, do meu pelotão), que em silêncio, neste caso, verdadeiramente sepulcral, da direita para a esquerda e um por um, começam a descer os corpos e a cobri-los com pás de terra.

Quero lembrar-me de outras imagens desses companheiros, mas vivos, como se fosse possível não arquivar na memória esta forma de os ver desaparecer sob as pazadas de terra. O primeiro a ser depositado é o corpo do Fernandes. O que pensar a seu respeito, se mal o conheci? Só o convívio recente, o rogar pragas à vida, o ter falado mais que uma vez da sua origem, da aldeia de onde é natural, – Carção, e por não sabermos onde fica nos explicar ser terra de almocreves e a capital portuguesa dos marranos (judeus convertidos à força) e que conserva as tradições dos “cristão novos”, como o pão ázimo, feito sem fermento e para ser comido durante a Páscoa judaica. Ficas aqui a dois passos do teu quase vizinho Geraldes, de Algoso. Será que chegaram a conhecer-se?

O soldado Manuel Geraldes, – o primeiro corpo sepultado na fiada de campas onde se encontram os três pára-quedistas, – era apreciado na freguesia de Algoso pelas qualidades pessoais, que deviam ser muitas, tal a saudade que deixou, não apenas entre familiares, conforme ficou demonstrado tantos tempo depois, quando o seu corpo foi exumado e trasladado até ao Vimioso. Ainda foi recordado ser um rapaz trabalhador, por ter um gira-discos trazido de França que ajudava a animar a juventude local do seu tempo, organizando bailaricos e puxando-a também para o futebol.

Segue-se o Telo. Até sempre, Telo! Por este andar, até breve, amigo! Também já não devemos resistir muito, a quantas mais morteiradas vão esquivar-se os nossos corpos? Já sentimos saudades tuas. Os teus familiares, esses, já as sentem desde que partiste de Paul do Mar, da fajã linda e sossegada que tantas vezes enalteceste, da salina antiga onde começaste a dar os primeiros chutos numa bola, da igreja que ajudaste a construir e onde foste sacristão. Adeus companheiro, para além do militar exemplar que te revelaste ao longo deste tempo em que caminhámos todos juntos, demonstraste perante nós uma atitude e uma educação invulgares. E foste o atleta que muitos de nós também gostaríamos de ser, – tão depressa, o União da Madeira não vai arranjar um substituto à altura para constituir o onze… Já não apanhas mais o barco até ao Funchal, capaz de regressares a casa só quinze dias depois, passados em treinos e jogos pelos pelados da ilha. Só assim se formam os verdadeiros atletas! Lembras-te, camarada, do belo Dia da Infantaria (14 de Agosto) em que, para queimar o tempo e animar as hostes em Gadamael, o capitão resolveu comemorar com uma mão-cheia de actividades desportivas e ambos fizemos parte da equipa de voleibol? Ganhámos que nem ginjas o primeiro lugar e limpámos o prémio das duas grades de cerveja à equipa de “Os Pipas”, – vinda expressamente de Cacine a bordo dos Sintex, –  e vingámos a derrota por 2-0 no futebol… E tu, – quem mais poderia ser? – ex-aequo com os furriéis Custódio e Almeida, ainda ficaste em primeiro no salto em altura… Por agora, Telo, ficas aqui, em solo africano. Podem dizer cobras e lagartos de que vieste para a Guiné fazer a guerra, mas tu há muito que combatias era pela paz no continente negro, há muito que enviavas donativos para ajudar as crianças de África, através das missões católicas em que militavas.

Passados dias será mandado um telegrama para a Fajã da Ovelha dirigido aos pais. Perante o remetente, já conhecido, nenhum carteiro o quis entregar, nem ler o conteúdo pelo telefone. A irmã do Gabriel Telo, mais nova dois anos (Gabriela) estava sozinha em casa e vieram chamá-la para ir atender um telefonema à mercearia. Era para levantar o telegrama na Fajã, para onde não tinha meios de se deslocar. Desconfiou que fosse algo relacionado com o irmão mais velho (eram cinco ao todo, três rapazes e duas raparigas). Lá conseguiria uma boleia e acabou por ser um outro irmão, ainda mais novo, quem foi buscar a notícia, que a todo o custo queriam ocultar à mãe, para adiar o desgosto. Mais tarde veio a mala e os pertences, gerando novas angústias e a revolta por nada mais haver a fazer, que o corpo já estava enterrado. Quem poderia imaginar que o mesmo corpo chegaria à terra 36 anos depois e que, a pedido da família, iria restar no mesmo local onde o pai, João de Jesus Telo, fora entretanto sepultado? “Agora ele está na sua terra!” A vida tem destas coisas. O Telo (e também um irmão mais velho) foi jogador no União da Madeira. Nesse tempo, os clubes pagavam a outros militares para que fossem mobilizados no lugar dos seus craques (o regime não se opunha a tais trocas, e nem protegia só os atletas, mas as gentes endinheiradas, cujos filhos, caso enveredassem por tal “modalidade”, ou não iam à guerra ou o faziam a cobro de especialidades não operacionais). No caso do Telo havia já um voluntário, só que este, à última hora, terá sido também mobilizado e a troca abortou. Era um homem bondoso. Quantos de nós, no regresso de férias da metrópole, nos lembrámos de trazer roupas “para os pretinhos”? Ele fê-lo! O destino existe? O Telo e os outros do seu pelotão, poderia nem ter ido parar a Guidaje. Seria o quarto pelotão a alinhar na malfadada coluna a (presumiam os soldados) Farim, mas como o respectivo alferes (António Francisco Lopes Monteiro) passou a ser o comandante interino da companhia devido à ausência do capitão, que estava de férias no Porto Santo, alguém entendeu ser preferível escalar os primeiro e segundo pelotões naquele dia de Maio de 1973.

Agora, caro João, és tu a descer à cova. Já estilhaços traiçoeiros te tinham ferido na estrada de Guileje (aquela mina maldita que ceifou a vida ao Raposeiro e que também feriu o soldado João Manuel Oliveira, do pelotão Fox 2260, em 7 de Agosto do ano passado). Foste evacuado para Bissau, depois para Lisboa e, tratadas as feridas, vieste cair de novo neste lamaçal. Pensar que voltaste há pouco mais de três meses à companhia para ficares agora neste estado? Que pôrra, Ferreira, também contigo somos levados a acreditar no destino? Já tinhas o teu quinhão, rapaz!

E tu, meu querido camarada e amigo Zé Carlos? Que grande partida te pregaram! Não lembra ao diabo que por vires trazer madeira para reordenamentos acabarias por morrer neste inferno, tu que te calhou em sorte teres o reordenamento como tarefa, o capitão não te mandou a Bissau para tirares o estágio há um ano e picos? Nunca, meu amigo, nunca te vi de verdadeiro mau humor, sempre cordial com toda a gente. Tanto que, quando azedavas, quando te fazias de zangado, ninguém te levava a sério. Nas nossas brincadeiras de garotos, digo bem, acordarmo-nos uns aos outros arremessando botas para cama alheia não é próprio de homens que andam na guerra, nem as camas à espanhola nem os baldes de água nos umbrais das portas, divertimo-nos imenso com estas e muitas outras brincadeiras de garotos. Tiveste sempre a habilidade de contabilizar mais partidas aos outros do que encarnares o papel de vítima. Taparam-te agora o rosto, embrulhado dessa maneira. Mas estou a imaginar por baixo da gaze o leve sorriso que sempre te vimos nos lábios, como que a dizer-me, desta vez, apanharam-me, fui eu que caí, mas na volta já vos fodo!

Também em Sá, concelho de Valpaços, a família do José Carlos Machado amenizou a angústia e o pesar trinta e seis anos depois. “Já o cá temos connosco”! Irmão, mãe e pai (com o qual, se bem me lembro, por circunstâncias da vida o Machado conviveu durante pouco tempo), todos em lágrimas, como se o Mundo estivesse parado ao longo desta eternidade, por uma incerteza, um enterro não resolvido. Em 1973, a notícia oficial chegou a Sá igualmente através de um telefonema para o posto público: os familiares andavam a tirar ervas de uma terra de batatas e foram obviamente apanhados de surpresa. É que, apesar de quem tinha lá fora os filhos e os maridos andar sempre com o coração em sobressalto, temendo o pior, restava sempre a esperança de que as desgraças que abalavam todas as localidades do país acontecessem só aos outros…

Embora ninguém mo tenha solicitado, memorizo a ordem por que ficam em repouso para elaborar e entregar mais tarde um croquis. O comandante do COP3 manda destroçar  e abandona o local quando o corpo do Machado desaparece sob a terra. Nada mais há a fazer e digo ao meu pessoal que pode regressar às valas onde “residimos”. A maioria não arreda pé tão depressa e deixa-se ficar a olhar as sepulturas, num último adeus. Dois soldados passam as armas aos parceiros do lado, ajoelham-se, fazem o sinal da cruz e rezam. Os camaradas que fazem de coveiros alisam a terra com as costas das pás e espetam as cruzes de pau improvisadas, que ali ao lado aguardavam o seu destino. Interrogo-me se e quando seriam resgatados os corpos destes camaradas?

Neste dia imaginei que quando a situação operacional estivesse normalizada fosse possível levantar as campas e transportar os féretros para Bissau e daí para os seus destinos (famílias). Mais tarde, a seguir ao 25 de Abril, pensei que antes da retirada da Guiné-Bissau, as autoridades militares acautelariam essa questão em devido tempo. Era a altura ideal, antes da passagem administrativa do poder para as novas autoridades. Depois ficou a incógnita, o território passou a ser um Estado independente e a burocracia e confusão das primeiras décadas de soberania só poderiam trazer dificuldades, tanto mais que a política externa dos governos portugueses, sobretudo nos anos 70, 80 e ainda 90, foi sempre uma lástima no tocante a cooperação, por motivos que são basto conhecidos e que não vêm à baila nestas páginas. Por que é que isso não foi feito (nem com estes nem com outros corpos sepultados nas antigas colónias), só quem lá esteve nessa altura poderá eventualmente ter explicações. Curiosamente, o BCaç 4512, – uma das unidades com mais vítimas mortais durante esta “crise” e a cuja primeira companhia pertencia o soldado Geraldes, um dos corpos a exumar, – comandado pelo tenente-coronel de infantaria António Vaz Antunes, foi quem “comandou e coordenou a execução do plano de retracção do dispositivo de desactivação e entrega dos aquartelamentos ao PAIGC, a qual foi efectuada no subsector de Guidaje, em 21 de Agosto de 1974”. Na perspectiva de uma qualquer iniciativa, coloquei a questão ainda nos anos oitenta durante um encontro/convívio de “Marados” em Lisboa. Há muito que tinham passado os cinco (havia quem dissesse sete) anos, tempo mínimo técnica e legalmente (?) para se poder proceder ao levantamento de ossadas. (Maria Lourenço, irmã do pára-quedista Lourenço da CCP 121, disse que recebeu a notícia da morte a 28 de Maio de 1973, e que lhe disseram que nada havia a fazer quanto a funerais, pois o irmão já estava enterrado e “só quando fizesse sete anos é que mandavam os ossos”). Por razões pessoais, eu vim a ter bom relacionamento com dirigentes do PAIGC e admitia ser bem sucedido para obter autorização do governo de Bissau com vista a desbloquear os procedimentos administrativos e tratar do assunto. Um dia, em Fevereiro de 1987, aproveitei uma conversa com Vasco Cabral (por coincidência, nascido em Farim e que, escapando por um triz à morte quando do assassinato do líder do PAIGC, viria a falecer muito recentemente, suponho que há dois anos) e pedi-lhe uma opinião sobre o assunto. Apesar de torcer o nariz ao precedente e de considerar que “mexer nos mortos é sempre complicado”, disse-me que nunca ninguém teria levantado essa questão, pelo menos que fosse do seu conhecimento, mas que as autoridades não deixariam de analisar e de encontrar a melhor solução para que os corpos sepultados em Guidaje pudessem voltar às suas famílias. Apesar do apelido e de estar na génese da criação dos movimentos de libertação nacional das ex-colónias, Vasco não tinha qualquer parentesco com Amílcar Cabral. Ambos, conjuntamente com Agostinho Neto e Mário de Andrade (angolanos) e Marcelino dos Santos (moçambicano), todos a viver e/ou a estudar em Lisboa, foram os dinamizadores das actividades da Casa dos Estudantes do Império, ao Arco Cego/Lisboa, integraram o MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática, ao lado de muitos anti-fascistas portugueses), entre outras façanhas que marcaram a nossa história política e cultural. No encontro de Marados em Lisboa, a minha proposta foi derrotada pelo argumento do reavivar desnecessário dos choques para as famílias e, democrata que sou, aceitei também o silêncio. A questão das famílias é argumento válido para muitas delas, mas não para a maioria, como se tem demonstrado. As famílias dos três pára-quedistas da 121, as do Telo, do Machado e do Geraldes viram com bom olhos as trasladações… Um funeral adiado só prolonga o sofrimento, a constrição, é um nó na garganta. O enterro, religioso ou não, consuma a despedida, encerra o ciclo. 

167-A ressaca

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
25 de Maio

O dia decorre com a tensão do costume. Perguntamo-nos se não estaremos com fome e concluímos que antes o aperto no estômago que o risco de ir à messe e ser surpreendido por um balázio à ida ou à volta. Já perdemos o apetite, esquecemo-nos de comer, as horas e dias passam e nem damos pela necessidade de comer... Quanto alguém está de maré e se deita ao caminho, ao longo da vala que passa mais próxima do refeitório ou da messe, cravamos a esse parceiro um prato, tigela, marmita, o que houver com comida e nos puder transportar trazer com nas mãos, à cabeça, como puder. Cada qual passa a trazer para o abrigo o número de refeições que o vasilhame permitir e dividimos os morfos. Sede? Também já não sentimos, que se lixe a água. Somos novos e o corpo aguenta. Aprendemos a compartilhar, a dividir a bianda, que da última vez apareceu no lugar do esparguete e, em vez da salsicha, os cozinheiros foram desencantar sardinha em lata.

Há quem dialogue sobre as informações prestadas pelo pára-quedista quanto à saída de Guileje, questionando se não será também uma boa “saída” para nós, em… Guidaje. Sim, há que pôr sobre a mesa todas as possibilidades e equacioná-las. Uma tal hipótese teria de ser bem medida, teríamos que avaliar todas as consequências. Até se admite que uma coluna em debandada mais facilmente sairá de Guidaje por terrenos senegaleses do que em direcção a Binta. Sem se pôr de parte a ideia (um miliciano da CCaç 19 alvitra que nesse caso deveríamos entalar o comandante, “encostá-lo à parede” para que também adira), vinga a opinião mais sóbria de que uma solução militar haverá de encontrar-se para nos safarmos. Apesar do estado psicológico (moral em baixo) e dos desaires anteriores, contando os homens que aqui estão sitiados, nenhum de nós quer acreditar que numa operação em força não consigamos mesmo furar as barreiras do PAIGC.

A improbabilidade de se fazerem evacuações de feridos e mortos, o tempo quente e a quantidade de corpos em decomposição (o cheiro que exala da enfermaria é horrível), leva o pessoal da enfermaria (um primeiro-sargento e alguns auxiliares e maqueiros), que já não consegue acudir às gangrenas, a derreter velas e a tapar os orifícios dos mortos (nariz, boca, orelhas) com velas de estearina. Os corpos são trancados numa sala afastada da enfermaria propriamente dita, mas o cheiro pestilento escapule-se pelas frestas da porta, pelo buraco aberto pela morteirada no canto da parede… Sem perspectivas de tão depressa haver coluna que possibilite a saída do pessoal e sem restar um único caixão livre nem havendo a mínima possibilidade de o construir de improviso, Correia de Campos fala com os comandantes das unidades respectivas e é decidido enterrar os mortos mais “antigos”, no sítio onde já repousam dois cadáveres, que é no perímetro externo das fiadas de arame farpado, “a 25 metros da caserna do lado sul e na direcção do azimute 112”.

Há pára-quedistas a meter bala na câmara, dá a sensação que se preparam para sair, embora a hora não pareça a mais propícia (se é que ainda existem horas melhores e piores para o efeito). Se eles abalarem, nós vamos atrás, admitimos. Afinal, trata-se dos preparativos para enterrarem os seus três camaradas (abatidos na emboscada de dia 23). São abertas covas no local onde já repousam os soldados Manuel Geraldes (da 2ª companhia do BCaç 4512/72, que teve morte brutal, a 10 de Maio, também dia de crise e de isolamento locais), e Becute Tungué, do 4º grupo da 3ª companhia de comandos (ferido na operação Ametista Real).

São numerosos os pára-quedistas da CCP 121 que vão dirigir um último adeus aos camaradas António Vitoriano, José Lourenço e Manuel Peixoto, ao lado dos quais ficará também o corpo do soldado António Talibó Baio, da CCaç 19. O comandante comparece para dirigir as cerimónias. Atrás dele estão outros graduados, nomeadamente o alferes Luciano Diniz, que por ser madeirense aproveita estes dias para matar saudades da terra e sempre que pode vem tagarelar com os nossos soldados. Os semblantes estão carregados, nem poderiam estar de outra forma. Depois das continências e das palavras de Correia de Campos, os pára-quedistas apontam as armas ao alto e dão três 3 tiros sincopados para o ar. São tiros da cerimónia militar, mas o IN que tem vigilantes sobre as árvores mais próximas da fronteira e controla os nossos movimentos, pensa que o estão a atacar e reage ao fogo, naturalmente que levando o pessoal a abrigar-se. No meio da precipitação o alferes da companhia africana atirou-se mesmo para dentro de uma das campas. O fogacho não dura muito, clarifica-se o equívoco e os corpos são tapados com terra. Só no fim o pessoal se retira, angustiado, alguns temendo ver o seu futuro a passar por aquele espaço nas costas da caserna do lado sul…

Os pára-quedistas e todo o pessoal que assistiu à cerimónia fúnebre regressam aos seus lugare e a circulação volta a ser quase nula. Está um ror de gente dentro do perímetro do quartel e quase não se vê vivalma, tudo enfiado nos buracos. Nem os poucos que restam a morar do lado civil metem o bedelho de fora. Nas moranças residem essencialmente as famílias de militares africanos da CCaç 19. Em geral, são desarranchados, isto é, atravessam a passagem que divide o arame, tipo porta de armas, e vão comer e dormir “a casa”. E habita ali também um par de djilas, comerciantes da raia guineense que fazem o seu contrabando de produtos, fronteira cá fronteira lá, quando os dias estão bons para o comércio, o que não acontece agora. Costumam falar francês muito bem e ser utilizados como informadores, soa que muitos são agentes duplos que levam e trazem o que os dois lados da contenda querem ouvir. Não faço ideia se tal se passa com os que aqui moram.

Estamos sentados nas camas (dificilmente conseguimos deitar-nos os oito ao mesmo tempo em camas tão apertadas), uns encostados à parede, outros debruçados sobre os joelhos. Fumamos quase todos Português Suave, sem filtro, o “barista” disse que já não há de outra marca. Mas o tabaco ainda não faltou e, se nenhuma bernarda der cabo do stock, ainda há bastantes pacotes entre as paredes que restam do armazém. Por isso, fuma-se. Que mais se pode fazer? A lâmpada de 25 velas que parece querer desprender-se do casquilho do tecto alumia o abrigo que, a esta hora, parece ter paredes de ardósia. Irradia uma luz que dança consoante o gemer do gerador. Quando a corrente baixa quase se oculta por cima na nuvem de fumo em que estamos. De dia ainda vamos fumar lá para fora, só que de noite poucos se arriscam a transformar-se num alvo luminoso e apetecível. Não me lembro de quantos fumamos ao mesmo tempo nesta cova sem janelas, mas devemos ser muitos. Para já, arrumados como podemos, estamos cá dentro eu, os alferes Igreja e Cruz, os furriéis Monteiro, Machado, Silva e Fernandes e o nosso cabo artilheiro.

Já se dormita quando damos por novo ataque de artilharia. São mais levas de granadas, (serão seis de cada vez?), a estoirarem bem no interior da guarnição. Dá a ideia que os tipos nem se deslocam com o armamento, sabem que não conseguimos desalojá-los e têm os canhões, morteiros e o carago todos os dias no mesmo sítio, prévia e certeiramente apontados a nós, é só passarem por ali de vez em quando, meter munições e catrapumba! O alferes Diniz e soldado Talibó, ambos da CCaç 19, que estão de passagem, descem os degraus do abrigo e vêm refugiar-se ao pé de nós. Também o furriel de operações e informações Carlos Jorge Pereira, que viera de Bigene com Correia de Campos e tinha sido incumbido de conferir o número de munições de Obus existentes no aquartelamento, se apressa a saltar cá para dentro. Um outro militar africano entra atrás dele, porém, escapa-me a sua identidade. As granadas rebentam cada vez mais perto de nós. Ouço palavrões lá de fora que as mães dos atacantes não gostariam de ouvir. Por instantes, parece que tudo se vai acalmar, mas ainda estamos a respirar fundo e outros silvos anunciam a queda de mais bombarda.

Na sequência duma granada que estrondeou tudo em redor do abrigo, faltou-nos a luz. De dentro do buraco não percebemos se o corte é geral ou se apenas a lâmpada do abrigo, de tão fraquinha que se mostra, foi desta vez que se finou. Os minutos passam e a intensidade do fogo sobe de tom. São maiores e mais assimétricos os rebentamentos. Como no último ataque houve feridos nas valas (um projéctil cair dentro de uma vala de meio metro de largura é uma probabilidade reduzida) há mais pessoal a rastejar por elas em direcção ao Obus e a vir abrigar-se junto de nós. Às escuras não os identifico, mas rapidamente percebo pelas vozes que entram o cabo Telo e os soldados Ferreira e Gonçalves, todos da minha companhia. Trazem consigo o cabo Santos, do COMBIS, que veio connosco na operação. Alguns arranjam lugar nas camas de cima e por aí se acomodam. Outros, sem espaço, ficam de pé na pouca área que sobeja entre os degraus e as camas. Nota-se um certo abrandamento no fogo, mas sentimos que os rebentamentos estão muito concentrados à volta do abrigo e cada vez parecem mais próximos.

Há opiniões, que só mais recentemente conheci, de que os postos de artilharia eram os alvos a atingir neste ataque específico do PAIGC, que faria o tiro com observadores avançados, como numa carreira de tiro. Essa tese é sustentada pelo capitão Salgueiro Maia no livro Capitão de Abril – Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, Editorial Notícias, Novembro de 1997. pág. 64)

É aflitivo estarmos enfiados num buraco sem luz, sem nos vermos uns aos outros e sem controlarmos o que se passa lá fora. Já nas noites anteriores havíamos admitido que um dia destes “eles” viriam atacar-nos ao arame, com armas ligeiras e, de passagem pelo abrigo, bastava atirarem uma granada-de-mão cá para dentro para nos limpar a todos…

Num instante, fez-se um clarão capaz de cegar qualquer um, não sei bem dizer bem o que se passou. Quer dizer, sei, mas há um hiato de tempo em que não me lembro de nada. Uma granada imensa perfura o tecto que tínhamos como muito seguro e provoca o caos. Confesso que não me lembro patavina do estrondo, apenas do clarão. Passado não sei quanto tempo abro os olhos e os meus braços tremem sem que consiga controlar os movimentos. Eu devo ter desmaiado por alguns instantes, nem faço ideia se breves, se longos! Estou sentado ao fundo, na cama de baixo, do lado esquerdo. Oiço gemidos vários. O Igreja grita roucamente “as minhas pernas, ai as minhas ricas perninhas”, apercebendo-se que as tinha num crivo de estilhaços. O Cruz (ferido num pé, viu-se depois que sem gravidade) trepa à superfície, aparentando estar coxo ao subir os degraus um por um, parece-me que auxiliando o Monteiro, que dobra uma perna com dificuldade. Também o cabo artilheiro sai, puxado por alguém que lhe estica os braços lá de fora. Vai muito queixoso e parece bastante debilitado. Lá fora o Obus dá um disparo, depois outro.

Só bastante mais tarde vim a saber que o soldado Vieira, sem nunca obter formação para tal, recebeu ali mesmo umas dicas do cabo artilheiro e, provavelmente sem a melhor das direcções, agarrou-se ao Obus 10,5 e desatou a responder ao fogo inimigo. Foi mandado parar, para evitar o desperdício de munições e porque, entretanto, haviam chegado maqueiros que levaram para a enfermaria os feridos mais graves, nomeadamente o soldado Gonçalves e o furriel Fernandes, cujos ferimentos eram de tal monta que “ninguém já dava nada por eles”…

A meu lado, o Silva desata a rezar a Avé Maria em voz alta e eu, porventura mais assustado do que ele, dou-lhe um valente safanão e imploro-lhe: “cala-te caralho”! Nem sei mesmo (nem ele o saberá) se o sítio das costas em que o empurrei foi o mesmo por onde um estilhaço o tinha perfurado, mas nada de importância. Eu queria ouvir bem o que se passava em redor, sobretudo lá fora. Percebo muito próxima uma respiração irregular, gorgolejante. Guio-me pelo ouvido e concluo que o ruído dos borbotões tem origem no corpo do Machado, que sei estar sentado da mesma coma que eu, na outra ponta. Apalpo-lhe o corpo e trago na mão uma substância quente e pegajosa. Foi atingido no peito e o sangue das feridas entope-lhe a respiração. O som atrofiado apaga-se suavemente e com ele percebo que também o Machado se apaga, atravessado na cama, encostado à parede e pernas de fora, estendidas. Depois, bem, depois acho que me fui outra vez a baixo das canetas, já que não me lembro de ver o Silva sair nem os outros feridos, como o alferes Luciano Diniz, também com as pernas bastante danificadas por estilhaços. Se estivesse acordado certamente teria saído com eles; se estivesse acordado também eles dariam por mim e não me deixariam ali “sozinho”!?

Quando recobro noto um silêncio estranho. Gritos e lamentos que ouvira antes desapareceram em absoluto. E é esse vácuo que me desperta os sentidos, sobretudo o auditivo e o olfactivo. A fumarada, que agora não é provocada pelos cigarros, some-se muito, muito lentamente. Percebo isso ao ver no tecto, no lugar da desaparecida lâmpada de 25 velas, aparecer um círculo baço de céu a querer impor-se à escuridão. É estranho que só neste momento interiorize que fomos atingidos pelo IN (granada de Morteiro 120 mm).

Passo as mãos pela cabeça, pelo rosto, ao longo do camuflado e em todos os lugares dou por mim encharcado. Cheiro as mãos, o odor pastoso do sangue invade-me as narinas e provoca-me um vómito. Penso para comigo que estou ferido. Bem, nada me dói em particular. Também o desenho dos primeiros degraus, aos pés da cama, para lá das pernas do Machado, parece furar a escuridão. Interrogo-me sobre o que faço aqui e resolvo sair. Ergo-me, tento apoiar-me nos ferros das camas de cima e, de cada vez que pouso as mãos sinto que o faço sobre corpos que nem consigo imaginar a quem pertencem. Antes, nunca imaginei que pudesse haver mais vítimas mortais para além do Machado. Tento dar um passo em frente no estreito “corredor” entre camas e piso um corpo. Alargo o passo e tropeço nas pernas que podem ser do meu amigo ou de outro camarada qualquer. Quem serão estes companheiros? E se algum deles ainda vive? Que maleita poderei causar-lhe, calcando-o e passando-lhe por cima? Desespero e sento-me no mesmo sítio. É curioso que, fumador inveterado desde muito novo, não me lembro de alguma vez não trazer lume comigo. Sempre usei isqueiro mas, dada a dificuldade de arranjar pedras e gasolina no mato compro sempre carteiras de fósforos (de cera, que os de madeira apagam-se mais com o vento). Logo agora, não tenho uma coisa nem outra e não consigo iluminar a saída e zarpar daqui para fora, para o pé dos outros, onde estarão?

Guio-me mais uma vez pelo ouvido. Qualquer coisa frita baixinho a cama à minha frente. Ajoelho-me, estico o braço e apanho o “rádio-banana” (AVP-1) utilizado pelo cabo artilheiro e que a explosão deve ter projectado para ali. Como estava farto de ouvir o nome de código do comandante arrisquei:
– Águia Águia, diga se me ouve, escuto!…
Aí à terceira tentativa irrompe a voz do tenente-coronel a responder. Queixo-me que estou no abrigo do Obus, com vários mortos em redor (da existência destes, logicamente, ele já sabe), que está escuro como breu e que preciso de ajuda para sair. Correia de Campos assegura-me que enviará alguém ao abrigo logo que seja possível, pois a barafunda é grande na enfermaria. Aguardo prolongadíssimos minutos e por fim oiço o milagre de duas vozes que se aproximam e passos temerários a descer os degraus do abrigo. Um clarão de lanterna percorre rapidamente o interior:
– Ena como isto está! – exclama um dos homens. Ele vê (e eu também, pela primeira vez), as silhuetas dos camaradas que jazem sobre as camas e no chão.
– Alumia aqui para o fundo! – peço-lhe.
– Olha pá, está aqui um gajo vivo! – exclama o soldado da lanterna.
Ilumina-me, então, a passagem. Alargo o passo para ultrapassar um corpo tombado a meus pés e, logo depois, passar por cima das pernas esticadas do Machado. O espaço entre as camas é exíguo (a minha memória visual aponta para os 40 centímetros) e à passagem raspo o meu ombro num braço que pende da cama superior. O braço, que só deve estar preso ao corpo por umas farripas dum sovaco de dólmen, cai ao chão. O som cavo que provoca só desaparecerá dos meus ouvidos no dia em que a morte também me bata à porta.

O soldado não me deixa ver bem os terrenos que piso, talvez para não me impressionar. Os repentes da lanterna deixam-me identificar os rostos dos meus camaradas Telo e Ferreira e do soldado da CCaç 19 que durante o ataque se refugiou no abrigo com o alferes madeirense. Cá fora, abatido com o que vi, sento-me no chão, no lado interior da cerca de bidões cheios de terra que protegem o Obus. Puxo dum cigarro e peço lume ao soldado (europeu, não sei de que unidade) enviado pelo comandante. Acendo o cigarro com o quico a fazer de abat-jour e não sei se alguma vez na vida estive tão triste e angustiado como neste momento. Os dois soldados voltam ao interior do abrigo e um deles sai a correr, para regressar três minutos depois com uma maca e mais um ajudante. Algo os fez desconfiar que o corpo do africano deitado no chão ainda respira, pelo que decidem transportá-lo para a enfermaria, quem sabe? Em vez disso, chamar um enfermeiro não seria a melhor opção, estavam todos sem mãos a medir.

Volto a apalpar nuca, pescoço, peito, tudo o que as mãos alcançam até me certificar se não estou realmente com ferimentos. É “apenas” o sangue dos meus camaradas que me ensopa da cabeça aos pés e isso já é ferida bastante. Deito um derradeiro olhar para dentro do abrigo e retenho a imagem do gravador de Akay virado do avesso, no chão. Sigo atrás da maca até à enfermaria para me inteirar do estado dos evacuados, pois nem sabia ao certo quem sofrera o quê. A azáfama é tanta que me barram o caminho, os enfermeiros não deixam entrar ninguém. Encontro finalmente o Ângelo Silva, abraçamo-nos em lágrimas (confirma-me que levou apenas com um pequeno estilhaço nas costas) e fico a saber por ele do estado dos restantes militares da companhia. O Gonçalves, que dificilmente resistirá a tão profundos ferimentos, é um caso à parte. Dos restantes, a mais complicada é a ocorrência do Igreja, bastante atingido mas felizmente só nas pernas e, informara o sargento enfermeiro, dos joelhos para baixo. O Monteiro tem também um joelho bastante ferido e o Cruz um estilhaço no pé, coisa de pouca monta, o mesmo sucedendo com o nosso cabo de artilharia. O alferes madeirense da companhia africana (Diniz) tem nas pernas ferimentos parecidos com os do Igreja, embora pareça que houve estilhaços que lhe atingiram os ossos. O estado do furriel Fernandes é bastante crítico. Nada sabemos quanto ao furriel de operações e informações que entrara no abrigo, deve-se ter safado e, se assim foi, verificamos que os nossos corpos (que não a nossas mentes) terão sido os únicos a esquivar-se aos estilhaços…

Por heresia do destino, este é o proclamado Dia de África (também Dia da Libertação de África), por ser a data da fundação da OUA, – Organização da Unidade Africana, fundada a 25 de Maio de 1963, – “para o Mundo celebrar com os africanos, medindo o progresso que este continente faz na comunidade internacional”… Penso que, pela nossa parte, estamos a pagar uma factura pesadíssima para assinalar este 10º aniversário! Por estes dias, durante a crise de Guidaje (e ainda antes do que viria a passar-se a sul, em Guileje), o comandante-chefe informou o titular da pasta da Defesa, – ministro Silva Cunha, – que “nos aproximamos, cada vez mais, da contingência do colapso militar” e que, “de há uns tempos para cá o PAIGC alcançou uma inesperada supremacia em potencial de guerra”. O homem parece que é bruxo, digo eu, mas anos mais tarde…

13 de maio de 2011

166-Já deu para lançar um traque e não ter resposta

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
24 de Maio

A claridade solar já tinha penetrado pela porta há mais de uma hora e iluminado os degraus de acesso à superfície. À medida que vai acordando, mas sem abandonar a sonolência, o pessoal espreguiça-se. Alguém solta um sonoro traque. Não se ouvem réplicas nem reacções. Lá fora há quem converse constantemente e o furriel Machado, identificando as vozes dos tagarelas, levanta-se e vai acender um cigarro para o pé deles, encostando-se aos bidões de protecção do Obus. A noite, – já não era sem tempo! – correu sem sobressaltos, não fomos bombardeados e conseguimos dormir algumas horas seguidas. O furriel Silva e o alferes Igreja tinham ido à messe ver se havia farnel, missão sem êxito, o pequeno-almoço estava atrasado, voltassem a meio da manhã. Continuávamos sem horários certos para as refeições. A cantina dos soldados abria quando calhava e o alerta para o tacho era dado quando alguém aparecia de marmita e colher nas mãos, a anunciar, “pessoal, hoje a salsicha é com bianda”! E água? – perguntei. Para beber sim, bebemos um copo cada um, mas das torneiras não pinga uma gota, – respondeu o Igreja, – as sanitas estão um nojo, nos balneários nem se pode entrar...

O nosso cabo artilheiro vasculha dentro da mala que tem deitada debaixo da cama, saca de um “transístor” do meio da roupa e das cartas, confirma se já está tudo acordado e põe o rádio a tocar. Escutam-se sons de kora (espécie de harpa mandinga, mas cujo formato é mais parecido com uma viola), depois ngumbé, ritmo nacional guineense, mas não deve ser tocado pelo grupo Cobiana Djazz, impedido de actuar na UDIB de Bissau e cujo vocalista, – José Carlos Schwartz, o Zeca Afonso da Guiné – estará ainda na prisão de “Djiu di Galinha” – a Ilha das Galinhas, onde se situa a espécie de Tarrafal guineense, o Campo de Trabalho no arquipélago dos Bijagós.

Em meados de 1969 vieram transferidos do Campo de Concentração do Tarrafal (Santiago, Cabo Verde) 58 presos políticos guineenses, colocados nas catacumbas construídas na Ilha das Galinhas. O número de detidos tem vindo a crescer nos últimos anos. Apesar de alguns terem morrido, vítimas de espancamentos, o número de novos presos é consideravelmente superior.

Não sei que raio de língua ou dialecto fala o locutor que entre os temas musicais pronuncia uma algaraviada de coisas esquisitas para os nossos ouvidos. O que escuto na telefonia do artilheiro virá da Emissora Nacional ou de postos de rádio dos países mais próximos (ouvimos com maior ou menor dificuldades emissões de onda média do Senegal, Gâmbia, Mali, Guiné/Conacry, Serra Leoa)?

Quanto a música africana, as emissões nacionais transmitem sons guineenses, de preferência instrumentais. Vocalmente, um ou outro tema do grupo Voz da Guiné. De Cabo Verde, sobretudo Bana e Luís de Morais, e também os angolanos Duo Ouro Negro e Lili Tchiumba. A "Rádio Libertação − A Voz do PAIGC, Força, Luz e Guia do Nosso Povo", tem os seus noticiários e passa músicas muito variadas (cheguei a ouvir música portuguesa que é proibida em Portugal). E há o PFA, umas quantas horas por dia, com espaços que procuram distrair a tropa, mas muito distintos entre si. Por vezes chega a ser imbecilizante um “programa” produzido pelo “casal Primeiro Dias e Senhora Tenente”. Havia de tudo, desde espaços de entretenimento inteligente, com o Armando Carvalheda (nosso artilheiro em Gadamael que, felizmente para ele, viria a “mudar de ramo” e a trocar o Obus pelo microfone) – ainda hoje um profissionalão de rádio e uma das vozes mais influentes da RDP/Antena 1, onde é o principal divulgador da música popular portuguesa no seu “palco da rádio”, ao vivo, todas as semanas. Também João Paulo Diniz (que regressado à metrópole passou, penso que a pedido de Otelo, que o conheceria de Bissau, o tema “E Depois do Adeus”, primeiro sinal radiofónico antes da senha “Grândola Vila Morena”. E outros nomes que, de tanto os ouvirmos, ficaram na nossa memória: Faride Magide, julgo que técnico de som que terá estado anos depois em Coimbra, na RDP; e também censores políticos que eram militares, e que faziam os cortes mais absurdos em programas enviados pelas unidades que estavam no mato. Ainda se os cortes fossem originados pela má qualidade do som (eram gravações geralmente efectuadas em cassettes domésticas) compreender-se-ia! Mas não, era censura política pura e dura, às locuções e à música que se incluía nesses programas. Isso sucedeu connosco, gravámos um belo dum programa no meu quarto em Bafatá (meu, e dos furriéis José Alberto Ferreira Durão, mecânico-auto, e Hélder Pereira Calvão, – o nosso “ranger”, isto é, de operações especiais). Quando ouvimos a transmissão do nosso programa “Frequência 3-5-1-8” (participaram também o furriel miliciano de transmissões Domingos Gomes Pinto, o furriel miliciano de minas e armadilhas Ângelo Silva e o furriel miliciano atirador António Guerreiro), no lugar do fado de Coimbra cantado por José Bernardino apareceu uma doce canção d’Os Beatles, o poema “O Rico e o Pobre” (altamente “subversivo”, declamado entusiasticamente pelo homem de transmissões José Elias Gomes de Oliveira), também foi à vida!, saiu tudo alterado, segundo apurámos, por um zeloso guardador do regime, um tal Madeira. E pensar que à testa do PFA estava o capitão miliciano José Manuel Barroso, ligado ao Comércio do Funchal, jornal que, apesar de dar vivas ao marxismo-leninismo-maoismo (para achincalhar a CDE em período dito pré-eleitoral) aparecia nas bancas como sendo de oposição ao regime (o capitão Manuel de Sousa recebia-o algumas vezes e eu permutava com ele o “meu” Notícias da Amadora, O Mundo da Canção e, às vezes, outros recortes de notícias que os meus amigos Acácio Vicente e Fernando Simões me mandavam)…

Embora nesta altura não se registe a presença incómoda de muitos mosquitos, nem as noites se carreguem de frígido cacimbo, pernoitar ao relento não é pêra doce nenhuma. Todavia, o sono só nos verga pelo cansaço. Fumar no escuro é arriscadíssimo (só com mil cuidados para evitar que o morrão do cigarro se veja de longe) e nem uma gota de álcool temos para nos aquecer o corpo e a alma. Resultado: tagarela-se, de preferência baixíssimo, para que ninguém nos oiça para lá do cotovelo seguinte da vala. Uns falam do sonho de um dia chegarem à peluda, dos projectos de vida constantemente adiados; outros de novas recebidas das suas terras (e há quanto tempo se estava sem receber uma carta?); outros ainda contam anedotas avisando previamente os interlocutores que devem rir-se pianinho, para não despertar atenções… Como se sabia que o nosso poiso de origem tinha sido Gadamael, um pára-quedista quis saber se já tínhamos notícias de Guileje. Não tínhamos, claro. Novidades só trazidas de fora! Sem se aperceber que a história ainda desmoralizaria mais qualquer Marado, informou que quartel e aldeia de Guileje tinham sido abandonados e que toda a gente (cerca de duzentos militares e mais de meio milhar de civis) estava agora refugiada em Gadamael, que terá ficado a rebentar pelas costuras!

O pessoal ouve com incredulidade. Será também esta a nossa sorte? Pensando bem, e conhecedores que somos do local, nem nos é difícil imaginar que se Guileje estivesse cercada como nós aqui estamos, pertinho da fronteira, sem a aviação em pleno e com um único acesso ao exterior, o abandono seria lógico e inevitável! Esta opinião é prontamente contraditada por alguém que diz que não senhor, que com ele lá andava tudo no mato a afogar turras ao bochecho. Pois, mas isso é se tiveres água para encher a boca! Em menos de quatro dias, esclareceu o narrador pára-quedista, levaram com três dezenas de bombardeamentos dentro do quartel!
– Chiça, – atalhou um dos soldados madeirenses, – então parece Guidaje! E vejam lá que ainda há pouco mais de um mês haviam feito obras e inaugurado o novo bar do sargentos, que até gira-discos tinha, e agora ficou lá tudo?

165-Os para-quedistas, a custo mas chegam a Guidage

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
23 de Maio

Sai de Binta em direcção a norte uma coluna/auto comandada a partir de uma DO-27 pelo major pára-quedista José Alberto de Moura Calheiros. É protegida por uma unidade de fuzileiros especiais e por grupos pertencentes a unidades do exército, nomeadamente da CCaç 3 e, como sempre, por uma equipa de picadores que rasga caminho lá bem na cabeça da coluna. Ao chegar perto de Genicó liga-se aos cerca de 90 homens da CCP 121 que, sob o comando do capitão pára-quedista Armando de Almeida Martins, emboscada desde bem cedo, ali aguardam a sua passagem, para lhe fazer protecção. Os pára-quedistas faziam parte de uma força de intervenção, que incluía ainda uma companhia de comandos e uma companhia de fuzileiros, enviada para Guidaje para tentar romper o cerco e aliviar a pressão do PAIGC sobre o quartel.

Por volta das 8,30 horas, com a ligação à vista praticamente a ser efectuada, uma mina antipessoal é deflagrada e provoca a morte do soldado Bailó Baldé, da CCaç 3. Escassos minutos a seguir, quando a coluna recolhe o corpo e retoma o andamento, uma viatura acciona outra mina e causa mais uma morte imediata (soldado Fonseca Nancassa, também da CCaç3) e dois feridos com gravidade. Uma terceira mina vem a ocasionar mais um ferido grave. Perante as adversidades da progressão, parecendo impossível ultrapassar o enorme campo de minas e armadilhas que encontrou em cada metro de caminho, é recebida ordem para que a coluna retroceda e regresse a Binta. Aos pára-quedistas, no entanto, é dito que devem avançar até ao destino, em missão de patrulha (operação Mamute Doido). Assim procedem, vindo a efectuar uma pausa para descanso, já na área do Cufeu. Conforme estas fatídicas jornadas demonstram à saciedade, seja ao longo da bolanha seja em torno da casa amarela que avistamos a cada passagem – ou do esqueleto que dela resta, – o Cufeu é uma zona propícia para as emboscadas, desde logo pelo número inusitado de morros de baga-baga atrás dos quais dezenas de corpos se podem ocultar e proteger-se das nossas balas.

Retemperadas as forças, o pessoal da companhia de caçadores pára-quedistas reinicia a marcha e é de pronto surpreendido por constringente emboscada. Dois dos pára-quedistas que seguem na frente (António das Neves Vitoriano e José de Jesus Lourenço, este com apenas 19 anos) têm morte imediata; o primeiro-cabo Manuel da Silva Peixoto, apontador de HK-21, é colhido por uma rajada e fica gravemente ferido. O fogo inimigo é muito intenso, a frente prolonga-se por algumas centenas de metros e dura três quartos de hora praticamente consecutivos. Há quem garanta ter avistado gente branca do outro lado.

“Os militares José Lourenço, António Vitoriano e Manuel Peixoto iam na primeira linha e foram os primeiros a cair”, relata muitos anos mais tarde Hugo Borges, na altura da emboscada tenente, comandante de pelotão (hoje general).

À mistura com tiros de Kalashnikov ouvem-se estrondos de canhões-sem-recuo e roquetadas das RPG-7, que causam pelo menos mais duas baixas graves: a do soldado Palma, que se encontrava a tentar desencravar a metralhadora MG-42 do soldado António Melo, que foi também ferido e ficou imediatamente em coma (viria a falecer após evacuação, já na metrópole). Apesar da resistência das NT, a ofensiva só é contida graças ao apoio aéreo que desta vez corresponde ao chamamento. Os Fiat lançam bombas de cinquenta quilos ao longo de meia hora bem medida sobre a zona de acção IN (cuja força é estimada em cerca de setenta guerrilheiros). Algumas viaturas saíram de Guidaje e foram ao encontro dos pára-quedistas. Fizeram inversão de marcha para se carregarem os corpos das vítimas e regressarem à origem. Abrindo um novo trilho, conseguem chegar à aldeia de Guidaje, não sem que os guerrilheiros retirados do Cufeu após o bombardeamento da aviação os tenham atacado de novo, mas de longe e sem consequências. O cabo Peixoto não resiste aos ferimentos e morre também neste dia 23 de Maio, – imagine-se! – considerado o “Dia dos Pára-quedistas” por ser há precisamente 17 anos (desde 1956) a data da fundação, em Tancos, da Escola de Tropas Pára-quedistas!...

O batalhão de caçadores pára-quedistas (nº 21) teve durante as campanhas na “Guiné Portuguesa” cinquenta e seis baixas, (três oficiais, seis sargentos e quarenta e sete praças).

*

Os corpos dos militares da CCaç 3 que protegiam a coluna inicial e que pela manhã foram vitimados pelo rebentamento de minas (mormente os de Bailó Baldé e Fonseca Nancassa), ainda devem ter sido transportados pelas mesmas viaturas que os camaradas pára-quedistas trouxeram para Guidaje, pois viriam a ser ali sepultados, dias depois, conjuntamente. Se assim não fosse, teriam sido levados pelos fuzileiros e elementos do exército que regressaram a Binta e o tratamento aos seus esquifes teria sido diferente.

164-O cerco a Guidage abranda

(Texto de Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
21 de Maio

Parece haver um abrandamento no ritmo dos ataques de artilharia de que somos alvos. Será provavelmente a primeira consequência da operação dos comandos em Koumbamory, base que ainda há poucos meses recebeu seis dezenas de combatentes recém-formados na Argélia e em Cuba e é (era?) o principal ponto de abastecimento aonde os guerrilheiros se vão municiar. Mas já se fala em reposição de stocks! Diz-se que têm chegado ali camiões carregados com material vindo de Zinguinchor.

Num passado mais longínquo, Zinguinchor foi também relacionada com os colonos portugueses pelas piores razões, ao ser palco de tráfico de escravos com a cumplicidade “tuga”. Em 1836, o decreto de 10 de Dezembro aboliu as exportações de escravos em todos os territórios portugueses, mas isso não afectou os dois maiores traficantes dessa época: o antigo governador da Guiné e coronel de milícias, Joaquim António de Matos, e o governador de Bissau, Caetano José Nozolini, comerciante mestiço, cabo-verdiano, marido e sócio de Nhara Aurélia Correia. Segundo a escritora Joana Ruas, que foi cooperante na Guiné-Bissau depois da independência e jornalista cultural do jornal Nô Pintcha (Avante, em português), creio que ao mesmo tempo que o jornalista português Daniel Reis (de A Bola) que também esteve no jornal, “Ziguinchor estava povoada por mestiços luso-africanos, grumetes e escravos, o chefe da feitoria vem de uma família mestiça, os Carvalho Alvarenga, ramo donde virá Honório Pereira Barreto, filho de um cabo-verdiano e de Rosa de Carvalho Alvarenga, a poderosa Rosa de Cacheu. Honório Pereira Barreto, sendo governador da Guiné de 1835 a 1839, o número de escravos libertados nos 55 navios provenientes dali e apresados pelos cruzadores, fixou-se em cerca de 3.929”. Pois Honório Pereira Barreto (nascido no Cacheu a 24/4/1813, morre em Bissau a 26/4/1859), é o único negro (falso negro, por sinal) a figurar nas parangonas do sistema colonial: a sua pretensa fotografia aparece nas notas antigas do escudo guineense, nos selos emitidos pelos CTT, e tem inclusive um monumento majestoso, construído em sua memória. O regime aponta-o como o supremo exemplo do “portuguesismo” que pode haver num assimilado. Acontece é que o seu lado verdadeiramente negro, – digamos que, obscuro, – é o de, numa época em que o comércio de escravos está em extinção, consolidar no Cacheu um lucrativo comércio esclavagista! Que credibilidade pode ter entre os guineenses o poder exercido em Bissau ao longo do século e nos dias da guerra, cujo único monumento a um negro é erigido em memória do tal Honório?

Outra vez do lado senegalense da fronteira, um pouco mais distante do enfiamento do abrigo do Obus, nota-se uma invulgar movimentação de viaturas amareladas, bem ao alcance dos nossos olhos. Sabíamos da sua circulação, protegidas por blindados, numa estrada paralela à fronteira mas a cerca de dois quilómetros de distância. Mas assim tão perto… Pertenceriam às tropas do país vizinho ou à guerrilha? Tamanha concentração fez crescer o nervoso miudinho e, com maior ou menor fundamento, o receio de vir a concretizar-se o temido ataque ao arame. O nosso cabo artilheiro, pelo sim, pelo não, apontou o Obus o mais paralelamente ao solo possível, a ponta do cano quase apoiada sobre a circunferência de bidões, “just in case”, gastaria o resto das munições fazendo tiro directo!

Corre o informe de que no enfiamento do quartel de Nema (Farim), estaria instalada uma porção descomunal de “turras”, provavelmente para reforçar a instalação de minas no itinerário para Guidaje. Mais lenha para queimar a nossa débil moral…


22 de Maio

Houve uma flagelação, curta, mas suficientemente certeira: caíram nas valas granadas de Morteiro 82, causando feridos, um deles muito grave. O pessoal já não sabe onde dormir. Faz oito dias que chegámos. Estamos fartos de viver como toupeiras, queremos ir embora a qualquer custo. Mesmo sendo conhecedores dos riscos que teremos de enfrentar pelo caminho. Se os comandos africanos passaram sem levar viaturas, nós também o poderemos fazer. Antes feridos ou mortos a romper o cerco do que enfiados nas tocas, como ratos. É dia de tentarmos uma vez mais ultrapassar os obstáculos, prepararmo-nos para novos confrontos, vamos romper as linhas do IN e atingir Farim, em direcção ao paraíso.

Pouco passa das sete horas e aí vamos nós, uma bicha de pirilau de cada lado das viaturas, protegendo-as de ambos os lados da picada. Somos pouco mais ou menos os mesmos da desafortunada coluna de dia 19, descontando as baixas sofridas desde então, que não são unicamente os feridos, há que acrescentar o pessoal vítima de “amoques” diversos, como ataques de paludismo e quejandos, que atiram para os bancos das viaturas de trás um bom punhado de novos inoperacionais.

Desta vez, o nosso posicionamento na coluna é mais avançado, digamos que do meio para a frente. Nota-se uma grande concentração nos olhos e no caminhar dos homens, um cuidado suplementar com a disciplina, a cada passo. O silêncio só não é total devido ao ralenti das Berliet da frente (enquanto se vai fazendo a picagem as restantes viaturas ficam para trás e mantêm os motores desligados, quando há condições de segurança aproximam-se quinhentos metros e voltam a parar). A passarada e demais habitantes da mata também se calam à nossa passagem, ou em sinal de respeito ou então como num filme de suspense, aguardando o desfecho.

Atingimos a bolanha seca do Cufeu, enorme, vamos ter que atravessar um grande descampado e, do nosso lado, não se vislumbra um único refúgio em que possamos abrigar-nos, caso isto dê para o torto. Fazemos um compasso de espera, sempre de olhos no chão que pisamos e na linha do horizonte, e os homens da frente progridem umas dezenas de metros com todas as cautelas, como que a apalpar o terreno. Nada acontece e são mandadas avançar as duas Berliet, que como é costume na função de rebenta-minas, apenas levam os condutores e sacos e mais sacos de areia, no chassis, sobre os pára-choques, em toda a parte.

Olhamos uns para os outros, parece até que sorrimos, como que a dizer “é desta!”, desta vez é que o pessoal zarpa daqui, vamos embora! Os sorrisos duram pouco tempo: uma infinidade de canhoadas começa a troar ao fundo da bolanha e atiramo-nos para o chão, liso, que nem bermas há onde esconder o cabedal. Passam breves momentos e começa a cair a chuveirada de granadas de canhão-sem-recuo e de morteiro, e mesmo os mais convictamente ateus rezam para que nenhuma pouse nas suas imediações. A parte imensa da coluna que se estende pela bolanha está desprotegida, em plena zona de morte. Como o ataque é desferido de longe, a única reacção ao fogo provém dos nossos morteiros.

A situação dura minutos incontáveis, durante os quais os fuzos da frente avançam, tentam surpreender o IN mas eles é que acabam por ser surpreendidos, deparando-se com uma linha perpendicular pela frente, de onde despontam rajadas de metralhadoras e de onde vem a cruzar o ar uma chusma de granadas de RPG. Parece, mais uma vez, estarmos sem saída possível. Galgar a barricada dos guerrilheiros será autêntico suicídio, pois correr desalmadamente por uma bolanha seca fará de nós alvos demasiado fáceis. Não temos a possibilidade de ver ninguém, reagimos por instinto, disparando às cegas. O soldado José António da Silva Pires (Jaca) lá vai serpenteando entre balas e rebentamentos e consegue chegar-se à frente. Tanta agilidade, carregando ao ombro um morteirete, e não só: ele e o seu camarada Manuel de Sousa transportam algumas munições, atadas duas a duas pelas bases, e escolhem o sítio ideal para as poderem disparar. Da orla da mata as costureirinhas  começam a matraquear na direcção de ambos o seu som característico, tal como o demonstram os impactes das balas no capim, curto, atrás do sítio onde se encontram. Uma rajada causa-nos alguns danos, embora na maioria dos casos não passe de arranhões ou ferimentos ligeiros, nomeadamente no primeiro-cabo Gomes dos Santos, do COMBIS. Sem ter consigo a G3 para responder, o Jaca cola-se o mais possível ao chão e o Manuel de Sousa rasteja e esconde-se por trás duns arbustos ralos. Abre fogo de tal maneira que cala os disparos inimigos, levanta-se e desata a correr em perseguição, ao mesmo tempo que vai visando o inimigo com pequenas rajadas. Por sua acção, os guerrilheiros que desse lado nos tentam envolver desistem da ideia e batem mesmo em retirada. Já não seremos cercados e o Jaca gasta as munições de 60 mm fazendo-as explodir logo após os limites da nossa zona de acção, ou seja, em cheio sobre quem nos ataca, provocando o ponto final na emboscada. É pedido apoio aéreo, mas desta vez a resposta é negativa, não sabemos se devido ao receio dos mísseis Strela se a outras razões.

Desde Setembro de 1968 que os serviços de “Defesa do Estado” tinham sido avisados de que os mísseis SAM-3 estariam a ser disponibilizados pelo Instituto Internacional de Moscovo para a FRELIMO, o MPLA e o PAIGC. Só que, já neste ano de 1973, o modelo de míssil anti-aéreo que viria a derrubar os primeiros aviões no norte da “Província”, acabaria por ser o “SA-7 Grail-Strela”, (designação russa e também da OTAN, ou NATO, mas nunca adoptada em Portugal) operado apenas por dois homens e facilmente transportável para qualquer ponto da guerrilha. Na realidade, o aparelho, cuja utilização já era conhecida da guerra do Vietname, não passa de um tubo com 1,40 metros e dez centímetros de diâmetro, pesando escassos 10 quilos (quase metade de um rádio Racal)… Tem acoplado um pequeno sistema de disparo. É accionado por um apontador e um homem para abastecer a carga sobressalente (municiador). E os mesmos serviços sabiam que à base IN de Kondiafara haviam chegado no ano transacto trinta apontadores acabadinhos de formar na URSS. O “SA-7 Grail-Strela”, ou SAM-7, ou simplesmente Strela, está equipado com uma cabeça auto-direccional, sensível aos infravermelhos, tendo um alcance transversal de 3,7 quilómetros e, de altitude máxima, 10.000 pés (3 quilómetros, porque acima disso, rebenta), a uma velocidade de 1,5 “Mach” (é a unidade que mede a relação entre a velocidade do objecto e a velocidade do som). Emite um sinal acústico quando tem o alvo referenciado, mas bloqueia se o avião voar baixinho (é ineficaz abaixo dos 150 metros). Não pode ser disparado com o tubo a fazer um ângulo superior a sessenta graus, sob pena de os gases de escape queimarem o apontador. Assim, disparado numa posição entre os 20 e os 60 graus, o míssil poderia perseguir um avião “até à pista”, atraído pelas fontes de calor (os reactores, no caso dos Fiat).

A anulação da operacionalidade da Força Aérea começa precisamente nesta região, onde os sistemas antiaéreos do IN começam a alvejar e derrubar aviões T-6, DO-27 e Fiat G-91. Também os helicópteros estão sem voar em grande parte do território e durante tempo indeterminado.

De facto, no dia 20 de Março de 1973, os mísseis terra/ar começam a dar sinal de vida (primeiro disparo é referenciado na fronteira norte, em Campada, S. Domingos). Mesmo que alguns tenham passado ao lado das aeronaves, as ondas de choque provocadas assustam pilotos, e não só! De início nem se suspeita do tipo de arma que o IN estava a utilizar. A primeira vítima ocorre a 25 Março. É abatido o caça do tenente piloto-aviador Miguel Pessoa (Bissalanca, BA12). Voava a mil pés de altitude e o impacte do míssil na parte traseira do Fiat fez com que este perdesse o motor e os comandos. O piloto, que voava sobre o corredor de Guileje, consegue ejectar-se, mas devido à baixa altitude, o pára-quedas não chega a abrir-se totalmente e ele tem a “sorte” de cair sobre árvores frondosas que lhe amparam o corpo. Ainda assim, perde a consciência e parte uma perna (fractura do peróneo), o que o impossibilita de caminhar em direcção a Guileje. No dia seguinte, oculto sob a copa do arvoredo, onde os pilotos que procedem às buscas não têm a possibilidade de o ver, lança ao céu um “very-light” que é avistado pelo tenente-coronel Brito (que irá morrer em combate três dias mais tarde). Conhecido o sítio exacto onde se encontra, o grupo de operações especiais de Marcelino da Mata é incumbido de o procurar e resgata-o por volta das 11 horas, levando-o até ao héli da evacuação, onde é assistido pela segunda-sargento enfermeira pára-quedista Giselda Antunes. No céu, os aviões que estão a proteger a operação, – entre eles, um T-6 pilotado pelo furriel Carvalho, – são também alvejados, mas esses mísseis não causam danos. A 28 de Março, o Fiat G91-RA nº 5419, (fabricado para a NATO em meados dos anos 60, na República Federal da Alemanha), pilotado pelo tenente-coronel aviador José Fernando de Almeida Brito (comandava o Grupo Operacional 1201, – Base Aérea nº 12, em Bissalanca, – e tinha comemorado o seu 40º aniversário na véspera) é abatido por um míssil e explode no ar, nas imediações de Madina do Boé. O corpo do tenente-coronel, por muitos considerado o mais audaz e experiente piloto português da aviação de caça, nunca será encontrado.

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Como estava colocado em Bissau (Brá), faltando poucos meses para regressar à metrópole (esperava fazê-lo em Outubro/Novembro, resolvera casar-me em Lisboa, o que aconteceu a 31 de Março, dia da notícia do abate do Fiat de tenente-coronel Almeida Brito no DN. Embora desde muito novo tivesse o hábito de ler jornais diariamente, foi para mim um dia pouco propício para ler jornais… Mas na capital toda a gente andava alarmada com as notícias e me perguntava pelos aviões, sem que eu soubesse o que responder. As núpcias e as férias terminaram e regressei a Bissau a 1 de Maio (o Boeing 707 da TAP saiu da Portela perto da meia-noite e, pouco antes, tive notícia de uma explosão na Praça de Londres, creio que no primeiro-andar do então Ministério das Corporações (atentado à ARA). Também nessa noite, a RTP transmitia o concurso da Miss Portugal, directamente do Casino Estoril. Claro que só tinha câmaras de filmagem no interior do casino, pois cá fora havia a pouca-vergonhice de um grupo de cidadãos protestar contra a exploração da mulher e, contraditoriamente, contra o preço dos ingressos, exibindo cartazes que diziam “2.000 escudos = a 4.000 pães”!

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Porém, o dia mais dramático para a nossa aviação seria 6 de Abril. O DO-27 pilotado pelo furriel Baltazar da Silva transporta um médico e um sargento de Bigene para Guidaje e não chega ao destino, havendo que proceder à sua busca. Parte de Bissalanca outro DO-27, conduzido pelo furriel António Carvalho Ferreira. Em Bigene, o comandante do batalhão local (major Mariz) embarca no avião e vai aterrar em Guidaje. Aí juntam-se o ferido a evacuar e um enfermeiro. Com essas quatro pessoas a bordo, a aeronave levanta voo na direcção do Senegal (a pista, como já vimos, é sobre a fronteira) e pura e simplesmente desaparece. É mais tarde localizado no mato entre Bigene e Guidaje. Um pelotão de pára-quedistas héli-transportado desloca-se ao local e confirma as quatro mortes, conseguindo recuperar os corpos (haveria ainda de reaver mais duas vítimas mortais dos mísseis Strela). Entretanto, voando na área em protecção dos pára-quedistas, é abatido por outro míssil um avião T-6, pilotado pelo major Mantovani, que morreria em consequência da queda. Ainda a 6 de Abril, mais um DO-27, pilotado por outro furriel aviador, também Carvalho (não sei se o meu amigo de infância José Manuel Henriques de Campos Carvalho, que era piloto desses aviões e estava na Guiné nessa altura, encontrámo-nos um dia em que foi a Gadamael, mas depois perdemos o contacto), acorre a um pedido de evacuação de Guidaje e leva a bordo a sargento pára-quedista Giselda Antunes (por curiosidade, casar-se-ia com o tenente piloto-aviador Miguel Pessoa, do Fiat abatido a 25 de Março, hoje coronel reformado, registando-se a coincidência de constituir seguramente o único casal do mundo a ser atingido por mísseis Strela em ocasiões e aviões diferentes)… É igualmente alvejado por outro Strela que, embora o não tenha atingido, o danificou com a onda de choque e o obrigou a regressar à base.

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Após o derrube das aeronaves o inspector adjunto António Luís Fragoso Allas, responsável-mor da polícia política em Bissau e homem muito próximo do general comandante-chefe e do seu gabinete, enviou para a Rua António Maria Cardoso (sede da PIDE, em Lisboa) uma mensagem que continha, entre outras, as seguintes observações: “A utilização desta nova arma (mísseis terra/ar) constitui um sério agravamento da situação, porque nos tira o domínio do espaço aéreo”. Antes, “só o apoio aéreo foi decisivo para evitar desaires”. “Temos de encarar como possível que o PAIGC venha, em curto prazo de tempo, a aniquilar algumas guarnições e a estabelecer novas áreas libertadas”. Allas era agente da PIDE desde 1961, trabalhou no gabinete de Spínola e, após o 25 de Abril, viria mesmo para Lisboa, onde permaneceu protegido pelos chamados spinolistas até ao “28 de Setembro”, nunca chegando a ser preso e fixando residência mais tarde, como empresário, na África do Sul.

Na ausência de aviões Fiat desatou o pessoal a bombardear com morteiros, bazucadas e, os da frente, até com dilagramas. Mas o mais que conseguimos foi provocar novo e reforçado fogachal do PAIGC e termos de nos colar novamente ao chão para evitar a chuva de estilhaços. Se tem sido o IN a avançar em nossa direcção, estávamos feitos: ou recuávamos ou não tínhamos qualquer hipótese de protecção. Mas o objectivo dos guerrilheiros era, notoriamente, impedir-nos a passagem e não dizimar-nos ou infligir-nos outro tipo de derrota. E esse objectivo eles conseguiram-no, mais uma vez, obrigando-nos a regressar a Guidaje. Voltámos ao inferno, às valas, ao cheiro pestilento, às refeições de “estilhaços com atacadores” (esparguete com pedacinhos de salsicha) e, com sorte, aos copinhos de groselha. Por quanto tempo mais?

Do quartel de Binta, sensivelmente à mesma hora (sete e trinta) em que saíramos de Guidaje, avançara também nova coluna logística, com a missão de evacuar o pessoal, sobretudo os feridos. A CCP 121 faria protecção a oeste da estrada, cabendo a um destacamento misto de fuzileiros (42 homens dos DFE nº 1 e nº 4, comandados pelo primeiro-tenente Albano Alves de Jesus) a protecção a leste. Os picadores seriam de um grupo de combate da CCaç 14 (guarnição de Farim), participando também um grupo reduzido de elementos da CCaç 3. Um dos elementos, – o furriel miliciano Arnaldo Marques Bento, – deste grupo comandado pelo alferes Gomes Rebelo, acciona uma mina antipessoal, reforçada com outra, anticarro, e tem morte imediata. Também um picador – o soldado Lassana Calisa, – morre alguns metros adiante e a mesma mina provoca dois feridos graves. Ainda um outro engenho viria a ferir gravemente outro homem. Cerca do meio dia, um grupo de combate saiu de Genicó e veio reforçar a coluna. O tenente-coronel Correia de Campos manda abortar a coluna de reabastecimento e o pessoal regressa a Binta, onde chega apenas por volta das 18 horas.