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22 de maio de 2011

178-Guidage

São fotos de Guidage da autoria do capitão da CCAÇ3 Carlos Ricardo. Esta companhia esteve lá de 9 de Março de 1969 (altura em que saiu de Barro) até 22 de Fevereiro de 1972, quando foi para Saliquinhedim (K3).
Agradecimentos ao blogue "SPM0018-CCAÇ3", donde elas são originárias, por me ter autorizado a sua publicação. 

 Valas


 Abrigo de Transmissões

 A cozinha


Abrigo do comandante da companhia


Bunker


Secretaria


Quartel


Construção do paiol

Guidage em 1971

Ribeira de Guidage, junto à fronteira

21 de maio de 2011

177-XVIII Encontro Nacional de Combatentes 2011

Para conhecimento de quem quiser ir
(clicar sobre a imagem com o ponteiro do rato para a ampliar)

176-Aspectos e tipos da Guiné - VII


in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume IX, nº 36, Outubro de 1954

in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XI, nº 41, Janeiro de 1956

in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume X, nº 37, Janeiro de 1955



19 de maio de 2011

175-A gerontocracia na organização social dos bijagós



in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume X, nº 38, Abril de 1955

174-Aspectos e tipos da Guiné - VI

in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XI, nº 42, Abril de 1956

in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume X, nº 4o, Outubro de 1955

 in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume X, nº 38, Abril de 1955

16 de maio de 2011

173-O golpe de Nino Vieira em 14 de Novembro de 1980 foi urdido em Portugal?

O "Diário de Lisboa" de 17 de Novembro de 1980 suspeitou que sim:

Há fortes indícios de o golpe que destruiu – para já – o PAIGC na Guiné-Bissau  ter sido urdido em Portugal ou pelo menos terem aqui sido apurados os esquemas finais e os apoios com que por­ventura contam os golpistas para sobreviver no futuro.
Não é só o facto de Nino Vieira ter estado aqui durante mais de uma semana, com per­manência no Porto em casa de uma individualidade dos negó­cios e da finança que há tempos falara da abertura de um banco privado em Bissau a que estaria associado [era Valentim Loureiro]. Aqui se encontrou nessa altura com Vítor Monteiro[1] e Vítor Saúde Maria[2]. Sombrio é também, e até se aprofundar esta questão, o comportamento da rádio oficial portuguesa no Canal 1 ao repetir diversas vezes, ao longo da tarde de sábado, quando do golpe apenas se sabia ter sido chefiado por Nino, um texto muito suspeito.
Esse longo texto, de que transcrevemos passagens, foi introduzido nos noticiários da tarde de sábado e ele fala por si, em termos tais que no mínimo, exigem uma explicação do Go­verno de Sá Carneiro.
Trata-se de um editorial disfar­çado de notícia e abre com a in­formação de que tinha sido for­mado em Bissau um Conselho da Revolução, presidido por Nino Vieira, para acrescentar logo, ter sido esse Conselho formado para sugerir o vazio do poder até «à decisão da entrega dos destinos políticos do Pais nas mãos dos filhos originários da Guiné».
O tom opinativo entra depois, descaradamente, nesta música tocada pela Radiodifusão Portu­guesa, canal 1, ao longo de toda a tarde de sábado:
«Mas não foi só Nino o homem que transportou sobre os seus ombros a revolução guineense. Há os que ficaram pelo caminho e os que em Bissau e fora do Pais vêm acompanhando silenciosa­mente o processo de unidade orgânica e politica que alguns diri­gentes do PAIGC, partido no poder na Guiné e Cabo Verde, pretenderam fazer vincar entre os dois Estados e povos baseados nos laços históricos e sanguíneos e o próprio pensamento político de Amílcar Cabral».
Em tom editorial acentua-se depois, o facto de o processo que conduziu à independência, e as negociações com Portugal, tal como a ratificação da indepen­dência entregue por Spínola a Pedro Pires, em 9 de Setembro de 1974, ter sido dirigido pelo hoje Primeiro-Ministro cabo-verdiano e «então contestado por al­gumas individualidades guineen­ses», (sic), enquanto Vítor Saúde Maria, Umarú Djaló e Luís Sanca foram «apenas testemunhas». «Este dia - disse a RDP, referindo-se á Guiné - nunca mais se apagará na memória da sua gente devido ao facto de ele ter sido realizado por um natural de Cabo Verde».
Malan Sanhá foi igualmente evocado, com o acrescento de dizer-se que a sua tentativa de golpe «demonstra claramente a determinação dos guineenses que viam e vêem em Nino Vieira a única possibilidade de transfor­mar o decurso politico do Pais, pela sua condição de filho da Guiné originário».
Não se esqueceu o articulista de referir a distanciação de Sekou Touré em relação ao regime da Guiné-Bissau devido ao facto de «os cabo-verdianos no Poder po­derem interferir no seu projecto de unidade que pretenderia para as duas Guinés, uma unidade ba­seada nas afinidades históricas, continentais, culturais comuns aos povos da Guiné-Bissau e da Guiné-Conakcy. O grupo islami­zado - continua o texto - integra a maioria da população dos dois países e de maneira nenhuma Nino Vieira pretenderia entrar em polémica, militar ou política, com Sekou Touré, seu irmão continental africano».
O comunicado – pois é disso que verdadeiramente se trata, embora tenha sido lido aos micro­fones da RDP, a rádio oficial por­tuguesa, como se de noticiário se tratasse - conclui com a seguinte e fantasiosa boutade, pois jamais se ouviu falar de tal gente:
«Cá fora, no entanto, com lon­gas e dolorosos anos de espera encontram-se milhares de guine­enses. Foram seis anos que po­derão ter terminado na sexta-feira. Os emigrantes da Guiné-­Bissau aguardam ansiosamente o desenrolar dos acontecimen­tos. Sabe-se que um forte partido de oposição à facção cabo-verdiana do PAIGC, com sede em Paris e delegações em Lisboa e Dakar, está a promover reuniões sectoriais. Prepara-se, mesmo, quanto se sabe, o envio de uma mensagem a Nino Vieira para manifestar o apoio total dos filhos da Guiné ausentes do seu Pais ao Conselho da Revolução instau­rado agora no poder».
Fora isto, importa para já perguntar quem terá sido o autor de tal prosa e qual o papel da própria emissora oficial portu­guesa no golpe.
Com efei1o, quem conhece a composição da Redacção da RDP 1 e a qualidade dos «espe­cialistas» em assuntos africanos, mormente das questões guine­enses, confere facilmente a im­possibilidade de ter sido ela a fonte donde brotou tal papel. Mais ainda: a linguagem utilizada e a terminologia não é mais que a contida nas prosas escassas ­divulgadas pela meia dúzia de indivíduos que, por cá andavam comendo as migalhas de colonia­lismo, ou por cá preferiram mais tarde esbanjar o nacionalismo que na sua própria terra não se lhes conhecia.
Mais grave que tudo isto, é a antecipação de certos factos só posteriormente conhecidos e que só um individuo ou organização metida no golpe até à raiz dos cabelos poderia adiantar. E a RDP ao assumir isso como prosa sua, comentário seu, e ao impingi-lo aos ouvintes como se de simples matéria informativa se tratasse está no mínimo, coni­vente no golpe. Isto para não irmos mais longe.
Veja-se só o que diz a RDP, antes de chegarem as noticias a Lisboa e ao falar da detenção de vários dirigentes:
«Nessa situação poderão estar José Araújo, considerado o prin­cipal mentor do regime e conside­rado o ideólogo número um do PAIGC (e autor da nova Consti­tuição da Guiné que retira os po­deres a Nino Vieira e ao coman­dante chefe das Forças Armadas) Vasco Cabral, Fernando Fortes, Manuel dos Santos, Lima Gomes, todos eles naturais de Cabo Verde, para além de individuali­dades da Segurança Nacional que vêm julgando os casos de contestação por parte dos filhos da Guiné». E todos, ou quase todos eles, viriam de facto a ser presos, excepto Vasco Cabral (natural de Farim, filho de guine­enses, que nenhum laço familiar tem com o Presidente) que não é cabo-verdiano mas sim um dos principais alvos políticos a abater por todo aquele que pretendesse inflectir o regime.
Finalmente, a RDP deixou per­ceber aos seus ouvintes, como não fora surpreendida com a conspiração ao recordar que Nino Vieira se encontrara em Lisboa (numa viagem a caminho de Pa­ris) com «o seu companheiro de armas Umarú Djaló e Vítor Saúde Maria todos eles naturais da Guiné e pertencentes a chamada linha Nino Vieira, individualida­des influentes da facção guine­ense do PAIGC».
Mais claro que isto é difícil ser­-se.



[1] Vítor Freire Monteiro, era Governador do Banco Nacional da Guiné-Bissau; foi depois Ministro das Finanças do primeiro governo de Nino Vieira. (nota minha)
[2] Vitor Saúde Maria, era Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Luís Cabral, continuou como tal até Maio de 1982, já com Nino Vieira; foi primeiro ministro de Maio de 1982 até Março de 1984, altura em que se exilou em Portugal; regressou em 1990 e fundou o Partido Unido Social Democrata (PUSD) em 1992; concorreu às eleições presidenciais em 1994; foi assassinado em 1999, durante a guerra civil. (Nota minha)


15 de maio de 2011

172-Colonização da Guiné

ÁFRICA DESCONHECIDA
[ PARA A HISTÓRIA DO COLONIALISMO PORTUGUÊS ]
A COLONIZAÇÃO DA GUINÉ 

Por Armando Sousa Teixeira



Nos princípios do século XIX a Guiné passou a constituir um distrito independente de Cabo Verde e desenvolveram-se então maiores esforços no sentido da penetração no território. Mas só quando da Conferência de Berlim, em 1885, Portugal decide-se a ocupar de facto a Guiné, sob a pressão internacional das grandes potências.

Quando os portugueses chegaram ao Golfo da Guiné, no século XV, encontraram o território ocupado por diversos grupos étnicos vivendo em regime tribal da agricultura e da pastorícia, possuindo formas de autoridade centralizada exercida por chefes hereditários, com uma estratificação social acentuada e um sistema que se pode apelidar de semi-feudal.

Parte desta população professava a religião muçulmana, consequência de antigos contactos com povos mouros do Norte de África, embora muitos conservassem concepções animistas (admitiam em geral um deus criador e vários deuses intermédios ligados aos elementos naturais; água, terra, fogo, etc.).

No primeiro caso estão os Fulas e os Mandingas; entre os animistas, a maioria, várias etnias; Balantas, Mandjaques, Papéis, Barnes, Felupas, Bijagós, Beafadas, Cassangas. 
O cronista Duarte Pacheco Pereira escrevia em 1506 acerca dos habitantes desta região: “São de cor muito negra, alguns andam nus enquanto outros vestem-se de algodão. Aqui podem-se comprar escravos à razão de 6 ou 7 por um cavalo e mesmo por um mau cavalo; pode-se comprar também ouro, mas em pequena quantidade”.
Apesar de Diogo Gomes ter chegado à Guiné em 1446, só em 1630 foi criada a Capitania Geral do Cacheu, concluindo-se que durante quase dois séculos a presença portuguesa se limitou à esporádica acção de comerciantes no litoral.
Mais tarde foram criadas, já no século XVIII, as capitanias de Bolama e Bissau, mas o controlo sobre o território era exercido até escassas milhas da costa, onde se processava todo o comércio. Refira-se que durante o período de tráfico intenso de escravos ( séculos XVII e XVIII e parte do século XIX ) a Guiné constituiu uma excepção, pois ainda que existente, a escravatura nunca atingiu proporções semelhantes às verificadas nomeadamente em Angola.
Nos princípios do século XIX a Guiné passou a constituir um distrito independente de Cabo Verde e desenvolveram-se então maiores esforços no sentido da penetração no território. Mas só quando da Conferência de Berlim, em 1885, Portugal decide-se a ocupar de facto a Guiné, sob a pressão internacional das grandes potências. Até aí a autoridade comercial era mantida em núcleos ao longo da faixa litoral, pelo que a investida pelo interior provocou a reacção das populações, dando origem à chamada “Guerra de Pacificação”, que se prolongaria por quase meio século, até 1936, quando foram derrotados os últimos resistentes Bijagós.
Uma a uma, as etnias foram sendo “pacificadas”, em campanhas mais ou menos violentas: os Felupas, Mandjaques, Fulas, Beafadas, Balantas, Oincas, Papéis ... Estes, só por volta de 1915, altura em que segundo a autora portuguesa radicada no Brasil, Maria Archer, no seu livro, “Terras onde se fala português”: “... mesmo aqueles habilitados a realizar missões de comércio no interior, tinham de pagar determinada quantia para receberem a permissão do chefe dos Papéis”.
Só nos anos 30 do século XX, Portugal instala de facto a sua administração na Guiné, nunca criando contudo as infra-estruturas necessárias para a exploração do território e deixando cerca de 70% do comércio e da economia nas mãos da França e da Alemanha. A partir do final daquela década porém, a CUF - Companhia União Fabril e o BNU – Banco Nacional Ultramarino, tomaram posições importantes na economia guineense, aparentando contrariar a dependência do exterior mas na realidade associando-se a ela.
A primeira, através da subsidiária Casa Gouvêa, gozando duma situação monopolista, explorando uma mão-de-obra quase gratuita (250 escudos mensais pagava em 1959 aos carregadores portuários, levando-os à revolta e à greve no porto de Pidjiguiti, em Bissau, barbaramente reprimida com 50 mortos) e controlando toda a produção e comércio locais (madeira, amendoim, arroz, cera, óleo de palma e palmiste). Nessa época, 60 mil famílias guineenses eram obrigadas a fazer sementeiras nas próprias terras, para depois os produtos serem comprados a baixos preços pela referida empresa do universo CUF.
No mesmo sentido e no período anterior à guerra colonial, outras empresas portuguesas detinham posições monopolistas na Guiné, nomeadamente: o BNU, como referido, dominava a banca; a Sacor controlava a actividade ligada ao petróleo; a Sociedade Comercial Ultramarina, era única no sector de importação-exportação; a Companhia de Borracha da Guiné, ligada à Fapobol, explorava a produção de borracha; a Sociedade Geral de Transportes do grupo CUF, dominava o sector dos transportes marítimos. 
Simultaneamente, os investimentos estrangeiros na Guiné, desde sempre orientados na procura e exploração de matérias-primas, eram corporizados por: Esso Exploration e Royal Dutch Schell, Holanda, prospecção de petróleo; Meats, Holanda – ferro; Wimmer, Alemanha ─ ferro; Petrofina, Bélgica – petróleo; Scofai, Japão – pescas e algas, etc.
Uns e outros, juntos ou separados, têm uma acção meramente predadora, pois no início da década de 60, quando o conflito armado se desencadeou, na Guiné-Bissau a indústria local continuava rudimentar e o cultivo e a comercialização continuavam a fazer-se de forma primitiva. Tal era a herança colonial dos portugueses.

Bibliografia :
• O colonialismo português Trabalho de Seminário de Estudo
– ISE, Lisboa, 1970
• Archer, Maria, Terras onde se fala português 
– Rio de Janeiro, 1965
• Guerra de África, Guiné - Batalhas da História de Portugal 
– Academia Portuguesa de História – Fernando Policarpo,

14 de maio de 2011

171-Nem à saída nos largaram...

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
31 de Maio

Poucas vezes na vida o nascer do sol nos terá sabido tão bem. Desta vez, acho que todos conseguimos dormir profundamente umas quantas horas seguidas e todos acordámos cedo e nos pusemos de pé num único impulso. Falo sobretudo de Os Marados de Gadamael, pois há camaradas que terão como tarefa regressar a Guidaje e ficar mais uns tempos por estas paragens, designadamente as companhias que chegaram anteontem e sem as quais ainda estaríamos sitiados. A missão dos pelotões da CCaç 3518 acabou, “o sibe chegou ao seu destino”, há soldados que se dizem prontos a festejar a próxima noite no Pilão!...

Ainda não eram oito horas e já tínhamos atravessado o rio para a margem esquerda, o motor da jangada até parecia querer pregar-nos uma partida, mas lá se aguentou. Quando arrancamos grita-se “está na mala”, “prego ao fundo, ó condutor”, “putas vão-se lavando que Os Marados vão a caminho” e outros ditos próprios da época e do estado de espírito, que guerra e soldados são assim mesmo em qualquer tempo, em qualquer lugar!

Com essa mesma alegria abrandamos a velocidade na passagem pelo destacamento K3 (antiga tabanca de Saliquinhedim) e, recebida a ordem do comando de Farim, apagamos os sorrisos e aí vamos em direcção ao sul, andamento moderado. Agora vamos todos motorizados e é sempre pelo alcatrão, pelo menos não haverá minas sob os pneus (o que não significa que a estrada não possa estar armadilhada num sítio qualquer).

Seremos, porém, os campeões do infortúnio. A pouquíssimos quilómetros do K3, de súbito, estoira nova emboscada. As primeiras roquetadas despoletam-na e limpam as viaturas da frente: o primeiro Unimog é destruído e o seguinte incendiado. Há um homem que acciona uma mina com o peito. Para se abrigar das balas das Kalashnikov que entretanto começaram a cantar à nossa volta, lança-se para trás de um “baga-baga” (rijo, à prova de bala, construído por formigas térmitas, chama-se morro de salalé, em Angola), e os fragmentos do seu corpo são espalhados por um diâmetro incalculável. Durante largos minutos há tiroteio de armas ligeiras na frente da coluna. Os homens das viaturas não atingidas, entre os quais nos incluímos, saltam para as bermas e tentam também reagir com prontidão. Seguimos sensivelmente a meio e não avistamos os atacantes, embora algumas balas vão zunindo muito próximas. O IN retira-se e há pessoal das NT que tenta a perseguição, mas é mandado parar. A artilharia do destacamento K3 bate a zona do lado direito da estrada durante alguns minutos. Um Unimog passa a toda a velocidade em sentido contrário, na direcção de Farim. Leva feridos. Um deles, sentado no banco de espaldar e amparado por dois camaradas, leva o joelho garrotado, perdeu a perna daí para baixo.

A coluna recua até ao destacamento para se reorganizar. A zona de onde os combatentes do PAIGC lançaram o ataque continua a ser bombardeada pela nossa artilharia. Ao longo da estrada, em frente ao K3, esperamos pelo Allouette que vem evacuar os feridos. Depois do helicóptero carregar as macas e levantar voo a coluna/auto põe-se de novo em andamento. Quando passamos pelas viaturas destruídas, ainda estão a fumegar. Depois do cheiro dos ares de Bironque atingimos Mansabá e avançamos praticamente em linha recta, direitos a Mansoa, sempre na expectativa de novos contactos com o IN, se nada se passou no enfiamento do Mores é porque talvez nos safemos… Safámo-nos!

Com a alegria estampada nos rostos chegamos ao COMBIS, em Brá (não longe do quartel dos comandos e a pouca distância da base aérea e aeroporto de Bissalanca), por volta às 17 horas. Aqui sim, o nosso péssimo aspecto mete dó aos transeuntes, assusta as pessoas com quem nos cruzamos. Olham-nos com ar espantado, como se vissem lobisomem! As próprias caras dos camaradas da nossa companhia se dividem entre a alegria de nos ver e a perplexidade.

O pessoal marado vem ao nosso encontro, sai da caserna, da secretaria e vem-nos abraçar efusivamente, andamos de ombro em ombro, não menos eufóricos. O furriel Quaresma – o  vagomestre a cujos manjares devíamos tamanha elegância! – fica admirado por me ver à sua frente:
– Estás  vivo? – pergunta-me.
– O que te parece? Não sou nenhum fantasma!
Confessa que no jornal da caserna o meu nome integra o rol dos que tinham sucumbido, já quase me tinham cantado a missa do sétimo dia, quem morreu afinal?, no COMBIS ninguém sabia ao certo. Chica, como se as transmissões não funcionassem! Esclareço-o das baixas e pergunto pelo Alexandre Castro, o nosso mangas-de-alpaca, que afinal está de férias na sua Amadora. Ainda assim, vou direito à secretaria, ao primeiro-sargento António Fagundes Neves, para ver se tenho correio. Diz-me “lá se safaram de mais uma” e passa-me um braçado enorme de cartas, jornais e revistas.

Antes do banho, cubro a manta da cama com a correspondência acumulada, que inclui cassetes recebidas dos meus amigos Acácio, Cipriano e Fernando, que em Lisboa faziam o favor de me gravar as últimas novidades, incluindo os discos que eu recebia regularmente de Londres (através da Tandy’s Records) e cuja audição era uma ajuda preciosa para aguentar a difícil passagem do tempo. Leio em diagonal as cartas mais recentes e apercebo-me do que já esperava: uma grande preocupação familiar pelo meu inabitual silêncio e pelo meu estado de saúde. À porta do quarto surge um ordenança que me vem convocar para ir ao segundo-comandante do COMBIS (o comandante está ausente, também de férias). Fui assim mesmo, botas sem meias nem atacadores, as pernas das calças transformadas em badanas, totalmente descosidas da braguilha para baixo. Apresento-me no gabinete do nosso major que me mira de alto a baixo, me pede para lhe contar o que se passou nestes dias e qual o estado do pessoal em termos psicológicos. Faço o meu resumo, mais ou menos cronológico, digo o que penso com algum azedume e entrego-lhe o papelucho que havia rabiscado em Farim, supostamente o croquis dos  mortos que tivemos de deixar em Guidaje. Diz-me que por agora posso ir descansar e que no dia seguinte voltará a chamar-me para me pedir um relatório escrito e mais detalhado (o que não virá a acontecer).

Dirijo-me ao banho. Mando as calças para o lixo. Dispo o dólmen. De tão esticado e teso, pego-o pelo colarinho e pouso-o no chão. Fica de pé, como se o enfiasse num cabide de alfaiate!  Não há a água quente que me apetecia (como seria bom um longo banho quente, de imersão), porém, a água que escorre do duche é tépida e nem sei quanto tempo fico a desfrutá-la. Enquanto isso, lavo o quico com champô, até desaparecerem as principais manchas de suor e de todos os merdelins. Aproveito para não desfazer a barba e andar assim mais um tempo (desde que começou a crescer-me que a uso crescida, salvo agora, por impedimento do RDM).

Antes do sol se pôr, já eu, o Ângelo e o Cruz tínhamos apanhado boleia para a cidade e  estávamos frente ao forte da Amura (perto do cais de Bissau) a tirar fotografias, aguardando pelo furriel famalicense José Lopes Silva, que ficou de se encontrar connosco na 5ª REP (esplanada do Café Bento, conhecido pela abreviatura de “5ª Repartição”) e depois irmos à Cervejaria Solmar petiscar uma valente mariscada! Seguiu-se um alguidar de ostras e uma travessa de camarões no Pelicano e, devido à quantidade de líquidos ingeridos, já não me lembro o que foi o resto!

Fatal como o destino, enquanto caminhamos pelas ruas da capital encontramos sempre alguém conhecido, ou por ter estado connosco na recruta ou na especialidade, por ser conterrâneo, etc., e enquanto esclarecemos perguntas sobre Guidaje recebemos péssimas notícias de uma Gadamael cercada e com inusitado número de baixas. De Guileje também se fala, mas pouco ou nada resta para contar, salvo alguém ter garantido que o major Coutinho e Lima, ex-comandante do COP 5 e que ordenou a retirada em tempo útil de Guileje, andaria agora em Brá a jardinar no quartel, por estar detido preventivamente pela cegueira do governador. Outro alguém contra-diz-que-disse que o major estaria mesmo preso por ordem de Spínola, – e não simplesmente com detenção num quartel, –  e que tal gesto provocara uma onda de indignação entre unidades do exército, em particular, as de Gadamael, Guileje e Cacine.

170-Finalmente libertos!

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
30 de Maio

Ou vai ou racha! Se não for desta, quando será? Somos uma multidão autêntica neste quartel sobrelotado. Fazem-se os preparos para a partida, sacode-se alguma poeira das armas, espreitam-se os canos para ver se têm sujidade, distribuem-se bolachas e latas de sumo que devem ter sido trazidas pelo pessoal chegado ontem, à noitinha. Caramba, com tanta gente não há motivo para descrenças e ansiedades, vamos a eles! Apesar da partida dos “páras” rumo a Farim, entrou aqui o equivalente a quatro companhias… Com Guidaje a abarrotar, a anarquia é total, ninguém sabe quem manda em quê e até para fazerem as suas necessidades há homens a recorrer às proximidades da rede de arame, ignorando quem passa e, do lado da tabanca, ainda passam mulheres e crianças que nunca tiveram a oportunidade de fugir. Contas redondas, deverão estar no interior do aquartelamento entre oitocentos e cinquenta e mil homens. Muitos ficarão em reforço do quartel, mas a maioria esmagadora vai participar na operação.

Há mais de meia hora que arrancaram os homens e viaturas da frente e parece que está tudo na mesma, centenas de outros em espera. Nós e os companheiros da tão afortunada coluna chegada no dia 15, havemos de partir enquadrados com fuzileiros. Para mim é bom sinal, gosto de os ver na mata, inspiram confiança e é disso que precisamos, em primeiro lugar. Sou chamado por um capitão (pela idade e rosto carregado tem ar de ser capitão e do quadro) que me vem apontar o nosso posicionamento na coluna e lembrar da necessidade de haver grande disciplina, manter as distâncias e uma atenção redobrada mal saiamos a porta de armas. Diz-me também que o nosso homem das transmissões deve ser a minha sombra, ande eu por onde andar e que não devo hesitar em informar o comando se detectar qualquer anormalidade. Informa-me ainda que iremos utilizar o percurso que eles rasgaram ontem à vinda, talvez o IN não tivesse tempo de miná-lo durante a noite. Certificamo-nos que o corpo do camarada Jorge Gonçalves está sobre uma viatura, queremos levá-lo connosco para Bissau.

Passa provavelmente outra meia hora aborrecida e lá chega a nossa vez de nos deitarmos ao caminho. A marcha, como seria de prever, é extremamente lenta e verificam-se muitas paragens. Até parece milagre não se ter esgotado o combustível das viaturas durante estes dias e agora, com tanto pára/arranca, horas a fio. Embora por vezes se apeiem com mil cuidados nos sítios que vão pisar, mas provavelmente para desentorpecer as pernas, seguem nas Berliet o alferes Cruz, o furriel Ângelo Silva, o soldado Vieira mais os que foram feridos nas emboscadas (Abreu e Gomes dos Santos,) e ainda duas outras praças desfeitas em suor e febre.

Há um fuzileiro que tira do bolso do dólmen uma embalagem de Coramina e, como quem oferece um cigarro, pergunta-me se quero uma. Aceito e agradeço. Nunca percebi muito bem para o que serviam mas sempre cravei muitas das enfermarias, gostava de ir chupando aquelas pastilhas quadradas quando andava no mato, dizia-se que eram estimulantes… Mais do que elas, só as castanhas de cola, que muitos soldados milícias mascavam “para dar força”, como um estupefaciente, e cujo sabor acre eu também gostava de ruminar, aquilo partia-se, triturava-se, mas nunca chegava a desfazer-se na boca, uma castanha dava para a viagem toda e só se cuspia no fim.

Já nem faço ideia de há quantas horas estamos no mato, felizmente que sem novidade, até que nos deparamos outra vez com o cenário dantesco dos mortos espalhados pelo caminho, em diferentes estados de decomposição. O mais próximo de mim já nem dita cheiro (ou terei eu perdido o olfacto?), é só um esqueleto com cinturão, botas e uns poucos farrapos pretos que restam da farda. Por que será que nunca foram removidos? Será por já nem se reconhecer a identidade, ou pelo grande risco de poderem estar armadilhados?

O pessoal do BCaç 4512, levando consigo uma equipa de sapadores, acabaria por ir ao local muito mais tarde, em Agosto de 1973, quando a zona já não oferecia os mesmos perigos. Procedeu à remoção de três desse corpos.

Com efeito, a coluna é muito extensa, não consigo avaliar a dimensão. Prolonga-se certamente por mais de dois quilómetros, tal é o número de tropas e as distâncias que nos separam uns dos outros. Não é fácil avançar-se assim pelo mato fora, muito menos com celeridade. Há uma paragem prolongada, excessivamente prolongada, que nos põe no pensamento a ideia de que uma emboscada estará para chegar… Ou então, surgiram problemas lá na frente, encontrados pelos picadores. Desesperamos de tanta espera, aumenta o stress. Ninguém dá explicações. Sabe-se, finalmente, que um dos homens da cauda da coluna (presumo, sem ter a certeza, que da companhia do capitão Salgueiro Maia) teve a infelicidade de ser atacado por um enxame de abelhas e, bastante mordido no peito (levaria o dólmen aberto), com a avidez da fuga deixou ficar para trás a G3.

Uma solução para afugentar os insectos seria lançar granadas de fumo, mas com o peso do armamento ninguém estava para as carregar. E mesmo que as levassem, um fumozinho que fosse deitado ali denunciaria a nossa localização e seria a “morte do artista”!... Bem, a nossa presença no mato já o IN conheceria há uma infinidade de tempo, mas não havia necessidade de lha indicarmos com tanta precisão…

O comandante da coluna, ao ter conhecimento do sucedido fez enviar uma equipa lá atrás para recuperar a arma, só que os insectos voltaram à carga e estabeleceu-se confusão e revolta, opiniões de que mais valia perder a G3 do que sujeitar tantos homens a arcar com outra emboscada “nos cornos”, ainda por cima na zona que nos causava uma carga psicológica acrescida devido aos insucessos passados. O soldado da espingarda perdida ficou com um número significativo de inchaços no corpo. Caiu na asneira de despir o dólmen e tentar afugentar ou esmagar as abelhas que se infiltraram por dentro e foi pior a emenda que o soneto. Estas mordeduras em quantidade têm efeitos idênticos aos das queimaduras na pele, geram a sua asfixia, pode ser fatais. Por fim, recuperou-se a arma depois de angustiante seca, ali nas barbas do Cufeu, e lá prosseguimos lentamente a nossa marcha. O inimigo a causar-nos baixas, desta vez, nem é o PAIGC, é a própria natureza a molestar-nos, parece que até os insectos repudiam a nossa presença…

A bolanha e a casa amarela ficam para trás. Começamos a respirar de alívio ao avistarmos Binta, ao entrar-nos nos ouvidos os ruídos da água do Cacheu. Há agora que esperar por viaturas vagas que nos transportem até Farim. Chega a vez dos nossos pelotões subirem para as Berliet. Ao vermos as casas da vila e a jangada que no dia seguinte nos poria na outra margem, rumo a Bissau, soubemos o que é um sonho transformado em realidade. Terminara a “Operação Resgate”. Já tínhamos desacreditado que este cenário fosse possível.

Os populares olham desconfiados para o nosso aspecto miserável, mas nesta região já não deve ser nada a que não estejam habituados. Rumamos directamente aos balneários e sanitas, fazemos filas para nos dessedentarmos e para um retemperador duche e, claro está, voltamos a vestir a mesma roupa imunda, o mesmo calçado. A seguir, o pessoal vai direito ao rancho, nem que fosse um chispe enlatado viria mesmo a calhar, nem sei como conseguimos evitar os suicídios quando, cúmulo dos azares, servem aos soldados arroz com… salsichas (embora aqui fossem grelhadas)! Na messe temos melhor sorte, mas não me recordo da ementa do dia. O que nos apetece mesmo é sair do quartel e dar um giro à volta das casas civis, ver pessoas diferentes, não fardadas, desanuviar, procurar um bar, uma tasca, mas nestas figuras e sem dinheiro para nada, não iremos longe.

Empanturramo-nos de cerveja e mancarra, tudo à conta dos vales que mais tarde aparecerão na nossa companhia para nos serem descontados no vencimento. Se bem me lembro, o salário de um furriel miliciano não atingia os seis contos. Em geral, e por opção, a parte maior era enviada para nossas casas ao cuidado de familiares, em escudos portugueses, e a outra era o que recebíamos em escudos guineenses (pesos). Julgo que, em geral, ficávamos na Guiné com cerca de dois mil pesos que, estando-se no mato, davam para o tabaco, despesas de bar e pagar à lavadeira. Bem, em Bissau, umas refeições fora e qualquer compra extraordinária, já justificavam o recurso aos “valores declarados” que mandávamos vir da metrópole (envelopes azuis, com notas lá dentro, que depois cambiávamos aos que tinham a habilidade e o “savoir-faire” para negociar com isso).

*

Nestes dezasseis ou dezassete dias em Farim e Guidaje (aqui, com o bar à míngua de produtos, excepto cigarros), a cada um de nós (sargentos, oficiais) foi descontado em média o equivalente ao nosso salário “guineense” de um mês, embora na secretaria tenham dividido os descontos por duas ou três mensalidades! O que seria se comêssemos!? 

169-Tarda a libertação

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
28 de Maio

A desmoralização amplia-se a ritmo galopante. Como se não bastassem as consequências operacionais do cerco e o sentimento de incapacidade absoluta de dar a volta às coisas e furar o bloqueio, é também a logística que começa a falhar. Os pedaços de salsicha, cada vez mais precários, têm sido substituídos por sardinhas de conserva, que chegam ao prato em pasta. A groselha também acabou, tudo rebenta pelas costuras! Desde o ataque de dia 25, que cortou a luz no quartel, os geradores nunca mais tiveram um funcionamento regular (parece que não há gasóleo para os ligar) e passámos a estar sem electricidade (nem a do céu, que a mudança de estação para a época das chuvas faz aparecer nuvens que encobrem o luar). O que vale é que não há nada nos frigoríficos que se estrague!

Por onde andamos, tropeçamos constantemente em destroços, granadas, invólucros de munições, restos de latas de conserva que, os poucos que as tenham, já nem se dão ao trabalho de as pôr no lixo, além de pedaços de tectos de zinco arrancados pelos rebentamentos, restos de móveis inúteis, etc.. Ainda por cima, a água que desde sempre aparecia nas torneiras, talvez uma hora (incerta) por dia, deixou praticamente de aparecer. Ou seja, se nos primeiros dias ainda conseguimos lavar as mãos e a cara muito apressadamente, pois havia sempre outros atrás de nós à espera de fazer o mesmo, agora já nem isso fazemos. No caso do pessoal “marado” faz já catorze dias que temos no corpinho o mesmo camuflado, vestido vinte e quatro horas por dia, quase todos sem ter conseguido tomar um banho. De cabelos desgrenhados e cinzentos da poeira e com barbas por fazer da mesma cor, ainda conseguimos brincar, dizendo que se corrêssemos para um turra desta maneira, ele morreria logo, mas era de susto! E caso aguentasse olhar para o nosso terrível aspecto, sucumbiria à mesma, com o cheiro… Eu cá, se despir o dólmen e o poisar no chão, ele aguenta-se, de certezinha, em pé. O suor acumulado, a volumosa pasta de sangue dos camaradas mortos e feridos que absorveu no abrigo do Obus, confesso que algumas lágrimas em cima, mais a moinha do cacimbo, à noite, o pó poisado durante as deslocações e emboscadas, e ainda a sujidade de terra desde que passei a dormir no chão, tudo isto acumulado dá uma argamassa que nem colete à prova de bala. O curioso é que não me sinto propriamente a cheirar mal, nem sinto que os meus companheiros cheirem mal. Terei perdido o olfacto? Ou, nas nossa narinas, também o hábito faz o monge? Não faço ideia porquê, nem como, mas de repente dei por ter ficado sem os atacadores das duas botas de lona. Das meias verdes, resta-me uma, cujos buracos me estão a provocar bolhas. A do pé direito era um buraco só e desfez-se: achei-a folgada demais, puxei-a e, desprovida da “sola”, saiu inteirinha do pé sem necessidade de descalçar a bota.


29 de Maio

Pelo menos um héli-canhão e logo a seguir dois Allouette III surgem de supetão sobre as casas e, perante o espanto geral, aterram no largo a que chamamos parada. É uma surpresa para nós, obviamente que não para o tenente-coronel, que antes colocara de prevenção o pessoal de armas pesadas, perspectivando-se, assim, que algo estivesse para acontecer. E aconteceu: as aeronaves trazem a bordo o comandante-chefe, – general António de Spínola. Vêm, por certo, em voo rasante à copa das árvores, que a baixa altitude foi o modo encontrado pela FAP para reduzir o risco de se fragilizar perante o moderno equipamento antiaéreo da guerrilha.

O general teria vindo certificar-se das condições operacionais, do estado psicológico do pessoal e, sobretudo, controlar a execução das directivas traçadas para outra grande operação que vise pôr fim ao isolamento de Guidaje, que permita evacuar feridos e tratar do reabastecimento de géneros, medicamentos, até mesmo de urnas, para o que der e vier!... E essa operação, cuja parte principal pode iniciar-se hoje, há alguns dias que estará a ser preparada a partir de Farim/Nema e Binta, onde uma concentração imensa das NT se iniciou no dia 26: aí estão a 38ª companhia de comandos (“Os Leopardos”, novamente), um grupo especial de milícias, quatro grupos de combate do BCaç 4512, uma companhia africana e mais duas companhias inteiras, uma de infantaria e outra de cavalaria (a CCav 3420, – Os Progressistas” – comandada pelo capitão Salgueiro Maia, que foi enviada para este tormento já depois de ter a comissão cumprida em Bula e em Mansoa e de estar a aguardar embarque para regressar à metrópole; em vez de seguir para o Cumeré, foi para os Adidos requisitar novas armas).

Não me recordo quanto tempo se deteve o general Spínola nesta passagem por Guidaje. Não deverá ter sido muito, até porque a presença dos helicópteros estaria, decerto, a ser notada do lado de lá da fronteira, as próprias condições do terreno deixavam-nos demasiado expostos no caso de o IN arriscar qualquer investida. Isto, embora ouvíssemos o roncar constante da aviação, lá nas alturas, sobre as nuvens, a impor o seu respeito. Mas recordo-me que todos fomos a correr sacar aerogramas à secretaria, (conhecidos por “bate-estradas”, isentos de “porte e de sobretaxa aérea” nos termos da Portaria 18.545, de 23 de Junho de 1961), pois estava ali uma possibilidade de enviarmos correio às famílias, mentiras escritas à pressa, do tipo “espero que te encontres de boa saúde que eu fico… bem”, quer-se dizer, alvoroçar pais e namoradas com desgraças para quê?!! Para muitos, eram expedidas as primeiras cartas após várias semanas sem receber ou enviar mensagens de e para o exterior. A falta de notícias e de comunicações foi terreno fértil para a propagação do boato. Na parte que me toca, vim a apurar depois do regresso ao COMBIS que na própria companhia havia quem já me tivesse dado como morto; ao invés, em Lisboa, perante o meu prolongado e inabitual silêncio, o meu pai e a minha mulher (casara-me, nem havia dois meses) andam de repartição em repartição tentando saber se algo me terá acontecido. Cedo desistem, mal um primeiro-sargento anafado lhes garantiu que eu não consto na listagem mecanográfica dos óbitos, que sou obrigado pelas NEP a enviar notícias à família e que, se não o fizer, ainda “leva mas é uma porrada”! – Quer que participe? – perguntou a criatura… à vez, esperando pela disponibilidade da esferográfica do cabo artilheiro que foi circulando de mão em mão, lá gatafunhámos meia dúzia de linhas com o remetente SPM 2158 (era o número do Serviço Postal Militar, espécie de código postal da companhia)…

Os Allouette III levantam voo e levam Spínola e comitiva de volta para Bissau. Transportam  para o HMB os feridos que mais necessitam de evacuação. “Nossos”, seguem o Igreja e o Bernardo Monteiro, cujo ferimento no joelho não é de grande gravidade, mas faz-se à boleia com um choradinho bem urdido e consegue o lugar.

Por volta das cinco da madrugada os muitos militares concentrados em Binta tinham começado a percorrer o itinerário para Guidaje. A progressão no terreno, como sempre é extremamente cuidadosa e lenta. Ainda assim, às dez horas é accionada pelo soldado-condutor auto rodas António Luís do Couto Toste Parreira (CCaç3414) uma anticarro armadilhada que o desfaz, cega um furriel e provoca dois feridos ligeiros. O pessoal do batalhão de Farim mostra-se particularmente abatido, é também reincidente naquele percurso, onde já muitos camaradas caíram por terra nos combates de 9 deste mês.

O estado de espírito está de tal maneira que um pelotão, que foi incumbido de transportar para Binta (para posterior evacuação) os feridos e o morto na mina anticarro, devendo depois regressar ao local de partida, já não está para isso e os trinta homens entram em desobediência, ficam-se por Binta com os dois Unimog, à espera do desfecho da crise…

Quem comanda, procurando evitar novas minas, decide-se a avançar em corta-mato, rasgando outros trilhos e outra picada, por onde o arvoredo permita a passagem das viaturas. À frente vai o “caterpillarD6, pronto para derrubar capinzal, árvores e o que apareça pela frente. A grande distância umas das outras, seguem as Berliet só com os condutores a bordo, sempre protegidos por sacos de areia.

Entretanto, a companhia de pára-quedistas que chegou no dia 23 (CCP 121) tinha partido de Guidaje no encalço da coluna, levando consigo os comandos (chefiados pelo capitão Raul Folques, ainda a braços com ferimentos sofridos na investida contra a base de Koumbamory, no Senegal). Para não variar, detectam minas. No entanto, optam por não provocar o rebentamento, preferindo deixá-las balizadas. Ouvem duas rajadas, todavia o som vem de longe e ficou-se por aí, nem se deu por que alguém tenha ripostado. Já perto de atingirem o Cufeu, então sim, rebenta uma emboscada do lado oposto da bolanha, contra o pessoal da coluna que progride no terreno de Binta para cima (as companhias que atrás citei). Um grupo que foi calculado em 120 guerrilheiros desferiu de rompante um ataque impetuoso, batendo a zona da retaguarda da coluna com Morteiros 82. Os combatentes do PAIGC fizeram várias investidas durante mais de uma hora. Alguns homens vergados pelo cansaço, pela insolação e pela sede, (desde madrugada que mais não ingeriram do que um cantil de água,) desmaiaram e geraram obstáculos de novo tipo à progressão.

A longuíssima coluna cruza-se com os pára-quedistas da CCP 121 que já irão pernoitar a Farim (e que amanhã partirão de regresso a Bissau); e encontra-se com os fuzileiros que estavam retidos há dias e que vieram ao encontro da coluna para reforçar as hostes.

Na região de Ujeque o pessoal ainda veria rebentar outra mina debaixo dum Unimog 404. Um soldado milícia, ao saltar para o lado, ficou sem uma perna por pisar outra mina antipessoal. Sofreram mais um curto ataque às dezoito horas, sem consequências, chegando exaustos a Guidaje, cerca das dezanove, quando anoitecia. A extensa coluna atingiu o objectivo mas o preço foi alto: dois mortos (o referido condutor e o soldado atirador Domingos Martins da Silva Lopes, do BCaç 4512), e ainda vários feridos.

Temos entretanto a notícia da morte do soldado Jorge Gonçalves, que agonizava na enfermaria e não resistiu aos ferimentos. É o quarto morto da companhia nesta operação e a sexta vítima mortal dos camaradas que a morteirada surpreendeu no abrigo do Obus.

Ainda o funesto abrigo do Obus, que ficou para sempre nas nossas retinas e cuja memória só desaparecerá quando chegar a vez de nós nos apagarmos. Na sua “Crónica dos Feitos por Guidaje” (publicada no livro “Capitão de Abril – Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril – Depoimentos” (Editorial Notícias) o capitão Salgueiro Maia referiu-se também a esse abrigo (página 71), descrevendo-o da seguinte maneira: “Nas minhas visitas pelos escombros, desci ao abrigo de artilharia, onde houvera quatro mortos e três feridos graves. O abrigo fora atingido em cheio por uma granada de Morteiro 82 com retardamento; a granada rebentou a meio de uma placa feita com sibes; o resto do abrigo ficou totalmente destruído; o chão tinha um revestimento insólito – consistia numa poça de sangue seco, de cor castanha, com 2 mm a 3 mm de espessura, rachada como barro ressequido. O odor envolvente era um pouco azedo, mas sem referência possível; o sangue empastava os colchões e as paredes. A minha preocupação era encontrar um colchão. Depois de dar a volta aos oito que lá se encontravam, escolhi o que estava menos sujo. Tirei-lhe a capa, mas o cheiro que emanava de dentro era insuportável; mesmo assim, consegui trazê-lo para a superfície, onde ficou a secar debaixo da minha vigilância, para não ser capturado por outro. Depois de bem seco e com os odores atenuados, levei a minha conquista para a vala onde, para caber, tive de o cortar ao meio, fazendo bem feliz o meu companheiro do lado, que, sem esforço, ganhou um colchão, e sem saber de onde tinha vindo”. Recorde-se, a propósito dos odores, que entre a noite da destruição do abrigo e a chegada do capitão Salgueiro Maia a Guidaje decorreram pelo menos quatro a cinco dias, até porque não deve ter ido direito ao abrigo logo no primeiro dia… No seu texto ou no meu relato há pequenas contradições, traições da memória que pouco interessam hoje em dia. Contudo, referencio-as: pelo que me recordo de ouvir (todos temos uma costela de perito), e pelo que já li algures, terá sido uma granada de Morteiro 120 a perfurar os troncos de sibe que cobriam o tecto e a destruir o abrigo, e não de Morteiro 82; dificilmente haveria 8 colchões dentro do abrigo, pois mal cabiam as 4 camas existentes (sobrepostas duas a duas, em camarata); o número de mortes que é referido (4) é o dos que tiveram morte imediata (Machado, Telo, Ferreira e um soldado africano, havendo a acrescentar o Fernandes e o Talibó Baio, que faleceriam poucas horas depois (mas já no dia 26) e o soldado Gonçalves (a 29); nunca consegui apurar quem era nem como foi enterrado o segundo soldado africano que se tinha refugiado no abrigo. Com efeito, na altura da exumação dos corpos, em 2009, apareceram onze ossadas no “cemitério” cujo croquis só indicava dez, sendo que o décimo-primeiro (identidade desconhecida), segundo os arqueólogos pertenceria a um indivíduo “africano”. Mas a dedução de poder tratar-se do mesmo indivíduo pode ser precipitada.

Pela quantidade de homens recém-chegados, e com a “fomeca” que traziam, foi grande a azáfama em torno do refeitório, onde não cabiam todos ao mesmo tempo, para que lhes fossem servidas as tradicionais salsichas. Aquela grande concentração é um risco enorme, já que uma simples granada que caia no local, pela certa causará uma mortandade! São mandados dispersar pelos quatro cantos de Guidaje onde devem aguardar que alguém os chame. Não têm tecto onde dormir, os edifícios estão deveras danificados ou completamente destruídos, e os camaradas “residentes” (sitiados) já transformaram a generalidade das valas em dormitórios. Porém, aqui a solidariedade não é palavra vã e para todos se inventará um cantinho onde repousem. Toda a gente se “encolhe” por forma a arranjar novos espaços. Não restam colchões disponíveis para ninguém, cada qual desenrasca-se consoante a imaginação.

Cerca das 21 horas, às cinco de cada vez, começam a cair morteiradas bem no centro do quartel. E não parecem umas granadas quaisquer aquelas que se abatem sobre as nossas cabeças: são de Morteiro 81, isto é, das que o IN conseguira sacar das viaturas de reabastecimento que se imobilizaram e perderam na picada de Binta, (sacadas antes do Fiat do capitão José Manuel Pinto Ferreira arrasar o que restava delas e da carga, no passado dia 9)…