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23 de maio de 2011

179-Nomes no golpe militar de 14 de Novembro de 1980 na Guiné-Bissau


Principais participantes no golpe:
NINO VIEIRA, Primeiro-ministro e Ministro da Defesa.
Foi Presidente desde 1980, após o golpe, até 1999, quando foi deposto na sequência da guerra civil e exilou-se em Portugal. Regressou à Guiné em 2005 e foi eleito Presidente. Foi assassinado em 2 de Março de 2009.

VÍTOR SAÚDE MARIA, Ministro dos Negócios Estrangeiros.
Continuou como tal até Maio de 1982, já com Nino Vieira; foi Primeiro-ministro de Maio de 1982 até Março de 1984, altura em que Nino o destituiu e mandou prender. Exilou-se depois em Portugal, tendo regressado à Guiné em 1990 e fundou o Partido Unido Social Democrata (PUSD) em 1992; concorreu às eleições presidenciais em 1994; foi assassinado em 1999, durante a guerra civil.

PAULO CORREIA, Ministro dos Antigos Combatentes
Foi um dos Juízes do Tribunal Militar que, em 1977, conde­nou à morte Rafael Barbosa, com pena comutada em prisão perpétua, mas que foi libertado logo após o golpe. Foi Vice-Presidente de Nino Vieira e Ministro da Justiça e Poder Local. Fundou em 1996, juntamente com Viriato Rodrigues Pan, Procurador-Geral da República, a Resistência da Guiné-Bissau-Movimento Bafatá.  Nesse ano, Nino Vieira acusou-o de tentativa de golpe de estado em 17 de Outubro de 1985 e mandou fuzilá-lo juntamente com Viriato Pan, Binhanquerem Na Tchanda, Pedro Ramos, Braima Bangura (foi o comandante do ataque a Cantacunda em 10 de Abril de 1968) e N’bana Sambú.

JOSEPH TURPIN, Secretário de Estado das Pescas
Foi Procurador-Geral da República, em 1986, depois da prisão de Viriato Pan.

VÍTOR FREIRE MONTEIRO, Governador do Banco Nacional
Cargo que desempenhava desde a formação do pri­meiro Governo, em Setembro de 73. Estudou Finanças em Portugal, tendo-se licenciado, e trabalhado posteriormente no Banco Totta. Já nos últimos anos da luta armada saiu de Portugal, para Conakry, de onde Amilcar Cabral o enviou para Genève, na Suíça onde permaneceu a maior parte do tempo. Não teve participação directa na luta armada. Desenvolveu intensivos esforços para a vinculação da Guiné-Bissau à política económica do Fundo Monetário Internacional. Defensor da iniciativa privada, foi favorável à privatização dos Armazéns do Povo. Foi Ministro das Finanças depois do golpe de 1980.

ALEXANDRE NUNES CORREIA, Secretário-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros
Foi funcionário  das Obras Públicas no tempo do colonialismo. Foi membro do MLG (Movimento de Libertação da Guiné) primeiramente, antes de aderir ao PAIGC em 1960.

MANUEL SATURNINO DA COSTA, Embaixador em Moscovo
Foi Primeiro-ministro de 26 de Outubro de 1994 a 6 de Junho de 1997, afastado por Nino Vieira. Foi nomeado Presidente do PAIGC em 12 de Maio de 1999. Em Fevereiro de 2000 foi mandado prender por Kumba Yalá. Foi nomeado Ministro da Presidência em Janeiro de 2009, tendo sido destituído em Outubro desse mesmo ano. Acusado de, juntamente com  Orlando Nhaga, Zé Sanha, António Moscovo, Djon Lalaka, Braima Dakar, Paulo e Armando Kondon, ter mandado fuzilar o régulo Baticã Ferreira e o ex-comando africano Didi Ferreira em Canchungo, em Março de 1976. Consta que foi um dos instigadores do conflito de Junho de 1998 e cúmplice no assassinato de Nino Vieira. É Vice-Presidente do PAIGC actualmente. Tem fama de bêbado.

Presos:
LUÍS CABRAL, Presidente
Estava em Bubaque. Foi trazido de avião e colocado em casa sob prisão.

CARMEN PEREIRA, Presidente da Assembleia Nacional Popular
Foi Ministra da Saúde e dos Assuntos Sociais de 1981 a 1983. Foi novamente Presidente da Assembleia Nacional Popular de 1984 a 1989. Em 1984 substituiu durante alguns dias Nino Vieira na Presidência da República. Foi também Ministra da Economia e representante do Banco Mundial na Guiné-Bissau.

JOÃO DA COSTA, Ministro da Saúde
Em 1993 foi também mandado prender por Nino Vieira, acusado de tentativa de golpe.

UMARÚ DJALÓ, Ministro da Defesa
Era general, nomeado por Luís Cabral. Fez parte de todas as delegações do PAIGC que negociaram o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, depois do 25 de Abril. 

MANUEL DOS SANTOS, Ministro dos Transportes
“Manecas”, antigo Comandante do PAIGC e do famoso e bem sucedido "Comando Abel Djassi", de origem cabo-verdiana, foi poupado pelo Golpe de Estado de 14 de Novembro de 1980, devido a relações de promiscuidade diversa com Nino Vieira. Enriqueceu à custa da Guiné-Bissau, enquanto Super-Ministro da Economia e Finanças de Nino Vieira. Em 2005, após o regresso deste, não fez parte de nenhum governo mas continuou a enriquecer à custa de alianças com Nino e nos últimos anos consta ser um dos senhores do narcotráfico na Guiné-Bissau. É actualmente Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República da Guiné-Bissau na República de Angola

FRANCISCO COUTINHO, responsável dos Armazéns do Povo

VALDEMAR OLIVEIRA,, da empresa de petróleos “Dicol”

CONSTANTINO TEIXEIRA, Ministro do Interior
Foi Primeiro-ministro de 7 de Julho a 28 de Setembro de 1978, altura em que foi substituído por Nino Vieira. Depois do golpe morreu doente na prisão, segundo o Ministério do Interior de Nino.


:
VASCO CABRAL, Ministro do Planeamento
Ofereceu resistência, foi ferido mas conseguiu abater um soldado e fugir no seu carro, tendo-se refugiado na Embaixada da Suécia. Tirou o curso de Económicas em Portugal em 1950. Em 1961 é militante comunista na clandestinidade. Em 1962, numa fuga organizada pelo PCP, Vasco Cabral, juntamente com Agostinho Neto, de barco alcança Tânger. Junta-se depois ao PAIGC.  1974 a 2004: Vasco Cabral, no Governo guineense, é ministro da Economia e Finanças, coordenador de Economia e Planeamento, ministro de Estado da Justiça e membro do Conselho de Estado. Será também vice-presidente da República. Em 2005, a 24 de Agosto, morre em Bissau. Guineense de Farim, nunca se opôs abertamente ao golpe de Nino Vieira.

Outros que sofreram consequências na sequência deste golpe
(foram-me fornecidos por um leitor deste blogue que preferiu não revelar publicamente o seu nome)


CIVIS : 
Abdulay Seck – Presidente do Comité de Estado da Regiâo de Gabú (Governador). Morreu nas celas da prisão da Segunda Esquadra, vítima de tortura psicológica.e de mau trato alimentar.
Juvêncio Gomes – Presidente da Câmara Municipal do Setor Autónomo de Bissau
Bacar Cassamá – Chefe da Casa Civil da Presidência
Benvindo – Casa Civil da Presidência
FARP :
André Gomes – 1° Comandante das FARP. O seu cadáver foi descoberto na cela da Base Aérea. Falou-se de suicídio ...
Julião Lopes – Comandante da Marinha de Guerra Nacional
Mateus Correia – Comandante Adjunto da Marinha de Guerra Nacional
Agostinho Gomes – Responsável do Armazém de Armamentos da Marinha 
Agostinho Cabral d’Almada “Gazela” – Comandante da Força Aérea Nacional 
Arafã Mané “N’Djamba” – Chefe da Casa Militar da Presidência 
Anhonó da Silva – Contra-inteligência militar 
Morgado Tavares - Contra-inteligência militar 
Duarte Cabral – Contra-inteligência militar 
José Sanhá – Chefe dos Serviços da Guarda Fronteira 
SEGURANÇA : 
Augusto Gomes – Contra-inteligência 
Idrissa Djaló – Pessoal e Formação 
Carlos Barros – Secretariado 
Norberto Tavares de Carvalho - Migração 
João Saoul Jacob “Johny” – Polícia Judiciária. Morto na prisão, vítima de tortura psicológica e falta de acompanhamento médico. 
Domingos Mendes – Arquivos e Identificação 
Óscar Baticã Ferreira - Inteligência 
Marcos da Silva – Região e fronteiras 
Armando Gomes - Secretariado 
Iancuba Quebá Mané – Contra-inteligência. Preso apôs o golpe, no regresso de um estágio no estrangeiro. 
Orlando Trindade – Contra-inteligência. Preso apôs o golpe, no regresso de um estágio no estrangeiro.
FORAM AINDA MORTOS : 
Um militar, alegadamente por João Bernardo Vieira “Nino”, no quartel da Amura, na base de um suposto malentendido. 
Dois outros militares, que se teriam visto expostos entre dois fogos, na sequência do bombardeamento da casa onde se encontrava Antonio Alcântara Buscardini – Vice-Ministro do Interior. 
ESTAVAM FORA DO PAÍS : 
Constantino dos Santos Teixeira – Comandante de Brigada e Ministro do Interior. Regressou alguns dias depois do golpe e foi preso ao descer do avião. 
Abdulai Bari – 1° Comandante das FARP 
Francisco Barreto – Capitão das FARP 
Romão Correia – Ministério do Interior


Mortos:
ANTÓNIO ALCÂNTARA BUSCARDINI, Ministro da Segurança
Em 1961 esteve preso pela PIDE em Bissau, acusado de ligações ao PAIGC. Depois de sair da prisão integra a guerrilha pela mão de Osvaldo Vieira. Foi ferido gravemente, e julgado morto, no dia do assassinato de Amílcar Cabral. Tinha 37 anos na altura do golpe.

OTTO SCHATT, alto funcionário do PAIGC


Estavam ou foram para fora do país:
MÁRIO PINTO DE ANDRADE, Ministro da Informação e Cultura
Angolano. Foi Presidente do MPLA em 1960, quando Agostinho Neto foi preso pela PIDE. Deixou a presidência em 1962, quando Agostinho Neto consegue fugir de Portugal. Em 1974  funda, com seu irmão Joaquim, a “Revolta Activa”, corrente que se opõe à liderança de Agostinho Neto no MPLA, exigindo a democratização do regime; os dois irmãos Pinto de Andrade e outros militantes são muito perseguidos e têm que abandonar Angola. Em 1976 exila-se na Guiné-Bissau tornando-se o coordenador-geral do Conselho Nacional de Cultura. Em 1978 é nomeado Ministro da Informação e Cultura da Guiné-Bissau. Na altura do golpe estava em Portugal. Foi depois para Cabo Verde. Morreu a 26 de Agosto de 1990 em Londres.

CARLOS CORREIA, Ministro das Finanças
Foi Primeiro-ministro de 27 de Dezembro de 1991 a 26 de Outubro de 1994, de 6 de Junho de 1994 a 3 de Dezembro de 1998. Foi preso em 27 de Julho de 1999, na rebelião de Ansumane Mané, e assim esteve durante pouco tempo. Em Novembro desse ano foi expulso do PAIGC. Em Fevereiro de 2000 foi mandado prender por Kumba Yalá. Esteve novamente preso durante quatro dias pela morte dos envolvidos no pretenso golpe contra Nino em 1986. É nomeado Primeiro-ministro por Nino Vieira de 5 de Agosto de 2008, depois da dissolução da Assembleia Nacional Popular. Foi substituído por Carlos Gomes Junior em 25 de Dezembro de 2008. Na altura do golpe estava no Gabão.

ARMANDO RAMOS, Ministro do Comércio
Estava também no Gabão

LUÍS CORREIA, responsável da Polícia de Ordem Públic
Irmão de Paulo Correia. Não aderiu ao golpe, conseguiu fugir  e foi para Cabo Verde.

BOBO KEITA, comandante
Fez parte de todas as delegações do PAIGC que negociaram o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, depois do 25 de Abril. Não aderiu ao golpe, conseguiu fugir e foi para Cabo Verde. Morreu em Lisboa em Janeiro de 2009.

LÚCIO SOARES, Vice-chefe do Estado Maior das Forças Armadas
Foi o construtor e primeiro comandante da base do PAIGC em Sinchã Jobel. Foi comandante da base do Morés. Fez parte de todas as delegações do PAIGC que negociaram o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, depois do 25 de Abril. Foi Ministro da Defesa de Faustino Imbali de Março a Dezembro de 2001. Foi Ministro do Interior de Carlos Gomes Junior em Janeiro de 2009, mas durante poucos meses, saindo após os assassinatos de Nino Vieira e Tagma Na Waié. Não aderiu ao golpe e conseguiu fugir para Cabo Verde, donde regressou em 1994.

JOSÉ ARAÚJO, Secretário Executivo do PAIGC
Foi um dos que foi aprisionado após o assassinato de Amílcar Cabral e que os autores tentaram levar numa lancha para Bissau. Marido de Amélia Araújo, a “Maria Turra”: Foi ele que chefiou a delegação do PAIGC que, em Agosto de 1974, na mata do Cantanhês, assinou o cessar fogo com Carlos Fabião. Fez parte de todas as delegações do PAIGC que negociaram o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, depois do 25 de Abril. Durante o golpe de 14 de Novembro estava em Lisboa. No regresso ficou em Cabo Verde, onde chegou a ser Ministro da Educação e Ministro da Justiça. Morreu há uns anos em Cabo Verde.


Não houve notícias, na altura, sobre:
FILINTO VAZ MARTINS, Ministro da Indústria, Energia e Recursos Hídricos
Continuou nessas funções após o golpe.

MÁRIO CABRAL, Ministro da Agricultura
Foi Comissário da Educação após a independência. Fez parte do Conselho da Revolução após o golpe. É Embaixador da Guiné-Bissau no Senegal e conselheiro de Carlos Gomes Júnior

SAMBA LAMINE MANÉ, Ministro dos Recursos Naturais
Fez parte do Conselho da Revolução após o golpe. Era Ministro dos Negócios Estrangeiros após o golpe e era Ministro da Defesa de Nino Vieira na altura da revolta de Ansumane Mané. Nessa altura o seu assessor de imprensa era Baciro Dabó.

FIDELIS ALMADA, Ministro da Justiça
Depois do assassinato de Amílcar Cabral popós que fosse Nino Vieira o Novo Secretário Geral do PAIGC. Foi Ministro da Educação após o golpe. Já faleceu.

TINO LIMA GOMES, Ministro das Obras Públicas
Foi furriel da FAP. Fugiu para Conacry com uma avioneta. Já morreu

FERNANDO FORTES DE ALMEIDA, Ministro dos Correios e Telecomunicações
Foi um dos que, com Amílcar Cabral, fundou o PAIGC em 19 de Setembro de 1956. Era, então, chefe da Estação Postal de Bissau.


CONSELHO DA REVOLUÇÃO
Foi formado após o golpe.

Membros Permanentes do CR (por ordem hierárquica):

NINO VIEIRA,
VICTOR SAÚDE MARIA
IAFAI CAMARÁ
(Natural da Gâmbia, foi o primeiro Vice-Presidente e Ministro das Forças Armadas após a independência, mas depressa foi destituído por ser elemento desestabilizador entre os militares. Comandou a brigada mecanizada no 14 de Novembro. Em 1982 foi ele que entregou a Nino Vieira uma lista com os supostos conspiradores de Paulo Correia. Foi Vice-Presidente de Nino a partir de Novembro de 1985.)
PAULO CORREIA
MANUEL SATURNINO DA COSTA
BUOTA N´BATCHA
JOÃO DA SILVA
(substituto interinamente do Ministro Manuel Saturnino, quando este foi ao estrangeiro em missão, foi acusá-lo de falcatruas a Nino Vieira. Este demitiu o ministro sem o ouvir. João da Silva foi, depois, contar a um tio de Manuel Saturnino o que Nino tinha feito. Nino soube disso e expulsou-o do CR)
SAMBA LAMINE TURÉ
BEGHATEBA NA BEATE

Principais Colaboradores:

JOSEPH TURPIN
VICTOR FREIRE MONTEIRO
MÁRIO CABRAL
JOÃO CRUZ PINTO
(Procurador-Geral da República)


22 de maio de 2011

178-Guidage

São fotos de Guidage da autoria do capitão da CCAÇ3 Carlos Ricardo. Esta companhia esteve lá de 9 de Março de 1969 (altura em que saiu de Barro) até 22 de Fevereiro de 1972, quando foi para Saliquinhedim (K3).
Agradecimentos ao blogue "SPM0018-CCAÇ3", donde elas são originárias, por me ter autorizado a sua publicação. 

 Valas


 Abrigo de Transmissões

 A cozinha


Abrigo do comandante da companhia


Bunker


Secretaria


Quartel


Construção do paiol

Guidage em 1971

Ribeira de Guidage, junto à fronteira

21 de maio de 2011

177-XVIII Encontro Nacional de Combatentes 2011

Para conhecimento de quem quiser ir
(clicar sobre a imagem com o ponteiro do rato para a ampliar)

176-Aspectos e tipos da Guiné - VII


in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume IX, nº 36, Outubro de 1954

in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XI, nº 41, Janeiro de 1956

in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume X, nº 37, Janeiro de 1955



19 de maio de 2011

175-A gerontocracia na organização social dos bijagós



in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume X, nº 38, Abril de 1955

174-Aspectos e tipos da Guiné - VI

in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XI, nº 42, Abril de 1956

in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume X, nº 4o, Outubro de 1955

 in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume X, nº 38, Abril de 1955

16 de maio de 2011

173-O golpe de Nino Vieira em 14 de Novembro de 1980 foi urdido em Portugal?

O "Diário de Lisboa" de 17 de Novembro de 1980 suspeitou que sim:

Há fortes indícios de o golpe que destruiu – para já – o PAIGC na Guiné-Bissau  ter sido urdido em Portugal ou pelo menos terem aqui sido apurados os esquemas finais e os apoios com que por­ventura contam os golpistas para sobreviver no futuro.
Não é só o facto de Nino Vieira ter estado aqui durante mais de uma semana, com per­manência no Porto em casa de uma individualidade dos negó­cios e da finança que há tempos falara da abertura de um banco privado em Bissau a que estaria associado [era Valentim Loureiro]. Aqui se encontrou nessa altura com Vítor Monteiro[1] e Vítor Saúde Maria[2]. Sombrio é também, e até se aprofundar esta questão, o comportamento da rádio oficial portuguesa no Canal 1 ao repetir diversas vezes, ao longo da tarde de sábado, quando do golpe apenas se sabia ter sido chefiado por Nino, um texto muito suspeito.
Esse longo texto, de que transcrevemos passagens, foi introduzido nos noticiários da tarde de sábado e ele fala por si, em termos tais que no mínimo, exigem uma explicação do Go­verno de Sá Carneiro.
Trata-se de um editorial disfar­çado de notícia e abre com a in­formação de que tinha sido for­mado em Bissau um Conselho da Revolução, presidido por Nino Vieira, para acrescentar logo, ter sido esse Conselho formado para sugerir o vazio do poder até «à decisão da entrega dos destinos políticos do Pais nas mãos dos filhos originários da Guiné».
O tom opinativo entra depois, descaradamente, nesta música tocada pela Radiodifusão Portu­guesa, canal 1, ao longo de toda a tarde de sábado:
«Mas não foi só Nino o homem que transportou sobre os seus ombros a revolução guineense. Há os que ficaram pelo caminho e os que em Bissau e fora do Pais vêm acompanhando silenciosa­mente o processo de unidade orgânica e politica que alguns diri­gentes do PAIGC, partido no poder na Guiné e Cabo Verde, pretenderam fazer vincar entre os dois Estados e povos baseados nos laços históricos e sanguíneos e o próprio pensamento político de Amílcar Cabral».
Em tom editorial acentua-se depois, o facto de o processo que conduziu à independência, e as negociações com Portugal, tal como a ratificação da indepen­dência entregue por Spínola a Pedro Pires, em 9 de Setembro de 1974, ter sido dirigido pelo hoje Primeiro-Ministro cabo-verdiano e «então contestado por al­gumas individualidades guineen­ses», (sic), enquanto Vítor Saúde Maria, Umarú Djaló e Luís Sanca foram «apenas testemunhas». «Este dia - disse a RDP, referindo-se á Guiné - nunca mais se apagará na memória da sua gente devido ao facto de ele ter sido realizado por um natural de Cabo Verde».
Malan Sanhá foi igualmente evocado, com o acrescento de dizer-se que a sua tentativa de golpe «demonstra claramente a determinação dos guineenses que viam e vêem em Nino Vieira a única possibilidade de transfor­mar o decurso politico do Pais, pela sua condição de filho da Guiné originário».
Não se esqueceu o articulista de referir a distanciação de Sekou Touré em relação ao regime da Guiné-Bissau devido ao facto de «os cabo-verdianos no Poder po­derem interferir no seu projecto de unidade que pretenderia para as duas Guinés, uma unidade ba­seada nas afinidades históricas, continentais, culturais comuns aos povos da Guiné-Bissau e da Guiné-Conakcy. O grupo islami­zado - continua o texto - integra a maioria da população dos dois países e de maneira nenhuma Nino Vieira pretenderia entrar em polémica, militar ou política, com Sekou Touré, seu irmão continental africano».
O comunicado – pois é disso que verdadeiramente se trata, embora tenha sido lido aos micro­fones da RDP, a rádio oficial por­tuguesa, como se de noticiário se tratasse - conclui com a seguinte e fantasiosa boutade, pois jamais se ouviu falar de tal gente:
«Cá fora, no entanto, com lon­gas e dolorosos anos de espera encontram-se milhares de guine­enses. Foram seis anos que po­derão ter terminado na sexta-feira. Os emigrantes da Guiné-­Bissau aguardam ansiosamente o desenrolar dos acontecimen­tos. Sabe-se que um forte partido de oposição à facção cabo-verdiana do PAIGC, com sede em Paris e delegações em Lisboa e Dakar, está a promover reuniões sectoriais. Prepara-se, mesmo, quanto se sabe, o envio de uma mensagem a Nino Vieira para manifestar o apoio total dos filhos da Guiné ausentes do seu Pais ao Conselho da Revolução instau­rado agora no poder».
Fora isto, importa para já perguntar quem terá sido o autor de tal prosa e qual o papel da própria emissora oficial portu­guesa no golpe.
Com efei1o, quem conhece a composição da Redacção da RDP 1 e a qualidade dos «espe­cialistas» em assuntos africanos, mormente das questões guine­enses, confere facilmente a im­possibilidade de ter sido ela a fonte donde brotou tal papel. Mais ainda: a linguagem utilizada e a terminologia não é mais que a contida nas prosas escassas ­divulgadas pela meia dúzia de indivíduos que, por cá andavam comendo as migalhas de colonia­lismo, ou por cá preferiram mais tarde esbanjar o nacionalismo que na sua própria terra não se lhes conhecia.
Mais grave que tudo isto, é a antecipação de certos factos só posteriormente conhecidos e que só um individuo ou organização metida no golpe até à raiz dos cabelos poderia adiantar. E a RDP ao assumir isso como prosa sua, comentário seu, e ao impingi-lo aos ouvintes como se de simples matéria informativa se tratasse está no mínimo, coni­vente no golpe. Isto para não irmos mais longe.
Veja-se só o que diz a RDP, antes de chegarem as noticias a Lisboa e ao falar da detenção de vários dirigentes:
«Nessa situação poderão estar José Araújo, considerado o prin­cipal mentor do regime e conside­rado o ideólogo número um do PAIGC (e autor da nova Consti­tuição da Guiné que retira os po­deres a Nino Vieira e ao coman­dante chefe das Forças Armadas) Vasco Cabral, Fernando Fortes, Manuel dos Santos, Lima Gomes, todos eles naturais de Cabo Verde, para além de individuali­dades da Segurança Nacional que vêm julgando os casos de contestação por parte dos filhos da Guiné». E todos, ou quase todos eles, viriam de facto a ser presos, excepto Vasco Cabral (natural de Farim, filho de guine­enses, que nenhum laço familiar tem com o Presidente) que não é cabo-verdiano mas sim um dos principais alvos políticos a abater por todo aquele que pretendesse inflectir o regime.
Finalmente, a RDP deixou per­ceber aos seus ouvintes, como não fora surpreendida com a conspiração ao recordar que Nino Vieira se encontrara em Lisboa (numa viagem a caminho de Pa­ris) com «o seu companheiro de armas Umarú Djaló e Vítor Saúde Maria todos eles naturais da Guiné e pertencentes a chamada linha Nino Vieira, individualida­des influentes da facção guine­ense do PAIGC».
Mais claro que isto é difícil ser­-se.



[1] Vítor Freire Monteiro, era Governador do Banco Nacional da Guiné-Bissau; foi depois Ministro das Finanças do primeiro governo de Nino Vieira. (nota minha)
[2] Vitor Saúde Maria, era Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Luís Cabral, continuou como tal até Maio de 1982, já com Nino Vieira; foi primeiro ministro de Maio de 1982 até Março de 1984, altura em que se exilou em Portugal; regressou em 1990 e fundou o Partido Unido Social Democrata (PUSD) em 1992; concorreu às eleições presidenciais em 1994; foi assassinado em 1999, durante a guerra civil. (Nota minha)


15 de maio de 2011

172-Colonização da Guiné

ÁFRICA DESCONHECIDA
[ PARA A HISTÓRIA DO COLONIALISMO PORTUGUÊS ]
A COLONIZAÇÃO DA GUINÉ 

Por Armando Sousa Teixeira



Nos princípios do século XIX a Guiné passou a constituir um distrito independente de Cabo Verde e desenvolveram-se então maiores esforços no sentido da penetração no território. Mas só quando da Conferência de Berlim, em 1885, Portugal decide-se a ocupar de facto a Guiné, sob a pressão internacional das grandes potências.

Quando os portugueses chegaram ao Golfo da Guiné, no século XV, encontraram o território ocupado por diversos grupos étnicos vivendo em regime tribal da agricultura e da pastorícia, possuindo formas de autoridade centralizada exercida por chefes hereditários, com uma estratificação social acentuada e um sistema que se pode apelidar de semi-feudal.

Parte desta população professava a religião muçulmana, consequência de antigos contactos com povos mouros do Norte de África, embora muitos conservassem concepções animistas (admitiam em geral um deus criador e vários deuses intermédios ligados aos elementos naturais; água, terra, fogo, etc.).

No primeiro caso estão os Fulas e os Mandingas; entre os animistas, a maioria, várias etnias; Balantas, Mandjaques, Papéis, Barnes, Felupas, Bijagós, Beafadas, Cassangas. 
O cronista Duarte Pacheco Pereira escrevia em 1506 acerca dos habitantes desta região: “São de cor muito negra, alguns andam nus enquanto outros vestem-se de algodão. Aqui podem-se comprar escravos à razão de 6 ou 7 por um cavalo e mesmo por um mau cavalo; pode-se comprar também ouro, mas em pequena quantidade”.
Apesar de Diogo Gomes ter chegado à Guiné em 1446, só em 1630 foi criada a Capitania Geral do Cacheu, concluindo-se que durante quase dois séculos a presença portuguesa se limitou à esporádica acção de comerciantes no litoral.
Mais tarde foram criadas, já no século XVIII, as capitanias de Bolama e Bissau, mas o controlo sobre o território era exercido até escassas milhas da costa, onde se processava todo o comércio. Refira-se que durante o período de tráfico intenso de escravos ( séculos XVII e XVIII e parte do século XIX ) a Guiné constituiu uma excepção, pois ainda que existente, a escravatura nunca atingiu proporções semelhantes às verificadas nomeadamente em Angola.
Nos princípios do século XIX a Guiné passou a constituir um distrito independente de Cabo Verde e desenvolveram-se então maiores esforços no sentido da penetração no território. Mas só quando da Conferência de Berlim, em 1885, Portugal decide-se a ocupar de facto a Guiné, sob a pressão internacional das grandes potências. Até aí a autoridade comercial era mantida em núcleos ao longo da faixa litoral, pelo que a investida pelo interior provocou a reacção das populações, dando origem à chamada “Guerra de Pacificação”, que se prolongaria por quase meio século, até 1936, quando foram derrotados os últimos resistentes Bijagós.
Uma a uma, as etnias foram sendo “pacificadas”, em campanhas mais ou menos violentas: os Felupas, Mandjaques, Fulas, Beafadas, Balantas, Oincas, Papéis ... Estes, só por volta de 1915, altura em que segundo a autora portuguesa radicada no Brasil, Maria Archer, no seu livro, “Terras onde se fala português”: “... mesmo aqueles habilitados a realizar missões de comércio no interior, tinham de pagar determinada quantia para receberem a permissão do chefe dos Papéis”.
Só nos anos 30 do século XX, Portugal instala de facto a sua administração na Guiné, nunca criando contudo as infra-estruturas necessárias para a exploração do território e deixando cerca de 70% do comércio e da economia nas mãos da França e da Alemanha. A partir do final daquela década porém, a CUF - Companhia União Fabril e o BNU – Banco Nacional Ultramarino, tomaram posições importantes na economia guineense, aparentando contrariar a dependência do exterior mas na realidade associando-se a ela.
A primeira, através da subsidiária Casa Gouvêa, gozando duma situação monopolista, explorando uma mão-de-obra quase gratuita (250 escudos mensais pagava em 1959 aos carregadores portuários, levando-os à revolta e à greve no porto de Pidjiguiti, em Bissau, barbaramente reprimida com 50 mortos) e controlando toda a produção e comércio locais (madeira, amendoim, arroz, cera, óleo de palma e palmiste). Nessa época, 60 mil famílias guineenses eram obrigadas a fazer sementeiras nas próprias terras, para depois os produtos serem comprados a baixos preços pela referida empresa do universo CUF.
No mesmo sentido e no período anterior à guerra colonial, outras empresas portuguesas detinham posições monopolistas na Guiné, nomeadamente: o BNU, como referido, dominava a banca; a Sacor controlava a actividade ligada ao petróleo; a Sociedade Comercial Ultramarina, era única no sector de importação-exportação; a Companhia de Borracha da Guiné, ligada à Fapobol, explorava a produção de borracha; a Sociedade Geral de Transportes do grupo CUF, dominava o sector dos transportes marítimos. 
Simultaneamente, os investimentos estrangeiros na Guiné, desde sempre orientados na procura e exploração de matérias-primas, eram corporizados por: Esso Exploration e Royal Dutch Schell, Holanda, prospecção de petróleo; Meats, Holanda – ferro; Wimmer, Alemanha ─ ferro; Petrofina, Bélgica – petróleo; Scofai, Japão – pescas e algas, etc.
Uns e outros, juntos ou separados, têm uma acção meramente predadora, pois no início da década de 60, quando o conflito armado se desencadeou, na Guiné-Bissau a indústria local continuava rudimentar e o cultivo e a comercialização continuavam a fazer-se de forma primitiva. Tal era a herança colonial dos portugueses.

Bibliografia :
• O colonialismo português Trabalho de Seminário de Estudo
– ISE, Lisboa, 1970
• Archer, Maria, Terras onde se fala português 
– Rio de Janeiro, 1965
• Guerra de África, Guiné - Batalhas da História de Portugal 
– Academia Portuguesa de História – Fernando Policarpo,

14 de maio de 2011

171-Nem à saída nos largaram...

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
31 de Maio

Poucas vezes na vida o nascer do sol nos terá sabido tão bem. Desta vez, acho que todos conseguimos dormir profundamente umas quantas horas seguidas e todos acordámos cedo e nos pusemos de pé num único impulso. Falo sobretudo de Os Marados de Gadamael, pois há camaradas que terão como tarefa regressar a Guidaje e ficar mais uns tempos por estas paragens, designadamente as companhias que chegaram anteontem e sem as quais ainda estaríamos sitiados. A missão dos pelotões da CCaç 3518 acabou, “o sibe chegou ao seu destino”, há soldados que se dizem prontos a festejar a próxima noite no Pilão!...

Ainda não eram oito horas e já tínhamos atravessado o rio para a margem esquerda, o motor da jangada até parecia querer pregar-nos uma partida, mas lá se aguentou. Quando arrancamos grita-se “está na mala”, “prego ao fundo, ó condutor”, “putas vão-se lavando que Os Marados vão a caminho” e outros ditos próprios da época e do estado de espírito, que guerra e soldados são assim mesmo em qualquer tempo, em qualquer lugar!

Com essa mesma alegria abrandamos a velocidade na passagem pelo destacamento K3 (antiga tabanca de Saliquinhedim) e, recebida a ordem do comando de Farim, apagamos os sorrisos e aí vamos em direcção ao sul, andamento moderado. Agora vamos todos motorizados e é sempre pelo alcatrão, pelo menos não haverá minas sob os pneus (o que não significa que a estrada não possa estar armadilhada num sítio qualquer).

Seremos, porém, os campeões do infortúnio. A pouquíssimos quilómetros do K3, de súbito, estoira nova emboscada. As primeiras roquetadas despoletam-na e limpam as viaturas da frente: o primeiro Unimog é destruído e o seguinte incendiado. Há um homem que acciona uma mina com o peito. Para se abrigar das balas das Kalashnikov que entretanto começaram a cantar à nossa volta, lança-se para trás de um “baga-baga” (rijo, à prova de bala, construído por formigas térmitas, chama-se morro de salalé, em Angola), e os fragmentos do seu corpo são espalhados por um diâmetro incalculável. Durante largos minutos há tiroteio de armas ligeiras na frente da coluna. Os homens das viaturas não atingidas, entre os quais nos incluímos, saltam para as bermas e tentam também reagir com prontidão. Seguimos sensivelmente a meio e não avistamos os atacantes, embora algumas balas vão zunindo muito próximas. O IN retira-se e há pessoal das NT que tenta a perseguição, mas é mandado parar. A artilharia do destacamento K3 bate a zona do lado direito da estrada durante alguns minutos. Um Unimog passa a toda a velocidade em sentido contrário, na direcção de Farim. Leva feridos. Um deles, sentado no banco de espaldar e amparado por dois camaradas, leva o joelho garrotado, perdeu a perna daí para baixo.

A coluna recua até ao destacamento para se reorganizar. A zona de onde os combatentes do PAIGC lançaram o ataque continua a ser bombardeada pela nossa artilharia. Ao longo da estrada, em frente ao K3, esperamos pelo Allouette que vem evacuar os feridos. Depois do helicóptero carregar as macas e levantar voo a coluna/auto põe-se de novo em andamento. Quando passamos pelas viaturas destruídas, ainda estão a fumegar. Depois do cheiro dos ares de Bironque atingimos Mansabá e avançamos praticamente em linha recta, direitos a Mansoa, sempre na expectativa de novos contactos com o IN, se nada se passou no enfiamento do Mores é porque talvez nos safemos… Safámo-nos!

Com a alegria estampada nos rostos chegamos ao COMBIS, em Brá (não longe do quartel dos comandos e a pouca distância da base aérea e aeroporto de Bissalanca), por volta às 17 horas. Aqui sim, o nosso péssimo aspecto mete dó aos transeuntes, assusta as pessoas com quem nos cruzamos. Olham-nos com ar espantado, como se vissem lobisomem! As próprias caras dos camaradas da nossa companhia se dividem entre a alegria de nos ver e a perplexidade.

O pessoal marado vem ao nosso encontro, sai da caserna, da secretaria e vem-nos abraçar efusivamente, andamos de ombro em ombro, não menos eufóricos. O furriel Quaresma – o  vagomestre a cujos manjares devíamos tamanha elegância! – fica admirado por me ver à sua frente:
– Estás  vivo? – pergunta-me.
– O que te parece? Não sou nenhum fantasma!
Confessa que no jornal da caserna o meu nome integra o rol dos que tinham sucumbido, já quase me tinham cantado a missa do sétimo dia, quem morreu afinal?, no COMBIS ninguém sabia ao certo. Chica, como se as transmissões não funcionassem! Esclareço-o das baixas e pergunto pelo Alexandre Castro, o nosso mangas-de-alpaca, que afinal está de férias na sua Amadora. Ainda assim, vou direito à secretaria, ao primeiro-sargento António Fagundes Neves, para ver se tenho correio. Diz-me “lá se safaram de mais uma” e passa-me um braçado enorme de cartas, jornais e revistas.

Antes do banho, cubro a manta da cama com a correspondência acumulada, que inclui cassetes recebidas dos meus amigos Acácio, Cipriano e Fernando, que em Lisboa faziam o favor de me gravar as últimas novidades, incluindo os discos que eu recebia regularmente de Londres (através da Tandy’s Records) e cuja audição era uma ajuda preciosa para aguentar a difícil passagem do tempo. Leio em diagonal as cartas mais recentes e apercebo-me do que já esperava: uma grande preocupação familiar pelo meu inabitual silêncio e pelo meu estado de saúde. À porta do quarto surge um ordenança que me vem convocar para ir ao segundo-comandante do COMBIS (o comandante está ausente, também de férias). Fui assim mesmo, botas sem meias nem atacadores, as pernas das calças transformadas em badanas, totalmente descosidas da braguilha para baixo. Apresento-me no gabinete do nosso major que me mira de alto a baixo, me pede para lhe contar o que se passou nestes dias e qual o estado do pessoal em termos psicológicos. Faço o meu resumo, mais ou menos cronológico, digo o que penso com algum azedume e entrego-lhe o papelucho que havia rabiscado em Farim, supostamente o croquis dos  mortos que tivemos de deixar em Guidaje. Diz-me que por agora posso ir descansar e que no dia seguinte voltará a chamar-me para me pedir um relatório escrito e mais detalhado (o que não virá a acontecer).

Dirijo-me ao banho. Mando as calças para o lixo. Dispo o dólmen. De tão esticado e teso, pego-o pelo colarinho e pouso-o no chão. Fica de pé, como se o enfiasse num cabide de alfaiate!  Não há a água quente que me apetecia (como seria bom um longo banho quente, de imersão), porém, a água que escorre do duche é tépida e nem sei quanto tempo fico a desfrutá-la. Enquanto isso, lavo o quico com champô, até desaparecerem as principais manchas de suor e de todos os merdelins. Aproveito para não desfazer a barba e andar assim mais um tempo (desde que começou a crescer-me que a uso crescida, salvo agora, por impedimento do RDM).

Antes do sol se pôr, já eu, o Ângelo e o Cruz tínhamos apanhado boleia para a cidade e  estávamos frente ao forte da Amura (perto do cais de Bissau) a tirar fotografias, aguardando pelo furriel famalicense José Lopes Silva, que ficou de se encontrar connosco na 5ª REP (esplanada do Café Bento, conhecido pela abreviatura de “5ª Repartição”) e depois irmos à Cervejaria Solmar petiscar uma valente mariscada! Seguiu-se um alguidar de ostras e uma travessa de camarões no Pelicano e, devido à quantidade de líquidos ingeridos, já não me lembro o que foi o resto!

Fatal como o destino, enquanto caminhamos pelas ruas da capital encontramos sempre alguém conhecido, ou por ter estado connosco na recruta ou na especialidade, por ser conterrâneo, etc., e enquanto esclarecemos perguntas sobre Guidaje recebemos péssimas notícias de uma Gadamael cercada e com inusitado número de baixas. De Guileje também se fala, mas pouco ou nada resta para contar, salvo alguém ter garantido que o major Coutinho e Lima, ex-comandante do COP 5 e que ordenou a retirada em tempo útil de Guileje, andaria agora em Brá a jardinar no quartel, por estar detido preventivamente pela cegueira do governador. Outro alguém contra-diz-que-disse que o major estaria mesmo preso por ordem de Spínola, – e não simplesmente com detenção num quartel, –  e que tal gesto provocara uma onda de indignação entre unidades do exército, em particular, as de Gadamael, Guileje e Cacine.

170-Finalmente libertos!

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
30 de Maio

Ou vai ou racha! Se não for desta, quando será? Somos uma multidão autêntica neste quartel sobrelotado. Fazem-se os preparos para a partida, sacode-se alguma poeira das armas, espreitam-se os canos para ver se têm sujidade, distribuem-se bolachas e latas de sumo que devem ter sido trazidas pelo pessoal chegado ontem, à noitinha. Caramba, com tanta gente não há motivo para descrenças e ansiedades, vamos a eles! Apesar da partida dos “páras” rumo a Farim, entrou aqui o equivalente a quatro companhias… Com Guidaje a abarrotar, a anarquia é total, ninguém sabe quem manda em quê e até para fazerem as suas necessidades há homens a recorrer às proximidades da rede de arame, ignorando quem passa e, do lado da tabanca, ainda passam mulheres e crianças que nunca tiveram a oportunidade de fugir. Contas redondas, deverão estar no interior do aquartelamento entre oitocentos e cinquenta e mil homens. Muitos ficarão em reforço do quartel, mas a maioria esmagadora vai participar na operação.

Há mais de meia hora que arrancaram os homens e viaturas da frente e parece que está tudo na mesma, centenas de outros em espera. Nós e os companheiros da tão afortunada coluna chegada no dia 15, havemos de partir enquadrados com fuzileiros. Para mim é bom sinal, gosto de os ver na mata, inspiram confiança e é disso que precisamos, em primeiro lugar. Sou chamado por um capitão (pela idade e rosto carregado tem ar de ser capitão e do quadro) que me vem apontar o nosso posicionamento na coluna e lembrar da necessidade de haver grande disciplina, manter as distâncias e uma atenção redobrada mal saiamos a porta de armas. Diz-me também que o nosso homem das transmissões deve ser a minha sombra, ande eu por onde andar e que não devo hesitar em informar o comando se detectar qualquer anormalidade. Informa-me ainda que iremos utilizar o percurso que eles rasgaram ontem à vinda, talvez o IN não tivesse tempo de miná-lo durante a noite. Certificamo-nos que o corpo do camarada Jorge Gonçalves está sobre uma viatura, queremos levá-lo connosco para Bissau.

Passa provavelmente outra meia hora aborrecida e lá chega a nossa vez de nos deitarmos ao caminho. A marcha, como seria de prever, é extremamente lenta e verificam-se muitas paragens. Até parece milagre não se ter esgotado o combustível das viaturas durante estes dias e agora, com tanto pára/arranca, horas a fio. Embora por vezes se apeiem com mil cuidados nos sítios que vão pisar, mas provavelmente para desentorpecer as pernas, seguem nas Berliet o alferes Cruz, o furriel Ângelo Silva, o soldado Vieira mais os que foram feridos nas emboscadas (Abreu e Gomes dos Santos,) e ainda duas outras praças desfeitas em suor e febre.

Há um fuzileiro que tira do bolso do dólmen uma embalagem de Coramina e, como quem oferece um cigarro, pergunta-me se quero uma. Aceito e agradeço. Nunca percebi muito bem para o que serviam mas sempre cravei muitas das enfermarias, gostava de ir chupando aquelas pastilhas quadradas quando andava no mato, dizia-se que eram estimulantes… Mais do que elas, só as castanhas de cola, que muitos soldados milícias mascavam “para dar força”, como um estupefaciente, e cujo sabor acre eu também gostava de ruminar, aquilo partia-se, triturava-se, mas nunca chegava a desfazer-se na boca, uma castanha dava para a viagem toda e só se cuspia no fim.

Já nem faço ideia de há quantas horas estamos no mato, felizmente que sem novidade, até que nos deparamos outra vez com o cenário dantesco dos mortos espalhados pelo caminho, em diferentes estados de decomposição. O mais próximo de mim já nem dita cheiro (ou terei eu perdido o olfacto?), é só um esqueleto com cinturão, botas e uns poucos farrapos pretos que restam da farda. Por que será que nunca foram removidos? Será por já nem se reconhecer a identidade, ou pelo grande risco de poderem estar armadilhados?

O pessoal do BCaç 4512, levando consigo uma equipa de sapadores, acabaria por ir ao local muito mais tarde, em Agosto de 1973, quando a zona já não oferecia os mesmos perigos. Procedeu à remoção de três desse corpos.

Com efeito, a coluna é muito extensa, não consigo avaliar a dimensão. Prolonga-se certamente por mais de dois quilómetros, tal é o número de tropas e as distâncias que nos separam uns dos outros. Não é fácil avançar-se assim pelo mato fora, muito menos com celeridade. Há uma paragem prolongada, excessivamente prolongada, que nos põe no pensamento a ideia de que uma emboscada estará para chegar… Ou então, surgiram problemas lá na frente, encontrados pelos picadores. Desesperamos de tanta espera, aumenta o stress. Ninguém dá explicações. Sabe-se, finalmente, que um dos homens da cauda da coluna (presumo, sem ter a certeza, que da companhia do capitão Salgueiro Maia) teve a infelicidade de ser atacado por um enxame de abelhas e, bastante mordido no peito (levaria o dólmen aberto), com a avidez da fuga deixou ficar para trás a G3.

Uma solução para afugentar os insectos seria lançar granadas de fumo, mas com o peso do armamento ninguém estava para as carregar. E mesmo que as levassem, um fumozinho que fosse deitado ali denunciaria a nossa localização e seria a “morte do artista”!... Bem, a nossa presença no mato já o IN conheceria há uma infinidade de tempo, mas não havia necessidade de lha indicarmos com tanta precisão…

O comandante da coluna, ao ter conhecimento do sucedido fez enviar uma equipa lá atrás para recuperar a arma, só que os insectos voltaram à carga e estabeleceu-se confusão e revolta, opiniões de que mais valia perder a G3 do que sujeitar tantos homens a arcar com outra emboscada “nos cornos”, ainda por cima na zona que nos causava uma carga psicológica acrescida devido aos insucessos passados. O soldado da espingarda perdida ficou com um número significativo de inchaços no corpo. Caiu na asneira de despir o dólmen e tentar afugentar ou esmagar as abelhas que se infiltraram por dentro e foi pior a emenda que o soneto. Estas mordeduras em quantidade têm efeitos idênticos aos das queimaduras na pele, geram a sua asfixia, pode ser fatais. Por fim, recuperou-se a arma depois de angustiante seca, ali nas barbas do Cufeu, e lá prosseguimos lentamente a nossa marcha. O inimigo a causar-nos baixas, desta vez, nem é o PAIGC, é a própria natureza a molestar-nos, parece que até os insectos repudiam a nossa presença…

A bolanha e a casa amarela ficam para trás. Começamos a respirar de alívio ao avistarmos Binta, ao entrar-nos nos ouvidos os ruídos da água do Cacheu. Há agora que esperar por viaturas vagas que nos transportem até Farim. Chega a vez dos nossos pelotões subirem para as Berliet. Ao vermos as casas da vila e a jangada que no dia seguinte nos poria na outra margem, rumo a Bissau, soubemos o que é um sonho transformado em realidade. Terminara a “Operação Resgate”. Já tínhamos desacreditado que este cenário fosse possível.

Os populares olham desconfiados para o nosso aspecto miserável, mas nesta região já não deve ser nada a que não estejam habituados. Rumamos directamente aos balneários e sanitas, fazemos filas para nos dessedentarmos e para um retemperador duche e, claro está, voltamos a vestir a mesma roupa imunda, o mesmo calçado. A seguir, o pessoal vai direito ao rancho, nem que fosse um chispe enlatado viria mesmo a calhar, nem sei como conseguimos evitar os suicídios quando, cúmulo dos azares, servem aos soldados arroz com… salsichas (embora aqui fossem grelhadas)! Na messe temos melhor sorte, mas não me recordo da ementa do dia. O que nos apetece mesmo é sair do quartel e dar um giro à volta das casas civis, ver pessoas diferentes, não fardadas, desanuviar, procurar um bar, uma tasca, mas nestas figuras e sem dinheiro para nada, não iremos longe.

Empanturramo-nos de cerveja e mancarra, tudo à conta dos vales que mais tarde aparecerão na nossa companhia para nos serem descontados no vencimento. Se bem me lembro, o salário de um furriel miliciano não atingia os seis contos. Em geral, e por opção, a parte maior era enviada para nossas casas ao cuidado de familiares, em escudos portugueses, e a outra era o que recebíamos em escudos guineenses (pesos). Julgo que, em geral, ficávamos na Guiné com cerca de dois mil pesos que, estando-se no mato, davam para o tabaco, despesas de bar e pagar à lavadeira. Bem, em Bissau, umas refeições fora e qualquer compra extraordinária, já justificavam o recurso aos “valores declarados” que mandávamos vir da metrópole (envelopes azuis, com notas lá dentro, que depois cambiávamos aos que tinham a habilidade e o “savoir-faire” para negociar com isso).

*

Nestes dezasseis ou dezassete dias em Farim e Guidaje (aqui, com o bar à míngua de produtos, excepto cigarros), a cada um de nós (sargentos, oficiais) foi descontado em média o equivalente ao nosso salário “guineense” de um mês, embora na secretaria tenham dividido os descontos por duas ou três mensalidades! O que seria se comêssemos!?