in jornal "O Ponto" de 4 de Dezembro de 1980
Este pequeno episódio, de uma noite de pesadelo, só me surgiu na memória pelo título que o ponto deu à reportagem sobre o golpe de Bissau de 14 de Novembro: Amílcar: segunda morte ou ressurreição?
De facto, só se morre uma vez. E Amílcar Cabral morreu a 20 de Janeiro de 1973. Com ele, e na mesma acção, morreu a unidade Guiné-Cabo Verde. Com ele morreu o PAIGC.
Morte adiada. Adiada sete anos, por força de equilíbrios de poder que explodem agora.
Neste artigo não pretendo abrir polémicas, a que, aliás não responderei. Assisti à morte de Amílcar Cabral e a todo o processo que se lhe seguiu. Os acontecimentos recentes levam-me a tomar públicos factos que calei todos estes anos. Por motivos pessoais, só!
Os factos
No dia 19 de Janeiro de 1973, os Serviços de Segurança da Embaixada da Chescoslováquia em Conakry avisaram Amílcar d Cabral de que teriam sido detectados indícios de conspiração dentro do PAIGC.
Cabral avisou o então responsável pela sua segurança para que tomasse precauções. Ele era Manadu N'Djai, herói nacional, comandante da Frente Norte, três vezes ferido em combate e, de momento, em Conakry, precisamente, em convalescença do seu último ferimento.
Manadu N'Djai fez saber directamente aos outros conspiradores que o golpe era conhecido. Assim, tudo foi antecipado e a acção decorreu em plena visita oficial a Conakry de Samora Machel e Joaquim Chissano (este último foi, aliás, membro da Comissão Intemacional de Inquérito à morte de Amílcar Cabral e da mesa que me interrogou, assim como a Manadu N´Djai. Nessa noite, decorria, na Escola Piloto do PAIGC, em Ratoma, arredores de Conakry, uma reunião de informações sobre o desenrolar da guerra em Moçambique, presidida por Chissano. A ela assistiam todos os residentes da escola (alunos e professores) e vários quadros superiores do Partido. Amílcar Cabral e Samora Machel estavam ausentes. À hora de a reunião acabar, cerca das 23, já Amílcar estava morto. O grupo de viaturas que voltava para Conakry, ou para os outros campos do PAIGC, foi interceptado pelo grupo de revoltosos, sendo presos todos os elementos cabo-verdianos ou com eles conotados. A «promessa» feita no acto da prisão, era: «Vai tudo ser fuzilado». Pela meia-noite, toda a direcção política do PAIGC, de momento em Conakry, estava presa. Mas, aí, deu-se a reviravolta: o exército de Sekou Touré, intervém em força, prende todos os elementos do PAIGC (revoltosos e vítimas) e o golpe é parado.
O que se tinha passado entretanto: O grupo directamente encarregue de prender Amílcar Cabral, comandado por Aristides Barbosa, ex-chefe de Marinha e «de castigo» em Conakry, por motivos de corrupção, assassina Cabral, contra os planos estabelecidos - que eram os do rapto. O outro grupo que entra em acção, comandado por Manadu N'Djai, prende e rapta, como estava previsto, Aristides Pereira, que é transportado num carro do partido, amarrado e levado num barco de guerra do PAIGC para o largo do porto de Conakry. Com ele é levado Buscardini (agora assassinado) e espancado quase até à morte. Este barco, ainda na noite dos acontecimentos é recuperado por um barco de guerra soviético e trazido de volta para Conakry.
Entretanto, o grupo que abatera Cabral apresentou-se no Palácio da Presidência de Conakry, e informa Sekou Touré que acabava de matar o secretário-geral do PAIGC e era a nova direcção do Partido. Sekou Touré dá-lhes ordem de prisão. O golpe tinha falhado. Sekou Touré, que se pretendia como o líder de uma África desligada dos imperialismos, não podia reconhecer o assassínio em Conakry mesmo, de um homem com o prestígio internacional de Amílcar Cabral.
Luís Cabral e Chico Té vêm do Senegal para Conakry mas, ainda assim, a direcção do PAIGC leva dois dias até ser libertada
Já em 1973 o envolvimento da Guiné-Conakry na tentativa de afastamento da direcção cabo-verdiana do PAIGC é evidente.
• Toda a conspiração se dá em Conakry e é detectada pela segurança checa que, obviamente, avisou primeiro Sekou Touré.
• Os executores de Cabral, missão cumprida, dirigem-se ao Palácio da Presidência para que seja reconhecido o golpe.
• Os revoltosos atravessam toda a Conakry e saem do porto, com Aristides Pereira e Buscardini amarrados, apesar das rigorosas medidas de segurança que existiam por toda a cidade e tornavam impossível qualquer circulação sem controlo militar ou das milícias em cada mil metros ou menos.
• Finalmente, numa reunião no Palácio da Presidência, convocada por Sekou Touré para todos os quadros do PAIGC, este informou dos resultados provisórios do inquérito à morte de Amilcar Cabral realizado pelas autoridades da Guiné. Os números apresentados por Sekou Touré funcionaram como um aviso e eram esmagadores (Aqui sou obrigado a abrir um parênteses) citando de memória é natural que os números não sejam exactamente os referidos por Sekou Touré. Mas serão muito próximos. Aliás, a publicação dos inquéritos feitos nessa altura, que certamente as autoridades da Guiné-Bissau não deixarão de fazer, virá corrigir qualquer erro da minha parte). No momento da morte de Cabral encontravam-se em Conakry, nos vários campos do PAIGC, 429 elementos deste movimento; 336 estavam a par da conspiração.
Não contando as crianças e os cabo-verdianos, quase todos sabiam.
Nos bastidores do PAIGC
Ao tempo, o órgão supremo na direcção das operações militares do PAIGC era o Conselho de Guerra (o nome, se calhar era outro), composto de quatro pessoas: Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Bernardino Vieira (Nino) e Osvaldo Vieira (primo direito de Nino e o segundo mais alto comandante militar logo a seguir a Nino).
Não era segredo no PAIGC que havia desentendimentos, por vezes violentos entre Cabral e Osvaldo Vieira, devido a problemas de condução militar das operações. Os «homens do mato» eram os executores da guerra e Cabral permitia-se, por vezes depois de largas ausências no estrangeiro, alterar completamente planos já estabelecidos. Para mais, Cabral já não entrava nas zonas libertadas da Guiné-Bissau havia cerca de três anos.
A 20 de Janeiro de 1973, Osvaldo Vieira, estava em Conakry. A tudo assistiu, todos o viram, ele viu tudo e não teve um gesto para evitar o que se passou.
Na primeira prisão em que estive, os guineenses comigo presos não disfarçavam a sua preocupação e falavam abertamente. Osvaldo era o nome mais citado. Era, no fundo, a protecção destes homens envolvidos num golpe que já percebiam ter falhado.
Ninguém desconhecia portanto, que Osvaldo Vieira estava directamente ligado ao assassínio de Amílcar Cabral.
Para grande surpresa, quando saiu da prisão para ir ao funeral de Cabral, Osvaldo Vieira e Luís Cabral, de braço dado, choravam a morte de Amílcar.
Não havia dúvidas de que Osvaldo Vieira estava escudado em forças que o protegiam.
No entanto, o seu comportamento na noite do golpe e as posteriores declarações de dezenas de detidos perante as Comissões de Inquérito (a mim próprio me foi perguntado se teria ouvido algo sobre o envolvimento do camarada Osvaldo) levaram à sua suspensão de todas as funções directivas no Partido. Essa suspensão foi apresentada aos membros do Partido como sendo «a pedido do camarada Osvaldo e até ao total esclarecimento das calúnias que os inimigos da luta lançavam sobre ele para assim criarem clivagem no seio do PAIGC».
Osvaldo Vieira foi para o campo de Madina do Boé sob prisão. Pouco depois: soube-se que tinha morrido de doença do estômago. Na verdade, Osvaldo Vieira foi executado. Ninguém no PAIGC o ignora.
Dois Golpes separados por 7 anos
Osvaldo não foi um dos «cinco» executados oficialmente apresentados pelo PAIGC à opinião pública internacional, como responsáveis pela morte de Amílcar Cabral.
Osvaldo foi um (de cerca de uma centena de executados) sem qualquer julgamento, por implicação na morte de Amílcar Cabral.
No primeiro dia de execuções, após o inquérito do PAIGC, foram executados nas três frentes de guerra (Leste, Norte e Sul) 69 homens. Às circunstâncias em que se deram estas execuções não vale a pena fazer referência. Certamente os inquéritos anunciados agora em Bissau os irão tornar públicos. Mário Cabral, que anunciou os inquéritos em nome do Conselho da Revolução pode ser uma excelente testemunha: ele estava lá, em Madina, onde muitos se deram. Sobre este assunto, queria ainda referir que Sekou Touré não autorizou fuzilamentos em território da República da Guiné. Por isso se deu a divisão pelas três frentes. Mais ainda: os condenados não sabiam ao que iam. Ao saírem de Conakry, foi-lhes dito que iam para o interior, sem mais explicações. Como disse, o número de fuzilamentos andou à volta de uma centena.
As valas comuns agora descobertas nos arredores de Bissau, são revoltantes e inaceitáveis. Não sei se «Nino» as desconhecia. Mas - isso sei - ele não desconhecia a repressão que se seguiu à morte de Cabral e as valas comuns então abertas.
Não me consta, no entanto, que essas estivessem incluídas nas agora mostradas ao Mundo. E quer «Nino» quer Vítor Saúde Maria, quer Paulo Correia, quer Joseph Turpin, quer Mário Cabral, quer Vítor Freire Correia Monteiro, as conhecem.
O golpe de 14 de Novmebro de 1980 não é mais do que a continuação do golpe de 20 de Janeiro de 1973. Quer um quer outro destinavam-se a levar ao poder um homem: NINO.
Noutro artigo explicarei porque demorou tanto.