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6 de junho de 2011

195-O alegado golpe de Paulo Correia

Paulo Correia
A 17 de Outubro de 1985, cerca de cinco dezenas de oficiais das FARP foram detidos em Bissau acusados de preparar um golpe de Estado contra o Presidente João Bernardo Vieira, «Nino». Como cabecilha foi apontado o coronel Paulo Correia, destacado comandante da luta de libertação, Vice-presidente do Conselho de Estado, Ministro da Justiça e do Poder Local. Dentre eles morreram na prisão: João Zacarias António Pereira, 47 anos, ex-comandante dos Bombeiros Voluntários de Bissau, vítima de enfarte do miocárdio; João da Silva, ex-secretário de Estado do desporto e ex-comandante das Forças Armadas, abatido quando tentava fugir; Agostinho Gomes, por insuficiência cardíaca; B'Nate Na Beate, por problemas de tensão arterial; Foré Na Bitna, devido a um edema pulmonar. Outros dez foram dados como "desaparecidos". Versão oficial. Segundo constou, foram barbaramente torturados, causa das suas mortes. Aliás, no funeral de Agostinho Gomes foi verificado que tinha o pescoço partido.
Em 5 de Julho de 1986 os acusados de sedição começaram a ser julgados por um Tribunal Militar Superior na Base Aérea de Bissalanca. 
No dia 12 de Julho foram condenados à pena capital por fuzilamento: Paulo Correia, Viriato Rodrigues Pan, Binhaquerem Na Tchanda, Tagme Na Wae, Wagna Na N'Fade, Pedro Ramos, Braima Bangura, K'Pas Kull, Sae Braia Nhakpa, Lamine Cissé, N'Bana Sambú e Malan Sané. Foram absolvidos: Caramba Conté, Alberto Na Nhaba, Damna N'bunde e Blacré Na Dum. 
Os restantes foram condenados a penas de um a quinze anos de SPO (trabalho social produtivo obrigatório).
A 18 de Julho o Conselho de Estado comutou a pena a 6 dos 12 condenados à morte. Foram eles: Tagme Na Wae, Wagna Na N'Fade, K'Pas Kull, Sae Braia Nhakpa, Lamine Cissé e Malan Sané.
Recordo que Tagme Na Wae, um dos com pena comutada, foi assassinado à bomba pouco antes do assassinato de Nino Vieira em 2 de Março de 2009.
Refiro em especial também este porque me toca: Braima Bangura, um dos fuzilados, foi quem dirigiu o ataque na noite de 10 para 11 de Abril de 1968 ao destacamento que a CART1690 (uma das companhias onde eu estive) tinha em Cantacunda (ver aqui). 
Norberto Tavares de Carvalho
O meu amigo Norberto Tavares de Carvalho publicou este texto abaixo no www.didinho.org em 2008. É importante para saber dos meandros deste caso. Pedi-lhe e ele esteve de acordo que o pusesse aqui também (com uma pequena adaptação):


O Dever da Memória
”O Caso 17 de Outubro” 

Segundo o resumo das revelações do oficial das Forças Armadas Revolucionárias do Povo (FARP) Quebá Sambú, então Chefe dos Serviços da Contra-Inteligência Militar (SCIM) na altura dos factos, no livro intitulado ORDEM PARA MATAR – Dos fuzilamentos ao caso das bombas da Embaixada da Guiné[1].
Resumo da parte do livro dedicada ao caso em epígrafe :
Com o objectivo de preparar as comemorações do 3° aniversário do golpe de Estado do 14 de Novembro de 1980, o coronel Humberto Gomes, comandante da Brigada Mecanizada 14 de Novembro, destacou um dos seus capitães, em ocorrência o capitão Cassamá, para ir coordenar a participação no desfile militar previsto para o efeito, do Grupo de Artilharia Terrestre (GAT), com os seus carros de combate BM-13 e BM-14. O capitão Cassamá pôr-se-ia em contacto com o primeiro-tenente Mário M’bunde, comandante dos blindados. Entre os dois, gerar-se-ia um mal-entendido à volta da recolha das chaves dos carros que, afinal, poderiam estar na posse do tenente Quessala Ialá, adjunto do primeiro-tenente Mário N’bunde. O capitão Cassamá e o primeiro-tenente Mário M’bunde ter-se-iam acusado mutuamente do suposto transvio das chaves, até que estas acabariam por ser encontradas.
No entanto, o que fora um mal-entendido, transformar-se-ia numa terrível suspeita que levaria o ministro das Forças Armadas, o coronel Iafai Camará a ordenar que o primeiro-tenente Mário M’bunde fosse submetido a um interrogatório à volta de um suposto transvio de chaves. No fundo, suspeitava-se que o primeiro-tenente pertenceria a um grupo de oficiais de etnia balanta, investidos na preparação de um golpe de Estado contra o Presidente João Bernardo Vieira. Da investigação que se seguiu, resultaria a detenção de vários oficiais da etnia balanta, que por sinal já constavam duma lista nominal de pretensos conspiradores, lista essa confeccionada pela rede de informações do coronel Iafai Camará.
O procedimento do ministro das Forças Armadas, Iafai Camará, levariam os SCIM a recolher as declarações do sargento Dominik Sanhá, do Batalhão de Mansoa. Nas suas declarações, aparentemente sem nenhuma hesitação, o sargento afirmaria que os mentores da conspiração eram o Paulo Correia, ministro da Justiça e do Poder Local, Vice-Presidente do Conselho de Estado e membro do Comité Executivo da Luta do PAIGC e o Viriato Pã, Procurador-Geral da República. Sobre Paulo Correia, o sargento daria informações estranhamente precisas, à volta da sua participação nas reuniões dos presumíveis conspiradores, do local das concentrações secretas, carro utilizado, etc. Dominik Sanhá acusaria ainda muitos outros oficiais, na sua maioria balantas, alegadamente fazendo parte do plano, todos indo parar à prisão.
Depois de ter ouvido todos os detidos a comissão de inquérito acabou por considerá-los isentos de culpa. Cada um deles pode então regressar de novo à sua unidade. O sargento Dominik Sanhá, autor das falsas acusações, substituí-los ia na prisão. Mas, decididamente, embora se tenha provado a inocência dos oficiais balantas, dias apôs o encerramento do caso, Iafai Camará ordenaria o próprio Quebá Sambú, membro da comissão de inquérito que teria desempenhado um papel preponderante no apuramento da inocência dos detidos, para ir entregar ao ministro da Justiça e do Poder Local, Paulo Correia, as gravações que o acusavam de conspiração. O visado, antes de ouvir as gravações, teria questionado se o Presidente da República estaria a par das atitudes do seu ministro das Forças Armadas? Paulo Correia faria “sentir a necessidade de que fossem tomadas medidas para protegê-lo de futuras acusações falsas, tendentes a implicá-lo na organização de qualquer atentado contra a soberania do Estado.”
Depois do seu primeiro insucesso, o ministro Iafai Camará alargaria os seus tentáculos recrutando mais autores à volta dos seus intentos. Assim, a orquestra passaria a contar com um outro mestre do solfejo: o ministro do Interior, José Pereira. Em consequência, o vice-presidente da comissão de inquérito, que estipulara a libertação dos acusados de tentativa de golpe de Estado da segunda semana de Dezembro de 1983, N’hare Iala Nhanta, Director-geral da segurança Nacional do Ministério do Interior, seria demitido das suas funções e colocado nos Serviços de Viação.
Várias outras supostas tentativas de golpe de estado teriam sido fomentadas pelas mesmas fontes e visando sempre a mesma figura, até aí com os mesmos resultados de ausência de apuração (falta de provas).
O “último semestre” de 1984 poria a nu a promoção a tenente dos membros do Tribunal Militar. Iafai Camará tê-los-ia investido na nova patente, “numa cerimónia clandestina em que só ele e os graduados estiveram presentes...” De maneira estranha, embora a promoção a tenente dos membros do Tribunal Militar tivesse sido considerada irregular, pois não fora analisada pela Comissão das Patentes e o EMGFA e por conseguinte não ter sido levada ao conhecimento oficial do Presidente da República, o acto permaneceu válido. Iafai Camará, quem não parecia disposto a relaxar a sua pressão, designaria esses “graduados irregulares” para integrar a comissão de inquérito incumbida de aprofundar a implicação do Paulo Correia numa alegada sedição.
Aproximativamente, no segundo semestre de 1984, um novo golpe de Estado presumivelmente perpetrado por oficiais balantas da Marinha de Guerra, teria sido descoberto. O Presidente da República nomearia mais uma comissão de inquérito para se ocupar do caso. Mais uma vez apurar-se ia a “ imaterialidade da acusação de tentativa de sedição.” Como nos casos precedentes, um braço de ferro opunha os prós às medidas punitivas contra os caluniadores e os contra...
Queba Sambú, chefe dos Serviços da Contra Inteligência Militar (Serviços secretos do Exército), em audiência pessoal com o Presidente da República, João Bernardo Vieira, concluiria que “todas as pretensas conspirações para um golpe de Estado tinham sido produto de intrigas insidiosas, sem um mínimo indício de veracidade.” Seria a última vez que teria a oportunidade de se entreter com o Presidente da República o qual “ não se dignou pronunciar uma única resposta às sugestões apresentadas...” Queba Sambú teria sido convidado a abandonar o gabinete do Presidente, sob pretexto da chegada duma nova visita.
Ainda segundo as revelações contidas no livro referenciado de Queba Sambú, eis como teria decorrido a prisão do ministro da Justiça e do Poder Local, Vice-Presidente do Conselho de Estado da República da Guiné-Bissau e membro do Comité Executivo de Luta do PAIGC, coronel Paulo Correia e outros dirigentes e oficiais arrastados juntamente com ele para a prisão da Segunda Esquadra da Polícia em Bissau:
As ondas de tribalismo teriam ganho força e consistência acabando por subir à superfície do próprio Batalhão da Guarda Presidencial, no palácio da República. Chefe e vice-chefe da casa Civil da Presidência, respectivamente o Binhanquerem Na Tchanda e José Monteiro, deram-se ao exercício de acentuar o antagonismo tribal na unidade que dirigiam. Foram decididas as suas transferências, o primeiro para a Embaixada da Guiné-Bissau na então URSS, passando pelo ministério dos Negócios Estrangeiros e o segundo para o ministério do Interior, na eventualidade de seguir para Cuba.
A viagem para Moscovo de Binhanquerem Na Tchanda estaria marcada para a quinta-feira do dia 17 de Outubro de 1985. Alguns dias antes da sua partida, o transferido fora despedir-se do Presidente da República, o qual, certamente grato pelo gesto, ofereceu-lhe dinheiro em moeda americana, o dólar. Na véspera da sua partida, o ex-chefe da casa Civil da Presidência organiza uma festa de despedida com alguns amigos. Alguém, que se julga ser um vizinho, vendo as portas e as janelas da casa do Binhanquerem fechadas e ouvindo vozes no interior, teria informado o Presidente João Bernardo Vieira de que algo de insólito se estava a passar na residência ao lado donde morava. No entender do Presidente poder-se-ia tratar de uma grave conspiração contra ele.
O Presidente telefonaria de antemão a um outro vizinho do Binhanquerem, que não era nenhum outro senão o próprio Paulo Correia, pedindo-lhe que fosse verificar a informação. Paulo Correia confirmaria ao Presidente, pelo telefone, que efectivamente as portas e as janelas da casa em questão estavam encerradas e havia vozes provenientes do interior.
Naquela noite, João Bernardo Vieira, rodeado dos seus guarda-costas, deslocar-se-ia pessoalmente à casa do Binhanquerem, para se inteirar, in locco, da eventual trama que se preparava. “Assegurando-se de que o ambiente da reunião de convívio era apenas festivo e não de conspiração, o Presidente teve, contudo, de explicar o motivo da sua irrupção. Ao ouvi-lo, o major Tué Na Bangha exprimiu a sua admiração por o Presidente se deixar facilmente enredar em mentiras, observando que, se estivesse a preparar um golpe de Estado, não se reuniriam naquelas circunstâncias, e acrescentou não compreender como era possível o Presidente admitir que conspiravam contra ele, depois de tanto tempo e tantos sacrifícios passados juntos.”
Isso não impediu ao Presidente João Bernardo Vieira de dar conhecimento da cena ao ministro do Interior, José Pereira, que por sua vez o teria transmitido ao seu colega das Forças Armadas. Consequência directa deste jogo de xadrez de sentido único, o Binhanquerem Na Tchanda, bem como todos os oficiais que com ele festejavam a sua despedida, foram detidos na Segunda Esquadra da Polícia e submetidos a interrogatórios, pelos oficiais de segurança do ministério do Interior, logo no dia seguinte.
Enquanto as audições decorriam na Segunda Esquadra, João Bernardo Vieira viajou para os EUA com o fim de assistir às comemorações do 40° aniversário da Organização das Nações Unidas. No quadro das suas funções de vice-presidente do Conselho de Estado, e na ausência programada do Presidente da República, cabia a Paulo Correia, assegurar a permanência do cargo durante a sua ausência...
Entretanto, os ministros das Forças Armadas e do Interior resolveram criar uma comissão para inquirir parte dos detidos. Submetidos a insuportáveis torturas, estes tiveram que confessar as acusações que pendiam sobre eles. Tué Na Bangha e Tagme Na Wae teriam sido de tal maneira torturados que, temendo que pudessem morrer, a Comissão de Inquérito transferi-los-ia para a Marinha de Guerra que, pela sua proximidade com o Hospital Militar, oferecia mais condições de evacuação em caso de necessidade.
Naquele mês de Outubro de 1985, Iafai Camará conseguira arrancar dos prisioneiros as confissões desejadas. Em seu poder, exibiria a cassete da gravação dos interrogatórios e gabar-se-ia frente ao Queba Sambú de finalmente possuir provas irrefutáveis que incriminavam o Paulo Correia. Afirmaria ainda ao seu interlocutor de que tinha expressamente substituído os oficiais dos SCIM por elementos do... Supremo Tribunal Militar!
Entretanto, João Bernardo Vieira, depois de ter assistido às comemorações da ONU nos EUA, de regresso à Guiné-Bissau, passou por Lisboa onde permaneceria vários dias na capital portuguesa. Certos jornais classificaram o gesto de “compasso de espera”. Chegado finalmente a Bissau, o seu Vice-Presidente não estava no aeroporto à sua espera como mandava o protocolo, pelo simples motivo de que a ele, tinham ocultado de propósito a chegada de João Bernardo Vieira. Paulo Correia faria tudo para se entrevistar com o Presidente da República, mas a barreira de ferro já se tinha erguido entre eles. Comentando o facto, o ainda ministro da Justiça diria que se encontrava “completamente bloqueado” e que sabia que as intrigas, levadas a cabo
pelos que chamava “rodeantes”, estavam a “bombardear” o João Bernardo Vieira de informações caluniosas sobre ele, ligadas a um pretenso golpe de Estado que teria preparado com os oficiais balantas.
No dia 6 de Novembro de 1985, no fim da tarde, Paulo Correia seria convocado a uma reunião no Secretariado do PAIGC. À sua espera encontravam-se, entre outros, o Presidente da República, Iafai Camará e José Pereira, já sobejamente conhecidos, e Lourenço Gomes, este último Director da Segurança Nacional.
Arquitectou-se então a cena da audição das cassetes onde Paulo Correia era apontado como mentor de mais uma tentativa de golpe de Estado contra o Presidente João Bernardo Vieira. “O ministro da Justiça ouviu-as num profundo silêncio, e no fim, ao ser indagado, por mera formalidade, do que pensava quanto às acusações, respondeu considerá-las produto das actividades do inimigo dentro do Partido e terminou concluindo que o inimigo vencera.”
A ordem de prisão, que durante tanto tempo fora minuciosamente preparada, abateu-se sob os ombros de Paulo Correia que de imediato foi conduzido à Segunda Esquadra, na “Cela Sul”, a mais inospitaleira da prisão. Mais tarde, endereçaria uma carta ao Presidente da República, “alertando-o para o facto de haver quem, com intrigas e fictícios golpes de estado, estava a destruir o Partido.”
“Nino” autorizaria que Paulo Correia fosse retirado da prisão para um regime de residência vigiada. Esbarrar-se-ia aos protestos do seu ministro das Forças Armadas, Iafai Camará, que o induziria a abandonar a ideia sob pena de vir a sofrer pesadas consequências. A exemplo do que se passara com os outros detidos, Paulo Correia seria submetido às piores torturas, por ordens expressas da Comissão de Inquérito, constituída pelos tais “graduados irregulares”, a soldo do coronel Iafai Camará. Queba Sambú julga que “O Presidente Vieira” não teria conhecimento das torturas...”
O autor do livro Ordem para matar – Dos fuzilamentos ao caso das bombas da Embaixada da Guiné, depois deste acontecimento e de mais outros que relatou, pediu que fosse substituído no cargo de Chefe dos SCIM e ser transferido para o estrangeiro. Acabou por integrar o efectivo da Embaixada da Guiné-Bissau em Portugal.
Hoje não é segredo para ninguém de que “Nino” Vieira desprezou o apelo do Papa João Paulo II, virou as costas às organizações internacionais e traiu a confiança das mais diversas entidades nacionais e estrangeiras, que lhe pediram solenemente, em nome da humanidade, para que poupasse a vida dos seis condenados à morte, gesto que poderia, talvez, mudar o curso da história na Guiné. O que o teria levado a exibir tamanha arrogância?
Para começar, fazemos de novo apelo ao Queba Sambú, que no livro já citado, escreve:
“Por um carcereiro e outras fontes, que ainda não posso citar, soube que na prisão, enquanto se aguardava a concessão de clemência, Paulo Correia dizia: ‘ É verdade que estão a fuzilar cidadãos inocentes? Não, não posso admitir que isso seja uma realidade! É incrível que o Presidente se tenha deixado convencer de uma tão incoerente tentativa de golpe de Estado! Ao menos, dêem-nos oportunidade de vermos os nossos filhos pela última vez!”
No entanto, Álvaro Nóbrega, no seu livro intitulado “A luta pelo poder na Guiné-Bissau”[2], revela por sua vez o seguinte :  “Depois soube-se que quando os pedidos de clemência chegaram, os réus já tinham sido fuzilados e enterrados. Segundo a África Continental[3]  foram-no poucas horas depois do termo da reunião do Conselho de Estado.”
Entretanto, no término do delicado exercício de recomposição a que nos entregamos à volta do “Caso 17 de Outubro”, deparamo-nos com uma revelação insólita do jornalista João Carlos Gomes[4], tornada hoje dia, que, em resumo, diz: “ (...)... Baseado nas informações a que o autor desta peça teve acesso, apesar do facto de que Paulo Correia foi condenado à morte pelo Tribunal Militar, conta-se que o então Presidente Nino Vieira ainda não tinha proferido o seu veredicto final, enquanto Primeiro Magistrado da Nação. (...) Aparentemente, o Presidente estava a avaliar, não só, o impacto político-militar da decisão, a nível nacional, mas também, a reacção da comunidade internacional, antes de fazer cumprir a pena de morte. (...) ”
E o jornalista continua:
“Entretanto, segundo as mesmas fontes, alguém na hierarquia governamental decidiu mandar cumprir a sentença. Quando, face às reacções que estava a receber, tanto a nível interno como internacional, o Presidente Nino Vieira voltou a abordar a questão do Paulo Correia com o indivíduo em questão, foi informado de que: “No bibil dja udju” (termo crioulo, utilizado noutros tempos, no seio do PAIGC, como código para, ‘fuzilamento’). (...) ”
Mas o Álvaro Nóbrega volta à carga: “Recentemente tem sido divulgada uma nova explicação para o facto dos seis condenados à pena capital não terem sido poupados. Os pormenores não são muito abundantes em relação a quatro dos fuzilados, mas sobre o Paulo Correia e Viriato Pã, as caras do Golpe, conta-se, segundo o ‘Banobero’ que terão sido brutalmente seviciados após a condenação.”[5]
Eis com efeito, o que o jornal guineense ‘Banobero’ escreve: “Quebraram a bacia do Paulo Correia e este rastejava, na Segunda Esquadra (...) pois não podia caminhar. Ao Viriato Pã ferroaram-lhe os olhos.”[6]
Retomando Álvaro Nóbrega: “ Fisicamente destruídos, estes homens constituiriam, aos olhos de todos, a prova viva da falta de humanismo do regime pelo que se ordenou a sua rápida execução em local que permaneceu secreto até à queda de Nino em 1999, ‘encontrando-se’ por essa data a vala comum com 22 cadáveres; os mortos do processo cujos corpos nunca foram entregues às famílias, nem aos cuidados de um médico legista.”
Quem questiona o culminar do processo, de maneira implacável e fulgurante, é, de novo, o Queba Sambú:  “Teriam sacrificado os outros (...) para que não se dissesse ser ‘o segundo homem’ do País o único alvo político, e dessa maneira tornar mais verosímil a mistificação dos golpes de Estado?”[7]
São questões como estas que devem hoje atravessar a história e erguer-se diante de todos os guineenses, como um espelho que nos envia a nossa própria imagem para nos fazer reflectir profundamente e colectivamente no que fomos no passado, no que somos no presente e no que devemos ser no futuro.
Dever da Memória para que na nossa história não hajam mais vítimas ... nem culpados.

Norberto Tavares de Carvalho, Genève, Outubro de 2008.



[1] Queba Sambú, “Ordem para matar, Dos fuzilamentos ao caso das bombas da Embaixada da Guiné”. Ed.
Referendo, 1989. 
[2] Álvaro Nôbrega, “A luta pelo poder na Guiné-Bissau”. Ed. Inst. Sup. de Ciências Sociais e Políticas, 2003, p.
248.
[3] Africa Continental n° 10, 12 de Agosto de 1986.
[4] João Carlos Gomes, Jornalista guineense acreditado nos EUA, in « Nô djunta Mon”, www.didinho.org.
[5]Álvaro Nôbrega é, entre outros, Mestre em estudos Africanos pelo Instituto Superior de Ciências sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa. Na mesma fonte citada anteriormente.
[6] Banobero n° 92, Bissau, Fevereiro de 2000.
[7] Queba Sambú, idem, p. 158.

Pode ser vista em baixo uma interessante recolha que o Norberto fez no CIDAC sobre as notícias saídas na imprensa portuguesa e guineense sobre o caso

3 de junho de 2011

194-Serviços de Informações nas colónias

Além da PIDE, claro...(para ver em ponto grande carregar X, em baixo à direita)
"Apanhei-o" em EPHEMERA, biblioteca virtual do José Pacheco Pereira. Agradecido.

193- Comunicado Nº 1 das Forças Armadas da Guiné

«Grupos de indivíduos vindos do exterior e que se intitulam libertadores da nossa Guiné pretenderam assaltar, na madrugada de 18, o quartel da unidade esta­cionada em S. Domingos, mas puseram-se em debandada quando pressentidos.
Ao atacarem de novo o mesmo aquartelamento, na madrugada de 21 foram energicamente repelidos, tudo fazendo crer que os assaltantes sofreram baixas. Entre o nosso pessoal registaram-se ferimentos leves num sargento, em três soldados euro­peus, e num soldado natural da província.
Na madrugada de 24 perpetraram actos de vandalismo em Varela, destruindo completamente o mobiliário das casas existentes e cortaram as linhas telefónicas.
No dia seguinte, à noite, perpetraram novos actos de vandalismo em Suzana, onde incendiaram praticamente todos os edifícios de utilidade para a população, tendo destruído com requintes de malvadez todos os medicamentos existentes no edifício da Missão do Sono e destinados ao tratamento da população daquela área.
Destruíram também todas as fichas de tratamentos o que vem dificultando a continuação dos mesmos.
Nas acções de limpeza levadas a cabo por unidades deste comando na área dos assaltos realizaram-se batidas em pormenor e prestou-se auxílio às populações que sempre dispensaram o melhor acolhimento e manifestaram o seu desejo de perma­necer em paz.
O pessoal do serviço de saúde militar que acompanhou as tropas, prestou toda a assistência médica que careciam os doentes daquelas áreas.
Durante estas acções das nossas forças não houve qualquer baixa da nossa parte e não foram em nada molestadas as populações.
Todas as unidades deste comando reprimirão com a maior energia quaisquer outras acções desta natureza que surjam no nosso território.»


Segundo o Governador Comandante Peixoto Correia, que organizou uma manifestação "dos habitantes dos bairros populares de Bissau", estes exprimiram "a sua lealdade à Nação e a sua repulsa pelas incursões". Disse também que os régulos e notáveis da população tinham manifestado "alto sentido patriótico" não aderindo nem pactuando com os "invasores".
Notificou-se que o alferes de 2ª linha Mamadú Sanhá,de Begene, e régulo daquela área, "acompanhado de um grupo de habitantes" se deslocou a Bissau " a fim de solicitarem ao Governador da Província a necessária autorização para desmentir a atoarda divulgada através da emissora do Senegal pelos bandoleiros, que se intitulam nacionalistas, relativa a tumultos que teriam ocorrido na área do seu regulado".
Houve também no Cupelon uma "Juma Saló" (prece islâmica), orando "pelas prosperidades da Pátria e pelo futuro da Guiné, integrado na Nação Portuguesa".
Também em Bolama, Catió, e outros locais, houve manifestações de apoio ao Governador.
Por causa dos ataques ou como prémio pelo amor pátrio manifestado pelos guineenses, não sei, o Ministro do Ultramar publicou novas disposições legislativas, entre as quais a CONCESSÃO DA CIDADANIA A TODOS OS ELEMENTOS DA POPULAÇÃO (finalmente todos portugueses!!).
Houve a 5 de Setembro, por isso, grande manifestação na Praça do Império, em Bissau, reunindo "vários milhares de nativos com as autoridades gentílicas, oficiais de segunda linha e todos os elementos mais destacados da cidade, tanto metropolitanos como ultramarinos, vindos de todos os sectores da vida da Província".
 Falaram vários oradores sendo o primeiro o sr. Luís Ledo Pontes, natural de Bolama, que entre outras coisas disse:
«A Nação Portuguesa, desde as lonjuras da sua fundação, obedeceu ao caldeamento dos povos e isso serviu maravilhosamente de lição nas epopeias da Índia e no levantamento da África. A permanente insistência de estranhos, acalentando sórdidas ambições, em comentar e torturar as raízes fundas que nos entrelaçam, fundindo uma só Nação, está bem revelada nas características étni­cas de cada um de nós - os presentes - digamos bem alto! de todos os portu­gueses ultramarinos."
E a terminar: - “Portugueses de todas as raças e cores! Nunca é demais, prin­cipalmente em hora critica a que atentamente assistimos, repetirmos o nosso portu­guesismo, dispondo-nos à custa de todos os sacrifícios lutar em defesa da nossa posição na História Universal, da nossa civilização cristã e do nosso excelso patri­mónio nacional, para continuidade da imensa família portuguesa…”
Usou, depois, da palavra a menina Maria Odete Davies, aluna do 7.º ano do Liceu Honório Barreto, e por último a Sr.ª D. Alexandra Ribeiro Neves, natural de Cabo Verde, que recitou um patriótico poema da sua autoria.
Todos os oradores foram muito ovacionados e interrompidos com muitos vivas a Portugal. 
Também o Ministro do Exército, o brigadeiro Mário Silva, acorreu. Chegou a Bissau em 9 de Agosto e foi visitar S. Domingos juntamente com o Comandante Militar.

Extraído de Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XVI, nº 64, Outubro de 1961

Nota: Apesar de oficialmente a luta armada na Guiné ter começado em 1963, este foi o primeiro ataque do PAIGC (Abbott & Rodrigues, 1998). Segundo o "Crisis Group Africa Report N°142, 2 July 2007", Amílcar Cabral anunciou em 3 de Agosto de 1961 que o PAIGC tinha já começado as suas acções militares. Na altura havia só duas companhias de Infantaria na Guiné (Morris, 1974)



2 de junho de 2011

193-Mulheres da Guiné


Pescadora Papel – BIOMBO
Foto Lisboa
Campune “Bijagó”  Ilha do Uno – Foto Lisboa
Bajuda Mandinga – FARIM – Foto Lisboa
Mãe Fula -GABÚ – Foto Cliché A.B. Geraldo
Bajuda, “balanta” no Arrozal  MANSÕA – Foto Lisboa



Rapariga e o Poilão
MANJACA DE PECIXE – Foto Cliché A.B. Geraldo



Vaqueira Manjaca
PECIXE  - Foto Cliché A.B. Geraldo
Extraídas do blogue http://luisdematos.blog.com/, com a devida vénia

192-Bubaque

191-A PIDE andava por lá

Os primeiros-sargentos, da anterior e da actual, já estavam a falar ao pé da secretaria. Esta tinha uma sala com duas secretárias e um cubículo anexo onde era a casa de banho. A outra casa tinha dois quartos e uma casa de banho também. Nas traseiras das duas, um pequeno descampado, separado de umas palhotas com arame farpado.
“Neste quarto aqui fico eu”, disse o capitão, “Naquele ficam vocês os dois.”
 A casa não tinham janelas, só portas com uma paliçada em frente.
“É para não entrar nada pelas janelas, sabe-se lá…”, explicou o Braga, e convidou, depois de arrumadas as coisas de cada um:
“Vamos ali ao bar beber um copo.”
Já tardava. Disto é que ele sabia muito, era perito. E aprendi muito com ele, é verdade. Aos fins-de-semana, depois da instrução da companhia, dava-me boleia até Lisboa no seu Alfa Romeo e tive grandes noitadas na Cave, no Comodoro, na Taverna Imperial, bebidas, mulheres…e eu disso sabia pouco ou nada… no seminário não dava, e depois cá fora também não deu.
O bar ficava por trás daquelas casas, era uma barraquita muito pequena coberta de chapa, com um balcãozito que só dava para três.
“Não está cá ninguém. O barista da outra companhia deve estar a preparar-se para ir embora, mas isto agora é nosso. Os primeiros-sargentos estão a tratar. Whisky simples ou com água?”
“Com água”, disseram os alferes.
“Então estão aqui as perriers, é melhor que a castelo.”
Ficaram a conhecer as garrafinhas verdes da  água perrier. O capitão foi bebendo e falando.
“Quando chegarem os dos destacamentos estes gajos vão-se embora. Temos de montar guardas lá em cima no quartel e aqui em baixo. O primeiro-sargento há-de fazer as escalas. Você, Aiveca, amanhã vai comigo até à sede do batalhão, tenho de falar com o tenente-coronel.”
“Tá bem, vou avisar os furriéis”
“Não é preciso, é aqui a trinta quilómetros.”
“Sozinhos?!”
“Não há problemas, vamos só nós.”
Este sacana quando bebe passa-se dos carretos, pensei eu, mas não disse nada. Fomos, depois, para os quartos.
“Belas camas”, e assentei-me.
“ É como as mulheres, quando estamos à rasca qualquer uma serve”, e o Zé Pedro esticou-se ao comprido.
“Não é bem assim.”
“ Ai não, não é, ó filho, não percebes nada.”
“Talvez não.”
“ Mas ouve lá, vocês são malucos, irem-se meter por aí sozinhos, é arriscado.”
“O que é que queres, o gajo é que manda". Virei-me para o lado, não deu para mais conversa. O cansaço e o whisky venceram.
Parecia-me que tinha acabado de me deitar, que ainda era noite. Mas não, já era dia quando a porta se abriu e o capitão nos acordou.
“Temos de ir embora, Aiveca. Zé Pedro, você fica a mandar nisto, vá ver se está tudo bem no quartel e se o primeiro pôs a secretaria a funcionar, veja se está tudo nos conformes e a andar. Nós só voltamos depois do almoço.”
Já estava um jipe pronto, entrámos nele, cada um com a sua G3. O Braga foi a conduzir, passámos por um grupo de palhotas e metêmo-nos à estrada. Não se podia chamar tal, era uma picada muito má, a paisagem já não era novidade, árvores e erva muito alta à volta. A viatura ia aos solavancos.
“Ó capitão, ainda não percebi porque é que fui eu que fiquei na sede da companhia e não o Aprígio ou o Castro, acho que eles são mais capazes do que eu para aquilo.”
“É pá, para o que eu quero e é preciso não são, não é nenhum deles. O Castro é um bocado emproado e senhor do seu nariz, tenho receio que disparate coisas que eu não quero, o Aprígio é demasiado calmo, um bocado mosca morta, também não dá.”
“Mas eu não sou muito diferente deles, em certos aspectos.”
“É pá, mas eu já te conheço bem, deu para isso nas nossas andanças pelos bares de Lisboa… és um bocado nabo com as mulheres, mas isso para aqui não interessa nada. Eu tenho de ter alguém em que possa confiar plenamente para me dar segurança.”
“Mas eu acho que quer o Aprígio quer o Castro são seguros e não vão borrar nada.”
“Talvez, mas é em ti que eu tenho mais confiança.”
Foi uma viagem de poeira e buracos mas chegámos, sem problemas, de facto. Em ponto pequeno, mas parecia uma cidade. Fomos dar uma volta, tinha um mercado de paredes castanho avermelhado, algumas casas tipo colonial, outras normais, branco escuro do pó e da soalheira, um complexo com piscina e vista sobre o rio. Não era Lisboa, nada que se parecesse, muitíssimo longe, mas não desgostei. Bom para quem só tinha visto água e mato nos últimos dias.
“Só daqui a meia hora é que tenho que ir falar com o comandante do batalhão, agora vamos ver um amigo que tenho aqui.”
Entrámos num restaurante pequeno.
“Olha o Braga”, exclamou um sujeito pro-gordo e careca que estava atrás do balcão.
“Cá estou de novo, grande Coelho”, e o capitão abraçou-se a ele.
“Outra vez?”
“É, mas agora é diferente, venho comandar uma companhia, este aqui é um dos alferes.”
“Ah, tá bem. Vão uns camarõezitos?”
“Venham eles. O Alberto anda por aí? Queria falar com ele”
“Tá aí, tá. Ó Mamadu”, virou-se para um preto que estava lá,” vai dizer ao senhor Alberto que está aqui o capitão Braga e quer falar com ele”.
“Sim, patrão”.
Apareceu depois um tipo baixo, de bigode e cabelo preto, cara de poucos amigos. Ar um bocado soturno, pareceu-me. Sorriu para o capitão e cumprimentaram-se.
“De novo?”
“Mas não é a mesma coisa”, repetiu o Braga.
“Eu sei”, disse o Alberto e juntou-se nos camarões e na cerveja.
Depois de um copo, lançou, com ar sacaninha:
“O Coelho só tem um tomate, tiveram que lhe cortar um”.
“Tive uma merda qualquer, teve de ser. Mas o meu nome diz tudo, pá, continuo em acção. Nenhuma se queixa, nem a minha mulher”.
Virou a cabeça para trás, um bocado atrapalhado, para ver se estava a mulher ao balcão. E estava, tinha vindo para ver os visitantes. Era baixa, um pouco cheia, de cabelos alourados, cara bonita. Viu-se que pensou alguma coisa, mas não disse nada.
“Olá D. Ester”, cumprimentou o Braga.
“Olá, por cá?”
“É verdade, tem de ser”.
Passou algum tempo e estava quase na meia hora.
“Tenho de ir, depois volto cá para almoçar. O alferes Aiveca fica aqui à minha espera, a não ser que queira ir dar uma volta”.
“Não, já vi o que era de ver”.
“Eu não me vou demorar, com certeza”.
“Eu vou também. O tenente-coronel disse-me que vinhas e pediu-me para ir contigo”.
“Bora, então, Alberto”.
E eu fiquei, agarrado ainda aos camarões e a uma imperial. Estava intrigado sobre quem seria aquele gajo. Não estava fardado… não compreendia por que é que ia também à reunião com o Braga. O Coelho tinha ido para o pé da D. Ester, conversavam baixo. Parecia explicar qualquer coisa, mas ela dava ar de não compreender, cara cerrada, acabou por se ir embora. Ele voltou para a mesa.
“Os camarões estão bons?”
“Muito bons”.
Agarrou-se também a um bicho e deu-lhe para falar.
“Aquele Alberto é um brincalhão, mas tem sido um elemento muito importante contra os turras”.
“De que companhia é ele?”
“Ele não é militar, é o homem da Pide aqui na zona”.
De camarão em riste, olhei para o Coelho.
“O gajo espreme-lhes os tomates, salvo seja, até eles bufarem tudo cá para fora. Limpou o sebo a muitos que não disseram nada”.
Consegui tragar o bicho mas tive de beber meio copo para não me engasgar.
“Tem de ser, senão estes gajos fodiam-nos a todos. Você até tem sorte porque esta zona está mais ou menos bem, noutros sítios é que está mau, além de que aqui é zona dos fulas. Estão connosco, e o seu capitão já conhece isto, já esteve cá antes”.
“Já?”, manifestei-me surpreso, embora já tivesse percebido isso pelas conversas anteriores
“Esteve aqui na polícia há uns anos”.
Uns pretos assomaram à porta.
“Senhor Coelho, patrão, dá licença?”
“Tenho que ir ver o que é que estes nharros[1] querem. O que é, ó pá?”
Mergulhei na cerveja. Este sacana só me disse que tinha estado na polícia em Lisboa, quando era tenente. Que foi mobilizado depois de ser promovido a capitão. Que lhe tinham dito primeiro que ia para Timor, mas que o tinham fodido quando lhe disseram que, afinal, ia para a Guiné. Nunca me disse que já tinha cá estado. Devia estar mesmo fodido, acredito. A situação não é a mesma quando era polícia… e está explicado este à vontade com os pides.
O Braga e o Alberto acabaram por regressar. Era hora de almoço, e a D. Ester já tinha preparado um belo frango de chabéu, uma delícia que, regado com vinho branco fresquinho, eu nunca tinha provado.
“Muito bom!”, exclamei.
“Aqui há pratos bestiais”, disse o capitão, “e a mulher do Coelho é boa cozinheira, havemos de vir cá mais vezes”.
A conversa foi trivial, entre risos e piadas, mulheres, caju, mancarra, bebidas. A D. Ester, ocupada no balcão, não ouvia nada, ou fazia que. Só o Coelho é que derivou, a certa altura.
“Então como estão as coisas?”
O pide e o capitão trocaram olhares e este disse que estava tudo sob controlo.
Novamente no jipe de regresso à companhia, o capitão abriu-se.
“Temos que nos pôr a pau. Os gajos andam lá na nossa zona.”
Até me admirava se não andassem. Estava nas minhas previsões.


[1] Nome depreciativo dado aos pretos

1 de junho de 2011

190-A baga-baga

Quem pela primeira vez pisa a escaldante terra africana; Quem pelas suas digressões pelo «mato» se apercebe da cambiante duma paisagem como a da Guiné portuguesa, que os menos avisados classificam de monótona; Quem pelos seus inte­resses humanos se fixa na evolução que a paisagem sofre pela acção cul­tural do Homem. - Vê aqui e além, espaçados ou agrupados, erguerem-se acima do solo montículos de forma estranha , que não são obra de gente, de planta ou de pedra; - são obra de animal.
Esse animal, é o «senhor da terra»… africana. A ele paga o Homem pesado tributo em géneros e em habitação: as térmites aparecem destruindo a cultura no campo, o produto no armazém, a madeira na casa. Os tecidos lenhosos, vivos ou mortos, são o seu alimento predilecto. Para os alcançar e cava túneis, constrói galerias, arquitecta ninhos. Adapta as suas necessidades à paisagem. Subordina a paisagem às suas necess­idades.
As termiteiras em catedral (baga-baga vermelha) do tipo Macrotermes spp., erguem-se majestosas nas suas perspectivas de gigante, nas florestas, na savana, no campo de cultura. Sobrepassam as culturas anuais, espreitam através dos arvoredos cerrados, e, à compita, elevam ao céu a mesma prece que o cibe ou a palmeira do chabéu: Sou vida...
Rastejam em colónias graciosas , emprestando uma beleza subtil às paisagens cinzeladas do Boé e Nhampassaré e aos solos quase enxutos de seiva criadora, as termiteiras em cogumelo da (baga-baga preta), do tipo Cubitermes spp.. Às- dezenas, às centenas, aconchegadas na amplidão das crostas ferruginosas donde emergem, banhando-se dum pleno sol sob a protecção dos seus chapéus dum cinzento suave, parecem reclamar a protecção do céu, gritando na sua humildade: - Nós!... Somos tam­bém vida.
Quem se detiver e contemplar atento tão vastas áreas degradadas terá ocasião de meditar: - Sois vida! Mas também sois morte?!
[sublinhados meus]



 
 
 








in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XIV, nº 56, Outubro de 1959

31 de maio de 2011

189-Os "portugueses" segundo o censo feito à "população civilizada" da Guiné Portuguesa em 1950

Baseado no censo à "população civilizada" realizado em 1950, o artigo de António Carreira publicado no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa (Volume XIV, nº 56 de Outubro 1959) é interessante para avaliar, mais uma vez, se os guineenses eram, na sua generalidade, considerados "portugueses".

Isto é, dos 510.777 habitantes que a Guiné tinha na altura  (segundo dados da Delegação da UE em Bissau), só 4.644 (Varões e Fêmeas) é que eram civilizados e, portanto, portugueses.
Na mesma óptica, refere ele, na página 550, que: «Só os naturais da Guiné expressam mais de 58,3% da população nacional [o sublinhado é meu], seguindo-se Cabo Verde com 21,4%, a Metrópole com 18,8% e as outras províncias com 1,3%».
Mais à frente:
Eram estes os "portugueses" nestas circunscrições. E refere que os libaneses representam cerca de 81,1% da população estrangeira. Já não eram muitos no meu tempo, mas sei que era assim. Tem outros quadros depois com o número de "portugueses" nas principais localidades de cada circunscrição. Refiro só as que, anos mais tarde, conheci:
- em Geba havia 8 (V e F) e em Barro havia 19 (V e F).
Significou que, nesta estatística de «civilizados», não contaram os muitos milhares de habitantes das inúmeras tabancas do mato. Esses não eram «civilizados», não eram considerados "portugueses".
Não eram preconceitos de António Carreira. Era a ideia oficial dos governantes das colónias, embora lhes chamassem já províncias.
Aliás, a certa altura, diz o autor do artigo: «Arrependi-me de fazer esta enumeração de problemas porque o leitor da Guiné, depois de a ler, dirá logo ao primeiro amigo que tudo isso é desnecessário (se não disser qualquer nome feio) porque sempre se viveu sem saber das condições de vida do preto e a Guiné progrediu sem isso e até porque desses inquéritos não resultará aumento de volume de negócios ou de riqueza material.»
E os problemas por ele levantados foram estes:
- saber dos movimentos migratórios da principal riqueza da Guiné, o seu nativo:
- o êxodo das populações rurais sobre as concentrações urbanas de tipo civilizado;
- a falta de trabalho ou de ocupação ou actividades dos destribalizados;
- as condições de vida dos aglomerados populacionais das zonas suburbanas;
- a prostituição;
- a influência do islamismo sobre as populações animistas;
- as dietas e orçamentos domésticos das populações rurais e suas condições de habitação;
- as possíveis influências das tributações na vida económica e social;
- etc, etc
Claro que nada disto importava a quem apenas queria explorar o que desse dinheiro na colónia.
Finalmente, para se ter uma ideia do grau de «civilização» dos inquiridos no censo:



188-Francisco da Costa Gomes, Subsecretário do Exército. Para a História.

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XIV, nº  56, Outubro 1959


187-Símbolos, ritualistas e ritualismos ânimo-feiticistas na Guiné

(Para ver em ponto grande carregar em X, em baixo à direita) 
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António Carreira 
in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XVI, nº 63, Julho 1961