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29 de junho de 2011

208-Amílcar Cabral (1924-1973). Vida e morte de um revolucionário africano

Professor Doutor Julião Soares Sousa
(foto: Luís Graça)
...é mesmo ele e não o Helder Proença. Aqui vai para reparar o meu erro:

115º Jantar de Amizade UNICEPE

Sexta-feira, 1 de julho de 2011, 19h45m

Amílcar Cabral (1924-1973) - Vida e morte de um revolucionário africano, livro do Professor Doutor Julião Soares Sousa“resultado de uma longa investigação para o doutoramento concluído na Universidade de Coimbra”,
será apresentado pelo Professor Doutor Armando Teixeira Carneiro, Director do ISCIA – Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração, de Aveiro
Momento musical pelo grupo CANTUS DO RIO. 30 a 40 minutos com a guitarra portuguesa (Luís Marques), guitarra clássica (Paulo Larguesa) e uma voz (António Dinis), onde serão invocados José Afonso/ Adriano Correia de Oliveira/ António Portugal/ Artur Paredes/ Carlos Paredes/ Francisco Martins/ Rui Pato/ Manuel Alegre entre outros...
Ementa: Água, sopa de legumes, bacalhau com espinafres, vinho maduro tinto Dão Quinta de Roriz, semi-frio de maracujá, café, vinho do Porto Poças. Preço: 15,00 €
Inscrições para unicepe@net.novis.pt 
ou 22 205 66 60
Traz outro amigo também!
(Após o jantar, cerca das 21h30, entrada livre)
JULIÃO SOARES SOUSA é natural de Bula (Rep. Guiné-Bissau). Filho de Soares Sousa e de Amélia Mendonça, licenciou-se em História pela Univ. de Coimbra em 1991. Concluiu o Mestrado em 1996, com a classificação máxima de MUITO BOM, e doutoramento na mesma Universidade em 2008, com Distinção e Louvor por unanimidade. É o primeiro guineense Mestre e Doutorado pela Universidade de Coimbra.
É Investigador no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra e Professor Convidado no Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração (Aveiro), onde lecciona a cadeira Cultura e Conflito, do Mestrado em Segurança Defesa e Resolução de Conflitos e da Pós-Graduação em Criminologia.
Tem proferido várias conferências em Portugal e no estrangeiro (Brasil, Dinamarca, França, Hungria, Espanha, Cabo Verde, Guiné-Bissau. Entre algumas das suas publicações destacam-se:
1) Amílcar Cabral (1924-1973). Vida e morte de um revolucionário africano.
2) “Os movimentos unitários anticolonialistas (1954-1960). O contributo de Amílcar Cabral”, in Estudos do Século XX, 3, Coimbra, 2003;
3) Um Novo Amanhecer, Coimbra, Minerva, 1996.
4) “Amílcar Cabral: do envolvimento na luta antifascista à manifestações de tendência autonomista no Portugal do pós-Guerra (1945-1957)”, In Cabral no cruzamento de épocas. Comunicações e discursos produzidos no II Simpósio Internacional Amílcar Cabral realizado na Cidade da Praia, 9 –12 de Setembro de 2004, Praia, Alfa Comunicações, 2005;
5) “O fenómeno tribal, o tribalismo e a construção da identidade nacional no discurso de Amílcar Cabral”, In Comunidades Imaginadas. Nação de nacionalismo em África, Coord. Luís Reis Torgal, Fernando Pimenta e Julião Soares Sousa. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2008;
6) "MPLA: da Fundação ao Reconhecimento por parte da OUA", Latitudes, Cahiers Lusophones, nº 28, 2006;
7) “Amílcar Cabral: um contemporâneo de Francisco José Tenreiro no Portugal dos anos 40/50”, in Francisco José Tenreiro: As múltiplas faces de um intelectual, Coord: Inocência Mata, Lisboa, Edições Colibri, 2010.
8) As associações protonacionalistas guineenses durante a I República: o caso da Liga Guineenses e do Centro Escolar Republicano (no Prelo, Mindelo – Cabo Verde)
9) A cisão sino-soviética e suas implicações nos movimentos de libertação em África (no prelo, Universidade da Beira Interior).

27 de junho de 2011

207-Víctor Emilio Dreke Cruz, os cubanos na Guiné

Coronel Víctor Emilio Dreke Cruz
Com Che Guevara no Congo, em 1965. É o primeiro à esquerda,
Nasceu em 10 de Março de 1937. Em 1952, aos 15 anos, portanto, quando estava na High School José Martijuntou-se a um grupo contra o golpe militar de Fulgencio Batista. Foi, depois, para a Sierra Maestra juntar-se a Fidel Castro e Che Guevara. Participou em acções armadas contra as forças do governo de Fulgencio Batista em Placetas, Báez, Manicaragua e Santa Clara. Em abril de 1961 tomou parte na luta contra a invasão da Baía dos Porcos, tendo aí sido ferido.
Em abril de 1965, o Comandante Dreke foi adjunto directo de Che Guevara, quando este esteve na República Democrática do Congo (o ano em que esteve em parte nenhuma...). Guevara escreveu sobre Dreke em seu relatório a Fidel Castro: "Ele era um dos pilares em que confiei A única razão por que não o recomendo para promoção é que ele já detém o posto mais alto". A missão terminou em novembro de 1965. Liderou, depois, uma unidade militar em Cuba que preparava voluntários internacionalistas.
Em 1966 chefiou a missão militar cubana para a Guiné. Ele próprio esteve lá até 1968, inclusive.  Segundo Luís Cabral diz na "Crónica da Libertação" esteve no norte, juntamente com um outro oficial cubano de nome Pina. Foi depois para a Guiné-Conakry com a mesma missão. Já depois da independência, voltou à Guiné-Bissau em 1986, numa missão militar também, até 1989.
Segundo o jornal Granma Internacional, de 12 de Março de 2003, foram estes os cubanos que morreram na Guiné durante a guerra: tenente Raúl Pérez Abad, Raúl Mestres Infante, Miguel A. Zerquera Palacio, Pedro Casimiro Llopins, Radamé Sánchez Begerano, Eduardo Solís Renté, Felix Barriento Laporte, Radamés Despaigne Robert e Edilberto González. 
 

26 de junho de 2011

206-Porque assassinaram Helder Proença?



Ainda novo, partiu para a guerrilha nos anos 70 abandonando os estudos. Retomou-os após o 25 de Abril. Teve responsabilidades no sector da educação na região de Bolama e foi professor de História. Trabalhou como quadro no Ministério da Cultura da Guiné-Bissau, foi deputado na Assembleia Nacional Popular e membro do Comité Central do PAIGC. Foi Ministro da Defesa de Nino Vieira.
Além do seu empenhamento político, Helder Proença foi também uma figura da literatura da Guiné-Bissau. Poemas mais conhecidos: este “Quando te propus”, “Nas noites de n’Djimpol”, “Ode a Abomey”, Badjuda n’a”, “Canto a Sundiata”. Com 26 anos publicou, em 1982, o livro de poemas “Não Posso Adiar a Palavra”[1]. Já tinha sido, em 1977, co-organizador e prefaciador da primeira antologia poética do seu país: “Mantenhas Para Quem Luta”[2].


“Quando te propus
um amanhecer diferente
a terra ainda fervia em lavas
e os homens ainda eram bestas ferozes

Quando te propus
a conquista do futuro
vazias eram as mãos

negras como breu o silêncio da resposta

Quando te propus
o acumular de forças
o sangue nómada e igual
coagulava em todos os cárceres
            em toda a terra
            e em todos os homens

Quando te propus
um amanhecer diferente, amor
a eternidade voraz das nossas dores
era igual a «Deus Pai todo poderoso criador dos céus e da terra»

Quando te propus
olhos secos, pés na terra, e convicção firme
surdos eram os céus e a terra
receptivos as balas e punhais
            as amaldiçoavam cada existência nossa

Quando te propus
abraçar a história, amor
tantas foram as esperanças comidas
insondável a fé forjada
            no extenso breu de canto e morte

Foi assim que te propus
no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu
o hastear eterno do nosso sangue
para um amanhecer diferente!”


«2009-06-05

Bissau, 05 Jun (Lusa) -- O antigo ministro da Defesa da Guiné-Bissau Hélder Proença foi hoje morto a tiro na estrada entre Bula, norte do país, e Bissau, disse à agência Lusa fonte hospitalar.
Segundo a mesma fonte, o corpo de Hélder Proença entrou na morgue do hospital Nacional Simão Mendes ao início da manhã de hoje.
Além de Hélder de Proença, foram também abatidos o motorista e um segurança, acrescentou a fonte.»»»
«Na Guiné Bissau fontes dos serviços secretos indicaram que as forças de segurança mataram um candidato presidencial que afirmam estava envolvido numa tentativa de golpe de Estado.
Uma declaração divulgada pelo serviço de Informação refere que a polícia matou o candidato Baciro Dabó e o antigo ministro da Defesa, Helder Proença.
(…)
Segundo estas fontes, Proença estaria a planear um golpe de estado com Dabó e outras individualidades, e o antigo ministro foi morto quando resistiu à detenção.» http://www.voanews.com/portuguese/news/a-38-2009-06-05-voa1-92246574.html


...E mataram o poeta político no mesmo dia em que mataram o político militar Dabó (ver aqui). Da forma cruel e arbitrária, não já estranha porque tem sido comum na Guiné-Bissau.
Diz quem sabe que o envolveram numa teia de suspeições entre António N'djai e Zamora Induta, este próximo de Carlos Gomes Júnior, por sua vez inimigo de Helder e de Nino. Os serviços secretos terão feito correr falsas informações sobre tensões existentes nos quartéis e no próprio Estado Maior, com um pretenso golpe em preparação, convencendo o Helder Proença que ele podia ser elemento importante para a solução do problema. Todos sabiam que ele não apoiava o governo de Carlos Gomes nem Zamora Induta.
Ele, que já apontara a N'djai que Carlos Gomes e Zamora tinham sido os mandantes dos assassinatos de Nino e Tagma, acreditou no suposto golpe em preparação. 
Na noite de quinta-feira, 4 de Junho de 2009, quando atravessou a fronteira vindo de Ziguinchor, com o seu motorista Lamine, senegalês, viu facilitada a sua entrada, apesar da fronteira estar fechada (foram os serviços secretos que facilitaram...), e foi recebido por um grupo de militares, que se disseram "descontentes", e que se propuseram levá-lo a António N'djai, de quem eram apoiantes. Conduziram-no primeiro a sua casa e depois à base aérea de Bissalanca. Foi com o seu motorista e um amigo que o quis acompanhar. Para sua surpresa foi Zamora Induta que lá encontrou. Eram 23h30. Apercebeu-se da cilada, mas já era tarde.
Foi humilhado e espancado por Zamora, que depois ordenou que o matassem. E foi assassinado uma hora mais tarde em Braia, ponta de Augusto Dama, entre João Landim e Bula. Mataram também o seu condutor Lamine e o amigo que o acompanhara.
Assassinato selectivo ou limpeza política?
O comunicado do Ministério do Interior sobre os acontecimentos denunciava uma alegada tentativa de golpe de estado, justificando as mortes registadas com alegadas resistências no momento da prisão dos implicados. Ora, nenhum militar foi preso, nem mencionado como parte da conspiração, o que causa sérias dúvidas quanto à versão governamental dos acontecimentos. As fontes conhecedoras da vida e história política nacional garantem que "Bassiro Dabó e Hélder Proença jamais se juntariam em qualquer projecto", nem político, nem económico, por divergências antigas e bem alicerçadas. Aliás, em 2006, Bassiro Dabó, então Secretário de Estado no Ministério do Interior, havia acusado Hélder Proença e Tagmé Na Waie de estarem a preparar uma conspiração para derrubar o presidente Nino.
Conclui-se então que esta operação dos militares visava tão apenas assassinar algumas personalidades que inquietavam, tanto mais que pouparam a vida a Faustino Imbali (também preso pelos militares nesse 5 de Junho, sociólogo de 52 anos, foi primeiro-ministro de Kumba Yalá de Março a Dezembro de 2001), gesto por muitos comentado como expressão do pacto de Nhinte (Nhinte é uma tabanca na Guiné onde os Balantas se terão reunido e decidido que "Os Balantas não morrem").

O assassinato de Hélder Proença tinha sido concebido, inicialmente como uma operação de gangster: "começa com um rapto, seguido de homicídio, com balas alvejando certeiramente o coração dos três homens no flanco esquerdo, o que desacredita a tese de resistência e troca de tiros". Depois, os corpos das vítimas são abandonados na estrada, sendo isso prova de amadorismo, crueldade e de falta de respeito à dignidade humana, mas, sobretudo, expressão de que ninguém teria de prestar contas pelo ocorrido. Alguns minutos depois, "o corpo é recuperado pelos malfeitores que o foram deitar num contentor de lixo, no Hospital Central de Bissau". 



Como se pode conceber uma actuação destas por parte de uma instituição do Estado, de uma organização responsável? Como é que o Governo pode endossar a responsabilidade não só do assassinato mas também do vexame a que foram submetidos os restos mortais destes cidadãos? Como disseram alguns círculos diplomáticos, as forças armadas guineenses tornaram num perigoso bando de malfeitores: gangsters.
Os militares e o Governo enfrentaram dificuldades para justificar estes acontecimentos. Falaram de uma gravação, mas não se apressaram a difundi-la através dos órgãos de comunicação. Quiseram o apoio dos serviços do Ministério do Interior, alegando que foram estes que solicitaram a intervenção dos militares, mas o DG da segurança recusou esta tese e recusou-se a assinar o comunicado preparado pelos militares, razão por que foi detido.
Mesmo admitindo a tese de Golpe de Estado, muitas dúvidas ficam por esclarecer: qual era o grau de preparação? O perigo era assim eminente? Que forças estavam envolvidas (militares, bem entendido)? E porque é que nenhum militar foi preso? Porque é que as pessoas foram abatidas se já estavam detidas? Todas estas questões conduzem à conclusão de que não houve tentativa de golpe e nem foi essa a razão dos assassinatos. Houve, sim, um ajuste de contas e uma operação de limpeza política.
O assassinato dos dois ex-ministros e eminentes personalidades políticas suscitou tristeza e muita indignação, senão mesmo revolta na sociedade guineense.
Mortes injustificadas, dizem alguns, e limpeza política, dizem outros. Uma multidão inesperada acorreu à pequena morgue da capital para prestar homenagem às vítimas daquilo a que eles agora chamam de “esquadrão da morte”. Quer Hélder Proença quer Bassiro Dabó eram personalidades de proa e muito populares, não só como políticos mas também como destacadas figuras do mundo cultural, poeta e músico, respectivamente. 
Quando muitos guineenses julgavam que as matanças haviam terminado com o desaparecimento de Nino Vieira, os factos infelizmente confirmaram que a violência política faz parte da idiossincrasia guineense, lembrando o assassinato de Amílcar Cabral, Honório Sanchez Vaz, Cesário Carvalho de Alvarenga, Paulo Dias, Momo Turé, José Francisco, Osvaldo Vieira, Paulo Correia, Viriato Pam, Ansumane Mané, Veríssimo Seabra e tantos outros actores importantes da vida política guineense.
Há porém uma constante: o papel dos homens em farda, que se transformaram em verdadeiros assassinos em série. Impotentes perante esta situação, cresceu a legião de guineenses que reclamaram a ida de uma força internacional, para evitar o completo afundamento do Estado guineense.
Mas estão agora lá os angolanos para reformar o exército guineense. Chegará?

[1] Sá da Costa
[2] Edição do Conselho Nacional de Cultura da Guiné-Bissau.

23 de junho de 2011

205-A mais velha aliança do mundo, os "amigos ingleses" e a Guiné

O casamento de D. João I com Filipa de Lencastre, em 1383, marcou o início da mais antiga aliança diplomática entre dois países, actualmente ainda em vigor.
Foram sempre uns "amigos de Peniche" (porquê a carga negativa desta expressão, se até tenho bons amigos em Peniche?...). Já sabemos. Mas vejam como foi na Guiné.


Os ingleses sabiam das dificuldades que os portugueses tinham em ocupar aquele território e dominar os seus povos, e o seu espírito de rapina estava sempre activo. Dominavam já a Serra Leoa[1] desde o século XVII, mas o território logo a seguir[2] (a actual República da Guiné ou Guiné.Conakry), a norte, antes da Guiné Portuguesa, era do interesse dos franceses, também empenhados em ocupar o Senegal[3], mais acima, e até uma parte dos portugueses, a Casamansa. Era, pois, a Guiné dos portugueses que os “amigos” ingleses viam ser mais fácil de apanhar.
Em 10 de Maio de 1792, os capitães da marinha inglesa Philip Beaver e  Dalryrnple desembarcaram em Bolama com 570 pessoas, 275 delas eram colonos para ali se instalarem. E montaram, de facto, a colónia na Ponta Oeste. Mas não estiveram lá muito tempo. No ano seguinte grande parte deles foram dizimados pala malária, de tal modo que os poucos colonos ingleses ainda sobreviventes exigiram o seu repatriamento ao capitão Beaver, tendo este regressado com esses poucos a Inglaterra em 29 de Outubro de 1793.
Mas não desistiram. A pretexto dessa “colonização” de Beaver, voltaram a ocupar Bolama em 1814 e 1827, tendo, neste ano, Sir Neil Campbell, Governador das possessões inglesas da África Ocidental, imposto aos régulos de Bolola e Guinala, no Rio Grande, um tratado de cedência de Guinala e Bolama, bem como as respectivas ilhas adjacentes. Nestas andanças, uma fragata inglesa chegou a atacar perto de Bissau, em 26 de Novembro de 1821, a escuna portuguesa “Conde de Vila Flor”, deixando-a inoperacional no canal do Geba.
Em 11 de Junho de 1828, o 1º tenente Francisco Muacho, Governador de Bissau, obteve do régulo Damião de Canhabaque e do régulo Damião dos beafadas que permitissem apenas aos portugueses o estabelecimento em Bolama. A 20 de Abril de 1830 também o coronel das Milícias, Joaquim António de Matos, consegue desses régulos a construção de um posto militar em Bolama e a cedência da ilha das Galinhas, que é incorporada na coroa a 14 de Janeiro de 1831.
Mas o Governo inglês reclama oficialmente a posse de Bolama em 5 de Março de 1834. Também oficialmente, a 26 de Novembro desse ano, o Governo português recusa essa posse. E a Guiné passou, em 1835, a ser um distrito destacado da Província de Cabo Verde, cujo Governador Geral passou a ter sobre ele todos os poderes civis e militares.
E o Governador da Província queixou-se ao Governo português, em 5 de Novembro de 1836, que os estrangeiros não nos respeitavam, andando navios franceses e ingleses à coca para ver se tomavam Bolama, Bissau e a Casamansa, evidentemente combinados para repartirem entre si “o que nos pertencia”.
E tinha razão. Relativamente a Bolama, os ingleses não se coibiam, de facto. Em 9 de Dezembro de 1838, o tenente Keller desembarcou em Bolama com o brigue inglês “Brisk”, substituiu a bandeira portuguesa pela inglesa e tomou posse da ilha, declarando-a propriedade inglesa. Fez mais: destruiu todas as armas que havia no destacamento português lá existente e a feitoria Nozolini. Zarpou depois levando mais de 200 escravos.
Foi a seguir um período “intenso” (nas circunstâncias da época, claro…) de tentativas por parte dos ingleses de se apossarem do território. Bolama era o local que lhes parecia mais acessível aos seus navios, porque não era defensável, contrariamente a Bissau e Cacheu, onde os portugueses tinham fortificações. A 15 de Abril de 1839 o tenente Keller volta a invadir Bolama e a fazer nova razia. Também W. Blount e os tripulantes do “Plutons” assaltaram e saquearam a Ilha das Galinhas, primeiro, e Bolama, depois, a 8 de Março de 1842. Neste ano ainda, a 22 e 23 de Maio, o tenente C.H.Lapidge, comandante do “Pantaleon”, fundeou em Bolama e declarou a tomada de posse da ilha pela Inglaterra. Passados tempos, o Governador, já Honório Barreto, mandou arrear a bandeira inglesa e substitui-la pela portuguesa. Cinco anos mais tarde, concretamente a 26 de Janeiro de 1847, o comandante do vaso de guerra inglês “Marsay”, obrigou o régulo de Canhabaque, António, a assinar um tratado em que este dizia “não dever protecção e favor a outros navios e comerciantes que não fossem ingleses ou franceses”. Honório Barreto protestou contra isso. Em resposta, talvez, tripulantes ingleses do “Dart” assaltaram e saquearam Bolama a 28 de Novembro desse ano. O Governo e Bissau enviou para Bolama um destacamento de 5 soldados [!!...].
As duas décadas seguintes não foram diferentes. Uma espécie de toca-e-foge. Em Dezembro de 1851, no dia 10, o comandante do navio “Ranger”, Th.Miller, exige a saída dos soldados portugueses que estavam em Bolama. Como não foi atendido, aprisionou os soldados [terão sido os tais 5?...] e levou-os para a Serra Leoa. Novo ataque a Bolama, pelo “Fire-Fly”, comandado por O.Seymor.
Em Janeiro de 1856 Honório Barreto fez uma visita às ilhas de Bolama para se inteirar da situação, nomeadamente da influência dos ingleses na ilha. Esteve no dia 11 em Casaria, na Ilha das Galinhas, em visita ao túmulo da filha do coronel de milícias Joaquim António de Matos. Fora assassinada em Março de 1842 pelos marinheiros do navio inglês “Plutons”. Passou também pelas ilhas de Canhabaque e Orango, tendo recebido dos régulos a garantia de fidelidade a Portugal. Situação volátil, como se verá em anos seguintes (ver aqui). E a 30 de Janeiro Honório Barreto informava o Governador Geral de Cabo Verde que, nas ilhas de Bolama, apenas os régulos de Inoré e Ancataque tinham negociado com o comandante do navio inglês “Tocante” o estabelecimento de feitorias.
Na discussão diplomática de “quem tem direito a”, que já se arrastava desde 5 de Março de 1834, o Conde do Lavradio, embaixador de Portugal em Londres, apresentou a Lord Malmesbury, a 5 de Março de 1859, uma reclamação de posse sobre a ilha de Bolama, apontando que era desde 1819 pertença firmada de Portugal. Mas os ingleses apresentaram-lhe um documento, datado de 29 de Junho de 1792, em que Portugal fazia a cessão da ilha a Inglaterra. Não foi considerado credível esse documento, por falta de bases sérias.
E, a 10 de Maio de 1860, o governo inglês proclama a incorporação de Bolama na Serra Leoa, tendo o Governador desta escrito ao Governador da Guiné, em Dezembro desse ano, reivindicando aquela ilha e o Rio Grande. Sem resposta positiva, claro. Por isso, o navio “Ranger”, a 3 de Junho de 1863, desembarcou uma força em Bolama para a ocupar.
Em 1868, a 4 de Junho, é o próprio governador da Serra Leoa, na altura Sir Arthur Kennedy, que entra pelo Rio Grande de Buba, fazendo razia nas suas margens, especialmente em Ponta Colónia. E, ousadia ou sobranceria?, algumas corvetas inglesas foram a Bissau no dia 6, tendo alguns oficiais desembarcado. Grassava lá, na altura, uma epidemia de febre amarela. O físico-mor Silva Leão aconselhou-os a regressar aos barcos, alertando-os também que não seriam bem recebidos pela população, que sabia que eles tinham prendido em Bolama o Governador da Guiné Joaquim Alberto Marques, quando este lá se encontrava no navio “Carolina”. Em 6 de Julho o Governador Geral de Cabo Verde tomou medidas. Ordenou a organização de uma expedição para expulsar os ingleses das feitorias que tinham instalado no Rio Grande, tendo inclusive arvorado a bandeira de Inglaterra na Ponta Colónia. Também o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Bento da Silva, ordenou nesse mesmo mês ao Conde do Lavradio que apresentasse um protesto ao governo inglês e exigisse a reparação da acção cometida pelo governador da serra Leoa no Rio Grande. O governo britânico fez um inquérito ao caso e ordenou, depois dele findo, a evacuação das forças inglesas.
 Foi lá, no dia 8 de Setembro, a escuna “Bissau” com uma força militar e 2 peças de campanha. Arriaram a bandeira de Inglaterra em Ponta Colónia e substituíram-na pela de Portugal.
As negociações diplomáticas foram mais além. A 26 de Outubro, o Ministro dos Negócios Estrangeiros pediu ao embaixador em Washington, Miguel Martins Antas, que interviesse junto de Mr. Sward para este ver se o Presidente dos Estados Unidos se prestaria a uma arbitragem sobre a posse de Bolama. Veio resposta favorável em 20 de Novembro.
E, em 21 de Abril de 1870, o Presidente dos Estados Unidos, Ulysses Grant, reconhece, em sentença arbitral, os direitos de Portugal à Ilha de Bolama.
Por isso, a 1 de Outubro de 1870, o Governador Geral de Cabo Verde, conselheiro Caetano Alexandre de Almeida e Albuquerque, tomou posse da Ilha de Bolama em nome de Portugal, estando presente Graig Loggie, representando o governo da Grã-Bretanha. O 2º tenente da Armada Guilherme Augusto de Brito Capelo serviu de secretário, escrevendo e assinando o auto de posse.




[1] Foi descoberta em 1460 por Pedro de Sintra, tendo os portugueses instalado-se lá para o comércio de escravos. Foram, porém, os ingleses que acabaram por dominar a região, através da Companhia Comercial Britânica, no século XVII.
[2] Após uma guerra vitoriosa sobre o chefe mandinga Samory Turé, os franceses ocuparam aquela região em 1849, chamando-lhe Protectorado Francês, dependente de um Governador Geral instalado em Dakar.
[3] Foram os portugueses que primeiro chegaram, depois do Cabo Bojador, no Sara Ocidental, àquela parte a que chamaram “África Negra” (Mauritânia, Senegal e Guiné). Estiveram no Senegal, no tráfico de escravos, depois estiveram por lá os holandeses e a seguir os ingleses e os franceses. Mas estas duas potências coloniais decidiram, pelo Tratado de Paris, de 1814, que era a França que ficava com o Senegal.

21 de junho de 2011

204-Honório Pereira Barreto, e porque é que os portugueses gostaram tanto dele

Nasceu no Cacheu, de mãe guineense e pai cabo-verdiano, era o major João Pereira Barreto, em 24 de Abril de 1813. Estudou na Metrópole até 1929, quando regressou a Cacheu. Em 1934, com 21 anos de idade, fora nomeado provedor daquele presídio. No ano de 1937, a 3 de Março, foi nomeado Governador interino da Guiné, ficando, como todos os governadores anteriores, dependente do Governador de Cabo Verde, que era quem tinha poderes administrativos sobre a Guiné. Só em 18 de Março de 1879, com Fontes Pereira de Melo, esta passou a Província independente com autonomia administrativa. Serviu bem os portugueses. Vamos ver como, e porque lhe erigiram uma estátua em Bissau.




22-XI-1838
○ Honório Barreto consegue do régulo de Intim, Odontó, a cedência do Ilhéu do Rei.
23-V-1839
○ Honório Pereira Barreto oferece ao Estado o Ilhéu do Rei, que comprara.
29-XII-1844
○ Foi cedido a Honório Pereira Barreto, então comerciante, residente em Cacheu, pelos gentios de Mascaço, na margem esquerda do rio Casa­mansa, um terreno com 100 toesas de fundo por toda a extensão do litoral para nele se erguerem casas de negócio e estabelecimentos com a bandeira portuguesa, que podiam ser fortificados.
29-XII-1844 
○ Honório Pereira. Barreto consegue dos gentios de Gone e Cabone (Casamansa) cedência de terri­tórios.
Idem, idem, do chefe de Sango Dogu (Casa­mansa).
Idem, idem dos chefes de Masçaco (Casamansa).
30-XII-1844
○ Idem, idem dos chefes de Nhamu (rio Sango Dogu) e gentios de Blandor e Santague.
2-I-1845
○ Idem, idem, dos gentios de Ganho, Nherne e Bri­cama.
4-I-1845
○ Idem, idem, dos gentios de Seneguer e Bambuda (Casamansa).
5-I-1845
○ Idem, idem, dos gentios de Faracunda (Casa­mansa).
9-I-1845
○ Idem, idem, dos gentios de Sangaje.
12-V-1845
○ Honório Pereira Barreto cede ao Estado todos estes terrenos que adquirira.
29-XII-1846
○ Honório Pereira Barreto domina a revolta de Farim.
18-II-1853
○ Foi feita, na aldeia de Bolor, uma convenção entre Governador interino de Cacheu, Honório Perei­ra Barreto, e os  régulos de Bolor, Jougam e Antó­nio Vermelho, que cederam à  nação portuguesa o terreno denominado «Eguel», reservando para si o direito de poderem fazer sacrifícios a um ídolo que ali existe, pagando lhes o Governador anualmente 6  barras de ferro, 6 frascos de pólvora e 5 galões de aguardente. 
25-V-1853
○ Depois de ter conseguido dominar a insubordinação dos moradores do Presídio de  Geba, Honório Barreto regressa à Praça de Bissau acompanhado dos grandes daquele território que vinham pres­tar acto de obediência.
3-III-1854
○ Propôs o Governador Geral de Cabo Verde para o posto de tenente-coronel de 2.ª linha a Honório Pereira Barreto,  agregado ao batalhão de 2.a linha da vila da Praia. Honório Barreto demi­tira-se anteriormente por duas vezes daquele posto por questões com governadores.
 21-X-1855
○ Em oficio dirigido ao Governador Geral de Cabo Verde, Honório Pereira Barreto diz da sua satisfação por saber que corria no distrito da Guiné, de que ele era Governador, a notícia de que a França, reconhecendo os nossos direitos no Casa­mansa, prometia abandonar os estabelecimentos que ali tinha. E concluía dizendo: «Se isso for verdade, fica a Guiné feliz, porque aquele rio exporta o dobro do que exportam os outros portos juntos». 
12-I-1856
○ Chegou a Canhabaque o Governador Honório P. Barreto, tendo-se hospedado com o seu séquito na povoação do régulo Tissac. No dia antece­dente estivera na Ilha das Galinhas, no sítio deno­minado Casaria, tendo ido ver a sepultura da filha do coronel de milícias Joaquim António de Matos, assassinada 14 anos antes pelos marinheiros do barco inglês «Pluton». A sua presença em Canha­baque tinha como objectivo firmar o domínio poruguês naquela ilha infestada com frequência por contrabandistas e corsários estrangeiros.
15-I-1856
○ H. P. Barreto consegue o reconhecimento da sobe­rania portuguesa pelos régulos de Canhabaque.
17-I-1856
Honório Pereira Barreto confes­sa-se encantado pela maneira como foi recebido pelo régulo e povo da ilha de Canhabaque. Dali partiu para a ilha de Orango onde foi recebido mm uma salva de artilharia, pois o rei. que habi­tava uma casa coberta de telha, dispunha de qua­tro peças montadas.
28-III-1856
○ O Governador Geral de Cabo Verde enviou para o Ministro do Ultramar cópia da correspondência trocada entre o Governador do distrito da Guiné e o delegado francês no Selho (rio Casamansa), reclamando contra as tentativas daquele delegado sobre o Presídio de Ziguinchor. 
3-IV-1856
Honório Barreto, de acordo com as disposições do Decreto de 1854 que determinava a libertação dos escravos pertencentes ao Estado e criava uma série de medidas em defesa dos servos, regulamentou a aplicação desse diploma neste território.
20-VIII-1856
O Governador do Distrito da Guiné agradece ao Bispo de Cabo Verde a nomeação dos párocos para as igrejas de Ziguinchor, Farim, Cacheu e Geba. o prelado, sabendo a relutância com que iam para a Guiné,[Prá Guiné?! F...se!] apesar da comissão ser apenas de 2 anos, solicitou ao Ministro as convenientes ordens para que o Governador Geral os compe­lisse a ir ao seu destino. 
20-IX-1856
○ Honório Pereira Barreto bate os indígenas de Cacanda, tendo o régulo prestado acto de submis­são na Praça de Cacheu.
27-IX-1856
○ Tratado de paz com o gentio de Cacanda.
8-X-1856
○ Honório P. Barreto consegue do régulo de Bianga a cedência da embocadura do estreito de Bassarel. H. P. Barreto cede ao Estadoa ponta da Varela, cessão firmada pelos chefes Felupes em 6-3-1857. Em 19- 6-1861 o Governador Zagalo içou aí a ban­deira nacional.
9-X-1856
 ○ Achando-se presente o tenente-coronel e Gover­nador Honório Barreto, foi assinado o tratado de paz e convenção entre os gentios de Naga e a Praça de Cacheu com quem se restabeleceram por essa forma as relações suspensas cerca de 50 anos antes.
15-XI-1856
○ O Governador Geral de Cabo Verde determinou ao do Distrito da Guiné para criar, por conta do Estado, no Rio Grande, algumas colónias agrí­colas. Pelo patacho «Progresso» seguiram 53 colo­nos cabo-verdianos e 4 europeus  que foram cari­nhosamente recebidos pelo Governador Honório Pereira Barreto, que, para os instalar, celebrou um contrato de compra de terrenos com os beafadas.
28-XII-1856
○ H. P. Barreto compra um terreno (Imbaná) no Rio Grande de Bolola, para a fixação de colonos cabo-verdianos.
3-I-1857
 Chegam esses colonos, estabelecendo-se no porto de Santa Cruz de Guinala. 
6-III-1857
Honório Pereira Barreto, frepresentando a casa de D. Rosa Carvalho de Alvarenga, fez cessão solene a favor da Nação Portuguesa dos terrenos que tinham sido dados pelos felupes de Varela , a seu pai o major João Pereira Barreto, de Cacheu. 
25-IV-1857
H. P. Barreto compra na Guinala as pontas Grande e Tibério. 
25-VI-1857
Foi remetido com um ofício ao Governador Geral de Cabo Verde o célebre protesto apresentado por Honório Pereira Barreto, que no mesmo passo pedia a sua demissão de Governador, contra a execução da portaria n.º 4 de 3 de Fevereiro, da Junta da Fazenda, protesto esse que foi mandado trancar nos livros pelo Ministro Sá da Bandeira. Aceite a sua demissão, substituindo-o António Pereira Mouzinho de Albuquerque Coita Falcão.
1857(?), 1858 (?)
H. P. Barreto compra a Ponta Brito (Biombo) e o ilhéu de Mantampa (R. Mansoa). 
16-IV-1859
Morreu na fortaleza de Bissau, vítima de caxequia palustre, o Governador Honório Pereira Barreto. O desenlace deu-se pelas 8 horas e meia da manhã, sendo seu médico assistente o Dr. Silva Leão. O Director da Alfândega, comunicando o triste acontecimento ao Governo Geral de Cabo Verde, diz que a Praça ficava em estado de alarme.
Dados extraídos do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Outubro de 1947