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1 de julho de 2011

210-Justiça de "Iran"

ENVOLVIDO no seu «nhome» (1), feito de bocados de banda tinta, «Inquilina Nheo», detentor de inúmeras e gordas vacas e de extensas «bolanhas» (2) em Jugudul, aguardava deitado na «m'tara» (3), de lama batida, que a ténue claridade da madru­gada lhe anunciasse no quarto escuro, através de uma frincha da porta, a hora de se levantar. Entretanto, revia em pensamento todos os detalhes da cerimónia realizada na tarde anterior, para que o «Iran» da tabanca concedesse ao chão o benefício da chuva.
Desde a lua passada, quase não chovia em Jugudul. Os balantas anteviam desanimados mais um ano de fome. A situação era aflitiva. Muitos tinham os seus «bembes» (4) já esgotados e, à falta do suculento arroz, devoravam a «tchira» (5) crua, furtada nos mandiocais dos fulas e mandingas, e a «m'baka» (6) de folha tenra, colhida no mato. Aban­donar a «botche» (7) ingrata e procurar no chão dos nalús melhores con­dições de vida era a única solução. Catió, com a regularidade das suas chuvas e as suas inúmeras e ubérrimas «bolanhas», era a Terra da Pro­missão - a sonhada «f'tock»(8). Para lá se dirigiriam!
Os velhos, mais apegados à terra, reunidos debaixo de um poilão, decidIran propiciar «Iran». Uma gorda cabra fora imolada e o «jam­bacosse» (9), executando um rito, que encerrava em si toda a Liturgia, mais uma vez demonstrara que sem o sangue da cabra, as fórmulas tra­dicionais, as suas palavras sibilinas e as libações habituais, «Iran», amuado na sua cabana minúscula, continuaria indiferente aos sofrimentos huma­nos. Quando o cerimonial terminou, logo pesadas nuvens cobrIran o céu. Mas as nuvens teimavam em não desfazer-se em chuva. Então «Iran», enfurecido, brandindo o seu chicote de fogo, desancou-as tanto que elas, esfarrapadas, tombaram em torrentes clamorosas, encharcando os cam­pos e inundando as «bolanhas».
Pela frincha da porta, a ténue claridade da madrugada entrou no quarto escuro de «Inquilna», como a dar-lhe os bons dias. Este, apalpando o rebordo da «rn'tara», num movimento rápido de pernas, levantou-se; distendeu os braços compridos e bocejou ruidosamente. Depois, revol­vendo os brônquios, arrancou um escarro medonho e atirou-o sobre a lama da parede; num passo alcançou a pequena porta de poilão, abriu-a e esgueirou-se para a «tchingira» (10), que serve de varanda.
Fora, uma chuva miudinha borrifava o cercado da morança. Um suíno enfezado, de cerdas duras, atascava-se grunhindo junto de um monte de lixo.
- «Cumba ia na buha» (11) - exclamou, dirigindo-se à sua mulher «Kanhe», que acabava de sair de outro quarto. - Todas as manhãs vejo o porco fora. Qualquer dia o animal desaparece, roubado pelos «bulu­fos» (12) ou comido pelo lobo.
«Kanhe», com as suas vinte e quatro chuvas, rosto violáceo, com pe­quenas malhas vermelhas nos lábios ulcerados, peitos alongados, em forma de papaia, pela continua função maternal, era a mais velha das três mulheres de «lnquilina». Cabia-lhe, por isso, a direcção da labuta doméstica; e no uso desse privilégio, que a tradição lhe concedia, desfor­rava-se das tribulações sofridas na passada mediocridade, distribuindo pelas outras duas consortes o moirejo da comunidade conjugal. «Nhara», a segunda mulher, fora criada e vivida nos faustos da corte de «Mona», poderoso régulo de Mansoa, com quem depois casara. Acostumara-se a uma vida de opulência, à moleza dos dóceis e prolongados ócios, toda entregue ao luxo dos panos, das arrecadas, dos braceletes e das contas. Em vida de «Mona», já casada, tivera impúdicos «flirts» com os «bulu­fos» da região. Nos seus devaneios adulterinos, conhecera «Inquilina», que se lhe mostrara pujante de lascívia e erotismo másculo. Desvairada, fumegando de volúpia, como cadela acicatada por cio, o desejara depois sofregamente. O marido ultrajado interrompera violentamente estas liga­ções amorosas. Falecido, porém, «Mona», não obstante ser de casta «cunante», introduziu-se no lar de «Inquilna», cumpridas as praxes ma­trimoniais que o costume da tribo impunha. «Sabu», a terceira mulher, entrara na comunidade conjugal, sem excentricidade, pela porta banal da união vulgar, que a crescente prosperidade do chefe de família per­mitia e a própria economia doméstica aconselhava.
As três esposas viviam em aparente harmonia. No fundo, porém, as dissemelhanças de castas, de hábitos e de temperamentos separavam «Kanhe» de «Nhara». Aquela, balanta genuína, considerava a «cunante» uma intrusa e não perdia ensejo de diminui-la no conceito do marido, exagerando as suas faltas e desmazelos. «Nhara» era sempre culpada, quando havia em casa falta de água ou de lenha, quando o chão e o quintal estavam sujos ou quando a comida não era preparada a tempo e com esmero.
«Kanhe», como esposa principal, destinava à «cunante» as ocupações mais penosas, em especial aquelas que mais incompatíveis eram com os seus hábitos cortesãos de outrora. Mas «Nhara», recalcando o desgosto que sentia, briosamente enfrentava a situação, para não quebrar a harmonia familiar.
Naquela manhã, ao ouvir a censura do marido, «Kanhe» voltou a acusar a «cunante», atribuindo-lhe o descuido de não fechar convenien­temente a porta do aprisco :
- «Nhara maka doga Cumba»(13). Se o porco desaparecer é «Nhara», pois, a culpada. Não sei que vantagem houve em casares com ela. Não é da nossa casta e entende dever levar aqui a vida ociosa a que se habituou com O primeiro marido. Está intolerável! Agora deixa o tra­balho da casa para procurar companhias em Sugune. Ainda ontem a vi dirigir-se para lá. Quer talvez novas emoções.
A insinuação pôs em sobressalto o coração de «Inquilina», que viu nas saídas da mulher a repetição das aventuras que com ele tivera em vida de «Mona». Lembrou-se de que há muito não ia ao quarto dela, não obstante ter já passado o período da amamentação do primeiro filho, durante o qual, segundo o uso, lhe fora imposta a continência sexual. Agora, porém, não se sentia com vontade de procurá-la. No estado de espírito em que se encontrava, dominava-o apenas a ideia de castigá-la duramente. Mas primeiro queria provas e essas dar-lhas-ia, decerto, o «Iran» da morança, por intermédio do «jambacosse», através de qualquer facto que ocorreria.
Notando a atitude meditativa do marido, «Kanhe» insitiu:
- «Hidma matche dôful kit-ânhe» (14). Só a vejo cá fora quando o Sol vai alto.
Parara de chover. «lnquilina», sem nada responder, abandonou o «flit»(15) de poilão em que se sentara e saiu da palhota, enquanto «Kanhe», arrancando da «cancra»(16) uma mancheia de palha, ateava o lume do fogão para preparar a «sofum inglute»(17).
Fora do cercado, alinhado em pequenos camalhões, por entre carreirinhos que davam acesso às moranças vizinhas, estendiam-se como veludo verde os viveiros de arroz. A acção benéfica da chuva revivificara as plantas, modificando completamente o seu aspecto doentio e amarelento da véspera. Aqui e além, balantas de corpo nú, accionando os arados es­palmados, abriam na terra amolecida novos regos. Em lenta ascensão, saíam através da cobertura de algumas choças alvacentos fumos. Numa toada sonora, os galos da tabanca cantavam à porfia, anunciando o alegre dealbar da manhã. De mistura, ouviam-se o flebil coaxo dos batráquios e o bater seco dos pilões. Pouco mais além, nateiros viscosos em quadri­láteros acompanhavam as margens tortuosas do rio Mansoa, escondendo nas entranhas o segredo da sua fecundidade. Para traz, por entre frondosas calabaceiras, coleava a estrada avermelhada de Enchalé. Numa vereda que saía do mato e que ia dar a Sugune, caminhava em passo lento uma mulher com o torso descoberto, trazendo às costas uma criança embolsada num pano, que lhe envolvia os flancos e terminava em nó no ventre. «Inquilina» pareceu reconhecê-la, porque, firmando a vista, es­tacou.
- Será possível? - disse consigo. - «Nhara», sua mulher cunante, àquela hora fora? Donde viria? - Uma suspeita atroz lhe iluminou o pensamento. A desavergonhada vem de Sugune, depois de passar a noite com o amante! Veio-lhe a tentação de avançar para ela e desancá-la ali mesmo; mas reprimiu o desejo e preferiu esperar. Não! O seu «Iran» lhe ofereceria melhor oportunidade! Tinha de saber primeiro quem era o amante.
A mulher, no mesmo passo, entrou apreensiva no cercado da morança.
Batia Sol já quente no «kufé»(18), àquela hora cheio de galináceos esgaravatando a terra, quando «Inquilina» voltou à sua palhota. As três esposas, sentadas em baixos «flits», meio acocoradas, esperavam o seu regresso, para iniciar a «sofum inglute», Todas, com os seus «nhomes» azuis, ao gosto predilecto da mulher balanta, mostravam com natural im­pudência a curva macia das coxas, quase até à virilha. «Kanhe» ocupava-se a dar ao filho sobrevivente (aos três que já tivera) uma papa de arroz e leite azedo, que é a refeição matinal da tribo. «Nhara» trazia o filho ao colo, reflectindo no rosto um profundo abatimento. «Sabu», ostentando o seu corpo ainda adolescente, cobria os seios formosos e tersos com os braços em cruz.
«Inquilna» sentou-se na superfície côncava doutro «flit» e pediu «sofum», lançando um olhar perscrutador a «Nhara», Foi esta quem com uma pequena colher de madeira lhe serviu a papa num cabaço la­vado, porque «Kanhe» se queixou dos seus dedos nodosos, cada vez mais trôpegos e túmidos.
 - «Mbida litma uoma sume» (19) - disse-lhe «Nhara» compungida.
Não sei o que a criança tem. Desde ontem arde em febre.
- Eis o aviso, a esperada prova! - pensou «Inquilina». Apressou-se, pois, a dizer-lhe que logo depois de comer chamaria o «jambacosse», para inquirir da causa do mal. E, alto, insinuou:
- Ninguém escapa à justiça de «Iran»!
«Kanhe» sorriu, adivinhando o significado da insinuação, mas «Nhara», mantendo a mesma expressão inicial de abatimento, recebeu a advertência com humílima tranquilidade.
Daí a uma hora, diante do barrete místico do «jambacosse» e da minúscula cabana, onde repousa o «Iran» omnipotente, com devota un­ção,. ambos aguardavam o temeroso arbítrio: ele, convicto da responsa­bilidade criminosa da mulher, e ela, vergada sob o peso do desgosto que a afligia. «Kanhe» e «Sabu» tinham ido a Mansoa comprar tabaco. A criança gemia ao lado, contorcendo-se de dores.
A simbólica cauda de vaca agitou-se na mão esquerda do «jambacosse», que lançou no ar faiscante da manhã as suas palavras sibilinas. «Aulé! Aulé!» - repetia a cada espaço, salpicando de arroz cozido a terra húmida da morada divina.
- «Úi mbê udó tão?» (20) - interrogou, por fim.
E, após uma curta pausa, face virada para o infinito, como quem escuta :
- «U'ol ka pã». (21). Alguém pretende arrebatar-lhe a alma. A criança está em perigo!
«Inquilna» ficou perplexo. Esperava outra notícia. Aferrado à sua ideia fixa reflectiu: Deve ser ela a feiticeira que pretende matar o pró­prio filho, para ficar com os movimentos livres.
- «Iama oté tãi ulômes?» (22) - perguntou alvoroçado.
Nova interrogação mística do «jambacosse» e a resposta foi pronta, decisiva:
- Não! A Mãe está inocente.
Abruptamente, ali mesmo, quis saber:
- «Nhara», o que foste fazer ontem a Sugune?
- Fui buscar leite à casa de «Fuma».
- E hoje, de onde vinhas de madrugada?
- Vinha do mato, aonde fui buscar «masse» (23), para dar ao meu filho.
- E não viste o porco no quintal?
- Fui eu que lhe abri a porta.
- ... ?
- É a primeira coisa que faço quando me levanto. Depois, vou buscar lenha e água para o consumo da casa. Acordo sempre muito cedo, quando ainda está tudo escuro.
«Inquilina» estava aniquilado, pesaroso de ter injustamente descon­fiado da mulher. Agradeceu ao «jambacosse» a sua interferência salva­dora e, num tom quase de ternura, sossegou o espírito da mãe do seu filho:
- Ele ficará bom depressa, vais ver.
E, quando o «jambacosse» se retirou, recomendou-lhe:
- Nem uma palavra, por enquanto, a ninguém acerca do que nos foi revelado.
Ao meio dia foi. servida a «sofum ‘nló» (24) composta de arroz, peixe cozido e azeite de palma. «Inquilina» conversava animadamente com o seu hóspede «Nanqui Intchama», da povoação de Quenhaque, regulado de Cubontge. Como acontecia sempre que havia visitas, «Nhara» sobre­levou as outras duas mulheres na maneira fidalga como serviu o almoço e cumulou de atenções o visitante. Este, notando o seu desembaraço, elo­giou-a diante de todos e felicitou o hospedeiro por possuir tão galante e valiosa companheira. «lnquilna», orgulhoso, concordou e bendisse a hora em que a conheceu e a trouxe ao lar. «Kanhe» e «Sabu», encolhidas, mor­deram-se de inveja, mas ficaram caladas.
- Sim, é uma excelente mulher! - repetiu e «Inquilina». - Tem o filho doente e, todavia, aqui está cumprindo as suas obrigações normais.­ E lançou um olhar significativo às outras duas consortes.
 O filho doente? - interrogou o hóspede.
Sim. Parece que alguém lhe quer mal. A sua alma está em perigo.
Desejoso de lhe prestar um serviço, em recompensa das atenções recebidas, o hóspede apressou-se a declarar:
- O meu «lram» pode salvá-lo!
O rosto malhado e intumescido de «Kanhe» exprimiu certa tur­bação.
- Hoje mesmo vamos pedir ao meu «Iran» que o defenda - insis­tiu o hóspede. - Reserve um bocado de comida para lhe levar. - E con­vidou a mulher a ir com O marido e o filho doente à sua casa.
Na povoação de Quenhaque, junto da minúscula morada do «Iran» protector, se executaram os ritos habituais. Pequenas achas rodeavam o pau central que atravessava o vértice da pequena cobertura cónica e que representava o feitiço. Sobre essas achas, em que se reproduzia o poder oculto do pau central, caíram bagos de arroz, ao mesmo tempo que «Nan­qui Intchama» resmungava confusas jaculatórias, roçando a mão es­querda no débil corpo do garoto doente. O cabaço de comida foi pousado em cima das achas e novas súplicas foram proferidas. Por fim, «Nan­qui Intchama», retirando uma acha fez dela entrega a «Inquilina» e passou para as mãos da mulher o cabaço.
- Essa acha leva em si a virtude de defender o garoto - disse. - ­Diante dela a gente da vossa morança deve comer o arroz do cabaço. Quem lhe quer mal receberá logo justo castigo.
E, mais grave:
- Este «lram» não perdoa!
«Inquilina» e sua mulher despedIran-se, agradecendo ao benquisto amigo o favor prestado.
Caía o Sol de fadiga no poente, envolvendo a terra em névoas tépi­das de sangue, quando as pessoas da morança se reunIran na «tchingira» convocadas por «Inquilina». A acha protectora fora posta no canto direito da porta de entrada e, ao pé dela, o cabaço com a comida punitiva.
- Há aqui alguém que pretende matar o filho de «Nhara» - come­çou «Inquilina». - Não sei quem é. Homem ou mulher vai receber o me­recido castigo. A comida que está aí no cabaço denunciará a pessoa cul­pada. Este «Iran» - e apontou com gravidade a acha - não perdoa!
Um frémito de terror percorreu a assistência e um pesado silêncio pairou no acanhado ambiente da «tchingira».
Os mais idosos, primeiro, os mais novos, depois, um por um, leva­ram à boca um bocado de arroz. Restavam apenas as mulheres de «In­quilina». «Sabu» avançou por sua vez e comeu também. «Kanhe» apro­ximou-se vagarosamente, torcendo a boca ulcerada num rictus de con­trariedade.
- Nós devíamos ser dispensadas da prova - disse. - Estamos ao abrigo de qualquer suspeita.
- Não! - insistiu «Inquilina». - Ninguém deve eximir-se a ela. Eu mesmo comerei no fim. Nem «Nhara» será dispensada!
Os dedos nodosos e túmidos de «Kanhe» mergulharam trémulos no cabaço e alçaram com alguns grãos de arroz até à boca descorada. Ou­viu-se então um grito pavoroso de angústia. Os dedos, o arroz e bocados dos lábios caíram pesadamente no chão!
Manifestara-se na mulher a lepra mutilante!
Fernando Rogado Quintino Administrador

NOTA EXPLICATIVA: - O conto descreve aspectos reais da vida da tribo balanta. Todas as personagens são verdadeiras. Para evitar a sua identificação, deu-se nome diferente a urna delas. Ninguém gosta de ver a sua vida devassada e divulgada - nem mesmo um indígena. Para maior realce do entrecho, alguns factos foram alterados, sem que, todavia, essas alterações deslustrassem a natureza real dos mesmos. A crença nos feitiços e nos seus poderes maléficos ou benéficos está sem exageros retractada no conto. Os balantas atribuem a lepra a determinados feitiços. O «Iran», que a produz, existe de facto na tabanca de Quenhaque, regulado de Cubontge. É convicção geral de que foi ele quem inoculou a doença a vários indígenas.
o autor

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume II, n.º 5, 1947

(1) Pano.
(2) Terrenos destinados à cultura do arroz. (3) Cama.
(4) Celeiros.
(5) Mandioca.
(6) Arbusto oleráceo que cresce no mato.
(7) Terra, povoação.
(8) Fartura.
(9) Sacerdote.
(10) Beiral da palhota, utilizado como varanda.
(11) O porco saiu do buraco.
(12) Rapazes ainda não circundados
(13) «Nhara» é quem trata do porco,
(14) «Hidma” é sempre a última a levantar-se
(15) Mocho.
(16) Tecto.
(17) Refeição da manhã,
(18) Quintal.
(19) Meu filho está doente.
(20) O que tem esta criança?
(21) Há feiticeiro na morança
(22)A mãe não tem culpa?
(23) Medicamento.
(24) Refeição do meio dia (almoço).

29 de junho de 2011

209-Aspectos e tipos da Guiné - IX







Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, N.ºs 87-88, Julho-Outubro 1967

208-Amílcar Cabral (1924-1973). Vida e morte de um revolucionário africano

Professor Doutor Julião Soares Sousa
(foto: Luís Graça)
...é mesmo ele e não o Helder Proença. Aqui vai para reparar o meu erro:

115º Jantar de Amizade UNICEPE

Sexta-feira, 1 de julho de 2011, 19h45m

Amílcar Cabral (1924-1973) - Vida e morte de um revolucionário africano, livro do Professor Doutor Julião Soares Sousa“resultado de uma longa investigação para o doutoramento concluído na Universidade de Coimbra”,
será apresentado pelo Professor Doutor Armando Teixeira Carneiro, Director do ISCIA – Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração, de Aveiro
Momento musical pelo grupo CANTUS DO RIO. 30 a 40 minutos com a guitarra portuguesa (Luís Marques), guitarra clássica (Paulo Larguesa) e uma voz (António Dinis), onde serão invocados José Afonso/ Adriano Correia de Oliveira/ António Portugal/ Artur Paredes/ Carlos Paredes/ Francisco Martins/ Rui Pato/ Manuel Alegre entre outros...
Ementa: Água, sopa de legumes, bacalhau com espinafres, vinho maduro tinto Dão Quinta de Roriz, semi-frio de maracujá, café, vinho do Porto Poças. Preço: 15,00 €
Inscrições para unicepe@net.novis.pt 
ou 22 205 66 60
Traz outro amigo também!
(Após o jantar, cerca das 21h30, entrada livre)
JULIÃO SOARES SOUSA é natural de Bula (Rep. Guiné-Bissau). Filho de Soares Sousa e de Amélia Mendonça, licenciou-se em História pela Univ. de Coimbra em 1991. Concluiu o Mestrado em 1996, com a classificação máxima de MUITO BOM, e doutoramento na mesma Universidade em 2008, com Distinção e Louvor por unanimidade. É o primeiro guineense Mestre e Doutorado pela Universidade de Coimbra.
É Investigador no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra e Professor Convidado no Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração (Aveiro), onde lecciona a cadeira Cultura e Conflito, do Mestrado em Segurança Defesa e Resolução de Conflitos e da Pós-Graduação em Criminologia.
Tem proferido várias conferências em Portugal e no estrangeiro (Brasil, Dinamarca, França, Hungria, Espanha, Cabo Verde, Guiné-Bissau. Entre algumas das suas publicações destacam-se:
1) Amílcar Cabral (1924-1973). Vida e morte de um revolucionário africano.
2) “Os movimentos unitários anticolonialistas (1954-1960). O contributo de Amílcar Cabral”, in Estudos do Século XX, 3, Coimbra, 2003;
3) Um Novo Amanhecer, Coimbra, Minerva, 1996.
4) “Amílcar Cabral: do envolvimento na luta antifascista à manifestações de tendência autonomista no Portugal do pós-Guerra (1945-1957)”, In Cabral no cruzamento de épocas. Comunicações e discursos produzidos no II Simpósio Internacional Amílcar Cabral realizado na Cidade da Praia, 9 –12 de Setembro de 2004, Praia, Alfa Comunicações, 2005;
5) “O fenómeno tribal, o tribalismo e a construção da identidade nacional no discurso de Amílcar Cabral”, In Comunidades Imaginadas. Nação de nacionalismo em África, Coord. Luís Reis Torgal, Fernando Pimenta e Julião Soares Sousa. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2008;
6) "MPLA: da Fundação ao Reconhecimento por parte da OUA", Latitudes, Cahiers Lusophones, nº 28, 2006;
7) “Amílcar Cabral: um contemporâneo de Francisco José Tenreiro no Portugal dos anos 40/50”, in Francisco José Tenreiro: As múltiplas faces de um intelectual, Coord: Inocência Mata, Lisboa, Edições Colibri, 2010.
8) As associações protonacionalistas guineenses durante a I República: o caso da Liga Guineenses e do Centro Escolar Republicano (no Prelo, Mindelo – Cabo Verde)
9) A cisão sino-soviética e suas implicações nos movimentos de libertação em África (no prelo, Universidade da Beira Interior).

27 de junho de 2011

207-Víctor Emilio Dreke Cruz, os cubanos na Guiné

Coronel Víctor Emilio Dreke Cruz
Com Che Guevara no Congo, em 1965. É o primeiro à esquerda,
Nasceu em 10 de Março de 1937. Em 1952, aos 15 anos, portanto, quando estava na High School José Martijuntou-se a um grupo contra o golpe militar de Fulgencio Batista. Foi, depois, para a Sierra Maestra juntar-se a Fidel Castro e Che Guevara. Participou em acções armadas contra as forças do governo de Fulgencio Batista em Placetas, Báez, Manicaragua e Santa Clara. Em abril de 1961 tomou parte na luta contra a invasão da Baía dos Porcos, tendo aí sido ferido.
Em abril de 1965, o Comandante Dreke foi adjunto directo de Che Guevara, quando este esteve na República Democrática do Congo (o ano em que esteve em parte nenhuma...). Guevara escreveu sobre Dreke em seu relatório a Fidel Castro: "Ele era um dos pilares em que confiei A única razão por que não o recomendo para promoção é que ele já detém o posto mais alto". A missão terminou em novembro de 1965. Liderou, depois, uma unidade militar em Cuba que preparava voluntários internacionalistas.
Em 1966 chefiou a missão militar cubana para a Guiné. Ele próprio esteve lá até 1968, inclusive.  Segundo Luís Cabral diz na "Crónica da Libertação" esteve no norte, juntamente com um outro oficial cubano de nome Pina. Foi depois para a Guiné-Conakry com a mesma missão. Já depois da independência, voltou à Guiné-Bissau em 1986, numa missão militar também, até 1989.
Segundo o jornal Granma Internacional, de 12 de Março de 2003, foram estes os cubanos que morreram na Guiné durante a guerra: tenente Raúl Pérez Abad, Raúl Mestres Infante, Miguel A. Zerquera Palacio, Pedro Casimiro Llopins, Radamé Sánchez Begerano, Eduardo Solís Renté, Felix Barriento Laporte, Radamés Despaigne Robert e Edilberto González. 
 

26 de junho de 2011

206-Porque assassinaram Helder Proença?



Ainda novo, partiu para a guerrilha nos anos 70 abandonando os estudos. Retomou-os após o 25 de Abril. Teve responsabilidades no sector da educação na região de Bolama e foi professor de História. Trabalhou como quadro no Ministério da Cultura da Guiné-Bissau, foi deputado na Assembleia Nacional Popular e membro do Comité Central do PAIGC. Foi Ministro da Defesa de Nino Vieira.
Além do seu empenhamento político, Helder Proença foi também uma figura da literatura da Guiné-Bissau. Poemas mais conhecidos: este “Quando te propus”, “Nas noites de n’Djimpol”, “Ode a Abomey”, Badjuda n’a”, “Canto a Sundiata”. Com 26 anos publicou, em 1982, o livro de poemas “Não Posso Adiar a Palavra”[1]. Já tinha sido, em 1977, co-organizador e prefaciador da primeira antologia poética do seu país: “Mantenhas Para Quem Luta”[2].


“Quando te propus
um amanhecer diferente
a terra ainda fervia em lavas
e os homens ainda eram bestas ferozes

Quando te propus
a conquista do futuro
vazias eram as mãos

negras como breu o silêncio da resposta

Quando te propus
o acumular de forças
o sangue nómada e igual
coagulava em todos os cárceres
            em toda a terra
            e em todos os homens

Quando te propus
um amanhecer diferente, amor
a eternidade voraz das nossas dores
era igual a «Deus Pai todo poderoso criador dos céus e da terra»

Quando te propus
olhos secos, pés na terra, e convicção firme
surdos eram os céus e a terra
receptivos as balas e punhais
            as amaldiçoavam cada existência nossa

Quando te propus
abraçar a história, amor
tantas foram as esperanças comidas
insondável a fé forjada
            no extenso breu de canto e morte

Foi assim que te propus
no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu
o hastear eterno do nosso sangue
para um amanhecer diferente!”


«2009-06-05

Bissau, 05 Jun (Lusa) -- O antigo ministro da Defesa da Guiné-Bissau Hélder Proença foi hoje morto a tiro na estrada entre Bula, norte do país, e Bissau, disse à agência Lusa fonte hospitalar.
Segundo a mesma fonte, o corpo de Hélder Proença entrou na morgue do hospital Nacional Simão Mendes ao início da manhã de hoje.
Além de Hélder de Proença, foram também abatidos o motorista e um segurança, acrescentou a fonte.»»»
«Na Guiné Bissau fontes dos serviços secretos indicaram que as forças de segurança mataram um candidato presidencial que afirmam estava envolvido numa tentativa de golpe de Estado.
Uma declaração divulgada pelo serviço de Informação refere que a polícia matou o candidato Baciro Dabó e o antigo ministro da Defesa, Helder Proença.
(…)
Segundo estas fontes, Proença estaria a planear um golpe de estado com Dabó e outras individualidades, e o antigo ministro foi morto quando resistiu à detenção.» http://www.voanews.com/portuguese/news/a-38-2009-06-05-voa1-92246574.html


...E mataram o poeta político no mesmo dia em que mataram o político militar Dabó (ver aqui). Da forma cruel e arbitrária, não já estranha porque tem sido comum na Guiné-Bissau.
Diz quem sabe que o envolveram numa teia de suspeições entre António N'djai e Zamora Induta, este próximo de Carlos Gomes Júnior, por sua vez inimigo de Helder e de Nino. Os serviços secretos terão feito correr falsas informações sobre tensões existentes nos quartéis e no próprio Estado Maior, com um pretenso golpe em preparação, convencendo o Helder Proença que ele podia ser elemento importante para a solução do problema. Todos sabiam que ele não apoiava o governo de Carlos Gomes nem Zamora Induta.
Ele, que já apontara a N'djai que Carlos Gomes e Zamora tinham sido os mandantes dos assassinatos de Nino e Tagma, acreditou no suposto golpe em preparação. 
Na noite de quinta-feira, 4 de Junho de 2009, quando atravessou a fronteira vindo de Ziguinchor, com o seu motorista Lamine, senegalês, viu facilitada a sua entrada, apesar da fronteira estar fechada (foram os serviços secretos que facilitaram...), e foi recebido por um grupo de militares, que se disseram "descontentes", e que se propuseram levá-lo a António N'djai, de quem eram apoiantes. Conduziram-no primeiro a sua casa e depois à base aérea de Bissalanca. Foi com o seu motorista e um amigo que o quis acompanhar. Para sua surpresa foi Zamora Induta que lá encontrou. Eram 23h30. Apercebeu-se da cilada, mas já era tarde.
Foi humilhado e espancado por Zamora, que depois ordenou que o matassem. E foi assassinado uma hora mais tarde em Braia, ponta de Augusto Dama, entre João Landim e Bula. Mataram também o seu condutor Lamine e o amigo que o acompanhara.
Assassinato selectivo ou limpeza política?
O comunicado do Ministério do Interior sobre os acontecimentos denunciava uma alegada tentativa de golpe de estado, justificando as mortes registadas com alegadas resistências no momento da prisão dos implicados. Ora, nenhum militar foi preso, nem mencionado como parte da conspiração, o que causa sérias dúvidas quanto à versão governamental dos acontecimentos. As fontes conhecedoras da vida e história política nacional garantem que "Bassiro Dabó e Hélder Proença jamais se juntariam em qualquer projecto", nem político, nem económico, por divergências antigas e bem alicerçadas. Aliás, em 2006, Bassiro Dabó, então Secretário de Estado no Ministério do Interior, havia acusado Hélder Proença e Tagmé Na Waie de estarem a preparar uma conspiração para derrubar o presidente Nino.
Conclui-se então que esta operação dos militares visava tão apenas assassinar algumas personalidades que inquietavam, tanto mais que pouparam a vida a Faustino Imbali (também preso pelos militares nesse 5 de Junho, sociólogo de 52 anos, foi primeiro-ministro de Kumba Yalá de Março a Dezembro de 2001), gesto por muitos comentado como expressão do pacto de Nhinte (Nhinte é uma tabanca na Guiné onde os Balantas se terão reunido e decidido que "Os Balantas não morrem").

O assassinato de Hélder Proença tinha sido concebido, inicialmente como uma operação de gangster: "começa com um rapto, seguido de homicídio, com balas alvejando certeiramente o coração dos três homens no flanco esquerdo, o que desacredita a tese de resistência e troca de tiros". Depois, os corpos das vítimas são abandonados na estrada, sendo isso prova de amadorismo, crueldade e de falta de respeito à dignidade humana, mas, sobretudo, expressão de que ninguém teria de prestar contas pelo ocorrido. Alguns minutos depois, "o corpo é recuperado pelos malfeitores que o foram deitar num contentor de lixo, no Hospital Central de Bissau". 



Como se pode conceber uma actuação destas por parte de uma instituição do Estado, de uma organização responsável? Como é que o Governo pode endossar a responsabilidade não só do assassinato mas também do vexame a que foram submetidos os restos mortais destes cidadãos? Como disseram alguns círculos diplomáticos, as forças armadas guineenses tornaram num perigoso bando de malfeitores: gangsters.
Os militares e o Governo enfrentaram dificuldades para justificar estes acontecimentos. Falaram de uma gravação, mas não se apressaram a difundi-la através dos órgãos de comunicação. Quiseram o apoio dos serviços do Ministério do Interior, alegando que foram estes que solicitaram a intervenção dos militares, mas o DG da segurança recusou esta tese e recusou-se a assinar o comunicado preparado pelos militares, razão por que foi detido.
Mesmo admitindo a tese de Golpe de Estado, muitas dúvidas ficam por esclarecer: qual era o grau de preparação? O perigo era assim eminente? Que forças estavam envolvidas (militares, bem entendido)? E porque é que nenhum militar foi preso? Porque é que as pessoas foram abatidas se já estavam detidas? Todas estas questões conduzem à conclusão de que não houve tentativa de golpe e nem foi essa a razão dos assassinatos. Houve, sim, um ajuste de contas e uma operação de limpeza política.
O assassinato dos dois ex-ministros e eminentes personalidades políticas suscitou tristeza e muita indignação, senão mesmo revolta na sociedade guineense.
Mortes injustificadas, dizem alguns, e limpeza política, dizem outros. Uma multidão inesperada acorreu à pequena morgue da capital para prestar homenagem às vítimas daquilo a que eles agora chamam de “esquadrão da morte”. Quer Hélder Proença quer Bassiro Dabó eram personalidades de proa e muito populares, não só como políticos mas também como destacadas figuras do mundo cultural, poeta e músico, respectivamente. 
Quando muitos guineenses julgavam que as matanças haviam terminado com o desaparecimento de Nino Vieira, os factos infelizmente confirmaram que a violência política faz parte da idiossincrasia guineense, lembrando o assassinato de Amílcar Cabral, Honório Sanchez Vaz, Cesário Carvalho de Alvarenga, Paulo Dias, Momo Turé, José Francisco, Osvaldo Vieira, Paulo Correia, Viriato Pam, Ansumane Mané, Veríssimo Seabra e tantos outros actores importantes da vida política guineense.
Há porém uma constante: o papel dos homens em farda, que se transformaram em verdadeiros assassinos em série. Impotentes perante esta situação, cresceu a legião de guineenses que reclamaram a ida de uma força internacional, para evitar o completo afundamento do Estado guineense.
Mas estão agora lá os angolanos para reformar o exército guineense. Chegará?

[1] Sá da Costa
[2] Edição do Conselho Nacional de Cultura da Guiné-Bissau.

23 de junho de 2011

205-A mais velha aliança do mundo, os "amigos ingleses" e a Guiné

O casamento de D. João I com Filipa de Lencastre, em 1383, marcou o início da mais antiga aliança diplomática entre dois países, actualmente ainda em vigor.
Foram sempre uns "amigos de Peniche" (porquê a carga negativa desta expressão, se até tenho bons amigos em Peniche?...). Já sabemos. Mas vejam como foi na Guiné.


Os ingleses sabiam das dificuldades que os portugueses tinham em ocupar aquele território e dominar os seus povos, e o seu espírito de rapina estava sempre activo. Dominavam já a Serra Leoa[1] desde o século XVII, mas o território logo a seguir[2] (a actual República da Guiné ou Guiné.Conakry), a norte, antes da Guiné Portuguesa, era do interesse dos franceses, também empenhados em ocupar o Senegal[3], mais acima, e até uma parte dos portugueses, a Casamansa. Era, pois, a Guiné dos portugueses que os “amigos” ingleses viam ser mais fácil de apanhar.
Em 10 de Maio de 1792, os capitães da marinha inglesa Philip Beaver e  Dalryrnple desembarcaram em Bolama com 570 pessoas, 275 delas eram colonos para ali se instalarem. E montaram, de facto, a colónia na Ponta Oeste. Mas não estiveram lá muito tempo. No ano seguinte grande parte deles foram dizimados pala malária, de tal modo que os poucos colonos ingleses ainda sobreviventes exigiram o seu repatriamento ao capitão Beaver, tendo este regressado com esses poucos a Inglaterra em 29 de Outubro de 1793.
Mas não desistiram. A pretexto dessa “colonização” de Beaver, voltaram a ocupar Bolama em 1814 e 1827, tendo, neste ano, Sir Neil Campbell, Governador das possessões inglesas da África Ocidental, imposto aos régulos de Bolola e Guinala, no Rio Grande, um tratado de cedência de Guinala e Bolama, bem como as respectivas ilhas adjacentes. Nestas andanças, uma fragata inglesa chegou a atacar perto de Bissau, em 26 de Novembro de 1821, a escuna portuguesa “Conde de Vila Flor”, deixando-a inoperacional no canal do Geba.
Em 11 de Junho de 1828, o 1º tenente Francisco Muacho, Governador de Bissau, obteve do régulo Damião de Canhabaque e do régulo Damião dos beafadas que permitissem apenas aos portugueses o estabelecimento em Bolama. A 20 de Abril de 1830 também o coronel das Milícias, Joaquim António de Matos, consegue desses régulos a construção de um posto militar em Bolama e a cedência da ilha das Galinhas, que é incorporada na coroa a 14 de Janeiro de 1831.
Mas o Governo inglês reclama oficialmente a posse de Bolama em 5 de Março de 1834. Também oficialmente, a 26 de Novembro desse ano, o Governo português recusa essa posse. E a Guiné passou, em 1835, a ser um distrito destacado da Província de Cabo Verde, cujo Governador Geral passou a ter sobre ele todos os poderes civis e militares.
E o Governador da Província queixou-se ao Governo português, em 5 de Novembro de 1836, que os estrangeiros não nos respeitavam, andando navios franceses e ingleses à coca para ver se tomavam Bolama, Bissau e a Casamansa, evidentemente combinados para repartirem entre si “o que nos pertencia”.
E tinha razão. Relativamente a Bolama, os ingleses não se coibiam, de facto. Em 9 de Dezembro de 1838, o tenente Keller desembarcou em Bolama com o brigue inglês “Brisk”, substituiu a bandeira portuguesa pela inglesa e tomou posse da ilha, declarando-a propriedade inglesa. Fez mais: destruiu todas as armas que havia no destacamento português lá existente e a feitoria Nozolini. Zarpou depois levando mais de 200 escravos.
Foi a seguir um período “intenso” (nas circunstâncias da época, claro…) de tentativas por parte dos ingleses de se apossarem do território. Bolama era o local que lhes parecia mais acessível aos seus navios, porque não era defensável, contrariamente a Bissau e Cacheu, onde os portugueses tinham fortificações. A 15 de Abril de 1839 o tenente Keller volta a invadir Bolama e a fazer nova razia. Também W. Blount e os tripulantes do “Plutons” assaltaram e saquearam a Ilha das Galinhas, primeiro, e Bolama, depois, a 8 de Março de 1842. Neste ano ainda, a 22 e 23 de Maio, o tenente C.H.Lapidge, comandante do “Pantaleon”, fundeou em Bolama e declarou a tomada de posse da ilha pela Inglaterra. Passados tempos, o Governador, já Honório Barreto, mandou arrear a bandeira inglesa e substitui-la pela portuguesa. Cinco anos mais tarde, concretamente a 26 de Janeiro de 1847, o comandante do vaso de guerra inglês “Marsay”, obrigou o régulo de Canhabaque, António, a assinar um tratado em que este dizia “não dever protecção e favor a outros navios e comerciantes que não fossem ingleses ou franceses”. Honório Barreto protestou contra isso. Em resposta, talvez, tripulantes ingleses do “Dart” assaltaram e saquearam Bolama a 28 de Novembro desse ano. O Governo e Bissau enviou para Bolama um destacamento de 5 soldados [!!...].
As duas décadas seguintes não foram diferentes. Uma espécie de toca-e-foge. Em Dezembro de 1851, no dia 10, o comandante do navio “Ranger”, Th.Miller, exige a saída dos soldados portugueses que estavam em Bolama. Como não foi atendido, aprisionou os soldados [terão sido os tais 5?...] e levou-os para a Serra Leoa. Novo ataque a Bolama, pelo “Fire-Fly”, comandado por O.Seymor.
Em Janeiro de 1856 Honório Barreto fez uma visita às ilhas de Bolama para se inteirar da situação, nomeadamente da influência dos ingleses na ilha. Esteve no dia 11 em Casaria, na Ilha das Galinhas, em visita ao túmulo da filha do coronel de milícias Joaquim António de Matos. Fora assassinada em Março de 1842 pelos marinheiros do navio inglês “Plutons”. Passou também pelas ilhas de Canhabaque e Orango, tendo recebido dos régulos a garantia de fidelidade a Portugal. Situação volátil, como se verá em anos seguintes (ver aqui). E a 30 de Janeiro Honório Barreto informava o Governador Geral de Cabo Verde que, nas ilhas de Bolama, apenas os régulos de Inoré e Ancataque tinham negociado com o comandante do navio inglês “Tocante” o estabelecimento de feitorias.
Na discussão diplomática de “quem tem direito a”, que já se arrastava desde 5 de Março de 1834, o Conde do Lavradio, embaixador de Portugal em Londres, apresentou a Lord Malmesbury, a 5 de Março de 1859, uma reclamação de posse sobre a ilha de Bolama, apontando que era desde 1819 pertença firmada de Portugal. Mas os ingleses apresentaram-lhe um documento, datado de 29 de Junho de 1792, em que Portugal fazia a cessão da ilha a Inglaterra. Não foi considerado credível esse documento, por falta de bases sérias.
E, a 10 de Maio de 1860, o governo inglês proclama a incorporação de Bolama na Serra Leoa, tendo o Governador desta escrito ao Governador da Guiné, em Dezembro desse ano, reivindicando aquela ilha e o Rio Grande. Sem resposta positiva, claro. Por isso, o navio “Ranger”, a 3 de Junho de 1863, desembarcou uma força em Bolama para a ocupar.
Em 1868, a 4 de Junho, é o próprio governador da Serra Leoa, na altura Sir Arthur Kennedy, que entra pelo Rio Grande de Buba, fazendo razia nas suas margens, especialmente em Ponta Colónia. E, ousadia ou sobranceria?, algumas corvetas inglesas foram a Bissau no dia 6, tendo alguns oficiais desembarcado. Grassava lá, na altura, uma epidemia de febre amarela. O físico-mor Silva Leão aconselhou-os a regressar aos barcos, alertando-os também que não seriam bem recebidos pela população, que sabia que eles tinham prendido em Bolama o Governador da Guiné Joaquim Alberto Marques, quando este lá se encontrava no navio “Carolina”. Em 6 de Julho o Governador Geral de Cabo Verde tomou medidas. Ordenou a organização de uma expedição para expulsar os ingleses das feitorias que tinham instalado no Rio Grande, tendo inclusive arvorado a bandeira de Inglaterra na Ponta Colónia. Também o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Bento da Silva, ordenou nesse mesmo mês ao Conde do Lavradio que apresentasse um protesto ao governo inglês e exigisse a reparação da acção cometida pelo governador da serra Leoa no Rio Grande. O governo britânico fez um inquérito ao caso e ordenou, depois dele findo, a evacuação das forças inglesas.
 Foi lá, no dia 8 de Setembro, a escuna “Bissau” com uma força militar e 2 peças de campanha. Arriaram a bandeira de Inglaterra em Ponta Colónia e substituíram-na pela de Portugal.
As negociações diplomáticas foram mais além. A 26 de Outubro, o Ministro dos Negócios Estrangeiros pediu ao embaixador em Washington, Miguel Martins Antas, que interviesse junto de Mr. Sward para este ver se o Presidente dos Estados Unidos se prestaria a uma arbitragem sobre a posse de Bolama. Veio resposta favorável em 20 de Novembro.
E, em 21 de Abril de 1870, o Presidente dos Estados Unidos, Ulysses Grant, reconhece, em sentença arbitral, os direitos de Portugal à Ilha de Bolama.
Por isso, a 1 de Outubro de 1870, o Governador Geral de Cabo Verde, conselheiro Caetano Alexandre de Almeida e Albuquerque, tomou posse da Ilha de Bolama em nome de Portugal, estando presente Graig Loggie, representando o governo da Grã-Bretanha. O 2º tenente da Armada Guilherme Augusto de Brito Capelo serviu de secretário, escrevendo e assinando o auto de posse.




[1] Foi descoberta em 1460 por Pedro de Sintra, tendo os portugueses instalado-se lá para o comércio de escravos. Foram, porém, os ingleses que acabaram por dominar a região, através da Companhia Comercial Britânica, no século XVII.
[2] Após uma guerra vitoriosa sobre o chefe mandinga Samory Turé, os franceses ocuparam aquela região em 1849, chamando-lhe Protectorado Francês, dependente de um Governador Geral instalado em Dakar.
[3] Foram os portugueses que primeiro chegaram, depois do Cabo Bojador, no Sara Ocidental, àquela parte a que chamaram “África Negra” (Mauritânia, Senegal e Guiné). Estiveram no Senegal, no tráfico de escravos, depois estiveram por lá os holandeses e a seguir os ingleses e os franceses. Mas estas duas potências coloniais decidiram, pelo Tratado de Paris, de 1814, que era a França que ficava com o Senegal.