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2 de julho de 2011

212-O Iran

Augusto de Jesus Santos Lima foi Administrador da Circunscrição Civil do Bijagós e foi um dos nomeados, em Julho de 1946, membros residentes do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, criado a 13 de Dezembro de 1945, antes da Revista. Este é um texto (Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume II, nº 5, 1947) crítico ao culto do iran, com um certo espírito paternalista e perspectivando modificações de acordo com as leis coloniais. Diferente do olhar interessado e compreensivo de Rogado Quintino dos costumes guineenses aqui já mostrado.

Até hoje não creio que a execução do artigo 22.° do Acto Colo­nial [ Nas colónias atender-se-á ao estado de evolução dos povos nativos, havendo estatutos especiais dos indígenas, que estabeleçam para estes, sob a influência do direito público e privado português, regimes jurídicos de contemporização com os seus usos e costumes individuais, domésticos e sociais, que não sejam incompatíveis com a moral e com os ditames de humanidade], reproduzido no artigo 246.° da Carta Orgânica do Império, tenha trazido qualquer dificuldade na prática. Nada custa a um português contemporizar com os usos e costumes indivi­duais, domésticos e sociais dos indígenas, não tanto pelas regras de uma tradição algumas vezes secular mas, principalmente, pela inclinação do seu espírito e pelo seu temperamento afectuoso. É comum o português viver para eles e, até, com eles. Em todo o caso, as disposições acima citadas marcam um limite à contemporização, isto é, irá até ao ponto em que não seja «incompatível com a moral e com os ditames de humani­dade». Ora, a moral vai tão discutida e desnudada com os climas e com as latitudes e os ditames de humanidade tão esquecidos e apagados na mente vária do homem de hoje que talvez não fosse despropositado que os nossos textos dissessem: com a moral e com os ditames da consciência da Nação. Deste modo, esse limite tornar-se-ia mais perceptível e dei­xaria de causar sérias e fundadas dúvidas a muitas centenas de nós que convivemos diariamente com o indígena.
Mas, assim mesmo, parece oportuno perguntar se a adoração e o temor do «lran», tal qual nós o conhecemos e concebemos, está de acordo com aqueles textos de lei ou se, pelo contrário e em seu nome, não temos obrigação de intervir, senão para o extirpar, ao menos para lhe reduzir a acção ao mínimo possível.
Evidentemente, a resposta é discutível. Se se considerar que o «Iran», como entendem muitos dos nossos colegas franceses, não passa de uma manifestação de carácter religioso e que os objectos que o representam não são mais do que a materialização da forma por que o concebem não há dúvida de que a sua adoração fica aquém do limite acima indicado. Neste caso, não seria de aconselhar qualquer intervenção da nossa parte.

Mas se, admitindo embora esse carácter religioso, verificamos que a sua intervenção se efectiva através de pouquíssimos iniciados (balou­beires) detentores exclusivos da sua invocação e da aplicação dos seus desígnios, num campo de acção ilimitado, em que impera o dever sinó­nimo de medo - então, a sua adoração excede o limite fixado, exigindo a nossa intervenção.
Aquele primeiro aspecto tem tido os seus adeptos, cultos embora mas de duvidosa sinceridade, que defendem uma indefinida liberdade porque, dizem, tudo tende para a civilização que ainda não sabem o que é nem qual seja a melhor.
Capciosa, esta argumentação. Em primeiro lugar, porque não há liberdade indefinida que seria sinónima de barbárie e própria do período da pedra lascada: depois, na dúvida do que seja civilização, admitem o absurdo do ponto morto na vida, donde contemplariam a desfilada para­lela de todas as tendências de todos os grupos humanos, até descortina­rem, enfim, qual se adiantara para a... adoptarem. Fantasia. Nós pensa­mos mais terra a terra.
O «Iran» é, idealmente, um presidente, carrancudo, omnipotente, omnisciente e intangível; materialmente, é um «depósito de interesses».

Com efeito, lá está ele presente no casamento, no nascimento e na morte. Não iria muito mal se ficasse por aí. Mas vai mais longe, muito mais longe. Na sementeira, na colheita, na pesca; na higiene, na saúde, na doença; no crime e na justiça; na guerra e na paz - esse «figurão» intervém sempre pela boca dos seus «baloubeiros». Conforme o interesse destes, assim aquele se manifesta. Está-se a ver, pois, que a tais intér­pretes e executores de vontades convém o mais rigoroso segredo e não convém, em contrapartida, a mais pequena alteração desse costume.
Esse «iran» decreta que se não deve semear em tal local ou em tal tempo; que aos trabalhos tais e tais se deve opor decidida resistência passiva: Cumpre-se integralmente...
A essa mortalidade infantil - de que, com razão, tanto falamos, receamos e combatemos - ele não é estranho; não há nenhuma mulher grávida que se atreva a deixar de cumprir com as «cerimónias» que ele ordena, tanto no período da gestação, como no post-natal.
E chegamos assim à conclusão de que temos nesse «fantasma» um inimigo declarado, que opõe embargos às mais breves determinações, oca­sionando paragens frequentes no caminho áspero, mas sempre ascensional do progresso das gentes incultas que nos impusemos como norma de con­duta e ponto de honra. A colonização não é apenas uma ciência; é tam­bém, arte. Temos os princípios e a tendência. O muito que havemos feito está longe ainda de atingir o ponto de saturação do nosso esforço. A tendência deste antecipou o conceito actual da valorização do homem indígena.
Exercemo-lo no combate às doenças e na vacina que, se ainda não é verdadeiramente compulsória, virá a sê-lo; na ideia que assentamos sobre as maternidades e na clínica intensiva; na higiene e salubridade; no estudo, em vias de sucesso, da sua nutrição; nas estações experimentais de agri­cultura e pecuária; nas escolas, etc...

Ora, é isto que, hoje em dia, constitui o nosso interesse. E é isto, sem sombra de dúvida, que vimos realizando, como base preliminar do vigor físico, mental e moral do indígena.
Mas... cuidado! Atrás de cada uma espreita o «Iran», com a sua corte de «baloubeiros», prontos a resistir.
E nós, que vamos fazer? A razão, a lógica e a compreensão mandam que se lhe dê combate. Esse fantasma, esse espantalho, é ou não incom­patível com a moral e com os ditames de humanidade? É ou não con­trário ao espírito daqueles textos no princípio citados? Eu entendo que sim. E os meus colegas? Se estiverem de acordo, como combatê-lo?
Atacando o órgão - Iran - ou o seu suporte - baloubeiros? Aqui está outro problema.  
Sobre ele, breve darei a minha opinião.
A. Santos Lima Administrador 

211-Amílcar Cabral nasceu em Bafatá, está provado

"Notícia" do site "www.guine-bissau.com":
 Noticias



Cultura - Arte
28/09/2004 16:15
Versión para imprimir
AMILCAR CABRAL NAO NASECEU NA GUINÉ-BISSAU
O escritor e Poeta guineense Felix Siga revelou ontem a Guiné-Bissau.Com que o fundador da nacionalidade guineense Amilcar Cabral nao nasceu em Bafatá como tem sido pregoado pelo mundo fora.


O escritor e Poeta guineense Felix Siga revelou ontem a Guiné-Bissau.Com que o fundador da nacionalidade guineense Amilcar Cabral nao nasceu em Bafatá como tem sido pregoado pelo mundo fora.

Para Felix Siga, Amilcar Cabral nao é guineense. Pois, o seu bolitim de nascimento é falso e foi forjado por Rafael Barbosa para convencer o ex-Presidente da Guiné-Conacri Ahmed Sekou Turé aceita-lo residir em Conacri.

Face a este cenario, considerou que Amilcar Cabral, com excepçao da sua participaçao na luta da libertaçao nacional, nao faz parte da historia da Guiné-Bissau.

Felix Siga desafia seja quem for, para lhe mostrar colega de escola de Amilcar Cabral em Bafatá. No seu entender, se Amilcar Cabral tivesse nascido em Bafata teria ainda lá alguém que pudesse conhecer, pelo menos, filhos ou netos dos seus colegas que estudaram com ele o ensino primario em Bafatá.


Ontem (ver aqui), na apresentação que realizou na UNICEPE do seu livro "Amílcar Cabral (1924-1973). Vida e Morte de um Revolucionário Africano", o Prof.Dr. Julião Soares Sousa abordou esta questão, mas afirmando, e com razão, que "não é o mais importante saber onde nasceu, mas, sim, o que a sua figura representa como homem e como revolucionário, o que ficou dele". Deu como exemplo Che Guevara, que até era argentino, mas que é uma figura inesquecível do povo cubano e de todo o mundo. Mas o Professor remeteu para o que escreveu no seu livro sobre o "nascimento de Amílcar Cabral". Fui ver.
Quando ele nasceu, "à uma hora do dia 12 de Setembro de 1924", era uma sexta-feira,a sua mãe, Iva Pinhel Évora, estava em Bafatá, e o seu pai, Juvenal António Lopes da Costa Cabral, estava como professor na "Escola do Sexo Feminino e Masculino de Geba", a cerca de trinta quilómetros de Bafatá, onde tinha também uma loja e onde vivia a sua mulher "legítima" (quando estive em Geba, durante a guerra, ouvi falar que havia lá uma irmã de Amílcar Cabral, mas nunca me deu para averiguar) . Eram ambos cabo-verdianos. Iva Pinhel chegara à Guiné em 1922 e Juvenal Cabral já lá estava desde 1911. Desde esta data, Juvenal Cabral, um homem muito "mexido", passou por vários empregos da administração colonial. Um deles, além de professor primário, fazia-o deslocar-se com frequência a Bafatá. E, como homem sempre activo, foi aí que passou a relacionar-se com Iva Pinhel.
Foto do livro do autor, com a devida vénia
Mas o Prof. Julião Soares foi muito fundo e descobriu isto:
Curiosamente o baptismo numa freguesia com o mesmo nome da freguesia do nascimento. Mas uma em Cabo Verde e outra em Bafatá. Iva esteve em Cabo Verde em 1929 e 1930, parece, com os filhos Amílcar, Armanda, Arminda e Ivo Carvalho Silva. 
...E parece-me que o pároco dessa freguesia não estaria preocupado em forjar este documento para o Sékou Touré...
Sem ter a ver com isto, mas não resisto a publicar, com a devida vénia, esta foto que vem no livro do Prof. Julião Soares e que se refere ao estudante de agronomia Amílcar Cabral. Porque o autor do "boneco" é também uma figura muito conhecida:
Pelos livros do caricaturado, vê-se que o amigo Sousa Veloso identificou bem a figura do já intelectual e do revolucionário em perspectiva.

1 de julho de 2011

210-Justiça de "Iran"

ENVOLVIDO no seu «nhome» (1), feito de bocados de banda tinta, «Inquilina Nheo», detentor de inúmeras e gordas vacas e de extensas «bolanhas» (2) em Jugudul, aguardava deitado na «m'tara» (3), de lama batida, que a ténue claridade da madru­gada lhe anunciasse no quarto escuro, através de uma frincha da porta, a hora de se levantar. Entretanto, revia em pensamento todos os detalhes da cerimónia realizada na tarde anterior, para que o «Iran» da tabanca concedesse ao chão o benefício da chuva.
Desde a lua passada, quase não chovia em Jugudul. Os balantas anteviam desanimados mais um ano de fome. A situação era aflitiva. Muitos tinham os seus «bembes» (4) já esgotados e, à falta do suculento arroz, devoravam a «tchira» (5) crua, furtada nos mandiocais dos fulas e mandingas, e a «m'baka» (6) de folha tenra, colhida no mato. Aban­donar a «botche» (7) ingrata e procurar no chão dos nalús melhores con­dições de vida era a única solução. Catió, com a regularidade das suas chuvas e as suas inúmeras e ubérrimas «bolanhas», era a Terra da Pro­missão - a sonhada «f'tock»(8). Para lá se dirigiriam!
Os velhos, mais apegados à terra, reunidos debaixo de um poilão, decidIran propiciar «Iran». Uma gorda cabra fora imolada e o «jam­bacosse» (9), executando um rito, que encerrava em si toda a Liturgia, mais uma vez demonstrara que sem o sangue da cabra, as fórmulas tra­dicionais, as suas palavras sibilinas e as libações habituais, «Iran», amuado na sua cabana minúscula, continuaria indiferente aos sofrimentos huma­nos. Quando o cerimonial terminou, logo pesadas nuvens cobrIran o céu. Mas as nuvens teimavam em não desfazer-se em chuva. Então «Iran», enfurecido, brandindo o seu chicote de fogo, desancou-as tanto que elas, esfarrapadas, tombaram em torrentes clamorosas, encharcando os cam­pos e inundando as «bolanhas».
Pela frincha da porta, a ténue claridade da madrugada entrou no quarto escuro de «Inquilna», como a dar-lhe os bons dias. Este, apalpando o rebordo da «rn'tara», num movimento rápido de pernas, levantou-se; distendeu os braços compridos e bocejou ruidosamente. Depois, revol­vendo os brônquios, arrancou um escarro medonho e atirou-o sobre a lama da parede; num passo alcançou a pequena porta de poilão, abriu-a e esgueirou-se para a «tchingira» (10), que serve de varanda.
Fora, uma chuva miudinha borrifava o cercado da morança. Um suíno enfezado, de cerdas duras, atascava-se grunhindo junto de um monte de lixo.
- «Cumba ia na buha» (11) - exclamou, dirigindo-se à sua mulher «Kanhe», que acabava de sair de outro quarto. - Todas as manhãs vejo o porco fora. Qualquer dia o animal desaparece, roubado pelos «bulu­fos» (12) ou comido pelo lobo.
«Kanhe», com as suas vinte e quatro chuvas, rosto violáceo, com pe­quenas malhas vermelhas nos lábios ulcerados, peitos alongados, em forma de papaia, pela continua função maternal, era a mais velha das três mulheres de «lnquilina». Cabia-lhe, por isso, a direcção da labuta doméstica; e no uso desse privilégio, que a tradição lhe concedia, desfor­rava-se das tribulações sofridas na passada mediocridade, distribuindo pelas outras duas consortes o moirejo da comunidade conjugal. «Nhara», a segunda mulher, fora criada e vivida nos faustos da corte de «Mona», poderoso régulo de Mansoa, com quem depois casara. Acostumara-se a uma vida de opulência, à moleza dos dóceis e prolongados ócios, toda entregue ao luxo dos panos, das arrecadas, dos braceletes e das contas. Em vida de «Mona», já casada, tivera impúdicos «flirts» com os «bulu­fos» da região. Nos seus devaneios adulterinos, conhecera «Inquilina», que se lhe mostrara pujante de lascívia e erotismo másculo. Desvairada, fumegando de volúpia, como cadela acicatada por cio, o desejara depois sofregamente. O marido ultrajado interrompera violentamente estas liga­ções amorosas. Falecido, porém, «Mona», não obstante ser de casta «cunante», introduziu-se no lar de «Inquilna», cumpridas as praxes ma­trimoniais que o costume da tribo impunha. «Sabu», a terceira mulher, entrara na comunidade conjugal, sem excentricidade, pela porta banal da união vulgar, que a crescente prosperidade do chefe de família per­mitia e a própria economia doméstica aconselhava.
As três esposas viviam em aparente harmonia. No fundo, porém, as dissemelhanças de castas, de hábitos e de temperamentos separavam «Kanhe» de «Nhara». Aquela, balanta genuína, considerava a «cunante» uma intrusa e não perdia ensejo de diminui-la no conceito do marido, exagerando as suas faltas e desmazelos. «Nhara» era sempre culpada, quando havia em casa falta de água ou de lenha, quando o chão e o quintal estavam sujos ou quando a comida não era preparada a tempo e com esmero.
«Kanhe», como esposa principal, destinava à «cunante» as ocupações mais penosas, em especial aquelas que mais incompatíveis eram com os seus hábitos cortesãos de outrora. Mas «Nhara», recalcando o desgosto que sentia, briosamente enfrentava a situação, para não quebrar a harmonia familiar.
Naquela manhã, ao ouvir a censura do marido, «Kanhe» voltou a acusar a «cunante», atribuindo-lhe o descuido de não fechar convenien­temente a porta do aprisco :
- «Nhara maka doga Cumba»(13). Se o porco desaparecer é «Nhara», pois, a culpada. Não sei que vantagem houve em casares com ela. Não é da nossa casta e entende dever levar aqui a vida ociosa a que se habituou com O primeiro marido. Está intolerável! Agora deixa o tra­balho da casa para procurar companhias em Sugune. Ainda ontem a vi dirigir-se para lá. Quer talvez novas emoções.
A insinuação pôs em sobressalto o coração de «Inquilina», que viu nas saídas da mulher a repetição das aventuras que com ele tivera em vida de «Mona». Lembrou-se de que há muito não ia ao quarto dela, não obstante ter já passado o período da amamentação do primeiro filho, durante o qual, segundo o uso, lhe fora imposta a continência sexual. Agora, porém, não se sentia com vontade de procurá-la. No estado de espírito em que se encontrava, dominava-o apenas a ideia de castigá-la duramente. Mas primeiro queria provas e essas dar-lhas-ia, decerto, o «Iran» da morança, por intermédio do «jambacosse», através de qualquer facto que ocorreria.
Notando a atitude meditativa do marido, «Kanhe» insitiu:
- «Hidma matche dôful kit-ânhe» (14). Só a vejo cá fora quando o Sol vai alto.
Parara de chover. «lnquilina», sem nada responder, abandonou o «flit»(15) de poilão em que se sentara e saiu da palhota, enquanto «Kanhe», arrancando da «cancra»(16) uma mancheia de palha, ateava o lume do fogão para preparar a «sofum inglute»(17).
Fora do cercado, alinhado em pequenos camalhões, por entre carreirinhos que davam acesso às moranças vizinhas, estendiam-se como veludo verde os viveiros de arroz. A acção benéfica da chuva revivificara as plantas, modificando completamente o seu aspecto doentio e amarelento da véspera. Aqui e além, balantas de corpo nú, accionando os arados es­palmados, abriam na terra amolecida novos regos. Em lenta ascensão, saíam através da cobertura de algumas choças alvacentos fumos. Numa toada sonora, os galos da tabanca cantavam à porfia, anunciando o alegre dealbar da manhã. De mistura, ouviam-se o flebil coaxo dos batráquios e o bater seco dos pilões. Pouco mais além, nateiros viscosos em quadri­láteros acompanhavam as margens tortuosas do rio Mansoa, escondendo nas entranhas o segredo da sua fecundidade. Para traz, por entre frondosas calabaceiras, coleava a estrada avermelhada de Enchalé. Numa vereda que saía do mato e que ia dar a Sugune, caminhava em passo lento uma mulher com o torso descoberto, trazendo às costas uma criança embolsada num pano, que lhe envolvia os flancos e terminava em nó no ventre. «Inquilina» pareceu reconhecê-la, porque, firmando a vista, es­tacou.
- Será possível? - disse consigo. - «Nhara», sua mulher cunante, àquela hora fora? Donde viria? - Uma suspeita atroz lhe iluminou o pensamento. A desavergonhada vem de Sugune, depois de passar a noite com o amante! Veio-lhe a tentação de avançar para ela e desancá-la ali mesmo; mas reprimiu o desejo e preferiu esperar. Não! O seu «Iran» lhe ofereceria melhor oportunidade! Tinha de saber primeiro quem era o amante.
A mulher, no mesmo passo, entrou apreensiva no cercado da morança.
Batia Sol já quente no «kufé»(18), àquela hora cheio de galináceos esgaravatando a terra, quando «Inquilina» voltou à sua palhota. As três esposas, sentadas em baixos «flits», meio acocoradas, esperavam o seu regresso, para iniciar a «sofum inglute», Todas, com os seus «nhomes» azuis, ao gosto predilecto da mulher balanta, mostravam com natural im­pudência a curva macia das coxas, quase até à virilha. «Kanhe» ocupava-se a dar ao filho sobrevivente (aos três que já tivera) uma papa de arroz e leite azedo, que é a refeição matinal da tribo. «Nhara» trazia o filho ao colo, reflectindo no rosto um profundo abatimento. «Sabu», ostentando o seu corpo ainda adolescente, cobria os seios formosos e tersos com os braços em cruz.
«Inquilna» sentou-se na superfície côncava doutro «flit» e pediu «sofum», lançando um olhar perscrutador a «Nhara», Foi esta quem com uma pequena colher de madeira lhe serviu a papa num cabaço la­vado, porque «Kanhe» se queixou dos seus dedos nodosos, cada vez mais trôpegos e túmidos.
 - «Mbida litma uoma sume» (19) - disse-lhe «Nhara» compungida.
Não sei o que a criança tem. Desde ontem arde em febre.
- Eis o aviso, a esperada prova! - pensou «Inquilina». Apressou-se, pois, a dizer-lhe que logo depois de comer chamaria o «jambacosse», para inquirir da causa do mal. E, alto, insinuou:
- Ninguém escapa à justiça de «Iran»!
«Kanhe» sorriu, adivinhando o significado da insinuação, mas «Nhara», mantendo a mesma expressão inicial de abatimento, recebeu a advertência com humílima tranquilidade.
Daí a uma hora, diante do barrete místico do «jambacosse» e da minúscula cabana, onde repousa o «Iran» omnipotente, com devota un­ção,. ambos aguardavam o temeroso arbítrio: ele, convicto da responsa­bilidade criminosa da mulher, e ela, vergada sob o peso do desgosto que a afligia. «Kanhe» e «Sabu» tinham ido a Mansoa comprar tabaco. A criança gemia ao lado, contorcendo-se de dores.
A simbólica cauda de vaca agitou-se na mão esquerda do «jambacosse», que lançou no ar faiscante da manhã as suas palavras sibilinas. «Aulé! Aulé!» - repetia a cada espaço, salpicando de arroz cozido a terra húmida da morada divina.
- «Úi mbê udó tão?» (20) - interrogou, por fim.
E, após uma curta pausa, face virada para o infinito, como quem escuta :
- «U'ol ka pã». (21). Alguém pretende arrebatar-lhe a alma. A criança está em perigo!
«Inquilna» ficou perplexo. Esperava outra notícia. Aferrado à sua ideia fixa reflectiu: Deve ser ela a feiticeira que pretende matar o pró­prio filho, para ficar com os movimentos livres.
- «Iama oté tãi ulômes?» (22) - perguntou alvoroçado.
Nova interrogação mística do «jambacosse» e a resposta foi pronta, decisiva:
- Não! A Mãe está inocente.
Abruptamente, ali mesmo, quis saber:
- «Nhara», o que foste fazer ontem a Sugune?
- Fui buscar leite à casa de «Fuma».
- E hoje, de onde vinhas de madrugada?
- Vinha do mato, aonde fui buscar «masse» (23), para dar ao meu filho.
- E não viste o porco no quintal?
- Fui eu que lhe abri a porta.
- ... ?
- É a primeira coisa que faço quando me levanto. Depois, vou buscar lenha e água para o consumo da casa. Acordo sempre muito cedo, quando ainda está tudo escuro.
«Inquilina» estava aniquilado, pesaroso de ter injustamente descon­fiado da mulher. Agradeceu ao «jambacosse» a sua interferência salva­dora e, num tom quase de ternura, sossegou o espírito da mãe do seu filho:
- Ele ficará bom depressa, vais ver.
E, quando o «jambacosse» se retirou, recomendou-lhe:
- Nem uma palavra, por enquanto, a ninguém acerca do que nos foi revelado.
Ao meio dia foi. servida a «sofum ‘nló» (24) composta de arroz, peixe cozido e azeite de palma. «Inquilina» conversava animadamente com o seu hóspede «Nanqui Intchama», da povoação de Quenhaque, regulado de Cubontge. Como acontecia sempre que havia visitas, «Nhara» sobre­levou as outras duas mulheres na maneira fidalga como serviu o almoço e cumulou de atenções o visitante. Este, notando o seu desembaraço, elo­giou-a diante de todos e felicitou o hospedeiro por possuir tão galante e valiosa companheira. «lnquilna», orgulhoso, concordou e bendisse a hora em que a conheceu e a trouxe ao lar. «Kanhe» e «Sabu», encolhidas, mor­deram-se de inveja, mas ficaram caladas.
- Sim, é uma excelente mulher! - repetiu e «Inquilina». - Tem o filho doente e, todavia, aqui está cumprindo as suas obrigações normais.­ E lançou um olhar significativo às outras duas consortes.
 O filho doente? - interrogou o hóspede.
Sim. Parece que alguém lhe quer mal. A sua alma está em perigo.
Desejoso de lhe prestar um serviço, em recompensa das atenções recebidas, o hóspede apressou-se a declarar:
- O meu «lram» pode salvá-lo!
O rosto malhado e intumescido de «Kanhe» exprimiu certa tur­bação.
- Hoje mesmo vamos pedir ao meu «Iran» que o defenda - insis­tiu o hóspede. - Reserve um bocado de comida para lhe levar. - E con­vidou a mulher a ir com O marido e o filho doente à sua casa.
Na povoação de Quenhaque, junto da minúscula morada do «Iran» protector, se executaram os ritos habituais. Pequenas achas rodeavam o pau central que atravessava o vértice da pequena cobertura cónica e que representava o feitiço. Sobre essas achas, em que se reproduzia o poder oculto do pau central, caíram bagos de arroz, ao mesmo tempo que «Nan­qui Intchama» resmungava confusas jaculatórias, roçando a mão es­querda no débil corpo do garoto doente. O cabaço de comida foi pousado em cima das achas e novas súplicas foram proferidas. Por fim, «Nan­qui Intchama», retirando uma acha fez dela entrega a «Inquilina» e passou para as mãos da mulher o cabaço.
- Essa acha leva em si a virtude de defender o garoto - disse. - ­Diante dela a gente da vossa morança deve comer o arroz do cabaço. Quem lhe quer mal receberá logo justo castigo.
E, mais grave:
- Este «lram» não perdoa!
«Inquilina» e sua mulher despedIran-se, agradecendo ao benquisto amigo o favor prestado.
Caía o Sol de fadiga no poente, envolvendo a terra em névoas tépi­das de sangue, quando as pessoas da morança se reunIran na «tchingira» convocadas por «Inquilina». A acha protectora fora posta no canto direito da porta de entrada e, ao pé dela, o cabaço com a comida punitiva.
- Há aqui alguém que pretende matar o filho de «Nhara» - come­çou «Inquilina». - Não sei quem é. Homem ou mulher vai receber o me­recido castigo. A comida que está aí no cabaço denunciará a pessoa cul­pada. Este «Iran» - e apontou com gravidade a acha - não perdoa!
Um frémito de terror percorreu a assistência e um pesado silêncio pairou no acanhado ambiente da «tchingira».
Os mais idosos, primeiro, os mais novos, depois, um por um, leva­ram à boca um bocado de arroz. Restavam apenas as mulheres de «In­quilina». «Sabu» avançou por sua vez e comeu também. «Kanhe» apro­ximou-se vagarosamente, torcendo a boca ulcerada num rictus de con­trariedade.
- Nós devíamos ser dispensadas da prova - disse. - Estamos ao abrigo de qualquer suspeita.
- Não! - insistiu «Inquilina». - Ninguém deve eximir-se a ela. Eu mesmo comerei no fim. Nem «Nhara» será dispensada!
Os dedos nodosos e túmidos de «Kanhe» mergulharam trémulos no cabaço e alçaram com alguns grãos de arroz até à boca descorada. Ou­viu-se então um grito pavoroso de angústia. Os dedos, o arroz e bocados dos lábios caíram pesadamente no chão!
Manifestara-se na mulher a lepra mutilante!
Fernando Rogado Quintino Administrador

NOTA EXPLICATIVA: - O conto descreve aspectos reais da vida da tribo balanta. Todas as personagens são verdadeiras. Para evitar a sua identificação, deu-se nome diferente a urna delas. Ninguém gosta de ver a sua vida devassada e divulgada - nem mesmo um indígena. Para maior realce do entrecho, alguns factos foram alterados, sem que, todavia, essas alterações deslustrassem a natureza real dos mesmos. A crença nos feitiços e nos seus poderes maléficos ou benéficos está sem exageros retractada no conto. Os balantas atribuem a lepra a determinados feitiços. O «Iran», que a produz, existe de facto na tabanca de Quenhaque, regulado de Cubontge. É convicção geral de que foi ele quem inoculou a doença a vários indígenas.
o autor

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume II, n.º 5, 1947

(1) Pano.
(2) Terrenos destinados à cultura do arroz. (3) Cama.
(4) Celeiros.
(5) Mandioca.
(6) Arbusto oleráceo que cresce no mato.
(7) Terra, povoação.
(8) Fartura.
(9) Sacerdote.
(10) Beiral da palhota, utilizado como varanda.
(11) O porco saiu do buraco.
(12) Rapazes ainda não circundados
(13) «Nhara» é quem trata do porco,
(14) «Hidma” é sempre a última a levantar-se
(15) Mocho.
(16) Tecto.
(17) Refeição da manhã,
(18) Quintal.
(19) Meu filho está doente.
(20) O que tem esta criança?
(21) Há feiticeiro na morança
(22)A mãe não tem culpa?
(23) Medicamento.
(24) Refeição do meio dia (almoço).

29 de junho de 2011

209-Aspectos e tipos da Guiné - IX







Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, N.ºs 87-88, Julho-Outubro 1967

208-Amílcar Cabral (1924-1973). Vida e morte de um revolucionário africano

Professor Doutor Julião Soares Sousa
(foto: Luís Graça)
...é mesmo ele e não o Helder Proença. Aqui vai para reparar o meu erro:

115º Jantar de Amizade UNICEPE

Sexta-feira, 1 de julho de 2011, 19h45m

Amílcar Cabral (1924-1973) - Vida e morte de um revolucionário africano, livro do Professor Doutor Julião Soares Sousa“resultado de uma longa investigação para o doutoramento concluído na Universidade de Coimbra”,
será apresentado pelo Professor Doutor Armando Teixeira Carneiro, Director do ISCIA – Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração, de Aveiro
Momento musical pelo grupo CANTUS DO RIO. 30 a 40 minutos com a guitarra portuguesa (Luís Marques), guitarra clássica (Paulo Larguesa) e uma voz (António Dinis), onde serão invocados José Afonso/ Adriano Correia de Oliveira/ António Portugal/ Artur Paredes/ Carlos Paredes/ Francisco Martins/ Rui Pato/ Manuel Alegre entre outros...
Ementa: Água, sopa de legumes, bacalhau com espinafres, vinho maduro tinto Dão Quinta de Roriz, semi-frio de maracujá, café, vinho do Porto Poças. Preço: 15,00 €
Inscrições para unicepe@net.novis.pt 
ou 22 205 66 60
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(Após o jantar, cerca das 21h30, entrada livre)
JULIÃO SOARES SOUSA é natural de Bula (Rep. Guiné-Bissau). Filho de Soares Sousa e de Amélia Mendonça, licenciou-se em História pela Univ. de Coimbra em 1991. Concluiu o Mestrado em 1996, com a classificação máxima de MUITO BOM, e doutoramento na mesma Universidade em 2008, com Distinção e Louvor por unanimidade. É o primeiro guineense Mestre e Doutorado pela Universidade de Coimbra.
É Investigador no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra e Professor Convidado no Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração (Aveiro), onde lecciona a cadeira Cultura e Conflito, do Mestrado em Segurança Defesa e Resolução de Conflitos e da Pós-Graduação em Criminologia.
Tem proferido várias conferências em Portugal e no estrangeiro (Brasil, Dinamarca, França, Hungria, Espanha, Cabo Verde, Guiné-Bissau. Entre algumas das suas publicações destacam-se:
1) Amílcar Cabral (1924-1973). Vida e morte de um revolucionário africano.
2) “Os movimentos unitários anticolonialistas (1954-1960). O contributo de Amílcar Cabral”, in Estudos do Século XX, 3, Coimbra, 2003;
3) Um Novo Amanhecer, Coimbra, Minerva, 1996.
4) “Amílcar Cabral: do envolvimento na luta antifascista à manifestações de tendência autonomista no Portugal do pós-Guerra (1945-1957)”, In Cabral no cruzamento de épocas. Comunicações e discursos produzidos no II Simpósio Internacional Amílcar Cabral realizado na Cidade da Praia, 9 –12 de Setembro de 2004, Praia, Alfa Comunicações, 2005;
5) “O fenómeno tribal, o tribalismo e a construção da identidade nacional no discurso de Amílcar Cabral”, In Comunidades Imaginadas. Nação de nacionalismo em África, Coord. Luís Reis Torgal, Fernando Pimenta e Julião Soares Sousa. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2008;
6) "MPLA: da Fundação ao Reconhecimento por parte da OUA", Latitudes, Cahiers Lusophones, nº 28, 2006;
7) “Amílcar Cabral: um contemporâneo de Francisco José Tenreiro no Portugal dos anos 40/50”, in Francisco José Tenreiro: As múltiplas faces de um intelectual, Coord: Inocência Mata, Lisboa, Edições Colibri, 2010.
8) As associações protonacionalistas guineenses durante a I República: o caso da Liga Guineenses e do Centro Escolar Republicano (no Prelo, Mindelo – Cabo Verde)
9) A cisão sino-soviética e suas implicações nos movimentos de libertação em África (no prelo, Universidade da Beira Interior).

27 de junho de 2011

207-Víctor Emilio Dreke Cruz, os cubanos na Guiné

Coronel Víctor Emilio Dreke Cruz
Com Che Guevara no Congo, em 1965. É o primeiro à esquerda,
Nasceu em 10 de Março de 1937. Em 1952, aos 15 anos, portanto, quando estava na High School José Martijuntou-se a um grupo contra o golpe militar de Fulgencio Batista. Foi, depois, para a Sierra Maestra juntar-se a Fidel Castro e Che Guevara. Participou em acções armadas contra as forças do governo de Fulgencio Batista em Placetas, Báez, Manicaragua e Santa Clara. Em abril de 1961 tomou parte na luta contra a invasão da Baía dos Porcos, tendo aí sido ferido.
Em abril de 1965, o Comandante Dreke foi adjunto directo de Che Guevara, quando este esteve na República Democrática do Congo (o ano em que esteve em parte nenhuma...). Guevara escreveu sobre Dreke em seu relatório a Fidel Castro: "Ele era um dos pilares em que confiei A única razão por que não o recomendo para promoção é que ele já detém o posto mais alto". A missão terminou em novembro de 1965. Liderou, depois, uma unidade militar em Cuba que preparava voluntários internacionalistas.
Em 1966 chefiou a missão militar cubana para a Guiné. Ele próprio esteve lá até 1968, inclusive.  Segundo Luís Cabral diz na "Crónica da Libertação" esteve no norte, juntamente com um outro oficial cubano de nome Pina. Foi depois para a Guiné-Conakry com a mesma missão. Já depois da independência, voltou à Guiné-Bissau em 1986, numa missão militar também, até 1989.
Segundo o jornal Granma Internacional, de 12 de Março de 2003, foram estes os cubanos que morreram na Guiné durante a guerra: tenente Raúl Pérez Abad, Raúl Mestres Infante, Miguel A. Zerquera Palacio, Pedro Casimiro Llopins, Radamé Sánchez Begerano, Eduardo Solís Renté, Felix Barriento Laporte, Radamés Despaigne Robert e Edilberto González.