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6 de julho de 2011

217-A caserna 3 da EPI... e o "fantasma cagão"

Era um salão com alguns sessenta metros de comprido e quinze de largo, com um arco oval a meio separando-o em duas partes. A meio, numa das pontas do arco, ficava a porta de entrada, que servia de ponto de referência. À direita desta, ao fundo, na parede que limitava esse lado da caserna, ficava outra porta que dava acesso aos chuveiros e lavatórios. No lado oposto à porta de entrada havia várias janelas, literalmente cravadas nos flancos da abóbada oval da caserna, rentes ao chão, parecendo as patas de um bicho comprido de dorso arqueado. Permitia que, nos vãos assim formados, houvesse, em cada um, uma cama e um armário. Estes lugares, iluminados pela janela e com vista para o exterior - só para os telhados do convento, claro - tinham sido logo ocupados pelos primeiros a chegar. Os outros, à medida que iam chegando,  foram-se distribuindo pelas várias camas junto à parede e pelas que estavam em duas filas no meio. As camas eram metálicas e com colchões de arame, com um armário também metálico perto de cada uma.
Não foi fácil chegar até ela. A caserna 3 ficava no terceiro piso do convento. Foi necessário subir uma longa escadaria. Uma longa, larga e sólida escadaria com grandes lajes de pedra a servirem de degraus. Chegados ao cimo, andaram bem uns cem metros de corredor, também largo, parecendo forrado a pedra por baixo, por cima e pelos lados, até chegarem à tal porta que dava acesso à caserna. Em frente desta porta estendia-se outro corredor, mais pequeno que o anterior, mas grande, mesmo assim, para quem vive em casas de duas assoalhadas, ou menos. Num e noutro corredor havia outras portas além da da caserna, mas ninguém sabia nem ninguém lhes disse o que estava por detrás delas.
Os soldados-cadetes tinham sido distribuídos pelas casernas conforme a companhia a que ficavam a pertencer. Assim, a caserna 3 fora atribuída à 3ª Companhia do COM. Aí estavam o Aiveca, o Norberto, o Pais, o Simões, o Realinho, o Orlando, o Carreira e o Félix, que ficaram a pertencer àquela companhia. Isso porque estavam todos seguidos na bicha quando foram à atribuição dos números.
- "O meu pai, quando esteve na tropa, foi como soldado raso, é claro. Não passava de um trabalhador rural. Deram-lhe o fardamento todo, que não era nada igual a este, e deram-lhe também roupa interior, cuecas, camisolas e meias. Diz ele que a roupa interior era de pano cru, que até doía no corpo". O Aiveca falava a meia voz para o Pais, que estava na cama ao lado da dele. "Quando o meu pai queria vestir as cuecas de pano cru e cheias de goma tinha de as pôr em pé no chão, saltar para dentro delas e só depois as puxar para cima e apertar. Se tentava vesti-las sentado não conseguia, porque elas não dobravam".
O Pais riu-se.
- "Mas aqui não te vão dar roupa interior. Mesmo estas fardas vais ter de as pagar".
- "Pagar as fardas?! Mas como? Eu não tenho dinheiro para isso."
- "Vão-te descontar dinheiro ao fim do mês enquanto cá estiveres. Não recebes pré. Isto é, recebes um pré que te dá para beberes um café. O resto ficam com ele".
- "Mas que é isso de pré?"
- "Não sei se é esse o nome, ou se é soldo... sei lá. É o que os soldados recebem ao fim do mês".
- "E quanto é?"
- "É pá, sei lá... Para os soldados é uma merda, mas para os oficiais não é mau".
- "Então nós..."
- "Nós agora somos como soldados. O que vais receber se calhar nem chega para beberes uma cerveja. Olha, eu vou ficar bem lixado com isto tudo: sou casado, tenho responsabilidades. Guardei algum dinheiro antes de vir, até nem ganhava mal. Mas, mesmo assim vou-me ver enrascado".
"E eu? Como vai ser", começou o Aiveca a pensar. "Agora, nem os miseráveis mil e duzentos escudos da AGPL tenho...". Mas não teve tempo de ir mais longe.
- "Estou à rasca! Pessoal, vou cagar!"
Era o Realinho, em voz alta, numa cama perto. E largou rápido em direcção ao sítio dos lavatórios. Mas mais depressa voltou, muito atrapalhado.
- "Aquela merda não tem cagadeiras, só tem lavatórios e chuveiros. Quem é que sabe onde são as cagadeiras?"
- "O gajo que estava aqui disse que eram fora da caserna, ao fundo corredor ali em frente", disse o Norberto. O gajo que tinha estado ali era o faxina que acabara de fazer a limpeza da caserna na altura em que chegáramos. 
O Realinho desatou a correr porta fora em direcção ao corredor.
Isto faz-me lembrar, agora, de umas cenas que se passaram quando lá estávamos já há uns meses, não me recordo exactamente quantos.
Houve um dia em que o faxina foi logo de manhã, como era hábito, fazer a limpeza dos chuveiros. Os "nossos cadetes" já tinham marchado para a instrução, estava na hora. Quando levantou uma das grades de madeira de um dos chuveiros olhou horrorizado para as mãos. Estavam cheias de trampa!
"Filhos da puta, cagaram no chuveiro!", terá dito, como qualquer um perante aquilo. Foi fazer queixa ao comandante da companhia, o capitão Caramelo.
Este mandou reunir a companhia à hora de almoço.
- "Um dos nossos cadetes fez uma coisa muito grave, e há que encontrar o culpado. Se não, ninguém vai a casa no fim de semana!", ameaçou. 
Um sussurro perpassou pela formatura. Que terá sido?... Alguém se meteu com alguma das mulheres?... Nessa altura já todos sabiam que vários oficiais e sargentos viviam com as mulheres nos quartos da zona da caserna. Mas o capitão continuou.
- "É que alguém fez as necessidades nos chuveiros da caserna 3. É uma vergonha! Não pode ser! Fico à espera que o culpado se acuse!". Disse ao segundo-comandante para mandar destroçar.
A malta riu à fartazana. Comentou. O que é que querem!? As casas de banho estão ao fundo do corredor e, quando um gajo está muito à rasca, não tem alternativa...
Na manhã seguinte, apareceu nos chuveiros da caserna 3 uma inscrição:
E, dessa vez, o faxina teve cuidado. Mas fez novamente queixa ao comandante da 3ª do COM.
Face a isto, e como o cagão não se tivesse apresentado, a companhia foi novamente formada. Mas foi o tenente Chung, que era o segundo-comandante, quem se dirigiu à formatura.
- "O nosso capitão está tão envergonhado que não quis dirigir-se a vocês. Quer que o culpado se manifeste. Diz que não o vai castigar. Quer, apenas, que ele ponha um bilhete na caixa da companhia a dizer que foi ele".
Muito enfiado, o bom do tenente Chung (era mesmo bom, como homem e como militar) mandou destroçar. A caixa da companhia lá ficou sem nada e foram todos de fim de semana. E nunca se soube quem era o "fantasma cagão"...
Foi o Braz, que esteve em 1967/1969, como alferes da CCav1693, na Guiné, primeiro em Nova Lamego e depois em Bula. Vive agora nos EUA.

216-Aspectos e tipos da Guiné - X

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume IX, nº 35, Julho 1954

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume I, 1946

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume II, nº 5, 1947

5 de julho de 2011

215-A guerra de Geba I


 Os “presídios”, praças de pequenas dimensões e escassos meios defensivos, constituíam organizações administrativas no interior da Guiné durante o período colonial anterior ao século XX. Tal como Farim, Ziguinchor e Rio Nuno, Geba tinha um presídio. Também aqui, como em Bissau, não foi fácil a implantação do domínio colonial. Já vimos como foi em Bissau (ver aqui). Vejamos agora como conta João Basso Marques o que foi A GUERRA DE GEBA (no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, nº 001-004, 1946, não em livro, como vi algures):

«Por toda a Colónia grassavam as discórdias entre indígenas, que nem sempre acatavam a política adoptada, de meios brandos, suasórios e conciliadores.
Aqui, as questões, sempre crescentes, entre os fulas dos territórios de Joladú e Ganadú, vizinhos do presídio de Geba; acolá, a pre­meditada revolta de Mamadú Paté, de Bolola -um dos régulos do «For­reá» - acolitado por um dos seus «grandes», Mamadú Yeró, de que resultou a sua morte, depois de ter tentado, por meio de falsa conferência com O Comandante da praça de Buba, aprisionar e matar o enviado deste, alferes Moreira do Carmo; mais além, as desavenças dos povos de Antula e Intim, que mais tarde originariam uma campanha em Bissau:
No território de Geba, com o fim de demonstração do poderio e força do Governo, haviam-se já efectuado algumas campanhas - a última no período decorrido de Agosto a Setembro de 1889 - todas infrutíferas porém.
Agora, em virtude da invasão e assalto à mão armada, praticada pelo súbdito francês, Mussá Moló, chefe de guerra do senhor do chão de Fuladá - o rei Dembel- o qual, capitaneando forças consideráveis, invadiu os nossos territórios de San Cariá e Cariá, sitos entre Farim e Geba; e ainda às extorsões feitas pelo salteador Mali Boiá e aos ataques dos fulas pretos de Joladú e Ganadú (sob o comando do mesmo Boiá) aos mandingas e beafadas da ponta de Sambel-Nhantá, o major Augusto Rogério Gonçalves dos Santos, Governador da Colónia ao tempo, de­cretou o estado de guerra nos territórios da Circunscrição de Geba, nos termos de uma portaria régia de 1864.
Ia já adiantado o espírito de revolta. Mali Boiá de há muito se havia constituído em manifesta rebelião contra as determinações do Governo, praticando actos em oposição às leis e atacando povoações pacíficas.
Esses ataques consubstanciavam o seu intuito de se apoderar da margem direita do rio Geba, para melhor desferir o que pretendia con­tra a praça. Para esse efeito, com auxílio dos régulos de Chime, Badora, Corubal e Guerat, gente do Mussá e do Paté-Coiade, atacando, fazia os possíveis para expulsar daquela zona o régulo escolhido pelo Governo e pela maioria do povo, Sambem Serandim, e as famílias fieis, de man­dingas e beafadas, que residiam na já falada ponta de SambeI Nhantá.
Por outro lado, a revolta alastrava, por isso que, não obstante os vários arrolamentos minuciosos feitos às armas e munições existentes, alguns comerciantes indignos vendiam pólvora e munições aos mandingas de Bambadinca, que, em canoas de «poilão», as levavam depois aos rebeldes, aumentando assim a sua resistência.
Estes factos traziam as populações ordeiras sobreexcitadas, prejudi­cavam o comércio e constituíam risco grave para as embarcações que se empregavam no tráfego do rio.
Justificava-se, pois, o estado de guerra declarado e acção do Governo para pôr cobro a tais desmandos.
Às tropas existentes no presídio, constituídas por dois subalternos e cento e dez praças de pré, de caçadores 1 e da bateria de artilharia na Colónia destacada, se juntaram outras enviadas de Bissau.
O comando das forças em campanha foi cometido ao capitão Zaca­rias de Sousa Lage.Empregou-se o melhor material bélico existente na Colónia para lá se mandando a metralhadora «Nordenfeeld», as espoletas de granadas que acabavam de chegar, e as diversas armas Enfield existentes no depó­sito de material.Para protecção da coluna e do tráfego no rio seguiram as lanchas canhoneiras «Ave», «Flecha» e «Zagaia», respectivamente do comando dos primeiros tenentes Sena Barcelos e Santos Nunes e do segundo te­nente Álvaro Herculano da Cunha.
Dirigiram-se os primeiros ataques contra as tabancas dos territórios de Chime, Juladú e Ganadú, até chegar ao maior, efectuado em Caran­tabá.
Foi de facto este o ataque mais violento, nele se registando actos de heroísmo diversos: o cidadão Domingos de Araújo, conhecido pela «Man­camá», depois de ferido mortalmente, incitava os auxiliares, seus com­panheiros. a não abandonarem o ataque, dando-lhes assim, o exemplo da sua coragem, denodo, valentia e amor pátrio: o 1.0 tenente de bateria de artilharia, Jorge de Lucena, segundo comandante das forças em campa­nha, mesmo ferido mantinha-se em combate; o médico Sant'Ana Álvares exercia debaixo do, fogo a sua espinhosa missão; os sargentos Barros Cardoso e António Maria dos Santos, ambos feridos em combate­tendo o segundo ficado militarmente incapacitado - houveram-se também com energia e valentia louváveis.
O régulo de Ganadú e Galona Dabó, chefe de guerra dos mandingas e beafadas, tão. brilhantemente se houveram nos serviços de campanha que lhes foram ordenados, que assim conseguiram a derrota moral do Mali Boiá.
Diga-se também, prestando justiça à maioria dos comerciantes, o auxílio dado pelos negociantes de Gêba, Francisco Rodrigues e Joaquim da Costa, que, fechando os seus estabelecimentos com manifesto pre­juizo dos seus interesses e colocando-se à ordem do comando, arriscaram as suas vidas sob fogo intenso.
Os comerciantes estrangeiros, da firma Blanchard & Companhia e Otto Schacht, cederam também as suas embarcações para transporte de tropas e material d.e guerra.
Após o ataque e destruição das moranças de Batanjá, Gebará, Col­lufi e muitas outras, castigos que se infligiram aos rebeldes, muitos dos seus chefes se apresentaram solicitando perdão com deposição de armas.
Dirigiram-se os primeiros ataques contra as tabancas dos territórios de Chime, Juladú e Ganadú, até chegar ao maior, efectuado em Caran­tabá.
Foi de facto este o ataque mais violento, nele se registando actos de heroísmo diversos: o cidadão Domingos de Araújo, conhecido pela «Man­camá», depois de ferido mortalmente, incitava os auxiliares, seus com­panheiros. a não abandonarem o ataque, dando-lhes assim, o exemplo da sua coragem, denodo, valentia e amor pátrio: o 1.º tenente de bateria de artilharia, Jorge de Lucena, segundo comandante das forças em campa­nha, mesmo ferido mantinha-se em combate; o médico Sant'Ana Álvares exercia debaixo do fogo a sua espinhosa missão; os sargentos Barros Cardoso e António Maria dos Santos, ambos feridos em combate­, tendo o segundo ficado militarmente incapacitado - houveram-se também com energia e valentia louváveis.
O régulo de Ganadú e Galona Dabó, chefe de guerra dos mandingas e beafadas, tão brilhantemente se houveram nos serviços de campanha que lhes foram ordenados, que assim conseguiram a derrota moral do Mali Boiá.
Diga-se também, prestando justiça à maioria dos comerciantes, o auxílio dado pelos negociantes de Geba, Francisco Rodrigues e Joaquim da Costa, que, fechando os seus estabelecimentos com manifesto pre­juizo dos seus interesses e colocando-se à ordem do comando, arriscaram as suas vidas sob fogo intenso.
Os comerciantes estrangeiros, da firma Blanchard & Companhia e Otto Schacht, cederam também as suas embarcações para transporte de tropas e material de guerra.
Após o ataque e destruição das moranças de Batanjá, Gebará, Col­lufi e muitas outras, castigos que se infligiram aos rebeldes, muitos dos seus chefes se apresentaram solicitando perdão com deposição de armas.
Conseguira-se assim arredar para mais longe o perigo e desassossego. Entretanto, ainda que mais distante, a revolta mantinha-se.
Decorria já o ano de 1891, e a campanha que se iniciara em Dezem­bro do  ano anterior, devido à época das chuvas e a questão mais instante, em Bissau, embora não resolvesse a paz nem a completa obediência dos indígenas revoltados, houve que ser suspensa.
Realmente, em Bissau, já mesmo muito antes do início das hostili­dades em Geba, coisa grave andava no ar.
Em meados do ano de 1890 guerreavam-se, entre si, os papeis de Antula e Intim, ajudados aqueles pelos balantas de Nhacra e Cuntanga e estes pelos grumetes da praça de Bissau.
Baldados esforços empregava o Governo, aconselhando-os a que cessassem as hostilidades na guerra cruenta que entre si mantinham as referidas tribos.
Só mais tarde - alguns meses depois - o governo conseguiu os seus intuitos, através do juramento de obediência prestado pelo régulo de Antula.
Revoltado continuava ainda o gentio de Intim, cujo régulo Cumeré, despeitado pela atitude do de Antula e secundado pelos de Bandim, Bór e Enterramento, a todo momento mostrava o seu desrespeito pela auto­ridade, chegando em certa altura, armado com espingardas e pedras, ele e os seus homens, a apedrejarem polícias da praça e tentar aprisionar, para assassinar, o comandante e dois oficiais que passeavam na praça dos grumetes.
Que nisso se houve com culpa o comandante da praça, tenente-coro­nel da guarnição de Angola Pedro Moreira da Fonseca, assim se de­monstrou; acarretando-lhe tal facto a sua demissão do comando e uma censura no Boletim Oficial.
Contudo as provocações não acabavam. Agora os íncolas da praça estavam em permanente sobressalto. Os papéis de Intim, secundados pelos de Antula, que se tomaram perjuros, e escudados pelos grumetes que constituíam a sua guarda avançada na praça, matavam a tiro os sol­dados que guarneciam os baluartes da sua fortaleza.
Por força do prestígio do Governo, tão ofendido, e para mantença do ascendente moral sobre os indígenas, iniciou-se então a campanha de Bissau.
Fora ela que, conjuntamente com a impraticabilidade das operações devida à época das chuvas, motivou a suspensão da Guerra de Geba.
Como atrás se disse: arredou-se para mais longe o desassossego que os revoltosos criavam, mas não se conseguiu desbaratá-los.
Ainda que na região do presídio lavrasse paz absoluta, um pouco distante, na região vizinha de Mancarosse, os agentes de Mussá Moló faziam das suas prendendo o régulo Cambel, que depois fugiu, e matando outros que recalcitravam perante os seus abusos.
Todavia, a Guerra de Geba não deixou de constituir jornada glo­riosa da nossa penetração colonial, precursora das outras que mais tarde - em 1915 - conseguindo a pacificação dos povos da Guiné, imortali­zaram o nome do denodado e heróico cabo de Guerra, Teixeira Pinto.»
ALGUMAS DATAS (significativas das dificuldades encontradas na região do presídio de Geba):
24-VII-1843Manuel José Semedo, comandante do presídio de Geba, consegue do régulo de Badora, Mamadú Sanhá, a cedência do território de Ganjarra. 
25-V-1853Depois de ter conseguido dominar a insubordinação dos moradores do presídio de Geba, Honório Barreto regressa à Praça de Bissau acompanhado dos grandes daquele território que vinham prestar acto de obediência.
25-IX-1865 O régulo futa-fula Tudé Mussá, vencido pelos fulas, refugiou se no presídio de Geba. Avisa­ram os Fulas que entrariam nele pela força para resgatar o chefe inimigo. Porque o dever de leal­dade o obrigava a defender quem procurava pro­tecção na bandeira portuguesa, decidiu o coman­dante do presídio recusar tal proposta. No assalto que os fulas fizeram ao presídio foram rechaçados.
1-XI-1865 - O gentio de Geba ataca a praça, sendo rechaçado e pedindo a paz. O comandante do Presídio, 2º tenente de artilharia Manuel José da Silva, foi promovido por distinção ao posto imediato, por decreto de 9 de Junho de 1866, pelos relevantes serviços prestados nesta guerra.
20-XII-1880 -Foi marcada a data em que o régulo de Ganadú [zona de Geba] deveria prestar termo de juramento e obediência à bandeira nacional segundo os preceitos do seu rito.
3-VIII-1885Louvados o capitão Caetano Alberto da Costa Pessoa e o tenente Joaquim António do Carmo Azevedo, por terem restabelecido a tranquilidade no presídio de Geba e mantido o prestígio da autoridade em relação aos gentios que se lhes mostraram hostis.
6-VIII-1886Louvado o tenente Francisco A. Marques Geral­des, chefe do presídio de Geba e o alferes Manuel do Amaral Carvalho Vieira pela maneira como castigaram o chefe de guerra dos fulas pretos, Mussa Moló, tomando-lhe dez tabancas.
21-IX-1886Saiu do presídio de Geba à frente de uma expe­dição composta de 4.500 homens, sendo 80 praças de caçadores, 2 oficiais, 2 peças com os respectivos serventes e o resto constituído por auxiliares, o tenente Francisco Marques Geraldes, com o fim de bater as forças do Mussá Molo, no território de Sam Corlá [zona de Geba].
17-VII-1889O régulo de Ganadú, de nome Corrai, fez procla­mações de desobediência ao Governo convidando os seus povos à revolta. O governador Correia e Lança tomou medidas rápidas e enérgicas para enfrentar os acontecimentos. Organizada urna coluna de operações foram batidos os rebeldes e preso o régulo.
2-XII-1890Constituída uma coluna de operações contra Mali Boia, residente na circunscrição do presídio de Geba, sendo nomeado comandante o capitão Za­carias de Sousa Lage e 2.º comandante o tenente António Jorge Lucena.
9-III-1891Suspensas as operações militares na circunscrição do presídio de Geba e mandados recolher a Bissau três oficiais, dois oficiais inferiores e 160 cabos e soldados.
28-IV-1891Louvados pelas operações militares de Geba os comandantes das lanchas-canhoneiras «Flecha» e «Zagaia», l.º tenente Filipe dos Santos Nunes e 2º tenente Alvaro Herculano da Cunha. Louvado o capitão Zacarias de Sousa Lage pelos relevan­tes serviços no presídio de Geba como chefe e comandante da coluna de operações, dando inequí­vocas e sobejas provas de coragem, valor e mérito nos ataques que dirigiu às tabancas gentílicas de Joladú, Ganadú, Chime e outras.
28-IV-1891Louvados alguns negociantes do Presídio de Geba e chefes de guerra auxiliares, destacando-se Do­mingos Gomes Araújo (o Mancamá) , pela cora­gem, denodo, valentia e amor pátrio, do que foi vitima no ataque dado a Carantabá em 13-12-1890.
14-V-1891Foi estabelecido em Geba um depósito de incorri­gíveis onde deveriam completar o tempo de serviço que lhes faltasse as praças da guarnição de An­gola mandadas servir na Guiné por terem sido condenadas como desertores ou incorrigíveis.
20-I-1892Foi declarado em estado de guerra o Presídio de Geba e sua circunscrição, suspensas as garantias dos seus habitantes e considerados rebeldes todos os povos da mesma região que se reuniram ao chefe de guerra do rei Dembel de Firdú, Mussá Molô.
22-I-1892Constituída a coluna de operações de Geba contra Mussá Molô. Nomeado seu comandante o capitão Carlos Augusto de Almeida Saraiva, que faleceu dias depois, sendo substituído pelo capitão Zaca­rias de Sousa Lage.
2-III-1892Auto de vassalagem do régulo de Cabomba, Dembá Methá, de Geba.
10-III-1892Vitória das nossas forças comandadas pelo capitão de caçadores Sousa Lage sobre os rebeldes da cir­cunscrição de Geba, coroada pela entrada da coluna de operações em Gussará-Dandum, aldeia indígena fortificada considerada até então inexpugnável.
24-III-1892 Louvado o guarda marinha Joaquim Pedro Vieira Júdice Biker, comandante da lancha-canhoneira «Zagaia» pelos serviços prestados em apoio à coluna de operações  militares de Geba. Louvado o capitão Zacarias de Sousa Lage, pela maneira como diri­giu a coluna de operações militares em Geba, obri­gando os rebeldes a abandonarem a sua mais forte tabanca de guerra, Gussará Dandum, onde a coluna teve de sustentar aturada fuzilaria com o inimigo, durante 18 horas nos dias 10 e 11 de  Março.
24-III-1892Foi considerada pacificada a região de Geba pela derrota de Mussá Molô.
28-VIII-1892Foi celebrado no presídio de Geba, em presença das autoridades, o auto de vassalagem do régulo de Gabú e Forreá Mamadú Paté, que ali se apre­sentou acompanhado dos seus conselheiros.
20-I-1893Tenente Aníbal Augusto da Silva Machado Gomes louvado pela forma como desempenhou a comis­são que lhe foi incumbida de fazer a travessia de Farim a Geba com uma força militar e por ter feito o levantamento da carta dos terrenos que atravessou.
27-III-1893Auto de vassalagem do régulo de Chime, Béllar Bandi.
20-V-1903Embarcou para Lisboa a força expedicionária europeia enviada da Metrópole para submeter os rebeldes de Geba e de Bissau. Ficou na colónia a Companhia de Macuas de Moçambique.
21-XI-1907 Constituída a coluna de operações na circunscrição de Geba.
1-XII-1907A coluna de operações organizada pelo governa­dor Muzanty cai sobre a povoação fortificada de Campampe, desbarata os rebeldes partidários de lnfali Soncó, mata o régulo Dembage e estabelece as comunicações com Bambadinca.

214-50º Aniversário do início da guerra colonial

213-Entrada no COM

Às duas da tarde havia uma grande bicha de mancebos a uma das portas que dá acesso ao quartel. Tudo à civil, de malas e sacos, era evidente que se preparavam para assentar praça e frequentar o chamado 1º Ciclo do Curso de Oficiais Milicianos, isto é, fazer a recruta, tirar a instrução básica.
As portas abriram-se e eles foram entrando para um salão de traça majestosa, com mesas e cadeiras de mogno, num estilo qualquer de luíses.
- "Os nossos cadetes mantenham-se em fila e vão entrando para aquela porta lá ao fundo. Entretanto vão tirando a roupa."
Os "nossos cadetes" tinham entrado para o salão quase em silêncio, influenciados pelo ambiente de penumbra e majestade, pelo sentimento de expectativa do imediato, dado que, quanto ao futuro, estava tudo já traçado. Era ali que iriam ficar, durante alguns meses pelo menos. Alguns militares fardados, das mais variadas patentes e vários distintivos, ajudavam a dar àquele salão um estatuto de respeitabilidade para os recém-chegados.
Levantou-se um certo burburinho, em surdina, quando foi anunciado para se despirem. E houve um deles mais afoito que perguntou:
- "Temos que nos despir todos? Temos de tirar a roupa toda?!..."
- "Claro que é! Se fosse só para ver as perninhas era só arregaçar as calças... Queremos saber se têm os colhões lá no sítio e se está para aí alguma menina disfarçada!", e o militar que assim falava olhou para os cadetes com ar de poucos amigos.
- "Quando chegar ao pé daquele cabrão meto-lhe os tomates na mão para ele ver se pesam ou não", rosnou o Simões.
- "Foda-se que já estou farto de fazer strip-tease por causa desta porra da tropa!", e o Realinho começou a despir as calças.
Encontravam-se todos juntos na bicha: Simões, Realinho, Carreira, Norberto, Orlando e Aiveca. Este parecia um bocado atrapalhado, mas, tal como os outros, lá se foi despindo. O barulho, resultante de roupas e sapatos a cair, de comentários jocosos e pouco simpáticos para o tipo que tinha dado a ordem, aumentou, deixando de ser surdina.
- "Caluda!", berrou o indivíduo. "Isto aqui não é nenhuma casa de putas! Ninguém lhes disse para falarem. Os nossos cadetes agarrem na roupa e nos sapatos e pôem-se em bicha de pirilau. Ninguém sai da bicha, ouviram? Nem que esteja a ser enrabado pelo vizinho de trás."
Era um tipo de meia altura, bigodinho à passa-piolho, tão moreno que mais parecia preto. Tinha um blusão de cabedal verde, com dois galões, um largo e um estreito. Dizia isto tudo sem se rir.
Uns sorriram-se pela piada, outros remoeram palavras ofensivas e olharam-no de soslaio, mas calaram-se todos. E puseram-se em bicha... de pirilau, todos completamente nus.
- "Olha lá essa merda, pá...", e o Realinho deu com os calcanhares nas canelas do Norberto. "Chega-te para lá."
- "É pá, está descansado que eu não gosto."
Uns encavacados, outros completamente à vontade, como se estivessem a passear no jardim, foram, uma um, entrando na tal sala que ficava no outro extremo do salão, Lá encontrava-se um tipo sentado a uma secretária que olhava os recém-chegados, um de cada vez.
- "Encha o peito de ar... Faça força. Vire-se de costas."
Eram medidos e pesados. Tomava notas, dava ordem para vestirem só as calças e passava-os para outro indivíduo.
Este mandava-os sentarem-se num banco comprido, lado a lado. Vinha outro com uma data de agulhas.
- "Isto não doí nada", e, pim-pim-pim, espetava uma nas costas de cada um. Vinha outro com uma seringa enorme e dava uma esguichadela em cada um dos sentados.
- "O que é isto?", arriscou o Norberto.
- "É vacina contra todos os males. Os nosso cadetes não vão ter doença nenhuma", explicou o esguichador.
Mandaram que vestissem a camisa e passassem para outra mesa. Aí perguntavam o nome e davam um número.
- "Passem aquela porta e esperem lá fora".
Era um corredor enorme: tinha alguns cem metros de comprimento e aí uns cinco de altura. Aiveca nunca tinha visto nada assim. Em altura assemelhava-se à nave central de uma catedral. Mas, é claro, seria uma nave excessivamente comprida, como se o altar estivesse lá ao fundo, mal se vendo, e os devotos aqui, sem ouvirem o que o padre diz. De um lado e de outro havia portas de ombreiras majestosas, altas e espaçosas; havia também escadarias, de um lado e de outro, mais ou menos a meio do corredor. Tudo em pedra, em grandes blocos de pedra. No chão, grandes lajes. O mesmo nos degraus e corrimãos das escadarias. Até meia altura das paredes placas de mármore polido. No extremo onde se encontravam os cadetes, na expectativa do novo passo a dar para a sua integração, havia, a meio da parede, do lado direito, uma placa de mármore encravada no cimento e argamassa caiados que cobriam a metade superior da parede. A placa tinha gravada uma palavra francesa - "Lacouture".
- "Os "nossos cadetes", agora, agora vão tirar um curso de costura". O Realinho apontou para a placa, com uma cara muito séria, imitando o tipo autoritário e moreno que tinham encontrado logo à entrada.
Toda a malta se riu. Os cerca de trinta ou quarenta cadetes estavam todos inspeccionados. Tinham-se agrupado no princípio do corredor e estavam à espera do próximo acto. Grande parte estava já vestido novamente, alguns abotoavam os últimos botões ou apertavam o cinto ou os sapatos.
- "Este Realinho é mesmo palerma", disse o Carreira. "Isto não quer dizer costura".
- "Ouve lá, pá: pensas que eu sou algum analfabeto, ou quê?! "Couture" em franciú quer dizer costura. O meu sétimo ano ainda me deu para isso."
- "Quer dizer, mas isso aí, tudo pegado, "Lacouture", tem outro significado". O Carreira falava a sério.
- "Pois não sei, pá. Se "couture" é costura, "Lacouture" é a costura, não é? É ou não verdade?". O Realinho deu meia volta interrogando os presentes. "Tu, que és de românicas, diz lá se é ou não verdade".
Aiveca percebia que o Realinho estava a brincar com aquilo, mas também estava um bocado intrigado com aquele nome ali na parede. A verdade é que aquilo, aquele corredor, não era nada uma sala de costura. Para ele, tinha sido um alívio poder vestir-se novamente, e deixar de ser mirado e remirado, à frente e atrás. Já quando fora a primeira vez à inspecção, em Setúbal, fora a mesma vergonha. Agora, novamente. Mas, passado isso, estava satisfeito e descansado. Pensou que era melhor alinhar na brincadeira.
- "É verdade, sim senhor. Vem no Larousse, página 90, linha 69."
Foi a gargalhada geral. Aiveca riu também, de satisfação. O Carreira é que já não estava a gostar nada, pois reparou que estavam a gozar com ele.
- "Ah, grande Aiveca!", o Norberto deu-lhe uma palmada nas costas. "Dizes poucas, mas quando saem têm piada".
- "Essa da linha 69 está bem metida", o Simões ria-se apoiado ao Realinho.
- "É a melhor linha para costurar", disse este.
- "...e a melhor posição", acrescentou o Simões.
(...)
Saiu, finalmente, o último cadete da sala de inspecção. Atrás dele vinha um tipo com galões em forma de cunha nos ombros. "Deve ser sargento", pensou Aiveca, "já tenho visto aqueles galões em filmes de guerra".
- "Os nossos cadetes formem duas filas e depois venham atrás de mim. Vá, os dois primeiros aqui à minha frente. Depressa que temos pouco tempo".
As filas foram feitas, de uma forma casual e desordenadamente. O único critério era ficar junto dos agora conhecidos, das amizades acabadas de fazer.
- "Ó nossos cadetes, isto parece uma montanha russa, aos altos e baixos. Vá lá, os baixos para a frente e os altos para trás. O nosso cadete aí no meio da fila da direita... está aí escondido no meio de dois matulões... venha cá para a frente!... Vá depressa, mexam-se!
Nova mexida, confusões e barafunda. (...)
- "Assim está melhor. Escapa. Agora vamos lá ao depósito de fardamento, onde lhes será entregue a farda número um e a farda número dois, que é o uniforme de trabalho. Depois de receberem os fardamentos, os nossos cadetes esperam no corredor, que é para lhes serem indicadas as casernas respectivas. Todos perceberam?... Bem, parece que sim. Venham atrás de mim, todos em fila.
(...)
- "Isto é uma tropa fandanga. Olha-me para esta cambada de nabos, a começar por ti. Vocês,  metidos nessa merda dessas vestimentas e a desfilarem ali no meio dos saloios de Mafra deviam pô-los a mijar de rir."
Aiveca mirou-se e remirou-se e acabou por dar razão ao Pais. Era raro aquele cuja farda número um lhe estava mais ou menos a quadrar com o físico. Quase todas largonas, desproporcionadas. Ou nadavam dentro das calças ou pareciam miúdos a provar o casaco do pai.
O Pais falara assim porque se recusava a vestir a farda.
- "Eu sei que vou ter de andar com esta merda vestida, mas, ao menos, só a visto depois de a mandar arranjar quando for a casa. Não quero fazer triste figura, e ainda por cima com uma coisa que tenho de aceitar contrariado."
- "Também me parece, pá. Vamos agora andar aí feitos palhaços, é?". E o Norberto, dentro das calças, esticava uma cintura onde cabia outro igual a ele. "Eu também não vou vestir isto assim".
À roda, toda a gente concordou, de uma maneira ou doutra. Cada um deu mostras da sua figura ridícula com as fardas distribuídas pelo cabo quarteleiro aos soldados-cadetes, após fazer uma apreciação rápida das medidas do físico de cada um.
- "Isto é a olhómetro, senhor cabo?". O Realinho levantara logo esta questão ao receber as fardas.
- "O nosso cadete desculpe, mas eu não posso estar aqui a fazer provas a cada um. O melhor que têm a fazer é arranjarem alguém lá em casa que faça uns ajustamentos no fardamento".
É claro que o "senhor cabo" tinha razão, toda a gente achava que sim. Mas também todos aqueles que se sentiam ridículos achavam que não deviam passear-se com tais adornos.
Não havia grandes problemas quanto à farda de trabalho, a número dois. Era de caqui verde, calça e camisa, com um barrete esquisito, mas tá bem. O pior era a farda número um, a tal de passeio: calças e blusão cinzento, camisa e gravata, e um boné com pala dura. Esta, sim, é que os fazia ridículos, parecendo polícias mal jeitosos, balofos.
- "Os nossos cadetes têm azar. O próximo  curso, daqui a três meses, vai ter já dos novos fardamentos, verdes, calça e blusão, e boina castanha".
- "Obrigadinho, ó senhor cabo, mas isso não me serve de consolo. Os gajos não me deixam ir para casa se eu lhes disser que não gosto desta farda, e que só quero vir para a próxima."
Ninguém achou piada a esta saída de alguém do meio do grupo.
(...)

2 de julho de 2011

212-O Iran

Augusto de Jesus Santos Lima foi Administrador da Circunscrição Civil do Bijagós e foi um dos nomeados, em Julho de 1946, membros residentes do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, criado a 13 de Dezembro de 1945, antes da Revista. Este é um texto (Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume II, nº 5, 1947) crítico ao culto do iran, com um certo espírito paternalista e perspectivando modificações de acordo com as leis coloniais. Diferente do olhar interessado e compreensivo de Rogado Quintino dos costumes guineenses aqui já mostrado.

Até hoje não creio que a execução do artigo 22.° do Acto Colo­nial [ Nas colónias atender-se-á ao estado de evolução dos povos nativos, havendo estatutos especiais dos indígenas, que estabeleçam para estes, sob a influência do direito público e privado português, regimes jurídicos de contemporização com os seus usos e costumes individuais, domésticos e sociais, que não sejam incompatíveis com a moral e com os ditames de humanidade], reproduzido no artigo 246.° da Carta Orgânica do Império, tenha trazido qualquer dificuldade na prática. Nada custa a um português contemporizar com os usos e costumes indivi­duais, domésticos e sociais dos indígenas, não tanto pelas regras de uma tradição algumas vezes secular mas, principalmente, pela inclinação do seu espírito e pelo seu temperamento afectuoso. É comum o português viver para eles e, até, com eles. Em todo o caso, as disposições acima citadas marcam um limite à contemporização, isto é, irá até ao ponto em que não seja «incompatível com a moral e com os ditames de humani­dade». Ora, a moral vai tão discutida e desnudada com os climas e com as latitudes e os ditames de humanidade tão esquecidos e apagados na mente vária do homem de hoje que talvez não fosse despropositado que os nossos textos dissessem: com a moral e com os ditames da consciência da Nação. Deste modo, esse limite tornar-se-ia mais perceptível e dei­xaria de causar sérias e fundadas dúvidas a muitas centenas de nós que convivemos diariamente com o indígena.
Mas, assim mesmo, parece oportuno perguntar se a adoração e o temor do «lran», tal qual nós o conhecemos e concebemos, está de acordo com aqueles textos de lei ou se, pelo contrário e em seu nome, não temos obrigação de intervir, senão para o extirpar, ao menos para lhe reduzir a acção ao mínimo possível.
Evidentemente, a resposta é discutível. Se se considerar que o «Iran», como entendem muitos dos nossos colegas franceses, não passa de uma manifestação de carácter religioso e que os objectos que o representam não são mais do que a materialização da forma por que o concebem não há dúvida de que a sua adoração fica aquém do limite acima indicado. Neste caso, não seria de aconselhar qualquer intervenção da nossa parte.

Mas se, admitindo embora esse carácter religioso, verificamos que a sua intervenção se efectiva através de pouquíssimos iniciados (balou­beires) detentores exclusivos da sua invocação e da aplicação dos seus desígnios, num campo de acção ilimitado, em que impera o dever sinó­nimo de medo - então, a sua adoração excede o limite fixado, exigindo a nossa intervenção.
Aquele primeiro aspecto tem tido os seus adeptos, cultos embora mas de duvidosa sinceridade, que defendem uma indefinida liberdade porque, dizem, tudo tende para a civilização que ainda não sabem o que é nem qual seja a melhor.
Capciosa, esta argumentação. Em primeiro lugar, porque não há liberdade indefinida que seria sinónima de barbárie e própria do período da pedra lascada: depois, na dúvida do que seja civilização, admitem o absurdo do ponto morto na vida, donde contemplariam a desfilada para­lela de todas as tendências de todos os grupos humanos, até descortina­rem, enfim, qual se adiantara para a... adoptarem. Fantasia. Nós pensa­mos mais terra a terra.
O «Iran» é, idealmente, um presidente, carrancudo, omnipotente, omnisciente e intangível; materialmente, é um «depósito de interesses».

Com efeito, lá está ele presente no casamento, no nascimento e na morte. Não iria muito mal se ficasse por aí. Mas vai mais longe, muito mais longe. Na sementeira, na colheita, na pesca; na higiene, na saúde, na doença; no crime e na justiça; na guerra e na paz - esse «figurão» intervém sempre pela boca dos seus «baloubeiros». Conforme o interesse destes, assim aquele se manifesta. Está-se a ver, pois, que a tais intér­pretes e executores de vontades convém o mais rigoroso segredo e não convém, em contrapartida, a mais pequena alteração desse costume.
Esse «iran» decreta que se não deve semear em tal local ou em tal tempo; que aos trabalhos tais e tais se deve opor decidida resistência passiva: Cumpre-se integralmente...
A essa mortalidade infantil - de que, com razão, tanto falamos, receamos e combatemos - ele não é estranho; não há nenhuma mulher grávida que se atreva a deixar de cumprir com as «cerimónias» que ele ordena, tanto no período da gestação, como no post-natal.
E chegamos assim à conclusão de que temos nesse «fantasma» um inimigo declarado, que opõe embargos às mais breves determinações, oca­sionando paragens frequentes no caminho áspero, mas sempre ascensional do progresso das gentes incultas que nos impusemos como norma de con­duta e ponto de honra. A colonização não é apenas uma ciência; é tam­bém, arte. Temos os princípios e a tendência. O muito que havemos feito está longe ainda de atingir o ponto de saturação do nosso esforço. A tendência deste antecipou o conceito actual da valorização do homem indígena.
Exercemo-lo no combate às doenças e na vacina que, se ainda não é verdadeiramente compulsória, virá a sê-lo; na ideia que assentamos sobre as maternidades e na clínica intensiva; na higiene e salubridade; no estudo, em vias de sucesso, da sua nutrição; nas estações experimentais de agri­cultura e pecuária; nas escolas, etc...

Ora, é isto que, hoje em dia, constitui o nosso interesse. E é isto, sem sombra de dúvida, que vimos realizando, como base preliminar do vigor físico, mental e moral do indígena.
Mas... cuidado! Atrás de cada uma espreita o «Iran», com a sua corte de «baloubeiros», prontos a resistir.
E nós, que vamos fazer? A razão, a lógica e a compreensão mandam que se lhe dê combate. Esse fantasma, esse espantalho, é ou não incom­patível com a moral e com os ditames de humanidade? É ou não con­trário ao espírito daqueles textos no princípio citados? Eu entendo que sim. E os meus colegas? Se estiverem de acordo, como combatê-lo?
Atacando o órgão - Iran - ou o seu suporte - baloubeiros? Aqui está outro problema.  
Sobre ele, breve darei a minha opinião.
A. Santos Lima Administrador